AS EXPOSIÇÕES DE MUSEUS DE CIÊNCIAS INVENTAM ?· RESUMO: Dialogando com campo dos estudos culturais…

Download AS EXPOSIÇÕES DE MUSEUS DE CIÊNCIAS INVENTAM ?· RESUMO: Dialogando com campo dos estudos culturais…

Post on 10-Nov-2018

214 views

Category:

Documents

0 download

TRANSCRIPT

  • 3069

    IX CONGRESO INTERNACIONAL SOBRE INVESTIGACIN EN DIDCTICA DE LAS CIENCIAS

    Girona, 9-12 de septiembre de 2013COMUNICACIN

    AS EXPOSIES DE MUSEUS DE CINCIAS INVENTAM CULTURAMENTE OUTROS MUNDOS NATURAIS?Antonio Carlos Rodrigues de AmorimFaculdade de Educao e Laboratrio de Estudos Avanados em Jornalismo Cientfico da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

    Martha MarandinoFaculdade de Educao da Universidade de So Paulo (USP).

    RESUMO: Dialogando com campo dos estudos culturais das cincias e da filosofia da diferena, neste texto escolhemos focar algumas exposies de museus de cincias de diferentes pases em que se privilegiam temticas relacionadas natureza. A partir de uma breve descrio do jogo dos sentidos culturais que operam tendo como base o realismo da representao e o regime de crena na narrativa, apresentamos destaques da participao ativa e interessada das exposies na produo de discursos que interpelam os visitantes dos museus a tomarem posies identitrias engendradas em relaes de poder marcadas por ideias de natureza harmoniosa, esplendorosa, desordenada e espetacular. Destaca-mos o papel poltico das pedagogias culturais, no contexto social de museus de cincias, em processos de fabricao de realidades e questionamos suas potencialidades a se abrirem s diferenas.

    PALAVRAS-CHAVE: estudos culturais das cincias, linguagem, artefato expositivos, diferena, repre-sentao.

    APROXIMAES AO TEMA

    Tornar as cincias algo pblico (feito para/pelo/com o pblico) uma ao considerada fundamental e atravessa as discusses sobre a democratizao do conhecimento. A divulgao e a comunicao cien-tficas aparecem fortemente associadas s possibilidades de tornar o pblico cidado e ampliam-se, nos pases iberoamericanos, cada vez mais os espaos-tempos destinados s C&T nas mdias.

    Segundo Martins (2011), ainda na contemporaneidade, uma das especificidades dos Museus e Centros de Cincias o fato de se apresentarem como espaos potencialmente relevantes para que as comunidades escolares, universitria e pblico em geral possam interagir com dimenses distintas das cincias e das tecnologias permitindo alm do conhecimento, acesso a critrios de avaliao dos impactos sociais dessas reas, seus diferentes valores, por exemplo, ticos, assim como as relaes entre os diversos aspectos das cincias, bem como as relaes com outros campos do conhecimento como as artes, configurando espaos pblicos das cincias.

  • 3070 IX CONGRESO INTERNACIONAL SOBRE INVESTIGACIN EN DIDCTICA DE LAS CIENCIAS (2013): 3069-3074

    Este texto tem como objetivos apresentar algumas problematizaes derivadas do desenvolvimento de projetos de pesquisa1, em que ocorreu o dilogo com instituies museolgicas2 da Espanha, da Inglaterra e da Holanda, alm da anlise de condies especficas do trabalho educativo em museus de histria natural e centros de cincias brasileiros.

    Do ponto de vista social, motivo principal das discusses neste Simpsio, inicialmente focaremos o papel da educao nessas instituies. Mesmo organizada em setores, projetos, sees, em equipes de profissionais, etc., a educao no a tnica central nas atividades e exposies nos museus visitados. Essa no uma concluso bvia e nem evidente: a educao, por seus praticantes, encontra formas alternativas de acontecer nestes espaos, em geral, na periferia do que significa a visita aos espaos e interaes com os objetos e exposies.

    Na construo das exposies, em seus projetos de exibio, a educao no um campo que con-segue estabelecer relaes de fora e de poder que favoream sua expresso, em intensidades distintas daquelas que poderiam ser advindas da educao em cincias ou da educao tecnolgica, ou dos pro-cessos de cognio e aprendizagem baseados em teorias psicolgicas menos arrojadas.

    Quero destacar dois aspectos para reflexo. Inicialmente, a relao entre Educao e Cincias nos museus perifrica e no de fronteiras, pois algumas discusses que advm do campo da Educao, em especial as que relacionam Esttica, Comunicao e Cultura, no deixariam intacta a apresentao de Cincia pelo Mtodo Cientfico e pelas ideias de Positividade e Neutralidade da Cincia, advinda dos significados escolhidos para apresentar os conceitos cientficos em vrias das exposies que foram analisadas. No caso dos Museus de Histria Natural (tanto o da Inglaterra quando o da Holanda), a existncia de Centros de Investigao consolida a concepo de Educao submissa concepo de Cincia; isso no quer dizer que no ocorram fugas, na interao do pblico com estes materiais, desta contextualizao fortemente enquadrada no mtodo cientfico. No caso do Museu de La Ciencia de Barcelona, a Educao cria interfaces com questes das Cincias, como discusses de gnero e respon-sabilidade social, em outras atividades, mas no na exposio, marca identificadora de um museu. Mas, em aes deste tipo, as fronteiras dos conhecimentos cientficos e de suas prticas podem ser exploradas e apresentadas ao pblico, pontualmente, esporadicamente e no materializadas em uma metodologia ou em objetos de exposio.

    Outro aspecto que destaco refere-se utilizao de diferentes linguagens na organizao das exposi-es e seu potencial de desestabilizar questes relativas ao real, ao virtual, ao imaginrio e ao subjetivo.

    De uma maneira geral, h uma tendncia que est sendo enfatizada, em termos educativos, de apostar na interatividade por formas mais participativas, e menos contemplativas, gerando situaes que as reflexes das pessoas possam ser externalizadas ou mesmo modificadas na relao com resoluo de problemas, na anlise de variveis de um modelo de explicaes cientficas, na relao entre estticas cientficas e artsticas, dentre outras.

    Tambm importante destacar que as linguagens, especialmente multimiditicas, carregam seu potencial de espetculo, o que atrai o pblico, o entretm; e um dos desafios que tem sido enfatizado na literatura da rea o estabelecimento de relaes dessas caractersticas com a aprendizagem dos con-ceitos cientficos. Chama a ateno como essas formas de apresentao e seus potenciais de interao mais ativa com o pblico tambm redimensionam e so capazes de tratar de aspectos das cincias e tecnologias que exigem outros tipos de racionalidades que no so capturadas pelo texto escrito, pela

    1. Por entre cincias, divulgaes e comunicaes: as configuraes polticas de cultura e de pblico. Financiado pela Fapesp e FINEP a partir de 2010. Coordenao: Carlos Vogt e Susana Dias. Educao No Formal em Biologia: estudo sobre a prxis educativa nos museus de cincias, financiado pela Fapesp e CNPq entre 2004 - 2006. Coordenao: Martha Marandino.2. Museu de Zoologia da Universidade de So Paulo (2005), Natural History Museum of London, Londres, Inglaterra (2003 e 2006), Science Museum, Londres, Inglaterra (2003), Museo de la Ciencia, Barcelona, Espanha (2005 e 2009), Na-turalis, Leiden, Holanda (2005), Jardin dAclimatation , Paris, Frana (2006).

  • 3071IX CONGRESO INTERNACIONAL SOBRE INVESTIGACIN EN DIDCTICA DE LAS CIENCIAS (2013): 3069-3074

    palavra oral e pelo roteiro nico e linear de caminhos pela exposio. Interatividades que exigissem o dilogo com um campo das sensibilidades e das subjetividades do pblico.

    As exposies museogrficas de cincias, como uma dupla entrada do potencial social - educativo e de linguagem dos museus e centros de cincias tm sido problematizadas no marco terico do campo dos estudos culturais das cincias (Wortmann, 2001; Rouse, 2011). Esse campo de estudos apresenta um conjunto de questes que, em geral, desestabilizariam os sentidos de cincia e tecnologia mais veiculados e que por vezes ganham tonalidades de hegemonia nos museus e centros de cincias. Particularmente por se tratar de artefatos culturais, os objetos expositivos em museus e centros de cincias podem ser pensados analtica e interpretativamente com produes discursivas nas linhas dos estudos culturais e da denominada filosofia da diferena. importante destacar que so categorias importantes para ambas as linhas analticas: a representao cultural, as relaes entre identidades e di-ferenas, as anlises dos efeitos de poder e de controle que os discursos organizam/desorganizam (Hall, 1997). Tais categorias caracterizam-se pelas potencialidades de indicar a hibridizao (Gonsalves, Gale e Salter, 2012) dos discursos que materializam os objetos expositivos.

    Neste texto, metodologicamente escolhemos os objetos expositivos como uma das expresses dos discursos e, com eles, olhar para a educao em cincias nossa opo, porque teoricamente nos per-mitem explorar alguns conceitos da filosofia da diferena de Gilles Deleuze e que pensamos so bas-tante imaginativas para gerar leituras que contestem os papis do discurso como narrativa, expresso do conhecimento/cognio e como um jogo de sentidos entre sujeitos e objetos.

    Adentraremos, neste texto, em algumas relaes dos objetos expositivos com o realismo da represen-tao e com o regime de crena na narrativa.

    RESULTADOS E CONCLUSO

    Cincia, Imprio e Espetculo

    A partir, em especial, da entrevista com os pesquisadores do Museu de la Cincia, em Barcelona, antes da abertura do museu (Cosmocaixa) ao pblico, encantei-me com o bosque inundado. (http://obraso-cial.lacaixa.es/nuestroscentros/cosmocaixabarcelona/bosqueinundado_es.htm)

    En CosmoCaixa Barcelona encontrars la reproduccin exacta de un trozo de ms de 1.000 m de bos-que inundado de la selva amaznica brasilea. Podrs explorar no slo la parte inundada sino tambin su relacin con la tierra firme. Disfrutars tambin de la visin subterrnea, la area, la lluvia tropical..., todo, integrado en medio de la flora y la fauna tpicas de la zona. (extrado do site)

    A descrio do que viria a ser o bosque inundado remeteu-me a vrias imagens. Algumas delas associamos, no ano de 2004, antes de vermos o que realmente o bosque, com algumas passagens do filme Vatel, um banquete para o Rei (Roland Joff, 2000) em particular a ideia do espetculo que tendo a natureza como cenrio, constri dentro da prpria montagem cenogrfica, um teatro do simulacro, intensificando-se seus sentidos de cpia fiel e mais significativa que o prprio real. O bosque inundado representao da selva amaznica brasileira veiculador de um conjunto de sentidos culturais de natureza em que harmonia, beleza e maravilhamento so os fios mais pulsantes. Speglich (2009), ao analisar materiais brasileiros de divulgao cientfica sobre biodiversidade aponta e discute esse conjunto de sentidos, argumentando que so matizes da durao temporal (passado-futuro) das cincias biolgicas que, no tempo presente, distanciam-se da histria natural. pela via dos processos de subjetivao dos visitantes, que se deparam no bosque inundado com um questionamento de seu pertencimento ou no quele tipo de natureza, que as cincias biolgicas, naquele objeto expositivo, ganham atualizaes de seus sentidos culturais.

  • 3072 IX CONGRESO INTERNACIONAL SOBRE INVESTIGACIN EN DIDCTICA DE LAS CIENCIAS (2013): 3069-3074

    Imagem 1. Fotografia do Jardim de Aclimatao, Paris, 2006.

    notvel a relao entre a ideia do Bosque inundado, em um museu de cincias, e o Jardin dA-climatation de Paris, Frana. Primeiro parque de atraes da Frana inaugurado em 1860, pelo im-perador Napoleo III, foi imaginado pelo Baro Haussmann imagem dos parques ingleses com um toque muito mais cientfico. Destacamos a relao com o espetculo e o extico e as relaes de poder e controle que arregimentam sentidos a respeito da flora e fauna do Brasil no artefato cultural Bos-que Inundado - e tambm de Nao. Discutiu-se, em Amorim (2009), essa recorrente relao entre natureza e nao na exposio temporria Brazilian Nature - Mystery and Destiny, ocorrida no Museu Botnico, em Berlim.

    A poltica da representao da natureza brasileira tanto pelo vis dos naturalistas europeus quanto do museu de Barcelona gira numa dimenso temporal de continuidade de inventrio da maior biodi-versidade do planeta.

    Desordens

    O mundo no tem ordem visvel e eu s tenho a ordem da respirao.

    Deixo-me acontecer.Clarice Lispector. gua Viva, p. 24.

    Desde os textos fundadores do campo dos estudos culturais, tais como o de Lenoir e Ross (1996), tem sido destacado o papel das exposies como dispositivos pedaggicos que, ao mesmo tempo, co-municam e nos identificam: ou seja, a pergunta sobre a quem se destina a exposio fundamental, e as respostas s podem ser encontradas se considerarmos os contextos culturais da sua apresentao.

    A ideia de desordem da/na/com a natureza, nesta seo do texto, ser apresentada dialogando com as imagens fotografadas e filmadas do espao do Museu de Zoologia da USP e com as oficinas a res-peito de classificao zoolgica.

  • 3073IX CONGRESO INTERNACIONAL SOBRE INVESTIGACIN EN DIDCTICA DE LAS CIENCIAS (2013): 3069-3074

    Entrando por entre algumas imagens registradas no MZUSP e parando em algumas delas, poss-vel pensar a forma de organizao e expresso da histria natural neste espao educativo, fazendo uma associao com imagens registradas de outros museus de histria natural da Europa, em especial o Naturalis, na Holanda e a proposta de ao educativa do Natural History Museum de Londres, que se respalda em organizar, dentro dos critrios da sistemtica, os seres vivos que so exibidos em vitrines e dioramas.

    A correlao com a desordem da natureza, nesses trs contextos museogrficos, pode nos dar pistas a respeito da aprendizagem das atividades realizadas no museu e/ou expressas na forma de organizao espacial. Ou seja, auxiliar-nos- a pensar a quem se destinam as exposies.

    Imagem 2. Fotografia de Oficina no MUZUSP, So Paulo, 2005.

    Imagem 3. Fotografia de Setor do Museu Naturalis, 2005.

    Para provocar uma aproximao analtica, focamos o resto ou o que fica de fora da classificao. As formas de pensar a desordem na apresentao dos animais e plantas nos museus Naturalis e Natural History of London so linhas de extenso para se pensar o que o MZUSP faz. Nesses trs museus, podemos indicar o papel do processo de recontextualizao pedaggica a que se refere Martins (2011). Trabalha-se na tenso entre ordem e desordem da natureza, criando, para cada um dos museus, as diferentes identidades pedaggicas de natureza a que os visitantes podero acessar.

    A diferena nesse processo reside no quo distante se trabalha, em termos de aprendizagem, entre a representao museal da organizao da natureza e os efeitos de realidade que circulam por entre as

  • 3074 IX CONGRESO INTERNACIONAL SOBRE INVESTIGACIN EN DIDCTICA DE LAS CIENCIAS (2013): 3069-3074

    linguagens dos seus aparatos expositivos (atividades, simulaes e dioramas). Ir ao seu encontro aprendizado com as sensaes produzidas pelos seus signos. Trata-se da linguagem como uma pragm-tica do aprendizado pela composio. Caberia nos perguntarmos se esses aparatos expositivos imbri-cados de cincias e culturas - podem significar uma abertura ao pensamento liberador das diferenas na linguagem tida como um composto de diferenas no totalizadas e o ponto de vista sobre o mundo que ela exprime ele mesmo uma diferena irredutvel (Almeida, 2003. p. 134).

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

    Almeida, J. (2003). Estudos Deleuzeanos da Linguagem. Campinas/SP: Editora da Unicamp.Amorim, A. C. R. (2009). Preciosidades botnicas do Brasil em exposio. Cincia e Cultura, 61 (1),

    pp. 18-19. Gonsalves, A. J, Seiles, G. y Salter, D. (2012).. Rethinking resources and hybridity. Cultural Studies of

    Science Education. 6(2). Lenoir, T. y Ross, C. (1996). The Naturalized History Museum. In: GALISON, P. y Stump, D. (eds.)

    The Disunity of Science: Boundaries Context and Power. Stanford: Stanford University Press, pp. 370-397

    Martins, L. C. (2011). A constituio da educao em museus: o funcionamento do dispositivo pedaggico museal por meio de um estudo comparativo entre museus de artes plsticas, cincias humanas e cincia e tecnologia. Tese de Doutorado: Faculdade de Educao da Universidade de So Paulo.

    Rouse, J. (2011). Cultural Studies of Science. International Encyclopedia of the Social and Behavioral Sciences, pp. 3125-27.

    Speglich, E. (2009). Durao: entre imagens do Programa Biota/Fapesp. Campinas: UNICAMP, 2009. 150 p. Tese (Doutorado) Universidade Estadual de Campinas Faculdade de Educao, Cam-pinas.

    Wortmann, M.L & Veiga-Neto, A. (2001). Estudos Culturais da Cincia e educao. Rio de Janeiro: DP&A.

Recommended

View more >