As cidades da juventude em fortaleza

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<ul><li> 1. As cidades da juventude em FortalezaFrancisco Jos Gomes Damasceno1UECERESUMO ABSTRACTA cidade de Fortaleza apresentada aThe city of Fortaleza is presented throughpartir da experincia juvenil, de suas the juvenile experience of its organiza-organizaes, de seus deslocamentos etions, its displacements and its specificde suas formas especficas de apropria-city appropriation ways. It is from thiso da cidade. Desta observao delineio observation that I take the idea of Musi-a idia de Experincia Musical e de Des- cal Experience and the Geo-estheticlocamentos Geo-Estticos na cidade. As Displacements of the city. The orga-organizaes e experincias juvenis sonizations and juvenile experiences aretomadas como reveladoras de outros considered to be revealing of other possi-possveis e suas movimentaes comobilities and their movements, as a man-manifestao do novourbano contem- ifestation of the new contemporaryporneo. urbanity.Palavras-chave: Juventude; cultura; cida-Keywords:Youth, culture, city, music, hipde; msica; hip hop; punk. hop, punk. Este texto est dividido em cinco partes, em que a juventude e sua atua-o na cidade de Fortaleza se esboam com base na compreenso de sua or-ganizao em dois importantes movimentos: o Movimento Hip-Hop e o Mo-vimento Punk. Na mesma medida em que esses jovens se organizam e criamsuas organizaes, interferem na cidade e nas diversas formas de se organizare de viver no final do sculo XX e incio do sculo XXI.BAILES E CLUBES: A FORTALEZA DAS AFINIDADES ELETIVAS Freqentemente pensei nas cartas geogrficas como uma grande met-fora do conhecimento, como tenso entre compreensibilidade e desorienta-mento. O que faz o cartgrafo? Transfere para uma folha plana de papel omundo real sob a forma de smbolos e sinais. O que se transcreve uma di-Revista Brasileira de Histria. So Paulo, v. 27, n 53, p. 215-242 - 2007</li></ul><p> 2. Francisco Jos Gomes Damascenoferena: a fonte de toda a informao e, portanto, da comunicao. Ainda as-sim, enquanto algumas dessas diferenas so imediatamente decodificveispor qualquer leitor de mapas, outras tm de expressar cdigos totalmente no-vos, de forma tal que at o viajante mais experimentado ver pela primeiravez o lugar representado, mesmo no caso em que tenha estado ali a vida toda.E como a escala 1:1 no adianta, pode servir no mximo a um eu dilatado donarcisismo irrefrevel, quanto mais a proporo for reduzida microlgi-ca tanto mais teremos de inventar os cdigos a serem transcritos no mapapara deslocar o leitor. Ento talvez descobriremos com esses microcdigosque o nosso objeto a comunicao sincrtica j est incorporando, naspartes terminais de nossos sentidos, enxertos de sensores tnicos, cyber e punk.Mudanas marronizadas. Quilombos patchwork.2No final dos anos 70 a cidade de Fortaleza fervilhava aos sons de inme-ras novidades oriundas da produo da chamada indstria cultural e das cul-turas de massa. Alguns vindos literalmente de fora e outros considerados lo-cais e ainda no inseridos no contexto maior de comercializao internacional.Era o caso, por exemplo, do rock, que aportava com fora pela musicali-dade de Led Zeppelin, Black Sabbath, Ramones e Sex Pistols, entre outros. Jo predomnio do local se matizava nas inmeras gravaes de forr, bem re-presentados em grupos como Trio Nordestino, Trs do Nordeste, Lus Gon-zaga, Jackson do Pandeiro e tantos outros.Estudos sobre o rock em Fortaleza do conta de uma trajetria iniciadaainda na dcada de 1950 e um predomnio hegemnico do forr, motivo pe-lo qual se apontaria, at meados dos anos 90, a dificuldade de exploso dessamanifestao em Fortaleza, bem como do surgimento e consolidao de ban-das e espaos destinados a essas manifestaes.Entretanto, o rock praticado em Fortaleza era regionalizado, com ban-das (ou grupos de bailes) como Os Faras, Os Belgas, Os Diferentes ou, umpouco depois, O Peso, que seguiam linhas meldicas mais leves e pouco liga-das s perspectivas mais transgressivas: Na dcada de 50, o rock era tocado por grupos de baile o mais conhecidoera Iranildo e seu conjunto que animavam as festas de clubes sociais como oNutico, Lbano e Maguary ... Na dcada de 60, com a exploso do rock em todoo mundo, esses grupos tocavam os sucessos do momento, alm de msicas bra-sileiras, mambo, bolero e rumba. O grande destaque era Os Faras, banda deLuizinho que ainda hoje toca em festas ... Outro destaque era Os Belgas, cujoguitarrista Jlio Sena era o maior sucesso. Tanto um como o outro tinha em seu216 Revista Brasileira de Histria, vol. 27, n 53 3. As cidades da juventude em Fortaleza repertrio, basicamente sucessos dos Beatles e as verses de Renato e seus Blue Caps. Tambm vale lembrar dOs Diferentes, que a exemplo dos demais tocava msica dos outros, mas a diferena estava no fato de cantarem msicas prprias e fazerem arranjos diferentes para msicas dos outros ... Nos anos 70, destacou- se Lus Carlos Porto, vocalista da banda O Peso, que talvez seja a nica banda cearense de rock a ter tido projeo nacional ... No final da dcada surgiu a ban- da Posh, fazendo um rock mais para o pop.3 Assim, a manifestao nos anos 70 se encontrava na encruzilhada dessasdiferentes formas de apreciar e curtir o rock, parecendo ter havido uma apro-priao dupla da manifestao:1) a primeira, do ponto de vista esttico-poltico, com o surgimento de bandas mais radicais, com mensagens politizadas e fazendo parte de um movimento que atentava contra os pressupostos anteriores do prprio rock e da cultura de massas o punk; e2) a segunda, do ponto de vista dessas manifestaes na prpria cidade de Fortaleza, e de setores de sua sociedade antes relegados ao silncio. Trata-se de uma complexa articulao de manifestaes, intenes, pa-dres estticos, ticos e prticas de incorporao musical, que do origem auma forma inusitada de vivncia da cidade e da prpria msica, que sai dosclubes de elite como o Nutico, Lbano e ou Maguary e passa aos pequenosclubes de periferia, tais como o Apache Clube, o Mnfis Clube do AntnioBezerra, o Keops Clube, o Detroit, ou ainda o Grmio recreativo do Conjun-to Jos Walter, entre tantos outros. claro que a essa transposio geo-esttica (ou deslocamento geo-esttico)4 correspondia uma apropriao de outros setores sociais presentesna cidade de Fortaleza, e, alm disso, marcava de forma definitiva a emergn-cia de novos atores scio-histricos: os jovens pobres. Situados nas periferias da ento pequena cidade de Fortaleza,5 eles pas-sam a se manifestar de forma muito mais presente e freqente, e, alm disso,essa manifestao se d em um campo particular, prprio, singular e inova-dor: o campo da arte e do lazer. Assim, os inmeros bailes que surgem na cidade so mais do que sim-ples diverso e assumem a conotao de manifestao juvenil, que dentro deuma trajetria prpria, em pouco tempo, guardando a sua caracterstica his-trica de transmutao, assumiria uma outra e mais radical forma de se ma-nifestar, como veremos adiante.junho de 2007217 4. Francisco Jos Gomes Damasceno Os inmeros bailes geram prticas de sociabilidade, de compreenso es-ttica, tica e musical que so instauradoras de territrios existenciais e pos-suem suas sutilezas e perspectivas prprias. Vejamos como Flor, poca ain-da menina, passa a experimentar o que ocorria:Eu no sei quando que a coisa virou movimento punk, porque isso vem deum outro movimento. Eu tinha 12 ou 13 anos, conheci essa menina, a Guacira,ela curtia rock e tinha uns festivais de rock que aconteciam no Apache, no Mn-fis Clube do Antnio Bezerra, no Keops Clube, l no Detroit, vrias casas de su-brbio, shows de rock com playback. Era Led Zeppelin, Black Sabbath, Pink Floyd,Kiss, heavy metal. E a comeou uma reunio aqui na Praa do Ferreira. Eu estu-dava no Anchieta e gazeava aula, ficava no meio dessa galera porque eu gostavade banda e curtia essas coisas. E a a gente comeou a se reunir pra ouvir essessons, e tinha concursos de dana...6 Como se pode perceber na lembrana de Flor, iniciava-se na cidade aproduo de pequenas festas nos clubes de subrbio. Nessas festas, uma dasestratgias para envolver os grupos eram competies de rock ao som dos con-juntos7 por eles preferidos:Sempre nos finais de semana uma leva de fs gravitava pelos clubes suburba-nos atrs de diverso. Competies eram travadas entre as diversas turmas. Aturma do Baby do Bairro do Monte Castelo, do Conjunto Jos Walter, do Par-que Arax entre outras, disputava quem agitava mais parecido com seus dolos(Robert Plant, Ramones), com direitos a guitarras artesanais, feitas de madeiraou papelo e at trofus para as turmas vencedoras.8 Alm disso, outro aspecto que se deve considerar a apropriao da ci-dade de forma itinerante, no fixa, feita de forma errante, em deslocamentospela diversidade de cada bairro ou clube, ou ainda das diversas turmas en-volvidas:Essa coisa do rock no era fixa no, o cara fazia um evento e divulgava, umasemana num bairro, outra semana em outro totalmente diferente ou distante.Acho que era isso que perpetuava a adrenalina. De repente o cara j tem a adre-nalina l em cima, a faz um evento hoje aqui, no outro final de semana no mais aqui, l...9218Revista Brasileira de Histria, vol. 27, n 53 5. As cidades da juventude em Fortaleza A novidade dessa experincia juvenil que tomava o lazer em suas mos,articulava os diversos bairros da cidade, se grupalizava a partir de afinidades,identificava grupos distantes e/ou rivais, estabelecia uma rede de relaes, deespaos, constitua sua vivncia com base em desejos e prazeres dos quais nose dissociava, e, que em breve se tornariam a referncia de suas prprias vidasde forma completa.10 Estavam constituindo seus espaos:Existe espao sempre que tomam em conta vetores de direo, quantidade de velocidade e a varivel tempo. O espao um cruzamento de mveis. de certo modo animado pelo conjunto dos movimentos que a se desdobram. O espao o efeito produzido pelas operaes que o orientam, o circunstanciam, o tem- poralizam e o levam a funcionar em unidade polivalente de programas confli- tuais ou de proximidades contratuais.11A constituio desses territrios existenciais 12 marca de forma peculiartoda a manifestao juvenil no mundo contemporneo. Alguns autores tmintitulado essa caracterstica de elaborao de grupos a partir das afinidadese diferenas de tribos,13 numa dupla aluso historicidade de processos se-melhantes na antropologia e constituio de redes no universo contempo-rneo dito globalizado.Enquanto para os punks essa articulao inicial se d no final dos anos70, para os hip-hopers ocorre processo semelhante no incio dos anos 80, coma chegada, primeiro, da dana (break), e depois do canto (rap), e, finalmente,algum tempo depois, do prprio grafite, considerados os trs elementos fun-damentais do hip-hop.Os bailes nos quais as diversas sonoridades eram experimentadas em par-tes especficas para cada estilo musical eram uma prtica comum na Fortale-za do final dos anos 70 e dos anos 80. Assim, os amantes de cada tipo de m-sica tinham uma parte especfica das festas para se deleitarem, e a elas recorriamnos mais diversos cantos da cidade.No h oferta de bailes especficos, ou seja, de festas com a predominn-cia de uma nica manifestao musical, que s aparece, ou se torna forte, pre-dominante, em meados dos anos 90. Talvez isso indique o pequeno nmerode freqentadores dos estilos que depois comporiam o underground em For-taleza, juntando-os numa estratgia de produo, venda e consumo que aten-dia naquele momento suas expectativas e possibilidades; ou talvez fosse refle-xo de uma outra compreenso de diverso. O certo que essa juno contribuajunho de 2007 219 6. Francisco Jos Gomes Damascenona formao dos grupos pelo convvio com a diferena, no nascedouro demuitas dessas manifestaes como o caso do rock, do punk, do prprio hip-hop e at do forr, que durante algum tempo freqentam os mesmos peque-nos clubes nesses bailes mistos. Nesse contexto, interessante lembrar o que afirma Pesavento: a construo do ns identitrio pressupe a existncia do outro. O outro aconcretizao da diferena, contraposto como alteridade identidade que seanuncia. A visualizao, identificao e avaliao classificatria do outro aconte-ce sob o signo da estrangeiridade, e pelo distanciamento contrastivo, anta-gnico ou de semelhana que se pode construir uma noo de pertencimen-to social. Esta lgica de sentido , pois, relacional e implica construes quepermitem um reconhecimento com sentido. Como diz Ginsburg, todos ns so-mos em certa medida, estrangeiros com relao a algo ou algum.14 Assim, essa mistura inicial nos pequenos clubes da periferia da cidadecriou em Fortaleza uma proximidade entre os diversos grupos que posterior-mente se identificam com este ou aquele estilo musical, e, ao mesmo tempo,nesse relacional se identificavam entre si como iguaisdiferentes, essencial-mente compondo um mesmo campo: o de oposio sociedade excludente,aspecto que posteriormente ser incorporado s suas letras, manifestos, m-sicas e prticas. Nesses bailes, nos pequenos clubes dos muitos (e poca distantes) bair-ros da cidade, integrantes dos diversos grupos se encontravam e aprendiam ase identificar e respeitar: Inter Dance, no Monte Castelo, era um point dos punks, e em 85, 86, 87 o breakestava em ascenso, era de certa forma uma novidade. L, o pessoal tinha a festade rock, punk, e tinha o pessoal que danava o break, se congregava l. A, algunsdeles migraram aqui pro Conjunto Cear...15 Assim, perceba-se: o universo juvenil e o underground eram marcadospor um conjunto de prticas que independiam das musicalidades eleitas. Hnesse caso um entrelaamento entre as perspectivas musicais, as vises demundo, os interesses mais imediatos e uma aura esttica transgressiva queaportava com essas manifestaes musicais e que definiu aos poucos o pr-prio campo dessas manifestaes (punk e hip-hop). Nessas duas manifestaes musicais, corpreas, estticas, se fundamenta220Revista Brasileira de Histria, vol. 27, n 53 7. As cidades da juventude em Fortalezaum conjunto de vnculos articulados pelo gosto, pela afinidade, pela identifica-o e identidade comuns e que consubstanciaria nesse perodo, e nesse proces-so, os movimentos em suas perspectivas de coletivismo, de crtica e de interven-o social, poltica e cultural, sendo este ltimo, um campo entendido comoessencialmente poltico e se estabelecendo como o lcus de atuao desses jovens.No decorrer dos anos 80, tanto o punk como o hip-hop passam por um in-tenso processo de articulao interna, de articulaes polticas, culturais e so-ciais, no sentido de se fundarem. Eles se criam, por assim dizer, em si mesmos.Estruturam-se enquanto organizaes de cunho libertrio e de ao contracul-tural, numa consistente postura de enfrentamento e negao do mercado debens culturais. Assim, o que era apenas festa, lazer, tornou-se movimentao, eessa movimentao das culturas como se chamava nos primrdios do mo-vimento se institui como movimento scio-poltico-cultural, como o en-tendemos com base nos estudos realizados nos ltimos anos.16OS MOVIMENTOSHoje existem novos atores, novos movimentos sociais e culturais, tornando visveis redes direcionadas a valores ref...</p>

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