AS DUAS FACES DO GOVERNO VARGAS - ?· 1 As duas faces do primeiro Governo Vargas Vanberto José Rossi1…

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    As duas faces do primeiro Governo Vargas

    Vanberto Jos Rossi1

    Resumo: o primeiro governo de Getlio Vargas constituiu um marco na histria brasileira. A revoluo de outubro de 1930 consolidou o incio de uma nova era no cenrio nacional, colocando o Brasil na esteira da industrializao. Contudo, a imposio dos mtodos adotados por Vargas para empreender os seus ideais, a censura e o controle da liberdade civil fizeram com que o seu governo acabasse em um ostracismo. Estabelecendo uma breve anlise do perodo, este artigo tratar do contexto e das principais causas da ascenso e queda de Getlio Vargas.

    Palavras-chave: Vargas; industrializao; revoluo burguesa; populismo.

    I. Introduzindo a questo A idia de tentar traar, em linhas gerais, o carter ambguo do Governo Vargas, pode

    parecer, ao menos em um primeiro momento, um tanto pretensiosa. Contudo, tal pretenso no busca exaltar nem atacar a Era Vargas, mas mostrar dois ngulos a partir de um contexto decisivo no cenrio nacional: por um lado, a quebra com a viso unvoca tradicional-oligrquica; e, por outro, a inaugurao de uma nova fase, em que o Brasil se inseria tardiamente, qual seja a do Capitalismo Industrial. Em grande medida, o governo de Getlio Vargas realmente significou certa ruptura com o ideal das oligarquias e promoveu um perodo de grande desenvolvimento nacional. Todavia, o carter populista daquele governo nublou os olhos da sociedade para uma poltica de cabresto, a qual sempre visava ao controle total das esferas pblica, social, econmica e, at mesmo, cultural. Duas faces, portanto: um governo autoritrio e centralizador, mascarado pelo discurso demaggico de uma pretensa democracia que se autodenominava nacional-desenvolvimentista.

    A Era Vargas foi, a partir dessa tica, um grande divisor de guas na Histria do Brasil. At ento, nenhum governo havia tentado colocar o pas de fato no contexto Mundial de industrializao nem lanado bases para criar um mercado consumidor interno. Porm, o ideal varguista de modernizao inevitavelmente se chocou com a ideologia tradicional das oligarquias, as quais assegurar que seus privilgios no seriam afetados. Talvez disso decorra o carter autoritrio do governo de Getlio Vargas: a tentativa de associar centralidade poltica2 e modernizao consolidao de uma classe burguesa realmente industrial e no de base agrria.

    Algumas questes se fazem necessrias responder. Primeiramente, em termos internos, at que ponto esse governo centralista realmente se distanciou das oligarquias? Como atingir a democracia pela via do autoritarismo? Qual a disposio dos proprietrios latifundirios em contribuir para a insero de seu pas no Mercado Mundial na categoria de industrializado, sendo que, para tanto, teriam de abdicar de grande parte do seu poder poltico? Por outro lado, fatores externos tambm contriburam para a industrializao tardia do Brasil. O protecionismo norte-americano, a economia europia em vias de reconstruo durante o perodo entre Guerras (1919-1938), a Segunda Grande Guerra e a Guerra Fria, so fatores externos que influram diretamente na evoluo industrial brasileira. A luta pelo ideal nacional-desenvolvimentista teve de ser travada em duas frentes: internamente, contra uma oligarquia parasitria e detentora da principal fonte econmica do pas; e externamente, ora contra polticas que solapavam a expanso industrial brasileira, ora contra processos que alteravam a conjuntura mundial do Grande Mercado.

    1 Graduando em Cincias Sociais pela UNESP Campus de Araraquara. 2 Ver: WEBER, Max. Os trs tipos puros de dominao legtima. In: _____. Coleo grandes cientistas sociais. So Paulo: tica, 2001, p. 128-141.

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    II. O Despertar de Uma Nova Era No decorrer do perodo entre quinze de novembro de 1889 a vinte e quatro de outubro de

    1930, h uma espcie de construo e manuteno de uma espcie de mscara republicana para ocultar o mandonismo e o clientelismo ento reinantes no Brasil aliados instituio da grande lavoura. A Repblica, em termos prticos, ainda se encontrava em vias de consolidao naquele momento e uma incrvel confluncia de fatores colocava barreiras a esse processo. Em grande medida, isso se deveu falta de habilidade poltica por parte dos governantes, os quais insistiam em formar alianas com as oligarquias, estando sempre fechados em um crculo-vicioso de troca de favores, como era a ento poltica do Caf com leite. Entretanto, se tais alianas no se firmassem ou mesmo se o governo simplesmente ignorasse o poderio tradicional das grandes famlias, sendo elas detentores da prpria base da economia brasileira, poderiam criar boicotes na produo, o que desmantelaria o Estado naquele momento. A classe dos trabalhadores urbanos tambm estava em vias de formao, o que, se por um lado favorecia o mandonismo patriarcal, por outro impedia a formao de uma burguesia industrial, a qual necessitava de mo-de-obra livre e assalariada para a circulao do capital em um possvel mercado interno. Trs fatores, basicamente, contriburam para esse quadro: primeiramente, no houve preocupao no desenvolvimento de medidas estruturais para a adequao dos escravos libertos na sociedade; segundo, a classe mdia urbana no somava um contingente suficiente para se auto-afirmar; por fim, a base da economia brasileira, naquele perodo, ainda ser fundamentalmente rural.

    Havia a necessidade da insero da indstria de transformao no Brasil, o que, invariavelmente, carregava em si o processo de uma revoluo burguesa. Em contrapartida, o tradicionalismo das oligarquias se impunha como barreira a uma transio imediata, o que levou o governo a tomar as medidas necessrias de forma excessivamente gradual, retardando ainda mais um processo que j se iniciava tardiamente. Assim, de acordo com Celso Furtado3, trs importantes dimenses devem ser pontuadas: em primeiro lugar, era necessria uma transferncia da base econmica de um aglomerado de plantaes para uma economia semi-industrial; em segundo lugar, essa transio acarretaria a emigrao de um grande contingente rural para as reas urbanas, provocando um xodo rural fator este que se iniciou na dcada de 1940 e se intensificou principalmente na dcada de 1970 , o que demandaria medidas estruturais para receber o contingente vindo do campo; finalmente, a terceira e mais importante dimenso era o fato de que se fazia extremamente necessria a criao de um Estado nacional central com um aparato tcnico e burocrtico que permitisse uma transio estruturada sobre as leis e a sistematizao.

    Era indispensvel a quebra com o regime tradicional oligrquico que se opunha enquanto principal barreira a ser transposta naquele momento. Entretanto, coloc-lo a parte implicaria no processo de industrializao no se concretizar, pois, para o bem e para o mal, era ela, a oligarquia, quem possua os insumos necessrios para iniciar o processo e conduz-lo at certo ponto. Contudo, no era, obviamente, do interesse dos grandes proprietrios renunciar alguma parte de seu poder em prol de um Estado mais forte e uma economia mais slida. Furtado coloca a questo da ruptura com a oligarquia da seguinte forma:

    Ao iniciar-se a poca republicana (1889), quase trs quartos de sculo aps a proclamao da independncia poltica, a sociedade brasileira em quase nada se diferenciava da que fora estruturada nos trs sculos de vida colonial. A escravido fora abolida no plano jurdico (1888), mas a unidade social bsica continuava a ser o grande domnio agrcola. Era este, simultaneamente, o mecanismo econmico que permitia extrair um excedente comercializvel das grandes massas rurais e o marco dentro do qual se organizava a sociedade e se estruturava o sistema de poder. O grande domnio agrcola constitui uma forma extremada de descentralizao do poder poltico. Nele prevalecem as relaes pessoais e as

    3FURTADO, Celso. Brasil: da Repblica Oligrquica ao Estado Militar. In _____ (org.) Brasil: tempos modernos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979.

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    normas jurdicas vindas de fora somente penetram na medida em que se conciliavam com a vontade do chefe local4.

    Descentralizao foi a palavra-chave da Primeira Repblica. O federalismo pautou tanto a

    diviso territorial quanto do poder, ambas em escala nacional. O grande proprietrio outorgou-se a si mesmo quatro poderes: legislar, julgar, executar e moderar o seu local de domnio, colocando um cabresto naqueles que jaziam sob seu comando. Assim se formou o coronelismo, em que os indivduos, independentemente de sua vontade poltica, estavam sob a tutela do que se chamou vulgarmente de coronel que nada mais era do que o prprio grande proprietrio local , indivduo este que estabelecia uma forma de troca de favores com os gentios locais, assegurando sua posio e sua hegemonia no poder. A condio de coronel permitia, assim, ao grande proprietrio, em funo dos favores a ele devidos, indicar um candidato de sua escolha para represent-lo politicamente.

    Paralelamente, a crescente demanda populacional brasileira carecia de medidas urgentes. O proletariado industrial, motivado pelos ideais anarquistas, comeava a se organizar, caracterizando o incio da mudana do foco rural para o urbano, especialmente no eixo Sudeste Sul. A luta entre democracia e oligarquia, portanto, abrangia todo o universo nacional, independentemente de classes sociais. De uma maneira ou de outra, a sociedade brasileira da Primeira Repblica estava inserida em alguma, ou algumas, das seguintes esferas: militarizao, democratizao e urbanizao. Reformas eram necessrias nos mbitos social, poltico e econmico e at mesmo cultural para se introduzir o pas na esteira da industrializao e, mais do que isso, mant-lo em tal posio a fim de concretizar a revoluo burguesa no Brasil. Dessa maneira, no seria possvel que a transio se desse de forma harmoniosa pelo fato de que cada grupo no buscava uma viso global do todo que constitua o Brasil naquele tempo. Alm do jogo5 interno inerente aos campos social, poltico e econmico, cada um desses campos estava tambm em luta com o outro6, de forma que o cenrio nacional se tornara essencialmente conflituoso.

    Com a crise de 1929, a presso interna se agravou ainda mais fazendo com que o liberalismo econmico clssico encontrasse seu crepsculo e a auto-regulao do mercado se tornasse uma falcia, tanto em teoria como enquanto prtica. A corrente keynesiana ganhou fora dando origem poltica do welfaire state, o que veio reforar a questo trabalhista e levar as classes subalternas ao questionamento das polticas pblicas, fortalecendo, dadas as devidas propores, a crescente classe burguesa industrial nacional. Sendo, ento, o Brasil um pas de base estruturalmente agrria e tendo o seu principal produto cotado a valores irrisrios em virtude da baixa sbita do mercado, acreditava-se que a industrializao ganharia potncia.

    III. Era Vargas: carisma, nacionalismo e dominao

    Naquele momento de crise emergiu uma figura que no apenas iria encadear as medidas

    necessrias industrializao, mas que lanaria as bases para a burocratizao nacional. Apoiado pelo Movimento Tenentista, pela ascendente burguesia industrial e parte das classes populares, Getulio Dornelles Vargas promoveu a Revoluo de vinte e quatro de outubro de 1930, depondo Washington Lus, decretando Estado de Stio e instaurando governo provisrio7. Tropas ficaram de prontido em pontos estratgicos do territrio nacional para assegurar o rechao de qualquer levante reacionrio que tentasse impedir a assim chamada revoluo. Vale ressaltar que apenas parte do

    4 Idem, ibidem. 5 Na teoria de Bourdieu, o termo jogo anlogo ao termo conflito, no sentido de embate de classes. 6 Segundo Bourdieu, a sociedade se divide em vrios campos, dentro dos quais h um jogo (ou conflito) pela hegemonia entre as classes. Nesse sentido, a luta de classes em Bourdieu segue os mesmos parmetros explicitados por Marx. 7 O governo provisrio foi instaurado aps o pas ter sido governado durante dez dias por uma junta militar. Devido crise que se instaurou no pas, inclusive com movimentos reacionrios, Vargas procurou se manter no poder fazendo alianas polticas. Em 1934 a Assemblia o elegeu de maneira indireta presidncia da Repblica, terminando com o governo provisrio quatro anos aps sua instaurao.

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    exrcito aceitou a liderana de Getlio Vargas, de modo que um grande contingente de oficiais, principalmente generais, no aderiu Revoluo de 1930 por no aceitarem um civil liderando a alta patente do Exrcito.

    No decorrer do ano de 1931, Vargas procurou fazer os preparativos para uma centralizao poltica do Pas atravs da criao do Cdigo dos Interventores8, o que subordinava as finanas dos Estados ao poder Executivo. Em 1932, ele promulgou ainda o Novo Cdigo Eleitoral, que instaurava o voto secreto, o voto feminino e a Justia Eleitoral. Dessa maneira, Vargas conseguiu a antipatia de vrios chefes locais, sobretudo os do Estado de So Paulo, os quais perderam, em parte, seu poder de cabresto sobre os gentios que jaziam sob sua tutela. Em nove de julho de 1932 eclodiu em So Paulo a Revoluo Constitucionalista, buscando a redemocratizao do pas. A revolta foi apoiada pelos oficiais militares paulistas que no haviam aderido ao outubro de 1930 e procuravam reaver o poder de mando de sua patente dentro das Foras Armadas. Caracterizando, trs dias depois, a Revoluo de 1932 como um movimento reacionrio, Vargas deu ordens ao Exrcito para contra-atacar e, em dois de outubro do mesmo ano, os paulistas foram rechaados e obrigados a assinar o Armistcio em que, alm de admitirem sua derrota, os lderes da revolta tiveram seu direito poltico suspenso por trs anos.

    No perodo entre 1932 e 1937, Vargas tomou medidas para assegurar o centralismo poltico do pas. Realizou eleies para a Assemblia Constituinte, em 1933; sancionou, em 1934, a lei que atrelava os sindicatos ao Estado, limitando seu pluralismo poltico e sua autonomia, alm de, no mesmo ano, ter sido eleito presidente da Repblica, embora de forma indireta, pela Assemblia. Vargas ainda sancionou a Lei de Segurana Nacional, a qual definia os crimes e punies contra a ordem poltica e social. Os anos de 1935 e 1936 foram marcados por vrias insurreies de carter popular, com especial destaque para a Aliana Nacional Libertadora (ANL), que reivindicava a ampliao das liberdades cvicas; e a Intentona Comunista, a qual foi reprimida pelo governo e teve seus lderes presos, dentre os quais Lus Carlos Prestes. Ainda em 1935, Vargas declarou Estado de Stio e, posteriormente, Estado de Guerra, dando incio perseguio poltica aos partidrios do movimento comunista. Em 1937, promoveu um golpe de Estado, dissolvendo o Congresso e outorgando uma nova constituio. Decretada a dissoluo dos partidos polticos e publicado o Cdigo de Imprensa, estavam, assim, instauradas a ditadura e a censura.

    A partir de ento, Vargas deu incio burocratizao e sistematizao do Estado nacional, paralelamente aplicao de medidas populistas de governo, criando, em 1938, o Departamento Administrativo do Servio Pblico (DASP) com o objetivo de melhorar o aparelho administrativo brasileiro. Em 1939, foi sancionada a Lei de Sindicalizao que definia um sindicato nico por categoria profissional e criado o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), porta-voz oficial do governo que afunilava o contedo programtico dos meios de comunicao, especialmente a radiodifuso. No ano de 1940, Vargas estabeleceu a Lei do Salrio Mnimo, estipulando um teto salarial para os trabalhadores urbanos; o imposto sindical que visava financiar a estrutura corporativa dos sindicatos; e o Servio de Alimentao da Previdncia Social (SAPS), o qual consistia em uma rede de refeitrios situados nas principais cidades brasileiras, garantindo aos trabalhadores dessas localidades a aquisio de alimentos por preos mais baixos. Em 1941, foi criada a Companhia Siderrgica Nacional (CSN) visando ao incentivo indstria pesada no pas. Em 1942, o Brasil aderiu aos Aliados na Segunda Grande Guerra e foi criada a Fora Expedicionria Brasileira (FEB), a qual enviou soldados para lutarem durante a Segunda Grande Guerra, na Itlia. No mesmo ano, foi criado o Sistema S, garantindo formao de mo-de-obra especializada para a indstria, ento em pleno desenvolvimento, e em 1943 foi editada a Consolidao das Leis do Trabalho (CLT), estabeleceu normas legais na relao entre patres e empregados.

    Como possvel notar ao longo dessa breve cronologia do primeiro governo de Getlio Vargas, a ambigidade constituiu sua essncia. A aproximao popular varguista fez com que as

    8 O Cdigo dos Interventores foi promulgado em 29/08/1931 com a finalidade de impedir que os Estados contrassem emprstimos sem prvia consulta ao Executivo e gastar mais de 10% de seu valor em caixa com polticas militares.

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    massas fossem favorecidas de uma forma nunca antes anunciada na histria do Brasil at ento. Os trabalhadores tiveram seus direitos garantidos legalmente, as ofertas de emprego, com o incentivo dado indstria por parte do governo, aumentaram consideravelmente no perodo e o pas vislumbrou uma fase de grande crescimento econmico. Tal era o crescimento alcanado que, pouco antes da Segunda Grande Guerra, o Brasil j estava em vias superar a importao de grande porcentagem dos produtos utilizados nacionalmente.

    A anlise do comrcio externo do Brasil revela a transformao profunda que se vai operando. Apesar do crescimento da populao e de uma ntida elevao de seus padres mdios de vida, a tendncia para o declnio e mesmo desaparecimento da importao de vrios itens que nela ocupavam posio de destaque; assim os gneros alimentares e grande nmero de manufaturas, sobretudo de bens de consumo. As importaes restringir-se-o aos poucos e j antes da II Guerra Mundial, a certas mercadorias muito particulares: combustveis (de que o Brasil pobre, salvo em petrleo que somente comea a se produzir entre ns depois da II Guerra Mundial), o trigo, matrias-primas industriais, produtos qumicos e matrias-primas semiprocessadas que se destinam elaborao, no pas, de drogas e medicamentos, algumas manufaturas de metal, motores, mquinas e veculos, aparelhos e utenslios de certa complexidade. (...) A indstria nacional veio progressivamente substituindo com seus produtos a importao de quase tudo que diz respeito a bens de consumo corrente; inclusive, depois da II Guerra Mundial, os bens durveis e parte j significativa dos bens de produo9.

    Por outro lado, com essa incrvel projeo alcanada pela economia nacional, em meados do

    primeiro governo Vargas, a partir do crescimento urbano, questo agrria foi conferido um papel secundrio, ficando os trabalhadores rurais aqum dos benefcios obtidos pelos trabalhadores urbanos. A razo da ecluso do meio rural se deu pelo fato de que Vargas no pde tomar para si uma grande parte do poder dos senhorios locais sem ressarc-los de alguma forma. E essa forma encontrada por Vargas foi relegar cargos do Poder Pblico aos proprietrios que perderam sua hegemonia. preciso observar que naquela ocasio as oligarquias ainda detinham uma grande parcela da economia brasileira plantada em suas lavouras, e no somente caf, mas outros produtos que passaram a fazer parte da economia nacional, como o cacau e o ltex. A Revoluo Burguesa no Brasil teve, portanto e necessariamente, de passar pelas mos das oligarquias. Obviamente, disso decorreu que, embora a indstria estivesse em pleno desenvolvimento, a base agrria continuava a sondar os movimentos da escalada econmica brasileira. Desse modo, o trabalhador rural no poderia desfrutar dos mesmos benefcios que os trabalhadores urbanos, pois da sua produo dependia grande parte da economia nacional, ou ao menos uma parte grande o suficiente para impedir que os direitos trabalhistas se circunscrevessem tambm a eles.

    No obstante, havia, ainda, a crescente insatisfao da classe militar com a poltica empreendida por Vargas que se aproximava cada vez mais da concluso do processo de democratizao, o que faria com que o Exrcito perdesse ainda mais fora poltica. O choque da base anarco-sindicalista do proletariado, que vinha das duas primeiras dcadas do sculo XX, somada aos ideais comunistas em ascenso um agindo no mbito fabril e outro nas classes mdias urbanas com uma classe militar contrria a ambas as teorias, acarretou um estranhamento entre o povo e o Exrcito. Isso acabou por ocasionar a ruptura entre a classe militar e o governo de Vargas, com demonstra Jos Murilo de Carvalho:

    medida que se tornava clara a vitria dos Aliados, intensificava-se a preparao para a democratizao e o apelo aos operrios. A imagem de Vargas como o pai dos pobres, o amigo dos operrios, foi sendo sistematicamente construda. O movimento chegou ao auge com a proposta de uma Assemblia Constituinte com Vargas, apoiada at mesmo pelo Partido Comunista do Brasil. Essa guinada, (...),

    9 JUNIOR, Caio Prado. Histria econmica do Brasil. Braslia: Editora da UNB, 2004, p. 290.

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    foi a causa imediata do divrcio entre Vargas e as Foras Armadas. Estas, ou melhor a faco que as dominava, j ento tomadas pelo anticomunismo e pela pretenso de guiar o Estado, no aceitaram a busca de novo ator poltico que lhe era poltica e ideologicamente antagnico10.

    IV. O legado de Vargas Em 1945, se iniciou o processo de redemocratizao do pas. As promulgaes da Lei

    Constitucional n9 ou Ato Adicional , que estatua eleies para a presidncia da Repblica, da Cmara, do Senado e das assemblias legislativas; do decreto-lei que antecipava as eleies de maio de 1946 para dezembro de 1945; e a fundao da Unio Democrtica Nacional (UDN), so alguns fatores que demonstram a crise do primeiro governo Vargas. A oposio se fortalecia apoiada pelos generais insatisfeitos liderados por Eurico Gaspar Dutra e Gis Monteiro e em outubro de 1945, aps esses generais posicionarem tropas cercando o Palcio da Guanabara, residncia do ento presidente, foi decretada a deposio de Getlio Vargas, o qual assinou sua renncia formal no mesmo dia.

    O governo Vargas foi caracterizado por duas faces: uma populista e outra desptica. Ao mesmo tempo em que se aproximava das massas e satisfazia algumas das suas principais necessidades, a essas mesmas massas ele impunha uma ditadura. De outro ngulo, no seria possvel manter um alto nvel de crescimento econmico, como foi o alcanado na poca, sem um Estado centralizado e sistematizado, sem uma distribuio razovel do poder e sem um aparelhamento pblico minimamente organizado. E, nesse sentido, a tentativa de Vargas foi justamente a de concretizar uma Revoluo Burguesa no Brasil.

    No obstante, essa ambigidade, que constitua seu epicentro era tambm sua maior fraqueza. Se, por um lado, o poder adquirido por Vargas possibilitou sua ascenso ao governo e mudou a marcha da histria do Brasil, por outro, pode-se dizer que aquele mesmo poder foi o que acarretou sua derrocada. Ao perder o apoio das Foras Armadas, Vargas perdeu tambm a principal base de sustentao do seu governo e da sua poltica centralista, pois um governo que no tem apoio do seu exrcito, principalmente um exrcito com grande influncia enquanto classe, tende ao fracasso, seno lenta, mas gradativamente. A forma e o contedo do governo Vargas foram, respectivamente, o apoio militar e a poltica de massas. Com o apoio das camadas populares e da maioria dentro das Foras Armadas, o que se esperava e que foi o que ocorreu era um governo prspero, em termos scio-econmicos. Contudo, ao longo de seu governo, Vargas procurou promover uma democracia a partir de uma tirania, de uma ditadura que, ao mesmo tempo em que dava a liberdade de escolha do soberano ao povo, garantindo-lhe uma boa dose de democracia, tirava deste sua liberdade de expresso, o que feria de morte aquela mesma democracia. Disso decorreu a insatisfao da maioria, fazendo com que, como em uma espcie de efeito domin, todas as esferas social, poltica, econmica, cultural construdas por Vargas vissem tambm abaixo, deixando mostra as entranhas de um governo corrompido por aquilo que havia sido outrora a razo do seu nascimento.

    O xito de Vargas, entretanto, reside justamente no encaminhamento de uma poltica de quebra com o passado colonial que ainda insistia em se fazer um forte pilar de sustentao do pas. Bem ou mal, o perodo Vargas constituiu um grande marco na histria do Brasil ao definir parmetros que condicionaram a forma de se fazer poltica a partir de ento at os dias atuais.

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    10 CARVALHO, Jos Murilo de. Vargas e os Militares: Aprendiz de Feiticeiro. In: DARAJO, Maria Celina (org). As Instituies Brasileiras da Era Vargas. Rio de Janeiro: EdUERJ; Ed. FGV, 1999.

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