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    ARTIGOS

    MDIA, MEMRIA E HISTRIA

    Ana Cristina Figueiredo de Frias

    Mestranda do programa de Ps-Graduao em Histria Social da Cultura da PUC-RJ.

    Pesquisadora do Memria Globo da Rede Globo

    E-mail: anacrisfrias@gmail.com

    RESUMO:

    O artigo analisa de que forma as coberturas jornalsticas como a da Guerra da Bsnia nos ajudam a

    refletir sobre os usos da memria, alm de apontarem a responsabilidade de se relembrar fatos que

    carregam em si uma lembrana de dor e sofrimento e que no podem ser esquecidos. O texto

    aponta tambm a necessidade de se discutir temas como a Memria do Holocausto e o papel que a

    mdia desempenha ao utilizar um discurso que evoca fatos marcantes do passado. Os trabalhos de

    autores como Andreas Huyssen, Jacques Le Goff e Tzevtan Todorov so tomados como referncia

    para levantar questes fundamentais sobre usos, abusos e responsabilidades de se tratar o tempo

    pretrito no cenrio contemporneo.

    Palavras-chave: Memria, Memria do Holocausto, Mdia e Guerra da Bsnia.

    Abstract:

    The article describes how news coverages, such as the reportings about Bosnian war, could help us to

    ponder over the uses of memory and it also points out the responsibility of remembering facts that

    recalls pain and suffering and cannot be forgotten. The document also emphasizes the need to discuss

    subjects as the Holocaust memories and the role played by the media when applying a speech that

    evokes relevant events of the past. Writings of Andreas Huyssen, Jacques Le Goff and Tzevtan

    Todorov are used as reference to raise basic questions about the uses, abuses and responsibilities of

    dealing with the past within the contemporary scene.

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    Key-words: Memory, Holocaust memory, media and Bosnia War.

    Mdia, Memria e Histria

    A memria, onde cresce a histria, que por sua vez a alimenta,

    procura salvar o passado para servir o presente e o futuro.

    Devemos trabalhar de forma que a memria coletiva

    sirva para a libertao e no mais

    para a servido dos homens.

    (Memria, Jacques Le Goff)

    Imagens do sofrimento e do martrio de um povo so mais do que

    lembranas de morte, de derrota, de vitimizao.

    Elas evocam o milagre da sobrevivncia.

    (Diante da dor dos outros, Susan Sontag)

    'Like Auschwitz' como esse ttulo o reprter Roy Gutman do jornal Newsday publicou uma matria

    que revelava as atrocidades cometidas nos campos de concentrao srvios durante a Guerra da

    Bsnia. A reportagem, publicada em 21 de julho de 1992, relembrava um episdio que marcou de

    forma definitiva a histria da humanidade e da Europa. Os horrores da Segunda Guerra eram

    recuperados do passado como uma tentativa de se evitar que situaes semelhantes de genocdio e

    limpeza tnica ocorressem novamente no curso da Histria. Mas como lidar com essa relao da dor

    e da necessidade da lembrana para aqueles que vivenciaram o conflito e perderam familiares e

    amigos? So acontecimentos que no podem ser esquecidos e, ao mesmo tempo, trazem uma

    recordao insuportvel. Nesse contexto, a memria do Holocausto surge como uma ferida ainda no

    cicatrizada. Diante do tema, necessrio discutir os usos, os abusos e as responsabilidades de se

    relembrar e reviver os vestgios do passado. Desde o final da dcada de 1980 at os dias atuais,

    podemos afirmar que ocorreu uma profuso de centros e estudos sobre a memria, houve uma

    ascenso do que chamado de cultura da memria 92

    . O passado se tornou uma das preocupaes

    92 Referncia ao termo utilizado por Andreas Huyssen no texto Mdia e discursos da memria IN: Revista Brasileira

    de Comunicao, So Paulo. Volume XXVII, nmero 01, janeiro/ junho de 2004.

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    principais do mundo ocidental, foram realizados e difundidos inmeros projetos que visavam o

    desenvolvimento de uma cultura memorialstica, como afirma o autor Andreas Huyssen.

    As imagens e as narrativas jornalsticas passaram a recorrer a fatos do passado que se reportavam

    diretamente a uma realidade na histria do tempo presente. Esses temas suscitam uma srie de

    perguntas para o historiador: De que forma esse uso da memria pode afetar a escrita da histria?

    Qual o compromisso e o dever de se refletir sobre as articulaes entre memria e histria? Quais

    as particularidades e as especificidades que so descartadas numa colagem rpida de um fato do

    passado no presente? A proposta do trabalho , exatamente, discutir essas questes e analisar o papel

    de um discurso da memria apresentado pela mdia no cenrio contemporneo.

    Para refletirmos sobre os usos e abusos da memria no podemos esquecer que ela resultado de um

    dilogo contnuo, uma relao em movimento com outros dois termos: cultura e tempo. Tambm no

    possvel falar de memria sem se falar de histria. A memria uma operao do presente e que

    lida com o passado como matria-prima, um tempo pretrito que ser, constantemente, reconstrudo,

    reinventado, a partir de uma experincia sensorial e afetiva. Dessa forma, o tempo da memria o

    presente. preciso ressaltar tambm que a memria polissmica, polifnica e multifacetada. Ela

    est nos museus, nas artes plsticas, nas fotografias, nas esculturas, nos bordados, nos tmulos, em

    pequenos objetos dos nossos antepassados as relquias. So todos fragmentos de uma poca, que

    refletem uma escrita da memria e que pertencem a um tempo que no mais o nosso, a um passado

    que um pas estrangeiro, como assinala David Lowenthal. Segundo o prprio autor, a incerteza

    sobre o passado, que nos leva a crer que tudo ocorreu conforme foi documentado, mas esse passado

    nunca pode ser to conhecido como o presente.

    Para Lowenthal, o passado nos cerca, nos preenche, as aes dos homens conservam resqucios de

    tempos pretritos, vivemos entre as relquias de pocas anteriores e a tradio algo que est

    impregnado nas clulas do nosso corpo. O autor nos mostra que dedicamos uma boa parte do tempo

    presente para entrar em contato com algum momento passado. Dessa forma, compreendemos o valor

    e o sentido da memria na vida de cada indivduo e de uma sociedade. As lembranas tambm

    podem sustentar nosso sentido de identidade, so recordaes compartilhadas e continuamente

    complementadas pelas experincias de outros indivduos na coletividade.

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    Lembranas no so reflexes prontas do passado, mas reconstrues eclticas,

    seletivas, baseadas em aes e percepes posteriores e em cdigos que so

    constantemente alterados, atravs dos quais delineamos, simbolizamos e

    classificamos o mundo nossa volta. (LOWENTHAL, 1995: 103)

    O autor do texto Como conhecemos o passado destaca tambm que a narrativa histrica no um

    retrato do que aconteceu, apenas uma das possveis histrias sobre o que de fato ocorreu. O

    historiador precisa estar atento para que uma perspectiva do presente no esteja propensa a desvirtuar

    ou mesmo esvaziar o passado. A imprensa e a expanso da escrita foram fatores determinantes na

    fixao de um ordem temporal na Histria. Lowenthal assinala ainda que nas sociedades letradas os

    textos impressos so amplamente difundidos, mas a grande parte de um conhecimento do passado

    ficou fragmentada e restrita a um pequeno grupo de especialistas. Segundo o autor, a possibilidade

    de um passado consensualmente compartilhado, mas superficial, foi apresentada pela mdia. A

    afirmao de Lowenthal nos ajuda a refletir exatamente sobre esse discurso da mdia que, muitas

    vezes, associa acontecimentos a contextos completamente distintos. No entanto, importante

    destacar que uma lembrana pode nos jogar to fortemente no passado, que ele revivido de forma

    to intensa, que pode desencadear aes e projetos que nos impulsionam em direo a um caminho

    no futuro.

    A memria instrumental no possu envolvimento; seu passado esquematizado aponta simplesmente

    para o mais importante presente. O devaneio recorda sentimentos especficos e nos incentiva a

    comparar modos de ser passados com modos de ser presentes. A rememorao total nos joga a

    contragosto no passado; o presente oprimido por acontecimentos anteriores to importantes ou

    traumticos que eles so revividos como se praticamente ainda estivessem ocorrendo.

    (LOWENTHAL, 1995: 93)

    Diante da afirmao de Lowenthal, devemos perguntar de que forma essa rememorao no indica

    cenrios e situaes de genocdio e limpeza tnica do passado, que esto sendo repetidos, mas que

    no poder ser mais tolerados.

    O conceito de memria, como afirma Jacques Le Goff, no verbete da enciclopdia Einaudi, crucial,

    o autor nos mostra a conotao poltica que o termo apresenta. Como ele afirma, a histria uma

    forma poderosa de memria e que pode servir ao poder. Para Le Goff, a memria no se ope ao

    esquecimento, pelo contrrio, o esquecimento faz parte dessa memria que construda, reinventada.

    A autora Marieta de Moraes Ferreira, no artigo Oralidade e memria em projetos testemunhais,

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    tambm assinala que esquecer uma das faces da memria, estudar o que esquecido e o que

    lembrado so elementos fundamentais para uma maior compreenso e entendimento do presente. 93

    Uma contribuio importante no estudo o trabalho de Gilberto Velho em Projeto e Metamorfose.

    No texto, ele argumenta que vivemos uma nostalgia do passado diante do mundo contemporneo e

    que a identidade o reflexo da organizao dos nossos pedaos e fragmentos de