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Intercom Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicao XVIII Congresso de Cincias da Comunicao na Regio Sudeste Bauru - SP 03 a 05/07/2013

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O Comportamento Agressivo Expresso no Estilo Tarantinesco de Cinema1

Arthur Nonato Moraes dos SANTOS2,

rika TURCI3,

Isadora Miglioretti BATAGIN4,

Isadora OLIVEIRA5,

Tamiris VOLCEAN6

Angela Maria Grossi de CARVALHO7

Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho, Bauru, SP

Resumo

Este artigo tem como objetivo estudar o enfoque da violncia no cinema ps-

moderno, assim como sua glamorizao em diferentes abordagens, levando em

considerao a busca da sociedade atual por uma representao cinematogrfica

estimulante e imprevista, encontrada em cenas classificadas como violentas.

demonstrada uma anlise a qual traz a violncia como algo fsico e psicolgico, sendo

esta apenas superficial e momentnea como tambm complexa e tema de estudos

relacionados a psicanlise, trabalhado e demonstrado por diversos estudiosos, assim

como escritores, roteiristas e cineastas. Busca-se demonstrar, atravs dos filmes Pulp

Fiction e Ces de Aluguel, do diretor Quentin Tarantino, algumas vertentes da violncia

no cinema.

Palavras-chave: violncia; Tarantino; ps-moderno; psicanlise.

1 Trabalho apresentado no IJ 4 Comunicao Audiovisual do XVIII Congresso de Cincias da Comunicao na Regio Sudeste, realizado de 3 a 5 de julho de 2013. 2 Estudante de graduao do curso de Comunicao Social Jornalismo, da Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho, Bauru. e-mail: arthur.nonatoms@gmail.com 3 Estudante de graduao do curso de Comunicao Social Jornalismo, da Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho, Bauru. e-mail: erikaturci@gmail.com 4 Estudante de graduao do curso de Comunicao Social Jornalismo, da Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho, Bauru. e-mail: isadora.batagin@hotmail.com 5 Estudante de graduao do curso de Comunicao Social Jornalismo, da Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho, Bauru. e-mail: isaadeoliveiraa@hotmail.com 6 Estudante de graduao do curso de Comunicao Social Jornalismo, da Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho, Bauru. e-mail: tamirisvolcean@gmail.com 7 Orientadora do trabalho. Professora do curso de Comunicao Social Jornalismo, da Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho, Bauru. e-mail: angela@carvalho.jor.br

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Um termo, diversas vises: violncia inserida em diferentes contextos

A violncia existe em suas diversas formas, podendo atingir o indivduo

fisicamente, emocionalmente e socialmente. O socilogo H. L. Nieburg define o termo

violncia como uma ao direta ou indireta, destinada a limitar, ferir ou destruir

pessoas e bens. (Michaud, 1989).

A violncia originou-se no conflito social, representado pela luta dos contrrios,

a qual pode ser percebida desde o incio da sedentarizao e socializao da

humanidade. Uma das concepes clssicas da Sociologia atual proposta por Karl

Marx e baseia-se no conflito e na mudana. Para Marx, a explorao do trabalho de uma

classe por outra uma forma de expresso e resultado do conflito social, o qual pode ser

considerado o motor dos perodos histricos da humanidade (Marx, 1985).

Alm disso, saindo do mbito sociolgico, a violncia tambm possui razes na

religio crist e na historiografia clssica. Primeiramente, podemos citar a afirmao de

Herclito, pensador grego, a qual proclama que a guerra a me de todas as coisas, ou

seja, o mundo baseia-se em divergncias relacionadas s foras contrrias, a partir das

quais surge o novo e, como evidenciado acima pela ideologia de Marx, as mudanas.

Quanto religio, pode-se encontrar no Antigo Testamento da Bblia uma das

primeiras vertentes do termo violncia: o dio, o qual condenado pela prpria

religio (Idgoras, 1983).

Segundo Odalia, 1991, a violncia pode ser classificada em violncia

manifesta e violncia oculta. A primeira, assim como evidenciado em sua

denominao, totalmente exposta ao observador dos fatos, em contrapartida, a

violncia oculta aquela subjetiva, a qual no se mostra visvel em uma anlise

superficial. A violncia manifesta pode ser exemplificada pela prtica criminal, a qual

definida como um ato contra os direitos humanos, dano, injria ou erro praticados

contra outro indivduo.

Qualquer ato agressivo que apresenta como causa um comportamento violento

por ser considerado um desvio social. Para Erich Goode (2007), desvio definido como

a violao da normal social, que provavelmente resultar em punio destinada ao

violador. Dessa forma, durante a moldagem do indivduo que ocorre em sua

socializao primria, coloca-se como norma social a proibio de prticas agressivas

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sem justificao de defesa; a partir do momento em que essa norma desrespeitada, diz-

se que o indivduo no internalizou a conformidade social que lhe foi imposta,

promovendo um desvio social, ou seja, sociologicamente, a violncia vista como

prtica negativa sociedade em geral. Em diversas populaes a prtica da violncia

no criminalizada, sendo at tolerada por fazer parte da cultura, com isso mulheres

ainda convivem com agresses constantes de seus maridos, por motivos como a

desobedincia.

Analisando a violncia sob uma tica psicanaltica, notamos que Freud, em suas

pesquisas, atrelou as causas da violncia e agressividade a fatores psicanalticos. A

agressividade humana est subjetivamente ligada ao egosmo e cime e deferencia-se da

agressividade de outras espcies animais, a qual pautada apenas por instinto de

sobrevivncia e conservao dos indivduos (Ferrari, 2006).

Segundo Bock, Furtado e Teixeira (1995, p. 283), a violncia o uso desejado

da agressividade, com fins destrutivos, podendo ser voluntrio, racional e consciente ou

involuntrio, irracional e inconsciente,

Alm disso, Fiorelli, Jos Osmir & Mangini, Rosana C. Ragazzoni (2009, p.

268) afirmam que a agresso apresenta-se como um mecanismo de defesa, na forma de

deslocamento ou sublimao. Na impossibilidade de ver realizado seu desejo, o

psiquismo reage e desloca a energia para a agressividade.

A razo desses comportamentos agressivos pode ser explicada por vrias

vertentes, como a influncia que o indivduo sofre do meio em que vive; as

desigualdades, principalmente a econmica; e o prprio instinto humano, pois para

Bock, Furtado e Teixeira (1995, p. 282) O ser humano agressivo. Porm, esse

comportamento ajuda na sobrevivncia e na superao de obstculos, alm disso, pode

ser canalizado na prtica de esportes que um modo de competir, de lutar, sem

prejudicar ningum.

O problema ocorre quando as pessoas no conseguem canalizar suas

agressividades para coisas construtivas, e isso demonstra instabilidade emocional,

impulsividade e baixa tolerncia s frustraes. Porm existem diversos mecanismos

para controlar a agressividade como a educao, as leis e, alm disso, desde a infncia a

maioria dos indivduos aprendeu que deve controlar a agressividade para uma

convivncia harmnica em sociedade.

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O encontro entre o cinema e a Psicanlise

A violncia, tal como definida pela Psicanlise, pode ser visualizada em grande

parte dos gneros de obras cinematogrficas. O cinema pode ser classificado como um

reflexo visual das teorias psicanalticas, podendo, ento, os filmes serem considerados

similaridades dos sonhos. Para McGowan (2007, p.12), o filme atrai e faz o sujeito

aceitar a condio ilusria que lhe oferecida (Ceballos, 2011).

Toda a violncia divulgada no cinema reflexo do comportamento da sociedade.

As produes cinematogrficas retratam a violncia de diversas maneiras, pelas

diferentes vises de diretores que buscam autenticidade em suas obras. Vale ressaltar

que o cinema reproduz o que as pessoas gostam de ver, e essa satisfao em assistir

cenas violentas no um fato recente como muitos pensam, pelo contrrio, na Grcia

antiga pessoas j se reuniam em praas pblicas para ver mes cozinharem os seus

prprios filhos. Segundo o futurista Marinetti, a violncia a linguagem fundamental do

sculo, e esse fato claramente notado nas produes cinematogrficas que foram

capazes de universalizar, banalizar, glamorizar a at mesmo naturalizar os diversos tipos

de violncia.

Inserindo a violncia num ambiente cinematogrfico, podemos afirmar que esta

retratada de diversas maneiras, as quais variam de acordo com o diretor e com o

gnero do filme. Obras brasileiras, como Tropa de Elite (2007) e Cidade de Deus

(2002) retratam a realidade violenta e agressiva tal como vista no cotidiano, em

contrapartida, algumas obras apresentam uma temtica hiperblica e mais afastada dos

fatos cotidianos ao tratar da violncia, como, por exemplo, as produes do diretor

Quentin Tarantino.

Nas produes brasileiras supracitadas a violncia gerada pelo trfico de drogas

em periferias e favelas , muitas vezes, banalizada e pode ser visualizada pelos

telespectadores como algo necessrio para a sobrevivncia naquele determinado

ambiente. O que tambm ocorre muitas vezes nesses filmes que retratam reas de

conflitos, a homogeneizao da populao que vive no local, como se nesse ambiente

s existissem ladres, traficantes e pessoas sem carter, o que no verdade.

Os irmos Coen possuem produes diversas no que diz respeito aos tipos de

gneros que os diretores enquadram a violncia em seus filmes. Sempre apresentando

cenas violentas, j produziram desde filmes como Ajuste Final, o qual retrata uma

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violncia ligada mfia, at enredos violentos irnicos com o objetivo de parodiar

filmes policiais, como Queime Depois de Ler.

Neste trabalho objetiva-se analisar o tratamento dado violncia no cinema de

acordo com um olhar psicanaltico e sociolgico, demonstrando a reao causada por

sua exposio em dois filmes do diretor Tarantino, os quais so intitulados: Pulp Fiction

e Ces de Aluguel.

Quentin Tarantino (1963) pode ser considerado um diretor que no costuma

seguir a ordem linear de desenvolvimento de uma trama. Em sua curta carreira de

cineasta, os filmes de Tarantino ficaram marcados por falar do submundo, mesclando

doses de humor, ironia e violncia.

As obras escolhidas: Pulp Fiction e Ces de Aluguel

A escolha pontual destas duas obras de Tarantino deu-se pela temtica violenta

evidente em cada uma delas. Alm disso, apesar de apresentarem divergncias no

conjunto de tcnicas de produo, ambas as obras apresentam detalhes peculiares que as

tornam mpares no contexto violento do cinema, como, por exemplo, a fragmentao

temporal dos fatos.

Tal fragmentao impede que as relaes de causalidade sejam perfeitamente

delineadas, fazendo com o telespectador tenha uma percepo da violncia diferente da

convencional. A fragmentao, tpica do cinema ps-moderno, colabora para a

exposio intensa da violncia nas produes de Tarantino, sem a presena de uma

relao de causa e consequncia definida, o ato agressivo, cheio de efeitos e tcnicas

fotogrficas apelativas e exageradas, parece ser realizado por si s, o que nos leva a

realizar uma anlise de cada um dos enredos.

Ces de Aluguel e os vrios tipos de violncia

O primeiro pensamento que vem mente quando se trata da representao de

cenas violentas em produes cinematogrficas o da violncia fsica. Seja em um

ambiente de enfrentamento em uma guerra, como na dura seqncia de abertura do

Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan, E.U.A., 1998), seja em uma luta entre

rivais, em uma briga generalizada, em uma troca de tiros entre criminosos e a polcia.

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Representaes perturbadoramente realsticas de coisas que nunca so agradveis de

assistir, mas que servem muito bem ao componente visual do cinema, uma vez que

essas cenas trazem uma carga dramtica com muito mais rapidez do que um longo

dilogo.

Por conta dessa preferncia pelo o que visualmente chocante para quem est

assistindo, outros tipos de violncia acabam sendo subutilizados, de maneira geral,

quando se trata de mostrar a inflexo de dor sobre um personagem. Expresses to

violentas quanto encenao de uma surra, como toda carga de brutalidade que vem

com uma cena de tortura psicolgica ou mesmo a aspereza de um discurso que diminua

a moral de um individuo, acabam no sendo to utilizadas, pois no enchem a tela do

cinema e so mais complicadas de serem entendidas por um espectador

descompromissado.

Essa preferncia contempornea pela violncia, como maneira de chamar a

ateno de quem est assistindo, analisada por Nstor Del Campo Domench, em seu

livro Violencia y Cine: analisis de La puesta em escena de La violncia:

(...) A exibio dos efeitos visuais que choquem, para o gozo do espectador se converteu a um principio regulador da estrutura dos novos filmes. Como se sucedera em suas origens, h de se recordar que o cinema foi uma atrao para multides, o seu objetivo a fascinar o olhar, cativar com a gravidade de uma imagem, como na TV, no videoclipe, ou na propaganda preciso seduzir. (...) (Domench, 2007).

O pblico mdio em geral no est habituado a ver exemplos de violncia

psicolgica ou verbal nos filmes, o que causa um espanto e certo tipo de comoo

quando um bom roteirista e um bom diretor conseguem passar peso e veracidade a uma

cena dessas. Analisando rapidamente a polmica recente em torno do filme A Hora

Mais Escura (Zero Dark Thirty, E.U.A., 2012), vemos que o foco das reaes do

pblico e mdia so as, muito bom encenadas, cenas de tortura psicolgica e no as, no

menos brutais, cenas de violncia fsica. Outro bom exemplo da boa representao de

outro tipo de violncia a icnica cena de Nascido Para Matar (Full Metal Jacket,

E.U.A, 1987), no qual o personagem interpretado por Lee Ermey espanca com

palavras um dos seus soldados utilizando um discurso spero e caluniador. Esses dois

casos apresentados mostram que, quando bem feitas, essas representaes criam marcas

na memria do espectador.

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Mesmo em seu primeiro longa-metragem, o diretor e roteirista Quentin

Tarantino, j queria se mostrar de alguma forma diferente ao mesmo tempo em que

deixa clara a influncia de outros grandes cineastas como Stanley Kubric, e mostra o

que viria a ser sua marca registrada, a violncia em todas as suas formas e de uma

maneira glamourizada. Ces de Aluguel (Reservoir Dogs, E.U.A., 1992) tem na

brutalidade uma marca muito forte, o filme do inicio ao fim, agressivo de muitas

maneiras diferentes. A violncia representada vai alm das brigas e do sangue, ela

perpassa grande parte dos dilogos do filme e tambm pode ser reconhecida no aspecto

psicolgico em algumas cenas, como as que envolvem a desconfiana entre os

comparsas.

A histria do filme retrata um grupo de criminosos contratados para realizar um

roubo de uma carga de diamantes. Eles no se tratam pelos nomes, mas sim por

codinomes baseados em cores, e tambm no tinham relaes pessoais anteriores a esse

trabalho. Porm, aps o roubo dar errado e ter ferido gravemente o personagem vivido

por Tim Roth, eles descobrem que h um policial infiltrado entre eles que teria

entregado o plano s autoridades. Quase a totalidade do filme passada no galpo que

serviu de quartel-general da quadrilha e pra onde Mr. White (Harvey Keitel) leva o

baleado Mr. Orange (Tim Roth) esperando que o grupo se reencontrasse e descobrisse

quem era o traidor.

A primeira cena do filme uma conversa amigvel entre os companheiros em

um restaurante, o assunto parece ftil - uma explicao mirabolante sobre o sentido de

Like a Virgin - mas um olhar mais atento forma como um fala com o outro revela

naquele instante a presena de um tipo sutil animosidade. As falas de cada personagem

naquele instante esto repletas de palavres e xingamentos dirigidos ferinamente aos

outros participantes da conversa. Esse tipo de aspereza leve se comparada com o

restante da pelcula, mas sintomtica no que diz respeito representao de algo alm

dos ataques fsicos. Nessa seqncia o espectador introduzido violncia verbal que

ser recorrente no filme, que conta com uma infinidade de dilogos gritados entre os

personagens que do um sentido de peso dramtico e tenso raivosa e com muitos

palavres, inclusive um desses utilizado 272 vezes no filme.

Para justificar o extermnio violento utilizado pelos tiras, Tarantino retira a

humanidade dessa categoria de indivduos. Tal retirada permite, alm de uma

abordagem extremamente violenta, uma reflexo acerca do maniquesmo presente em

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filmes policias, nos quais os atos violentos praticados pelos tiras so sempre justificados

como medida de defesa, enquanto a violncia gerada pelos bandidos no apresenta

justificativa evidente. Tarantino conduz o espectador a questionar quem merece ou

no ser morto em suas produes.

Logicamente, o que posteriormente viria a ser um tipo de assinatura para

Tarantino, a presena constante do sangue, mostrado tambm no incio da produo. A

cena em si se passa dentro do carro utilizado na fuga do roubo que leva o todo

ensangentado personagem de Tim Roth ao galpo. O detalhe que ultrapassa a enorme

quantidade de sangue que parece ter sado do ferimento que o veculo tem o interior

inteiro com um tecido branco. O contraste do vermelho vivo com o branco faz com que,

quem estiver assistindo perceba de maneira muito mais evidente o sangue e a gravidade

da cena. Dessa maneira o diretor consegue colocar, em contato com o espectador, a

assimilao do ideal de violncia fsica brutal com a o sangue que mostrado em cena.

O diretor e roteirista do filme tambm expressa um cuidado especial em cenas que

apresentam situaes mais extremas de violncia. Os detalhes que envolvem a

seqncia em que o policial capturado por um dos bandidos torturado so um exemplo

desse cuidado especial. Alm de apareceram no quadro principal apenas a vitima e o

torturador, personagem que estabelecido com algum tipo de psicopatia, no incio do

processo de tortura a musica que toca no fundo da cena animada e alegre,

diferentemente do que freqentemente usado nesses casos, onde a musica pesada e

grave. A escolha desse fundo musical s aumenta a dramaticidade e o choque que a

seqncia causa sobre o espectador.

O diretor consegue provocar, alm de um sentimento dramtico, sequncias

inesperadas de risos nos telespectadores durante cenas extremamente violentas a fim de

aliviar o pavor. O riso no lugar errado provocador.

Colocar na tela grande todas essas representaes de diferentes abordagens da

violncia leva ao expectador comum conhecer algo fora do usual para as produes

cinematogrficas. Essa quebra de paradigma, apesar de pouco recorrente, benfica se

bem executada- tanto para quem produz, quanto para quem consume cinema.

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Pulp Fiction e a violncia em prol da continuidade.

Existe certo padro no uso de cenas violentas nas produes cinematogrficas

que pode ser observado com muito mais clareza a partir dos anos 80 e que perdura at

os dias de hoje. Esta constante a presena de cenas que envolvem situaes violentas

apenas para causar choque, espanto ou colocar no filme algo que prenda a platia em

detrimento da sua importncia para a continuidade da histria contada.

No livro Violencia y Cine, Nestor Del Campo Domench relata, em uma

breve anlise, essa padronizao prejudicial e como isso, ao invs de criar tenso surte o

efeito contrario e banaliza o ato violento nos filmes:

La violencia parece ser el nico objetivo de estas pelculas en las que se sustituye la historia de relaciones entre personajes por la accin descontrolada de un justiciero, o de un psicpata que acaba produciendo una carnicera. De este modo, frente al cine de gnero en el que la violencia se vinculaba a una experiencia, definida normalmente por un enfrentamiento (el duelo en los westerns, el combate en las pelculas de boxeo, El tiroteo en los filmes negros, etc.) en el cine contemporneo la violencia ya no remite a una experiencia, es indeterminada y esta permanentemente presente, por lo que es difcil de localizar ha dejado de ser perceptible. (Domnech, 2007).

Com a clara inteno de mudar algumas estruturas e mostrar que a violncia

pode sim ser utilizada, no cinema, de uma maneira que no parea desconexa e que

traga algo de relevante para o desenrolar da trama, o diretor e roteirista Quentin

Tarantino coloca em Pulp fiction Tempos de Violncia, seu segundo longa-metragem,

uma trama com historias interdependentes e no lineares, assim como tira muito da

violncia explicita que existe em Ces de Aluguel, seu primeiro longa como diretor,

utilizando-a pontualmente durante a durao do filme.

O primeiro ato do filme, "Vincent Vega e a esposa de Marcellus Wallace", tem

como personagens principais os dois gangsters vividos por John Travolta e Samuel L.

Jackson, alm deles necessrio o destaque para a personagem interpretada por Uma

Thurman. A histria trata da noite em que o chefe de Vicncent Vic Vega (Travolta),

Marcellus Wallace (Vigh Rames) pede ao seu parceiro de negcios como prefere

dizer, que entretenha a sua esposa enquanto ele est viajando. Com o desenrolar da

sequncia as coisas acabam tomando um rumo inesperado para Vic que se v um uma

situao complicada.

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Mas o ponto realmente importante para esta anlise cena em que o personagem

os personagens de Travolta e Jackson so apresentados. Os personagens esto a

caminho de mais um trabalho que foi oferecido a eles, mas como a seqncia se inicia

com uma conversa banal entre os dois personagens o expectador s percebe que eles se

dirigem uma futura cena do crime quando os dois pegam suas armas no porta-malas

do carro. Essa conversa banal se estende at a hora marcada para a realizao do

trabalho. Tudo isso utilizado para mostrar a quem assiste a naturalidade com que eles

encaram toda essa situao.

Os personagens j esto to acostumados com o nvel de violncia retratado

posteriormente na cena que acabam tratando tudo como uma encenao, onde eles

parecem se divertir em assustar suas vitimas. Com muito mais destaque, o personagem

de Samuel L. Jackson passa a impresso nessa seqncia que est sempre no controle da

situao, sentindo algum gosto em assustar os outros personagens presentes em cena.

O segundo ato, O Relgio de Ouro, envolve mais diretamente o mafioso

Marcellus Wallace e apresenta o boxeador Butch, vivido por Bruce Willis. O

personagem do pugilista est prestes a se aposentar e aceita uma quantia em dinheiro

para perder uma luta, a qual ele vence e foge com o dinheiro. Durante a fuga ele

descobre que sua esposa se esqueceu do relgio de outro que est em sua famlia a

geraes, o que a fora a voltar ao seu apartamento e no caminho encontrar Marcellus.

Depois de uma briga os dois so feitos refns e torturados, mas o personagem de Willis

consegue escapar e salvar o mafioso que concede o perdo ao pugilista e o deixa fugir.

O ponto principal desse ato o uso de uma seqncia extremamente violenta,

onde o personagem de Willis apanha dos seus captores, consegue se soltar e depois se

vinga deles, com a ajuda de uma espada, e interrompe a tortura do mafioso. Esta cena

mostra como a violncia ali colocada no despropositada, tudo que acontece leva a

resoluo do problema do personagem de Willis. Esta tambm uma das primeiras

vezes que o diretor mostra grandes quantidades de sangue em cena, o que parece

incomum, mas que s refora o carter comedido que ele coloca nas cenas violentas do

filme.

O terceiro ato, que envolve A Situao Bonnie e o eplogo O Restaurante,

retorna aos personagens de Samuel L. Jackson e John Travolta, que agora tem que lidar

com duas situaes complicadas e que acabam sendo, de alguma forma, tragicmicas,

como lidar com um corpo ou resolver um assalto em um restaurante. O que deve ser

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destacado neste momento uma das ultimas seqncias do filme em que o personagem

de L. Jackson combate a violncia dos assaltantes com mais violncia, ao render o

personagem de Tim Roth e negociar com ele sua desistncia do assalto com uma arma

apontada para seu rosto.

Apesar do sub-ttulo do filme indicar um possvel excesso de violncia no filme,

o que se percebe um tipo diferente de representao. Ao invs de investir em

seqncia que apelam para marcas visuais, o diretor prefere deixar muitos momentos

agressivos implcitos, mostrando que o aspecto visual, apesar de importante no cinema,

no a nica maneira de imprimir gravidade em um filme.

Consideraes finais

Segundo Antonin Artaud (1994), o cinema tem acima de tudo a virtude de um

veneno inofensivo e direto, uma injeo subcutnea de morfina, cujo efeito inicial a

satisfao de todos os impulsos e desejos, um orgasmo txico. por esse motivo que o

modo como a violncia retratada pelos cinemas causa preocupao, medida que

pode desencadear comportamentos agressivos. De tanto as pessoas presenciarem cenas

de violncias, elas podem interpretar a violncia como algo tolervel e at mesmo

natural.

Inmeros casos ocorridos podem comprovar a vulnerabilidade do ser humano

perante a fico cinematogrfica, buscando trazer para a vida real o que deveria ser

apenas uma interpretao dramtica da realidade.

Crianas so ainda mais influenciveis, pois ainda no possuem capacidade para

discernir a fico da realidade, estando ainda numa fase de formao intelectual. Sendo

assim, so comuns as crianas que confundem uma cena de filme e, por no terem

conscincia formada de certo e errado, buscam reproduzir as cenas assistidas, existindo

uma grande tendncia a danos na personalidade do cidado, o que pode gerar tragdias

para si e para outros.

Pode-se concluir que tnue a linha entre fico e realidade, cinema e cotidiano.

Levando este fato em considerao, mesmo pela carncia da sociedade por sensaes

emocionantes, a responsabilidade perante as consequncias das cenas produzidas e

reproduzidas no cinema e na realidade, cabe no s aos que reproduzem a arte em suas

vidas, como tambm ao artista que a produziu.

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