As Duas Faces Do Gueto

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~ 6A penalizao da misriaeo avano do neoliberalismoAcriminalizaoa queesto sujeitos por toda a Europa os militantesdos mo-vimentos sociais de desempregados, de sem-tetoecontraadiscriminao-como pudemos verde formaextrema nosataques promovidos pela polcia aosmanifestantes antiglobalizao em Gnova, durante o encontro doG8, no verode2001- nopodeser entendidafora do sentidoamplodapenalizaodapobreza, elaborada para administrar os efeitos das polticas neoliberais nosesca-lesmaisbaixosdaestrutura social das sociedades avanadas.As agressivas prticas policiais e as medidas deencarceramento adotadas hojeno continenteeuropeusoparteintegrantede umprocessomais amplodetransformaodoEstado, quefoi postoem marcha pelamutaodotrabalhoassalariadoe pela reversoda balana depoder, tanto narelao entre as classescomonaluta dosgrupospelocontrole doempregoe doEstado.Nessa luta, ocapital transnacional e as fraes "modernizadoras" da bur-guesia e dealtosescales do Estado, aliados sob a bandeira doneoliberalismo,ganharampoder eempreenderamumavastacampanhavisandorecons-truodaautoridade pblica. Com isso, seguem demosdadasa desregula-o social, oadventodotrabalhoassalariadoprecrio(contraumpanodefundode continuadodesempregoemmassanaEuropaede slidocresci-mentoda "pobrezatrabalhadora?"nosEstadosUnidos) eoretornodeumvelhoestilodeEstadopunitivo. A "moinvisvel" domercadode trabalhoprecarizadoconseguiu seu complemento institucional no" p u ~ h o deferro"* Issoserelacionaaocrescimentodo nmerode assalariadoscujarendasesitua abaixodalinha dapobreza oficialmente definida. (N.T.)94AsduasfacesdoguetodoEstado, quetemsidoempregadoparacontrolardesordens geradaspeladifusoda insegurana social'.Aregulaodaclasse operria peloquePierre Bourdieuchama dea "moesquerda" doEstado, simbolizadapelossistemas pblicosde educao, sade,seguridade e habitao'', foisubstituda - nos Estados Unidos - ousuplementa-da - na Europa ocidental- por regulaes a partir de sua "mo direita", ou seja,a polcia, as corteseosistema prisional, queestosetornandocadavezmaisativose intrusivosnaszonas inferioresdoespao social.A repentina e obsessivareafirmaodo "direito segurana" por destacadospolticos, tantodedireitaquantodeesquerda, aconteceaomesmotempoemqueosilenciosodesgastedo"direitoao emprego", na suaformatradicional(isto, trabalhodetempointegral, por perodoindeterminadoecom salrioadequado), e ocrescimentodosmeiosdefortalecimentolegal tornam-se teispara compensar odficit delegitimidade sofrido pelas lideranas polticas pelofatodeterem abandonadoas tarefasdoEstadonocamposocial e econmico.Dessaforma, osgovernoseuropeusestotentandominar anova legiti-midade de militantes e "minorias ativas", conquistada por meiode lutasdiriasnointerior dos movimentossociais emergentes. Com isso, tentam impedirocrescimento da mobilizao coletiva. Mais do quemeramedidarepressiva,acriminalizaodos quedefendemos direitossociais e econmicosintegrauma agenda poltica maisampla, que tem levado criaode um novo regimeque pode sercaracterizadocomo "liberal-paternalismo". Eleliberal notopo,para com o capital e as classes privilegiadas, produzindo o aumento da desigual-dade social e da marginalidade; e paternalista e punitivo na base, para com aque-les j desestabilizados seja pela conjuno da reestruturao doemprego com oenfraquecimento daproteo do Estado de bem-estar social, seja pela reconversodeambos em instrumentos para vigiar os pobres.Trsespciesdeencarceramentoe seusignificado noprojetoneoliberalColocaroinesperadoressurgimentodasprisescomopeacentral no hori-zonte institucional das sociedades avanadas, nas ltimas duasdcadas', til nosentidodenoslembrar que punir pessoas colocando-as atrsdas grades umainvenohistrica recente. Tal fatoaparececomo uma surpresa para muitos, jLoicWacquant, As prises da misria(Riode Janeiro, Jorge Zahar 2001). [Ed. franc.: Lesprisonsde la tnisre, Paris, Raisonsd'Agir, 1999.]Pierre Bourdieu, Contre-feux(paris, Raisonsd'Agir, 1998).Roy D. King e Mike Maguire (eds.), PriSOIlS in Coutext (Nova York, Oxford University Press,1998).Apenalizaoda misriaeoavanodoneoliberalismoquens crescemosto acostumadosaverpessoas presas queissonos parecenatural. A priso apresenta-se como uma organizao indispensvel e imutvel,que opera desdetempos imemoriais.Na realidade, atosculo XVIII, os lugares deconfinamento serviam prin-cipalmenteparadeterossuspeitos, ouconsideradosculpados porcrimes, queaguardavamaadministraode suassentenas, asquais consistiamemvriostipos decastigos corporais (chicotadas, pelourinho, marcas aferro, mutilao,enterramento, mortecomousemtortura), suplementadospelobanimentoepela condenao a trabalhos forados ou s gals",Scom oadventodaindividualidade moderna, a qual, supe-se, devedes-frutar de liberdade pessoal e ser dotada de um direito natural integridade fsica(que no pode ser retirado nem pela famlia nem pelo Estado, exceto em casosextremos), que privar pessoasdesua liberdade tornou-se uma punio em simesma e uma sentena criminal por excelncia. Isso se deu a um tal ponto quese tornou difcil conceber ou implementar outras sanes penais sem quepare-cessempoucoseveras. Lembrarmos que apriso umainstituiobastantejovem na histria da humanidade reiterar a idia de que seucrescimento e suapermanncia nosocoisas j definidas.Uma veztornadoa forma normativa desano criminal, oencarceramentopode preencher, simultnea ou sucessivamente, uma srie defunes. Osoci-logoClaude Paugeron'' estabelece uma distino frutferaentreoqueele cha-ma de"encarceramento de segurana", que visa a impedir indivduos consideradosperigososdecausar danos;o"encarceramentode diferenciao", destinadoaexcluir categorias sociais consideradas indesejveis; e o "encarceramento de autori-dade", cujo propsito , principalmente, reafirmar as prerrogativas e os poderesdoEstado. Percebe-se imediatamente queessas trs formasdeencarceramentono visam as mesmas populaes - por exemplo, pedfilos, imigrantes ilegais ebaderneirosqueatuam em manifestaes - enopassam a mesma mensagempara a sociedade.Essa pluralidade defunes preenchidas pela: priso no impede que esta ouaquela tarefa particular predomine em um dado momento. Assim,hoje em dianospaseseuropeus, oencarceramento para propsitos dediferenciao apli-cado com grande freqnciaa estrangeiros no-europeus(isto, imigrantes deantigas colnias do Velho Continente), que so definidos como no sendo partedo"corposocial" da Europa emergente'. Na Amrica, a prisotomouo lugarPeter Spierenburg, "The Body and theState: Early Modem Europe", em Norval MorriseDavid J.Rothman (eds.), TheO:iford History cf the Prison.The Practice cf Punislunent in T#stemSocicty (Oxford, Oxford University Press, 1995).Claude Faugeron, "La drive pnale", Esprit, n. 215, out. 1995.Salvatore Palidda, Poliziapostmoderna: etllogrqfia delnuouo controllo sociale (Milo, Feltrenelli, 2000).9596As duasfacesdo guetofuncional dos guetos negros como um instrumento de controle e conteno depopulaes consideradascastas inferiores, com as quaisnose devemisturar. El estoos afro-americanos que se "beneficiam", dejacto, de uma poltica deaoafirmativa carcerria, que resulta em sua macia sobre-representao nas prisesecadeiaspor todoopas: homensnegrosperfazem 6% dapopulaocarcerrianacional, mas, desde 1989, elescompemametadedasnovas admisses emprisesestaduais e federais",Apesar disso, o fatocaracterstico do fim de sculo , sem sombra de dvida,a tremenda inflao da populao carcerria nas sociedades avanadas", graas aofreqente, defatorotineiro, usodoencarceramento como um instrumentodeadministraodainsegurana social. Issoexatamenteoquedebatoem meulivroAs prises da misria:emtodos ospases ondeaideologianeoliberal desubmisso ao "livre mercado" se implantou, observamos um espetacular cresci-mentodo nmerode pessoas colocadasatrs dasgrades, enquantooEstadodependecada vez maisdapolcia e das instituies penaispara conter a desor-dem produzida pelo desemprego em massa, a imposio dotrabalho precrioeo encolhimento da proteo social.Comoa penalidadeneoliberal se espalhae semodificaA converso das classes dominantes ideologia neoliberal resultou em trs trans-formaesnaesferadoEstadoqueestointimamente ligadas: remoodoEs-tado econmico, desmantelamento do Estado social e fortalecimento do Estadopenal. De fato, aquelesquehojeglorificam oEstadopenalna Amrica soosmesmosque, ontem, clamavam pelo fim do "Grande governo" nojron: social eeconmico, e que foram bem-sucedidos nareduodas prerrogativas, expecta-tivas e exigncias da coletividade em facedomercado, melhor dizendo, em faceda ditadura das grandes corporaes.Isso pode parecer uma contradio, mas, narealidade, esses so os dois com-ponentes danova maquinariainstitucional de administraodapobrezaqueest sendo colocada em marcha naeradodesemprego em massae doempregoprecrio. Esse novo"governo" da insegurana social- para falarmos como MichelFoucault - assenta-se, por um lado, no disciplinamento domercado de trabalhoLocWacquant, "TheNew'Peculiar Institution': Onthe PrisonasSurrogate Ghetto",Tlieoretical Ctuninologv. v. 4, n. 3,2000, edioespecial sobre "NewSocial Studiesof thePrison"; e "DeadlySymbiosis:WhenGhettoandPrison Meet andMesh", Punislunent &Societv, v. 3, n. 1, 2001.VivianStern, A SinAgaillst tlie Future: Imprisonnient intheVVtJrld (Boston, NortheasternUniversity Press, 1997); Michael Tonry e Joan Petersilia, PriSOIlS (Chicago, The University ofChicago Press, 1999) e David Garland (ed.), Mass Iniptisonment: Social Causes and Consequences(Londres, Sage, 2001). .Apenalizaoda misriaeoavanodoneoliberalismodesqualificado e desregulado, e, por outro, em um aparato intrusivo e onipresente.Amoinvisvel domercadoeo punhodeferrodoEstado, combinando-seecomplementando-se, fazemasclasses baixas aceitaremo trabalhoassalariadodessocializadoe a instabilidade social queeletrazem seu bojo. Com isso, apsum longoeclipse, a prisoretornouaopelotodefrentedasinstituiesres-ponsveis pela manutenoda ordem social.Aexpressiva nfase dadaaotemada "violncia urbana" edacrirninalidadenosdiscursos e polticas dos governos europeus, especialmente na Frana com oretornoaopoderdachamada "esquerda plural'",no temtantoa ver comaevoluoda delinqncia "juvenil"10. Aocontrrio, seualvo fortalecer o pro-cesso de redefinies de formas e contedos da ao do Estado: oEstadokeynesiano, que foi o veculohistricoda solidariedade e cuja missoera fazerfrente aos ciclos e aos efeitos danosos domercado, garantindo o "bem-estar" e areduodas desigualdades, sucedido por um Estadodarwinista quetransfor-maacompetioemfetiche e celebraairresponsabilidade individual (cujacontrapartida a irresponsabilidade social), recolhendo-se s suas funes sobe-ranasde "lei e ordem", elas mesmas hipertrofiadas.A utilidade doaparato penal naera ps-keynesiana do "emprego da insegu-rana" tem seusdesdobramentos: ela serveparadisciplinar as fraes daclasseoperriaque surgem nos novose precriosempregosdeservios, neutraliza earmazenaos elementos mais disruptivos, ouaqueles consideradossuprfluostendoem vistaas transformaesnaofertadetrabalho, bem comoreafirmaaautoridade doEstadonos limitados domniosque, agora, soseusatributos.Pode-sedistinguirtrs estgiosnadifusomundial dasnovas ideologiasepolticas de "lei e ordem" made in the USA, emparticular nas chamadas medidas de"tolerncia zero" - as quais, curiosamente, so chamadas, em Nova York, deme-didasde "qualidade de vida"ll.A primeira fase a de gestao, implementao edemonstrao nas cidades norte-americanas. Especialmente NovaYork, que foielevada ao patamar de "rneca dasegurana" por uma sistemtica campanha publi-citria. Durante essafase, os thinle tanles neoconservadores, tais como o ManhattanInstitute, a HeritageFoundation eo American EnterpriseInstitute, desempe-nhamumpapelSo eles que cunhamtais noes antes de dissemin-lasentre asclassesdominantes norte-americanas no decorrer de sua guerraArticulao polticacomposta por socialistas, comunistaseambientalistas.10 Pode-se sempre adicionar "juventude" da classe operria e de origem estrangeira, pois issoclaramente o que quer dizer. Mais ainda, emoutrospases, como Itlia eAlemanha, ospolticosnosentemnenhumdesconfortoem vir a pblicocriticar a "criminalidade imi-grante".11 Lote Wacquant, "How Penal Common Sense Comes to Europeans: Notes on the TransatlanticDiffusion ofNeoliberal Doxa", EuropeanSoaeties, v. 1, n. 3,1999.97r98As duasfaces doguetocontra o Estado de bem-estar social, a qual temsido destacada no retrocesso sociale racial experimentado pelos Estados Unidosdesde meadosdosanos1970.Osegundoestgioodaimportao-exportao, facilitadopelas ligaesconstrudas comos seus thinktanks coirmos que se espalharamportodaaEuropa na dcada passada, principalmente na Inglaterra. Em matria de empre-go epolticassociais, aInglaterraserviucomo"cavalode Tria" e"estufadeaclimatao" para as novas penalidades neoliberais, com vistasa sua propagaoatravsdocontinente europeu". Mas, seaexportaodosnovos produtos nor-te-americanosde "lei eordem" tem obtidosucessoestonteante, porqueelessuprem as demandasdos Estadosqueosimportam. Elesforamconvertidos aodogma do chamado "livre mercado" e ao imperativo do "menos governo" - emassuntos sociaise econmicos, claro.Oterceiroeltimo estgioconsisteem aplicar uma cobertura deargumentocientfico sobre tais medidas, eentootruqueestarmado: medidas conserva-doras so vendidas sob a aparncia deidias progressistas. Em cada pas pode-se-achar intelectuais que espontaneamente fazem o papel de "contrabandistas" ou"transmissores", legitimandocomsua autoridadeacadmicaaadaptao daspolticas e dos mtodos norte-americanos para o fortalecimentoda leie da ordememsuas prpriassociedades. NaFrana, porexemplo, existeumnmerodeacadmicosquevivemsimplesmenteda revenda, em segundamo, das ideo-logiasnorte-americanasparaasegurana'", Tais soas ideologiasquese podeencontrar, na forma de pseudoconceitos, nos seminrios doInstitute for AdvancedStudies inDomesticSecurity(lHESl), naQueSais-Je? acerca da"violnciaurbanaeinsegurana", nos documentos entregues aos prefeitos quandoelesnegociam seusLocalContracts[or Security com os governoscentrais, nos jornaise nasconversasdodia-a-dia'P,Aprincipal influnciaaqui o Institutefor Economic Affairs, quelevoupara oReinoUnido, primeiro, Charles Murray, para advogar cortes nobem-estar social;depois, LawrenceMead, para defender oworkfare (programa dogoverno' queoferece assistncia social a pesso-asdesempregadas, mas obriga, emcontrapartida, os beneficirios a aceitarumemprego,geralmentemal remunerado, ouparticipar deumtreinamentoprofissional); e, finalmente,William Bratton, para fazer oproselitismoda "tolerncia zero". (N. T.)12 Umdeles, por exemplo, lanouumlivro intituladoIs TliereaFrench "BrohenWil/dow"?,quando a chamada teoria da 'Janela quebrada" [ou "tolerncia zero"] j haviasidodesacre-ditadapelos criminologistasnorte-americanos maissrios.13 OlHESI um instituto estatal que realiza seminrios dequalificaoe estudos sobreques-tes e polticas deseguranae de "lei e ordem". Elenose coloca soba gide doministroda Pesquisa, mas sobas ordens doministro doInterior, encarregado di polcia. Seutrabalhopertencemais propagandaburocrticaquepesquisacientfica. AQueSais-Je? umaprestigiadacoleopublicadapela Presses Universitaires de France (PUF) eformadaporpequenos volumesque, segundodizem, fornecemamelhor emais atualizada informaocientficasobreumdadotema. Os ContratosLocais deSeguranaso acordosassinadosApenalizaoda misriaeoavanodo neoliberalismoIssonosignificadizer quea Europaestimportando, noatacado, oestilopolicial norte-americanoe suas polticas penais, imitando de formacegaos pol-ticos dooutro lado do Atlntico. Ospaseseuropeus, com sua forte tradiodeEstado, seja catlico ou social-democrata, nocaminham para uma duplicaodomodelonorte-americano, isto , paraurna completa e brutal substituiodotratamentodapobrezaviabem-estarsocial pelotratamentopenalsusten-tado pelo empenho total no "encarceramento". Na verdade, eles estotateandonaconstruodeum caminho "europeu" (francs, italiano, alemoetc.)rumoao Estadopenal, adequado ssuas diferentes tradies culturais epolticas,ecaracterizadopelaconjunoredobradadaregulaosocial edaregulaopenal da insegurana social.Assim, o Estado francs tem aumentado sua interveno tanto social comopenal. Por umlado, entre outras medidas, multiplicou os empregos parajovens e os contratos detrabalho, por ele patrocinados, para os desemprega-dos, oque inclui programa dequalificao(CES,Contrats Emploi-Solidarit);elevouonvel de vriospacotes de auxliopblico (emborapequenos) eestendeu, deforma significativa, o alcance do plano derenda mnima (RMI,Revenu Minimumd'Insertion sociale); e instituiu uma cobertura desade ver-dadeiramente universal.Mas, por outro lado, o Estado francstambm instalouesquadres policiaisantimotimnos chamados "bairrossensveis", estabelecendounidadesespeciaisdevigilncia paradetectar e reprimira possveldelinqncianessas reas; estsubstituindo juzespor assistentes sociais oueducadores quandojovens "emsituao derisco" necessitam ser avisadospara que noajam fora da lei; cidadestm empreendidoe reforado posturas ilegais contra pedintes, as quais servempararetirar dasruas os sem-tetoeos abandonados; o governorecusou-se aalinhar as normas para a deteno provisria por comparution immdiate (prises emflagrantee processos sumrios'") com as normas paraqffaires instruction (casos deinvestigao seguindo umaqueixa policial), sobo argumentodeque precisoenfrentar a "violncia urbana" (com isso, garantindoaos jovens das reas deca-dentes dehabitao popular uma forma deao qfirmativa carcertidy; a punio reincidncia tornou-se maisdura; a deportao de estrangeiros sujeitos "duplapena?" foi acelerada; a liberdade condicional foi praticamente extinta etc.com o Estado central por meio dos quais cada municipalidade planeja, promove e implementamedidas proativascontraocrime.14 Procedimento judicial simplificadonoqual criminosos "presos em flagrante", emcasos de vio-lnciaderua, so levadosperanteum juiz, julgadosemuitasvezessentenciadosempoucashoras. Esse sistema rotineiramente aplicado pequena delinqncia em reas de baixa renda.Na Frana, muitosestrangeiros sentenciados priso so submetidos aoseguinte processo:primeiro cumprem o perodo decondenao que lhes foi dadopela corte e, em seguida, soexpulsosdoterritrionacional.(N. E)99100As duasfacesdo guetoUma segundadiferenaentreos Estados Unidose a Frana(e os pasesdaEuropa continental deuma forma geral)reside no fatodeque a penalizao dapobreza francesaefetivada, principalmente, por intermdiodemeios poli-ciais e cortes, maisdoque por meios prisionais. Isso obedece a uma lgica que maispan-ptica doque punitiva ousegregativa, com a significativa exceodos estrangeiros". De formacorrespondente, as burocracias deassistncia socialsochamadas atomarparte ativa nesse processo, desde que possuammeioshumanoseinformaoparaexercer umaestreita vigilnciasobreas "popula-esproblemticas" - isso oque chamode pan-optisnio social.Toda a questoreside em saber se esse caminhoeuropeuunia alternativagenunaaoestilonorte-americanode encarceramentoousesimplesmenteumestgionatrilhado encarceramentoemmassa. Saturarbairrosmarcadospela excluso social com agentes policiais, sem melhorar as condies e opesdevidaedeempregodeseusresidentes, certamente levara um aumentodeprises e condenaes, e, aofim, aocrescimentoda populao encarcerada. Em -que propores? Ofuturodir,Amesma questoaparece, em termos maisurgentese dramticos, na Am-rica Latina, onde o estilo policial e penal norte-americano est sendo importa-donoatacado. Duasdcadasdepois queos "Chicago Boys" reconfiguraram aseconomiasdocontinente, os "NewYork Boys" de William Bratton, RudolphGiuliani e do Manhattan Institute espalham seucatecismo de "lei e ordem". porl, comconseqnciasdevastadorasemrazodosaltosndicesdepobreza, dasituaoincipientedos programas de bem-estarsocial e do comportamentocorruptoe violentodo crimeedas burocracias judiciais. Nassociedadesquevivenciaramexperincias autoritrias recentemente, comoasdo Brasil e daArgentina, aaplicao das penalidades neoliberais significa, na verdade, orestabelecimentodaditadura sobreos pobres".A "tolerncia zero" ea guerra contra os pobres nos Estados UnidosUm minucioso estudo estatstico realizado emN o ~ a York acerca do uso ch tcnicado "parar e revistar"!", uma das medidas que mais simboliza a chamada "tolerncia15 LOlC Wacquant, '''SuitableEnernies': Foreigners andImmigrants in Europe's Prisons",Puuislunent &Society, v. 1, n. 2,1999.16 Paraocaso brasileiro, verLoc Wacquant, "Rumo a uma ditadura sobre os pobres? Nota aosleitores brasileiros", em As prises da misria, cit.; paraocasoargentino, verLoc Wacquant,"Mister BrattonGoestoBuenos Aires. Prefacioa la edicin para Amrica Latina", em Lascrcelesde la ntisetia (Buenos Aires, Ediciones Manantial, 2000).17 Publicado emAttorney General, TI/eNewYork City PoliceDepartment's "Stop aud Frisk" Practices:AReport to the People ofthe State ojNewvorkfromtheOffice ojtlieAttornevGeneral (NovaYork,Civil Rights Bureau, 1999).Apenalizaoda misriaeoavanodoneoliberalismozero"18, apresenta dados bastante reveladores.A populao negra constitui a metadedas 175 mil pessoas abordadas pela polcia em 1998 e 63% das pessoas monitoradaspela Street Crime Unit*, mesmoqueesse grupocorresponda a apenas 25%da, populao total da cidade. Esse desnvel particularmente notado nas reas exclusi-vamente brancas, ondeosnegroscompem 30% das pessoasmonitoradas pelapolcia. As reas de afro-americanos elatinos parecemserasfavoritas para taltcnica, j que apenas um entre os dezdistritos onde o "parar e revistar" maisintenso rea de maioria branca. Nessa mesma direo, temos a indicaodequequatroemcadadez ordens deprisonotm justificativaclaradopontodevista legal. Pior ainda, a Street Crime Unit, que segue o mote "a rua nos pertence",apresenta em sua mdiadeprises um nmerode16,3 negrose 9,6brancos.Tais disparidades podem ser explicadas apenas parcialmente pelasdiferenasnastaxasdecrimeentrenegrose brancosouentre suas reasdemoradia. Emgrandemedida, provmdaaplicaodiscriminatriademtodospoliciais. Deacordocomorelatrioassinadopeloministroda Justiado estadodeNovaYork, esse tipode visnaaopolicial "mina a credibilidadedas forasda lei edaordem, e, por fim, mina a prpria missodeimplementar a lei"!",Isso corroborado pelo fatode que uma ampla maioria demes, entrevista-das para os propsitos de um estudo feito por um diretor deescola no Harlem,se mostrava "desesperada" com as formas com que a polcia tratava seus filhos, evivia permanentemente receosapela segurana de suas crianas. Muitosdospaisem questoeducaram seusfilhos a partir deslidos valores, mas estavam ame-drontados pelaaopolicial. Um professor negro de50anos, que foi "parado erevistado" - semrazooucerimnia - enquantodirigia, e em seguidadetidopor toda uma tarde no posto policial, fala com raiva: "Em meu bairro, a polciaestselixandoparaos cidados, elatrataarea comoumazonadeguerraemaltrata qualquer um quenoa obedea ouque se meta em seu caminho'F'',18 Envolveosprocedimentosde monitorar, detere, quandonecessrio, revistarnarua qual-quer pessoa "razoavelmente suspeita" deter cometido um crimeouuma aoilegal.A Unidade deCrimes de Rua foi criada em 1971. Oaugede sua atuao foina administra-o doprefeitoRudolphGiuliani. Suasaes sempreatraramcrticasdos defensoresdosdireitos humanos. Entre os incidentes que marcaramseu percurso: em1997, ohaitianoAbner Louima foi vtima detortura e violncia sexual nobanheiro de um posto policial noBrooklyn; em1999, quatropoliciaisbrancosmataramatiroso jovemimigranteafricanoAmadou Diallo, naentradadeseuapartamento no Bronx, quandoeletiravadeseu bolso acarteira com os documentos. (N.T.)19 Attorney General,Tlie Neiu York Cit}'Police Department's "Stop and Frisle" Practices, cit., p. 9.zo Por suavez, uma enfermeiranegra, de54anos, quefoi cercadaerevistadacom violnciaquandochegava ao trabalho, sob pretextode que uminformante havia ditoque drogasestavam sendo vendidasnaregio, explica: "Euestavaem estadodechoquee mesentindohumilhada por sertratadacomoumacriminosacomum[...]. Noconfionapolcia. No101102As duasfaces doguetoEssesentimentocompartilhadopelosmoradoresdasreas pobresdeNovaYork, os quais estosujeitos atal forma depermanenteameaapolicial, foianaliticamenteformulado da seguinte maneirapelo criminologista AdamCrawford:oconceito de tolerncia zero uma impropriedade de nomenclatura. Ele no im-plica, como parece, uma estrita sano por todas as leis - o queseria impossvel, atmesmo intolervel-, mas a sano, necessariamente discriminatria, de certos gru-pos, em certos lugares simblicos e usandocertas leis. Quando foi que a "tolernciazero" atingiuos crimesdecolarinho branco, as fraudes e os desvios de dinheiro, apoluio ilegal oua violaoda legislao de emprego e sade? Narealidade, seriamais apropriado descrever as medidasde lei e ordem, implementadas em nome do"tolerncia zero", como estratgias de "intolerncia seletiva'I."No se pode prever o que acontecer em cada um dospases que adotam taismedidas. Oproblemaquesevendecomoremdiooquefoi efetivadocomdificuldadesna Amrica, onde, aindaquenointeiramentedesacreditadasen-quanto uma poltica, elas tm sido altamente questionadas por muitas autorida-des legais do pas. Assim, deveramos nos perguntar em que medida elas acabampor ser piores doqueosuposto problema quedeveriam resolver.bastantesintomticooextremodesdmdemonstradopeloantigochefeda polcia deNovaYork, William Bratton, pelascausas profundas da inseguran-a, pobreza, desemprego, desigualdade, descrena e discriminao, confirmando,assim, os propsitospunitivos da criminalizaomadein the USA. Tal crimi-nalizao no visaria tanto a impedir o crime, masa estabelecer uma guerra semtrguas contra os pobres e contra todos os marginalizados pela ordemneoliberal,que tem ganhado terreno em todo lugar soba bandeira da "liberdade".A"esquerda plural" francesaeo"Consensode Washington"alinhadosna polticade "lei eordem"Mas no corao da Europa que se trava a batalha mundial pelo estabelecimen-to de normas e metas globais da instituiopenal naeradoneoliberalismohegemnicoe, pormeio delas, pela reconfigurao da face doEstadops-keynesiano. Enissoas novasorientaesdaFrana diantedocrimeedasegu-ranadesempenham um papelcentral. Nosanos1980,ossucessivosgovernosdeFranois Mitterrand contriburamfortemente para legitimar a ideologia eco-durmohmeses por causado incidente". Desde o ocorrido, toda H'oite ela pega um txipara percorrer a curta distncia at seutrabalho (AttomeyGeneral, The NewYork City PoliceDepartnient's"StopandPrisk" Practices, cit.), p. 83-4.21 Adam Crawford,Crime Pteuention andCommunitySafety: Politics, Policies andPraaices (Lon-dres, Longman, 1998), p. 155.Apenalizaodamisriaeoavanodoneoliberalismonmica neoliberal, capitulandodiantedas presses dosmercados financeiroseda especulaomonetriaparaquefossemadotadas polticas de austeridadefiscal e de privatizao.Ogoverno de Lionel Jospin, por seuturno, encontrou-se na mesma posiono front penal. Como resultadodeter sidovisto - com ou sem razo - como oltimo lder deesquerda da Europa e mesmodomundo, elepoderia ter intro-duzidoumaresistnciaao"pensamentonico"no quedizrespeito justiacriminal. Em vez disso, alinhou-se ao "Consenso de Washington" em termos deidias de "lei e ordem" ditadas pelosthinktanks neoconservadores. Quandosereferiuscausassociais dadelinqnciacomo "desculpassociolgicas'F', re-nunciou aopensamento sociolgico, ainda queeste seja organicamente ligadoaopensamentosocialista, elegitimouaviso neoliberal domundoemseusaspectos mais retrgrados.Deumamaneirageral, havia aesperanade queaesquerda, devoltaaopoder, pudesselanar umaforte polticade descriminalizaoedesencarce-ramento. Isso teria aumentadoo permetroe as prerrogativas doEstado social,diminuindoos doEstado penal. Ocorreu ocontrrio'P.A mesma pedagogia daretirada e da renncia que guiava as polticas econmicas acabou por ser empre-gadanarea da justia criminal.NaFrana, aemergnciadachamada "esquerdarepublicana", saudosa dostempos em queos menores recebiam umaeducao severa edisciplinar, umpreocupante desafio a esserespeito. Trata-se de umaforma teratolgica derepublicanismo, alimentada pela nostalgiadeuma "pocadeouro" quenuncaexistiu. Essa educao moda antiga - algumas pessoas parecem ter se esqueci-do - repousavafundamentalmente emrelaes sociais violentas edesiguais,sobretudoentre gruposetrios e degnero. a sociedade como um todoqueeduca, eningum poderestaurar umsistemadisciplinar ultrapassadoquandoem todos os lugaresas formas de autoridade rgida foram questionadas e destro-nadas. Quando o sr. Chevnement foiministro da Educaonosanos1980, nogovernoMitterrand, sua ambio era espalhar asuniversidades pela Frana.Quando se tornou ministro doInterior nos anos1990, e como tal administravaa poltica nacional, seuplano era "cobrir" com postos policiais os bairros aban-donados pelas polticas econmicas dogoverno, enquanto se aguardava, talvez, aabertura decadeiasnessas localidades.n Em uma entrevista famosa a Le Monde, publicada em 7de janeiro d 1999, paradoxalmenteintitulada: "Sr.jospin contra o pensamentonico internacional: uma entrevista com o pri-meiro-ministro".23 Gilles Sainatti e Laurent Bonelli (eds.), La macltinepuniripratiqueet discours scutitaires (paris,Dagorno, 2000).103104As duasfaces do guetoEm ambosos cenrios, a presena doEstadoest sendoreforada, mas commeios eresultadosdiametralmenteopostos:oprimeirocenriotraduz-seemumaexpansodasoportunidadesdevida, osegundoemsua amputao; umrefora a legitimidade da autoridade pblica, o outro a enfraquece. De forma cari-catural, pode-se resumir tal dualidade pela seguinte frmula: para as crianas dasclasses mdias ealtas, universidades eempregosde gerncia; paraascrianasdaclasse operria, confinadas em reas decadentes, empregos precrios nosetorde servios oucargos de auxiliares de seguranaparavigiar os nufragos erefugadosdonovomercadodetrabalho - sobameaa deserem encarcerados.Assim, 10% dos"empregos para jovens" patrocinados pelo governo so de auxi-liares de segurana, recrutados em reas de baixa renda e encarregados da amplia-o do alcancedasforas daordem, bemcomodafacilitaodesuaentradanessas vizinhanas. Nohnadadeprogressista ourepublicanonisso.oadventodoEstadopenal nournafatalidadeDiferentementedosEstadosUnidos, ondeacriminalizaodapobreza j fazparte doscostumes e est inscrita na prpria estrutura do Estado, bem como nacultura pblica, na Europa a roleta ainda no parou degirar, e est muito longedisso. Da mesma formaqueosempregosprecriosquetentam nosapresentarcomo algum tipo de necessidade natural (isso tambm vem da Amrica), a infla-ocarcerria no uma inevitabilidade. Orecursoaoaparatoprisional noumdestinopara as sociedadesavanadas, umaquestode escolha poltica, eessas escolhasprecisamser feitascomtotal conhecimentodos fatos edesuasconseqncias.Na oposio penalizaoda precariedade social, uma batalha deve ser tra-vada emtrs frentes. Primeiro, nonvel daspalavras edos discursos, deve-sefrearas derivaes semnticas que levam, de umlado, compresso do espaodedebate(por exemplo, limitandoa noode "insegurana" aoaspecto fsico oucriminal, excluindo da a insegurana social e econmica); de outro, banalizaodotratamentopenaldastenses ligadas aoaprofundamentodasdesigualdadessociais(pelouso de noes vagas e incoerentes, tais como "violncias urbanas").imperativoseguir de pertotanto aspseudoteorias formuladas pelos thinletanks norte-americanos como as correlatas teorias de "lei e ordem", submeten-do-asa umestrito "controledefronteiras", naformadeumarigorosacrticalgica e emprica.Segundo, no jront das prticase polticas judiciais, deve-se impedir a multi-plicaodemedidasquetendama "ampliar" arede penal e .propor, ondeforpossvel, uma alternativa social, sanitria ou educativa. Deve-se reiterar o fatodeque, longe de ser uma soluo, a vigilncia policial e oencarceramento acabampor agravareampliarosproblemasque, supostamente, estariamencarregadosderesolver. Sabemosque, alm deatingirosestratos maisdestitudosdaclasseApenalizaoda misriaeoavano doneoliberalismooperria - o desempregado, o precariamente empregado, oimigrante recente -,oencarceramento em si uma poderosa mquina deempobrecimento. til,nessaconexo, lembrar incansavelmente quaisso as condies e os efeitosde-letrios da detenohoje, noapenaspara osdetentos, maspara suas famliasesuas vizinhanas.Finalmente, aindahmuitoqueseganhar doestreitamentodelaosentreativistas e pesquisadores que trabalham no[ront penal e aqueles que batalham nofi'ont social. Isso, nombitoeuropeu, significaotimizar osrecursosprticos eintelectuais para investir nessa luta. Existe uma tremenda mina de conhecimen-to cientfico e poltico a ser explorada e dividida em escala continental. Estudiosose ativistas norte-americanos tm uma riqueza deexperincias a oferecer com ademonstrao docolossal custo humano e socialdoencarceramento em massa.Para uma verdadeira alternativa que nosafaste da penalizao (suave ou dura) dapobreza, preciso construir um Estadoeuropeu que seja dignodesse nome. Omelhor meio de diminuir o papel da priso , uma vez maise sempre, fortalecereexpandir os direitos sociaise econmicos.10517Os rejeitadosda sociedade de mercadoToxicmanos, psicopatasesem-tetonasprises norte-americanasNos Estados Unidos, o superencarceramentoserve antes de mais nadaparaadministrar opopulachoque incomoda, mais doque para lutar contra os cri-mes de sangue, cujoespectroassombraas mdias ealimentaumaflorescenteindstria cultural domedo aos pobres - por exemplo, os programas de televisoA m e r i c a ~ Most Wanted, Rescue 911(telefone deemergncia dapolcia)e COPS,queapresentaem horrionobreaes reais dapolcia nosbairrosdeserdadosnegrose latinos, com absolutodesprezopelos direitosdas pessoaspresase hu-milhadasdiantedascmeras'. Prova dissoqueonmerodecondenados porcrimes violentosnasprisesestaduaisaumentouem 86%entre1985e1995,enquanto oefetivodeseuscolegaspresos por perturbaoda ordem pblica epor violao da lei denarcticos teve um crescimento de187% e 478%, respec-tivamente. Osprimeiroscontriburam em39lJ? para oaumentoda populaocarcerria doperodo, eosltimos, em 43%2.CombateaostxicosEssastendnciassoparticularmentepronunciadasnos estadosquelideramoranking carcerrio. Assim, de cempessoas condenadas priso noTexas no inciodesta dcada, 77foram punidas por apenasquatrocategoriasdeinfraes me-nores: posse etransportede drogas (22%e 15%, respectivamente), arromba-Mark Fishrnan eGrayCavender (eds.), Entertaining Crime: Television RealityPrograllls (NovaYork, Aldine, 1998).Christopher J.Mumolae Allen J.Beck, Ptisonets in1996 (Washington, DC, Bureau ofjusticeStatistics,1997), p. 10 e 11.108As duasfacesdoguetomentaeroubo (cada umemtornode 20%). Ademais, mais da metadedoscondenados pela legislaodenarcticos foipunida pela simples posse de menosde um grama dedroga", Granderival do Texasnacorrida aoencarceramento, aCalifrnia quadruplicou sua populao carcerria entre 1980 e 1993. Trs quar-tosdessecrescimento soexplicados pela priso dedelinqentes no-violentose principalmente detoxicmanos.Em1981, ospresos condenadosporviolaodalei de narcticos (VLN)representavam apenas 6%da populaocarcerria daCalifrnia; em 1997, essepercentual havia quadruplicado, chegando a quase 27%. Aescalada doencarceramento por posse ou comrciodedrogas particularmente espetacu-lar entre as mulheres,j que, nesse caso, a taxa passou de12% para 43%. Contu-do, melhor quea medida das populaes (que atribui um peso desproporcionals condenaes passadas e s penas longas por crimes violentos), a estatstica dosfluxosdemonstraclaramenteopapeldeterminantedacampanha derepresso _penal contra a toxicomania de rua na hiperinflao carcerria norte-americana.Em menosdevinteanos, onmerodecondenados admitidosnas penitenci-riasdaCalifrnia por VLN passou de menosde mil, em 1980, para maisde15mil, em 1997 (de um total de 47 mil), ao mesmo tempo em que todas as pesqui-sas sobreconsumoconcluamqueouso de narcticossemanteveestvel noperodo. Desde1988, essecontingenteanoa anosuperior aodepresosporinfrao propriedade, bem comoaoefetivodosnovos condenadospor vio-lncia. De fato, a taxa deencarceramento (sem contar as prises provisrias) porposseou oferta dedrogasdecuplicou em quinze anos, passando dequatro pre-sos por 100mil habitantes, em 1986,para 46por 100mil, em 1997, aopassoque nomesmo perodoa taxadeencarceramento por atentado propriedadedobrou(dedezesseisparatrintadetidos por100mil), igualando-setaxadeatentadopessoa, queaumentouapenas 50%(de26para37por 100mil).Tambmnessecaso, oaumentoaindamais pronunciadoentreas mulheres,para as quais a taxa de encarceramento por atentados contra a pessoa quadrupli-cou(de2,2 para 7,7por 100 mil) 4.Estclaroque, desdeametadedadcadade1980, e para ambosos sexos, ainji-ao lei de narcticostornou-seo primeiromotivo de priso, tantonaCalifrniaquanto em outrosestados lderesdoencarceramentoem massa. Ora, precisosaber que 80% das detenes conforme a lei denarcticos so feitas por simplesposse. Eque 60% e 36%, respectivamente, dospresosdos presdios municipais eestaduaiscondenados por VLNeram consumidores dedrogasno momento daTony Fabello, SentencingDynaniics Study(Austin, Criminal Justice Policy Council, 1993).DepartamentoCorrecionaldaCalifrnia, Historical Trends: InstitutionandParolePopulation,1976-1996 (Sacramento, CDC, 1997), tabela4a.Os rejeitadosdasocIedadede mercadoltima infrao'',Issoquer dizer quea "Guerra s Drogas" se reduz, nosfatos, auma poltica de represso aos toxicmanos; cuja locomotiva o governo federal(cf. Tabela1). Depoisde terdiminudonofinal dos anos 1970, aparceladosinternosdas penitencirias federaiscondenados por VLNdisparoude25%doefetivo em 1980 para 60%em 1995. Sozinhos, os contraventores da leidenar-cticosrepresentavam 71%docrescimento fulgurantedapopulao internadanesses estabelecimentos.TABELA 1Ostoxicmanoslotamasprisesfederais1091975Nmerototal de detentos 23.566Parcelacondenadapor VLN* 27%198024.25225%198540.50534%199057.33152%199589.56460% VLN: Violao da lei de narcticosFonte:Federal Bureauof Prisons, Quick Facts1998 (Washington, FBP, 1999).Ora, segundo um relatrio da D.S. Sentencing Commission, apenas11% doscondenados por VLN pelostribunaisfederaisso "peixesgrandes" e55% "pe-quenos contraventores'"; cujonicopecado'talvez tenhasidoode estarno"lugarerradonahoraerrada", comosediz no gueto. Pais, amigos esimplesconhecidos de um presumido(pequeno) traficante podem ser condenados portabelaapenasquevoat aprisoperptuaem virtudedasdisposies queautorizam os promotores federais a processar por "conspirao visando distri-buio de narcticos" toda pessoa associada de perto ou de longe menor trocade drogas, e issocombase apenas numtestemunhovisual (nenhumaprovamaterial requerida; opromotor noprecisa nem mesmoapresentaradrogaem questo como elemento de prova; e os membros do jri no so informadosdaspenasobrigatrias eirredutveisemqueincorremos acusados). Otrata-mento penal diligenteedrsticosubstitui assimotratamentomdicoa queostoxicmanosdasclassespopularesnotmacessoem razodoabandonodosservios desade pblica.OsdoentesmentaisnaprisoOdestino dos doentes mentais oferece uma verificao experimental trgica dahiptesedoelocausal e funcional entreoenfraquecimentodoEstado social eChristopher J. Mumolae ThomasP. Bonczar, Substance AbuseandTreatment ofAdults 011Probation, 1995 (Washington, DC, Bureau of]ustice Statistics, 1998), p. 3.United States Sentencing Commission, Special Report to Congress: Cocaine antlFederal SentencingPolicy(Washington, Governrnent Printing Office, fev. 1995).110As duasfacesdoguetoaprosperidadedoEstadopenal. Forameles, aoladodos toxicomanos edossem-teto, os primeiros atingidos pela reduo da assistncia mdica e, ao mesmotempo, os "beneficirios" daexpansodosistema carcerrio norte-americano.Estima-sequemaisde200 mil psicopatasgraves- esquizofrnicos, manaco-depressivosoudepressivos clnicos- apodreamatrsdasgrades por faltadeacesso, namaioria dos casos, aos cuidados necessrios fora dali. Umtesteaprofundado, aplicadoa um gruporepresentativode728recm-admitidos nopresdiodeChicago em 1993, mostrou que30%apresentavam problemas psi-quitricosagudos(diferentesdeproblemasdepersonalidade) e29%, uma de-pendncia de psicotrpicos no momento da priso". Pelomenos um quinto dosmenores condenados nosEstados Unidos, ouseja, 20mil jovens, sofremdeproblemas psquicos. Na Califrnia, esse percentual chega a 44% para os rapazese 64%para as moas; na Virgnia, 10% dos jovens detidos necessitam decuida-dos psiquitricos pesados e outros 40% detratamento contnuo. E, assim comonosadultos, a incidnciadapatologia mentalentreosadolescentesest forte-mente associada aoconsumodedrogas'',"Os pacientes que examinamos hoje nacadeia so os mesmos que examin-vamos nos hospitais psiquitricos" h vinte anos, explica um ex-encarregado dopavilho psiquitricodaclnica daMen'sCentral Jail, em Los Angeles". Comoconseqncia da poltica defechamentodos grandeshospitais pblicos, o n-merode pacientes nos asilos do pas caiu de 559 mil em1955para69milquarentaanos depois. Esses pacientesdeveriam, teoricamente, ser tratadosnosambulatriosdos "centroscomunitrios". Masas clnicaslocais, quedeveriamsubstituir os hospcios, nunca foram criadas por falta de financiamento pblico,e os centros existentes se deterioraram na medida em que as seguradoras priva-LindaA. Teplin, "Psychiatric andSubstanceAbuse DisordersAmongMale Urban JailDetainees",Americall ]o/mzal qf Prthlic Healtlz, v. 84, n. 2, fev. 1994, p. 290-3. Umestudoprecedente havia demonstradoqueos detentosdopresdiodeChicagoapresentavamimataxa demorbidez mental e detoxicomania trs vezesmais alta quea mdia dos homens dacidade(Daniel Ewt Kagan, "Landmark ChicagoStudy Documents Rate of Mental Il1nessAmongJail Inmates",Correaions Today, v. 52, n. 7, dez. 1990, p. 164-9).JohnE Edens eRandyK. Otto, "Prevalenceof Mental Disorders Among Youth intheJuveline JusticeSystern", Focal Point:A National Bulletin 011 Family Support and Children'sMental Healtli, n. 11, 1997, p. 7; osnmerosrelativos Califrnianosforamamavelmentecomunicados peloDepartamentodeInformaesdaCalifornia Youth Authority em abrilde1999.Citado em"Asylurns Behind Bars: Prisons Replace Hospitals for theNations Mentally Ill",TI/eNeu/ York Times, 5/3/1998. Atransfernciadepsicopatasdosistema hospitalar paraosistemacarcerriofoiconfirmada por umaanliseestatsticaprofundadosdadosnacionaisfeitaporGeorgePalerrno, Maurice Smith ePrank Liska, "jails Versus MentalHospitals: ASocial Dilernma", International[ournal qf Cffender TherapyandCompatatiueCrimillology, v. 35,n.2,1991,p.97-106.Osrejeitadosdasociedadede mercadodas lavavamas mosea cobertura mdica oferecida pelo Estado federal dimi-nua - ao mesmo tempoque, nosltimos anos, o nmero denorte-americanossemseguro-sadebatiatodososrecordes. A"desinstitucionalizao"dos doentesmentais no setor mdico traduziu-se porsua "reinstitucionalizao" no setor penal, depoisde terem transitado por um tempo mais ou menos longo pela condio de sem-teto - avalia-se em 80%a proporo de norte-americanos sem-teto que passarampor um estabelecimento dedeteno ou deassistncia psiquitrica'", Com efei-to, a maioria das infraes pelas quais so presosaponta "perturbaes da ordempblica", que em geral soapenasmanifestaesde seus problemas mentais.Eisuma amostradosmotivosdeprisodepsicopatas "liberados" recentementedeum hospital onde recebiam tratamento mdicoemvirtude dachamada poltica dedesinstitucionalizao:um jovemroubouumveculo4x4comoqual invadiuavitrine de uma loja porque viu um dinossauro pronto a saltar sobre ele. Uma jovemfoi presa vrias vezes porque comia em restaurantes e saa sem pagar a conta porque,dizia ela, notinha de pagar porque era a reencarnao de Jesus Cristo. Um homemfoi presopor desordem naviapblica depoisdeter seguidodoisindivduos atosaguode um hotel deluxode Nob Hill(bairrochiquedeSoFrancisco).Artistamiservel, mastalentoso, elese convenceu dequeos doisindivduoseram agentesdoFBl responsveispeloseqestrodesua patronesse. Umamulherdecerta idadeps-se a gritar acusaes num restaurante em horrio degrande movimento quan-doumclientequehaviaterminadosuarefeiopassouaolado desuamesa. Elapegou o alfinete de seuchapu e, segundo o relatrio da polcia, fincou-o noglteodireito dele. Caminhando no meio da multido de passantes, umjovemse voltou derepente para agredir uma mulherque vinha atrs dele: estava convencido de que elatinha um raio laser apontado paraos seustestculos e queria esteriliz-lo. liPoderamos multiplicar exausto os exemplos que mostram como a lgicapunitiva e dicotmica da "lei e da ordem" governa desde ento a assistncia aospsicopatas dasclassespopulares assimiladas frao maisvisvel dacategoriavergonhosados "mauspobres" - oudos pobresinteis, oquenessecasoamesmacoisa'", Elesdescrevem uma gama que vaidoridculoaotrgico. Bastaaqui um nicocaso, tomadoaooutroextremodoespectrodospossveis, que10 Martha Burt, Over the Edge.The Groiutl: oiHonielessness ill the 19805 (NovaYork, Russell SageFoundation,1992), p. 57. Osvaloresrelativos s populaesdos hospitaispblicosforamtirados deBeatrice A. Rouse(ed.), Substance Abuse and Mental HealthStatisticsSourcebooks(Washington, Department of Health andHuman Services, 1998). Para umareviso docon-junto dessa poltica de sademental, David Mechanic e David A. Rochefort, "Deinstitutio-nalization: An Appraisal ofReforrn", Annual Revieiv oi Sodology, ri: 16, 1990, p. 301-27.11 Gary E. Whitmer, "FrornHospitals toJails: TheFate of California's DeinstitutionalizedMentally Ill", Americall ]oumal oi Otthopsythiatry, v. 50, n. 1,jan. 1980, p. 65-75, citaoda p. 66.12 TerryKupers, Ptison Madness: The 'Mental HealthCrisis Behind Bars and What We Must DoAbotlt u (So Francisco,Jossey Bass, 1999), especialmente p. 257-65.111112As duasfaces do guetoilustra; levando-o ao paroxismo ao longo de uma vida, o processo deacumulaoerejoto mtuodascarncias do Estadode bem-estarsocial e dos rigores doEstado penal. Em 5 de maio de1999, diadeseuaniversrio decinqenta anos,Manuel Pina Babbitt, condecorado com a purple star por bravura nocampo debatalha do Vietn, foiexecutado por injeo letal na priso deSan Quentin. Eleforacondenado pena capital em 1980 aofimdeum processorpido por terassaltadoe, em seguida, agredido, durante um"flashback" causado por distrbiosps-traumticos associados asuas experincias de guerra, umasenhora quemorreudeuma crisecardaca em conseqncia deseus ferimentos'",Oex-cabo dosmarines partiu para o front aos dezessete anos, depois de umainfnciademisrianumacomunidaderural deMassachusetts (seupai, cabo-verdeano, era alcolatra e o espancava, e sua me era demente; ele prprio sofriade retardo mental e repetiu todasas sries at abandonar os estudos aos dezesseisanos, analfabeto), foi heri sobrevivente dos77dias de horror docerco de KheSanh, umdos episdiosmais sangrentosdo conflitodo Vietn, erecebeu umdiagnstico de esquizofrenia paranica ao voltar da sia. Sua instabilidade men-tal fez com que ele fosse desligadodoexrcitoe, em seguida, por faltadeassis-tncia social ou mdica, passa dodelito para a droga e para a priso. Babbitt foipreso vriasvezes por rouboe arrombamento. Maistarde, em 1973, foi conde-nadoa oito anosdepriso por assalto a moarmada e cumpriu parte da penano hospital Bridgewater State para criminosos dementes. Contra o parecer dospsiquiatras, ele foi libertadoe voltou s ruasdacidade deProvidence, onde seuestado se agravou com o passar dos anos:eleouvia vozes, sofria dealucinaesecriouohbitodese arrastar nochocomose aindaestivesseem patrulha eparar pessoas de origem asitica para perguntar se ele tinha matado os pais deles.Poucodepoisdetermigradopara a Califrnia, numa noite midadeneblinadensaque lembrava as noitesnaselva deKheSanh duranteaofensiva do Tet;Babbitt perdeuocontroleecometeuoassassinatoe uma segunda agressonanoite seguinteque lhe valeram a pena capital.Foi seu irmoquemo entregousautoridades depois queapolcialhegarantiu que a vida de Manuel, o simplrio daaldeia, o sobrevivente do Vietnquetodosreconheciamnoser maisomesmodepoisdasduas vezesem queestevenofront,seriapoupadaeque elefinalmentereceberiaumtratamentopsiquitrico. Masnosecontava com adeterminaodopromotor deSacra-mento, queteimouem pedira penademorteeaobteve (a maiorpartedamdia apresentou Babbitt como um assassino renitente, que tambm teria vio-ladosuavtima, apesardenenhumespecialistater se pronunciadoafirmativa-13 "Hundreds Take Up the Cause ofa Killer" e "VietnamVeteran Executed for 1980 Murder", TheNewYork Times, 26/4/1999 e 5/5/1999. Orelatoquese segue baseia-se numa leitura cruzadados artigos dedicados a esse assunto emquatro grandes jornais nacionais e dirios regionais.Osrejeitadosda sociedadede mercadomente com relaoa esse ponto). Eisso ocorreu sem grandedificuldade, por-queodefensor pblicoencarregadodesuadefesaomitiuoestado mdicodoex-cabo - esqueceu-se depedir sua fichamilitar.Vrios depoimentos posterio-res defuncionriosdotribunal afirmavam queesse advogado, desligadoda or-demem1998porterdesviadorecursos destinadosdefesa deseusclientes,costumavabeberat aembriaguezduranteosprocessos e era notoriamenteracista, se bem queestivessedefendendo um negro acusadodeassassinato (e deumestuproquenuncafoi provado, mas pesounoveredicto) deuma mulherbranca perante umjri100% branco!",Durante os meses em que correram as apelaes, milhares deex-combaten-tes do Vietn - entreeles seiscentos sobreviventesde Khe Sanh - e vrias per-sonalidades - inclusiveoprmioNobel deliteratura WoleSoyinka - fizeramuma campanha pblica pelo perdo de Babbitt. Conseguiram fazer com que elerecebesseacondecorao por bravura, paraaqual elenuncahaviatomadoasprovidnciasnecessrias, numasolenidaderealizadanocorredor damortedapenitenciria de San Quentin. Dois membros do jri que o condenou pedirama revisodoprocessoatestandoquenuncateriam votadopela penacapital sesoubessem dosantecedentesmdicosdoacusado.OdoutorCharlesMarmar,um dosmaiseminentes psiquiatras dopase especialista mundial em distrbiosps-traumticos, declarouquetodososdetalhesdocrimeindicavam queforacometido .sobainflunciade uma "reaodissociativa"devidoaos choquespsicolgicos sofridos nofront: por exemplo, Babbitt cobriuocorpoda vtimacom um colchodepoisdeter colocado uma chaleira sobre sua plvise atadoum laodecouro em seu tornozelo, como faziamos soldados norte-america-nos na selvaasiticaparaproteger eidentificar seusmortos.E, comobutimdepoisde ter saqueadooapartamento, elelevouumrolode moedasdecin-qentacentavos, um relgioe um isqueiro.Tudoemvo. Onovo governador (democrata) Gray Davis, veteranodoVietnquedurantetodaasuacarreirapolticaexplorouotemadorespeitodevidoaosex-combatentes, masque tambm haviaprometido, comotodosospolticosdopas, ser"durocomocrime", recusouacomutaodapenadeBabbitt por priso perptua sem possibilidade de liberao nessestermos: "Umnmero incalculvel depessoassofreram osestragosda guerra, as perseguies,a fome, osdesastresnaturais, as calamidadespessoaiseoutras. Mas essas expe-rincias no poderiamjustificar ouminimizar a agressoselvagem e a matanadecidadosindefesosquerespeitama lei". Davis considerou, ademais, queosremorsos do condenadonoeramsuficientes, pois este coritinuavaaafirmarque no tiriha lembrana doocorrido na noite do crime (o que conforme coma doena queo afligia). Quando se~ u n c i o u a decisodogovernador, o filhoda14 "Babbitt's Lawyers Raise Race Issue as Execution Nears", San Francisco Chronicle,2/5/l999.113r114Asduasfaces do guetovtima declarou imprensa: "O cara vai morrer e espero que sofracomo minhame sofreu. No acreditoque serocaso. Mas espero queeleestejasuficiente-mente atormentado mentalmentequandoentrar nacmaradeexecuo e forpreso maca[parareceber a injeoda mistura devenenos mortaisj'l'";Cincodiasdepois da execuo, ManuelBabbittfoi enterradoaosomdeclarins, entreduasguardasdehonra formadaspor seuscompanheirosmarines,Mas seus restos repousamnopequenocemitriodaigrejadeWareham, suacidade natal, e no no cemitrio militar vizinho de Bourne.A famlia da vtimade Babbitt ficou escandalizada que o ex-cabo recebesse a purplestarna antecmarada mortee fezcampanha para que nunca mais tais honrasfossemoferecidasaum criminoso. Com sucesso: desde 1997, uma lei federal votada aps o atentadoa bomba deOklahoma proibiu que os ex-combatentes condenados por crimesviolentos fossementerrados com seuscompanheirosdearmas",Tudoindica que essaduplatragdia teriasido evitadase, de umlado, acobertura mdica pblica notivesse abandonado prpria sorte os psicopatassemmeios de acesso aos cuidadosnecessriosnomercadoprivadodasade(inclusiveosex-combatentes, quedeveriamter "crdito" comanao) e, deoutro, se o sistema judicirio no tivesse substitudo os programas deassistnciasocialnatarefade "limpar" a misriaderuaque perturbaeameaa. Em todocaso, certoque, se Babbitt tivesse recursose as relaes necessrias para con-tratar os servios deum bom advogado, hojeeleestaria vivoeterminaria seusdias na priso, como Theodore Kaczyinski, o Unabomber.tambrn denunciadopor seuirmoDavid(este ltimoparticipouativamente da campanhaparapoupar avidadeBabbitt), mas quedevesuavidaaofatodeserbrancoedeclasse social elevada. Em duasdcadas, Babbitt percorreu toda a gama de infra-ese penas, da provao da priso morte, semjamais desencadear um meca-nismo-freio ou encontrar um pra-choque capazdedeter sua derrocada sociale mental e interromper a correspondente escalada penal. o casode se pergun-tar: a formaextrema dagesto punitiva damisria noconsisteem suprimi-lapela eliminao fsicados miserveis?Um tero das cadeias dos Estados Unidos mantm em suas celas alienados queno cometeram nenhumcrime ou delito alm dode noter outro lugar onde serdepositado. legal prender um psicopata sem motivo judicirio em dezesseteestados, e essa prtica corrente mesmo onde ela explicitamente proibida porlei. Odoutor Fuller Torrey, especialista nessaquestodoInstituto Nacional deSade Mental, no tem meias palavras:"As cadeias e as penitencirias tornaram-se15 "GovernarWon't Block ExecutionofVietnamVeteran", LosAngelesTimes, 1/5/1999;"MannyBabbitt:A Tale of]ustice Gone BothBlind andWrong", The Minneapolis Star Tiibune, 6/5/1999_16 "HonorableDischarge: Executedasa Villain, Vietnam Veteran Gets Hero'sBurial", TheBoston Globe,11/5/1999.Os rejeitadosda sociedadede mercadoasilos psiquitricos para um grande nmero de pessoas que sofrem de patologiasmentaisgraves" por causado"colapsodosistema pblicodesade mental"!"."Eu tinha uma menina de quinzeanos que sofria de psicose e alucinaes",contaCathyBrock, responsvel peloCentroLetot para filhosfugitivos, emDallas. "E uma mdica do servio de sade menta! concordou que a meninaprecisavaser internada. Maselaimediatamenteacrescentou queelesjhaviamultrapassadoo oramento daqueleano, entoperguntei seeunopodiadar queixa polcia por infrao, comouma agresso, que permitissequeela fossepresa. [...] Quandotenhoumgarotoque sofredeproblemasmentais graves e que foi preso, e a famlia no tem recursos, eu fao de tudopara que esse menino seja colocado sob tutela penal." (Citado em "AsylumsBehindBars", The NewYorkTimes, 5/3/1998)"Estamosliteralmente soterrados de pacientes, sempre correndoatperdero flegopara tentar, bemoumal, fechar asbrechasde um diquequeestcheioderachaduras, enquantoo estadopsquicode centenasde detentosse agrava a cada dia diantedos nossos olhose se transformaem psicose."Psiquiatra da cadeia de Sacramento, capital da Califmia (Citado no CalifomiaJouma/, 1/10/1997)O prmio do condado com o pior desempenho em matria de encarceramentode psicopatas graves vai para o condado de Flathead, em Montana. H vinteanos, somente o presdio do condadoaceitainternamentos psiquitricos deurgncia - nemo hospital pblico, nemo hospital psiquitricoprivado da regioos admitem. Os indivduos que sofrem de patologias mentais so presosna"celamole" da cadeia, uma sala nua acolchoada e com uma gradeno choque serve de privada. As refeies so passadas aos detentos por uma fen-da na porta. Como nas celas para alienados usadas em 1950, 1920 ou 1820.O prmio do pior estado vai para o Kentucky. O mais vergonhoso no desem-penho do Kentucky seu sistema de duas classes: a maioria dos psicopatasque tmseguro-sade ourenda suficientevopara o hospital psiquitrico,mas o grosso dos psicopatas sem recursos vai para a priso - tenhamelescometidoounoalgumainfrao. OitentaeumporcentodascadeiasdoKentuckydeclarammanter psicopatas graves sobre os quais no pesa nenhu-ma acusaoou queixa. (E. Fuller Torreyet al., "Criminalizingthe SeriouslyMentally 111: The Abuseof Jailsas Mental Hospitais", em Mentall/lness andthe Law[Washington, National Alliance for theMentally111,1998], p. 13)11517Citadoem "Califrnia MentalHealthCare: FromtheSnakepittotheStreet?", CalifomiajOllmal, 1/10/1997, p. 37-45; sobrea deteno arbitrria de psicopatas, E. FullerTorrey et al.,"Crirninalizingthe SeriouslyMental1yIll: TheAbuseof JailsasMental Hospitals", emMental lllness and the Laiu (Washington, National Alliance fortheMentally Ill, 1998), p. 11-14; e Terry Kupers, PriSOIl Madness,cit., passim.116Asduasfaces do guetoNo exageroconsiderar queo sistema carcerrio se tornou deJato a instituiode "tratamento" psiquitricode emergncia para os norte-americanosmais desvalidos-bemcornooprincipal fornecedorde "moradiassociais", cornoveremosmaisadiante. Assim, oestadodeNova York cuidademaisdoentesmentais em suaspenitencirias(6 mil, ou seja, 9% dosinternos) doquetrata em seus hospcios(5.800). Nasgrandes cidades, o oramento dopavilho psiquitrico do presdioem geral ultrapassa ooramentodoserviodepsiquiatria dohospital pblicodo condado. Issovale principalmenteparaaCalifrnia, que conduziucomparticular ardor a poltica dereduo dosetor psiquitrico: o nmero de psico-patasnosestabelecimentos de sadepblica caiude 36 mil em 1961para 4.400em 1997. Paralelamente, onmerodedoentes psiquitricos apenas nas cadeiasdo Golden State teve um crescimento de 300% entre 1965 e1975 e decuplicoudesde ento,ultrapassando12mil". UmestudorealizadopelomunicpiodeSantaClara, capital do Vale doSilcio, revela quea populaopresa nas cadeiasdocondadoquadruplicounosquatroanosque se seguiram aofechamentodoAgnews StateHospital para alienados, em 1973. Em muitos estados, as regrasdeadmissoemalguns hospitais soto restritivas queanicamaneiradeumpaciente semrecursos obter cuidados psiquitricos se deixar prender. NoTexas, porexemplo, comumosassistentessociaisrecomendarem s famliassem cobertura mdica privada que mandem prender seu filho ou filha paraqueestes possam receber as terapiasnecessrias.Osrejeitados daruaAcriminalizao doabandono psquico, resultadoda transferncia dos doentesmentaisda "moesquerda" para a "modireita" doEstado, dosetor hospitalarparaosetor carcerrio, um processoauto-sustentado quegaranteoenvioparatrs das gradesde um contingente crescente dedoentes a cada ano. Com efeito,as prisesnoso nemconcebidas nemequipadas para tratar patologias men-tais, demodoqueosdoentesencarceradosrecebemcuidadosgrosseiramenteinsuficientesouinadequados, oumesmocuidadonenhum - seja porquenoforamdiagnosticadosdemaneira correta, seja porque faltammeios ou porqueos medicamentosnecessriossocaros demais,sejaainda porquea instituioqueosacolhe noestlegalmente habilitada para cuidar deles, como ocasodos centrosdedetenode jovensdo Texas'", Ospsicopatasedoentes mentais18 Gary E.Whitmer,"From Hospitals to jails", cit., p. 65-75; o nmero de; 12 mil psicopatas nospresdiosdaCalifrnia subestimadoecorresponde a15% dosdetentosparaos quaisumestudodaadministraopenitenciria determinouquecuidados psiquitricosdirios eramindispensveis.19 Um presdio em cadacinco nopossui nenhuma estrutura paracuidar depatologias men-tais (E. FullerTorrey etal., "Criminalizing the Seriously Mentally Ill", cit., p. 12). Em 1998,Os rejeitadosdasociedadede mercadotambm so alvo habitual deagressese sevcias por parte dosoutros detentos,e exibem de longe a maisalta propenso aosuicdio. Na ausncia deestruturasque se responsabilizem por eles fora dali, os juzes hesitam emlibertar sob fianaosdetidoscom problemasmentais, oqueprolongaoperododedeteno. A. clnica deRikers Island, por exemplo, trata a cadaanomaisde15 mil detentosque sofrem de problemas mentais graves; estes permanecem na famosa priso deNovaYork cinco vezes maistempo que os outros detentos (215dias contra 42),aindaqueas acusaes quepesamsobreelessejammuitomenos graves. NaCalifrnia, osindivduos portadores de problemas mentais tm, porinfraoigual, mais chances doque os outros de serem presose condenados, e a penasdeprisomaislongas, das quais cumprem uma fraomaior'",Aosair da priso, os ex-detentos que sofrem de problemas psquicos so emgeralabandonados prpria sorte, mesmo que sua patologia tenha se agravado."Muitos responsveis por presdios no sabem oque acontece com os psicopa-tas depois de libertados; 46%dos estabelecimentos ignoramseos detentospsicticos recebem cuidados psiquitricos quando so libertados; entre os esta-belecimentos que tm essas informaes, apenas 36% vem seusdetentos rece-beremcuidadosfora dali"?', Porfalta de acompanhamentomdico, elesnodemoram a ser presosnovamente pela polcia, que os manda para trs das gradespor um longo perodo em virtude dosdispositivosque punem a reincidncia.Oshospitais, por sua vez, em respostacontnua reduodos reembolsos querecebem pelos pacientes cobertos pela assistncia mdica gratuita, se desoneramdosdoentesquenoso "rentveis", e os pem narua, onde soprontamenterecolhidospelapolcia por perturbaodaordempblica, vagabundagem oumendicncia, ousimplesmenteporquesoincoerenteseprecisoguard-losem algum lugar onde recebam cama e comida, na falta de cuidados. Os policiaistm atuma expresso especfica para designar essas prises: chamam-nasmeTe}'bookil1gs (detenopor clemnciaj'", medidaque elesaplicamigualmente sumrelatriodaDiviso de Direitos Civis daSecretariade Justiaacusouopresdiodocondadode Los Angeles"deindiferena deliberadapara comasnecessidades graves decuidadospsiquitricosdos detentos" econcluiuque "onicomeiode melhorar asade[deles]" seria retir-los imediatamente dopavilho psiquitrico.20 JoanPetersilia, "justice for All? Offenders withMental Retardationandthe CaliforniaCorrections System", Piison[ourna, v. 77, n. 4, dez. 1997, p. 358-80.E. Fuller Torreyet al., "Criminalizingthe SeriouslyMentallyIll", cit., p. 13. Em1996, ocondadodeLos Angeles pagou 2,5milhesdedlares em indenizaes a um detentoquesofria deesquizofrenia paranica e ficoupreso durante duas semanas sem nenhum cuidadooumedicao(ele era suspeito de vandalismo contra uma igreja). Posto em liberdade apesarde seu estadodeperturbao, elefoi atropeladopor umtremegravementemutiladoaoatravessar uma viafrrea.Nas grandes cidades, os indivduos considerados psicopatas pelapolcia sodetidos e encar-cerados duas vezes mais freqentemente do que aspessoas consideradas ssde esprito,117118As duasfaces doguetopessoas semdomicliofixo duranteoinverno- quandotodas ascadeiasdasgrandes cidades doNortevemsuaspopulaesaumentaremsensivelmenteporacolheremgentedaruaquede outraformamorreriamde frio. "Muitagente vem para a cadeia porque notem para onde ir", explica com uma caretadedesprezooresponsvel pelas cadeiasdeChicago. "Eles cometem pequenosdelitos para serem presos e recolhidosonde aomenos tm cama, trs refeiespordia eummdicode graa. Todos osinvernos nossapopulaoaumentabruscamente, no nnimode 5%a10%, scomossem-tetoque'entram'. Eagora, comasupresso do welfare [AFDC23, oauxlioames semrecursos],vamos ter um grande afluxodemulheres. Lembro que, quando Reagan cortoua assistncia social, nossapopulao atingiu ndicesrecordea.?"H trezemeses, a polciadeBaltimore psatrsdas grades umsem-tetochamado Martin Henn, suspeito de ter incendiadoum automvel. Mas o pre-sdio se atrapalhou com a papelada. Enquanto sua barba crescia, Henn per-guntoudiversas vezesaosassistentessociaisa data de suaaudincianotribunal. Semresposta. Finalmente, umestatsticodacasaobservounumlevantamentodedadospelocomputador queHennmofavanacelaS-39havia mais de um ano sem nem mesmo ter sido acusado. Ele ento foi acu-sado e levado peranteo tribunal,com o cabelochegando aos ombros."Eleestava perdido dentro do sistema", exclamou horrorizada ajuza Ellen Heller,enquantoo promotorseapressavaemanular a acusao."Ningumnemsabiaque eu existia",disseHenn. ("Lost inCell S-39",V.S. News& WorldReport, n. 111, 26 de agosto de 1991, p. 16)Sorte semelhanteaguardaos toxicmanos presosnamalha penal. Dois ter-os dos 3,2milhes de norte-americanospostosem "liberdadecondicional"em 1995 foram repertoriados com algum problema delcool ou droga. A me-porqueos policiais julgam que essa a nica medida quepodem tomar com relaoa eles(Linda A. TeplineNancyS. Pruett, "PoliceasStreet ComerPsychiatrist:ManagingtheMentaIly Ill", International[ournal ifLaw and Psychiatry,v. 15, n. 2, 1992, p. 139-56).23 Aidto FamilywithDependent Children(AuxlioaFamlias comFilhosDependentes),programa estatal de assistncia social voltadopara mes pobres e sua prole. Criado em 1935, foiabolidopela legislao da "reforma dobem-estar social" promulgada por Clinton em 1996e substitudo pelo programa sugestivamente nomeadoTemporaryAssistance to Needy Families(AssistnciaTemporria a Famlias Carentes), planejado essencialmente para reduzir os ora-mentosdeauxlioestatal eempurraros beneficiriosparaomaisbaixodospatamaresderendimento domercado detrabalho desregulamentado (cf. Loc Wacquant, "Lespauvresenprure: la nouvelIe politiquedela misreen Amrique", Hrodote, n. 85, 1997, p. 21-33).24 Entrevista em setembro de1998 nopresdio de Cook County com o diretor de administra-openitenciria docondado.Os rejeitadosdasociedadedemercadotadedeles erasubmetida a: testes deuso de narcticoscomocondioparaaliberdadecondicional, massomente17%seguiam um tratamentoparacurar adependncia. E 52% doscondenados com sursis que cometeram o crime com oobjetivode -adquirirdrogas noreceberamnenhumtratamentomdico(dosquais 38%detoxicmanos por drogas injetveisr"; Em 1997, 57%dos internosdas penitencirias estaduais dopasdeclararam ter usadodrogasilcitasnomsanteriorpriso (dos quais 20%porvia intravenosa);umterocometeuocrime peloqual foi presosoba influnciadenarcticos (dos quais20%comcocana ou herona). Mas menosde15%desses prisioneiros toxicmanostive-ram ou haviam tido algum tratamento mdico na priso para curar a dependn-cia, eesse percentualestem queda livre- ultrapassavaumteroem1991 -,emboraonmerode drogadosatrsdasgradesnoparede crescer. Naqueleano, as penitenciriasda Califrniadispunhamdeapenas quatrocentosleitospara desintoxicao, ao passoque o nmerodeinternos dependentes de psico-.trpicos, deacordo com os dadosdo Departamento Correcional da Califrnia,ultrapassava os 100mil'"! Da mesma forma, menosde um quintodos internosdas prises estaduais identificados como alcolatras recebem acompanhamentomdico por esse motivo.Nochega a surpreender que, uma vezlibertados, esses ex-detentos sejamlogopresos por tercometidoumnovodelito -ligadoaovcioou porter "re-sultadopositivo" noexamesemanal deurina,obrigatrioparaamaioriadoslibertados sobcondicional na Califrnia, por exemplo, onde a metade das revo-gaesdecondicional motivada por umexamedeusodedroga. Tantomaisque umdosdispositivosdareformadaassistncia social de 1996, adotada emalguns minutospelovis de umaemendavotadapelos dois partidos, probevitaliciamente que toda pessoa condenada priso por violao da lei de narc-ticos (VLN) receba assistncia social aos desvalidos (TANF, que substituiu a AFDC),bem comoassistnciaalimentar aos indigentes(food stamps). Outrodispositivoexclui definitivamente da habitao social toda p,essoaque tenha sido detida porposseou venda dedrogas - e veremos mais adiante que uma lei de1994 auto-riza a administrao federal para a habitao a negar a todo ex-detento o acessohabitaopblica. Essasduas medidastiveramumefeitodesproporcional edevastadorsobreasmulheres do (sub)proletariado, queformamogrosso dapopulao de locatrios da assistncia social e cujo principal motivo de priso justamente a VLN, bem comoas comunidades negrase hispanfonas, que for-25 Christopher].Mumola eThomas P.Bonczar, SubstanceAbuse and'Iteatuent ofAduits 011Probation,1995, cit., p. 7.26 Christopher J-Mumola, Substance AbuseandTreatmeut, State and Federal Ptisoners, 1997(Washington, DC,Bureau of]ustice Statistics, 1998), p.I: e Elliott Currie, CrimeaudPunishmentin America (Nova York, Henri Holt andCompany, 1998), p. 166.119120As duasfaces do guetonecem trsquartos dos prisioneiros "pegos" por crime de drogas. Tiveramigual-menteefeito sobre seusfilhos, quedeveroser colocados em nmerocada vezmaior sob a tutela dos servios sociais ou confiados a famlias deadoo, porquesuasmes noteromaisacessoaos recursosrrnirnosnecessrios para conser-var suaguarda, e isso apesar das disfunescalamitosas dosservios de proteo infncia, que os incorporam aos maus-tratos institucionalizados", Finalmente,ao banir os condenados por droga da assistncia social, a lei os exclui no mesmomovimento da maior parte dosprogramas semipblicos dedesintoxicao, cujaadmissodepende justamentedaconcessodeum auxliosocial quecubraosgastos com abrigoealimentaodospacientes/'',Paraosnorte-americanospresosnabaseda estruturatnicaede classe, omovimento simultneo deretirada da rede de proteo social e deampliao darede dedeteno penal deixa uma alternativa: resignar-se aos empregos miser-veisdanova economia deservios, ou tentar a sorte naeconomia ilegal deruae um diaenfrentar a realidade da priso. Os indivduos desprovidos devalor nomercadodetrabalhono tm nem mesmoessa"escolha".Toxicmanos, doen-tes mentais, sem-teto: o descasodos servios sociais emdicos asseguraqueessas trs categorias, queemgeralsesobrepemeentreasquaisosrejeitadosdosEstados Unidoscirculam como numjogo macabrodedanadascadeiras,estejam acada anoem maiorquantidadeatrs dasgrades. Aprisoserve tam-bmde depsitodaescriaedos dejetoshumanosdeumasociedadequesesubmetecada vez maisaodiktat domercado.Antes punir que prevenir: os psicopatasestona ruaPor trezevezesemdoisanos, AndrewGoldsteinfoi internadoeminstitui-es psiquitricasde Nova York, s vezeslevado pela polcia, em geral deurgncia, mas sempre de forma voluntria.Esquizofrnico violento, o jovemsolitrio,filho de um radiologistade Delawaree ex-aluno de um colgiodeelite da cidade, agrediu treze pessoas duranteeSqeperodo, entreelas doispsiquiatras, umaenfermeira, umassistentesocial eum terapeuta. Trezevezesele foi expulsodo hospital, apesar de suas splicas reiteradas: inca-paz de suportar as crises de alucinao, queria ser admitido num estabeleci-mento para tratamentos de longo prazo. Em novembro de 1998, ele implorou27 Ver oretrato descrito por Susan Sheehan sobforma de peade acusao desses serviosemLifeJor Me Ain't Beeu no Crystal Stair (NovaYork,Vintage, 1993).28 Rukaiyah Adamse Alissa Riker, Double ]eopardy:AIl Assessment cf the Pelony DrugProvision cftheWelfare ReformAct (Washington,]ustice Policy Institute, 1999).A lei federal de1996davaaos membros da Unio a opo denoaplicar essa clusulade excluso da assistncia social:mesmo assim, 32 estados decidiram adot-la e cinco outros apenas a modificaram. A Califrniavotousuaprprialei em1997, que tambmbania oscondenados pelaVLNdoltimoprograma social deauxilioa indigentes aoqual poderiam postular, a General Assistance.2930Osrejeitadosda sociedadede mercadopara ser internadonopronto-socorro do Jamaica Hospital, no Queens: "Elesequeixavadevozes, depessoasqueoseguiame quemoravamdentrodele. 'Eles roubarammeucrebro, nosei por qu. Ouovozesquemedizemque alguma coisavaiacontecer. [...] Noconsigosairdessa"?". Masos hospitaistminstrues doEstadopara"reduzir custos", ouseja, livrar-se dos pacienteso maisrpido possvel (no mximo em 21 dias)de maneiraque os objetivosde reduoorarnentria sejamatingidos, e as residnciaspsiquitricas dosbairros estotodaslotadas,comlistasdeespera interrni-nveis- enasquais aprioridadesupostamentedadaaospsicopatas...recm-sados das prises, ern nmeros cada vez maiores. Em15 de dezembrode1998, AndrewGoldsteinrecebeualtapelaltimavezdoNorthGeneralHospital aps22diasdeinternao, cornurnaprovisodemedicamentospara uma semanade tratamento e um formulrio que diziapara ele se dirigira outrocentrode tratarnento ambulatorial.Em 3 de janeirode 1999, enquantoesperava o metr na estaoda Rua 23e Broadway, Goldstein teve um acesso psictico e de repente empurrou paraalinhaumadesconhecidaqueteveainfelicidadedeseencontrar aoseulado: 'Tiveumasensao, comosealgumacoisaestivesse entrandoemmim, como um fantasma ou esprito ou alguma coisa semelhante. Senti umanecessidadeurgentedeempurrar, bater. Quando o tremchegou, a sensa-osumiue depoisvoltou ...Empurrei amulher de cabeloslouros". KendraWebdale, 32anos, foi esmagada pelovagoemorreuna hora. Apesar deseugravehistricopsiquitrico(seudossimdicotem3.500pginas),Goldsteinfoi considerado"capaz" paraseapresentar diantedostribunais,porque, quandoestmedicado, "ele no toincapacitado quenopossaparticipar de sua prpria defesa ou suportar a tenso de um processo'P'.Pornoter recebidotratamentodosetor sanitrioesocial doEstado, senointermitentementeedeurgncia, ojovempsicticofoi definitivamenteto-madosobos cuidados dosistemapenitencirio e correoriscodesercon-denado prisoperptua.Nasduassemanas seguintesaodrama, afamliada vtimaprocessouosseis hospitaisquederamalta a Goldsteinem 1998, alm de umaqueixa pordanos civis de 20 milhes de dlares por descaso mdico por partedo siste-ma hospitalar da cidade. Um observador experiente do cenriopsiquitriconova-lorquinoconcorda: "Emquinzeanosdereportagens sobreapolticapblicade sademental, nunca vi o sistema em tal estado dedesorganiza-Citadopor Michael Winerip, "Bedlamon the Streets:Increasingly, theMentallyIII HaveNowhere to Go", Neiu York Times Maazine, 23/5/1999, p.42-4. Nas hospitalizaes preceden-tes, Goldstein se queixou de ficar roxo, de ter encolhido at medir no misque quinze cent-metros, de ter perdido o pescoo, de ter umpnis superdimensionado por ter ingerido comidacontaminada de um"vizinho homossexual", que roubava seus excrementos e os comia etc."Man Clairns 'Ghost' Drove Him to PushWoman to Her Death" e "Subway Killing SuspectIs RuledFitfor Trial", TlieNewYork Times, 4/3/1999e 6/4/1999.121r122As duasfacesdo guetoo. Cortesoramentriossemprecedentesminaramosdispositivosdeseguridadequeforamimplantadosatagora". Ecitaseisfatoresquenoslevam a prever o agravamento do tratamento penal dos psicopatas no estadodeNovaYorknosprximos anos":os6mil ltimosdoentesdosquaisoshospitais psiquitricos pblicos tentam se livrar (principalmente despejando-os nos alberguespara sem-teto, se necessrio maquiandosuas fichasmdi-cas, embora se estimeque3 mil dos 7.200 moradores dos abrigos pblicosmunicipaisde NovaYorkj sofremde problemas mentais graves) soduasvezes mais numerosos que as coortes precedentes com antecedentes crimi-nais; osabrigosqueoferecemsupervisomdica jestocompletamentelotados; os hospitais tm como poltica pr os doentesna rua no mximo emtrs semanas (depoisdisso, averbadereembolsopelotratamentodadapelo Estado cai de 775 dlarespor dia para 175 dlares, valor qued preju-zo ao hospital); o fluxode detentoscomproblemas mentais queforamlibe-radosdas cadeiase dasprisesestem seunvelmaisaltoe nopra decrescer; a retraodos programas federais de assistncia aos pobres e aosdeficientes deixa sem rede de proteoum nmerocada vez maior de doen-tes; e, finalmente, os organismos encarregados do controle da medicina psi-quitrica sofreramcortesde oramento e pessoal.Nessa corrida, os pais de Kendra Webdale lanaram, com o apoio prestimosodosdois partidospoltcosexistentes, umacampanha visando, noarefor-mar o sistemade sadepblica para remediar as carncias mdicas gritantesque resultaram na morte de sua filha, mas a instaurar medidas coercitivas queobriguem os psicopatas a tomar seus remdios, sob pena de serem presos einternados contra a sua vontade. Em vezde restaurar os recursosnecess-rios para prevenir a carncia crnica de vagas, pessoal e medicamentos queentregamprpria sortemilhares de psicopatas, a "Lei de Kendra", debatidapela AssembliaLegislativa de Nova Yorkna primavera de 1999 e aprovadapor unanimidade pelogovernador (republicano),GeorgePataki, e pelopre-sidenteda Assemblia (democrata), SheldonSilver,autoriza o controle judi-cirio e o internamento forado de doentes que recusem (ou sejam incapazes)de continuar o tratamentow, Mais uma lei que, ern vez de tratar o abandonomental dosdesvalidosnamontante, commeiossociaise mdicos,tentarconter as conseqncias najusante, com uma gesto punitiva e segregativa.3t32Michael Winerip, "Bedlam ontheStreets", cit., p. 48-9."Medication Law Illegal,Advocates for Mentally III Say" e '''Kendra's Law'Makes Progress:Pataki, Silver Back MandatoryTreatment for Mental Patients", The Bliffiilo Nervs,23/2/1999e20/5/1999.