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  • ANLISE DO DISCURSO

    CADERNOS DO CNLF, VOL. XI, N 07 74

    AS DIFERENTES FACES UTILIZADAS NA CONSTRUO DE RAPS

    Tatiana Aparecida Moreira (UFES) taty-am@bol.com.br

    INTRODUO

    De uma maneira geral, raps caracterizam-se por trazerem, em suas letras, a insatisfao e a crtica sobre algum problema que atinge sociedade como um todo ou, como no caso dos raps analisados neste trabalho, Racistas Otrios, dos Racionais MCs, e Lavagem Cerebral, de Gabriel O Pensador, uma espcie de desabafo e rep-dio ao problema do preconceito racial sofrido por muitas pessoas em pleno sculo XXI.

    No rap Racistas Otrios, dos Racionais MCs, cujo refro Racistas otrios nos deixem em paz, h uma clara meno aos que tm preconceito, com um pedido, em forma de ordem, para que os discriminadores parem com tal prtica. Em Lavagem Cerebral, de Gabriel O Pensador, tambm h o pedido para se fazer uma espcie de lavagem cerebral, pois, s assim, de acordo com o rapper, as pessoas se libertariam e no seriam mais discriminadoras.

    Como se nota, nesses raps h a crtica prtica da discrimi-nao racial e, conseqentemente, tal desaprovao pode funcionar como violadora da face positiva dos indivduos que fazem tal ato.

    Assim, como ser analisada a construo das diferentes faces nos dois raps, este trabalho utilizar, como suporte terico, as noes de Goffman (1967) sobre atuao no meio social e a Teoria da Poli-dez, proposta por Brown e Levinson (1987).

    Tambm sero expostas as concepes de gnero do discurso, encontrada em Koch (2003), e a do gnero cano, proposta por Cos-ta (2003), por se estar analisando raps. Alm disso, ser feita uma pequena exposio da cultura Hip Hop a fim de que se entenda o contexto no qual os raps esto inseridos.

    E para se verificar a construo das faces nos dois raps anali-sados, foram observados os atos que ameaam s faces positiva e ne-

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    gativa dos falantes e dos ouvintes, bem como as estratgias de poli-dez positiva adotadas pelos falantes. No se pretende, com este tra-balho, definir como via de regra que, em outros raps, tambm coin-cidam os mesmos atos de ameaas s faces e as mesmas estratgias de polidez positiva, pois, como se sabe, cada enunciado nico e ca-da situao comunicativa tem seu contexto, no cabendo repeties e sim inovaes, uma vez que o contato e a interao com o outro se renova a todo o momento.

    CARACTERIZANDO A CULTURA HIP HOP

    Antes de fazer uma pequena explanao sobre o movimento Hip Hop e como se trabalhar com o gnero cano (raps), sero a-presentadas as definies de gnero do discurso, exposta em Koch, e a de gnero cano, de Costa.

    A lingista Ingedore Koch menciona que os gneros do dis-curso esto diretamente relacionados s diferentes situaes sociais. E, segundo Schneuwly, citado por Koch (2003, p. 55), o gnero po-de ser considerado como ferramenta, na medida em que um sujeito o enunciador age discursivamente numa situao definida a ao por uma srie de parmetros, com a ajuda de um instrumento se-mitico o gnero.

    J o gnero cano, segundo Costa (2003, p. 59, grifo do au-tor), um gnero hbrido, de carter intersemitico, pois o resul-tado de dois tipos de linguagens, a verbal e a musical (ritmo e melo-dia). Esse gnero apresenta alguns subgneros, como o rap, caracte-rstico da cultura Hip Hop14.

    O Hip Hop tem suas origens, na dcada de 60, em bairros pe-rifricos dos Estados Unidos, como o Bronx, em um perodo em que a luta pelos direitos civis dos negros fortaleceu-se, com conseqente valorizao da cultura negra. O movimento Hip Hop teve como um de seus lderes o DJ Afrika Bambaataa que utilizava diferentes tipos de gravaes para criar os raps. Esses sons eram desde James Brown

    14 Esse termo significa: hip que quer dizer quadril e hop, salto, ou seja, saltar movendo os qua-dris.

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    (o mestre da soul music) at o som eletrnico da msica Trans-Europe Express (da banda europia Kraftwerk), misturadas ao canto falado trazido pelo DJ jamaicano Kool Herc.

    O movimento Hip Hop tambm denominado de cultura e apresenta como elementos principais o break, o graffiti, o MC ou rapper e o DJ. O MC (mestre de cerimnia) ou rapper a pessoa que canta e, geralmente, produz os raps15, estes contm em suas le-tras muitos questionamentos e crticas sociedade em geral. O street dance ou break a dana, com muitos passos que surgiram em pro-testo guerra do Vietn e que imitavam os movimentos dos feridos nos combates, com coreografias quebradas, por isso o nome break. O graffiti representa a artes plsticas feitas pelos grafiteiros e o DJ a pessoa responsvel pelas mixagens dos sons.

    No Brasil, essa cultura chegou por volta da dcada de 80, transformando o centro de So Paulo no principal plo de Hip Hop do pas. Atualmente, o movimento e seus elementos j esto presen-tes em outros estados, como Rio de Janeiro e Esprito Santo, s para citar alguns exemplos.

    CONSIDERAES TERICAS

    Neste tpico sero mencionadas as noes de Goffman (1967) sobre atuao do ser humano no meio social e um breve esboo da Teoria da Polidez, proposta por Brown e Levinson (1987), que am-pliaram o que fora proposto por Goffman.

    Goffman, em seus estudos, menciona que cada pessoa possui uma face, uma espcie de mscara, que utilizada pelos indiv-duos para serem aceitos socialmente, e, para tal, valem-se de alguns recursos, como observao dos gestos, dos olhares, dos posiciona-mentos dos interlocutores, entre outros, a fim de preservarem, no s a sua, mas tambm a face de seu parceiro.

    Brown e Levinson (1987) no livro Politeness some universals in language usage estudam os princpios utilizados na construo da

    15 Rap a sigla de rhythm and poetry e significa ritmo e poesia.

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    polidez na linguagem cotidiana. E, para tal, descrevem e esclarecem alguns paralelismos existentes na construo lingstica dos enunci-ados com que os povos se expressam em lnguas e em culturas dife-rentes. Os estudiosos, a fim de comprovarem isso e de que possvel se ter universais de polidez, fazem a anlise de trs lnguas e culturas diferentes, que so: o Tamil do sul da ndia, o Tzeltal falado por n-dios Maias em Chiapas, no Mxico, e o ingls dos EUA e o da Ingla-terra. Os autores partem do pressuposto de que, mesmo em lnguas e em culturas diferentes, encontram-se alguns princpios gerais (de co-operao, de preservao da face, de ameaa face do outro, entre outros) que regem a interao social e, desse modo, o modelo de po-lidez forneceria as ferramentas necessrias para analisar a qualidade de relaes sociais em toda a sociedade.

    Os dois tericos mencionam que cada pessoa tem uma face positiva e uma negativa que representam, respectivamente, a facha-da social e o verdadeiro eu de cada indivduo. E como, em cada interao social, existem pelo menos dois participantes, tem-se, pelo menos, quatro faces, duas pertencentes ao falante (uma positiva e uma negativa) e outras duas relacionadas ao ouvinte (uma positiva e uma negativa).

    E como tanto o falante quanto o ouvinte esto em interao a todo o momento, os atos produzidos por eles podem, de alguma ma-neira, ameaar a face de um ou de outro. Esse ato de ameaa face denominado, por Brown e Levinson, de Face Threatening Act (FTA). Assim, pode-se fazer o ato indiretamente (off record), dire-tamente (on record) e de um modo mais direto ainda (bald on record) , com o emprego de formas imperativas, por exemplo.

    Desse modo, segundo os estudiosos, a fim de serem polidos e evitarem atos que ameacem ou quebrem suas faces, os falantes e os ouvintes usam diferentes recursos para preservarem suas faces tanto a positiva quanto a negativa. E tambm em Politeness some univer-sals in language usage, Brown e Levinson descrevem e exemplifi-cam as estratgias utilizadas pelos interlocutores nesse processo de manuteno de suas faces, alm de abordarem os atos que ameaam as faces positivas e negativas dos interlocutores.

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    Desse modo, como em cada situao conversacional h pelo menos dois interlocutores, os atos, que ameaariam face positiva e negativa de ambos, podem ser assim distribudos:

    Atos que ameaam o territrio, a face negativa, do ouvinte: ordens, pedidos, sugestes e conselhos no requeridos, ameaas, ad-vertncias, entre outros. Ou seja, tudo aquilo que o falante menciona com o objetivo de intimidar o territrio do outro, fazendo-o se sen-tir desconfortvel e intimidado diante de determinada situao.

    - Atos que ameaam a mscara, a face positiva, do ouvinte: provocaes, reclamaes, crticas, discordncia, entre outros. Ou se-ja, os atos mencionados pelo falante que provocam incmodos no ouvinte e o fazem se sentir ameaado.

    - Atos que ameaam a face negativa, o territrio, do falan-te: aquilo que faz com que o falante sinta-se desestabilizado e seja levado a fazer algo em benefcio de outrem, como prometer algo ao ouvinte e ter que cumprir.

    - Atos que ameaam a face positiva, a fachada social, do falante: pedir desculpas, assumir erros, entre outros. Ou seja, so atos que levam o falante ao desconforto por expor suas fragilidades e suas limitaes.

    As estratgias referentes preservao da face positiva, tanto do falante quanto a do ouvinte, so as seguintes: Observe e preste a-teno nos interesses, nos desejos e nas necessidades do outro; Exa-gere o interesse, a aprovao e a simpatia pelo outro; Intensifique o interesse pelo outro; Use marcas de identidade de grupo; Faa acor-dos; Evite desacordos; Pressuponha, declare pontos em comum; Faa brincadeiras/piadas; Explicite e pressuponha os conhecimentos sobre os desejos do outro; Oferea, prometa; Seja otimista; Inclua o ouvin-te na atividade; D ou pea razes, explicaes; Assuma ou reivindi-que reciprocidade; D presentes.

    J as estratgias ligadas face negativa dos dois interlocuto-res so: Seja convencionalmente indireto; Questione, seja evasivo; Seja pessimista; Minimize a imposio; Mostre deferncia; Pea desculpas; Impessoalize o falante e o ouvinte: evite os pronomes "eu" e "voc"; Fazer o FTA como uma regra geral; Nominalize; V

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    diretamente como se estivesse assumindo a responsabilidade, ou co-mo se no estivesse responsabilizando o ouvinte.

    Ao passo que as estratgias indiretas (off record) so: D pis-tas para que a pessoa faa associaes, pressuposies; D indcios para as associaes; Pressuponha; Fale moderadamente; Exagere, aumente a importncia; Use tautologias; Use contradies; Seja ir-nico; Use metforas; Faa perguntas retricas; Seja ambguo; Seja vago; Generalize o mximo que puder; Desloque o ouvinte; Seja in-completo, use elipse.

    Aps a exposio de alguns pressupostos tericos, passar-se- a anlise dos raps selecionados.

    ANLISE DOS RAPS

    Os raps Lavagem Cerebral (em anexo), do rapper Gabriel O Pensador, e Racistas Otrios (em anexo), dos Racionais MCs, abordam questes referentes ao preconceito racial sofrido por muitas pessoas no Brasil. No caso de Racistas Otrios, os rappers abor-dam o preconceito sofrido pelas pessoas pobres, geralmente as ne-gras, residentes nas periferias dos grandes centros urbanos e o desca-so diante de tal assunto no s das instituies governamentais, mas tambm da sociedade de um modo geral, demonstrando, por meio da letra, que eles tambm sofrem com esse preconceito. J em Lava-gem Cerebral, o rapper, embora critique e repudie a prtica do ra-cismo e do preconceito, diferentemente do primeiro rap, parece no ser vtima de preconceito, o que confere um maior distanciamento ao abordar o tema.

    Nos raps, foram observados e sero apontados os atos que ameaam as faces positiva e negativa do falante e dos ouvintes, bem como as estratgias de polidez positiva adotadas pelos falantes. Co-mo os raps tm letras extensas, s sero mostrados alguns trechos nos quais ocorrem os atos de ameaa s faces e as estratgias de po-lidez positiva, uma vez que j foi explicado o contexto dos dois raps. Respectivamente sero analisados os raps Racistas Otrios, dos Racionais MCs, e Lavagem Cerebral, de Gabriel O Pensador.

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    Racistas Otrios

    Em Racistas Otrios, nota-se uma maior proximidade do fa-lante para com o ouvinte, o que torna esse falante, s vezes, menos polido e mais ameaador face do outro, tanto a positiva quanto a negativa. O ouvinte, neste caso, no a pessoa que ouve o rap, mas as pessoas que discriminam e as que sofrem discriminao. Assim, o pronome eles ora refere-se s pessoas que sofrem discriminao ora as que discriminam. O pronome ns atribudo ao falante e s vezes a este e as outras pessoas que sofrem com o preconceito.

    O rap tem como refro Racistas otrios nos deixem em paz. Nesse refro, observa-se que h a quebra da face positiva do ouvinte (o discriminador), pois o falante de forma imperativa solicita que os racistas otrios no o incomodem mais. Conseqentemente o fa-lante quebra a prpria face positiva por quebrar a de seu parceiro na interao, mas, mesmo quebrando sua face positiva, o que prevalece a preservao de sua face negativa, pois no permite que os outros (racistas) invadam a sua privacidade, ou seja, o seu territrio.

    Nos trechos Ento eu digo meu rapaz/esteja constante ou a-briro o seu bolso/e jogaro um flagrante num presdio qualquer/ser um irmo a mais, h um ato de ameaa face negativa do ouvinte, s que, nesse caso, este a pessoa que sofre com a discriminao. Percebe-se que o falante d um conselho ao rapaz, expondo a face negativa deste, uma vez que, com tal conselho, o falante pode fazer com que o ouvinte sinta-se incomodado com um conselho no solici-tado. O ato de ameaa face negativa do ouvinte parece ser minimi-zado quando o falante utiliza, como estratgia de polidez positiva, marcas de identidade de grupo, chamando-o de irmo, demons-trando que presta ateno e tem interesse pelo outro.

    Em E de repente o nosso espao se transforma/Num verda-deiro inferno e reclamar direitos/De que forma?/Se somos meros ci-dados/E eles o sistema/E a nossa desinformao o maior proble-ma, nota-se a exposio da face positiva do falante, uma vez que es-te se questiona, admitindo o que seria um possvel erro de sua parte, representado principalmente pelo ltimo verso. O falante, no entanto, atravs dos pronomes ns e nosso, inclui tambm o ouvinte (o discriminado) como co-participante da situao, minimizando o ato contra si, utilizando como estratgia de polidez positiva a declarao

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    de pontos em comum com o ouvinte. Outros exemplos seriam os versos: Como marionetes ns somos movidos, E hoje o que fa-zemos/Assistimos a tudo de braos cruzados/At parece que nem somos ns os prejudicados.

    Nos versos Porm direi para vocs irmos/Nossos motivos para lutar ainda so os mesmos/O preconceito e desprezo ainda so iguais/Ns somos negros temos nossos direitos, observa-se que o falante preserva a sua face positiva e tambm a de seu ouvinte, este est includo na interao atravs dos pronomes ns e nosso. O falante protege sua face positiva e de seu parceiro na interao, utili-zando, como estratgia de polidez positiva, a declarao de pontos em comum com o ouvinte, pois menciona que o problema da discri-minao algo sofrido por ambos, incluindo, dessa forma, o outro na atividade comunicativa. Tambm utiliza a estratgia de polidez posi-tiva denominada de marcas de identidade de grupo ao se referir ao ouvinte como irmo, buscando ser solidrio, diminuindo, assim, a distncia social entre ambos.

    Nos fragmentos Os poderosos so covardes desleais / Espan-cam negros nas ruas por motivos banais, o falante fala dos discrimi-nadores (os poderosos) aos que sofrem com o preconceito. O fa-lante usa a palavra poderosos de forma genrica, no se dirigindo diretamente aos que detm o poder, como os governantes, uma vez que os poderosos poderiam ser, por meio do contexto, qualquer um que no gosta de negros. Pode-se perceber que h um ato de amea-a face positiva do opressor, tendo em vista que o falante provoca-os e os critica, chamando-os de desleais e mencionando que eles es-pancariam os negros, no se preocupando, portanto, em ser polido, visto que no parece ser essa a sua inteno, pois demonstra que est insatisfeito com a situao de opresso sofrida pelos negros.

    Percebe-se que, na construo do rap Racistas Otrios, h quebras de faces, atos que ameaam s faces positivas e negativas do ouvinte e algumas estratgias de polidez positiva. A exposio e, conseqente, ameaa face do ouvinte discriminador acontece para mostrar a insatisfao do falante com a questo do preconceito sofri-do por ele e por outras pessoas que esto tambm na mesma condi-o que a sua. Quando o falante expe a face do ouvinte discrimina-do com o objetivo de alert-lo a fim de que saiba se defender do

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    opressor e lutar pelos seus direitos, por isso usa estratgias de poli-dez positiva a fim de inclu-lo na interao.

    Lavagem Cerebral

    Diferentemente de Racistas Otrios, no rap Lavagem Ce-rebral no abordada s a questo do preconceito contra o negro, h tambm meno discriminao sofrida por outras pessoas, como os nordestinos. O falante no fala diretamente para o povo ou para a elite, menciona-os de forma indireta, utilizando um voc generali-zante a fim de preservar sua face positiva, sendo, portanto, mais po-lido, uma vez que aumenta a distncia social em relao ao ouvinte. Quando utiliza a forma inclusiva ns, que ora refere-se s ao falan-te ora relaciona-se a este e ao seu parceiro no processo conversacio-nal, o falante diminui a distncia entre ambos. O ouvinte, neste rap, so as pessoas preconceituosas.

    Nos trechos Essa gente do Brasil muita burra/E no enxer-ga um palmo sua frente/Porque se fosse inteligente esse povo j te-ria agido de forma mais consciente/Eliminando da mente todo o pre-conceito/E no agindo com a burrice estampada no peito, percebe-se que o falante critica o ouvinte, chamando-o de burro, ameaan-do face positiva deste. E embora o falante exponha sua face positi-va ao ser contra as pessoas preconceituosas, consideradas por ele como burras, no chega a amea-la, pois se declara contra o pre-conceito, fato que contribui para a preservao de sua face positiva.

    Em outros versos do rap, tambm h atos de ameaa face positiva dos ouvintes, uma vez que o falante critica diferentes seg-mentos da sociedade brasileira sobre o preconceito, como a elite e o povo, mostrando, uma vez mais, a inrcia das pessoas diante de tal situao. Os seguintes trechos so exemplos desse ato de ameaa face positiva dos ouvintes: A elite que devia dar um bom exem-plo/ a primeira a demonstrar esse tipo de sentimento e O povo vai como um bundo na onda do racismo e da discriminao/No tem a unio e no v a soluo da questo.

    Quando o falante utiliza um ns inclusivo, ele assume que tambm tem responsabilidade em resolver a questo sobre o precon-ceito, expondo sua face positiva, mas no chega a amea-la, pois

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    prope uma soluo para o problema, atenuando, dessa forma, o ato de ameaa sua face positiva. Ao incluir o outro na interao, o fa-lante faz um ato de salvamento da face positiva de ambos, tendo em vista que uma possvel resoluo para se acabar com o preconceito seria algo que poderia ser feito pelos dois, enfatizando a proximidade entre ambos, utilizando como estratgia de polidez positiva a decla-rao de pontos em comum para com o ouvinte. Estes versos so e-xemplos do que foi mencionado: S precisamos de uma reformula-o geral/Uma espcie de lavagem cerebral [...] Se no fosse o retra-to da nossa ignorncia/Transmitindo a discriminao desde a infn-cia [...] Precisamos da lavagem cerebral pra acabar com esse lixo que uma herana cultural.

    O falante quebra sua face positiva e tambm a do ouvinte, nestes versos: No seja um imbecil/No seja um Paulo Francis/No se importe com a origem ou a cor do seu semelhante [...] Faa uma lavagem cerebral [...] Tire a burrice do peito e me d ouvidos. Nota-se que, nesses versos, o falante, de forma imperativa, ordena que a audincia no seja preconceituosa, quebrando a prpria face positiva ao quebrar a do ouvinte, chamando-o de imbecil e mencionando para no ser como o polmico Paulo Francis, fazendo com que, dessa forma, a audincia fique constrangida diante de tal situao.

    Nos versos finais do rap, h uma mescla entre estratgia de polidez positiva, com atos de ameaa e quebra de face positiva. O fa-lante, inicialmente, busca proximidade com o ouvinte, chamando-o de irmo, a fim de conquistar a confiana deste para dizer o que realmente deseja, utilizando, desse modo, marcas de identidade de grupo, como estratgia de polidez positiva. A seguir, o falante diri-gindo-se ao povo e a elite, ou seja, a sua audincia, ameaa e, s vezes, chega a quebrar a face positiva desta, pois, de forma incisi-va, solicita que as pessoas faam uma lavagem cerebral e no se-jam mais preconceituosas. Contudo, mesmo ameaando e quebrando a face positiva dos ouvintes, o falante no quebra ou ameaa a sua face positiva, uma vez que se diz contra a discriminao sofrida, principalmente, pelos negros, mas tambm por outras pessoas, como os nordestinos. Os seguintes trechos comprovam isso: Ento eu di-go meu irmo/Seja do povo ou da elite/No participe/Pois como eu j disse racismo burrice [...] E se voc mais um burro/No me leve a mal/ hora de fazer uma lavagem cerebral/Mas isso com-

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    promisso seu/ Eu no vou me meter/Quem vai lavar a sua mente no sou eu/ voc.

    Como se nota, na construo do rap Lavagem Cerebral, o falante utiliza diferentes recursos para mostrar que contra o pre-conceito racial, predominando, assim, os atos de ameaa face posi-tiva do ouvinte, uma vez que o falante critica e repudia tal atitude praticada pela audincia. E quando o falante faz um meio-termo ao utilizar o ns inclusivo, embora exponha sua face positiva, ele no chega a amea-la, pois compartilha com a audincia uma possvel soluo para o problema do preconceito, utilizando a declarao de pontos em comum, como estratgia de polidez positiva. Nota-se des-sa forma, que o falante tenta, a todo o momento, preservar sua face positiva, embora, s vezes, exponha, ameace e a quebre. Contudo, percebe-se que o falante faz tudo isso com o intuito de manifestar sua insatisfao e indignao diante de um fato que considera vergo-nhoso.

    CONCLUSO

    Como pde ser notado, no rap Racistas Otrios predomina-ram os atos que ameaavam s faces positivas e negativas do ouvinte com conseqente exposio da face positiva do falante. Em Lava-gem Cerebral predomina a preservao da face positiva do falante. Nota-se que a diferena entre ambos est no fato de o falante do pri-meiro rap, por tambm sofrer com a discriminao, ter atitudes mais incisivas ao abordar a questo que o falante do segundo rap, que pa-rece no sofrer com o preconceito.

    Assim, nos dois raps, cada falante, a sua maneira e com o ob-jetivo de falar sobre o preconceito racial, vale-se da palavra cantada para demonstrar a sua insatisfao diante de tal assunto, s vezes de forma mais categrica, outras de forma mais atenuada. Mas, mais do que preservar ou ameaar faces, o que se nota o desejo de ambos os falantes de que no haja mais discriminao, uma vez que no a cor da pele ou as caractersticas fsicas das pessoas que vo faz-las dife-rentes e sim o que elas realmente so, ou seja, com os seus valores.

    E, como menciona o rapper Gabriel o Pensador, preciso fa-zer uma lavagem cerebral, pois, quem sabe assim, as pessoas tenham

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    seus direitos preservados e no precisem mais lutar para garantirem a observncia da lei para que em vez de o preconceito e o desprezo ainda so iguais falem o preconceito e o desprezo no existem mais.

    Como j foi mencionado, este trabalho no tem a pretenso de que em outros raps aconteam os mesmos atos de ameaa s faces positiva e negativa e as mesmas estratgias de polidez positiva, uma vez que a exposio e a conseqente ameaa s faces positiva e ne-gativa dos parceiros na interao verbal uma constante, bem como o desejo de ambos em preserv-las, pois, como se sabe, cada um pre-cisa, para ser aceito socialmente, utilizar diferentes estratgias que preservem suas faces, tanto a positiva quanto a negativa, mesmo que a maioria das pessoas desconhea as concepes de face positiva e face negativa, assim como as estratgias de polidez propostas por Brown e Levinson.

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS

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    ANEXOS

    Racistas Otrios

    Composio: Mano Brown

    Racistas otrios nos deixem em paz Pois as famlias pobres no agentam mais Pois todos sabem e elas temem A indiferena por gente carente que se tem E eles vem Por toda autoridade o preconceito eterno E de repente o nosso espao se transforma Num verdadeiro inferno e reclamar direitos De que forma? Se somos meros cidados E eles o sistema E a nossa desinformao o maior problema Mas mesmo assim enfim Queremos ser iguais Racistas otrios nos deixem em paz Racistas otrios nos deixem em paz Justia Em nome disse eles so pagos Mas a noo que se tem limitada e eu sei Que a lei implacvel com os oprimidos Tornam bandidos os que eram pessoas de bem Pois j to claro que mais fcil dizer Que eles so os certos e o culpado voc Se existe ou no a culpa Ningum se preocupa Pois em todo caso haver sempre uma desculpa

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    O abuso demais Pra eles tanto faz No passar de simples fotos nos jornais Pois gente negra e carente No muito influente E pouco freqente nas colunas sociais Ento eu digo meu rapaz Esteja constante ou abriro o seu bolso E jogaro um flagrante num presdio qualquer Ser um irmo a mais Racistas otrios nos deixem em paz Racistas otrios nos deixem em paz Ento a velha histria outra vez se repete Por um sistema falido Como marionetes ns somos movidos E h muito tempo tem sido assim Nos empurram incerteza e ao crime enfim Porque a sim certamente esto se preparando Com carros e armas nos esperando E os poderosos me seguram observando O rotineiro Holocausto urbano O sistema racista cruel Levam cada vez mais Irmos aos bancos dos rus Os socilogos preferem ser imparciais E dizem ser financeiro o nosso dilema Mas se analisarmos bem mais voc descobre Que negro e branco pobre se parecem Mas no so iguais Crianas vo nascendo Em condies bem precrias Se desenvolvendo sem a paz necessria So filhos de pais sofridos E por esse mesmo motivo Nvel de informao um tanto reduzido No... um absurdo So pessoas assim que se fodem com tudo E que no dia a dia vive tensa e insegura E sofre as covardias humilhaes torturas A concluso sua...KL Jay Se julgam homens da lei/Mas a respeito no sei

    Porm direi para vocs irmos Nossos motivos pra lutar ainda so os mesmos O preconceito e desprezo ainda so iguais Ns somos negros tambm temos nossos ideais

  • ANLISE DO DISCURSO

    CADERNOS DO CNLF, VOL. XI, N 07 88

    Racistas otrios nos deixem em paz Racistas otrios nos deixem em paz Os poderosos so covardes desleais Espancam negros nas ruas por motivos banais E nossos ancestrais Por igualdade lutaram Se rebelaram morreram E hoje o que fazemos Assistimos a tudo de braos cruzados At parece que nem somos ns os prejudicados Enquanto voc sossegado foge da questo Eles circulam na rua com uma descrio Que parecida com a sua Cabelo cor e feio Ser que eles vem em ns um marginal padro 50 anos agora se completam Da lei anti-racismo na constituio Infalvel na teoria Intil no dia a dia Ento que fodam-se eles com sua demagogia No meu pas o preconceito eficaz Te cumprimentam na frente E te do um tiro por trs "O Brasil um pas de clima tropical Onde as raas se misturam naturalmente E no h preconceito racial. Ha,Ha....." Nossos motivos pra lutar ainda so os mesmos O preconceito e o desprezo ainda so iguais Ns somos negros tambm temos nossos ideais

    Racistas otrios nos deixem em paz...

  • Crculo Fluminense de Estudos Filolgicos e Lingsticos

    RIO DE JANEIRO: CIFEFIL, 2008 89

    Lavagem Cerebral

    Composio: Gabriel O Pensador

    Racismo preconceito e discriminao em geral uma burrice coletiva sem explicao Afinal que justificativa voc me d para um povo que precisa de unio Mas demonstra claramente Infelizmente Preconceitos mil De naturezas diferentes Mostrando que essa gente Essa gente do Brasil muito burra E no enxerga um palmo sua frente Porque se fosse inteligente esse povo j teria agido de forma mais cons-ciente Eliminando da mente todo o preconceito E no agindo com a burrice estampada no peito A "elite" que devia dar um bom exemplo a primeira a demonstrar esse tipo de sentimento Num complexo de superioridade infantil Ou justificando um sistema de relao servil E o povo vai como um bundo na onda do racismo e da discriminao No tem a unio e no v a soluo da questo Que por incrvel que parea est em nossas mos S precisamos de uma reformulao geral Uma espcie de lavagem cerebral No seja um imbecil No seja um Paulo Francis No se importe com a origem ou a cor do seu semelhante O qu que importa se ele nordestino e voc no? O qu que importa se ele preto e voc branco? Alis branco no Brasil difcil porque no Brasil somos todos mestios Se voc discorda ento olhe pra trs Olhe a nossa histria Os nossos ancestrais O Brasil colonial no era igual a Portugal A raiz do meu pas era multirracial Tinha ndio, branco, amarelo, preto Nascemos da mistura ento porque o preconceito? Barrigas cresceram O tempo passou... Nasceram os brasileiros cada um com a sua cor Uns com a pele clara outros mais escura Mas todos viemos da mesma mistura Ento presta ateno nessa sua babaquice Pois como eu j disse racismo burrice D a ignorncia um ponto final:

  • ANLISE DO DISCURSO

    CADERNOS DO CNLF, VOL. XI, N 07 90

    Faa uma lavagem cerebral Negro e nordestino constroem seu cho Trabalhador da construo civil conhecido como peo No Brasil o mesmo negro que constri o seu apartamento ou que lava o cho de uma delegacia revistado e humilhado por um guarda nojento que ainda recebe o sal-rio e o po de cada dia graas ao negro ao nordestino e a todos ns Pagamos homens que pensam que ser humilhado no di O preconceito uma coisa sem sentido Tire a burrice do peito e me d ouvidos Me responda se voc discriminaria Um sujeito com a cara do PC Farias No voc no faria isso no... Voc aprendeu que o preto ladro Muitos negros roubam mas muitos so roubados E cuidado com esse branco a parado do seu lado Porque se ele passa fome Sabe como : Ele rouba e mata um homem Seja voc ou seja o Pel Voc e o Pel morreriam igual Ento que morra o preconceito e viva a unio racial Quero ver essa msica voc aprender e fazer A lavagem cerebral O racismo burrice mas o mais burro no o racista o que pensa que o racismo no existe O pior cego o que no quer ver E o racismo est dentro de voc Porque o racista na verdade um tremendo babaca Que assimila os preconceitos porque tem cabea fraca E desde sempre no para pra pensar Nos conceitos que a sociedade insiste em lhe ensinar E de pai pra filho o racismo passa Em forma de piadas que teriam bem mais graa Se no fossem o retrato da nossa ignorncia Transmitindo a discriminao desde a infncia E o que as crianas aprendem brincando nada mais nada menos do que a estupidez se propagando Qualquer tipo de racismo no se justifica Ningum explica Precisamos da lavagem cerebral pra acabar com esse lixo que uma he-rana cultural Todo mundo racista mas no sabe a razo Ento eu digo meu irmo Seja do povo ou da "elite" No participe Pois como eu j disse racismo burrice

  • Crculo Fluminense de Estudos Filolgicos e Lingsticos

    RIO DE JANEIRO: CIFEFIL, 2008 91

    Como eu j disse racismo burrice Como eu j disse racismo burrice Como eu j disse racismo burrice Como eu j disse racismo burrice E se voc mais um burro No me leve a mal hora de fazer uma lavagem cerebral Mas isso compromisso seu Eu nem vou me meter Quem vai lavar a sua mente no sou eu voc.

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