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  • Revista Brasileira de Histria. So Paulo, v. 29, n 58, p. 417-442 - 2009

    * Professora adjunta da rea de Teoria e Metodologia da Histria. Curso de Histria, Centro de Cincias Humanas Educao e Letras, Universidade Estadual do Oeste do Paran. Rua Pernambuco, 1777, Centro. 85960-000 Marechal Cndido Rondon PR Brasil. deb-eljaick@uol.com.br

    ResumoRedigida por estudantes brasileiros resi-dentes em Paris Domingos Jos Gon-alves de Magalhes, Manuel Arajo Porto Alegre e Francisco Sales Torres Homem , a revista Niteri (1836) ma-nifestava o propsito das revistas liter-rias do sculo XIX de fomentar o amor literatura, s artes e s cincias, e se nutriu do contato dos seus redatores com a intelectualidade francesa e com as novas ideias filosficas que triunfa-ram no perodo. Com base nas mem-rias apresentadas nas sesses do Institut Historique de Paris, na correspondncia dos autores e nos artigos da revista Nite-ri, buscamos reconstituir a proposta de afirmao da nacionalidade realizada atravs dos preceitos do historicismo, demonstrando que as artes e a literatura eram entendidas como alicerces sobre os quais a nao deveria se edificar para concretizar sua independncia.Palavras-chave: historiografia; histori-cismo; imprensa.

    AbstractThe Niteri (1836), a review published by young Brazilian students living in Paris Domingos Jos Gonalves de Magalhes, Manuel Arajo Porto Ale-gre, and Francisco Sales Torres Homem , expressed the inclination of major li-terary reviews in the 19th century, which was to stimulate enthusiasm for litera-ture, arts and sciences. It profited from the contact established between its edi-tors and French intellectuals, as much as from philosophical ideas that trium-phed at the time. By analyzing memoirs, letters and essays published at the Nite-ri, we wished to recognize the proposi-tion of its publishers of confirming na-tionality through the precept of historicism. It shows that arts and lite-rature were perceived as grounds upon which the nation should be built in or-der to accomplish its independence.Keywords: historiography; historicism; press.

    Semeando os alicerces da nao: Histria, nacionalidade e cultura

    nas pginas da revista NiteriSowing the grounds of the nation: History, nationality

    and culture on the pages of the Niteri review

    Dbora El-Jaick Andrade *

  • Dbora El-Jaick Andrade

    418 Revista Brasileira de Histria, vol. 29, n 58

    No plano cultural internacional, a dcada de 1830 marcou uma srie de transformaes na imprensa peridica e na literatura. Na Europa, em especial na Frana, ocorria uma semirrevoluo tcnica que permitiu a expanso do pblico leitor nos limites impostos pelos nveis de alfabetizao e meios de distribuio, com base na reduo dos custos de produo.1 O aumento con-sidervel das tiragens promoveu o xito da imprensa cotidiana, de jornais co-mo La Presse de mile Girardin e Le Sicle de Armand Dutacq, cuja sobrevi-vncia passou a depender da publicidade e da seduo exercida pelo romance folhetim sobre um pblico leitor mais popular. A partir de ento, o roman-ce folhetim francs, reproduzido e traduzido mundo afora, impactou as lite-raturas nacionais, o modo de trabalho e o prestgio social dos escritores.

    Alm de se constituir em um instrumento de poder na luta poltica e eleitoral, a imprensa abria espao s revistas literrias, cujas primeiras verses remontam ao sculo XVII. Na Frana, durante a Monarquia de Julho (1830-1848), surgiram revistas inspiradas nos modelos ingleses que abordavam gran-de variedade de temas, tanto polticos como cientficos, artsticos e especial-mente literrios, inserindo em suas pginas poemas, romances, novidades, textos e fragmentos, comentrios e resenhas. A mais importante a surgir em 1829, pouco antes do arrefecimento da censura que levou tantos peridicos a desaparecerem, foi a Revue de Litterature, Histoire, Arts et Sciences des Deux Mondes, que trazia uma diversidade de temas voltados instruo dos leitores: dirio de viagens, administrao, costumes entre povos diferentes e novidades sobre o progresso da civilizao (Charle, 2004, p.63). Aps algumas reformu-laes, seu contedo se tornou mais cultural e literrio. A Revue constituiu como um de seus objetivos reunir os melhores escritores, historiadores e po-lticos, tais como Victor Hugo, Alexandre Dumas, Jules Michelet, Charles A. Sainte-Beuve, Honor de Balzac e George Sand (Charle, 2004, p.64).

    As revistas literrias assumiram importante papel no debate esttico e literrio que conduziu afirmao do romantismo, como demonstram as po-lmicas a respeito da doutrina romntica e da renovao literria travadas em diferentes momentos por Minerve Littraire, Muse Franaise e Le Globe. A valorizao de um ideal esttico no era de todo incompatvel com os ideais e posicionamentos polticos. Longe disso, a busca pela emancipao da prtica artstica e literria era equiparada por muitos representantes do romantismo emancipao civil e social.2 Alm disso, torna-se importante ressaltar que a grande incidncia dos peridicos literrios e artsticos na Frana sob a Restau-rao se explica pela maior probabilidade de estes escaparem da censura

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    Semeando os alicerces da nao...

    imprensa comum e garantirem a publicao de artigos com contedo indire-tamente poltico (Charle, 2004, p.33).

    Tambm em Portugal, multiplicaram-se as revistas literrias, especial-mente durante a afirmao da imprensa entre 1836 e 1840. Ao mesmo tempo continuadoras do esprito iluminista e do propsito literrio, instrutivo e en-ciclopdico das revistas precedentes, inovavam por colocar em pauta o debate sobre a renovao da literatura setecentista portuguesa.3 Alguns dos mais fa-mosos peridicos literrios foram: o Repositrio literrio da sociedade das Cin-cias Mdicas e de literatura do Porto (1834-1835) e O Panorama, jornal liter-rio e instrutivo (1837-1868), dirigido por Alexandre Herculano. Permeveis aos modelos estrangeiros, sobretudo da Frana, revistas como O Panorama divulgavam a obra de autores franceses, como Germaine de Stel, e passaram a adotar a frmula do folhetim.

    No Brasil, diferentemente da Europa, o perodo de turbulncias polticas no Primeiro Reinado e das Regncias retardou em algumas dcadas a multi-plicao das revistas divulgadoras das cincias, das artes e da literatura. Elas no se afirmariam antes do apaziguamento das lutas polticas e da consolidao da monarquia sob o Segundo Reinado. Ocorria, ento, a predominncia do jornalismo poltico, iniciada com os embates que levaram Independncia e continuada na dcada de 1830, com a partidarizao da imprensa, que no pe-rodo regencial girava em torno dos projetos de organizao do poder na nova nao, envolvendo e fomentando rivalidades entre exaltados, moderados e caramurus. Jornais e peridicos pretendiam intervir diretamente sobre a vida poltica, defendendo iderios polticos e assumindo o papel de formadores de opinio.

    A revista Niteri, redigida em Paris no ano de 1836, anunciava como objetivo desviar-se das acaloradas disputas partidrias que ocupavam grande parte da imprensa no perodo regencial. Divergindo da tendncia dos pasquins e das folhas das dcadas de 1820 e 1830, sua proposta, contudo, seguia a lgica do liberalismo moderado expressa por Evaristo da Veiga, redator da Aurora Fluminense, amigo dos redatores Sales Torres Homem e Arajo Porto Alegre. Estes consideravam perigosos os conflitos, a desordem e seus efeitos sobre a sociedade, que deveria ser preservada do choque violento entre os partidos.4 No foi a nica, nem a primeira, a trazer em suas pginas preocupaes lite-rrias, cientficas e informativas, pois revistas com esse perfil existiram de for-ma fugaz desde o perodo joanino.5 Sua singularidade, expressa na proposta dos seus redatores, de que, ao mesmo tempo em que se aproximava do mo-delo das revistas literrias do incio do sculo XIX, trazendo as novidades es-

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    tticas e informaes teis, propunha-se a ser formadora de opinio, desper-tando a ateno para assuntos polmicos e de fundo poltico. Como explicita a apresentao do primeiro tomo, sua inteno era desviar-se das habituais discusses sobre cousas de pouca utilidade, e o que mais, de questes sobre a vida privada dos cidados, que os acostumasse a refletir sobre objetos do bem comum, e de gloria da ptria (Niteri, 1836).

    Dedicada s cincias, letras e artes, diferentemente das revistas prece-dentes, a Niteri propunha-se a apresentar um quadro do desenvolvimento da sociedade brasileira sob o prisma das artes, das letras e da economia, alm de esforar-se em afirmar a existncia de uma literatura nacional. Considerada pela historiografia da literatura precursora do romantismo no Brasil, para alm de constituir-se em um marco apenas convencional, encontra-se em suas p-ginas uma interpretao do Brasil como nao independente, no mais pelo olhar estrangeiro, mas pelo de seus patrcios, jovens estudantes brasileiros re-sidentes na capital francesa.

    Os redatores Domingos Jos Gonalves de Magalhes (1811-1882), Manuel de Arajo Porto Alegre (1806-1879) e Francisco Sales Torres Homem (1812-1876), poucos anos depois, de volta ao Brasil, apoiariam o projeto maiorista, integrariam a intelectualidade do Imprio e participariam das polticas do Es-tado Imperial, ingressando como scios no Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro. Na ocasio em que se encontravam juntos na capital francesa e es-creviam a revista, propunham-se a compreender e identificar os alicerces da Nao, o que reconhecia e legitimava, perante o exterior, o direito de existn-cia do Brasil como pas independente e, internamente, instigava a crena na comunho de seus habitantes.6

    Os futuros Visconde de Araguaia, Baro de Santo Angelo e Visconde de Inhomirim no precediam de famlias abastadas oriundas da aristocracia agr-ria.7 Eram filhos de comerciantes ou profissionais liberais que, atravs da de-dicao ao estudo, s letr