ARTIGO EPISTEMOLOGIA E A PESQUISA EM POLÍTICA ?· Este artigo tem como objetivo delinear o enquadramento…

Download ARTIGO EPISTEMOLOGIA E A PESQUISA EM POLÍTICA ?· Este artigo tem como objetivo delinear o enquadramento…

Post on 01-Dec-2018

212 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

<ul><li><p>Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. </p><p>ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ </p><p>17 </p><p>ARTIGO </p><p>EPISTEMOLOGIA E A PESQUISA EM POLTICA EDUCACIONAL: </p><p>VETORES QUE ORIENTAM OS PESQUISADORES DO CAMPO </p><p>EDUCACIONAL </p><p>Sidelmar Alves da Silva Kunz </p><p>Gilvan Charles Cerqueira de Arajo**</p><p>Remi Castioni***</p><p>RESUMO </p><p>Este artigo tem como objetivo delinear o enquadramento epistemolgico da pesquisa em </p><p>poltica educacional a partir de debates sobre as questes de natureza epistmica no bojo das </p><p>cincias naturais e sociais. Neste levantamento, sustentado em anlise bibliogrfica, verificou-</p><p>se que a articulao entre as extensas discusses epistemolgicas nas cincias naturais e nas </p><p>sociais e a pesquisa educacional gerou impactos de natureza epistmica no objeto indicadores </p><p>de qualidade da educao. </p><p>Palavras-chave: Epistemologia; Pesquisa. Poltica Educacional. </p><p>1 INTRODUO </p><p>A pesquisa em poltica educacional possui uma demanda intrnseca e inevitvel em </p><p>prol de um aprofundamento maior de seus conceitos, categorias, escopo terico e abrangncia </p><p>metodolgica. Este substrato epistmico se faz necessrio para que a luta por uma nova </p><p>poltica educacional se torne realidade, com base tanto nas delineaes da complexidade </p><p>existente em nossa sociedade aspecto presente com fora cada vez maior, medida que os </p><p> Doutorando em Educao pela Universidade de Braslia - UnB. Pesquisador do Instituto Nacional de </p><p>Estudos e Pesquisas Educacionais Ansio Teixeira INEP. Endereo para correspondncia: Avenida </p><p>Circular, 665, Q-37, L-11, Jardim Oliveira, CEP 73.805-207, Formosa-GO, Brasil. E-mail: </p><p>sidel.gea@gmail.com </p><p>** Doutor em Geografia pela Universidade Estadual Paulista UNESP. Professor da Secretaria de </p><p>Estado da Educao do Distrito Federal - SEDF. Endereo para correspondncia: Avenida Parano, </p><p>Conjunto C, Lote 3, Apto 302, Centro, CEP 71.572-703, Parano-DF, Brasil. E-mail: </p><p>gcca99@gmail.com </p><p>*** Doutor em Educao pela Universidade Estadual de Campinas UNICAMP. Professor da </p><p>Faculdade de Educao da UnB. Endereo para correspondncia: Universidade de Braslia, Campus </p><p>Universitrio Darcy Ribeiro, Faculdade de Educao, CEP 70.904-970, Braslia-DF, Brasil. E-mail: </p><p>kotipora@gmail.com </p></li><li><p>Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. </p><p>ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ </p><p>18 </p><p>mtodos e teorias se desenvolvem, dialogam e reificam , como tambm no curso de uma </p><p>autovalorizao do que proposto, colocado em prtica e esperado como resultado, quando o </p><p>assunto em questo se volta para as polticas educacionais. </p><p>Este estudo ancora-se no entendimento de Tello (2013) a respeito do que produo </p><p>de conhecimento especializado em poltica educacional. Trata-se daquele que produzido </p><p>atendendo a caractersticas como [...] el recorte de un objeto de estudio, una metodologia </p><p>especfica, algn tipo de bsqueda de informacin y un entrecruzamiento de ideas </p><p>conceptuales con las informacin y observaciones realizadas por el investigador (TELLO, </p><p>2013, p. 764). E que nas investigaes seja possvel identificar componentes da poltica </p><p>educacional, assim como expressar uma epistemologia na busca da compreenso do </p><p>fenmeno educativo. </p><p>Nesse sentido, assinala-se que este estudo tem sua relevncia marcada pela capacidade </p><p>de contribuir com o debate acerca do fazer cincia neste campo de investigao, pois agrega </p><p>valor ao refletir sobre a natureza, os objetos de estudo, as abordagens e os avanos alcanados </p><p>pela seara das pesquisas em polticas educacionais. Inegavelmente, fundamental aos </p><p>pesquisadores da rea de educao se apropriarem de reflexes e conhecimentos </p><p>epistemolgicos que lhes permitam conquistar maior conscincia e clareza das possibilidades </p><p>e limitaes dos saberes produzidos. Ento, tem-se como questo saber qual a natureza </p><p>epistmica das pesquisas em poltica educacional. </p><p>Em face dessa postulao, recorre-se a uma anlise bibliogrfica de autores clssicos e </p><p>contemporneos que acumularam contribuies em distintas pocas, com escopo na discusso </p><p>em torno de como a cincia seguiu em seus avanos, inflexes e retrocessos. </p><p>Por mais que a discusso deste artigo tenha cunho mais terico-filosfico, a sua </p><p>relevncia imprescindvel para pensar os matizes epistmicos do campo educacional como </p><p>mapeamento dos horizontes que servem de norteadores das polticas pblicas educacionais </p><p>gestadas pelo Estado em face das histricas demandas desse setor na sociedade brasileira. </p><p>Essa discusso se faz fundamental tambm aos estudos voltados para a formao, o </p><p>ensino e a educao em Geografia, envolvendo as prticas e preocupaes de professores e </p><p>pesquisadores no contexto das polticas pblicas de orientao neoliberal e as reformas </p><p>educacionais em curso nas ltimas dcadas, com seus reflexos nos currculos oficiais, nas </p><p>prticas em sala de aula, no trabalho docente, na avaliao dos resultados e da qualidade da </p><p>educao oferecida pelas escolas. </p></li><li><p>Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. </p><p>ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ </p><p>19 </p><p>Nessa discusso, o debate epistemolgico no pode ser negligenciado ou </p><p>secundarizado, pois a questo epistmica est na base das concepes de conhecimento, de </p><p>cincia e de pesquisa cientfica, com suas dimenses poltico-ideolgicas e as relaes de </p><p>poder no uso que se faz do saber cientfico. Isso, no campo da Educao, afeta anlises, </p><p>propostas e posicionamentos sobre: qualidade do ensino, avaliao, currculo, funo social </p><p>da escola, objetivos da educao escolar, pblico e privado, mercado e cidadania, qualidade e </p><p>quantidade, macro e micro, incluso e excluso, entre outros. E no se pode pensar, fazer, </p><p>discutir e conhecer a Geografia e seu ensino na formao dos sujeitos no mbito da educao </p><p>escolar fora desse contexto com suas polticas educacionais e suas determinaes tambm no </p><p>campo epistemolgico. </p><p>Dessa forma, o presente trabalho pode contribuir tambm para que professores e </p><p>pesquisadores na rea de formao e ensino de geografia possam refletir e situar suas prticas, </p><p>teorias e mtodos no plano epistmico e nas suas relaes com as polticas pblicas, ou seja, </p><p>do Estado, para a Educao, o que inevitavelmente implica relaes de poder e foras sociais </p><p>em jogo que envolvem tambm a pesquisa, a educao e o ensino em Geografia. </p><p>Feitas estas consideraes iniciais, apresenta-se a organizao deste levantamento, </p><p>estruturado em trs momentos distintos e complementares entre si: 1) apresentao dos </p><p>debates epistemolgicos no mago das cincias naturais, (2) exposio dos embates entre as </p><p>cincias naturais e sociais e 3) reflexes sobre as questes epistmicas e os seus rebatimentos </p><p>na pesquisa em poltica educacional, com recorte no objeto indicadores de qualidade. </p><p>2 QUESTES DE NATUREZA EPISTMICA NAS CINCIAS NATURAIS </p><p>Nesta seo demonstra-se que embora se tenha no campo das cincias naturais, para </p><p>alguns, a ideia de que h uma estabilidade e processo natural de evoluo expresso pela </p><p>crena no refinamento metodolgico em direo constituio de um conhecimento seguro, </p><p>na verdade, no fundo, nas cincias naturais isso no se sustenta, sendo marcadas por grandes </p><p>embates no aplacados nem mesmo pelo esforo em produzir conhecimento dotado de </p><p>previses ou pela busca do consenso. </p><p>Sendo assim, neste momento, com foco na discusso acerca de como a cincia avana, </p><p>sero expostos os embates histricos no mago das cincias naturais na tentativa de expressar </p><p>a pliade de posicionamentos resultantes desses conflitos. </p></li><li><p>Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. </p><p>ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ </p><p>20 </p><p>Considera-se que foi de grande significado a perspectiva baconiana em busca de </p><p>romper com a metafsica. Inclusive, por mais que Popper (1980), no sculo XX, tenha </p><p>questionado suas postulaes, tambm contribuiu com esse projeto epistemolgico, </p><p>apresentando sua proposta de demarcao da cincia um ataque direto metafsica. Feita </p><p>essa breve reflexo, colocado baila, como orientao do raciocnio que ser traado, o </p><p>posicionamento da cincia em busca de prestgio por se denominar o locus privilegiado da </p><p>produo de um suposto conhecimento verdadeiro. </p><p>Ressalta-se que, conforme Eva (2008), para Bacon o conhecimento era concebido num </p><p>recorte pautado na lgica indutiva, cuja captao da realidade se dava por intermdio dos </p><p>sentidos. Postula-se a existncia de um conhecimento verdadeiro que pode ser alcanado ao se </p><p>percorrer o caminho da observao, coleta, organizao dos dados empricos, explicaes </p><p>gerais e comprovao de hipteses. A perspectiva baconiana marcada pelo otimismo </p><p>metodolgico, ou seja, a crena na [...] obteno de um mtodo de interpretao da natureza, </p><p>capaz de conhecer verdadeiramente as formas das coisas (EVA, 2008, p. 48). </p><p>Os escritos de Bacon combatiam o pensamento de seus antecessores que, em seu </p><p>entendimento, faziam uma exaltao s foras do esprito humano, porm no promoviam </p><p>auxlios concretos para que o homem dedicasse mais ateno para as sutilezas da natureza a </p><p>fim de evitar as coisas insanas (male-sana) (EVA, 2008). </p><p>A base empirista de Bacon (tambm chamada de insular ou britnica) ia de encontro a </p><p>outra frente filosfica da Modernidade, a idealista (ou continental, liderada por Ren </p><p>Descartes). Esta dualidade iria perdurar por sculos a fio, chegando com fora nestes </p><p>extremos, a depender da inclinao interpretativa das cincias. O empirismo subleva o </p><p>idealismo justamente por garantir a verificao, algo mais tangencial no ideal-racionalismo </p><p>francs, seu oposto e por que no complemento imediato, no ignorando as etapas de </p><p>verificao experimental, mas com maior ateno para o patamar racionalista. </p><p> colocado em relevo, por Oliva (1990), que Bacon dedicou especial ateno </p><p>identificao dos dolos (idola tribus, idola specus, idola fori e idola theatri) entendidos como </p><p>fontes de iluso cognitiva que impedem a fidelidade na atividade de observao. O combate </p><p>aos dolos se constitui como uma forma de avanar na construo do conhecimento por meio </p><p>da ampliao da pureza do olhar. Assim, em seu mtodo preciso acumular os fatos, depois </p><p>classific-los e, por fim, determinar suas causas, alm de liquidar quaisquer antinomias em </p><p>busca de termos gerais de racionalizao a partir do empirismo. </p></li><li><p>Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. </p><p>ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ </p><p>21 </p><p>Descartes (1996) e Bacon (2000) tinham em comum a obsesso pela preciso e crena </p><p>na verdade evidente. Faz-se relevante pontuar que enquanto para Bacon a gnese da verdade </p><p>era na natureza (veracitas naturae), para Descartes era no plano divino e inato ao homem </p><p>(veracitas Dei). Assim, s verdade o que intudo com clareza e preciso. </p><p>Por sua vez, para Popper (2008), um crtico da crena na verdade absoluta, entendia </p><p>que a verdade evidente no se sustentava. Popper (2008, p. 36) afirma que [...] a </p><p>epistemologia otimista de Bacon e Descartes no pode ser verdadeira. O mais estranho que </p><p>essa falsa epistemologia constituiu a maior inspirao de uma revoluo intelectual e moral </p><p>sem paralelo na histria. </p><p>A verdade para Popper (2008) provisria e obtida pela objetividade. Ele defendeu </p><p>que a perspectiva empirista com nfase nos sentidos, na observao e no indutivismo uma </p><p>priso cientfica por no comportar postura prvia do pesquisador e rejeitar tudo que no </p><p>possua evidncia (POPPER, 1980). Popper criticou Bacon em funo da dependncia da </p><p>lgica formal sem margem para contradies e refutaes e do fato de que o indutivismo </p><p>precise de validao da base emprica com indispensvel infinidade de casos observados. </p><p>O racionalista crtico, ao seu turno, defende o mtodo hipottico-dedutivo para a </p><p>demarcao da cincia, apresentando-a como o mtodo (POPPER, 1979; 1980). Este mtodo </p><p>est assentado nos procedimentos e prerrogativas dos passos inevitveis garantia do rigor e </p><p>desenvolvimento cientfico assimilado, principalmente, por cincias como a biologia, a fsica, </p><p>a astronomia, dentre outras. </p><p>As hipteses dizem respeito ao conhecimento ainda no estvel e precisam ser </p><p>testadas. Trata-se do ponto de partida, no sendo necessrio discutir a sua origem. Dessa </p><p>forma, os enunciados singulares so tidos como fundamentais para se alcanar a verdade </p><p>(provisria), pois a falsidade de uma teoria deduzida de seus enunciados singulares. Nessa </p><p>perspectiva, para o racionalismo crtico, a abertura de uma teoria para o teste e a sua </p><p>resistncia s refutaes (objetividade lgica racional sustentada na experimentao) </p><p>demonstram a sua qualidade. </p><p>Com base nessas posies, Popper (1993) enfrentou um debate se posicionando </p><p>contrrio ao positivismo lgico associado ao Crculo de Viena. Esse movimento tambm </p><p>ficou conhecido como neopositivismo/empirismo lgico/fisicalismo, que teve como </p><p>expoentes Otto Neurath, Moritz Schlick, Ernest Nagel e Hans Reichenbach, dentre outros. </p><p>sensato realar que esses cones contriburam para a consolidao de um grupo heterogneo e </p><p>marcado por discordncias em distintos aspectos. </p></li><li><p>Revista de Ensino de Geografia, Uberlndia-MG, v. 8, n. 15, p. 17-47, jul./dez. 2017. </p><p>ISSN 2179-4510 - http://www.revistaensinogeografia.ig.ufu.br/ </p><p>22 </p><p>Na concepo cientfica desse grupo advoga-se em nome da lgica simblica na </p><p>anlise da linguagem cientfica, da rejeio da possibilidade de conhecimento sinttico a </p><p>priori e da verificao do significado, postulando que as asseres relacionadas metafsica </p><p>so entendidas como desprovidas de qualquer significado cognitivo. Em sntese, pregavam o </p><p>verificacionismo, reduzindo o papel da filosofia ao de tornar clara a linguagem cientfica, a da </p><p>fsica sentenas protocolares e analticas , que figura como o eixo norteador para as </p><p>cincias (JAPIASS; MARCONDES, 2001; POPPER, 1993; 2008; SCHLICK, 1975). </p><p>Esse verificacionismo foi enfrentado por Popper (1993; 2008) que tinha como base a </p><p>refutao das hipteses apresentadas lembrando-se que as bases empricas so os conjuntos </p><p>de enunciados singulares. Em sua compreenso, um enunciado singular pode negar o </p><p>enunciado universal. Esse o grande salto do pensamento popperiano: ao invs de olhar pelo </p><p>lado positivo, olhar pelo lado negativo. </p><p>Em outra perspectiva, no contexto da valorizao dos fatores externos para se pensar </p><p>outras referncias para as cincias, Kuhn (2013) prope a ideia de paradigma associada s </p><p>revolues cientficas e destina um lugar para a histria na anlise de como o conhecimento </p><p>cientfico avana. O externalismo kuhniano ergue-se no debate histrico e seus reflexos no </p><p>desenvolvimento cientfico, nas comunidades cientficas, nos consensos e dissensos entre os </p><p>pares, na no neutralidade do pesquisador e na gestalt, isto , a forma como o observador v a </p><p>cincia. Destarte, rechaa o internalismo da cincia em que apenas os aspectos internos </p><p>cincia interferem no seu desenvolvimento. </p><p>De acordo com Kuhn (2013), o cientista visto como parcial e subjetivo. Na sua viso </p><p>a verdade relativa e provisria, em vista de que substituda total ou parcialmente medida </p><p>que ocorrem as revol...</p></li></ul>