as duas faces do gueto

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~ 6A penalizao da misriaeo avano do neoliberalismoAcriminalizaoa queesto sujeitos por toda a Europa os militantesdos mo-vimentos sociais de desempregados, de sem-tetoecontraadiscriminao-como pudemos verde formaextrema nosataques promovidos pela polcia aosmanifestantes antiglobalizao em Gnova, durante o encontro doG8, no verode2001- nopodeser entendidafora do sentidoamplodapenalizaodapobreza, elaborada para administrar os efeitos das polticas neoliberais nosesca-lesmaisbaixosdaestrutura social das sociedades avanadas.As agressivas prticas policiais e as medidas deencarceramento adotadas hojeno continenteeuropeusoparteintegrantede umprocessomais amplodetransformaodoEstado, quefoi postoem marcha pelamutaodotrabalhoassalariadoe pela reversoda balana depoder, tanto narelao entre as classescomonaluta dosgrupospelocontrole doempregoe doEstado.Nessa luta, ocapital transnacional e as fraes "modernizadoras" da bur-guesia e dealtosescales do Estado, aliados sob a bandeira doneoliberalismo,ganharampoder eempreenderamumavastacampanhavisandorecons-truodaautoridade pblica. Com isso, seguem demosdadasa desregula-o social, oadventodotrabalhoassalariadoprecrio(contraumpanodefundode continuadodesempregoemmassanaEuropaede slidocresci-mentoda "pobrezatrabalhadora?"nosEstadosUnidos) eoretornodeumvelhoestilodeEstadopunitivo. A "moinvisvel" domercadode trabalhoprecarizadoconseguiu seu complemento institucional no" p u ~ h o deferro"* Issoserelacionaaocrescimentodo nmerode assalariadoscujarendasesitua abaixodalinha dapobreza oficialmente definida. (N.T.)94AsduasfacesdoguetodoEstado, quetemsidoempregadoparacontrolardesordens geradaspeladifusoda insegurana social'.Aregulaodaclasse operria peloquePierre Bourdieuchama dea "moesquerda" doEstado, simbolizadapelossistemas pblicosde educao, sade,seguridade e habitao'', foisubstituda - nos Estados Unidos - ousuplementa-da - na Europa ocidental- por regulaes a partir de sua "mo direita", ou seja,a polcia, as corteseosistema prisional, queestosetornandocadavezmaisativose intrusivosnaszonas inferioresdoespao social.A repentina e obsessivareafirmaodo "direito segurana" por destacadospolticos, tantodedireitaquantodeesquerda, aconteceaomesmotempoemqueosilenciosodesgastedo"direitoao emprego", na suaformatradicional(isto, trabalhodetempointegral, por perodoindeterminadoecom salrioadequado), e ocrescimentodosmeiosdefortalecimentolegal tornam-se teispara compensar odficit delegitimidade sofrido pelas lideranas polticas pelofatodeterem abandonadoas tarefasdoEstadonocamposocial e econmico.Dessaforma, osgovernoseuropeusestotentandominar anova legiti-midade de militantes e "minorias ativas", conquistada por meiode lutasdiriasnointerior dos movimentossociais emergentes. Com isso, tentam impedirocrescimento da mobilizao coletiva. Mais do quemeramedidarepressiva,acriminalizaodos quedefendemos direitossociais e econmicosintegrauma agenda poltica maisampla, que tem levado criaode um novo regimeque pode sercaracterizadocomo "liberal-paternalismo". Eleliberal notopo,para com o capital e as classes privilegiadas, produzindo o aumento da desigual-dade social e da marginalidade; e paternalista e punitivo na base, para com aque-les j desestabilizados seja pela conjuno da reestruturao doemprego com oenfraquecimento daproteo do Estado de bem-estar social, seja pela reconversodeambos em instrumentos para vigiar os pobres.Trsespciesdeencarceramentoe seusignificado noprojetoneoliberalColocaroinesperadoressurgimentodasprisescomopeacentral no hori-zonte institucional das sociedades avanadas, nas ltimas duasdcadas', til nosentidodenoslembrar que punir pessoas colocando-as atrsdas grades umainvenohistrica recente. Tal fatoaparececomo uma surpresa para muitos, jLoicWacquant, As prises da misria(Riode Janeiro, Jorge Zahar 2001). [Ed. franc.: Lesprisonsde la tnisre, Paris, Raisonsd'Agir, 1999.]Pierre Bourdieu, Contre-feux(paris, Raisonsd'Agir, 1998).Roy D. King e Mike Maguire (eds.), PriSOIlS in Coutext (Nova York, Oxford University Press,1998).Apenalizaoda misriaeoavanodoneoliberalismoquens crescemosto acostumadosaverpessoas presas queissonos parecenatural. A priso apresenta-se como uma organizao indispensvel e imutvel,que opera desdetempos imemoriais.Na realidade, atosculo XVIII, os lugares deconfinamento serviam prin-cipalmenteparadeterossuspeitos, ouconsideradosculpados porcrimes, queaguardavamaadministraode suassentenas, asquais consistiamemvriostipos decastigos corporais (chicotadas, pelourinho, marcas aferro, mutilao,enterramento, mortecomousemtortura), suplementadospelobanimentoepela condenao a trabalhos forados ou s gals",Scom oadventodaindividualidade moderna, a qual, supe-se, devedes-frutar de liberdade pessoal e ser dotada de um direito natural integridade fsica(que no pode ser retirado nem pela famlia nem pelo Estado, exceto em casosextremos), que privar pessoasdesua liberdade tornou-se uma punio em simesma e uma sentena criminal por excelncia. Isso se deu a um tal ponto quese tornou difcil conceber ou implementar outras sanes penais sem quepare-cessempoucoseveras. Lembrarmos que apriso umainstituiobastantejovem na histria da humanidade reiterar a idia de que seucrescimento e suapermanncia nosocoisas j definidas.Uma veztornadoa forma normativa desano criminal, oencarceramentopode preencher, simultnea ou sucessivamente, uma srie defunes. Osoci-logoClaude Paugeron'' estabelece uma distino frutferaentreoqueele cha-ma de"encarceramento de segurana", que visa a impedir indivduos consideradosperigososdecausar danos;o"encarceramentode diferenciao", destinadoaexcluir categorias sociais consideradas indesejveis; e o "encarceramento de autori-dade", cujo propsito , principalmente, reafirmar as prerrogativas e os poderesdoEstado. Percebe-se imediatamente queessas trs formasdeencarceramentono visam as mesmas populaes - por exemplo, pedfilos, imigrantes ilegais ebaderneirosqueatuam em manifestaes - enopassam a mesma mensagempara a sociedade.Essa pluralidade defunes preenchidas pela: priso no impede que esta ouaquela tarefa particular predomine em um dado momento. Assim,hoje em dianospaseseuropeus, oencarceramento para propsitos dediferenciao apli-cado com grande freqnciaa estrangeiros no-europeus(isto, imigrantes deantigas colnias do Velho Continente), que so definidos como no sendo partedo"corposocial" da Europa emergente'. Na Amrica, a prisotomouo lugarPeter Spierenburg, "The Body and theState: Early Modem Europe", em Norval MorriseDavid J.Rothman (eds.), TheO:iford History cf the Prison.The Practice cf Punislunent in T#stemSocicty (Oxford, Oxford University Press, 1995).Claude Faugeron, "La drive pnale", Esprit, n. 215, out. 1995.Salvatore Palidda, Poliziapostmoderna: etllogrqfia delnuouo controllo sociale (Milo, Feltrenelli, 2000).9596As duasfacesdo guetofuncional dos guetos negros como um instrumento de controle e conteno depopulaes consideradascastas inferiores, com as quaisnose devemisturar. El estoos afro-americanos que se "beneficiam", dejacto, de uma poltica deaoafirmativa carcerria, que resulta em sua macia sobre-representao nas prisesecadeiaspor todoopas: homensnegrosperfazem 6% dapopulaocarcerrianacional, mas, desde 1989, elescompemametadedasnovas admisses emprisesestaduais e federais",Apesar disso, o fatocaracterstico do fim de sculo , sem sombra de dvida,a tremenda inflao da populao carcerria nas sociedades avanadas", graas aofreqente, defatorotineiro, usodoencarceramento como um instrumentodeadministraodainsegurana social. Issoexatamenteoquedebatoem meulivroAs prises da misria:emtodos ospases ondeaideologianeoliberal desubmisso ao "livre mercado" se implantou, observamos um espetacular cresci-mentodo nmerode pessoas colocadasatrs dasgrades, enquantooEstadodependecada vez maisdapolcia e das instituies penaispara conter a desor-dem produzida pelo desemprego em massa, a imposio dotrabalho precrioeo encolhimento da proteo social.Comoa penalidadeneoliberal se espalhae semodificaA converso das classes dominantes ideologia neoliberal resultou em trs trans-formaesnaesferadoEstadoqueestointimamente ligadas: remoodoEs-tado econmico, desmantelamento do Estado social e fortalecimento do Estadopenal. De fato, aquelesquehojeglorificam oEstadopenalna Amrica soosmesmosque, ontem, clamavam pelo fim do "Grande governo" nojron: social eeconmico, e que foram bem-sucedidos nareduodas prerrogativas, expecta-tivas e exigncias da coletividade em facedomercado, melhor dizendo, em faceda ditadura das grandes corporaes.Isso pode parecer uma contradio, mas, narealidade, esses so os dois com-ponentes danova maquinariainstitucional de administraodapobrezaqueest sendo colocada em marcha naeradodesemprego em massae doempregoprecrio. Esse novo"governo" da insegurana social- para falarmos como MichelFoucault - assenta-se, por um lado, no disciplinamento domercado de trabalhoLocWacquant, "TheNew'Peculiar Institution': Onthe PrisonasSurrogate Ghetto",Tlieoretical Ctuninologv. v. 4, n. 3,2000, edioespecial sobre "NewSocial Studiesof thePrison"; e "DeadlySymbiosis:WhenGhettoandPrison Meet andMesh", Punislunent &Societv, v. 3, n. 1, 2001.VivianStern, A SinAgaillst tlie Future: Imprisonnient intheVVtJrld (Boston, NortheasternUniversity Press, 1997); Michael Tonry e Joan Petersilia, PriSOIlS (Chicago, The University ofChicago Press, 1999) e David Garland (ed.), Mass Iniptisonment: Social Causes and Consequences(Londres, Sage, 2001). .Apenalizaoda misriaeoavanodoneoliberalismodesqualificado e desregulado, e, por outro, em um aparato intrusivo e onipresente.Amoinvisvel domercadoeo punhodeferrodoEstado, combinando-seecomplementando-se, fazemasclasses baixas aceitaremo trabalhoassalariadodessocializadoe a instabilidade social queeletrazem seu bojo. Com isso, apsum longoeclipse, a prisoretornouaopelotodefrentedasinstituiesres-ponsveis pela manutenoda ordem social.Aexpressiva nfase dadaaotemada "violncia urbana" edacrirninalidadenosdiscursos e polticas dos governos europeus, especialmente na Frana com oretornoaopoderdachamada "esquerda plural'",