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rev. hist. (So Paulo), n. 175, p. 281-317, jul.dez., 2016http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9141.rh.2016.121831

Andr Roberto de A. MachadoAs interpretaes dos contemporneos sobre as causas da Cabanagem e o papel do Parlamento

AS INTERPRETAES DOS CONTEMPORNEOS SOBRE AS CAUSAS DA CABANAGEM E O PAPEL DO PARLAMENTO

Andr Roberto de A. Machado*Universidade Federal de So Paulo UnifespGuarulhos So Paulo Brasil

Resumo

O objetivo deste artigo destacar interpretaes sobre as causas da Cabanagem feitas por contemporneos dessa revolta. O texto demonstra que muitas dessas interpretaes colocavam as aes do Parlamento entre as razes da revolta. Os prprios parlamentares julgaram que os limites de suas aes, fosse para integrar a provncia, fosse para lhe dar maior autonomia, precipitaram a revolta no Par. Tambm se resgatam interpretaes que no faziam uma associao direta com o Parlamento, como a ideia de que a Cabanagem era uma guerra de raas. No entanto, demonstra-se que, por trs de uma suposta guerra de raas, estava a tenso em torno da regulao do trabalho dos indgenas na provncia, tema no qual as aes e omisses de deputados e senadores tiveram importncia capital.

Palavras-chave

Cabanagem Imprio do Brasil Parlamento.

ContatoUnifesp Campus Guarulhos

Estrada do Caminho Velho, 33307252-312 Guarulhos So Paulo

andre.machado@unifesp.br

* Doutor em Histria Social pela Universidade de So Paulo. Atualmente professor do Depar-tamento de Histria da Escola de Filosofia, Letras e Cincias Humanas.

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THE INTERPRETATION OF THE CONTEMPORARIES ABOUT THE CAUSES OF CABANAGEM AND THE ROLE OF THE PARLIAMENT

Andr Roberto de A. MachadoUniversidade Federal de So Paulo UnifespGuarulhos So Paulo Brazil

Abstract

The objective of this article is to highlight interpretations on the causes of Caba-nagem made by contemporaries of that revolt. The text demonstrates that many of those interpretations pointed the actions of the Parliament among the reasons of the revolt. The parliamentarians themselves judged that the limits of their ac-tions, either to integrate the province or to give them larger autonomy, precipita-ted the revolt in Par. It is also rescued interpretations that did not make a direct association with the Parliament, as the idea that Cabanagem was a war of races. However, it is demonstrated that behind a supposed war of races was the ten-sion around the regulation of the natives work in the province, theme in which the actions and omissions of the deputies and senators had utmost importance.

Keywords

Cabanagem Empire of Brazil Parliament.

ContactUnifesp Campus Guarulhos

Estrada do Caminho Velho, 33307252-312 Guarulhos So Paulo

andre.machado@unifesp.br

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Andr Roberto de A. MachadoAs interpretaes dos contemporneos sobre as causas da Cabanagem e o papel do Parlamento

Em torno do Parlamento: as causa das revoltas na Regncia

Ao contrrio do que hoje se supe os conflitos armados ocorridos du-rante o perodo regencial no eram vistos por seus contemporneos como um corpo nico. A ideia de revoltas regenciais, consagrada no nosso ima-ginrio, no existia e, no Parlamento, especificamente, muitos negavam que a reforma constitucional de 1834 fosse a explicao para as insurreies es-palhadas pelo pas. Acompanhando os debates entre deputados e senadores possvel ver que esses conflitos eram compreendidos por esses parlamen-tares como acontecimentos de gravidades diferentes.

Na verdade, apenas a Cabanagem e a Farroupilha ocuparam um grande espao na agenda do Parlamento, algumas vezes monopolizando os debates por dias, ao longo de vrios anos. A Balaiada, por exemplo, apesar de ter ocor-rido em uma provncia muito mais rica que o Par, no despertou a mesma comoo entre deputados e senadores, sendo apenas algumas vezes citada.

Sobre a Cabanagem, especificamente, possvel perceber que para mui-tos homens do perodo, inclusive entre os parlamentares, decises da Cma-ra e do Senado estavam entre as causas da revolta. Hoje, para ns, esse tipo de interpretao no novidade. Ao contrrio, especialmente em explica-es historiogrficas que no esto presas a contextos provinciais especfi-cos, ainda predomina a sntese elaborada em 1855 pelo deputado e jornalista Jos Justiniano da Rocha em Ao, reao, transao.

No panfleto de Justiniano, a srie de revoltas que se espalharam pelo pas na dcada de 1830 era explicada pela vitria de uma forma de governar chamada pelo ento deputado de democrtica, em oposio ao que seria o governo da autoridade.1 Isso se traduzia na crtica de Justiniano srie de medidas tomadas pelo Parlamento desde 1827 e reforadas at 1837, perodo que Thomas Flory chamou de dcada liberal.2 nessa ocasio que preva-lece a pretenso do grupo poltico autoidentificado como liberais de pro-mover uma srie de reformas administrativas que permitissem maior des-

1 ROCHA, Jos Justiniano da. Ao; reao; transao. Duas palavras acerca da atualidade po-ltica do Brasil. In: MAGALHES JNIOR, Raimundo. Trs panfletrios do Segundo Reinado. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2009 [1855].

2 FLORY, Thomas. El juez de paz y el jurado en el Brasil imperial: control social y estabilidad poltica en el nuevo estado. Mxico: Fondo de Cultura Econmica, 1986.

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centralizao do poder de deciso no Imprio.3 Entre as medidas aprovadas na dcada liberal destacava-se, alm dos Conselhos Gerais de Provncia, a criao do juiz de paz, cargo eleito localmente e que foi progressivamente assumindo maiores poderes. Contudo, o pice dessas medidas foram as re-formas constitucionais de 1834, quando os deputados instituram as assem-bleias provinciais com poder para determinar leis locais sem a necessidade de aprovao do governo central.4

Na viso de Justiniano, essas reformas quebravam a hierarquia, abrindo espao para aspiraes democrticas, disputas sem freios na imprensa e o enfra-quecimento do poder central frente s rebeldias provinciais. Nesta descrio, o Imprio foi um tempo de paz, com seus conflitos concentrados na Regncia e provocados pelo equvoco das reformas liberais produzidas no Parlamento.

patente a fora, at hoje, de escritos produzidos no sculo XIX por agentes polticos como Justiniano, tomados na maior parte das vezes sem uma crtica ao seu posicionamento nas disputas daquele tempo.5 A fora do modelo explicativo construdo por Justiniano visvel em livros para pbli-cos amplos, como manuais didticos. Mesmo em um dos clssicos da nossa historiografia, O Tempo Saquarema, apesar das crticas a Justiniano, incorpora-se a ideia de que s os conservadores poderiam por fim s revoltas espalha-das pelo Imprio, uma vez que estes no estavam comprometidos com um discurso da igualdade e, sim, com o de um Estado centralizado e hierrquico.6

Em razo da grande disseminao desse modelo explicativo, chama a ateno o contraste com as obras especializadas no estudo da Cabanagem.

3 Srgio Buarque questiona de maneira muito inteligente a associao que se costumou fazer no Imprio entre liberais e descentralizao. HOLANDA, Srgio Buarque de. A herana colonial sua desagregao. In: Idem. Histria geral da civilizao brasileira, tomo II O Brasil monrquico, vol. 1 O processo de emancipao. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1997.

4 Entre outros, veja DOLHNIKOFF, Mirian. O pacto imperial: origens do federalismo no Brasil. So Paulo: Globo, 2005; SLEMIAN, Andra. Sob o imprio das leis: Constituio e unidade nacional na formao do Brasil (1822-34). So Paulo: Hucitec / Fapesp, 2009; MACHADO, Andr Roberto de A. As reformas em sentido federal. A atuao dos representantes do Gro-Par no Parlamento e as expec-tativas na provncia em torno do Ato Adicional. Revista Estudos Amaznicos, vol. 4, n. 01, 2009.

5 Sobre isso, veja entre outros MARSON, Isabel Andrade. O Imprio da revoluo: matrizes interpretativas dos conflitos da sociedade monrquica. In: FREITAS, Marcos Cezar de (org.). Historiografia brasileira em perspectiva. So Paulo: Contexto, 1998; DOLHNIKOFF, Mirian. Represen-tao na monarquia brasileira. Almanack Braziliense, n. 09, So Paulo, 2009; GUIMARES, Lucia Maria Paschoal. Ao, reao e transao: a pena de aluguel e a historiografia. In: CARVALHO, Jos M. de. Nao e cidadania no Imprio: novos horizontes. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 2007.

6 MATTOS, Ilmar Rohloff de. O Tempo Saquarema: a formao do Estado imperial, cap. 2. 5 edio. So Paulo: Hucitec, 2004.

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Nos ltimos anos, Magda Ricci e Luis Balkar Pinheiro tm produzido exce-lentes snteses sobre a historiografia da Cabanagem, de maneira que no faria sentido aqui retomar as interpretaes sobre essa revolta.7 No entanto, para os objetivos deste artigo importante ressaltar que, de modo geral, as razes da Cabanagem so enfocadas em causas locais, com pouca ou nenhuma co-nexo com a poltica imperial e, sobretudo, com as disputas especficas da Regncia.8 Sobre o Parlamento, predomina o silncio. Nas obras mais recen-tes, as