ARTIGO EPISTEMOLOGIA E A PESQUISA EM POLTICA ? Este artigo tem como objetivo delinear o enquadramento

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Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 17 ARTIGO EPISTEMOLOGIA E A PESQUISA EM POLTICA EDUCACIONAL: VETORES QUE ORIENTAM OS PESQUISADORES DO CAMPO EDUCACIONAL Sidelmar Alves da Silva Kunz Gilvan Charles Cerqueira de Arajo**Remi Castioni***RESUMO Este artigo tem como objetivo delinear o enquadramento epistemolgico da pesquisa em poltica educacional a partir de debates sobre as questes de natureza epistmica no bojo das cincias naturais e sociais. Neste levantamento, sustentado em anlise bibliogrfica, verificou-se que a articulao entre as extensas discusses epistemolgicas nas cincias naturais e nas sociais e a pesquisa educacional gerou impactos de natureza epistmica no objeto indicadores de qualidade da educao. Palavras-chave: Epistemologia; Pesquisa. Poltica Educacional. 1 INTRODUO A pesquisa em poltica educacional possui uma demanda intrnseca e inevitvel em prol de um aprofundamento maior de seus conceitos, categorias, escopo terico e abrangncia metodolgica. Este substrato epistmico se faz necessrio para que a luta por uma nova poltica educacional se torne realidade, com base tanto nas delineaes da complexidade existente em nossa sociedade aspecto presente com fora cada vez maior, medida que os Doutorando em Educao pela Universidade de Braslia - UnB. Pesquisador do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Ansio Teixeira INEP. Endereo para correspondncia: Avenida Circular, 665, Q-37, L-11, Jardim Oliveira, CEP 73.805-207, Formosa-GO, Brasil. E-mail: sidel.gea@gmail.com ** Doutor em Geografia pela Universidade Estadual Paulista UNESP. Professor da Secretaria de Estado da Educao do Distrito Federal - SEDF. Endereo para correspondncia: Avenida Parano, Conjunto C, Lote 3, Apto 302, Centro, CEP 71.572-703, Parano-DF, Brasil. E-mail: gcca99@gmail.com *** Doutor em Educao pela Universidade Estadual de Campinas UNICAMP. Professor da Faculdade de Educao da UnB. Endereo para correspondncia: Universidade de Braslia, Campus Universitrio Darcy Ribeiro, Faculdade de Educao, CEP 70.904-970, Braslia-DF, Brasil. E-mail: kotipora@gmail.com Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 18 mtodos e teorias se desenvolvem, dialogam e reificam , como tambm no curso de uma autovalorizao do que proposto, colocado em prtica e esperado como resultado, quando o assunto em questo se volta para as polticas educacionais. Este estudo ancora-se no entendimento de Tello (2013) a respeito do que produo de conhecimento especializado em poltica educacional. Trata-se daquele que produzido atendendo a caractersticas como [...] el recorte de un objeto de estudio, una metodologia especfica, algn tipo de bsqueda de informacin y un entrecruzamiento de ideas conceptuales con las informacin y observaciones realizadas por el investigador (TELLO, 2013, p. 764). E que nas investigaes seja possvel identificar componentes da poltica educacional, assim como expressar uma epistemologia na busca da compreenso do fenmeno educativo. Nesse sentido, assinala-se que este estudo tem sua relevncia marcada pela capacidade de contribuir com o debate acerca do fazer cincia neste campo de investigao, pois agrega valor ao refletir sobre a natureza, os objetos de estudo, as abordagens e os avanos alcanados pela seara das pesquisas em polticas educacionais. Inegavelmente, fundamental aos pesquisadores da rea de educao se apropriarem de reflexes e conhecimentos epistemolgicos que lhes permitam conquistar maior conscincia e clareza das possibilidades e limitaes dos saberes produzidos. Ento, tem-se como questo saber qual a natureza epistmica das pesquisas em poltica educacional. Em face dessa postulao, recorre-se a uma anlise bibliogrfica de autores clssicos e contemporneos que acumularam contribuies em distintas pocas, com escopo na discusso em torno de como a cincia seguiu em seus avanos, inflexes e retrocessos. Por mais que a discusso deste artigo tenha cunho mais terico-filosfico, a sua relevncia imprescindvel para pensar os matizes epistmicos do campo educacional como mapeamento dos horizontes que servem de norteadores das polticas pblicas educacionais gestadas pelo Estado em face das histricas demandas desse setor na sociedade brasileira. Essa discusso se faz fundamental tambm aos estudos voltados para a formao, o ensino e a educao em Geografia, envolvendo as prticas e preocupaes de professores e pesquisadores no contexto das polticas pblicas de orientao neoliberal e as reformas educacionais em curso nas ltimas dcadas, com seus reflexos nos currculos oficiais, nas prticas em sala de aula, no trabalho docente, na avaliao dos resultados e da qualidade da educao oferecida pelas escolas. Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 19 Nessa discusso, o debate epistemolgico no pode ser negligenciado ou secundarizado, pois a questo epistmica est na base das concepes de conhecimento, de cincia e de pesquisa cientfica, com suas dimenses poltico-ideolgicas e as relaes de poder no uso que se faz do saber cientfico. Isso, no campo da Educao, afeta anlises, propostas e posicionamentos sobre: qualidade do ensino, avaliao, currculo, funo social da escola, objetivos da educao escolar, pblico e privado, mercado e cidadania, qualidade e quantidade, macro e micro, incluso e excluso, entre outros. E no se pode pensar, fazer, discutir e conhecer a Geografia e seu ensino na formao dos sujeitos no mbito da educao escolar fora desse contexto com suas polticas educacionais e suas determinaes tambm no campo epistemolgico. Dessa forma, o presente trabalho pode contribuir tambm para que professores e pesquisadores na rea de formao e ensino de geografia possam refletir e situar suas prticas, teorias e mtodos no plano epistmico e nas suas relaes com as polticas pblicas, ou seja, do Estado, para a Educao, o que inevitavelmente implica relaes de poder e foras sociais em jogo que envolvem tambm a pesquisa, a educao e o ensino em Geografia. Feitas estas consideraes iniciais, apresenta-se a organizao deste levantamento, estruturado em trs momentos distintos e complementares entre si: 1) apresentao dos debates epistemolgicos no mago das cincias naturais, (2) exposio dos embates entre as cincias naturais e sociais e 3) reflexes sobre as questes epistmicas e os seus rebatimentos na pesquisa em poltica educacional, com recorte no objeto indicadores de qualidade. 2 QUESTES DE NATUREZA EPISTMICA NAS CINCIAS NATURAIS Nesta seo demonstra-se que embora se tenha no campo das cincias naturais, para alguns, a ideia de que h uma estabilidade e processo natural de evoluo expresso pela crena no refinamento metodolgico em direo constituio de um conhecimento seguro, na verdade, no fundo, nas cincias naturais isso no se sustenta, sendo marcadas por grandes embates no aplacados nem mesmo pelo esforo em produzir conhecimento dotado de previses ou pela busca do consenso. Sendo assim, neste momento, com foco na discusso acerca de como a cincia avana, sero expostos os embates histricos no mago das cincias naturais na tentativa de expressar a pliade de posicionamentos resultantes desses conflitos. Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 20 Considera-se que foi de grande significado a perspectiva baconiana em busca de romper com a metafsica. Inclusive, por mais que Popper (1980), no sculo XX, tenha questionado suas postulaes, tambm contribuiu com esse projeto epistemolgico, apresentando sua proposta de demarcao da cincia um ataque direto metafsica. Feita essa breve reflexo, colocado baila, como orientao do raciocnio que ser traado, o posicionamento da cincia em busca de prestgio por se denominar o locus privilegiado da produo de um suposto conhecimento verdadeiro. Ressalta-se que, conforme Eva (2008), para Bacon o conhecimento era concebido num recorte pautado na lgica indutiva, cuja captao da realidade se dava por intermdio dos sentidos. Postula-se a existncia de um conhecimento verdadeiro que pode ser alcanado ao se percorrer o caminho da observao, coleta, organizao dos dados empricos, explicaes gerais e comprovao de hipteses. A perspectiva baconiana marcada pelo otimismo metodolgico, ou seja, a crena na [...] obteno de um mtodo de interpretao da natureza, capaz de conhecer verdadeiramente as formas das coisas (EVA, 2008, p. 48). Os escritos de Bacon combatiam o pensamento de seus antecessores que, em seu entendimento, faziam uma exaltao s foras do esprito humano, porm no promoviam auxlios concretos para que o homem dedicasse mais ateno para as sutilezas da natureza a fim de evitar as coisas insanas (male-sana) (EVA, 2008). A base empirista de Bacon (tambm chamada de insular ou britnica) ia de encontro a outra frente filosfica da Modernidade, a idealista (ou continental, liderada por Ren Descartes). Esta dualidade iria perdurar por sculos a fio, chegando com fora nestes extremos, a depender da inclinao interpretativa das cincias. O empirismo subleva o idealismo justamente por garantir a verificao, algo mais tangencial no ideal-racionalismo francs, seu oposto e por que no complemento imediato, no ignorando as etapas de verificao experimental, mas com maior ateno para o patamar racionalista. colocado em relevo, por Oliva (1990), que Bacon dedicou especial ateno identificao dos dolos (idola tribus, idola specus, idola fori e idola theatri) entendidos como fontes de iluso cognitiva que impedem a fidelidade na atividade de observao. O combate aos dolos se constitui como uma forma de avanar na construo do conhecimento por meio da ampliao da pureza do olhar. Assim, em seu mtodo preciso acumular os fatos, depois classific-los e, por fim, determinar suas causas, alm de liquidar quaisquer antinomias em busca de termos gerais de racionalizao a partir do empirismo. Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 21 Descartes (1996) e Bacon (2000) tinham em comum a obsesso pela preciso e crena na verdade evidente. Faz-se relevante pontuar que enquanto para Bacon a gnese da verdade era na natureza (veracitas naturae), para Descartes era no plano divino e inato ao homem (veracitas Dei). Assim, s verdade o que intudo com clareza e preciso. Por sua vez, para Popper (2008), um crtico da crena na verdade absoluta, entendia que a verdade evidente no se sustentava. Popper (2008, p. 36) afirma que [...] a epistemologia otimista de Bacon e Descartes no pode ser verdadeira. O mais estranho que essa falsa epistemologia constituiu a maior inspirao de uma revoluo intelectual e moral sem paralelo na histria. A verdade para Popper (2008) provisria e obtida pela objetividade. Ele defendeu que a perspectiva empirista com nfase nos sentidos, na observao e no indutivismo uma priso cientfica por no comportar postura prvia do pesquisador e rejeitar tudo que no possua evidncia (POPPER, 1980). Popper criticou Bacon em funo da dependncia da lgica formal sem margem para contradies e refutaes e do fato de que o indutivismo precise de validao da base emprica com indispensvel infinidade de casos observados. O racionalista crtico, ao seu turno, defende o mtodo hipottico-dedutivo para a demarcao da cincia, apresentando-a como o mtodo (POPPER, 1979; 1980). Este mtodo est assentado nos procedimentos e prerrogativas dos passos inevitveis garantia do rigor e desenvolvimento cientfico assimilado, principalmente, por cincias como a biologia, a fsica, a astronomia, dentre outras. As hipteses dizem respeito ao conhecimento ainda no estvel e precisam ser testadas. Trata-se do ponto de partida, no sendo necessrio discutir a sua origem. Dessa forma, os enunciados singulares so tidos como fundamentais para se alcanar a verdade (provisria), pois a falsidade de uma teoria deduzida de seus enunciados singulares. Nessa perspectiva, para o racionalismo crtico, a abertura de uma teoria para o teste e a sua resistncia s refutaes (objetividade lgica racional sustentada na experimentao) demonstram a sua qualidade. Com base nessas posies, Popper (1993) enfrentou um debate se posicionando contrrio ao positivismo lgico associado ao Crculo de Viena. Esse movimento tambm ficou conhecido como neopositivismo/empirismo lgico/fisicalismo, que teve como expoentes Otto Neurath, Moritz Schlick, Ernest Nagel e Hans Reichenbach, dentre outros. sensato realar que esses cones contriburam para a consolidao de um grupo heterogneo e marcado por discordncias em distintos aspectos. Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 22 Na concepo cientfica desse grupo advoga-se em nome da lgica simblica na anlise da linguagem cientfica, da rejeio da possibilidade de conhecimento sinttico a priori e da verificao do significado, postulando que as asseres relacionadas metafsica so entendidas como desprovidas de qualquer significado cognitivo. Em sntese, pregavam o verificacionismo, reduzindo o papel da filosofia ao de tornar clara a linguagem cientfica, a da fsica sentenas protocolares e analticas , que figura como o eixo norteador para as cincias (JAPIASS; MARCONDES, 2001; POPPER, 1993; 2008; SCHLICK, 1975). Esse verificacionismo foi enfrentado por Popper (1993; 2008) que tinha como base a refutao das hipteses apresentadas lembrando-se que as bases empricas so os conjuntos de enunciados singulares. Em sua compreenso, um enunciado singular pode negar o enunciado universal. Esse o grande salto do pensamento popperiano: ao invs de olhar pelo lado positivo, olhar pelo lado negativo. Em outra perspectiva, no contexto da valorizao dos fatores externos para se pensar outras referncias para as cincias, Kuhn (2013) prope a ideia de paradigma associada s revolues cientficas e destina um lugar para a histria na anlise de como o conhecimento cientfico avana. O externalismo kuhniano ergue-se no debate histrico e seus reflexos no desenvolvimento cientfico, nas comunidades cientficas, nos consensos e dissensos entre os pares, na no neutralidade do pesquisador e na gestalt, isto , a forma como o observador v a cincia. Destarte, rechaa o internalismo da cincia em que apenas os aspectos internos cincia interferem no seu desenvolvimento. De acordo com Kuhn (2013), o cientista visto como parcial e subjetivo. Na sua viso a verdade relativa e provisria, em vista de que substituda total ou parcialmente medida que ocorrem as revolues cientficas e as mudanas de paradigmas. Kuhn (2013) apregoa que a produo cientfica no acontece baseada estritamente na ordem racional e isso pontua uma distino em relao ao pensamento popperiano que sustentava o progresso cientfico num mbito interno da lgica cientfica. A afirmao de Prigogine (2008, p. 7) de que Vivemos em um universo em evoluo. Existem sistemas complexos que nos rodeiam e que impem uma ruptura da equivalncia entre a descrio individual (trajetrias ou funes de onda) e a descrio estatstica vai ao encontro do posicionamento de Kuhn (2013) aludido no pargrafo anterior. O carter absoluto e irrevogvel das cincias naturais e do mtodo cientfico secular se esmaece frente cada vez maior quantidade de inovaes, teorias e metodologias no cerne do saber cientfico, pois no nvel estatstico que podemos incorporar a instabilidade s leis Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 23 fundamentais e elas, ento, passam a adquirir um significado novo: no mais se tratam de certezas mas sim de possibilidades (PRIGOGINE, 2008, p. 7). Ainda no que diz respeito ao entendimento de Kuhn (2013), em poca de cincia normal o cientista dedica-se apenas resoluo de quebra-cabeas no mbito de um paradigma dominante, sem inovar. J as anomalias so aberturas para a refutao do paradigma vigente ou para a revoluo cientfica, pois O mundo do cientista tanto qualitativamente transformado como quantitativamente enriquecido pelas novidades fundamentais de fatos e teorias (KUHN, 2013, p. 67). No campo das cincias humanas h este dilema dos paradigmas em relao ao seu desenvolvimento terico e metodolgico. reas do saber como a Geografia, Sociologia e Antropologia possuem em seu escopo epistemolgico, diferentes momentos de inflexo para aperfeioamento, revogao, agregao ou avanos de conceitos, categorias, correntes de pensamento e vises a respeito de seus objetos de estudo, como tambm de sua prpria constituio como cincia. (THUILLIER, 1994; CIDADE, 2001). Ora, assim como afirma Domingues (1991), todo este embate das inflexes do desenvolvimento do saber cientfico apenas evidencia seu carter de busca pelo aperfeioamento terico-metodolgico, incessantemente, por meio de: [...] formas de racionalidade e estratgias discursivas (DOMINGUES, 1991, p. 17). Mesmo no mbito do formalismo lgico estas estratgias permanecem, como no caso da passagem ascendente de teorizaes entre o positivismo clssico e todos os representantes do Crculo de Viena. Vale a pena mencionar as contribuies de Feyerabend, um dos adversrios mais notrios do racionalismo crtico de Popper. Feyerabend (1985) criticou o monismo metodolgico e demonstrou ser imperativo assumir uma perspectiva metodolgica plural para que o conhecimento cientfico avance. Ressalta-se que no h um rompimento com o empirismo/experimentao, mas a proposio de uma racionalidade pluralista (FEYERABEND, 1985; REGNER, 1996). Regner (1996) afirma que as propostas de Feyerabend tm o significado de serem um conjunto de princpios, critrios e conceitos que alargaram o caminho para a ps-modernidade. De fato, isso se confirma porque, para Feyerabend (1985), s possvel alcanar maior conscincia ou amadurecimento sobre o fenmeno ao fazer uso de mtodos diversos, inclusive daqueles distintos do marco racional. Regner (1996) ancora-se no fato de o embasamento da ps-modernidade estar infiltrado em questes como o esgotamento das grandes metateorias filosficas e cientficas, Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 24 na admisso da interferncia mtua e inevitvel entre os extremos do sujeito e objeto e, num tom de maior alcance contemporneo, uma polifonia terica e metodolgica frente complexidade dos fatos e fenmenos estudados. E, novamente, no caso das humanidades, esta diversidade pode ser vista em estudos geogrficos, econmicos, sociolgicos, de modo a oferecer-nos um panorama contemporneo de grande diversidade no que tange ao desenvolvimento do pensamento cientfico. Ainda na tentativa de abordar o debate epistemolgico nas cincias naturais, cumpre assinalar que Lakatos (1979) vislumbrou superar a ideia de isolamento de teorias por meio da perseguio de uma unidade em sentido amplo. Esse autor prope a noo de programas de pesquisas para explicar o avano cientfico. Assim, em seu ngulo de viso, medida que ocorre o aprimoramento das teorias, acontecem os saltos de qualidade na produo cientfica, em um paralelismo s revolues trabalhadas por Kuhn. Dessa maneira, assentado na racionalidade, salvaguarda a existncia de teorias opostas (contrrio ao descarte imediato de teorias), soluciona a incomensurabilidade e permite a coexistncia de paradigmas. Trata-se de uma sofisticao da leitura popperiana porque ampara a conveno e concebe a cincia como falvel. Cabe lembrar que este o mesmo posicionamento de Bourdieu (2003). Em um tom de maior ceticismo, voltado ao prprio mago totmico das cincias naturais, chega-se to resiliente questo da autoridade cientfica explicada por Bourdieu (2003, p. 130) como sendo [...] uma espcie particular de capital que pode ser acumulado, transmitido e at mesmo, em certas condies, reconvertido em outras espcies. Atentar a esse aspecto fundamental no contexto dos debates percorridos nesta seo. Como se percebe, a partir da apresentao dos debates epistemolgicos nas cincias naturais possvel verificar a existncia de distintos matizes que do o contorno dos estudos na produo de conhecimento nessa rea. 3 QUESTES DE NATUREZA EPISTMICA EM FACE DAS CINCIAS SOCIAIS Nesta seo, por meio de uma rede de discusso, lana-se luz nos principais problemas epistemolgicos enfrentados na questo do conhecimento cientfico no bojo dos embates entre as cincias naturais e sociais, como subsdio para refletir sobre os vetores que orientam os pesquisadores do campo educacional. Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 25 As crticas ao modelo de cincia consolidado no sculo XIX intensificaram em meados do sculo XX. As contestaes ampliaram-se em funo dos embates entre as cincias da natureza e as cincias sociais. Estas ltimas apontavam no sentido da imperatividade de se constituir outra base epistmica capaz de dar conta da complexidade da dimenso humana dos fenmenos. De certa maneira haver uma tentativa de absoro, por parte das cincias humanas, dos mtodos de sua contraparte natural, mesmo quando elabora seus prprios rumos epistemolgicos: Seu olhar no mais o de um filho temeroso que a reverencia (natura mater) [...] mas o de um senhor que a submete a seus fins, pondo-a a seu servio. (DOMINGUES, 1991, p. 73 grifos do autor). Esta situao ora de enfretamento, ora de complementao entre estes dois lados do pensamento cientfico tambm levantada por Kuhn (2012) ao discutir os distintos tratamentos para uma mesma problemtica. A superao de [...] binarismos, polarizaes simplistas ou antinomias entre opressor/oprimido; colonizador/colonizado; dominante/dominado; micro/macro; nomottico/ideogrfico (MARCON, 2016, p. 32) so vistas como fundamentais porque a expresso da incapacidade de se pensar a realidade de modo dialtico. Questiona-se o paradigma hegemnico da cincia moderna ancorado na racionalidade para a demarcao cientfica que aponta a objetividade como nico critrio de validade que tem na lgica matemtica e nos fundamentos fsico-naturais o caminho para o status cientfico. Para Marcon (2016, p. 39): [...] a cincia hegemnica foi se afastando das situaes que poderiam causar-lhe incmodos e crticas. Da a negao do senso comum, caracterizado como fragmentado, ingnuo e acrtico. Em contraposio, apoiou-se em observaes e experimentaes das quais derivam teorias explicativas totalizadoras. Recorrer somente aos recursos da prtica cientfica, de fato, se apresenta como uma fragilidade, entretanto, vale a pena ressaltar que importante ter uma distino epistemolgica entre senso comum e conhecimento cientfico. O senso comum possui potencialidades para o fazer cientfico, porm preciso reconhecer suas limitaes (Marcon, 2016), pois visto sob o ngulo pragmtico. crescente o combate ideia de uma investigao isenta de valores. Isso no significa fomentar uma produo panfletria, mas de ter a honestidade intelectual em reconhecer os Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 26 limites e as possibilidades das distintas fontes de conhecimento e, por conseguinte, defender a legitimidade dos diversos caminhos para se chegar verdade. Nesse contexto, tem-se, ento, o limiar entre o sujeito e objeto, a sequela a partir da qual toda a filosofia e cincia se debruaram em diferentes propostas de resoluo, assim como a onda de discordncia desta historicidade no mtodo histrico e dialtico: O objetivo do pesquisador, indo alm da aparncia fenomnica, imediata e emprica por onde necessariamente se inicia o conhecimento, sendo essa aparncia um nvel da realidade e, portanto, algo importante e no descartvel , apreender a essncia (ou seja: a estrutura e a dinmica) do objeto. Numa palavra: o mtodo de pesquisa que propicia o conhecimento terico, partindo da aparncia, visa alcanar a essncia do objeto. Alcanando a essncia do objeto, isto : capturando a sua estrutura e dinmica, por meio de procedimentos analticos e operando a sua sntese, o pesquisador a reproduz no plano do pensamento; mediante a pesquisa, viabilizada pelo mtodo, o pesquisador reproduz, no plano ideal, a essncia do objeto que investigou. O objeto da pesquisa tem, insista-se, uma existncia objetiva, que independe da conscincia do pesquisador. (PAULO NETTO, 2011, p. 22). A crtica das correntes de pensamento advindas da gide marxista se pautar no enfrentamento da sociedade e das cincias para com a lgica poltico-econmica hegemnica. Em meio a este percurso surgiria toda uma gama de possibilidades de enriquecimento epistmico, a partir do momento em que os objetivos de entendimento estrutural, supraestrutural e das relaes de poder de manuteno deste cenrio fossem caindo por terra, assim como medida que a ao da dialtica histrica e materialista fizesse seu desvelamento da realidade objetiva erguida, seguindo os ditames de toda uma secularidade conservadora e burguesa. Para Paulo Netto (2011), nos marcos do marxismo, uma teoria social deve ter como fundamento a reflexo profunda sobre a produo das condies materiais da vida social. Essa perspectiva no vista como uma preferncia do pesquisador, mas uma necessidade que emana do prprio objeto de pesquisa e que vista como a nica capaz de permitir a articulao da teoria social, de modo que [...] d conta dos nveis decisivos e da dinmica fundamental da sociedade burguesa (PAULO NETTO, 2011, p. 11). Sobre esta diversidade a que a teoria social deve se voltar, Kosk (1976) diz que: [...] realidade como um todo estruturado, dialtico, no qual ou do qual um fato qualquer [...] pode vir a ser racionalmente conhecido (KOSK, 1976, p. 49). Alm disso, complementa seu raciocnio reforando este percurso como via de se chegar compreenso da totalidade fenomnica que nos cerca. bom lembrar que, para Kosk (1976, p. 50), a Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 27 [...] compreenso dialtica da totalidade significa no s que as partes se encontram em relao de interna interao e conexo entre si e com o todo, mas tambm que o todo no pode ser petrificado na abstrao situada por cima das partes, visto que o todo se cria a si mesmo na interao das partes. Isso implica reconhecer a riqueza cultural, entremeada pela imensurvel quantidade de manifestaes espao-temporais do conhecimento que fortalece os cursos de desenvolvimento das teorias e metodologias nas cincias sociais. A esse respeito, Foucault (1997) esclarece que as formas culturais da civilizao ocidental desenharam sistemas de interpretao, tcnicas e mtodos que lhes permitem [...] suspeitar que a linguagem quer dizer algo de diferente do que diz, a entrever que h linguagem dentro da mesma linguagem (FOUCAULT, 1997, p. 15). No caso especfico do pensamento geogrfico verificou-se, nas ltimas dcadas uma infiltrao dos estudos culturais em sua corrente de cunho histrico-materialista, como destacam Claval (2011) e Gomes (1997), tendo a influncia dos ditames da ps-modernidade como principais aportes para este panorama. Wallerstein (2013) alerta para a necessidade de dar uma ateno para as crticas e posies distintas com o objetivo de orientar e reorientar a produo do conhecimento. Para esse autor as cincias sociais devem ser pensadas considerando a dimenso utpica, com vistas a construir novas possibilidades. Nesse sentido, seria preciso superar a ciso entre filosofia e cincia, assim como consolidar uma nova base epistemolgica que seja capaz de reorganizar as estruturas de saber. J Habermas (1983) critica a racionalidade instrumental tpica do processo de modernizao, e Gonalves (1999) assinala que Habermas buscou superar [...] o conceito de racionalidade instrumental, ampliando o conceito de razo, para o de uma razo que contm em si as possibilidades de reconciliao consigo mesma: a razo comunicativa (GONALVES, 1999, p. 127). A cincia e a tcnica permitem a ampliao das possibilidades humanas, entretanto, em esferas de deciso deve-se prevalecer a racionalidade comunicativa pautada nas interaes sociais e no dilogo. A filosofia alada como guardi das inovaes tericas, considerando os atos de fala e a fora da razo como pretenso de validade. uma teoria da argumentao moral e tica sob os ngulos deontolgico, cognitivista e formalista, que ampara a ideia de reformas em termos pragmticos (HABERMAS, 1983). Essa transcendncia da hermenutica tradicional, apoiada na pragmtica universal, a partir do consenso racional, tem como objetivo reconstruir o discurso teortico e prtico em flagrante oposio aos positivistas. Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 28 Porm, ressalta-se que mesmo o mito da neutralidade cientfica, totem maior do referencial positivista, seja filosfico ou cientfico (em delineaes sociais ou experimentais) tambm expressa uma via ideolgica da cincia moderna. Esta ideologia constitui-se justamente em clamar para si esse distanciamento da realidade objetiva ou do prprio sujeito de si para consigo, algo inerentemente impossvel de alcanar. O prprio caminho das linguagens, discursos e formas de expresso simblicas esbarram em um ciclo ad infinitum em seus intentos de compreenso do mundo, do ser humano e das relaes sociais. Sobre esses bices, ao discutir a hermenutica, Foucault (1997) aponta que a interpretao tem assumido a obrigao de se interpretar infinitamente. Nesse sentido, pergunta-se de quem a interpretao e, portanto, no pode deixar de voltar-se sobre si mesma porque deve interpretar-se sempre. Foucault (1997, p. 26) assevera que Em oposio ao tempo dos smbolos que um tempo com vencimentos e por oposio ao tempo da dialtica, que , apesar de tudo linear, chega-se a um tempo de interpretao que circular. Em outro turno, Bachelard (1996a; 1996b) sinaliza a necessidade de romper com os dogmas; compreende que os avanos cientficos ocorrem em situaes histricas especficas e entende que o esprito (dialtica entre experincia e teoria) alcana a verdade por meio da construo, criao, produo e retificao. Nesse sentido, a cincia ao e meio para a interveno. A verdade, para Bachelard, o [...] resultado da negao mtua de opinies num conflito entre os produtores de idias, no uma qualidade que pertenceria a esta ou quela opinio em particular (PORTELA FILHO, 2010, p. 104). Outro movimento importante nesse debate entre cincias sociais e naturais so as contribuies da fenomenologia que se situa como uma filosofia rigorosa, restaurada aps o desprezo do fascnio da cincia moderna. Zilles (2007, p. 217) afirma que Husserl props a superao da oposio do objetivismo ao subjetivismo, pois pretendia satisfazer objetividade do conhecimento, seja ele ideal ou real, e subjetividade do cognoscente. A fenomenologia tem como uma de suas diretrizes epistemolgicas romper com a ingenuidade do olhar do homem para com o mundo. Em razo disso, o sujeito (o eu transcendental) tematizado e o fenmeno algo sob o qual se toma conscincia. Portanto, a filosofia husserliana transcendental no que tange anlise da constituio da subjetividade, bem como consolida as bases para olhar o mundo na perspectiva do sujeito. A maior dificuldade de aplicao destas contribuies no caso das cincias humanas j supracitadas se d no mbito da dialogia ou unicidade do entendimento e uso das contribuies tericas e Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 29 metodolgicas das mesmas, seja na ideia de espao em Geografia, sociedade na Sociologia, ou de interaes e traos culturais na Antropologia. Em um eixo j consolidado nas ltimas dcadas, a filosofia fenomenolgica sustenta e estrutura toda uma gama de autores, teorias e reflexes existencialistas, nas quais este sujeito, foco da composio fenomnica da filosofia de Husserl, ganha ares de maiores criticidade, ora niilista e introspectiva, ora mais reativa e pautada no questionamento do real sentido do mundo e da prpria necessidade do sujeito, seus sentidos, valores e relaes interpessoais. relevante pontuar que em funo do avano das cincias sociais, as cincias naturais tm assumido suas limitaes em razo da crescente relevncia das incertezas, das imprevisibilidades, das imprecises e das instabilidades. No limite, isso acaba por repercutir no fortalecimento da proposta de um mtodo especfico para as cincias sociais, sem se pautar em concepes que se sustentam na ideia de verdade absoluta ou de leis imutveis. Nas cincias sociais, aspectos como o discurso, as ideias, as intenes e os valores complexificam o fazer cientfico e tornam impossvel a iseno do pesquisador. 4 QUESTES DE NATUREZA EPISTMICA NA PESQUISA EM POLTICA EDUCACIONAL Aps a anlise feita nas sees anteriores com realce, primeiro, para as discusses nas cincias naturais e, depois, com foco no embate entre as cincias naturais e sociais, nesta seo sero abordados aspectos epistmicos (Quadro 1) da pesquisa em poltica educacional, com recorte no objeto indicadores de qualidade. Quadro 1 Aspectos epistmicos para a pesquisa em poltica educacional ASPECTOS EPISTMICOS PARA A PESQUISA EM POLTICA EDUCACIONAL A cientificidade do conhecimento As exigncias fundamentais A natureza do conhecimento Os objetos de estudo Fonte: Elaborao dos autores a partir de Donoso-Diaz e Alarcn-Leiva (2016). Esses aspectos indicados implicam refletir sobre o estatuto epistemolgico da educao em sua condio de campo de investigao cientfica. Com vistas a enfrentar essa empreitada, recorre-se a Amado (2011), que leciona ser esse campo um espao no qual se Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 30 fundem planos como a [...] teoria e a prtica, o objectivo e o subjectivo, a normatizao e a autonomia, o cientfico e o ideolgico, o constatvel e os actos de f (AMADO, 2011, p. 45). Enfrenta-se, aqui, o debate acerca da existncia (ou no) de um campo terico prprio de anlise por parte das pesquisas em poltica educacional. Nesse sentido, este estudo assinala que as pesquisas tm se apresentado com incipiente fortuna crtica e terica. Chama a ateno, ainda, o fato de que se verifica uma insistente dicotomizao entre pesquisa qualitativa e quantitativa. Sinaliza-se que h uma precariedade terica no campo das polticas de educao com implicaes em sua prtica cientfica (MAINARDES, 2009; TELLO, 2013; BELLO; JACOMINI; MINHOTO, 2014). Sem dvida, o discurso precisa ser mais modalizado, inclusive para respeitar a perspectiva integradora dos dois modos de construir a cincia, haja vista que, de fato, interessante a realidade de que se constata, sim, nas cincias sociais, debates do ponto de vista quantitativo ou quali-quantitivo, do mesmo modo que nas cincias naturais existe espao para discusses qualitativas ou tambm hbridas. Digenes (2014, p. 339) sublinha que [...] no h uma teoria e uma metodologia em separado para as pesquisas em polticas pblicas de educao. Gatti (2004), ao discutir a rarefeita tradio de estudos quantitativos em educao no Brasil, sinaliza que so comuns afirmaes no sentido de que as abordagens quantitativas so vinculadas ao positivismo. De acordo com essa autora, essas manifestaes eivam de vcio o debate e inibem a reflexo, uma vez que as metodologias quantitativas conseguem expressar aspectos da realidade que qualificam a contextualizao e a compreenso do problema estudado. Em uma anlise complementar, Digenes (2014, p. 341) pondera que [...] o positivismo seja to arraigado em posturas qualitativas quanto nas quantitativas. Essa sua viso se deve ao fato de que o que est em pauta no somente a forma de apresentao dos dados e sim o arcabouo terico que fundamenta a pesquisa em poltica educacional. Ento, nota-se que uma distoro propalar a dicotomia entre essas abordagens metodolgicas. O debate mais complexo e [...] trata-se no apenas de como se formula e se elabora o conhecimento, mas a servio do que e de quem est o conhecimento (DIGENES, 2014, p. 343). Por isso, independentemente da abordagem utilizada (qualitativa ou quantitativa) nas pesquisas em poltica educacional, uma das questes que est na base da produo cientfica nesse campo a preocupao dos pesquisadores com relao ao conhecimento que esto Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 31 produzindo, ou seja, buscar, no limite, a construo de um saber que sirva de instrumento para a transformao da realidade (DIGENES, 2014). Dessa forma, devem-se considerar os objetivos a que o pesquisador se prope em articulao com as exigncias de abordagem que o seu objeto demanda, bem como apresentar uma postura escrupulosa para no ver ou encontrar somente o que gostaria (BELLO; JACOMINI; MINHOTO, 2014; DIGENES, 2014; GEWIRTZ; CRIBB, 2011). relevante assinalar que, no Brasil, as pesquisas em poltica educacional ganharam espao a partir da dcada de 1940 e se relacionam com a criao do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacinais (INEP) e seus centros de pesquisas em diferentes regies brasileiras (KRAWCZYK, 2011). Essa relao se d em funo de que a poltica educacional faz parte das polticas pblicas e estas so, na verdade, o Estado em ao (JOBERT; MULLER, 1987). O Estado no visto meramente como uma burocracia pblica, mas a condensao material das relaes de foras no s entre classes, como tambm em suas fraes (Digenes, 2014; Poulantzas, 2000). Bello, Jacomini e Minhoto (2014) realizaram a anlise de 1.305 teses e dissertaes da rea de polticas educacionais no Banco de Teses da Capes publicadas no perodo de 2000 a 2010. Na sequncia so apresentados alguns pontos relevantes e reflexes que esse estudo de flego suscita. 1. A maioria das pesquisas se d em instituies federais, sobretudo em cursos de doutorado. 2. Os Programas de Ps-Graduao em educao que mais se destacam em frequncia no desenvolvimento dessas pesquisas so os da Unicamp, da UFRGS e UERJ. 3. Notou-se que os programas em educao que apresentam melhores notas com a CAPES so geralmente os mais antigos e com um maior nmero de linhas de pesquisa. 4. Os orientadores Cleiton de Oliveira (Unimep/Unicamp), Flavia Werle (UNISINOS), Jos Rus Perez (Unicamp) e Maria Beatriz Luce (UFRGS) so os que mais se destacaram, respectivamente, em termos de quantitativo de orientaes nessa rea. 5. O nmero de teses cresceu substancialmente em relao produo da dcada de 1990, enquanto a produo de dissertaes manteve-se praticamente constante na comparao das duas dcadas. Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 32 6. A produo no Eixo 7 das abordagens terico-metodolgicas em pesquisas sobre polticas pblicas, considerada crucial para a consolidao do campo (Mainardes, 2009; Tello, 2013), apresentou o menor quantitativo de trabalhos no conjunto dos 9 eixos investigados, o que expressa a pouca reflexo acerca das bases tericas e metodolgicas. 7. No Eixo 7 tambm verificado que se tem mais teses do que dissertaes. Isso no ocorre em nenhum dos outros 8 eixos analisados. 8. A concentrao geogrfica das publicaes se d nas regies sudeste e sul e isso consequncia da continuidade de uma poltica de desigualdade no s na produo, mas tambm na distribuio espacial do conhecimento no Brasil (CASTIONI, 2016). Com base nesses elementos, nota-se que preciso ampliar a produo de estudos metacientficos, assim como a reflexo cientfica, sobre a produo no campo das polticas educacionais (GAMBOA, 2013). O pesquisador precisa manejar a pesquisa como princpio cientfico e educativo, no podendo se esquecer de que o conhecimento o meio, sendo necessrio orientar-se pela tica dos fins e valores, j que se constitui como prtica poltica capaz de fazer oportunidade histrica (DEMO, 2005). Por sua vez, ao fazer um balano da pesquisa educacional considerando o perodo de 1987 a 2012, Gamboa (2013) assinala tendncias como: 1) a reduo da teoria a um corpo de definies marcado por uma reviso bibliogrfica superficial; 2) o sacrifcio do objeto em nome do rigor lgico; 3) o falso dualismo entre anlise quantitativa e qualitativa que ignora abordagens integradoras na construo dos objetos de investigao e 4) a reduo da realidade a uma fotografia de um momento. Por tudo isso, faz-se necessrio conhecer os mtodos de investigao do fenmeno educativo com vistas a [...] superar a forma espontnea e acrtica como estes, muitas das vezes, so utilizados, desconhecendo suas implicaes e pressupostos (GAMBOA, 2013, p. 24). A pesquisa deve se firmar como um trabalho humano e no como uma mera ao para a obteno de um ttulo ou exerccio acadmico (COSTA; KIPNIS, 2014; GAMBOA, 2013) Esse entendimento evidencia a complexidade de fazer cincia neste cenrio marcado por especificidades e desafios (Quadro 2) e, por isso, exige canalizar esforos em distintas direes. Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 33 A partir de Charlot (2006), e em razo dessas especificidades da pesquisa em educao (Quadro 2) que asseguram um objeto epistmico prprio educao, possvel afirmar que um pesquisador em geografia, ao trabalhar em um departamento de geografia1, se interessa principalmente pelo que publicado em sua rea, e isso abarca outros temas que no se restringem educao. Entretanto, caso esse gegrafo ingresse em um departamento de educao ter como horizonte primordial ou ponto de partida o interesse por aquilo que se publica em educao, ainda que possa vir a estudar assuntos alheios geografia. Quadro 2 Pesquisa em educao: especificidades e desafios PESQUISA EM EDUCAO Especificidades Desafios Identidade profissional como especialista de algo impreciso, sem fronteiras claras, e difcil de identificar. As cincias duras avanam do ponto de chegada (acumulao) e as cincias sociais/educao do ponto de partida (memria). O ponto de partida a educao e nela circulam conhecimentos de origens diversas, prticas e polticas. Consolidao de uma cultura epistemolgica comum em educao, fortemente inter ou transdisciplinar. O conhecimento produzido expressa a relao entre as prticas e as polticas. Os estudos de fenmenos complexos no podem ter uma viso simplista e unidimensional. Articulao das formas de atividades do estudante, do professor e das polticas. Migrao do eu emprico para o eu epistmico intelectualmente mobilizado. O foco no em ensinar, mas fazer com que o estudante aprenda. Articulao entre o macro e o micro. Fonte: Elaborao dos autores a partir de Charlot (2006). A educao em si um fenmeno que demanda ser perspectivado no plano filosfico, cientfico e praxeolgico (AMADO, 2011). Esta demanda provocada pelo fato de a educao estar entrelaada a uma rede infindvel de fatos e situaes adjacentes sua estruturao e organizao na sociedade. No enfoque cientfico da anlise do fenmeno educacional preciso articular as dimenses sob o ponto de vista prtico e terico, haja vista que: 1 Esclarece-se que a geografia tambm uma disciplina mestia (CHARLOT, 2006). Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 34 [...] um fenmeno humano, caracterizvel pela sua complexidade, pela sua fluidez e dinamismo constante, pelo seu carcter de movimento imparvel. Um fenmeno com essas caractersticas no pode encerrar-se numa viso simplificadora e positivista de cincia, impondo, pelo contrrio, uma racionalidade aberta e livre da cegueira paradigmtica (AMADO, 2011, p 49). A concepo aberta postulada na citao anterior guarda em si a viso de que se admite a pluralidade de influncias metodolgicas e de teorias cientficas, assim como contempla a ideia de complementaridade das grandes orientaes (hipottico-dedutiva, dialtica, fenomenolgica, hermenutica, dentre outras) com vistas a questionar a realidade (THULLIUER, 1994; AMADO, 2011; CLAVAL, 2011). Isso porque o domnio educativo passvel de diversas influncias, inclusive provindas do senso comum, que precisam ser enfrentadas com precauo e demarcao de limites para se assegurar a credibilidade e atendimento do rigor necessrio prtica cientfica, sem assumir um cientificismo presunoso. Este cenrio ocorre, especialmente, em reas do conhecimento que possuem um histrico de diversidade paradigmtica, como o caso, por exemplo, da cincia geogrfica. Essa compreenso harmoniza-se com o argumento, apresentado por Amado (2011), de que a riqueza do campo de investigao emprica ofertada pelo fenmeno educativo o que sustenta a legitimidade e a construo de um objeto prprio. Em razo disso, significativa a caracterizao da investigao em educao postulada, a seguir. [...] caracteriza-se: pela originalidade e sistematicidade, pela sujeio a princpios emprico-racionais, pela submisso dos resultados ao princpio da falsificabilidade ou da refutao, pela honestidade, pelo respeito a princpios de tica e deontologia, pela referncia aos mltiplos domnios que aos processos educativos dizem respeito, pela exposio crtica pblica, em especial crtica da comunidade de investigadores da mesma rea. (AMADO, 2011, p. 52). Tendo como referncia essa proposta, salutar o registro de que as transformaes no campo econmico tm ampliado a conscientizao dos pesquisadores no sentido de que necessrio proporcionar condies objetivas que consigam reduzir a profunda desigualdade em termos de oportunidades educacionais e, por conseguinte, alargar as possibilidades de impulsionar o bem-estar para a maioria da populao (DONOSO-DAZ; ALARCN-LEIVA, 2016). As investigaes no campo das polticas educacionais, apesar de serem iluminadas pelo arsenal terico, so explicitamente focadas na poltica e na prtica. Parte disso se deve Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 35 natureza dos problemas epistemolgicos associados aos seus objetos de estudo, que tm como sustentao a necessidade de preservar a relevncia social e o rebatimento na prtica (CHARLOT, 2006; AMADO, 2011). Essa perspectiva crucial porque contribui para superar a pseudo-oposio entre teoria e prtica. Demo (2005, p. 9) esclarece que [...] a pesquisa busca na prtica a renovao da teoria e na teoria a renovao da prtica. Sobre essa necessidade de superao, acrescenta-se a esse raciocnio a concepo de Charlot (2006, p. 11), na qual preciso ter a coragem de dizer que a prtica no um argumento, e sim um elemento do debate que deve, ele prprio, ser analisado. Argumenta, ainda, que a postura de oposio assumida pelo prtico em relao teoria, na verdade, o seu discurso sobre sua prpria prtica. O carter poltico conjugado com o cientfico na produo do conhecimento, sobretudo no que tange ao aperfeioamento de tecnologias com vistas a oferecer respostas aos problemas candentes da poltica educativa. Como consequncia prtica disso pode-se apontar que: [...] no siempre ha de responderse mediante propuestas verdaderas, objetivamente fundadas, menos construir una teora libre de valores porque la investigacin en poltica educativa se orienta por intereses y necesidades que pueden ser coincidentes o no con la verdad y con la objetividad, aunque no pueden dejar de serlo con la justicia, esto es, con la necesidad de establecer condiciones moralmente mnimas de vida humana. (DONOSO-DAZ; ALARCN-LEIVA, 2016, p. 117). Ento, a pesquisa em poltica educacional articula os polos prtico-terico-prtico. Souza (2016) sinaliza que as pesquisas nessa rea tm buscado compreender o acesso, a gesto e a qualidade da educao ofertada, pois so tidos como cruciais em razo do foco desse campo na discusso da relao entre a demanda social por educao e a posio do Estado perante essa demanda. significativo assinalar que as polticas pblicas devem ser estudadas no somente por aquilo que o Estado realiza, mas tambm em suas ausncias (MOREIRA, 2016). Para Moreira (2016), embora no atual cenrio da globalizao se tenha institudo pautas como a descentralizao administrativa e a focalizao de polticas em grupos vulnerveis, o ncleo central da rea de poltica educacional a noo de qualidade com recorte na autonomia escolar e na participao. O Estado tem passado por transformaes em sua natureza que repercutem nessas polticas, e o estudo dessas polticas oferece pistas para a explicao do Estado que, a rigor, Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 36 pode no ser mais o fator-chave para a compreenso das polticas educacionais (MOREIRA, 2016; DALE, 2010). Cabe aqui pontuar as contribuies de Charlot (2006), que discute os discursos polticos gerados por instituies internacionais com influncia no Brasil h pelo menos 50 anos, sobretudo pela Organizao de Cooperao e Desenvolvimento Econmico (OCDE) e, num segundo plano, o Banco Mundial. De acordo com esse autor, a OCDE, ao longo dos anos 1980, fortaleceu o discurso da qualidade da educao e, por conseguinte, impulsionou a proeminncia do debate sobre avaliao. necessrio ressaltar que, no necessariamente, essa influncia implique afirmar que os trabalhos que tratem dessa temtica assumam uma vertente neoliberal. Mesmo aqueles que se denominam de esquerda podem defender a ideia de qualidade educacional sustentada em princpios democrticos. Por outro lado, importante demarcar que se no for assumido esse debate, o discurso sobre a qualidade pode ficar cada vez mais perigoso, pois para aqueles que se alinham com as propostas do Banco Mundial [...] s a privatizao do ensino e a constituio de um mercado da educao podem assegurar a qualidade e a eficcia da educao (CHARLOT, 2006, p. 14). O anncio da nfase desta anlise no objeto indicadores de qualidade exige esclarecer que esse instrumento situa-se nos conflitos que envolvem a luta por poder (indissocivel da poltica) que repercute nas aes de efetivao ou no do direito educao. Novamente, coloca-se em pauta a maneira incisiva, e no apenas indireta, de como os interesses, valores, situaes e relaes de poder conseguem afetar o direcionamento do uso do saber cientfico, neste caso, no quadro educacional como parmetro de investimento por parte do Banco Mundial. Afirmar que todos tm direito educao um ponto consensual no meio acadmico, entretanto, preciso pensar a respeito da [...] forma para tal acesso e os limites dele (se se trata de acesso fsico: vagas, ou, para alm, substantivo: condies de aprendizagem) (SOUZA, 2016, p. 77). Os indicadores de qualidade figuram como peas-chave nessa relao entre as demandas sociais e a posio do Estado em face do direito educao de qualidade. A pesquisa no campo das polticas educacionais de natureza interdisciplinar, fato que enriquece os debates e, concomitantemente, em funo da pluralidade, amplia as dificuldades tericas e metodolgicas (MOREIRA, 2016). De acordo com Marcon (2016), a tendncia verificada no sentido da construo de um arsenal terico que qualifique as experincias e as prticas no horizonte do fortalecimento democrtico. A integrao e dialogia, portanto, Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 37 perpassam e devem estar em primeiro plano, no que diz respeito aplicao das polticas educacionais, desde os grandes programas federais atividades do cotidiano escolar (CAVALCANTI, 2010). Assim, percebe-se uma posio poltica majoritria que influencia nas escolhas epistemolgicas dos pesquisadores. O crescimento do nmero de pesquisas nesse campo tem sido significativo, principalmente ao se considerar o pouco tempo de existncia, em termos de estruturao de Programas de Ps-Graduao Strictu Sensu. A rede de pesquisadores tem sido cada vez mais expressiva em torno do tema (MOREIRA, 2016). O quadro seguinte busca apresentar as principais dimenses trabalhadas nos estudos que envolvem a poltica educacional. Quadro 3 Dimenses da luta pela poltica educacional DIMENSES DA LUTA PELA POLTICA EDUCACIONAL Base material Gesto Pedaggica Autorizao para abertura de turmas, espao fsico (construo ou sesso de espao) e condies de funcionamento. Escolar e dos sistemas de ensino, com ou sem a participao dos pais, alunos e grupos organizados, o que implica em modelos de gesto democrtica ou no, por exemplo, nos Conselhos de Escola e nas Associaes de Pais e Mestres ou equivalentes. Discusso da atividade pedaggica propriamente dita. Fonte: Elaborao dos autores a partir de Souza (2016). A reflexo sobre a qualidade consegue ultrapassar o debate inicial do acesso, bem como o posterior que est no cerne da gesto. De acordo com Souza (2016, p. 79): medida que o acesso se expande, as questes de gesto e qualidade se impem tornando o quadro da poltica educacional mais complexo. E nesse ponto, o recorte no objeto indicadores de qualidade relevante para o debate acerca da disputa dicotomizada entre a quantidade (acesso) e a qualidade (condies). Ressalta-se que conhecer melhor as polticas educacionais tem o significado de apropriao e conscientizao das relaes do Estado (sujeito) com a sociedade num cenrio de disputas de projetos econmicos, polticos e socioespaciais ancorados em distintas orientaes ideolgicas que tm como eixo articulador a dimenso educacional. Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 38 Dado o exposto, as discusses desenvolvidas at aqui permitem afirmar que o debate sobre as questes epistmicas proporciona a construo de vertentes de entendimento que podem reorientar os caminhos escolhidos pela pesquisa. Haja vista que a trajetria do pesquisador o direciona para uma orientao epistemolgica que, de acordo com Lakatos (1979), se associa ao programa de pesquisa que est inserido. As questes epistemolgicas em anlise servem de arcabouo para a reflexo sobre os indicadores de qualidade, contribuindo para se discutir as suas limitaes e implicaes na sociedade em funo das escolhas realizadas na realizao da pesquisa. Na produo de conhecimento no campo de poltica educacional imprescindvel no estar apenas interessado em obter a verdade, mas tambm em forjar instrumentos para a interveno na realidade (FOUCAULT, 2008). No bojo dessa discusso, importante que o pesquisador nessa rea tenha a conscincia de que os saberes que ele produz so [...] levados em considerao, interpelados, negados, ignorados pelos polticos e pelos prticos, e o pesquisador em educao no pode negligenciar a importncia disso (CHARLOT, 2006, p. 9). Assim, est obrigado a no se desinteressar das questes relacionadas aos efeitos da pesquisa sobre a prtica, e tambm no sentido contrrio do interesse entre estas feies da pesquisa. Nesse sentido, o que est em evidncia a avaliao de polticas, pois abordam direta ou indiretamente elementos como a relevncia de uma cultura para a democracia, a relao entre a qualidade ofertada e as condies/financiamento, a valorizao da ampliao do acesso s instituies escolares, o significado de uma gesto qualificada e os resultados do desempenho estudantil configurando uma abordagem com foco na materializao ou efetividade das polticas pblicas de educao bsica. Em razo da relao prtica-teoria-prtica das polticas educacionais, crucial pensar na definio do que se entende por efetividade em face do objeto indicadores de qualidade. Nesse sentido, delimita-se, com base em Souza (2016), como sendo vinculada [...] a ideia de correspondncia da poltica demanda social, a qual originalmente gerou a ao do Estado, ou seja, efetiva a poltica que consegue responder os reclames sociais por mais ou melhor educao (SOUZA, 2016, p. 81). Abordar os aspectos epistmicos do objeto de estudo indicadores de qualidade implica, necessariamente, tocar na questo da utilizao dos mtodos quantitativos. Isso porque nas pesquisas que tratam desse assunto esses mtodos despontam como fundamentais para a concretizao das propostas apresentadas. Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 39 Nesse tocante, importante explicitar que as crticas utilizao das estatsticas na rea educacional so intensas e guardam relao com os combates vividos no processo de contestao dos mtodos de inspirao positivista por parte das teorias formuladas na construo de mtodos especficos para atender as necessidades das cincias sociais. A discusso sobre os limites e possibilidades desses indicadores exige questionar a realidade educacional por meio da articulao de mtodos para dar conta do problema, buscando descolar da dicotomia entre mtodos das cincias naturais e das cincias sociais. Provavelmente os crticos tm se sustentado na percepo de que h um otimismo epistemolgico com inspirao baconiana que influencia a produo atual, em que pesquisadores, com nfase em estudos estatsticos, supem alcanar a verdade at mesmo usando como refgio a ideia de margem de erro (estratgia ad hoc), o que pode, em certa medida, assemelhar-se aos debates acerca da crena na verdade evidente to criticada por Popper, ou a fuga da refutabilidade. Pondera-se que, no caso do ndice de Desenvolvimento da Educao Bsica (IDEB), o propsito de medir qualidade educacional no pode se ancorar apenas nas variveis nota padronizada dos estudantes e fluxo escolar (aprovao e reprovao). Alicerar-se somente nesses dois indicadores demonstra relativa fragilidade em razo da ausncia de elementos contextuais que reportam dimenso concreta. preciso considerar indicadores que contemplem a dimenso espacial como componente do social com potencialidade para retratar as condies necessrias para a qualidade. A esse respeito, Kunz (2013) aponta que a expresso espacial contribui para o aprimoramento da construo de indicadores de qualidade educacional. Nesse sentido, os professores e pesquisadores das cincias humanas em geral, e da cincia geogrfica em particular, bem sabem da importncia de se considerar a dialtica entre espao-sociedade-sujeitos para apreenso de uma dada realidade e dos riscos envolvidos quando se negligencia a dimenso socioespacial dos fatos. Como, por exemplo, quando se desconsidera os lugares sociais de professores e alunos de uma escola, a situao geogrfica dessa escola e o lugar que seus sujeitos habitam, o que implica e diz sobre as condies concretas, objetivas e subjetivas, em que se do a formao, o ensino e a aprendizagem na realidade existente e, por conseguinte, constitui parte significativa da explicao dos resultados e da qualidade da educao. certo que a busca de explicao da realidade educacional com alto grau de certeza e domnio tem sua origem em postulaes de Bacon apresentadas ainda no sculo XVII. Por Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 40 outro ngulo, notrio o fato de que nos trabalhos publicados no mbito da Associao Nacional de Ps-Graduao e Pesquisa em Educao (Anped) a maioria dos trabalhos em poltica educacional no contemplam estudos que fazem uso de mtodo quantitativo (SOUZA, 2016; DIGENES, 2014). Professores autores e pesquisadores podem sim ter um papel mais ativo e produtivo neste cenrio de formulao, fomento e aplicao de polticas educacionais, como ressaltam, no caso da Geografia, Cavalcanti (2010) e Straforini (2002). Essa realidade conflita com a orientao de estudos e pesquisas realizados no mbito do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Ansio Teixeira: majoritariamente mtodos quantitativos. Cabe questionar porque na Associao Nacional de Ps-Graduao e Pesquisa em Educao - Anped, vista como espao que canaliza estudos dos mestrados e doutorados em Educao de todo o pas, minoria a adoo dessa escolha epistemolgica. A reflexo exposta neste artigo, no sentido de as cincias sociais contestarem os mtodos das cincias naturais, oferece pistas do porqu de to robusta rejeio. Ento, possvel existir um preconceito a esse tipo de mtodo? O que se tem em evidncia o fato de que os cursos de metodologia na rea de educao oferecidos pelas universidades brasileiras, geralmente, no contemplam os mtodos quantitativos em suas ementas (FERREIRA; PASSOS, 2015). Chama a ateno o fato de que tem crescido a crtica contra a tentativa de uma preciso implacvel. A novidade que as cincias naturais tambm tm ampliado a quantidade de tericos com uma perspectiva que no comporta a preciso. Essa situao tem alargado as possibilidades de rejeio aos mtodos quantitativos. Por outro lado, ressalta-se que os autores das cincias naturais tambm so crticos das cincias sociais em funo dos mtodos qualitativos adotados, pois alegam dificuldade de apresentar as escolhas metodolgicas, que so entendidas como fundamentais para a produo de uma boa cincia (aquela que permita a outros pesquisadores utilizarem os mesmos procedimentos metodolgicos com o objetivo de aferir a validade da pesquisa). Pontua-se que um nico mtodo insuficiente para dar conta da complexidade do fenmeno educativo e, portanto, questionvel o repdio verificado nos espaos acadmicos em relao aos mtodos quantitativos. Por fim, coloca-se em relevo a seguinte questo a fim de contribuir para o debate sobre os indicadores: como discutir acesso, demanda, condies fsicas de atendimento ou qualidade educacional sem utilizar mtodos quantitativos? Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 41 5 CONSIDERAES FINAIS Diante do delineamento epistemolgico apresentado percebe-se que a cincia moderna sustentada nas cincias naturais no tida como o nico referencial e crescente a compreenso de uma cincia que busque dar conta das idiossincrasias das distintas posturas epistemolgicas em face das diversas realidades polticas, culturais e espaciais. A partir do que foi exposto, a verdade definida pela comunidade cientfica (POPPER, 2008) e, nesse sentido, a dialtica figura como um divisor de guas porque supera uma produo ancorada na lgica interna da cincia e abarca elementos externos em busca da totalidade. A conduo de uma pesquisa exige que o pesquisador se baseie em contribuies tericas e, por isso, preciso que tenha conscincia do debate epistemolgico para que possa proceder suas escolhas terico-metodolgicas. relevante, nessa discusso, registrar a posio de Frigotto (2010, p. 84) no sentido de que a postura antecede o mtodo. Em sintonia com esse entendimento, a concepo de mundo orienta a produo cientfica e possui implicaes na opo epistemolgica. A concepo de cincia assumida pelo pesquisador repercute na demarcao de seu objeto. Diante disso, faz-se relevante na atividade de produo do conhecimento ter clareza das questes epistemolgicas que aliceram as escolhas, at mesmo porque um trabalho cientfico no se resume ao domnio das tcnicas e o objeto de pesquisa precisa ser situado frente discusso epistemolgica; situao esta que pode ser trazida como possibilidade real de afirmao na seara dos estudos educacionais e, neste caso, no apenas das humanidades ou reas centrais e correlatas da Geografia, mas de todos os campos do saber. Esse aprofundamento no cerne das questes de natureza epistmica d a possibilidade de desenvolver uma fortuna crtica sobre os indicadores de qualidade educacional que esto imersos nas disputas no mago das concepes que envolvem a polissemia do conceito de qualidade. Atacar esse objeto exige do pesquisador assumir uma viso alargada dos processos educacionais de modo a contemplar a dimenso espacial considerada nevrlgica para se pensar a qualidade e, por conseguinte, para o aprimoramento dos indicadores que pretendem express-la. Os indicadores so dotados de substantiva dimenso prtica calcada na teoria com capacidade elevada de rebatimento na realidade educacional. Sem dvida, figuram como primordiais para pensar a poltica educacional, por mais que se reconhea seus limites e potencialidades que podem ser ampliados ao incorporar a dimenso espacial em sua Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 42 construo. Valorizar a dimenso espacial implica atentar para as escalas de ocorrncias do fenmeno educativo. O macro e o micro devem ser articulados (THUILLIER, 1994; CHARLOT, 2006) e isso se coloca como um desafio para as pesquisas em poltica educacional e, neste ponto, a riqueza da mobilidade escalar do pensamento geogrfico diante dos fatos e fenmenos pautados teoricamente e transpostos nos indicadores pode ser uma rica via de acesso ao aperfeioamento destas tcnicas e estudos. Compreende-se que os indicadores educacionais produzidos so frutos de mtodos decorrentes da percepo do pesquisador imerso em valores, concepes epistmicas, metdicas e axiolgicas (valores fundantes de uma determinada sociedade) tanto na produo desses indicadores como na apropriao pelo Estado na gestao de polticas pblicas atinentes ao campo educacional. Portanto, o dilogo com os autores deixou visvel que a articulao entre as grandes discusses epistemolgicas nas cincias naturais e nas sociais e a pesquisa educacional repercute na natureza epistmica das pesquisas sobre os indicadores de qualidade da educao. EPISTEMOLOGY AND RESEARCH IN EDUCATIONAL POLITIC: VECTORS GUIDING RESEARCHERS OF EDUCATIONAL FIELD ABSTRACT This article aims to delineate the epistemological framework of research in educational policy from discussions about the impacts of epistemic nature of questions in the core of natural and social sciences. In this investigation, supported by bibliographical analysis, it emerged that the relationship between the extensive epistemological discussions in the natural sciences and social and educational research has generated impacts of epistemic nature on the object educational quality indicators. Keywords: Epistemology. Research. Educational Politic. Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ 43 EPISTEMOLOGA E INVESTIGACIN EN LA POLTICA EDUCATIVA: VECTORES DE ORIENTACIN PARA LOS INVESTIGADORES DE CAMPO EDUCATIVO RESUMEN En este artculo se pretende esbozar el marco epistemolgico de las investigaciones en la poltica educativa de los debates acerca de la naturaleza de las cuestiones epistmicas en la estela de las ciencias naturales y sociales. En esta recopilacin, con el apoyo de revisin de la bibliografa, se ha encontrado que la relacin entre los amplios debates epistemolgicos en las ciencias naturales y la investigacin social y educativa gener los impactos epistmicos de objeto indicadores en la calidad de la educacin. Palabras clave: Epistemologa. Investigacin. Poltica Educativa. REFERNCIAS AMADO, Joo. Cincias da Educao - que estatuto epistemolgico? Revista Portuguesa de Pedagogia. Extra Srie, p. 45-55, 2011. Disponvel em: . Acesso em: 14 jul. 2016. BACHELARD, Gaston. A formao do esprito cientfico. 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