As cidades da juventude em fortaleza

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  • 1. As cidades da juventude em FortalezaFrancisco Jos Gomes Damasceno1UECERESUMO ABSTRACTA cidade de Fortaleza apresentada aThe city of Fortaleza is presented throughpartir da experincia juvenil, de suas the juvenile experience of its organiza-organizaes, de seus deslocamentos etions, its displacements and its specificde suas formas especficas de apropria-city appropriation ways. It is from thiso da cidade. Desta observao delineio observation that I take the idea of Musi-a idia de Experincia Musical e de Des- cal Experience and the Geo-estheticlocamentos Geo-Estticos na cidade. As Displacements of the city. The orga-organizaes e experincias juvenis sonizations and juvenile experiences aretomadas como reveladoras de outros considered to be revealing of other possi-possveis e suas movimentaes comobilities and their movements, as a man-manifestao do novourbano contem- ifestation of the new contemporaryporneo. urbanity.Palavras-chave: Juventude; cultura; cida-Keywords:Youth, culture, city, music, hipde; msica; hip hop; punk. hop, punk. Este texto est dividido em cinco partes, em que a juventude e sua atua-o na cidade de Fortaleza se esboam com base na compreenso de sua or-ganizao em dois importantes movimentos: o Movimento Hip-Hop e o Mo-vimento Punk. Na mesma medida em que esses jovens se organizam e criamsuas organizaes, interferem na cidade e nas diversas formas de se organizare de viver no final do sculo XX e incio do sculo XXI.BAILES E CLUBES: A FORTALEZA DAS AFINIDADES ELETIVAS Freqentemente pensei nas cartas geogrficas como uma grande met-fora do conhecimento, como tenso entre compreensibilidade e desorienta-mento. O que faz o cartgrafo? Transfere para uma folha plana de papel omundo real sob a forma de smbolos e sinais. O que se transcreve uma di-Revista Brasileira de Histria. So Paulo, v. 27, n 53, p. 215-242 - 2007

2. Francisco Jos Gomes Damascenoferena: a fonte de toda a informao e, portanto, da comunicao. Ainda as-sim, enquanto algumas dessas diferenas so imediatamente decodificveispor qualquer leitor de mapas, outras tm de expressar cdigos totalmente no-vos, de forma tal que at o viajante mais experimentado ver pela primeiravez o lugar representado, mesmo no caso em que tenha estado ali a vida toda.E como a escala 1:1 no adianta, pode servir no mximo a um eu dilatado donarcisismo irrefrevel, quanto mais a proporo for reduzida microlgi-ca tanto mais teremos de inventar os cdigos a serem transcritos no mapapara deslocar o leitor. Ento talvez descobriremos com esses microcdigosque o nosso objeto a comunicao sincrtica j est incorporando, naspartes terminais de nossos sentidos, enxertos de sensores tnicos, cyber e punk.Mudanas marronizadas. Quilombos patchwork.2No final dos anos 70 a cidade de Fortaleza fervilhava aos sons de inme-ras novidades oriundas da produo da chamada indstria cultural e das cul-turas de massa. Alguns vindos literalmente de fora e outros considerados lo-cais e ainda no inseridos no contexto maior de comercializao internacional.Era o caso, por exemplo, do rock, que aportava com fora pela musicali-dade de Led Zeppelin, Black Sabbath, Ramones e Sex Pistols, entre outros. Jo predomnio do local se matizava nas inmeras gravaes de forr, bem re-presentados em grupos como Trio Nordestino, Trs do Nordeste, Lus Gon-zaga, Jackson do Pandeiro e tantos outros.Estudos sobre o rock em Fortaleza do conta de uma trajetria iniciadaainda na dcada de 1950 e um predomnio hegemnico do forr, motivo pe-lo qual se apontaria, at meados dos anos 90, a dificuldade de exploso dessamanifestao em Fortaleza, bem como do surgimento e consolidao de ban-das e espaos destinados a essas manifestaes.Entretanto, o rock praticado em Fortaleza era regionalizado, com ban-das (ou grupos de bailes) como Os Faras, Os Belgas, Os Diferentes ou, umpouco depois, O Peso, que seguiam linhas meldicas mais leves e pouco liga-das s perspectivas mais transgressivas: Na dcada de 50, o rock era tocado por grupos de baile o mais conhecidoera Iranildo e seu conjunto que animavam as festas de clubes sociais como oNutico, Lbano e Maguary ... Na dcada de 60, com a exploso do rock em todoo mundo, esses grupos tocavam os sucessos do momento, alm de msicas bra-sileiras, mambo, bolero e rumba. O grande destaque era Os Faras, banda deLuizinho que ainda hoje toca em festas ... Outro destaque era Os Belgas, cujoguitarrista Jlio Sena era o maior sucesso. Tanto um como o outro tinha em seu216 Revista Brasileira de Histria, vol. 27, n 53 3. As cidades da juventude em Fortaleza repertrio, basicamente sucessos dos Beatles e as verses de Renato e seus Blue Caps. Tambm vale lembrar dOs Diferentes, que a exemplo dos demais tocava msica dos outros, mas a diferena estava no fato de cantarem msicas prprias e fazerem arranjos diferentes para msicas dos outros ... Nos anos 70, destacou- se Lus Carlos Porto, vocalista da banda O Peso, que talvez seja a nica banda cearense de rock a ter tido projeo nacional ... No final da dcada surgiu a ban- da Posh, fazendo um rock mais para o pop.3 Assim, a manifestao nos anos 70 se encontrava na encruzilhada dessasdiferentes formas de apreciar e curtir o rock, parecendo ter havido uma apro-priao dupla da manifestao:1) a primeira, do ponto de vista esttico-poltico, com o surgimento de bandas mais radicais, com mensagens politizadas e fazendo parte de um movimento que atentava contra os pressupostos anteriores do prprio rock e da cultura de massas o punk; e2) a segunda, do ponto de vista dessas manifestaes na prpria cidade de Fortaleza, e de setores de sua sociedade antes relegados ao silncio. Trata-se de uma complexa articulao de manifestaes, intenes, pa-dres estticos, ticos e prticas de incorporao musical, que do origem auma forma inusitada de vivncia da cidade e da prpria msica, que sai dosclubes de elite como o Nutico, Lbano e ou Maguary e passa aos pequenosclubes de periferia, tais como o Apache Clube, o Mnfis Clube do AntnioBezerra, o Keops Clube, o Detroit, ou ainda o Grmio recreativo do Conjun-to Jos Walter, entre tantos outros. claro que a essa transposio geo-esttica (ou deslocamento geo-esttico)4 correspondia uma apropriao de outros setores sociais presentesna cidade de Fortaleza, e, alm disso, marcava de forma definitiva a emergn-cia de novos atores scio-histricos: os jovens pobres. Situados nas periferias da ento pequena cidade de Fortaleza,5 eles pas-sam a se manifestar de forma muito mais presente e freqente, e, alm disso,essa manifestao se d em um campo particular, prprio, singular e inova-dor: o campo da arte e do lazer. Assim, os inmeros bailes que surgem na cidade so mais do que sim-ples diverso e assumem a conotao de manifestao juvenil, que dentro deuma trajetria prpria, em pouco tempo, guardando a sua caracterstica his-trica de transmutao, assumiria uma outra e mais radical forma de se ma-nifestar, como veremos adiante.junho de 2007217 4. Francisco Jos Gomes Damasceno Os inmeros bailes geram prticas de sociabilidade, de compreenso es-ttica, tica e musical que so instauradoras de territrios existenciais e pos-suem suas sutilezas e perspectivas prprias. Vejamos como Flor, poca ain-da menina, passa a experimentar o que ocorria:Eu no sei quando que a coisa virou movimento punk, porque isso vem deum outro movimento. Eu tinha 12 ou 13 anos, conheci essa menina, a Guacira,ela curtia rock e tinha uns festivais de rock que aconteciam no Apache, no Mn-fis Clube do Antnio Bezerra, no Keops Clube, l no Detroit, vrias casas de su-brbio, shows de rock com playback. Era Led Zeppelin, Black Sabbath, Pink Floyd,Kiss, heavy metal. E a comeou uma reunio aqui na Praa do Ferreira. Eu estu-dava no Anchieta e gazeava aula, ficava no meio dessa galera porque eu gostavade banda e curtia essas coisas. E a a gente comeou a se reunir pra ouvir essessons, e tinha concursos de dana...6 Como se pode perceber na lembrana de Flor, iniciava-se na cidade aproduo de pequenas festas nos clubes de subrbio. Nessas festas, uma dasestratgias para envolver os grupos eram competies de rock ao som dos con-juntos7 por eles preferidos:Sempre nos finais de semana uma leva de fs gravitava pelos clubes suburba-nos atrs de diverso. Competies eram travadas entre as diversas turmas. Aturma do Baby do Bairro do Monte Castelo, do Conjunto Jos Walter, do Par-que Arax entre outras, disputava quem agitava mais parecido com seus dolos(Robert Plant, Ramones), com direitos a guitarras artesanais, feitas de madeiraou papelo e at trofus para as turmas vencedoras.8 Alm disso, outro aspecto que se deve considerar a apropriao da ci-dade de forma itinerante, no fixa, feita de forma errante, em deslocamentospela diversidade de cada bairro ou clube, ou ainda das diversas turmas en-volvidas:Essa coisa do rock no era fixa no, o cara fazia um evento e divulgava, umasemana num bairro, outra semana em outro totalmente diferente ou distante.Acho que era isso que perpetuava a adrenalina. De repente o cara j tem a adre-nalina l em cima, a faz um evento hoje aqui, no outro final de semana no mais aqui, l...9218Revista Brasileira de Histria, vol. 27, n 53 5. As cidades da juventude em Fortaleza A novidade dessa experincia juvenil que tomava o lazer em suas mos,articulava os diversos bairros da cidade, se grupalizava a partir de afinidades,identificava grupos distantes e/ou rivais, estabelecia uma rede de relaes, deespaos, constitua sua vivncia com base em desejos e prazeres dos quais nose dissociava, e, que em breve se tornariam a referncia de suas prprias vidasde forma completa.10 Estavam constituindo seus espaos:Existe espao sempre que tomam em conta vetores de direo, quantidade de velocidade e a varivel tempo. O espao um cruzamento de mveis. de certo modo animado pelo conjunto dos movimentos que a se desdobram. O espao o efeito produzido pelas operaes que o orientam, o circunstanciam, o tem- poralizam e o levam a funcionar em unidade polivalente de programas confli- tuais ou de proximidades contratuais.11A constituio desses territrios existenciais 12 marca de forma peculiartoda a manifestao juvenil no mundo contemporneo. Alguns autores tmintitulado essa caracterstica de elaborao de grupos a partir das afinidadese diferenas de tribos,13 numa dupla aluso historicidade de processos se-melhantes na antropologia e constituio de redes no universo contempo-rneo dito globalizado.Enquanto para os punks essa articulao inicial se d no final dos anos70, para os hip-hopers ocorre processo semelhante no incio dos anos 80, coma chegada, primeiro, da dana (break), e depois do canto (rap), e, finalmente,algum tempo depois, do prprio grafite, considerados os trs elementos fun-damentais do hip-hop.Os bailes nos quais as diversas sonoridades eram experimentadas em par-tes especficas para cada estilo musical eram uma prtica comum na Fortale-za do final dos anos 70 e dos anos 80. Assim, os amantes de cada tipo de m-sica tinham uma parte especfica das festas para se deleitarem, e a elas recorriamnos mais diversos cantos da cidade.No h oferta de bailes especficos, ou seja, de festas com a predominn-cia de uma nica manifestao musical, que s aparece, ou se torna forte, pre-dominante, em meados dos anos 90. Talvez isso indique o pequeno nmerode freqentadores dos estilos que depois comporiam o underground em For-taleza, juntando-os numa estratgia de produo, venda e consumo que aten-dia naquele momento suas expectativas e possibilidades; ou talvez fosse refle-xo de uma outra compreenso de diverso. O certo que essa juno contribuajunho de 2007 219 6. Francisco Jos Gomes Damascenona formao dos grupos pelo convvio com a diferena, no nascedouro demuitas dessas manifestaes como o caso do rock, do punk, do prprio hip-hop e at do forr, que durante algum tempo freqentam os mesmos peque-nos clubes nesses bailes mistos. Nesse contexto, interessante lembrar o que afirma Pesavento: a construo do ns identitrio pressupe a existncia do outro. O outro aconcretizao da diferena, contraposto como alteridade identidade que seanuncia. A visualizao, identificao e avaliao classificatria do outro aconte-ce sob o signo da estrangeiridade, e pelo distanciamento contrastivo, anta-gnico ou de semelhana que se pode construir uma noo de pertencimen-to social. Esta lgica de sentido , pois, relacional e implica construes quepermitem um reconhecimento com sentido. Como diz Ginsburg, todos ns so-mos em certa medida, estrangeiros com relao a algo ou algum.14 Assim, essa mistura inicial nos pequenos clubes da periferia da cidadecriou em Fortaleza uma proximidade entre os diversos grupos que posterior-mente se identificam com este ou aquele estilo musical, e, ao mesmo tempo,nesse relacional se identificavam entre si como iguaisdiferentes, essencial-mente compondo um mesmo campo: o de oposio sociedade excludente,aspecto que posteriormente ser incorporado s suas letras, manifestos, m-sicas e prticas. Nesses bailes, nos pequenos clubes dos muitos (e poca distantes) bair-ros da cidade, integrantes dos diversos grupos se encontravam e aprendiam ase identificar e respeitar: Inter Dance, no Monte Castelo, era um point dos punks, e em 85, 86, 87 o breakestava em ascenso, era de certa forma uma novidade. L, o pessoal tinha a festade rock, punk, e tinha o pessoal que danava o break, se congregava l. A, algunsdeles migraram aqui pro Conjunto Cear...15 Assim, perceba-se: o universo juvenil e o underground eram marcadospor um conjunto de prticas que independiam das musicalidades eleitas. Hnesse caso um entrelaamento entre as perspectivas musicais, as vises demundo, os interesses mais imediatos e uma aura esttica transgressiva queaportava com essas manifestaes musicais e que definiu aos poucos o pr-prio campo dessas manifestaes (punk e hip-hop). Nessas duas manifestaes musicais, corpreas, estticas, se fundamenta220Revista Brasileira de Histria, vol. 27, n 53 7. As cidades da juventude em Fortalezaum conjunto de vnculos articulados pelo gosto, pela afinidade, pela identifica-o e identidade comuns e que consubstanciaria nesse perodo, e nesse proces-so, os movimentos em suas perspectivas de coletivismo, de crtica e de interven-o social, poltica e cultural, sendo este ltimo, um campo entendido comoessencialmente poltico e se estabelecendo como o lcus de atuao desses jovens.No decorrer dos anos 80, tanto o punk como o hip-hop passam por um in-tenso processo de articulao interna, de articulaes polticas, culturais e so-ciais, no sentido de se fundarem. Eles se criam, por assim dizer, em si mesmos.Estruturam-se enquanto organizaes de cunho libertrio e de ao contracul-tural, numa consistente postura de enfrentamento e negao do mercado debens culturais. Assim, o que era apenas festa, lazer, tornou-se movimentao, eessa movimentao das culturas como se chamava nos primrdios do mo-vimento se institui como movimento scio-poltico-cultural, como o en-tendemos com base nos estudos realizados nos ltimos anos.16OS MOVIMENTOSHoje existem novos atores, novos movimentos sociais e culturais, tornando visveis redes direcionadas a valores referenciados no binmio liberdade e so- brevivncia, em contraposio s condutas de crise da sociedade contempor-Foto 1 Internacional (Inter Dance), no bairro Monte Castelo. Fotografia do autor, 2003.junho de 2007221 8. Francisco Jos Gomes Damascenonea ... As aes coletivas dos anos 90 abrem o leque do prprio conceito de movi-mento social, permitindo-nos pensar em sua fragmentariedade/descontinuida-de como referente de um tempo em que o espao democrtico se relaciona dire-tamente com a dinmica entre ao coletiva, cultura poltica e formao daconscincia social das novas geraes.17Na medida em que essas musicalidades tomavam corpo na cidade, comoresultado da experincia direta desses jovens com a msica e a prpria cida-de, foram tomando feies prprias, articulando-se de forma singular comoresultado dessa fuso entre os elementos dispostos e construdos. Em outraspalavras: foram se tornando movimentos.Ao que tudo indica, como observa Melucci, nas sociedades contempor-neas, a identidade seria vivenciada como ao e no como situao, sendoconstruda no complexo de relaes sociais estabelecidas no processo de vidae dentro dos meios e lugares sociais ocupados.Assim, haveria uma alterao na noo de identidade que, baseada nessepressuposto de constituio permanente, auto-reflexiva, e, sobretudo, opera-da por cada pessoa, precisaria de novos termos: A mesma palavra identidadeno mais apropriada para exprimir essa mudana e ser necessrio falar deidentificao para exprimir o carter processual, auto-reflexivo e construdoda definio de ns mesmos.18Dessa forma, o autor quer dar conta da transitoriedade do contemporneo,da multiplicidade de papis que cada indivduo assume cotidianamente. Entre-tanto, no caso dos jovens desses grupos (punk e hip-hop), uma das suas muitasidentidades surgidas no momento de identificao pela msica, pela dana, pormanifestaes afins, e de uma definio de papis, acaba tornando-se duradou-ra; o que ocorre que a grande maioria acaba assumindo de forma definitiva es-sas identificaes (que em princpio so transitrias).O fato de esses jovens assumirem uma dessas identificaes de forma per-manente no significa que o carter de autoconstruo, de auto-reflexo, sejadispensado, mas parece que o processo se d de forma intensa, dentro do pr-prio estilo que assumem. Assim, pode-se falar em identidades da mesma for-ma ou deslocar o conceito de identidade nesse sentido.Se, como afirma Maffesoli, a sensibilidade coletiva, originria da formaesttica acaba por constituir uma relao tica,19 ento pode-se considerarque esse conjunto de relaes institudas no campo tico/esttico, pode se tor-nar o centro do complexo processo de identificao/identidade, como de fatoacontece com muito dos entrevistados.20222 Revista Brasileira de Histria, vol. 27, n 53 9. As cidades da juventude em FortalezaDessa forma, constituem uma linguagem prpria, que articula no ssuas falas, mas tambm os tipos de msica, o uso de determinadas roupas eadereos, os smbolos, os locais de freqncia, os usos da cidade, ou as cons-tituies de suas trajetrias da/na cidade, as manifestaes do prprio corpo,os cortes de cabelo, as grias, os aliados, e tambm, por que no dizer, os pr-prios adversrios.21Essa linguagem articulada dentro do cotidiano manifesta de forma os-tentatria, com a sutileza de seu uso dirigido apenas aos iniciados, de tal for-ma que mesmo numa multido, pode-se passar por eles sem perceb-los, numjogo do visvel/invisvel, em alguns casos.Em outros casos, o visual assumido para chocar, impactar, como acon-tece com os punks, nessa fase. Entretanto, mais recentemente, essa caracters-tica abandonada, em detrimento de uma postura em que esse aspecto se tor-na opcional. Oliveira nos d conta de um congresso ocorrido em Joo Pessoa,em que se discutiu e se deliberou o seguinte: os que ali estavam concluramque, o mais importante na sua esttica no a forma X ou Y, mas os princ-pios que a guiam....22Assim, pode-se inferir que essa linguagem constituda de smbolos e si-nais, pontos geogrficos e espaciais, sentimentos e formas diversas de sentir eparticipar, so incorporadas e desenvolvidas com base em uma noo maiorque acaba assumindo propores cada vez mais significativas tanto em suasvidas como, em resultado disso, na prpria vida social e poltica: o movimento. em torno do movimento que tanto punks quanto hip-hopers se insur-gem no espao urbano contra a explorao, a mesmice, a guerra, o capitalis-mo, a anti-cidadania, a falta de condies de vida dignas e justas, e tantas ou-tras questes que os afligem e incomodam e com o que imaginam estarproduzindo um mundo melhor e reinventando sua cidadania.No incio dos anos 90 cria-se na cidade de Fortaleza uma entidade orga-nizativa dos hip-hopers (MH2O Movimento Hip-Hop Organizado do Cea-r) em torno da qual todas as atividades ligadas a essa manifestao se de-senrolaram a partir de ento. No final da mesma dcada, muitas outrasentidades surgem como rachas da primeira. Hoje, uma outra alm dela for-te e ativa na cidade O Movimento Cultura de Rua ou MCR. Esta entida-de se coloca como um movimento social organizado, ou pretende se produ-zir como tal.Nesse mesmo perodo a entidade MH2O se institui como movimento ecria um estatuto jurdico, tornando-se uma organizao no-governamental(ONG), o mesmo ocorrendo com o MCR pouco tempo depois. O trabalhojunho de 2007223 10. Francisco Jos Gomes Damascenodas duas muito semelhante: msica, dana e arte so utilizadas no engaja-mento poltico, social e profissional dos jovens pertencentes ao movimento.Sutileza que diferencia as entidades das demais, j que o trabalho poltico vem frente do musical.Embora o foco inicial do hip-hop em Fortaleza tenha sido o bairro doConjunto Cear, onde at hoje o movimento muito forte e manifesta-se co-tidianamente, com a criao das entidades, com o intenso bombardeio dasmdias e a divulgao do estilo, e, principalmente pela atuao do prpriomovimento e de suas diversas entidades, toda a cidade, em seus diversos bair-ros, j possuda pelos jovens.De acordo com a nucleao das entidades h uma maior presena de umou outro movimento nesse ou naquele bairro. Assim, na Quadra de Santa Ce-clia, onde reside boa parte dos jovens ligados ao MCR, onde se situa sua se-de e se desenvolvem suas principais atividades e projetos pilotos, tem-se umarea do MCR. O Conjunto Cear se constitui em uma rea do MH2O, gra-as aos vnculos histricos com esse bairro. No entanto, suas atuaes no selimitam a esses locais e se desenrolam, como j disse, em toda a cidade, mui-tas vezes concomitantemente, em relaes complexas, nem sempre harmo-niosas.Com os punks o processo semelhante, mas a orientao anarquista im-prime um outro vis: a criao de coletivos de convivncia alternativa. O pri-meiro criado ainda nos anos 80 (o Ncleo Coletivo de Conscincia Libert-ria NCCL), e durou at o final dessa mesma dcada. Depois disso muitosoutros vieram, e nos anos 90 o mais presente foi o Coletivo Ruptura. At re-centemente a principal articulao se dava em torno da Comuna Libertria,uma entidade sediada no bairro de Parangaba e que encaminha a luta de punkse anarquistas sob essa tica.As muitas formas de manifestao de seus desejos e necessidades tmapontado para uma construo alternativa nesses moldes. Alm disso, umaarticulao local e global23 se fortalece com vnculos de solidariedade e traba-lho com jovens e entidades de outros estados, como suas movimentaes maisfreqentes grafitam, cantam e danam por a...A msica iniciada nos bailinhos quebrou as paredes dos clubes de clas-se mdia, espalhou-se como um rastro de plvora, e botou fogo em tudo aoseu redor. Ao lazer puro e simples, juntou-se um outro com prazer misturado poltica, arte, prpria vida, como resposta direta aos desafios cotidianos.O canto falado e o grito primal nunca foram to ouvidos e fortes.224 Revista Brasileira de Histria, vol. 27, n 53 11. As cidades da juventude em FortalezaMOVIMENTAES JUVENIS E TRANSPOSIES GEO-ESTTICASO fato de os punks no possurem um territrio fixo na cidade tambm me conduziu a pensar no territrio como corpo, ainda mais ao perceber que nas roupas que o punk estampa seus pensamentos, colocando-se na rua como uma espcie de bandeira do movimento ...E os critrios dessa seleo no foram os que eu esperava: apego ao lugar, sen- timento de pertena, de segurana etc., mas sim critrios de praticidade, de pro- ximidade e de possibilidade. Essas consideraes foram tornando a dimenso territorial do punk em Londrina muito mais confusa, pois era diferente do que eu havia tomado conhecimento em teoria ...Nesse caso, o territrio no seria propriamente o bar, mas sim a calada, e os limites do territrio seriam os corpos. As pessoas que transitam pela calada des- viam do grupo e lanam olhares desconfiados.24O que de fato se pode ler nessa movimentao25 uma apropriao dacidade de forma diferenciada da que ocorria at ento. Primeiro, interes-sante lembrar que essa nova forma feita pelo vis da arte, da cultura e do la-zer, o que, por si s, j se constitui em uma novidade para essa cidade e sob ainfluncia direta dela, em outras palavras, em resposta aos desafios colocadospela prpria vida na cidade. Segundo, pelo inusitado do papel que a msicaassume nesse processo.26 H um duplo giratrio de apropriao da juventu-de. Por um lado, do ponto de vista social: trata-se de uma juventude de peri-feria que se manifesta de forma poltica, social e cultural e insere-se nos maisvariados contextos pela sua arte, pela sua msica, fazendo disso sua forma deinterveno.Do ponto de vista esttico, do uma conotao radical ao rock e ao hip-hop pela incorporao das condies de vida por eles enfrentadas nesse pro-cesso de re-inveno de si prprios, como tambm pela re-inveno da prpriaarte por eles praticada.27A apropriao geo-esttica da cidade d-se na medida em que os jovensutilizando-se da arte de viver como passo a entender sua arte, produzidaenquanto tica e esttica de vida produzem outras Fortalezas para vive-rem, onde os espaos de convivncia se tornam referncia de bem viver, rega-dos a msicas, festas, prazer e trabalho coletivo de construo dessas utopiasjuvenis.A cidade, constituda por essas outras trajetrias, torna-se ao mesmotempo mltipla, e, alm de palco, sujeito, com os jovens em questo, de ou-junho de 2007225 12. Francisco Jos Gomes Damascenotras histrias. O rock e, pouco tempo depois, o hip-hop, apropriados pelos jo-vens, servem de elementos de ressignificao da cidade e de suas prprias ex-perincias, e a cidade existente, junto com a cidade criada por eles, servem(ambas) de baliza para sua prpria recriao. A reinveno se d nesse mlti-plo onde tudo e todos se insinuam uns sobre os outros. O rock que chegou a Fortaleza, em meados dos anos 50, nos sales dosclubes de elite ou das camadas mdias urbanas e dentro de certos padres desocialidade, sendo associado a jovens das famlias mais abastadas, como j omostramos, aos poucos se altera, tomado por outros sujeitos (jovens) e ostoma, re-inventando a si mesmo, como resultado desse processo de tomar eser tomado, de inventar e ser inventado, mas tambm, e, sobretudo, como re-sultado direto de experincias que se do com as especificidades do contextoem questo e do meio (cidade) no qual se do. Se, no incio, o principal clube da cidade e das elites de Fortaleza (Nuti-co) abrigava o rock, bem como clubes elitizados, embora menos tradicionais(Maguary e Lbano), clubes estes situados beira-mar (Nutico) ou em re-gies centrais e ocupadas por essas elites da cidade, e os grupos de baile arra-savam em ritmos frenticos com um balano quente, mas respeitoso (o maisconhecido foi Iranildo e seu conjunto), logo em seguida o que se operariaseria muito diferente. Ocorreria uma mudana, dessas regies das elites paraas periferias, sobretudo das camadas pobres da populao, e tambm dessesclubes para outros, criados no processo de expanso da cidade rumo s di-versas sadas para o interior.28 Silva esclarece esse modelo de urbanizao, que duramente criticadopelos jovens punks e hip-hopers em suas letras, em sua arte e interveno scio-histrica: Parte do monstro urbano que conhecemos foi gerado por medidas autorit-rias tomadas em gabinetes oficiais, com forte influncia de polticos e empres-rios. A formao de extensas periferias e bolses de misria, constitudos quaseque unicamente por conjuntos habitacionais distantes e mal servidos, a opopelo transporte individual em detrimento do transporte coletivo, a facilidade dese implantar novas infra-estruturas que ocasionam a degradao de setores oubairros tradicionais, expressam essa forma equivocada de produzir a cidade.29Nos anos 60 o rock explode mundo afora e a repercusso dessa onda noCear foi inevitvel, desta feita misturada a outros ritmos, mas h uma ver-dadeira proliferao de bandas, como as j apontadas anteriormente Os226Revista Brasileira de Histria, vol. 27, n 53 13. As cidades da juventude em FortalezaFaras; Os Belgas tocando basicamente msicas de outros conjuntos comoBeatles e Renato e Seus Blue Caps; e ainda Os Diferentes que tanto tocavammsicas de outros conjuntos com arranjos prprios, como as prprias com-posies.Nos anos 70 as bandas continuam a sua atuao em bailes e clubes de eli-te, como os j citados, mas h certo desgaste na frmula, tanto pela sua exaus-to, por certa repetio, como por outros dois fatores: 1) O rock em todo omundo sofre mais uma de suas revolues internas, desta vez o punk operasua obra; e, 2) se inicia um processo, que nos anos 90 se tornaria hegemni-co, de construo do forr como ritmo preponderante na cidade, colocadocomo autntico reflexo de nossa regionalidade. Mesmo assim, bandas comoa Peso ou a Posh se tornaram bastante conhecidas no cenrio local e tiveramsuas contribuies nesse contexto.Assim, nos encontramos com os nossos sujeitos-jovens, jovens-sujeitos,no final dos anos 70, em um cotidiano delicado, refletindo um acentuado cres-cimento da ento pequenina cidade de Fortaleza, graas ao processo de in-chao sofrido pela chegada constante de migrantes oriundos do interior doEstado, que se reflete em espaos compactados, com o surgimento de bairrose loteamentos, e mesmo de favelas (apesar dos altos investimentos nos con-juntos habitacionais planejados e construdos a partir de ento) sem os ne-cessrios investimentos: lazer, emprego e opes de vida para uma populaomarcadamente jovem.30A semelhana com os aspectos que do origem s manifestaes de jo-vens punks (no final dos anos 70) e de jovens hip-hopers (no incio dos anos80) no coincidncia. E a chegada de elementos culturais que traduziam es-sas realidades em outras partes do mundo parece ter sido amalgamada poresses jovens, incorporada e ter servido de instrumento em seus processos deapropriao do que se constitua para eles: a vida urbana.No havia, at ento, uma distino musical, que s viria com o amadu-recimento das manifestaes. Apenas algum tempo depois que alguma di-ferenciao foi percebida e estabelecida, e fomentou, assim, a formao degrupos por afinidades musicais e estticas: assim que a gente gostava, que tu-do era rock, mas a diferenciao que a gente no tinha conhecimento; que agente foi conhecendo at por um acaso, rolou de conhecer... a conheci SexPistols, The Clash, The Jam, The Breathers....31Em outras palavras, o rock e o hip-hop (sofrendo a influncia do prpriorock) aportam enquanto musicalidades, agrupam pelo gosto, pela afinidade,pela eleio do ritmo, pela incorporao esttica, at mesmo de elementos co-junho de 2007 227 14. Francisco Jos Gomes Damascenomo a dana e outros de dimenso plstica (como o grafite, ou mesmo o daconstituio dos visuais), e deste ponto servem de elemento de aglutinaodos jovens identificados com essas manifestaes, que passam ento a re-invent-las a partir de suas prprias experincias, expectativas e desejos. Esse ponto de partida a eletividade32 e a comunho esttica e tica tem sustentao em um cotidiano de experincias comuns, de perspectivasde vida semelhantes, e constitui o mais caro no que denominamos de expe-rincia musical, algo que est na musicalidade, na msica propriamente dita,mas que se constitui diferentemente, apenas a partir do momento em que oque est nas entrelinhas da pauta musical absorvido, construdo por quemouve e faz msica.OS SONS E A DANA UMA OUTRA EXPERINCIA Seu carter mais importante reside na afirmao da existncia de um mun-do universalmente obrigatrio ... um mundo essencialmente diferente domundo factual da luta cotidiana pela existncia, mas que cada indivduo poderealizar ... por si mesmo, do interior, sem transformao alguma do real ... Na verdade, mesmo quando a arte protesta contra a misria social e a soli-do, esse protesto reapropriado esteticamente e solto de maneira gratificante,na experincia imaginria individual, como parte integrante do prazer que aobra lhe proporciona, e no como crtica real e desejo de mudar o mundo. As-sim, Marcuse conclui que mesmo a idia rebelde se torna um acessrio para ajustificao.33 desta forma que se constitui aos poucos o que denominamos de expe-rincia musical, entre encontros furtivos no centro da cidade, nas praas dosdiversos bairros perifricos da cidade de Fortaleza, em encontros nas casaspara a audio do que vem de fora, em bailes e festas para a prtica pblicada escuta e da dana, no exerccio, enfim, da manifestao da forma especfi-ca como se resolve constitu-la. Disto resultam os deslocamentos diferenciados pela cidade em busca dediverso e arte, em busca dos iguais a si, dos diferentes de si, dos espaos paraas prticas recm-instauradas de escuta, dana e vivncia da msica, entonovidade na pequena cidade de Fortaleza. Com ela surge toda uma angstiade ser jovem naquele momento, associada a certa rebeldia presente nas musi-calidades em questo, veiculadas, sobretudo, em suas letras.228Revista Brasileira de Histria, vol. 27, n 53 15. As cidades da juventude em FortalezaO que ocorre que msica deixa de ser apenas uma construo mel-dica e passa a dar sustentao a suas vidas de forma mais ampla. Passa a cons-tituir eticamente, se no todas, pelo menos grande parte de suas aes. Orien-ta para a vida ou pela vida afora, de tal modo que nos casos dos universospesquisados nos ltimos dez anos (hip-hop e punk rock), todos os jovens en-volvidos com essas musicalidades e ou movimentos continuam se pautandopor essas perspectivas.A noo de msica se amplia, e tem-se uma outra, a de experincia mu-sical, que se entende dentro desse complexo quadro de fuso entre experin-cias de vida, eletividades afetivas, estticas e prticas scio-musicais. E tam-bm a dimenso de uma arte enquanto prtica, saber-fazer especfico, e comotal com uma categoria de agentes ou sujeitos que detm esse conhecimento.34Essa arte transformada em experincia musical passa a ser construda deforma social por seus sujeitos, que atribuem significados a ela, extrapolandoo campo de uma arte fechada em si mesma e se tornando o ponto de articu-lao entre suas concepes de mundo e suas experincias de vida, dadas nouniverso do sensvel.Nesse sentido, a dana outro aspecto da experincia musical que deveser observado como parte indissocivel da musicalidade. O rock trouxe ce-na no mundo contemporneo essa dimenso de forma explcita e irrevog-vel, e essa apropriao que, em certa medida, rompia com uma postura decontemplao esttica, dos modelos anteriores, associados msica de cma-ra, , talvez, sua marca mais registrada.35H uma espcie de dissoluo dos sentidos como os conhecemos, de for-ma que cada um possua uma funo especfica, empregada quando necess-rio. como se todos os sentidos se tornassem um s e fossem empregados namesma tarefa, ao mesmo tempo. A fora da msica, das letras, do ambiente,da bebida, da catarse promovida pelos efeitos de tudo isso junto, cria umaforma de sentir diferente, feita com o corpo como um todo homogneo e in-divisvel: Ouvir com o corpo e empregar no ato da escuta no apenas os ou-vidos, mas a pele toda, que vibra ao contato com o dado sonoro: sentir emestado bruto. misturar o pulsar do som com as batidas do corao, umquase no pensar.36Da mesma forma que essa dissoluo se opera na musicalidade e nas suasdanas, opera-se tambm uma fuso tica/esttica, de tal modo que o idealde beleza das manifestaes musicais se transfere para a vida, a vida bela danada aos ritmos de suas msicas, e mesmo compreendida diferentemen-te do que encontram no desigual quadro social no qual esto inseridos.junho de 2007229 16. Francisco Jos Gomes DamascenoTorna-se, ento, uma forma poltica de entendimento e de manifestaoaos poucos burilada em uma interao poltica e social com outros atores so-ciais, tais como partidos, sindicatos, coletivos, universidades e grupos. A par-tir disso criam-se os movimentos, caudalosos, com adeptos onde quer queocorram, em uma nao imaginada, ligada pelos sentimentos despertadospela msica e construdos com suas prprias especificidades e sutilezas.As singularidades dos movimentos em Fortaleza esto justamente na cria-o de suas entidades em torno de uma manifestao inicialmente musical,ou, em outras palavras, na constituio de um movimento scio-poltico-cultural em torno do hip-hop e do punk. Portanto, o que antes era msica, aospoucos fundamenta-se e se torna movimento.37A INVENO PELA MSICA DESLOCAMENTOS DA/NA CIDADE Ns vemos, toda Cidade uma espcie de comunidade, e que toda comuni-dade constituda em funo de um certo bem (porque em vista de obter aqui-lo que lhes aparece como um bem realizar sempre seus atos): da resulta clara-mente que se todas as comunidades visam um bem determinado, aquela que estmais alta de todas e que engloba todas as outras, visa tambm, mais que as ou-tras, um bem que o mais alto de todos. Esta comunidade aquela que cha-mada Cidade, a comunidade poltica.38 Assim, a experincia musical desses jovens um aspecto que deve ser le-vado em considerao no deslocamento dos clubes de elite para os clubes deperiferia. Trata-se de uma juventude pobre e de periferia se manifestando etendo a ateno de setores sociais diversos. Samos do Maguary, do Lbano e do Nutico, de grupos de baile como Ira-nildo e seu conjunto, e, de uma musicalidade comportada e aceita, para clubesde periferia como o Apache, o Mnfis Clube do Antnio Bezerra, o Keops Clu-be, o Detroit, entre tantos outros, produzidos enquanto espaos por jovens po-bres, muitas vezes radicais, e de periferia, com bandas como Estado Indigente,Zueira, Desnutrio, e rappers como Titio e Cachorro, W Man, Poeta Urbanoe ZMC, entre tantos outros. Esse deslocamento que ao mesmo tempo geogrfico, posto que se fazdos espaos das elites para os espaos populares, tem ao mesmo tempo umcarter de classe e etrio, j que operado por jovens trabalhadores, ou mes-mo jovens sem profisso, desempregados e pobres, ou ainda estudantes, por-230 Revista Brasileira de Histria, vol. 27, n 53 17. As cidades da juventude em Fortalezatanto, em formao para o mundo do trabalho, habitantes dos bairros maispobres de minha cidade.Tambm tem um carter esttico, j que dentro das duas manifestaeso que ocorre de forma invarivel uma sucesso de transgresses estticas decada uma dessas musicalidades, alm de ser uma transgresso tambm parao tipo de msica (mesmo de rock e de hip-hop) feito em Fortaleza no pero-do. Fortaleza jamais havia visto algo to radical. Alm disso, essa dimensotransgressiva de alguma forma constituiu os seus repertrios de compreen-so e de articulao esttica e posteriormente tambm poltica.Amalgamando todos esses aspectos, consubstanciados nesse deslocamen-to, esto suas experincias de vida, suas experincias musicais, que do a essemovimento um carter de duplo deslocamento, por um lado esttico e poroutro geogrfico, ou mesmo geopoltico, da por que falamos em deslocamen-tos geo-estticos em Fortaleza.Utilizo a noo de deslocamento geo-esttico 39 como uma fuso do es-pao geogrfico e da manifestao esttica e que d sentido a esses espaos,configurando assim, com base na idia de que o espao o lugar praticado,40uma outra dimenso: a dimenso da arte de viver, de viver com as refernciasde beleza por eles institudas, e, assim, elegendo as trajetrias a serem estabe-lecidas dentro do universo urbano, que redimensiona o espao a partir da ar-te (msica, dana) e instaura a cidade na qual vivem, dentro das muitas cida-des existentes na cidade de Fortaleza.EXPERINCIAS MUSICAIS, DESLOCAMENTOSGEO-ESTTICOS: AS CIDADES E OS JOVENS As leituras construdas pelos jovens em suas letras e manifestos guardamcaractersticas peculiares. Vejamos especificamente e de forma rpida o casode algumas noes dos jovens punks e hip-hopers. Em primeiro lugar, como asociedade que emerge de suas letras nos re-apresentada; em seguida, a no-o que tm de si prprios. Emerge de suas letras uma cidade identificada com a diviso social, ouuma sociedade constituda a partir de suas experincias na/da cidade. Assimse caracteriza uma cidade/sociedade marcadamente repressora, desigual, di-vidida, exploradora e injusta. entendida como a mxima manifestao or-ganizacional humana e, portanto, o que se representa uma humanidade di-vidida e beira de um tipo qualquer de colapso.junho de 2007 231 18. Francisco Jos Gomes Damasceno Divididos em classes, os raps e punk rocks so construdos com a inten-o de serem a fala das minorias sem voz, dos injustiados, marginais, prosti-tutas, mendigos, meninos de rua, trabalhadores, e, sobretudo, das periferias,do povo pobre, operrios e desvalidos.41pois ns somos a voz da periferia / o grito do gueto / o argumento da pobreza /pra lutar-brigar...42Ossos quebrados / Mente vazia / Olhos arrancados / Intestino apodrecido / Re-trato operrio / Pobre indigente / Largado jogado / Vtimas inocentes / Largadojogado / Estado esquecido / De putrefao / De imperialismo / Diferena social/ Grito de dor / Invaso militar / S carnificina / No h sobrevivncia / Minhavida esquecida / No h sobrevivncia / Sua vida apodrecida.43A sociedade para eles a encarnao dessas diferenas, e, portanto, a suamanuteno necessria para quem delas se beneficia. Identificados como osinimigos, os ricos so o principal alvo:a sociedade fecha as portas na cara de quem nada tem / pois as portas so fecha-das / grades seladas / pois isso que convm antes de voc / cometer o delito /delito ou ato de sobreviver...44 Em outro rap se mostra concretamente como essa sociedade de ricos sefecha:De que vale o Beach Park se eu no posso entrar? / de que me serve o Iguatemise eu no tenho grana pra gastar? / carro importado pra qu se eu no possocomprar? 45 A inclinao desses jovens esquerda (no nica) a partir da criao deseus movimentos e de articulaes com partidos polticos, sindicatos, ONGs,coletivos e outras instituies revela quea cidadania no uma construo meramente voltada e construda pelo polti-co, embora possa vir a ser desta forma enunciada. A questo social aparece co-mo um problema posto pelo desenvolvimento das cidades, e uma das formas doseu enfrentamento o deflagrar da construo da cidadania.46 A apario no universo citadino uma interveno de conquista dos di-reitos elementares negados, e as suas letras, os seus manifestos podem ser en-232Revista Brasileira de Histria, vol. 27, n 53 19. As cidades da juventude em Fortalezatendidos como a fala de sujeitos sociais em ebulio na dividida cidade de ri-cos e pobres, na Fortaleza de muitos caminhos possveis e instituio de seusdesejos de cidades outras. Eles se apresentam aos poucos, em indcios sutis do lugar social de suasfalas. Isso pode ser observado em um dos primeiros raps do movimento a fa-zer sucesso, em toda a cidade, o Rap da Dora da dupla Titio e Cachorro.Nele o trabalho identificado ao sofrimento leia-se o trabalho que no re-compensa criando a necessidade de espaos onde o sofrimento deve sersubstitudo pela alegria e pela vida. Expressa de forma ambgua a Dora: boto a mo na cabea to bom co-mo me sinto / pois nesses dias no tem que trabalhar fico em casa a se ajeitar/ pois nesses dias quer tambm se divertir... observe-se que o sujeito euelptico e depois indefinido pelo uso da partcula se, provocando uma auto-mtica identificao/confuso autores/Dora como se por sua boca eles fa-lassem, mostrando como se sentem estes jovens que, imersos no mundo dotrabalho, na tenso nele estabelecida, encontram nos bailes, nos momentosde diverso e lazer, uma das poucas alegrias que tm.47 Tambm nos punk rocks a condio operria sentida em manifestos,documentos, msicas: A vida de operrio um tormento / A vida de operrio um sacrifcio / Pra vi- ver (2x) / Sem razo (2x) / Escravo moderno nos campos / Escravo moderno nas fbricas / Pra viver (2x) / Sem razo (2x) / Viver pelas leis dos patres / Conde- nados pena de morte / Pra viver (2x) / Sem razo (2x) 48Eis que se revelam suas faces: jovens trabalhadores da cidade. Pequenosoperrios, desempregados, mo-de-obra pouco qualificada e barata, que nacidade atravs de sua arte se produz enquanto grupo e aponta os srios pro-blemas que os cercam e demandam soluo imediata.A cidade apartada aparece em vrios momentos, como neste trecho: quem v Fortaleza como no resto do Brasil / v estupro, assassinato, corrupo desenfreada / temos brigas de gangues / assaltos a mo armada, traficantes de maconha e polcia bem safada / os garotos roubando l na praa da estao / e no passeio pblico tem at prostituio / sem esquecer dos mendigos l do cen- tro da cidade / e dos apatoladores que existem aos milhares / temos mortes no trnsito e muitos viciados / motoristas imprudentes e hospitais superlotados / temos roubo de carro e cheques sem fundos / pode crer na capital ns temos dejunho de 2007233 20. Francisco Jos Gomes Damascenotudo / o nosso Cear com todos seus problemas / o rap do Conscientes do Sis-tema (3x) / aqui tambm tem desemprego aumentando a violncia / e escolasdo governo numa tremenda decadncia / temos rdio e TV / revista e jornal /essa merda que ilude e nos fazem passar mal / distorcendo as notcias isso elesfazem muito bem / transformando em marginais muitas pessoas de bem / essa a dura realidade quem tem grana mata e rouba e ainda fica em liberdade / aocontrrio do pobre que no tem nada e fodido / s por causa da aparncia levanome de bandido / temos o Iguatemi e o Shopping Aldeota / a rota dos burgue-ses que nos vem como idiotas / temos fome e misria e at racionamento / gen-te inocente passando o maior tormento / eu sou a nata do lixo eu sou o luxo daaldeia eu sou do Cear (sampler) / o nosso Cear com todos seus problemas / o rap do Conscientes do Sistema (3x) 49Outra letra bastante significativa de suas idias sobre si e sobre a cidade Nativo Urbano, da banda Estado Indigente:Mesmo que eu morasse / No mundo sozinho / Mesmo que eu morasse / Emmundo perfeito / Tocava hardcore pra vida / Com prazer (2x) / E nada me im-pediria / Conscincia, capacidade e prazer / Virtudes de poucas viventes / No ha-bitar sonolento da vida / Almeja sonho impotente / Desmotiva pela inconscin-cia / De outros / Paralelo, direto, nostlgico.A conscincia de si e dos outros, a possibilidade de interveno direta,operada pelo sujeito consciente, apesar da identificao da vida aos bailes, re-vela certa tristeza, oriunda decerto de suas origens, ou dos meios nos quais semanifestam: as ruas.50O espao da rua, longe de ser o espao de deambulao como signifi-cado para os rockers,51 constitui-se em espao de vivncias, de violncia, deamores, de lutas, de revolta, torna-se o palco de suas vidas, o local onde vi-vendo, buscam inspirao para suas letras, ou ainda onde vivem as histriasque suas letras contam.Locais perigosos e instveis, onde se corre o risco de viver. Seus habitan-tes, longe da calma das casas, da segurana das famlias, da limpeza e higienedos lares normais, so mltiplos e dividem a agitao, o vai-e-vem de tran-seuntes, a insegurana da luta pela sobrevivncia, a sujeira causada pelas aglo-meraes etc. o espao da violncia, da morte, da dor, da fome, da misria, dos des-validos, dos marginalizados, dos menores abandonados, delinqentes, prosti-234 Revista Brasileira de Histria, vol. 27, n 53 21. As cidades da juventude em Fortalezatutas, pobres e desocupados. Tipos como o vagabundo, que, como nos mos-tram B.Girl e Rainha, vive pelas ruas do centro da cidade: aonde a cada esquina um assalto acontece ... marginais andam a solta, tromba- dinhas cheiram cola / se no preferem o roubo muitos deles pedem esmola / so jogadores nas ruas pra ganhar algum dinheiro / mas as ruas lhes ensinam o ver- dadeiro desacerto...52 se os meus filhos esto nas ruas / suas vidas aventuram lances, mortes, extermnio ... Rap e Hip-Hop nas caladas da cidade / o Break violento e forte... (grifo meu)53As ruas tomam conta desses seres / menores carentes ningum quer saber deles... aqui trombadinhas aumentam a cada dia / menores nas ruas, crianas perdi-das / filhos das ruas, quem vai tir-los da rua? / quem os far viver? / ... e voc...?/ mas vocs so todos iguais / em suas casas to em paz / longe das ruas, longeda sujeira, longe da vida imunda / eu aqui e voc na sua / e os menores carentesesto todos nas ruas / filhos da rua / filhos da rua / sem-tetos dormindo nas pra-as / ... matar ou morrer faz parte da vida / da vida na verdade no so inocen-tes so vtimas conseqentes / crianas delinqentes / ... prostituir o prpriocorpo em troca de quase nada ... / flanelas na mo pedindo um trocado / semesperanas, sem famlia, nas ruas jogados / no existe para eles sonho algum /vivem o presente sem futuro nenhum...54 No percurso pelas trilhas abertas na cidade, na instaurao das muitascidades, se estabelecem marcaes, se estabelecem territrios no andamentoda vida. Eles instituem os seus marcos, ou pequenos portos no mar da cidade. Depois de algum tempo, as turmas punks passaram a se encontrar na re-gio do centro da cidade, na Praa do Ferreira, depois na Praa Jos de Alen-car; os rappers em locais especficos nos bairros, como o Plo de Lazer doConjunto Cear, que se constituram em points, onde eram trocadas as idiase traadas as trajetrias de cada final de semana:Eu estudava ainda, vinha Praa Jos de Alencar, que de certa forma sempre foi um point, aqui em frente ao teatro todas as sextas tinha um grupo tocando MPB, msica daqui mesmo. A, os mesmos roqueiros que pintavam l no Gr- mio do Jos Walter se reuniam todas as sextas aqui nessa praa ou ento na an-junho de 2007235 22. Francisco Jos Gomes Damascenotiga Praa do Ferreira, e a a gente foi se entrosando. Quando no queria ir pracasa, ia pro Monte Castelo, a gente virava a noite, ficava ouvindo som...55Nos points se decidia a programao do final de semana, marcavam-seos encontros, escolhiam-se os melhores programas, alm, claro, da tradicio-nal troca de idias: Nessa poca eu no tinha muito tempo, porque eu trabalhava durante o dia eestudava noite, mas foi uma das pocas que eu vacilei mais com o estudo. Eudeixava de ir pro colgio pra pintar nos points s quartas e sextas, ali na Praado Ferreira. E tinha um dos primeiros clubes com sons de bandas, s Ramortesque tocava na poca, o Davis Clube, l na pista da Barra. Que l o cara alopravatodas as quartas, sextas, sbados e domingos, quando a banda no tocava erasom de fita...56O point nunca era o fim de uma trajetria e ou de uma jornada, mas sem-pre o seu ponto inicial, o local de encontro, o ponto de referncia em tornodo qual todos aqueles que queriam podiam se encontrar. O fim da jornada,quando no havia um baile em jogo, era a experincia comum de ouvir m-sica, de trocar idias e depois fazer as prprias msicas, aprender como tecersua arte:a gente se reunia ali, e ia pra casa dum, pra casa do outro, do Joo Wilsom, a fi-cava l, ouvindo o som, trocando idia, fazendo msica... Era isso quase tododia. Nos finais de semana, sempre tinha os locais pra gente ir, uma banda que iatocar... Descia pro Davis Clube, que quase todo dia tinha som l...57O point, no entanto, era mais do que um local. Em inmeros momentosandei, divaguei, pontuei, trilhei as cidades dos desejos dos jovens. Nosso des-locamento em bando causava medo e reaes diversas nas pessoaspois a caminhada vai adquirindo uma autonomia de point, nesse durante con-versamos, um espera o outro ou se adianta para falar com algum que est nafrente. Poderamos talvez no chegar. Big me diz rindo: acho que a gente estandando por andar.58 Ruas e praas, clubes, centros comunitrios, casas e universidades, sedesde sindicatos, movimentao na cidade e pela cidade que suas experincias di-retas instituem, criam como espao de vida. As apropriaes feitas revelam ou-tras possibilidades, outras formas de perceber o mundo e tambm de cri-lo.236Revista Brasileira de Histria, vol. 27, n 53 23. As cidades da juventude em Fortaleza Talvez caminhem esses jovens por caminhos que no vemos, mesmo quan-do os seus deslocamentos se fazem nas ruas que vemos, nas praas nas quaissentamos, conversamos... talvez cantem esses jovens realidades que no conse-guimos sequer imaginar, compreender.... talvez essas outras realidades, cidades,estejam no limiar de suas experincias e reflitam essa ambigidade, pois:Enquanto o adulto vive ainda sob o impacto de um modelo de sociedade que se decompe, o jovem j vive em um mundo radicalmente novo, cujas catego- rias de inteligibilidade ele ajuda a construir. Interrogar essas categorias permite no somente uma melhor compreenso do universo de referncias de um grupo etrio particular, mas tambm da nova sociedade transformada pela mutao.59Foto 2 Davis Clube (extinto). Fotografia do autor, 2003.NOTAS1 Pesquisador ligado ao Grupo de Prticas Urbanas do Mestrado Acadmico em Histria Mahis, e do Labvida Laboratrio de Direitos Humanos, Cidadania e tica do Mes-trado em Polticas Pblicas tambm da UECE.2 CANEVACCI, Massimo. Concluso em forma-de-mapa. In.: Sincretismos: uma explora-o das hibridaes culturais. So Paulo: Studio Nobel; Instituto Cultural talo Brasilei-roInstituto Italiano de Cultura, 1996. p.91.3 VIEIRA, Roberto Csar. Pedras que no rolam criam limo: rock cearense consumo emercado. Monografia apresentada ao curso de Comunicao Social, Universidade Federaldo Cear. Fortaleza, 1994. p.57-8.junho de 2007237 24. Francisco Jos Gomes Damasceno4Mais frente comentarei a noo de deslocamento geo-esttico.5A matria do Dirio do Nordeste, 16 jan. 1982, p.7, dava conta das dimenses da cidade:Com um milho e trezentas mil pessoas, Fortaleza s tem sete creches. Muitas outras no-tcias do a dimenso das carncias da cidade, como por exemplo: Comunidades carentesreclamam das pssimas condies de vida, Tribuna do Cear, 21 jan. 1980, p.7; ou ainda:Passagem cara faz o povo andar a p, Dirio do Nordeste, 24. dez. 1981, capa, onde seanunciava o presente de Natal dos fortalezenses, um aumento das passagens de nibus.Algum tempo depois, em reao explcita a essa situao o movimento punk decreta umacampanha pela gratuidade do transporte coletivo em Fortaleza, com o desa por trs. Cf.Fora aumentos, chega de explorao, coletivo grtis j!, nota/panfleto, Fortaleza, s.d. Di-ziam eles em determinado momento: Chega! Chega!... T na hora de dizer um basta a tu-do isso. S vo aprender quando a populao se revoltar. Por isto estamos propondo queos trabalhadores reajam diante dessa situao. Vamos subir por trs, pular a catraca, con-versar entre ns e vamos lutar pelo transporte coletivo gratuito. J estamos pagando carodemais em impostos e ainda sermos obrigados a enriquecer mais e mais os bolsos dessessafados, enquanto o povo morre de fome? No! Chega! NCCL Ncleo Coletivo de Cons-cincia Libertria e MAP Movimento Anarco-Punk.6 Entrevista realizada por este pesquisador, com a ex-integrante do movimento punk, poca chamada Flor Punk, na Praa dos Lees, centro da cidade de Fortaleza, em 6 mar.2003. p.2-3.7 Carmo nos informa que, nesse perodo, o termo bandas no era empregado. Cf. CARMO,Paulo Srgio do. Culturas da rebeldia: a juventude em questo. So Paulo: Ed. Senac, 2001.279p.8XIMENES, Amaudson. A msica underground em Fortaleza: resistncia ou crise de iden-tidade? Monografia apresentada ao curso de Cincias Sociais, Universidade Estadual doCear. Fortaleza, 1998. p.34. interessante frisar que Ximenes guitarrista da banda Obs-kure, e fundador da Associao Cearense do Rock (ACR). Roqueiro de primeira hora, vi-venciou esse perodo e alguns dos acontecimentos que narra, tendo em dado momentodesenvolvido alguns trabalhos com os punks em Fortaleza. Foi entrevistado no sentido dedelinear a ao dos grupos punks, e de identificar as relaes estabelecidas nesse momentode surgimento do punk na cidade.9 Entrevista realizada por este pesquisador com Magoo, em 28 jan. 2003, em sua residn-cia na cidade de Caucaia, regio metropolitana de Fortaleza. p.1. Magoo foi um dos prin-cipais expoentes do punk durante os anos 80 e 90, distanciou-se do movimento organiza-do, mas continua com a banda Estado Indigente, que formou ainda no final dos anos 80.10 A priorizao total do estilo ocorre com a maioria dos entrevistados da pesquisa realiza-da com punks e hip-hopers na cidade de Fortaleza.11CERTEAU, Michel de. A inveno do cotidiano. Artes de Fazer. Petrpolis (RJ): Vozes,1999. p.202.12Cf. JANOTTI JR., Jder S. Heavy metal: o universo tribal e o espao dos sonhos. Disser-tao (Mestrado) Depto. de Comunicao Social, programa de mestrado em Multi-238Revista Brasileira de Histria, vol. 27, n 53 25. As cidades da juventude em Fortalezameios, Unicamp. Campinas, 1994. Segundo ele atravs do vesturio, dos shows e dos lo-cais de encontro do grupo, os jovens procuram construir territrios existenciais que pos-sibilitem exercitar sua subjetividade situada alm dos espaos normatizados (tais como fa-mlia, escola e trabalho).13 MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos: o declnio do individualismo nas sociedadesde massa. Rio de Janeiro: Forense-Universitria, 1987.14PESAVENTO, Sandra Jatahy. Uma outra cidade: o mundo dos excludos no final do s-culo XIX. So Paulo: Cia. Ed. Nacional, 2001. p.11-2.15Entrevista realizada por este pesquisador com o rapper Stiro Silvestre, no dia 10 ago.2003, no bairro do Conjunto Cear, em Fortaleza, p.1. Atual integrante da coordenaodo MH2O e um dos primeiros danarinos de break da cidade, foi um dos fundadores daStriking gangue de break nos anos 80.16Cf. DAMASCENO, Francisco Jos Gomes. O movimento hip-hop organizado do Cear /MH2O-Ce (1990-1995) Dissertao (Mestrado) Pontifcia Universidade Catlica deSo Paulo. So Paulo, 1997. 333p.; e DAMASCENO, Francisco Jos Gomes. Sutil diferena:o movimento punk e o movimento hip-hop em Fortaleza grupos mistos no universo ci-tadino contemporneo. Tese (Doutorado) PUC-SP, So Paulo, 2004. 511p.17 SOUZA, Janice Tirelli Ponte de. Reinvenes da utopia: A militncia poltica de jovensnos anos 90. So Paulo: Hacker, 1999. p.93-4.18Melucci, citado em CARRANO, P. C. R. Juventude as identidades so mltiplas. Re-vista Movimento, So Paulo: DP&A, n.1, maio 2000. O mesmo Melucci (1997) prope emoutro artigo que se deveria falar em redes conflituosas, em vez de em movimentos, dado ocarter de produo de formas culturais. Apesar de interessante, no caso dos movimentosaqui estudados no se aplica, posto que os significados construdos por esses jovens pas-sam pela noo de movimento.19 MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos..., cit., p.27.20 interessante observar que todos os entrevistados desta pesquisa tm o estilo no centrode suas atividades, sejam elas profissionais, sociais, polticas etc. H a priorizao total doestilo, que assume a dimenso de ordenador das relaes. Neste caso, o termo identidadese aplica perfeitamente.21De um modo geral, cada entrevistado tem sempre uma histria de como ocorreu consi-go, ou mesmo com outros do grupo.22OLIVEIRA, Vanti Clnio de Carvalho. O movimento anarco-punk (A identidade e a au-tonomia nas produes e nas vivncias de uma tribo urbana juvenil). Dissertao (Mes-trado) Programa de Ps-Graduao em Cincias Sociais, UFRN. Natal, 2003. p.47. Ape-sar de o estudo versar sobre a cidade de Natal, a referncia feita com relao a um congressodos anarco-punks ocorrido na cidade de Joo Pessoa.23 No interior desses remoinhos flutuantes e plurais de panoramas glocal, emerge com for-a a produo, a difuso e o consumo de sincretismos culturais. Essa palavra nova, frutode recprocas contaminaes entre global e local, foi forjada justamente na tentativa dejunho de 2007 239 26. Francisco Jos Gomes Damascenocaptar a complexidade dos processos atuais. Nela foi incorporado o sentido irrequieto dosincretismo. O sincretismo glocal (grifos meus). CANEVACCI, op. cit., p.25.24 TURRA NETO, Ncio. Enterrado vivo: identidade punk e territrio em Londrina. SoPaulo: Ed. Unesp, 2004. p.100, 104, 117.25Movimentao aqui se entende por tornar-se movimento e, ao mesmo tempo, comoao dinmica dos jovens em fazer, criar, inventar-se enquanto processo complexo de rela-es sociais, polticas, culturais, artsticas etc.26 interessante frisar que msica, aqui, se configura basicamente pelo rock e demais ma-nifestaes underground, que tendo o rock como referncia se posicionam como elementode transgresso de determinados setores, sobretudo da juventude contempornea, assu-mindo o carter de instrumento de crtica social e poltica.27Refiro-me aqui a arte como prtica, como defendido por SHUSTERMAN, Richard. Vi-vendo a arte: o pensamento pragmatista e a esttica popular. So Paulo: Ed. 34, 1998.28 Nossa cidade teve seu processo de metropolizao e expanso da malha urbana direcio-nado pelas suas principais vias rdio-concntricas, herana de seus antigos caminhos co-mo o do Soure, antigo nome de Caucaia, que provocou o adensamento urbano na porooeste da cidade. SILVA, Jos Borzacchiello da. Nas trilhas da cidade. Fortaleza: Museu doCear; Secretaria de Cultura e Desporto do Cear, 2001. (Coleo Outras Histrias). p.70.29 Ibidem, p.103.30Cf. SILVA, Jos Borzacchiello da. Movimentos sociais populares em Fortaleza: uma abor-dagem geogrfica. Tese (Doutorado) Departamento de Geografia, Universidade de SoPaulo. So Paulo, 1986. Os inmeros migrantes expulsos do interior e sem a certeza dequalidade de vida em terras distantes fazem de Fortaleza um plo atrativo, no s pela suaproximidade. Este dado evidencia a enorme influncia do serto ou do campo na cidadede Fortaleza e em suas manifestaes culturais.31 Magoo, cit., p.1.32So muitas as narrativas que citam esse aspecto, de tal modo que se pode avaliar o papelda eletividade como fundamental: Stiro Silvestre, um rapper, ex-breaker, e desde o princ-pio ligado ao hip-hop, em tom de brincadeira, alude ao tempo que j tem de movimento:Era uma vez... (risos) cara meu contato com o hip-hop foi... desde os 12 anos, faz tem-po... mas foi aqui na comunidade mesmo, nas festas que tinha, que eu via a galera danan-do break, a rapaziada que antecedeu a gente, que era o Lula, no tinha nada organizado,mas o pessoal que danava l no Inter ... Inter dance, no Monte Castelo, era um point on-de os punks, e no tempo... 85, 86, 87 o break tava em ascenso, era de certa forma uma no-vidade, a l o pessoal tinha a festa de rock, punk, e tinha o pessoal que danava o break secongregava l, a eles migraram alguns aqui pro Conjunto Cear, a foi quando eu vi o Lu-la fazendo o Moinho de Vento eu endoidei, meu irmo, como que esse cara faz isso?. Apartir da, fui chegando na roda e me engajei, a a partir da foi o 1o contato mesmo com ohip-hop... (Entrevista realizada com Stiro em 10 ago. 2003, no bairro do Conjunto Cearem Fortaleza).240Revista Brasileira de Histria, vol. 27, n 53 27. As cidades da juventude em Fortaleza33 SHUSTERMAN, Richard. Vivendo a arte, cit., p.68-9.34 A idia da arte enquanto prtica scio-histrica, desenvolvida por Shusterman, foi umadas que mais me auxiliaram na compreenso dos fenmenos da arte e da cultura juvenil.35 Alguns autores sugerem essa prtica como uma metfora da vida cotidiana urbana con-tempornea. Aqui nos interessa apenas anotar a dana como parte indissocivel da expe-rincia musical.36 MORAES, Jota de. O que msica. So Paulo: Nova Cultural; Brasiliense, 1986.37Cf. DAMASCENO, cit., 2004. A constituio dos movimentos punk e hip-hop como mo-vimentos juvenis sociais contemporneos desenvolvida nesse trabalho.38Aristteles, cit. em PESAVENTO, Sandra Jatahy. A vitria de Antgona sob o signo de Ba-bel, a cidade brasileira dessacralizada. In: PESAVENTO, Sandra Jatahy (Org.) Escrita, lin-guagem, objetos: leituras de histria cultural. Bauru (SP): Edusc, 2004. p.168.39Fao assim uma apropriao livre de conceitos como o de geopoltica, por exemplo, e,dilato seu sentido, reinvento o seu uso e o avalio sob a tica de que a manifestao juvenilcontempornea essencialmente cultural e nisso reside a articulao entre cultura e pol-tica para esses sujeitos: uma interveno cultural, social e artstica na cidade, que marca-damente poltica pela crtica e pelas prticas que estabelecem.40 Cf. CERTEAU, Michel de. A inveno do cotidiano..., cit.41Essa uma pretenso assumida por eles prprios, e colocada e reexposta constantemen-te. Sente-se isso nas entrevistas realizadas com eles no Cear, e essa tambm uma carac-terstica mais geral do rap. Mano Brown, lder dos Racionais MCs declara (Folha de S. Pau-lo, Ilustrada, 7 maio 1994, A vez do Rap.): No sou porta-voz do movimento hip-hop,mas da periferia talvez!. Cf. ainda as matrias Tiroteio na Periferia, em O Globo, 30jun.1994; Rap a lngua oficial da periferia Estado de S. Paulo, 27 nov. 1992, e aindaRaperiferia no jornal O Povo, caderno Tribos, 15 maio 1994.42Mais do que nunca a Fortaleza DEF O grupo Ataque Frontal era composto pelosrappers ZMC e Ligado. Ambos participam do movimento, aproximadamente desde 1993.ZMC um dos membros mais engajados com setores diversos das esquerdas como o Mo-vimento Estudantil e Popular. Depois de trabalhar como lavador de carros noite no esta-cionamento de casas noturnas da cidade, tem trabalhado como prestador de servios naCmara de Vereadores de Fortaleza. Ligado, alm de seu vizinho na favela da Quadra, nocorao da Aldeota, sem profisso definida, trabalha como vendedor de pequenas lojas degrifes locais e como servente de pedreiro, quando no faz pequenos biscates.43 E x I Estado Indigente.44Sem Ttulo Realidade em Cadeia. A pergunta insistentemente repetida nesse rap Quem so os mandantes, quem so? e Olhe pra cima e veja ento, quem que mata semarma na mo / me diga agora aonde devo ir? Me diga agora mano? Me diga agora!45 Mais do que nunca a Fortaleza DEF Ataque Frontal (ZMC e Ligado).46 PESAVENTO, Sandra, cit., p.15.junho de 2007241 28. Francisco Jos Gomes Damasceno47 interessante a reflexo feita por STAM, Robert. Bakhtin: da teoria literria cultura demassa. So Paulo: tica, 1992. p.75-6: Porm os mesmos mecanismos dialgicos bsicosoperam tambm dentro da chamada cultura popular. Veja-se, por exemplo, o fenmenodo hip-hop nos Estados Unidos, que inter-relaciona os universos culturais do rap, do gra-fite e da dana break. O rap, forma de msica popular que utiliza os efeitos pirotcnicosexecutados em toca-discos combinados com um discurso verbal agressivo e ritmado aprpria palavra rap significa conversar, dialogar , pode ser considerado uma esperta vi-so de rua das teorias bakhtinianas sobre o dialogismo. Criado por adolescentes negros ehispnicos da classe operria ou lmpen, o rap intensamente, exuberantemente dialgico.48 Tortura Estado Indigente.49Cear e seus problemas Conscientes do Sistema. Este rap d ttulo ao primeiro dis-co inteiramente de rap do Cear. O grupo era ligado ao MH2O, de onde saiu para fazercarreira solo. Recentemente se desmembrou em dois, ficando uma parte ainda com o no-me de Conscientes do Sistema, e o outro passando a chamar-se de Conscincia Armada,nome de uma das composies desse CD.50 Ambas as manifestaes se consideram culturas de rua.51O cotidiano que se apreende no rock o da deambulao. Trata-se da negao de umcotidiano tradicional e da afirmao de um cotidiano de rua. O lugar do dia-a-dia deixade ser a casa para ser a cidade. Uma cidade com suas ruas e esquinas, com pistas de carroem alta velocidade, dos gigantescos anncios luminosos, da multiplicidade de informa-es, da multido nas caladas, da intensa movimentao nos bares, dos encontros furti-vos e, sobretudo, do anonimato. Seus personagens no tm nomes.... GUERREIRO, Al-merinda Sales. Retratos de uma tribo urbana: rock brasileiro. Dissertao (Mestrado) Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas, Depto. de Antropologia, USP. So Pau-lo, 1991. p.83.52 O Poder da Palavra Rap Fora.53 Sangue Negro Conexo Racial.54 Filhos da Rua Flip Rap.55Entrevista realizada por este pesquisador com Eliane Zueira em 12 fev. 2003 na PraaJos de Alencar, Fortaleza. p.2.56 Flor Punk, cit., p.3.57Entrevista realizada por este pesquisador com o punk Lezado, em 20 fev. 2003, em suaresidncia no bairro do Conjunto Cear, Fortaleza. p.1.58CAIAFA, Janice. Movimento Punk na Cidade: a invaso dos bandos sub. Rio de Janeiro:Jorge Zahar, 1985. p.49.59PERALVA, Angeline. O jovem como modelo cultural. Juventude/Contemporaneidade, Re-vista Brasileira de Educao, So Paulo: Anped, n.5-6, 1997. p.23.242Revista Brasileira de Histria, vol. 27, n 53

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