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    AS CIDADES DA NATUREZA, A NATUREZA DAS CIDADES

    E O CONTROLE DO TERRITRIO

    Jos Aldemir de Oliveira Universidade Federal do Amazonas

    As cidades da natureza, a natureza das cidades e o controle do territrio (Resumo)

    Para compreender o papel das cidades na Amaznia o texto parte da discusso sobre espao e tempo das cidades como forma de retomar pontos sobre o controle do territrio o que pressupe compreender o papel das cidades. Em seguida descreve as pesquisas desenvolvidas sobre rede urbana na Amaznia apresentando as tipologias de cidades que se ainda no esto prontas ajudam a entender a complexidade do urbano na Amaznia. Na parte final, retoma a discusso sobre as cidades da natureza e a natureza da cidade como produto, meio e controle dos territrios pretritos e atuais da Amaznia, por diferentes sujeitos sociais.

    Palavras-chave: Rede urbana da Amaznia; tipologias de cidades; natureza e cidades.

    Cities of Nature; the nature of cities and the territorial control (Abstract)

    To understand the role of the Amazon cities, this article argues about their space and time as a way to regain control points on the territory which presupposes understanding the role of cities. Then, the text describes the research undertaken on Amazons urban network, presenting the types of cities which helps to understand the complexity of the urban in Amazon, although not yet ready. The concluding part of the article discusses about cities of nature and the nature of the city as a product, environment and control of Amazons past and present territories by different social subjects.

    Keywords: Amazons urban network; typologies of cities; nature and cities.

    Este trabalho, ao tempo em que trata de um tema to amplo, busca interpretar cidades especficas a partir de pesquisas desenvolvidas, algumas concludas outras em andamento e prope uma abordagem sobre a Amaznia Brasileira a partir de suas cidades, no de todas as cidades ou das grandes cidades, mas especialmente das pequenas cidades situadas s margens dos rios, denominadas de cidades ribeirinhas.

    A estas cidades chega-se pelo rio e delas temos a primeira impresso que nem sempre fica, pois em seguida vem a segunda impresso que a concretude da cidade que nos coloca em contato com arruamento catico, falta de saneamento bsico, improvisao de toda ordem parecendo que tudo est inacabado ou precocemente envelhecido. Mas essa segunda viso talvez no seja a ltima, pois pode ser apenas aparente, por conta de baseamos nossas concepes a partir de realidades de um

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    urbano que na maioria das vezes no pode ser encontrado na Amaznia.

    H uma ideia equivocada de desconhecimento das cidades amaznicas. Recentemente, 2011 um projeto de pesquisa de grande envergadura tenha num dos seus itens O (Des)Conhecido Urbano Contemporneo Amaznico[1]

    Na verdade as cidades amaznicas no so nem desconhecidas como querem alguns e no suficiente conhecidas e reconhecidas, visto, na maioria das vezes, privilegia-se para a Amaznia os estudos sobre a biodiversidade. Todavia, nas ltimas dcadas surgem pesquisas sobres cidades amaznicas em especial quelas desenvolvidas nas prprias instituies de pesquisas situadas na regio. Tais pesquisas geram novos conhecimentos sobre a Amaznia capazes de dialogar com estudos macroregionais elaborados pelo IBGE e IPEA[2] que so fundamentais para o conhecimento da regio, porm insuficientes para d conta das especificidades das cidades amaznicas.

    Visando discutir, sem a pretenso de apresentar respostas prontas, mas suscitar o debate, este texto se divide em trs partes: apresenta a discusso sobre espao e tempo das cidades na Amaznia brasileira como forma de retomar pontos sobre o controle do territrio o que pressupe compreender o papel das cidades; em seguida apresenta as pesquisas desenvolvidas no mbito do NEPECAB[3] e os resultados das mesmas para a compreenso da rede urbana no Estado do Amazonas e, finalmente retoma-se ao ttulo do presente texto para discutir as cidades da natureza e a natureza da cidade como meio, possibilidade e controle sobre as espacialidades pretritas e atuais da Amaznia em especial de suas cidades.

    Espao e tempo das cidades amaznicas o controle do territrio

    As estruturas e as dimenses socioespaciais na Amaznia hoje so compartilhadas de modo diferente do que era passado. Novos e velhos sujeitos, (indgenas, movimentos sociais, empresas, governo, foras armadas, pacifistas e mdia), produzem espacialidades diversas e articulam as estruturas preexistentes quase sempre locais, s novas dimenses agora globais. No curso dessa articulao, o poder se dilui entre os vrios sujeitos sociais que se articulam no nvel nacional por meio das instituies, mas tambm se articulam para alm do Estado Nacional e, em alguns casos, j atingiram um grau de relaes supranacionais.

    Se a cidade da Amaznia do nosso agora assim, como ela foi sendo produzida no tempo e no espao? Para responder esta e outras questes, o presente texto dentre tantos produzidos no mbito do NEPECAB.[4] Os resultados mostram que quando os europeus iniciaram o processo de colonizao da Amaznia, a regio no era um vazio demogrfico, portanto, no estava desocupada. A ocupao que se seguiu significou uma forma peculiar de colonizao que longe de acrescentar novos contingentes humanos rea, sangrava-os ininterruptamente em suas populaes indgenas. A ocupao portuguesa demarca a defesa e a conquista do territrio como ponto de apoio para a interiorizao da regio at atingir no sculo XVIII o extremo oeste consolidando o domnio de Portugal na Amaznia, garantindo a posse do territrio e praticamente definindo os limites fronteirios ao Norte e a Oeste, existentes at hoje.

    Em meados do sculo XIX, vrios acontecimentos contriburam para a modificao da paisagem da 1 Projeto URBIS Amaznia Financiado pelo ITV-DS-Instituto Tecnolgico Vale-Desenvolvimento Sustentvel e pela Fundao Vale, p. 5. 2 IBGE. REGIC, 2007, IPEA; IBGE; UNICAMP, 2002. 3 Ncleo de Estudos e Pesquisas da Cidades da Amaznia Brasileira da Universidade Federal do Amazonas existe desde 1995. 4 Oliveira J.A. & Schor, T., 2007, 2008, 2009, 2010; Schor, T. & Oliveira, J.A., 2011; Schor, T. & Costa, D. P., 2007; Schor, T. Marinho, T. & Schor, T., 2009, 2012; Moraes, A. O. & Schor, T., 2010; Schor, T, 2013.

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    Amaznia e em linhas gerais estabeleceram a malha urbana que se estruturou a partir de ento, sendo o acontecimento mais relevante na segunda metade do sculo XIX, a explorao extensiva dos seringais. No perodo da borracha a maioria da populao no estava nas poucas vilas existentes, mas embrenhada no interior da floresta. As vilas e as poucas cidades continuaram com as mesmas funes para as quais haviam sido criadas no sculo XVIII, quais sejam: representao do poder pblico para arrecadao de impostos, sede das misses religiosas, base para a circulao de produtos extrativos para exportao e internao de produtos alimentcios bsicos que vinham de lugares externos a Regio e eram internalizados a partir de Belm e Manaus. Em sntese, as vilas e cidades eram a base para o controle do territrio superando o papel entrepostos de sustentao do projeto civilizatrio imposto pela metrpole portuguesa no perodo colonial. Agora, a imposio de outras reas do Estado Nao Brasileiro que se consolida a partir da Repblica.

    Aps o boom da borracha, mais um perodo de estagnao se abateu sobre a regio levando a crise, que no entanto, no significou crise generalizada, especialmente para a populao da floresta e para os migrantes nordestinos pobres. preciso rediscutir a crise,[6] porque se de um lado provocou o refluxo de parte dos migrantes para a regio de origem, isso significou diminuir a presso sobre as fontes de alimentos, bem como a ampliao da diversidade da produo extrativista, especialmente a castanha e a madeira, alm de certo impulso pequena agricultura de vrzea o que significou a absoro de mo de obra liberada dos seringais. H sem dvida crise nas finanas pblicas especialmente no Estado do Amazonas, mas para a populao pobre embrenhada na floresta o deblache da borracha em alguns casos significou a melhoria das condies que eram precrias decorrente da explorao da mo de obra nos seringais.

    H a dimenso socioespacial nesse processo, pois a resistncia veio da populao local (indgena e cabocla) ou dos que j haviam se fixado e se adaptado regio e tinham por isso conhecimentos sobre o espao, conseguindo estabelecer novas formas de vivncia. Neste sentido, a borracha levou destruio, mas tambm criou os mecanismos da resistncia e de reconstruo. Isso parece tanto mais verdadeiro quando comparado ao impacto ocasionado no interior da Amaznia e nos dois principais centros urbanos, Belm e Manaus.

    As primeiras tentativas de superao da crise ocorrem na dcada de 1950, por fora da ao governamental para a Amaznia de certo modo como reflexo dos investimentos realizados na dcada de 1940, por conta do Acordo de Washington visando retomada da produo da borracha.

    Para tanto, foi criada, instalada, implantada, ou dinamizada uma srie de aes e de instituies.[7] Novamente a Amaznia estava inserida na reproduo ampliada do capital. Entretanto, esta no depende apenas da extrao da mais-valia, mas tambm de formas coercitivas de extrao do lucro que envolve no apenas a produo do valor, mas tambm e principalmente a sua circulao e distribuio. Para tornar a Amaznia novamente vivel, mesmo que por tempo determinado, foi necessrio estabelecer interveno no espao, visando criar condies de implantao de infraestrutura necessria reproduo do capital.

    Essa ao reforada na dcada de 1960, com a ditadura militar que estabeleceu modificaes significativas na malha urbana da Amaznia. Esta poltica atraiu grandes empresas nacionais e estrangeiras, incentivou projetos agropecurios, minerais, madeireiros e industriais, concomitante ao processo de produo controlada do espao por meio do fluxo migratrio e da poltica de colonizao. Alm disso, o Estado tambm construiu a infraestrutura bsica necessria para sua instalao como estradas, portos, ferrovias e rede de comunicao.

    6 Oliveira, J. A. 2003. 7 Oliveira, M. E. 1983, p. 264-267.

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    Em decorrncia dessa poltica, especialmente no Par, Rondnia e Roraima ocorre a mudana do eixo de circulao do rio para a estrada. E nesse novo eixo surgem novas cidades originrias da construo de grandes projetos ou influenciadas por eles. Esse processo menor no Estado do Amazonas cujo eixo de circulao continua sendo o rio, configurando-se a fronteira econmica com forte participao do Estado na produo e controle do territrio. Para isso, o Estado estabeleceu a estruturao espacial por meio da malha programa,[8] que possibilitou o controle tcnico e poltico do territrio.

    Sobre as polticas desenvolvimentistas voltadas para a Amaznia e o seu reflexo na produo e controle da produo do espao urbano, importante apontar que algumas adotadas a partir da ditadura militar j vinham sendo aplicadas anteriormente, sendo projetos e atividades apenas retomados ou redimensionados. Cabe ainda assinalar que mesmo nos casos em que projetos foram retomados ocorreram mudanas, seja pelo modo autoritrio como foram conduzidas as aes visando atender as polticas pblicas voltadas ao crescimento econmico, seja pelo maior vigor com que foram implantados.[9]

    Com isso e para isso se produziu a malha programada, que representava o advento da tcnica no espao com a rede de telecomunicao, satlite, aeroportos, portos, hidroeltricas e estradas e significou, contraditoriamente, o esvaziamento do campo, ocorrendo um processo crescente de urbanizao. A populao urbana que representava pouco mais de um quarto da populao total em 1940, j era mais da metade morando nas cidades 40 anos depois, continuando a crescer atingindo 69% em 2000 e 70% em 2010.

    Todo esse processo teve e tem influncia na produo das cidades amaznicas que na atualidade podem ser definidas como o conjunto de lugares com vrios caminhos para o mundo, lugares onde a natureza dos processos externos aparece como delineamentos diversos e inovadores e como lugares de demonstrao da complexidade que envolve o local e o global.[10] H lugares que no foram atingidos por esse processo onde se sobrepe a reserva territorial estratgica ou espao de colonizao pioneira. A sua reconfigurao regional neste quadro mescla e sobrepe caminhos que tendenciam mundializao e aos caminhos naturais e sociais que guardam dimenses e sentidos traados em outras pocas. So inmeras as formulaes dos significados e implicaes desses cruzamentos, sobrepostos uns aos outros, que so opostos, complementares e sobrepostos.

    Retomar Histria da Amaznia significa compreender o papel global que a regio tem em termos de preservao de biodiversidade e regulao do clima e do mesmo modo como se insere contraditoriamente nas diversas redes da globalizao. Focar nas cidades permite uma estratgia geogrfica especfica que relaciona os lugares entre si e estes com a dinmica econmica da globalizao que, por sua vez, modifica as relaes territoriais reestruturando a dinmica urbana.

    Neste sentido, as cidades na Amaznia brasileira constituem lugares privilegiados para anlise dos processos contraditrios do controle do territrio. So os debates ambientalistas que se transformam em diferentes recortes territoriais, constituindo unidades de conservao de todos os tipos. So as promessas de riquezas oriundas da biodiversidade ou do conhecimento das populaes tradicionais que recriam o mito do Eldorado organizando as agncias de pesquisas mundo afora. [11] Entender a dinmica das cidades amaznicas compreender os mecanismos com os quais os diferentes sujeitos sociais estabelecem estratgias de dominao e controle sobre o territrio.

    8 Becker, B., 1990, p. 23.

    9 Ianni, O., 1981, p. 132. 10 Silva, M. C. 2000, p. 226. 11 Schor, T. 2008, p. 57 et passem.

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    Uma das maneiras de se entender como essa a dinmica ocorre pela via da classificao das cidades. Classificar as cidades pode significar criar uma hierarquia esttica entre elas[12] mas pode tambm ser o processo direto do entendimento das semelhanas e diferenas entre as diversas cidades que compem a rede urbana. Conjuntamente com a classificao, aquela que relaciona as semelhanas e diferenas, pode se criar tambm a tipologia urbana relacionando semelhanas e diferenas, apesar das dificuldades que encerra por ser sempre incompleta e provisria, pois se tem claro no apenas a grande extenso da regio como a diversidade das cidades na Amaznia,[13] mas a tentativa de demarcar o esforo metodolgico, de indicar e reconhece os padres urbanos que ao serem extrapolados de reas especficas podem contribuir para o entendimento da rede urbana na Amaznia.

    Pesquisas desenvolvidas no NEPECAB e a tipologia de cidades do Amazonas

    Nos anos setenta e noventa foram realizados importantes estudos sobre a rede urbana no Amazonas (Rede Funcional Urbana do Amazonas), coordenados pela Comisso de Desenvolvim...

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