Artigo tráfico de pessoas

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O artigo aborda temas de trfico de pessoas para o trabalho forado.

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<ul><li><p>-f'- '.,. \li</p><p>"</p><p>Junte-se ao Processo nos termos do Art.261 do Regimento Interno do Senado\p Federal</p><p>CPI - TRAFICPES</p><p>Vol 1. ~TRFICO. DE PESS10AS:UMA ANALISE COMPARATIVA DA</p><p>. NORMATIVANACIONAL E INTERNACIONAI(~/</p><p>FRANS NEDERSTIGT</p></li><li><p>APRESENTAO</p><p>Projeto Trama teve incio em abril de 2004, mediante a formao de um consrcio entrequatro entidades no governamentais: a Organizao de Direitos Humanos Projeto Legal; oInstituto Brasileiro de Inovaes em Sade Social-IBISS; a Organizao de Mulheres NegrasCRIOLA; e, o Ncleo de Direitos Humanos da Universidade do Grande Rio - UNIGRANRIO,todas sediadas e com reconhecida atuao na defesa, garantia e promoo de direitos</p><p>humanos no Estado do Rio de Janeiro.</p><p>Considerando o trfico de pessoas como uma grave violao dos direitos humanos e umproblema ligado globalizao e a desigualdade social, bem como a questes de gnero,raa e etnia. O Projeto Trama tem como misso enfrent-lo atravs da afirmao dos direitoshumanos, de modo a evitar a vitimizao e a discriminao.</p><p>Este caderno no to somente destinado a operadores de direito, mas a todos queles que</p><p>tm interesse na ampliao do Acesso Justica de pessoas trafcadas. Acesso no sentidoformal do processo e Justia no sentido material para a vtima. No procura de forma alguma</p><p>pregar uma nica verdade, e sim provocar outras percepes sob a dura realidade do trficode pessoas, bem como abordar temas transversais tais como trabalho, gnero e migrao.Pretende ainda, cumprir a funo de estimular a aprendizagem porm muito mais quer motivarpela desaprendizagem.</p><p>Em sintse, este caderno visa incentivar o debate jurdico crtico, aumentando assim ointercmbio de experincias, anlises e estratgias de aes de enfrentamento ao trfico depessoas cada vez mais qualificadas.</p><p>Boa leitura!</p><p>Rio de Janeiro, abril de 2009</p><p>Consrcio Projeto Trama</p></li><li><p>Volume 1</p><p>SUMRIO</p><p>13.....NORMATIVA INTERNACIONAL</p><p>www.projetotrama.org.br</p><p>1 INTRODUO</p><p>2 CONCEITUANDO TRFICO DE PESSOAS2 A Definio Universal do Protocolo Anti-Trfico Humano da ONU2 Trfico de Pessoas: Causa e Conseqncia de Violaes de Direitos Humanos3 0 Enfrentamento do Trfico de Pessoas no seu Contexto Histrico</p><p>5 NORMATIVA NACIONAL5 Poltica e Plano Nacional de Enfrentamento ao Trfico de Pessoas6 Abordagem Trabalhista: Trfico de Pessoas e Trabalho Escravo8 Abordagem Penal: As mudanas trazidas pela lei N11.1 06/20059 Crimes Correlatos13 Abordagem Civil: Reparao de Danos</p><p>da explorao econmica (56% do total contra 44% dehomens e meninos) e corno maiores vtimas de explora-o sexual comercial (98% do total contra 2% de homense meninos). Segundo a Pesquisa Sobre Trfico de Mu-lheres, Crianas e Adolescentes para Fins de Explora-o Sexual Comercial no Brasil- PESTRAF, existem241 rotas (131 internacionais e 110nacionais), envolven-do um fluxo permanente de predominantemente mulherese adolescentes, afrodescendentes, com idade entre 15 e25 anos (PESTRAF, 2002).</p><p>No enfrentamento ao trfico de pessoas, aes sopropostas em diversas reas de atuao e por organiza-es da sociedade civil, governos e organizaes inter-nacionais. Entretanto, o interesse deste estudo est nocampojurdico.</p><p>O objetivo principal deste estudo a realizaode urna anlise comparativa, identificando as diferen-as funcionais entre a legislao brasileira quanto represso, preveno do trfico de pessoas, e aten-o s vtimas de trfico de pessoas, na esfera traba-lhista, penal e cvel, em relao normativa interna-cional mais relevante sobre o terna do enfrentamentoao trfico humano.</p><p>Os eixos que serviro de indicadores dentro doobjeto proposto por este estudo e j mencionados so:represso, preveno e ateno s vtimas de trficode pessoas. O Protocolo Anti-Trfico Humano da Or-ganizao das Naes Unidas - ONU, utiliza no seuArtigo 4, referente ao mbito de sua aplicao, essamesma diviso:</p><p>O presente Protocolo aplicar-se-, salvo dispo-sio em contrrio, preveno (artigo 9Q), in-vestigao e represso das infraesestabelecidas em conformidade com o Artigo 5do presente Protocolo, quando essas infraesforem de natureza transnacional e envolveremgrupo criminoso organizado, bem como pro-teo das vtimas (artigo 6) dessas infraes.(ONU 2000 apud BRASIL, 2004, grifo meu)No primeiro captulo conceituaremos o trfico hu-</p><p>mano, primeiramente, atravs da definio universal-mente reconhecida no Protocolo Anti-Trfico Huma-no da ONU, para, em seguida, melhor entender esseproblema mundial corno causa e conseqncia de vi-olaes de direitos humanos, bem corno no seu con-texto histrico.</p><p>No segundo captulo trataremos da primeira par-te da anlise comparativa, sendo a normativa nacio-nal referente ao trfico humano, abordando inicialmen-te a recente Poltica Nacional de Enfrentamento aoTrfico de Pessoas e o ainda mais recente Plano Na-cional de Enfrentamento ao Trfico de Pessoas -PNETP. Depois, analisaremos a legislao nacional,</p><p>1. INTRODUO"O trfico de pessoas urna das formas mais ex-</p><p>plcitas de escravido moderna. Embora tenha sidoabolida oficialmente, a escravido nunca foi realmen-te erradicada." (GLOBAL ALLIANCE AGAINSTTRAFFIC IN WOMEN, 2007, p. 87, traduo nossa).</p><p>Essa frase, escrita em relao ao contexto brasi-leiro, sintetiza a problemtica a ser abordada nesteestudo e ao mesmo tempo possibilita a reflexo sobrea complexidade desta temtica. Numa abordagem maisjurdica, encontrada nos direitos humanos, pode-seafirmar que: "[...] trfico de pessoas causa e conse-qncia de violaes de direitos humanos [... ]"(GAATW-BRASIL, 2006, p.l).</p><p> conseqncia de violaes de direitos huma-nos porque o trfico humano origina-se da desigual-dade social-econmica, da precariedade de polticaspblicas bsicas, da falta de perspectivas de empregoe de realizao pessoal e da luta diria pela sobrevi-vncia. Em outras palavras: principalmente causadopor violaes de direitos humanos econmicos, soci-ais e culturais, tambm chamados os direitos huma-nos da segunda gerao! (ou dimenso). O trfico depessoas, em outras palavras, encontra terra frtil naviolao de direitos humanos econmicos, sociais eculturais.</p><p>Mas o trfico humano, por sua vez, tambm pro-voca violaes de direitos humanos porque causa aexplorao da pessoa humana, degrada a sua dignida-de e limita o seu direito de ir e vir. Em outras palavras:viola os direitos humanos, inclusive os direitos civisda primeira gerao (ou dimenso).</p><p>Corno citado a escravido na verdade nunca foierradicada. Segundo as estimativas do Escritrio Con-tra Drogas e Crime das Naes Unidas - UNODC(2007), o trfico internacional de mulheres, crianas eadolescentes movimenta a cada ano entre US$ 7 bi-lhes e US$ 9 bilhes, sendo uma das atividades maislucrativas do crime organizado transnacional seno amais lucrativa depois do trfico de drogas e trfico dearmas. Calcula-se, de acordo com recentes estatsti-cas da Organizao Internacional do Trabalho - OIT(2005a), que no mundo 12,3 milhes de pessoas exer-am trabalho forado, e que deste nmero 2,45 mi-lhes pessoas foram traficadas. Isto significa que apro-ximadamente 20% do trabalho forado produto dotrfico de pessoas, porm nos pases industrializadoso trfico de pessoas representa 75% do trabalho for-ado. Destes, 43% acabam na explorao sexual co-mercial.</p><p>Das pessoas traticadas (OIT, 2005a), destacam-se as mulheres e as meninas corno as maiores vtimas</p><p>CADERNO JURDICO 1</p><p>Autor:Frans Nederstigt</p><p>Consrcio Projeto Trama</p><p>Rio de Janeiro - RJDezembro de 2008</p><p>Copyright 2009Consrcio Projeto Trama</p><p>Consultores:Ebe Campinha dos Santos</p><p>Carlos Nicodemosluciana Campello Ribeiro de Almeida</p><p>Edio e Projeto Grfico:Thiago Ansel</p><p>Trfico de Pessoas:uma anlise comparativa da normativa</p><p>nacional e internacional</p><p>23 BIBlIOGRAFIA</p><p>28 TABElAS</p><p>13 0 Protocolo Anti-Trfico Humano da ONU e a Situao de Vulnerabilidade15 0 Impacto Jurdico no Direito Interno Brasileiro do Protocolo Anti-Trfico Humano16 Represso, Preveno e Ateno s Vtimas do Trfico de Pessoas no Protocolo Anti-Trfico Humano18 0utras Normativas Internacionais</p><p>19 0NU19 0EA19 MERCOSUl</p><p>19 CONSIDERAES FINAIS</p><p>21 NOTAS</p><p>1</p></li><li><p>Cadernos Projeto TRAMA</p><p>relevante para o tema do enfrentamento ao trfico de pes-soas, no seu contexto trabalhista, penal e civil, identifican-do, desde j, possveis problemas e lacunas, principal-mente na rea penal (inclusive atravs de uma tabela).</p><p>No terceiro captulo trataremos da segunda parteda anlise comparativa, sendo a normativa internacionalreferente ao trfico humano, abordando inicialmente umdos temas mais polmicos no Protocolo Anti-Trfico Hu-mano da ONU: a utilizao do termo "situao devulnerabilidade", tema chave para entender o trfico hu-mano como conseqncia de violaes de direitos huma-nos. Em seguida, adentramos no impacto jurdico do Pro-tocolo da ONU para o direito interno brasileiro. Atravsdos eixos de represso, preveno e ateno s vtimasde trfico de pessoas, detalharemos o significado do Pro-tocolo para o enfrentamento do trfico de pessoas. Ocaptulo sobre a normativa internacional ser completado,por fim, detalhando as outras normas internacionais daONU, da Organizao dos Estados Americanos~OEA,e do Mercado Comum do Sul~MERCOSUL, aplic-veis no Brasil e relevantes para o enfrentamento do trficode pessoas. Alm disto, ser apresentada uma (segunda)tabela listando os instrumentos jurdicos nacionais e inter-nacionais mais relevantes para o enfrentamento ao trficode pessoas no Brasil.</p><p>Esta publicao, por fim, apontar os principaisproblemas quando compararmos a normativa nacio-nal e a normativa internacional aplicvel no Brasil.</p><p>2. CONCEITUANDO TRFICO DEPESSOAS</p><p>2.1. A DEFINiO UNIVERSAL DO PROTOCO-LO ANTI-TRFICO HUMANO DA ONU</p><p>Em 15 de novembro de 2000 foi adotado pelaAssemblia Geral das Naes Unidas o ProtocoloAdicional Conveno das Naes Unidas contra oCrime Organizado Transnacional Relativo Preven-o, Represso e Punio do Trfico de Pessoas, emespecial Mulheres e Crianas, adiante denominado deProtocolo Anti-Trfico Humano, tambm conhecidocomo Protocolo de Palermo'. Aprovado em 29 de maiode 2003 pela resoluo n 231 do Congresso Nacionale posteriormente promulgado pelo Decreto Presiden-cial n 5.107 de 12 de maro de 2004, tornou-se, pelomenos, lei ordinria federal no mbito interno.'</p><p>Pela primeira vez na histria existe um conceitouniversalmente reconhecido de trfico de pessoas (sejainterno, seja internacional), definido pelo ProtocoloAnti-</p><p>2</p><p>Trfico Humano da ONU no seu artigo 3, alnea (a),como:</p><p>[...Jo recrutamento, o transporte, atransfern-cia, o alojamento ou o acolhimento de pessoas,recorrendo ameaa ou uso da fora ou a ou-tras formas de coao, ao rapto, fraude, aoengano, ao abuso de autoridade ou situaode vulnerabilidade ou entrega ou aceitao depagamentos ou benefcios para obter o consen-timento de uma pessoa que tenha autoridadesobre outra para fins de explorao. A explora-o incluir, no mnimo, a explorao da prosti-tuio de outrem ou outras formas de explora-o sexual, o trabalho ou servios forados, es-cravatura ou prticas similares escravatura, aservido ou a remoo de rgos. (ONU 2000apud BRASIL, 2004)</p><p>2.2 TRFICO DE PESSOAS: CAUSA E CON-SEQNCIA DE VIOLAES DE DIREITOSHUMANOSMariana e as Polticas Sociais</p><p>Trs filhos pequenos, de pais diferentes, nenhumcontribuindo com sua educao. Mariana, 21anos, mora em Belm em uma casa de madei-ra que pertence a sua me, quer dizer, oficial-mente no, porque se trata de uma rea de "ocu-pao", mas foi ela e seus irmos que a cons-truram. Mariana acabou de perder seu empre-go numa loja no shopping da cidade, que demi-tiu uma parte dos seus funcionrios depois doNatal. Sem ensino mdio completo, devido strs gravidezes e o cuidar dos filhos, ela ajuda ame lavar roupas de outras famlias, o que ren-de um salrio mnimo por ms. Os filhos tm 5,3 e 2 anos. A bolsa famlia de 95 reais", que elaconseguiu, mal d para comprar leite e remdi-os para os filhos. O programa Primeiro Empre-go no a cadastrou, porque ela no estava es-tudando e sua carteira de trabalho j mostravaseis meses de trabalho como vendedora, almde existir um nmero limitado de vagas para par-ticipar (em 2005 foram 1500 jovens, em 2006 oprograma no funcionou).5 Sua filha mais novasofre de constantes ataques de asma. No postode sade, quando ela conseguiu ser atendidadepois de vrias noites aguardando em frentedo posto de sade, o mdico pediu um raio-x dotrax e exame de pele e sangue. Mariana con-seguiu agendar os exames s para trs mesesdepois da consulta. O mdico prescreveu tam-bm dois remdios, um bronco dilatador e umantiinflamatrio, que infelizmente no estavamdisponveis no posto.Presentes, brinquedos, roupas novas, produtos</p><p>de higiene, ... no esto dentro do oramento,menos ainda cinema, passeios ou restaurantes.Os cartes de crdito, entregues nas casas po-pulares por lojas e supermercados, j estoura-ram com as primeiras compras e as dvidassaltaram para valores gigantescos. Sem crditona praa, a nica diverso a televiso e osamigos da esquina, onde h um barzinho e pon-to de txi, conhecido como boca de fumo e obje-to de constantes investidas policiais (para rece-berpropinas ou exigirpagamento para no pren-der certas pessoas...)Que Polticas Pblicas chegaram at esta mu-lher jovem? A de moradia? Educao? Assis-tncia? Emprego e Renda? Lazer?Profissionalizao? Segurana?Chegou um convite: viajar para Suriname paraganhar, em pouco tempo, dinheiro para saldardvidas e pagar um mdico particular para seusfilhos, alm de contribuir na reforma da casa. arriscado, com certeza vai ter sofrimento, mas... o que se apresenta neste momento. (HAZEU,2007, p. 21-22)Aps esse exemplo sobre a situao (de</p><p>vulnerabilidade) da Mariana, obvio que as violaes dedireitos humanos econmicos, sociais e culturais batem sportas de muitas Marianas. No um problema terico.No mera hiptese. Justamente por isto deve-se evitarfalar em trfico de seres humanos, como se fosse umamodalidade do trfico de animais silvestres, atividade cri-minosa tambm combatidapela PolciaFederal como avi-sam, desde 2003, cartazes6 nos aeroportos brasileiros.Ao contrrio, deve se falar empessoas traficadas; pesso-as com nomes, pessoas com sonhos para achar o cami-nho na vida que chegar a felicidade, pessoas ousadasque arriscam o seu hoje para um amanh melhor.</p><p>Por este mesmo motivo, numa perspectiva de direi-tos humanos, no se deve rotular as pessoas traficadascomo pessoas vulnerveis. Ao contrrio. No mximo sopessoas que se encontram em uma situao devulnerabilidade. 7 A diferenciao entre pessoas vulne-rveis e pessoas em uma situao de vulnerabilidadeno uma questo meramente terminolgica. Faz dife-rena na abordagem dessas pessoas. A expresso pes-soa vulnervel refere-se a uma incapacidade individual:a vtima, decorrente da sua fragilidade, coloca-se nestasituao inferior e por isso precisa de ajuda, pois no capaz de sair dela sozinha, sendo lhe atribudauma condi-o de passividade. Uma pessoa em uma situao devulnerabilidade em princpio capaz de sair dela, estnela por razes externas e pode, se suficientementeempoderada, exigir um reconhecimento dos direitos dela,mas no vulnervel como se fosse uma caractersticainerente a pessoa. Em sntese, a abordagem da pessoa</p><p>Volume 1</p><p>traficada depender da forma como se conceber, teri-ca e ideologicamente, a viso sobre esta.</p><p>O Projeto Trama, consrcio' de enfrentamento aotrfico de pessoas no Rio de Janeiro, inici...</p></li></ul>