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  • Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017.

    ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/

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    ARTIGO

    EPISTEMOLOGIA E A PESQUISA EM POLTICA EDUCACIONAL:

    VETORES QUE ORIENTAM OS PESQUISADORES DO CAMPO

    EDUCACIONAL

    Sidelmar Alves da Silva Kunz

    Gilvan Charles Cerqueira de Arajo**

    Remi Castioni***

    RESUMO

    Este artigo tem como objetivo delinear o enquadramento epistemolgico da pesquisa em

    poltica educacional a partir de debates sobre as questes de natureza epistmica no bojo das

    cincias naturais e sociais. Neste levantamento, sustentado em anlise bibliogrfica, verificou-

    se que a articulao entre as extensas discusses epistemolgicas nas cincias naturais e nas

    sociais e a pesquisa educacional gerou impactos de natureza epistmica no objeto indicadores

    de qualidade da educao.

    Palavras-chave: Epistemologia; Pesquisa. Poltica Educacional.

    1 INTRODUO

    A pesquisa em poltica educacional possui uma demanda intrnseca e inevitvel em

    prol de um aprofundamento maior de seus conceitos, categorias, escopo terico e abrangncia

    metodolgica. Este substrato epistmico se faz necessrio para que a luta por uma nova

    poltica educacional se torne realidade, com base tanto nas delineaes da complexidade

    existente em nossa sociedade aspecto presente com fora cada vez maior, medida que os

    Doutorando em Educao pela Universidade de Braslia - UnB. Pesquisador do Instituto Nacional de

    Estudos e Pesquisas Educacionais Ansio Teixeira INEP. Endereo para correspondncia: Avenida

    Circular, 665, Q-37, L-11, Jardim Oliveira, CEP 73.805-207, Formosa-GO, Brasil. E-mail:

    sidel.gea@gmail.com

    ** Doutor em Geografia pela Universidade Estadual Paulista UNESP. Professor da Secretaria de

    Estado da Educao do Distrito Federal - SEDF. Endereo para correspondncia: Avenida Parano,

    Conjunto C, Lote 3, Apto 302, Centro, CEP 71.572-703, Parano-DF, Brasil. E-mail:

    gcca99@gmail.com

    *** Doutor em Educao pela Universidade Estadual de Campinas UNICAMP. Professor da

    Faculdade de Educao da UnB. Endereo para correspondncia: Universidade de Braslia, Campus

    Universitrio Darcy Ribeiro, Faculdade de Educao, CEP 70.904-970, Braslia-DF, Brasil. E-mail:

    kotipora@gmail.com

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    mtodos e teorias se desenvolvem, dialogam e reificam , como tambm no curso de uma

    autovalorizao do que proposto, colocado em prtica e esperado como resultado, quando o

    assunto em questo se volta para as polticas educacionais.

    Este estudo ancora-se no entendimento de Tello (2013) a respeito do que produo

    de conhecimento especializado em poltica educacional. Trata-se daquele que produzido

    atendendo a caractersticas como [...] el recorte de un objeto de estudio, una metodologia

    especfica, algn tipo de bsqueda de informacin y un entrecruzamiento de ideas

    conceptuales con las informacin y observaciones realizadas por el investigador (TELLO,

    2013, p. 764). E que nas investigaes seja possvel identificar componentes da poltica

    educacional, assim como expressar uma epistemologia na busca da compreenso do

    fenmeno educativo.

    Nesse sentido, assinala-se que este estudo tem sua relevncia marcada pela capacidade

    de contribuir com o debate acerca do fazer cincia neste campo de investigao, pois agrega

    valor ao refletir sobre a natureza, os objetos de estudo, as abordagens e os avanos alcanados

    pela seara das pesquisas em polticas educacionais. Inegavelmente, fundamental aos

    pesquisadores da rea de educao se apropriarem de reflexes e conhecimentos

    epistemolgicos que lhes permitam conquistar maior conscincia e clareza das possibilidades

    e limitaes dos saberes produzidos. Ento, tem-se como questo saber qual a natureza

    epistmica das pesquisas em poltica educacional.

    Em face dessa postulao, recorre-se a uma anlise bibliogrfica de autores clssicos e

    contemporneos que acumularam contribuies em distintas pocas, com escopo na discusso

    em torno de como a cincia seguiu em seus avanos, inflexes e retrocessos.

    Por mais que a discusso deste artigo tenha cunho mais terico-filosfico, a sua

    relevncia imprescindvel para pensar os matizes epistmicos do campo educacional como

    mapeamento dos horizontes que servem de norteadores das polticas pblicas educacionais

    gestadas pelo Estado em face das histricas demandas desse setor na sociedade brasileira.

    Essa discusso se faz fundamental tambm aos estudos voltados para a formao, o

    ensino e a educao em Geografia, envolvendo as prticas e preocupaes de professores e

    pesquisadores no contexto das polticas pblicas de orientao neoliberal e as reformas

    educacionais em curso nas ltimas dcadas, com seus reflexos nos currculos oficiais, nas

    prticas em sala de aula, no trabalho docente, na avaliao dos resultados e da qualidade da

    educao oferecida pelas escolas.

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    Nessa discusso, o debate epistemolgico no pode ser negligenciado ou

    secundarizado, pois a questo epistmica est na base das concepes de conhecimento, de

    cincia e de pesquisa cientfica, com suas dimenses poltico-ideolgicas e as relaes de

    poder no uso que se faz do saber cientfico. Isso, no campo da Educao, afeta anlises,

    propostas e posicionamentos sobre: qualidade do ensino, avaliao, currculo, funo social

    da escola, objetivos da educao escolar, pblico e privado, mercado e cidadania, qualidade e

    quantidade, macro e micro, incluso e excluso, entre outros. E no se pode pensar, fazer,

    discutir e conhecer a Geografia e seu ensino na formao dos sujeitos no mbito da educao

    escolar fora desse contexto com suas polticas educacionais e suas determinaes tambm no

    campo epistemolgico.

    Dessa forma, o presente trabalho pode contribuir tambm para que professores e

    pesquisadores na rea de formao e ensino de geografia possam refletir e situar suas prticas,

    teorias e mtodos no plano epistmico e nas suas relaes com as polticas pblicas, ou seja,

    do Estado, para a Educao, o que inevitavelmente implica relaes de poder e foras sociais

    em jogo que envolvem tambm a pesquisa, a educao e o ensino em Geografia.

    Feitas estas consideraes iniciais, apresenta-se a organizao deste levantamento,

    estruturado em trs momentos distintos e complementares entre si: 1) apresentao dos

    debates epistemolgicos no mago das cincias naturais, (2) exposio dos embates entre as

    cincias naturais e sociais e 3) reflexes sobre as questes epistmicas e os seus rebatimentos

    na pesquisa em poltica educacional, com recorte no objeto indicadores de qualidade.

    2 QUESTES DE NATUREZA EPISTMICA NAS CINCIAS NATURAIS

    Nesta seo demonstra-se que embora se tenha no campo das cincias naturais, para

    alguns, a ideia de que h uma estabilidade e processo natural de evoluo expresso pela

    crena no refinamento metodolgico em direo constituio de um conhecimento seguro,

    na verdade, no fundo, nas cincias naturais isso no se sustenta, sendo marcadas por grandes

    embates no aplacados nem mesmo pelo esforo em produzir conhecimento dotado de

    previses ou pela busca do consenso.

    Sendo assim, neste momento, com foco na discusso acerca de como a cincia avana,

    sero expostos os embates histricos no mago das cincias naturais na tentativa de expressar

    a pliade de posicionamentos resultantes desses conflitos.

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    Considera-se que foi de grande significado a perspectiva baconiana em busca de

    romper com a metafsica. Inclusive, por mais que Popper (1980), no sculo XX, tenha

    questionado suas postulaes, tambm contribuiu com esse projeto epistemolgico,

    apresentando sua proposta de demarcao da cincia um ataque direto metafsica. Feita

    essa breve reflexo, colocado baila, como orientao do raciocnio que ser traado, o

    posicionamento da cincia em busca de prestgio por se denominar o locus privilegiado da

    produo de um suposto conhecimento verdadeiro.

    Ressalta-se que, conforme Eva (2008), para Bacon o conhecimento era concebido num

    recorte pautado na lgica indutiva, cuja captao da realidade se dava por intermdio dos

    sentidos. Postula-se a existncia de um conhecimento verdadeiro que pode ser alcanado ao se

    percorrer o caminho da observao, coleta, organizao dos dados empricos, explicaes

    gerais e comprovao de hipteses. A perspectiva baconiana marcada pelo otimismo

    metodolgico, ou seja, a crena na [...] obteno de um mtodo de interpretao da natureza,

    capaz de conhecer verdadeiramente as formas das coisas (EVA, 2008, p. 48).

    Os escritos de Bacon combatiam o pensamento de seus antecessores que, em seu

    entendimento, faziam uma exaltao s foras do esprito humano, porm no promoviam

    auxlios concretos para que o homem dedicasse mais ateno para as sutilezas da natureza a

    fim de evitar as coisas insanas (male-sana) (EVA, 2008).

    A base empirista de Bacon (tambm chamada de insular ou britnica) ia de encontro a

    outra frente filosfica da Modernidade, a idealista (ou continental, liderada por Ren

    Descartes). Esta dualidade iria perdurar por sculos a fio, chegando com fora nestes

    extremos, a depender da inclinao interpretativa das cincias. O empirismo subleva o

    idealismo justamente por garantir a verificao, algo mais tangencial no ideal-racionalismo

    francs, seu oposto e por que no complemento imediato, no ignorando as etapas de

    verificao experimental, mas com maior ateno para o patamar racionalista.

    colocado em relevo, por Oliva (1990), que Bacon dedicou especial ateno

    identificao dos dolos (idola tribus, idola specus, idola fori e idola theatri) entendidos como

    fontes de iluso cognitiva que impedem a fidelidade na atividade de observao. O combate

    aos dolos se constitui como uma forma de avanar na construo do conhecimento por meio

    da ampliao da pureza do olhar. Assim, em seu mtodo preciso acumular os fatos, depois

    classific-los e, por fim, determinar suas causas, alm de liquidar quaisquer antinomias em

    busca de termos gerais de racionalizao a partir do empirismo.

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    Descartes (1996) e Bacon (2000) tinham em comum a obsesso pela preciso e crena

    na verdade evidente. Faz-se relevante pontuar que enquanto para Bacon a gnese da verdade

    era na natureza (veracitas naturae), para Descartes era no plano divino e inato ao homem

    (veracitas Dei). Assim, s verdade o que intudo com clareza e preciso.

    Por sua vez, para Popper (2008), um crtico da crena na verdade absoluta, entendia

    que a verdade evidente no se sustentava. Popper (2008, p. 36) afirma que [...] a

    epistemologia otimista de Bacon e Descartes no pode ser verdadeira. O mais estranho que

    essa falsa epistemologia constituiu a maior inspirao de uma revoluo intelectual e moral

    sem paralelo na histria.

    A verdade para Popper (2008) provisria e obtida pela objetividade. Ele defendeu

    que a perspectiva empirista com nfase nos sentidos, na observao e no indutivismo uma

    priso cientfica por no comportar postura prvia do pesquisador e rejeitar tudo que no

    possua evidncia (POPPER, 1980). Popper criticou Bacon em funo da dependncia da

    lgica formal sem margem para contradies e refutaes e do fato de que o indutivismo

    precise de validao da base emprica com indispensvel infinidade de casos observados.

    O racionalista crtico, ao seu turno, defende o mtodo hipottico-dedutivo para a

    demarcao da cincia, apresentando-a como o mtodo (POPPER, 1979; 1980). Este mtodo

    est assentado nos procedimentos e prerrogativas dos passos inevitveis garantia do rigor e

    desenvolvimento cientfico assimilado, principalmente, por cincias como a biologia, a fsica,

    a astronomia, dentre outras.

    As hipteses dizem respeito ao conhecimento ainda no estvel e precisam ser

    testadas. Trata-se do ponto de partida, no sendo necessrio discutir a sua origem. Dessa

    forma, os enunciados singulares so tidos como fundamentais para se alcanar a verdade

    (provisria), pois a falsidade de uma teoria deduzida de seus enunciados singulares. Nessa

    perspectiva, para o racionalismo crtico, a abertura de uma teoria para o teste e a sua

    resistncia s refutaes (objetividade lgica racional sustentada na experimentao)

    demonstram a sua qualidade.

    Com base nessas posies, Popper (1993) enfrentou um debate se posicionando

    contrrio ao positivismo lgico associado ao Crculo de Viena. Esse movimento tambm

    ficou conhecido como neopositivismo/empirismo lgico/fisicalismo, que teve como

    expoentes Otto Neurath, Moritz Schlick, Ernest Nagel e Hans Reichenbach, dentre outros.

    sensato realar que esses cones contriburam para a consolidao de um grupo heterogneo e

    marcado por discordncias em distintos aspectos.

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    Na concepo cientfica desse grupo advoga-se em nome da lgica simblica na

    anlise da linguagem cientfica, da rejeio da possibilidade de conhecimento sinttico a

    priori e da verificao do significado, postulando que as asseres relacionadas metafsica

    so entendidas como desprovidas de qualquer significado cognitivo. Em sntese, pregavam o

    verificacionismo, reduzindo o papel da filosofia ao de tornar clara a linguagem cientfica, a da

    fsica sentenas protocolares e analticas , que figura como o eixo norteador para as

    cincias (JAPIASS; MARCONDES, 2001; POPPER, 1993; 2008; SCHLICK, 1975).

    Esse verificacionismo foi enfrentado por Popper (1993; 2008) que tinha como base a

    refutao das hipteses apresentadas lembrando-se que as bases empricas so os conjuntos

    de enunciados singulares. Em sua compreenso, um enunciado singular pode negar o

    enunciado universal. Esse o grande salto do pensamento popperiano: ao invs de olhar pelo

    lado positivo, olhar pelo lado negativo.

    Em outra perspectiva, no contexto da valorizao dos fatores externos para se pensar

    outras referncias para as cincias, Kuhn (2013) prope a ideia de paradigma associada s

    revolues cientficas e destina um lugar para a histria na anlise de como o conhecimento

    cientfico avana. O externalismo kuhniano ergue-se no debate histrico e seus reflexos no

    desenvolvimento cientfico, nas comunidades cientficas, nos consensos e dissensos entre os

    pares, na no neutralidade do pesquisador e na gestalt, isto , a forma como o observador v a

    cincia. Destarte, rechaa o internalismo da cincia em que apenas os aspectos internos

    cincia interferem no seu desenvolvimento.

    De acordo com Kuhn (2013), o cientista visto como parcial e subjetivo. Na sua viso

    a verdade relativa e provisria, em vista de que substituda total ou parcialmente medida

    que ocorrem as revolues cientficas e as mudanas de paradigmas. Kuhn (2013) apregoa

    que a produo cientfica no acontece baseada estritamente na ordem racional e isso pontua

    uma distino em relao ao pensamento popperiano que sustentava o progresso cientfico

    num mbito interno da lgica cientfica.

    A afirmao de Prigogine (2008, p. 7) de que Vivemos em um universo em evoluo.

    Existem sistemas complexos que nos rodeiam e que impem uma ruptura da equivalncia

    entre a descrio individual (trajetrias ou funes de onda) e a descrio estatstica vai ao

    encontro do posicionamento de Kuhn (2013) aludido no pargrafo anterior.

    O carter absoluto e irrevogvel das cincias naturais e do mtodo cientfico secular se

    esmaece frente cada vez maior quantidade de inovaes, teorias e metodologias no cerne do

    saber cientfico, pois no nvel estatstico que podemos incorporar a instabilidade s leis

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    fundamentais e elas, ento, passam a adquirir um significado novo: no mais se tratam de

    certezas mas sim de possibilidades (PRIGOGINE, 2008, p. 7).

    Ainda no que diz respeito ao entendimento de Kuhn (2013), em poca de cincia

    normal o cientista dedica-se apenas resoluo de quebra-cabeas no mbito de um

    paradigma dominante, sem inovar. J as anomalias so aberturas para a refutao do

    paradigma vigente ou para a revoluo cientfica, pois O mundo do cientista tanto

    qualitativamente transformado como quantitativamente enriquecido pelas novidades

    fundamentais de fatos e teorias (KUHN, 2013, p. 67).

    No campo das cincias humanas h este dilema dos paradigmas em relao ao seu

    desenvolvimento terico e metodolgico. reas do saber como a Geografia, Sociologia e

    Antropologia possuem em seu escopo epistemolgico, diferentes momentos de inflexo para

    aperfeioamento, revogao, agregao ou avanos de conceitos, categorias, correntes de

    pensamento e vises a respeito de seus objetos de estudo, como tambm de sua prpria

    constituio como cincia. (THUILLIER, 1994; CIDADE, 2001).

    Ora, assim como afirma Domingues (1991), todo este embate das inflexes do

    desenvolvimento do saber cientfico apenas evidencia seu carter de busca pelo

    aperfeioamento terico-metodolgico, incessantemente, por meio de: [...] formas de

    racionalidade e estratgias discursivas (DOMINGUES, 1991, p. 17). Mesmo no mbito do

    formalismo lgico estas estratgias permanecem, como no caso da passagem ascendente de

    teorizaes entre o positivismo clssico e todos os representantes do Crculo de Viena.

    Vale a pena mencionar as contribuies de Feyerabend, um dos adversrios mais

    notrios do racionalismo crtico de Popper. Feyerabend (1985) criticou o monismo

    metodolgico e demonstrou ser imperativo assumir uma perspectiva metodolgica plural para

    que o conhecimento cientfico avance. Ressalta-se que no h um rompimento com o

    empirismo/experimentao, mas a proposio de uma racionalidade pluralista

    (FEYERABEND, 1985; REGNER, 1996).

    Regner (1996) afirma que as propostas de Feyerabend tm o significado de serem um

    conjunto de princpios, critrios e conceitos que alargaram o caminho para a ps-

    modernidade. De fato, isso se confirma porque, para Feyerabend (1985), s possvel

    alcanar maior conscincia ou amadurecimento sobre o fenmeno ao fazer uso de mtodos

    diversos, inclusive daqueles distintos do marco racional.

    Regner (1996) ancora-se no fato de o embasamento da ps-modernidade estar

    infiltrado em questes como o esgotamento das grandes metateorias filosficas e cientficas,

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    na admisso da interferncia mtua e inevitvel entre os extremos do sujeito e objeto e, num

    tom de maior alcance contemporneo, uma polifonia terica e metodolgica frente

    complexidade dos fatos e fenmenos estudados. E, novamente, no caso das humanidades, esta

    diversidade pode ser vista em estudos geogrficos, econmicos, sociolgicos, de modo a

    oferecer-nos um panorama contemporneo de grande diversidade no que tange ao

    desenvolvimento do pensamento cientfico.

    Ainda na tentativa de abordar o debate epistemolgico nas cincias naturais, cumpre

    assinalar que Lakatos (1979) vislumbrou superar a ideia de isolamento de teorias por meio da

    perseguio de uma unidade em sentido amplo. Esse autor prope a noo de programas de

    pesquisas para explicar o avano cientfico. Assim, em seu ngulo de viso, medida que

    ocorre o aprimoramento das teorias, acontecem os saltos de qualidade na produo cientfica,

    em um paralelismo s revolues trabalhadas por Kuhn.

    Dessa maneira, assentado na racionalidade, salvaguarda a existncia de teorias opostas

    (contrrio ao descarte imediato de teorias), soluciona a incomensurabilidade e permite a

    coexistncia de paradigmas. Trata-se de uma sofisticao da leitura popperiana porque

    ampara a conveno e concebe a cincia como falvel. Cabe lembrar que este o mesmo

    posicionamento de Bourdieu (2003).

    Em um tom de maior ceticismo, voltado ao prprio mago totmico das cincias

    naturais, chega-se to resiliente questo da autoridade cientfica explicada por Bourdieu

    (2003, p. 130) como sendo [...] uma espcie particular de capital que pode ser acumulado,

    transmitido e at mesmo, em certas condies, reconvertido em outras espcies. Atentar a

    esse aspecto fundamental no contexto dos debates percorridos nesta seo.

    Como se percebe, a partir da apresentao dos debates epistemolgicos nas cincias

    naturais possvel verificar a existncia de distintos matizes que do o contorno dos estudos

    na produo de conhecimento nessa rea.

    3 QUESTES DE NATUREZA EPISTMICA EM FACE DAS CINCIAS SOCIAIS

    Nesta seo, por meio de uma rede de discusso, lana-se luz nos principais problemas

    epistemolgicos enfrentados na questo do conhecimento cientfico no bojo dos embates entre

    as cincias naturais e sociais, como subsdio para refletir sobre os vetores que orientam os

    pesquisadores do campo educacional.

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    As crticas ao modelo de cincia consolidado no sculo XIX intensificaram em

    meados do sculo XX. As contestaes ampliaram-se em funo dos embates entre as

    cincias da natureza e as cincias sociais. Estas ltimas apontavam no sentido da

    imperatividade de se constituir outra base epistmica capaz de dar conta da complexidade da

    dimenso humana dos fenmenos.

    De certa maneira haver uma tentativa de absoro, por parte das cincias humanas,

    dos mtodos de sua contraparte natural, mesmo quando elabora seus prprios rumos

    epistemolgicos: Seu olhar no mais o de um filho temeroso que a reverencia (natura

    mater) [...] mas o de um senhor que a submete a seus fins, pondo-a a seu servio.

    (DOMINGUES, 1991, p. 73 grifos do autor). Esta situao ora de enfretamento, ora de

    complementao entre estes dois lados do pensamento cientfico tambm levantada por

    Kuhn (2012) ao discutir os distintos tratamentos para uma mesma problemtica.

    A superao de [...] binarismos, polarizaes simplistas ou antinomias entre

    opressor/oprimido; colonizador/colonizado; dominante/dominado; micro/macro;

    nomottico/ideogrfico (MARCON, 2016, p. 32) so vistas como fundamentais porque a

    expresso da incapacidade de se pensar a realidade de modo dialtico. Questiona-se o

    paradigma hegemnico da cincia moderna ancorado na racionalidade para a demarcao

    cientfica que aponta a objetividade como nico critrio de validade que tem na lgica

    matemtica e nos fundamentos fsico-naturais o caminho para o status cientfico. Para Marcon

    (2016, p. 39):

    [...] a cincia hegemnica foi se afastando das situaes que poderiam

    causar-lhe incmodos e crticas. Da a negao do senso comum,

    caracterizado como fragmentado, ingnuo e acrtico. Em contraposio,

    apoiou-se em observaes e experimentaes das quais derivam teorias

    explicativas totalizadoras.

    Recorrer somente aos recursos da prtica cientfica, de fato, se apresenta como uma

    fragilidade, entretanto, vale a pena ressaltar que importante ter uma distino

    epistemolgica entre senso comum e conhecimento cientfico. O senso comum possui

    potencialidades para o fazer cientfico, porm preciso reconhecer suas limitaes (Marcon,

    2016), pois visto sob o ngulo pragmtico.

    crescente o combate ideia de uma investigao isenta de valores. Isso no significa

    fomentar uma produo panfletria, mas de ter a honestidade intelectual em reconhecer os

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    limites e as possibilidades das distintas fontes de conhecimento e, por conseguinte, defender a

    legitimidade dos diversos caminhos para se chegar verdade.

    Nesse contexto, tem-se, ento, o limiar entre o sujeito e objeto, a sequela a partir da

    qual toda a filosofia e cincia se debruaram em diferentes propostas de resoluo, assim

    como a onda de discordncia desta historicidade no mtodo histrico e dialtico:

    O objetivo do pesquisador, indo alm da aparncia fenomnica, imediata e

    emprica por onde necessariamente se inicia o conhecimento, sendo essa

    aparncia um nvel da realidade e, portanto, algo importante e no

    descartvel , apreender a essncia (ou seja: a estrutura e a dinmica) do

    objeto. Numa palavra: o mtodo de pesquisa que propicia o conhecimento

    terico, partindo da aparncia, visa alcanar a essncia do objeto.

    Alcanando a essncia do objeto, isto : capturando a sua estrutura e

    dinmica, por meio de procedimentos analticos e operando a sua sntese, o

    pesquisador a reproduz no plano do pensamento; mediante a pesquisa,

    viabilizada pelo mtodo, o pesquisador reproduz, no plano ideal, a essncia

    do objeto que investigou. O objeto da pesquisa tem, insista-se, uma

    existncia objetiva, que independe da conscincia do pesquisador. (PAULO

    NETTO, 2011, p. 22).

    A crtica das correntes de pensamento advindas da gide marxista se pautar no

    enfrentamento da sociedade e das cincias para com a lgica poltico-econmica hegemnica.

    Em meio a este percurso surgiria toda uma gama de possibilidades de enriquecimento

    epistmico, a partir do momento em que os objetivos de entendimento estrutural,

    supraestrutural e das relaes de poder de manuteno deste cenrio fossem caindo por terra,

    assim como medida que a ao da dialtica histrica e materialista fizesse seu desvelamento

    da realidade objetiva erguida, seguindo os ditames de toda uma secularidade conservadora e

    burguesa.

    Para Paulo Netto (2011), nos marcos do marxismo, uma teoria social deve ter como

    fundamento a reflexo profunda sobre a produo das condies materiais da vida social. Essa

    perspectiva no vista como uma preferncia do pesquisador, mas uma necessidade que

    emana do prprio objeto de pesquisa e que vista como a nica capaz de permitir a

    articulao da teoria social, de modo que [...] d conta dos nveis decisivos e da dinmica

    fundamental da sociedade burguesa (PAULO NETTO, 2011, p. 11).

    Sobre esta diversidade a que a teoria social deve se voltar, Kosk (1976) diz que: [...]

    realidade como um todo estruturado, dialtico, no qual ou do qual um fato qualquer [...] pode

    vir a ser racionalmente conhecido (KOSK, 1976, p. 49). Alm disso, complementa seu

    raciocnio reforando este percurso como via de se chegar compreenso da totalidade

    fenomnica que nos cerca. bom lembrar que, para Kosk (1976, p. 50), a

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    [...] compreenso dialtica da totalidade significa no s que as partes se

    encontram em relao de interna interao e conexo entre si e com o todo,

    mas tambm que o todo no pode ser petrificado na abstrao situada por

    cima das partes, visto que o todo se cria a si mesmo na interao das partes.

    Isso implica reconhecer a riqueza cultural, entremeada pela imensurvel quantidade de

    manifestaes espao-temporais do conhecimento que fortalece os cursos de desenvolvimento

    das teorias e metodologias nas cincias sociais. A esse respeito, Foucault (1997) esclarece que

    as formas culturais da civilizao ocidental desenharam sistemas de interpretao, tcnicas e

    mtodos que lhes permitem [...] suspeitar que a linguagem quer dizer algo de diferente do

    que diz, a entrever que h linguagem dentro da mesma linguagem (FOUCAULT, 1997, p.

    15). No caso especfico do pensamento geogrfico verificou-se, nas ltimas dcadas uma

    infiltrao dos estudos culturais em sua corrente de cunho histrico-materialista, como

    destacam Claval (2011) e Gomes (1997), tendo a influncia dos ditames da ps-modernidade

    como principais aportes para este panorama.

    Wallerstein (2013) alerta para a necessidade de dar uma ateno para as crticas e

    posies distintas com o objetivo de orientar e reorientar a produo do conhecimento. Para

    esse autor as cincias sociais devem ser pensadas considerando a dimenso utpica, com

    vistas a construir novas possibilidades. Nesse sentido, seria preciso superar a ciso entre

    filosofia e cincia, assim como consolidar uma nova base epistemolgica que seja capaz de

    reorganizar as estruturas de saber.

    J Habermas (1983) critica a racionalidade instrumental tpica do processo de

    modernizao, e Gonalves (1999) assinala que Habermas buscou superar [...] o conceito de

    racionalidade instrumental, ampliando o conceito de razo, para o de uma razo que contm

    em si as possibilidades de reconciliao consigo mesma: a razo comunicativa

    (GONALVES, 1999, p. 127). A cincia e a tcnica permitem a ampliao das possibilidades

    humanas, entretanto, em esferas de deciso deve-se prevalecer a racionalidade comunicativa

    pautada nas interaes sociais e no dilogo.

    A filosofia alada como guardi das inovaes tericas, considerando os atos de fala

    e a fora da razo como pretenso de validade. uma teoria da argumentao moral e tica

    sob os ngulos deontolgico, cognitivista e formalista, que ampara a ideia de reformas em

    termos pragmticos (HABERMAS, 1983). Essa transcendncia da hermenutica tradicional,

    apoiada na pragmtica universal, a partir do consenso racional, tem como objetivo reconstruir

    o discurso teortico e prtico em flagrante oposio aos positivistas.

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    Porm, ressalta-se que mesmo o mito da neutralidade cientfica, totem maior do

    referencial positivista, seja filosfico ou cientfico (em delineaes sociais ou experimentais)

    tambm expressa uma via ideolgica da cincia moderna. Esta ideologia constitui-se

    justamente em clamar para si esse distanciamento da realidade objetiva ou do prprio sujeito

    de si para consigo, algo inerentemente impossvel de alcanar. O prprio caminho das

    linguagens, discursos e formas de expresso simblicas esbarram em um ciclo ad infinitum

    em seus intentos de compreenso do mundo, do ser humano e das relaes sociais.

    Sobre esses bices, ao discutir a hermenutica, Foucault (1997) aponta que a

    interpretao tem assumido a obrigao de se interpretar infinitamente. Nesse sentido,

    pergunta-se de quem a interpretao e, portanto, no pode deixar de voltar-se sobre si

    mesma porque deve interpretar-se sempre. Foucault (1997, p. 26) assevera que Em oposio

    ao tempo dos smbolos que um tempo com vencimentos e por oposio ao tempo da

    dialtica, que , apesar de tudo linear, chega-se a um tempo de interpretao que circular.

    Em outro turno, Bachelard (1996a; 1996b) sinaliza a necessidade de romper com os

    dogmas; compreende que os avanos cientficos ocorrem em situaes histricas especficas e

    entende que o esprito (dialtica entre experincia e teoria) alcana a verdade por meio da

    construo, criao, produo e retificao. Nesse sentido, a cincia ao e meio para a

    interveno. A verdade, para Bachelard, o [...] resultado da negao mtua de opinies

    num conflito entre os produtores de idias, no uma qualidade que pertenceria a esta ou

    quela opinio em particular (PORTELA FILHO, 2010, p. 104).

    Outro movimento importante nesse debate entre cincias sociais e naturais so as

    contribuies da fenomenologia que se situa como uma filosofia rigorosa, restaurada aps o

    desprezo do fascnio da cincia moderna. Zilles (2007, p. 217) afirma que Husserl props a

    superao da oposio do objetivismo ao subjetivismo, pois pretendia satisfazer

    objetividade do conhecimento, seja ele ideal ou real, e subjetividade do cognoscente.

    A fenomenologia tem como uma de suas diretrizes epistemolgicas romper com a

    ingenuidade do olhar do homem para com o mundo. Em razo disso, o sujeito (o eu

    transcendental) tematizado e o fenmeno algo sob o qual se toma conscincia. Portanto, a

    filosofia husserliana transcendental no que tange anlise da constituio da subjetividade,

    bem como consolida as bases para olhar o mundo na perspectiva do sujeito. A maior

    dificuldade de aplicao destas contribuies no caso das cincias humanas j supracitadas se

    d no mbito da dialogia ou unicidade do entendimento e uso das contribuies tericas e

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    metodolgicas das mesmas, seja na ideia de espao em Geografia, sociedade na Sociologia,

    ou de interaes e traos culturais na Antropologia.

    Em um eixo j consolidado nas ltimas dcadas, a filosofia fenomenolgica sustenta e

    estrutura toda uma gama de autores, teorias e reflexes existencialistas, nas quais este sujeito,

    foco da composio fenomnica da filosofia de Husserl, ganha ares de maiores criticidade, ora

    niilista e introspectiva, ora mais reativa e pautada no questionamento do real sentido do

    mundo e da prpria necessidade do sujeito, seus sentidos, valores e relaes interpessoais.

    relevante pontuar que em funo do avano das cincias sociais, as cincias naturais

    tm assumido suas limitaes em razo da crescente relevncia das incertezas, das

    imprevisibilidades, das imprecises e das instabilidades. No limite, isso acaba por repercutir

    no fortalecimento da proposta de um mtodo especfico para as cincias sociais, sem se pautar

    em concepes que se sustentam na ideia de verdade absoluta ou de leis imutveis. Nas

    cincias sociais, aspectos como o discurso, as ideias, as intenes e os valores complexificam

    o fazer cientfico e tornam impossvel a iseno do pesquisador.

    4 QUESTES DE NATUREZA EPISTMICA NA PESQUISA EM POLTICA

    EDUCACIONAL

    Aps a anlise feita nas sees anteriores com realce, primeiro, para as discusses nas

    cincias naturais e, depois, com foco no embate entre as cincias naturais e sociais, nesta

    seo sero abordados aspectos epistmicos (Quadro 1) da pesquisa em poltica educacional,

    com recorte no objeto indicadores de qualidade.

    Quadro 1 Aspectos epistmicos para a pesquisa em poltica educacional

    ASPECTOS EPISTMICOS PARA A PESQUISA EM POLTICA EDUCACIONAL

    A cientificidade do conhecimento

    As exigncias fundamentais

    A natureza do conhecimento

    Os objetos de estudo

    Fonte: Elaborao dos autores a partir de Donoso-Diaz e Alarcn-Leiva (2016).

    Esses aspectos indicados implicam refletir sobre o estatuto epistemolgico da

    educao em sua condio de campo de investigao cientfica. Com vistas a enfrentar essa

    empreitada, recorre-se a Amado (2011), que leciona ser esse campo um espao no qual se

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    fundem planos como a [...] teoria e a prtica, o objectivo e o subjectivo, a normatizao e a

    autonomia, o cientfico e o ideolgico, o constatvel e os actos de f (AMADO, 2011, p. 45).

    Enfrenta-se, aqui, o debate acerca da existncia (ou no) de um campo terico prprio

    de anlise por parte das pesquisas em poltica educacional. Nesse sentido, este estudo assinala

    que as pesquisas tm se apresentado com incipiente fortuna crtica e terica. Chama a ateno,

    ainda, o fato de que se verifica uma insistente dicotomizao entre pesquisa qualitativa e

    quantitativa.

    Sinaliza-se que h uma precariedade terica no campo das polticas de educao com

    implicaes em sua prtica cientfica (MAINARDES, 2009; TELLO, 2013; BELLO;

    JACOMINI; MINHOTO, 2014). Sem dvida, o discurso precisa ser mais modalizado,

    inclusive para respeitar a perspectiva integradora dos dois modos de construir a cincia, haja

    vista que, de fato, interessante a realidade de que se constata, sim, nas cincias sociais,

    debates do ponto de vista quantitativo ou quali-quantitivo, do mesmo modo que nas cincias

    naturais existe espao para discusses qualitativas ou tambm hbridas. Digenes (2014, p.

    339) sublinha que [...] no h uma teoria e uma metodologia em separado para as pesquisas

    em polticas pblicas de educao.

    Gatti (2004), ao discutir a rarefeita tradio de estudos quantitativos em educao no

    Brasil, sinaliza que so comuns afirmaes no sentido de que as abordagens quantitativas so

    vinculadas ao positivismo. De acordo com essa autora, essas manifestaes eivam de vcio o

    debate e inibem a reflexo, uma vez que as metodologias quantitativas conseguem expressar

    aspectos da realidade que qualificam a contextualizao e a compreenso do problema

    estudado.

    Em uma anlise complementar, Digenes (2014, p. 341) pondera que [...] o

    positivismo seja to arraigado em posturas qualitativas quanto nas quantitativas. Essa sua

    viso se deve ao fato de que o que est em pauta no somente a forma de apresentao dos

    dados e sim o arcabouo terico que fundamenta a pesquisa em poltica educacional. Ento,

    nota-se que uma distoro propalar a dicotomia entre essas abordagens metodolgicas. O

    debate mais complexo e [...] trata-se no apenas de como se formula e se elabora o

    conhecimento, mas a servio do que e de quem est o conhecimento (DIGENES, 2014, p.

    343).

    Por isso, independentemente da abordagem utilizada (qualitativa ou quantitativa) nas

    pesquisas em poltica educacional, uma das questes que est na base da produo cientfica

    nesse campo a preocupao dos pesquisadores com relao ao conhecimento que esto

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    produzindo, ou seja, buscar, no limite, a construo de um saber que sirva de instrumento para

    a transformao da realidade (DIGENES, 2014).

    Dessa forma, devem-se considerar os objetivos a que o pesquisador se prope em

    articulao com as exigncias de abordagem que o seu objeto demanda, bem como apresentar

    uma postura escrupulosa para no ver ou encontrar somente o que gostaria (BELLO;

    JACOMINI; MINHOTO, 2014; DIGENES, 2014; GEWIRTZ; CRIBB, 2011).

    relevante assinalar que, no Brasil, as pesquisas em poltica educacional ganharam

    espao a partir da dcada de 1940 e se relacionam com a criao do Instituto Nacional de

    Estudos e Pesquisas Educacinais (INEP) e seus centros de pesquisas em diferentes regies

    brasileiras (KRAWCZYK, 2011).

    Essa relao se d em funo de que a poltica educacional faz parte das polticas

    pblicas e estas so, na verdade, o Estado em ao (JOBERT; MULLER, 1987). O Estado

    no visto meramente como uma burocracia pblica, mas a condensao material das

    relaes de foras no s entre classes, como tambm em suas fraes (Digenes, 2014;

    Poulantzas, 2000).

    Bello, Jacomini e Minhoto (2014) realizaram a anlise de 1.305 teses e dissertaes da

    rea de polticas educacionais no Banco de Teses da Capes publicadas no perodo de 2000 a

    2010. Na sequncia so apresentados alguns pontos relevantes e reflexes que esse estudo de

    flego suscita.

    1. A maioria das pesquisas se d em instituies federais, sobretudo em cursos de

    doutorado.

    2. Os Programas de Ps-Graduao em educao que mais se destacam em frequncia

    no desenvolvimento dessas pesquisas so os da Unicamp, da UFRGS e UERJ.

    3. Notou-se que os programas em educao que apresentam melhores notas com a

    CAPES so geralmente os mais antigos e com um maior nmero de linhas de

    pesquisa.

    4. Os orientadores Cleiton de Oliveira (Unimep/Unicamp), Flavia Werle

    (UNISINOS), Jos Rus Perez (Unicamp) e Maria Beatriz Luce (UFRGS) so os

    que mais se destacaram, respectivamente, em termos de quantitativo de orientaes

    nessa rea.

    5. O nmero de teses cresceu substancialmente em relao produo da dcada de

    1990, enquanto a produo de dissertaes manteve-se praticamente constante na

    comparao das duas dcadas.

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    6. A produo no Eixo 7 das abordagens terico-metodolgicas em pesquisas sobre

    polticas pblicas, considerada crucial para a consolidao do campo (Mainardes,

    2009; Tello, 2013), apresentou o menor quantitativo de trabalhos no conjunto dos 9

    eixos investigados, o que expressa a pouca reflexo acerca das bases tericas e

    metodolgicas.

    7. No Eixo 7 tambm verificado que se tem mais teses do que dissertaes. Isso no

    ocorre em nenhum dos outros 8 eixos analisados.

    8. A concentrao geogrfica das publicaes se d nas regies sudeste e sul e isso

    consequncia da continuidade de uma poltica de desigualdade no s na produo,

    mas tambm na distribuio espacial do conhecimento no Brasil (CASTIONI,

    2016).

    Com base nesses elementos, nota-se que preciso ampliar a produo de estudos

    metacientficos, assim como a reflexo cientfica, sobre a produo no campo das polticas

    educacionais (GAMBOA, 2013). O pesquisador precisa manejar a pesquisa como princpio

    cientfico e educativo, no podendo se esquecer de que o conhecimento o meio, sendo

    necessrio orientar-se pela tica dos fins e valores, j que se constitui como prtica poltica

    capaz de fazer oportunidade histrica (DEMO, 2005).

    Por sua vez, ao fazer um balano da pesquisa educacional considerando o perodo de

    1987 a 2012, Gamboa (2013) assinala tendncias como: 1) a reduo da teoria a um corpo de

    definies marcado por uma reviso bibliogrfica superficial; 2) o sacrifcio do objeto em

    nome do rigor lgico; 3) o falso dualismo entre anlise quantitativa e qualitativa que ignora

    abordagens integradoras na construo dos objetos de investigao e 4) a reduo da realidade

    a uma fotografia de um momento.

    Por tudo isso, faz-se necessrio conhecer os mtodos de investigao do fenmeno

    educativo com vistas a [...] superar a forma espontnea e acrtica como estes, muitas das

    vezes, so utilizados, desconhecendo suas implicaes e pressupostos (GAMBOA, 2013, p.

    24). A pesquisa deve se firmar como um trabalho humano e no como uma mera ao para a

    obteno de um ttulo ou exerccio acadmico (COSTA; KIPNIS, 2014; GAMBOA, 2013)

    Esse entendimento evidencia a complexidade de fazer cincia neste cenrio marcado

    por especificidades e desafios (Quadro 2) e, por isso, exige canalizar esforos em distintas

    direes.

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    A partir de Charlot (2006), e em razo dessas especificidades da pesquisa em educao

    (Quadro 2) que asseguram um objeto epistmico prprio educao, possvel afirmar que

    um pesquisador em geografia, ao trabalhar em um departamento de geografia1, se interessa

    principalmente pelo que publicado em sua rea, e isso abarca outros temas que no se

    restringem educao. Entretanto, caso esse gegrafo ingresse em um departamento de

    educao ter como horizonte primordial ou ponto de partida o interesse por aquilo que se

    publica em educao, ainda que possa vir a estudar assuntos alheios geografia.

    Quadro 2 Pesquisa em educao: especificidades e desafios

    PESQUISA EM EDUCAO

    Especificidades Desafios

    Identidade profissional como especialista

    de algo impreciso, sem fronteiras claras,

    e difcil de identificar.

    As cincias duras avanam do ponto de

    chegada (acumulao) e as cincias

    sociais/educao do ponto de partida

    (memria).

    O ponto de partida a educao e nela

    circulam conhecimentos de origens

    diversas, prticas e polticas.

    Consolidao de uma cultura epistemolgica

    comum em educao, fortemente inter ou

    transdisciplinar.

    O conhecimento produzido expressa a

    relao entre as prticas e as polticas.

    Os estudos de fenmenos complexos no

    podem ter uma viso simplista e

    unidimensional.

    Articulao das formas de atividades do

    estudante, do professor e das polticas.

    Migrao do eu emprico para o eu epistmico

    intelectualmente mobilizado.

    O foco no em ensinar, mas fazer com

    que o estudante aprenda.

    Articulao entre o macro e o micro.

    Fonte: Elaborao dos autores a partir de Charlot (2006).

    A educao em si um fenmeno que demanda ser perspectivado no plano filosfico,

    cientfico e praxeolgico (AMADO, 2011). Esta demanda provocada pelo fato de a

    educao estar entrelaada a uma rede infindvel de fatos e situaes adjacentes sua

    estruturao e organizao na sociedade. No enfoque cientfico da anlise do fenmeno

    educacional preciso articular as dimenses sob o ponto de vista prtico e terico, haja vista

    que:

    1 Esclarece-se que a geografia tambm uma disciplina mestia (CHARLOT, 2006).

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    [...] um fenmeno humano, caracterizvel pela sua complexidade, pela sua

    fluidez e dinamismo constante, pelo seu carcter de movimento imparvel.

    Um fenmeno com essas caractersticas no pode encerrar-se numa viso

    simplificadora e positivista de cincia, impondo, pelo contrrio, uma

    racionalidade aberta e livre da cegueira paradigmtica (AMADO, 2011, p

    49).

    A concepo aberta postulada na citao anterior guarda em si a viso de que se

    admite a pluralidade de influncias metodolgicas e de teorias cientficas, assim como

    contempla a ideia de complementaridade das grandes orientaes (hipottico-dedutiva,

    dialtica, fenomenolgica, hermenutica, dentre outras) com vistas a questionar a realidade

    (THULLIUER, 1994; AMADO, 2011; CLAVAL, 2011).

    Isso porque o domnio educativo passvel de diversas influncias, inclusive

    provindas do senso comum, que precisam ser enfrentadas com precauo e demarcao de

    limites para se assegurar a credibilidade e atendimento do rigor necessrio prtica cientfica,

    sem assumir um cientificismo presunoso. Este cenrio ocorre, especialmente, em reas do

    conhecimento que possuem um histrico de diversidade paradigmtica, como o caso, por

    exemplo, da cincia geogrfica.

    Essa compreenso harmoniza-se com o argumento, apresentado por Amado (2011), de

    que a riqueza do campo de investigao emprica ofertada pelo fenmeno educativo o que

    sustenta a legitimidade e a construo de um objeto prprio. Em razo disso, significativa a

    caracterizao da investigao em educao postulada, a seguir.

    [...] caracteriza-se: pela originalidade e sistematicidade, pela sujeio a

    princpios emprico-racionais, pela submisso dos resultados ao princpio da

    falsificabilidade ou da refutao, pela honestidade, pelo respeito a princpios

    de tica e deontologia, pela referncia aos mltiplos domnios que aos

    processos educativos dizem respeito, pela exposio crtica pblica, em

    especial crtica da comunidade de investigadores da mesma rea.

    (AMADO, 2011, p. 52).

    Tendo como referncia essa proposta, salutar o registro de que as transformaes no

    campo econmico tm ampliado a conscientizao dos pesquisadores no sentido de que

    necessrio proporcionar condies objetivas que consigam reduzir a profunda desigualdade

    em termos de oportunidades educacionais e, por conseguinte, alargar as possibilidades de

    impulsionar o bem-estar para a maioria da populao (DONOSO-DAZ; ALARCN-LEIVA,

    2016).

    As investigaes no campo das polticas educacionais, apesar de serem iluminadas

    pelo arsenal terico, so explicitamente focadas na poltica e na prtica. Parte disso se deve

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    natureza dos problemas epistemolgicos associados aos seus objetos de estudo, que tm como

    sustentao a necessidade de preservar a relevncia social e o rebatimento na prtica

    (CHARLOT, 2006; AMADO, 2011). Essa perspectiva crucial porque contribui para superar

    a pseudo-oposio entre teoria e prtica. Demo (2005, p. 9) esclarece que [...] a pesquisa

    busca na prtica a renovao da teoria e na teoria a renovao da prtica.

    Sobre essa necessidade de superao, acrescenta-se a esse raciocnio a concepo de

    Charlot (2006, p. 11), na qual preciso ter a coragem de dizer que a prtica no um

    argumento, e sim um elemento do debate que deve, ele prprio, ser analisado. Argumenta,

    ainda, que a postura de oposio assumida pelo prtico em relao teoria, na verdade, o

    seu discurso sobre sua prpria prtica.

    O carter poltico conjugado com o cientfico na produo do conhecimento,

    sobretudo no que tange ao aperfeioamento de tecnologias com vistas a oferecer respostas aos

    problemas candentes da poltica educativa. Como consequncia prtica disso pode-se apontar

    que:

    [...] no siempre ha de responderse mediante propuestas verdaderas,

    objetivamente fundadas, menos construir una teora libre de valores porque

    la investigacin en poltica educativa se orienta por intereses y necesidades

    que pueden ser coincidentes o no con la verdad y con la objetividad, aunque

    no pueden dejar de serlo con la justicia, esto es, con la necesidad de

    establecer condiciones moralmente mnimas de vida humana. (DONOSO-

    DAZ; ALARCN-LEIVA, 2016, p. 117).

    Ento, a pesquisa em poltica educacional articula os polos prtico-terico-prtico.

    Souza (2016) sinaliza que as pesquisas nessa rea tm buscado compreender o acesso, a

    gesto e a qualidade da educao ofertada, pois so tidos como cruciais em razo do foco

    desse campo na discusso da relao entre a demanda social por educao e a posio do

    Estado perante essa demanda. significativo assinalar que as polticas pblicas devem ser

    estudadas no somente por aquilo que o Estado realiza, mas tambm em suas ausncias

    (MOREIRA, 2016).

    Para Moreira (2016), embora no atual cenrio da globalizao se tenha institudo

    pautas como a descentralizao administrativa e a focalizao de polticas em grupos

    vulnerveis, o ncleo central da rea de poltica educacional a noo de qualidade com

    recorte na autonomia escolar e na participao.

    O Estado tem passado por transformaes em sua natureza que repercutem nessas

    polticas, e o estudo dessas polticas oferece pistas para a explicao do Estado que, a rigor,

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    pode no ser mais o fator-chave para a compreenso das polticas educacionais (MOREIRA,

    2016; DALE, 2010).

    Cabe aqui pontuar as contribuies de Charlot (2006), que discute os discursos

    polticos gerados por instituies internacionais com influncia no Brasil h pelo menos 50

    anos, sobretudo pela Organizao de Cooperao e Desenvolvimento Econmico (OCDE) e,

    num segundo plano, o Banco Mundial. De acordo com esse autor, a OCDE, ao longo dos anos

    1980, fortaleceu o discurso da qualidade da educao e, por conseguinte, impulsionou a

    proeminncia do debate sobre avaliao.

    necessrio ressaltar que, no necessariamente, essa influncia implique afirmar que

    os trabalhos que tratem dessa temtica assumam uma vertente neoliberal. Mesmo aqueles que

    se denominam de esquerda podem defender a ideia de qualidade educacional sustentada em

    princpios democrticos. Por outro lado, importante demarcar que se no for assumido esse

    debate, o discurso sobre a qualidade pode ficar cada vez mais perigoso, pois para aqueles que

    se alinham com as propostas do Banco Mundial [...] s a privatizao do ensino e a

    constituio de um mercado da educao podem assegurar a qualidade e a eficcia da

    educao (CHARLOT, 2006, p. 14).

    O anncio da nfase desta anlise no objeto indicadores de qualidade exige esclarecer

    que esse instrumento situa-se nos conflitos que envolvem a luta por poder (indissocivel da

    poltica) que repercute nas aes de efetivao ou no do direito educao. Novamente,

    coloca-se em pauta a maneira incisiva, e no apenas indireta, de como os interesses, valores,

    situaes e relaes de poder conseguem afetar o direcionamento do uso do saber cientfico,

    neste caso, no quadro educacional como parmetro de investimento por parte do Banco

    Mundial.

    Afirmar que todos tm direito educao um ponto consensual no meio acadmico,

    entretanto, preciso pensar a respeito da [...] forma para tal acesso e os limites dele (se se

    trata de acesso fsico: vagas, ou, para alm, substantivo: condies de aprendizagem)

    (SOUZA, 2016, p. 77). Os indicadores de qualidade figuram como peas-chave nessa relao

    entre as demandas sociais e a posio do Estado em face do direito educao de qualidade.

    A pesquisa no campo das polticas educacionais de natureza interdisciplinar, fato que

    enriquece os debates e, concomitantemente, em funo da pluralidade, amplia as dificuldades

    tericas e metodolgicas (MOREIRA, 2016). De acordo com Marcon (2016), a tendncia

    verificada no sentido da construo de um arsenal terico que qualifique as experincias e as

    prticas no horizonte do fortalecimento democrtico. A integrao e dialogia, portanto,

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    perpassam e devem estar em primeiro plano, no que diz respeito aplicao das polticas

    educacionais, desde os grandes programas federais atividades do cotidiano escolar

    (CAVALCANTI, 2010).

    Assim, percebe-se uma posio poltica majoritria que influencia nas escolhas

    epistemolgicas dos pesquisadores. O crescimento do nmero de pesquisas nesse campo tem

    sido significativo, principalmente ao se considerar o pouco tempo de existncia, em termos de

    estruturao de Programas de Ps-Graduao Strictu Sensu. A rede de pesquisadores tem sido

    cada vez mais expressiva em torno do tema (MOREIRA, 2016). O quadro seguinte busca

    apresentar as principais dimenses trabalhadas nos estudos que envolvem a poltica

    educacional.

    Quadro 3 Dimenses da luta pela poltica educacional

    DIMENSES DA LUTA PELA POLTICA EDUCACIONAL

    Base material Gesto Pedaggica

    Autorizao para abertura de

    turmas, espao fsico

    (construo ou sesso de

    espao) e condies de

    funcionamento.

    Escolar e dos sistemas de

    ensino, com ou sem a

    participao dos pais, alunos e

    grupos organizados, o que

    implica em modelos de gesto

    democrtica ou no, por

    exemplo, nos Conselhos de

    Escola e nas Associaes de

    Pais e Mestres ou equivalentes.

    Discusso da atividade

    pedaggica propriamente

    dita.

    Fonte: Elaborao dos autores a partir de Souza (2016).

    A reflexo sobre a qualidade consegue ultrapassar o debate inicial do acesso, bem

    como o posterior que est no cerne da gesto. De acordo com Souza (2016, p. 79): medida

    que o acesso se expande, as questes de gesto e qualidade se impem tornando o quadro da

    poltica educacional mais complexo. E nesse ponto, o recorte no objeto indicadores de

    qualidade relevante para o debate acerca da disputa dicotomizada entre a quantidade

    (acesso) e a qualidade (condies).

    Ressalta-se que conhecer melhor as polticas educacionais tem o significado de

    apropriao e conscientizao das relaes do Estado (sujeito) com a sociedade num cenrio

    de disputas de projetos econmicos, polticos e socioespaciais ancorados em distintas

    orientaes ideolgicas que tm como eixo articulador a dimenso educacional.

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    Dado o exposto, as discusses desenvolvidas at aqui permitem afirmar que o debate

    sobre as questes epistmicas proporciona a construo de vertentes de entendimento que

    podem reorientar os caminhos escolhidos pela pesquisa. Haja vista que a trajetria do

    pesquisador o direciona para uma orientao epistemolgica que, de acordo com Lakatos

    (1979), se associa ao programa de pesquisa que est inserido.

    As questes epistemolgicas em anlise servem de arcabouo para a reflexo sobre os

    indicadores de qualidade, contribuindo para se discutir as suas limitaes e implicaes na

    sociedade em funo das escolhas realizadas na realizao da pesquisa. Na produo de

    conhecimento no campo de poltica educacional imprescindvel no estar apenas interessado

    em obter a verdade, mas tambm em forjar instrumentos para a interveno na realidade

    (FOUCAULT, 2008).

    No bojo dessa discusso, importante que o pesquisador nessa rea tenha a

    conscincia de que os saberes que ele produz so [...] levados em considerao, interpelados,

    negados, ignorados pelos polticos e pelos prticos, e o pesquisador em educao no pode

    negligenciar a importncia disso (CHARLOT, 2006, p. 9). Assim, est obrigado a no se

    desinteressar das questes relacionadas aos efeitos da pesquisa sobre a prtica, e tambm no

    sentido contrrio do interesse entre estas feies da pesquisa.

    Nesse sentido, o que est em evidncia a avaliao de polticas, pois abordam direta

    ou indiretamente elementos como a relevncia de uma cultura para a democracia, a relao

    entre a qualidade ofertada e as condies/financiamento, a valorizao da ampliao do

    acesso s instituies escolares, o significado de uma gesto qualificada e os resultados do

    desempenho estudantil configurando uma abordagem com foco na materializao ou

    efetividade das polticas pblicas de educao bsica.

    Em razo da relao prtica-teoria-prtica das polticas educacionais, crucial pensar

    na definio do que se entende por efetividade em face do objeto indicadores de qualidade.

    Nesse sentido, delimita-se, com base em Souza (2016), como sendo vinculada [...] a ideia de

    correspondncia da poltica demanda social, a qual originalmente gerou a ao do Estado,

    ou seja, efetiva a poltica que consegue responder os reclames sociais por mais ou melhor

    educao (SOUZA, 2016, p. 81).

    Abordar os aspectos epistmicos do objeto de estudo indicadores de qualidade implica,

    necessariamente, tocar na questo da utilizao dos mtodos quantitativos. Isso porque nas

    pesquisas que tratam desse assunto esses mtodos despontam como fundamentais para a

    concretizao das propostas apresentadas.

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    Nesse tocante, importante explicitar que as crticas utilizao das estatsticas na

    rea educacional so intensas e guardam relao com os combates vividos no processo de

    contestao dos mtodos de inspirao positivista por parte das teorias formuladas na

    construo de mtodos especficos para atender as necessidades das cincias sociais. A

    discusso sobre os limites e possibilidades desses indicadores exige questionar a realidade

    educacional por meio da articulao de mtodos para dar conta do problema, buscando

    descolar da dicotomia entre mtodos das cincias naturais e das cincias sociais.

    Provavelmente os crticos tm se sustentado na percepo de que h um otimismo

    epistemolgico com inspirao baconiana que influencia a produo atual, em que

    pesquisadores, com nfase em estudos estatsticos, supem alcanar a verdade at mesmo

    usando como refgio a ideia de margem de erro (estratgia ad hoc), o que pode, em certa

    medida, assemelhar-se aos debates acerca da crena na verdade evidente to criticada por

    Popper, ou a fuga da refutabilidade.

    Pondera-se que, no caso do ndice de Desenvolvimento da Educao Bsica (IDEB), o

    propsito de medir qualidade educacional no pode se ancorar apenas nas variveis nota

    padronizada dos estudantes e fluxo escolar (aprovao e reprovao). Alicerar-se somente

    nesses dois indicadores demonstra relativa fragilidade em razo da ausncia de elementos

    contextuais que reportam dimenso concreta. preciso considerar indicadores que

    contemplem a dimenso espacial como componente do social com potencialidade para retratar

    as condies necessrias para a qualidade.

    A esse respeito, Kunz (2013) aponta que a expresso espacial contribui para o

    aprimoramento da construo de indicadores de qualidade educacional. Nesse sentido, os

    professores e pesquisadores das cincias humanas em geral, e da cincia geogrfica em

    particular, bem sabem da importncia de se considerar a dialtica entre espao-sociedade-

    sujeitos para apreenso de uma dada realidade e dos riscos envolvidos quando se negligencia

    a dimenso socioespacial dos fatos. Como, por exemplo, quando se desconsidera os lugares

    sociais de professores e alunos de uma escola, a situao geogrfica dessa escola e o lugar que

    seus sujeitos habitam, o que implica e diz sobre as condies concretas, objetivas e subjetivas,

    em que se do a formao, o ensino e a aprendizagem na realidade existente e, por

    conseguinte, constitui parte significativa da explicao dos resultados e da qualidade da

    educao.

    certo que a busca de explicao da realidade educacional com alto grau de certeza e

    domnio tem sua origem em postulaes de Bacon apresentadas ainda no sculo XVII. Por

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    outro ngulo, notrio o fato de que nos trabalhos publicados no mbito da Associao

    Nacional de Ps-Graduao e Pesquisa em Educao (Anped) a maioria dos trabalhos em

    poltica educacional no contemplam estudos que fazem uso de mtodo quantitativo

    (SOUZA, 2016; DIGENES, 2014). Professores autores e pesquisadores podem sim ter um

    papel mais ativo e produtivo neste cenrio de formulao, fomento e aplicao de polticas

    educacionais, como ressaltam, no caso da Geografia, Cavalcanti (2010) e Straforini (2002).

    Essa realidade conflita com a orientao de estudos e pesquisas realizados no mbito do

    Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Ansio Teixeira: majoritariamente

    mtodos quantitativos.

    Cabe questionar porque na Associao Nacional de Ps-Graduao e Pesquisa em

    Educao - Anped, vista como espao que canaliza estudos dos mestrados e doutorados em

    Educao de todo o pas, minoria a adoo dessa escolha epistemolgica. A reflexo

    exposta neste artigo, no sentido de as cincias sociais contestarem os mtodos das cincias

    naturais, oferece pistas do porqu de to robusta rejeio. Ento, possvel existir um

    preconceito a esse tipo de mtodo? O que se tem em evidncia o fato de que os cursos de

    metodologia na rea de educao oferecidos pelas universidades brasileiras, geralmente, no

    contemplam os mtodos quantitativos em suas ementas (FERREIRA; PASSOS, 2015).

    Chama a ateno o fato de que tem crescido a crtica contra a tentativa de uma

    preciso implacvel. A novidade que as cincias naturais tambm tm ampliado a

    quantidade de tericos com uma perspectiva que no comporta a preciso. Essa situao tem

    alargado as possibilidades de rejeio aos mtodos quantitativos. Por outro lado, ressalta-se

    que os autores das cincias naturais tambm so crticos das cincias sociais em funo dos

    mtodos qualitativos adotados, pois alegam dificuldade de apresentar as escolhas

    metodolgicas, que so entendidas como fundamentais para a produo de uma boa cincia

    (aquela que permita a outros pesquisadores utilizarem os mesmos procedimentos

    metodolgicos com o objetivo de aferir a validade da pesquisa).

    Pontua-se que um nico mtodo insuficiente para dar conta da complexidade do

    fenmeno educativo e, portanto, questionvel o repdio verificado nos espaos acadmicos

    em relao aos mtodos quantitativos. Por fim, coloca-se em relevo a seguinte questo a fim

    de contribuir para o debate sobre os indicadores: como discutir acesso, demanda, condies

    fsicas de atendimento ou qualidade educacional sem utilizar mtodos quantitativos?

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    5 CONSIDERAES FINAIS

    Diante do delineamento epistemolgico apresentado percebe-se que a cincia moderna

    sustentada nas cincias naturais no tida como o nico referencial e crescente a

    compreenso de uma cincia que busque dar conta das idiossincrasias das distintas posturas

    epistemolgicas em face das diversas realidades polticas, culturais e espaciais. A partir do

    que foi exposto, a verdade definida pela comunidade cientfica (POPPER, 2008) e, nesse

    sentido, a dialtica figura como um divisor de guas porque supera uma produo ancorada

    na lgica interna da cincia e abarca elementos externos em busca da totalidade.

    A conduo de uma pesquisa exige que o pesquisador se baseie em contribuies

    tericas e, por isso, preciso que tenha conscincia do debate epistemolgico para que possa

    proceder suas escolhas terico-metodolgicas. relevante, nessa discusso, registrar a

    posio de Frigotto (2010, p. 84) no sentido de que a postura antecede o mtodo. Em

    sintonia com esse entendimento, a concepo de mundo orienta a produo cientfica e possui

    implicaes na opo epistemolgica.

    A concepo de cincia assumida pelo pesquisador repercute na demarcao de seu

    objeto. Diante disso, faz-se relevante na atividade de produo do conhecimento ter clareza

    das questes epistemolgicas que aliceram as escolhas, at mesmo porque um trabalho

    cientfico no se resume ao domnio das tcnicas e o objeto de pesquisa precisa ser situado

    frente discusso epistemolgica; situao esta que pode ser trazida como possibilidade real

    de afirmao na seara dos estudos educacionais e, neste caso, no apenas das humanidades ou

    reas centrais e correlatas da Geografia, mas de todos os campos do saber.

    Esse aprofundamento no cerne das questes de natureza epistmica d a possibilidade

    de desenvolver uma fortuna crtica sobre os indicadores de qualidade educacional que esto

    imersos nas disputas no mago das concepes que envolvem a polissemia do conceito de

    qualidade. Atacar esse objeto exige do pesquisador assumir uma viso alargada dos processos

    educacionais de modo a contemplar a dimenso espacial considerada nevrlgica para se

    pensar a qualidade e, por conseguinte, para o aprimoramento dos indicadores que pretendem

    express-la.

    Os indicadores so dotados de substantiva dimenso prtica calcada na teoria com

    capacidade elevada de rebatimento na realidade educacional. Sem dvida, figuram como

    primordiais para pensar a poltica educacional, por mais que se reconhea seus limites e

    potencialidades que podem ser ampliados ao incorporar a dimenso espacial em sua

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    construo. Valorizar a dimenso espacial implica atentar para as escalas de ocorrncias do

    fenmeno educativo. O macro e o micro devem ser articulados (THUILLIER, 1994;

    CHARLOT, 2006) e isso se coloca como um desafio para as pesquisas em poltica

    educacional e, neste ponto, a riqueza da mobilidade escalar do pensamento geogrfico diante

    dos fatos e fenmenos pautados teoricamente e transpostos nos indicadores pode ser uma rica

    via de acesso ao aperfeioamento destas tcnicas e estudos.

    Compreende-se que os indicadores educacionais produzidos so frutos de mtodos

    decorrentes da percepo do pesquisador imerso em valores, concepes epistmicas,

    metdicas e axiolgicas (valores fundantes de uma determinada sociedade) tanto na

    produo desses indicadores como na apropriao pelo Estado na gestao de polticas

    pblicas atinentes ao campo educacional.

    Portanto, o dilogo com os autores deixou visvel que a articulao entre as grandes

    discusses epistemolgicas nas cincias naturais e nas sociais e a pesquisa educacional

    repercute na natureza epistmica das pesquisas sobre os indicadores de qualidade da

    educao.

    EPISTEMOLOGY AND RESEARCH IN EDUCATIONAL POLITIC:

    VECTORS GUIDING RESEARCHERS OF EDUCATIONAL FIELD

    ABSTRACT

    This article aims to delineate the epistemological framework of research in educational policy

    from discussions about the impacts of epistemic nature of questions in the core of natural and

    social sciences. In this investigation, supported by bibliographical analysis, it emerged that

    the relationship between the extensive epistemological discussions in the natural sciences and

    social and educational research has generated impacts of epistemic nature on the object

    educational quality indicators.

    Keywords: Epistemology. Research. Educational Politic.

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    EPISTEMOLOGA E INVESTIGACIN EN LA POLTICA

    EDUCATIVA: VECTORES DE ORIENTACIN PARA LOS

    INVESTIGADORES DE CAMPO EDUCATIVO

    RESUMEN

    En este artculo se pretende esbozar el marco epistemolgico de las investigaciones en la

    poltica educativa de los debates acerca de la naturaleza de las cuestiones epistmicas en la

    estela de las ciencias naturales y sociales. En esta recopilacin, con el apoyo de revisin de la

    bibliografa, se ha encontrado que la relacin entre los amplios debates epistemolgicos en las

    ciencias naturales y la investigacin social y educativa gener los impactos epistmicos de

    objeto indicadores en la calidad de la educacin.

    Palabras clave: Epistemologa. Investigacin. Poltica Educativa.

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