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  • Da homogeneidade biolgica heterogeneidade cultural: o papel da

    construo de significados nodesenvolvimento humano*

    Howard A. Smith**

    A psicologia infantil, como a prpria criana, uma invenocultural (William Kessen, 1983)

    O objetivo deste artigo , em primeiro lugar, defender duas impor-tantes teses sobre o desenvolvimento humano e, em segundo lugar, apre-sentar as implicaes pertinentes para a prtica educacional. A tese inicial de que os seres humanos de todas as culturas possuem o mesmo poten-cial biolgico para desenvolver suas habilidades de sobrevivncia em am-bientes fsicos e culturais diversos. Isto no significa negar o fato de queindivduos dentro de uma mesma cultura demonstram ampla variao emtermos de aptides especficas nem que coletividades de diferentes cul-turas possam ocasionalmente diferir em melhores predisposies biolgi-cas devido a acomodaes a habitats particulares, no decorrer de vriasgeraes. Entretanto, dados coletados nas duas ltimas dcadas tm reve-lado alguns traos biolgicos importantes que do apoio ao argumento de

    * Este artigo se baseia em um trabalho apresentado no encontro da American Educa-tional Research Association, em Nova York, EUA, em abril de 1996.

    ** Ph.D, Faculty of Education, Queens University, Canad. Trad.: Ph.D Jos ErasmoGruginski, Departamento de Letras Estrangeiras Modernas, SCHLA, UFPR.

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  • que os princpios fundamentais do desenvolvimento humano so univer-salmente os mesmos (cf., Edelman, 1987).

    A segunda tese deste trabalho a de que o desenvolvimento humanonos campos emocional, volitivo e cognitivo depende de significados cons-trudos dentro de contextos culturais heterogneos. Defenderei a idia deque o desenvolvimento humano impulsionado menos pelos traosbiolgicos ligados idade do que pelas experincias culturais hete-rogneas que o prprio aprendiz tornou significativas. Com o suporte depesquisas de uma variedade de fontes, esboarei trs proposies resultan-tes: (a) o desenvolvimento humano depende primordialmente do cres-cimento constante de significados que so mediados por signos (Vygotzky,1978), (b) a construo de significados atravs de signos embasada con-textualmente, derivada socioculturalmente e motivada por necessidades decompetncia (Cole, 1990; Smith, 1992), e (c) no decorrer de toda a vida deum indivduo, os significados so negociados atravs de atividades comoutros membros da cultura (Lave and Wenger, 1991). Na seo final dotrabalho so apresentadas vrias implicaes para a educao multicultu-ral.

    A homogeneidade do potencial biolgico para odesenvolvimento

    Avanos recentes no conhecimento de substratos neurnicos, fsicose bioqumicos da aprendizagem e desenvolvimento humanos tm surgidoprincipalmente do trabalho de Gerald Edelman. Cientista agraciado com oPrmio Nobel pelo seu estudo do sistema imunolgico, Edelman recente-mente voltou sua ateno para as mudanas no sistema nervoso humano.Em uma srie de importantes publicaes (e.g., Edelman, 1987, 1992) queforam convincentemente resumidas por outros (e.g., Sacks, 1993; Syl-wester, 1995), foi lanado o alicerce para uma nova compreenso de comoos seres humanos se desenvolvem.

    Edelman (1987), por exemplo, esboou uma teoria biolgica da per-cepo individual que tratava do desenvolvimento multifacetado dos gru-pos neurnicos. Em toda sua argumentao, Edelman enfatizou a naturezaaltamente varivel do sistema nervoso, o qual - ao invs de ser configu-rado a priori - configurado de acordo com as experincias do ambiente.

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  • No que se refere ao indivduo, Edelman defendeu ainda que o crebro organizado dinamicamente em populaes de clulas que contm redes in-dividualmente variantes, cuja estrutura e funo so selecionadas pormeios diferentes durante o desenvolvimento e o comportamento (pginas4-5). Mais tarde defendeu a existncia de mecanismos epigenticos: em-bora restritos por imposies genticas, os eventos que ocorrem nosestgios tanto desenvolvimentais como experienciais da seleo levam,com o tempo, a aumentos tanto na heterogeneidade como na diversidadeespacial das clulas e das estruturas celulares (p. 73). Estas afirmaesdo suporte direo das crenas de John Locke, no sculo XVII, que en-fatizava o papel da experincia sensorial no desenvolvimento e declaravaque o padro de desenvolvimento individual variava em funo de dife-rentes experincias e predisposies inatas. Alm de Edelman, muitos es-tudiosos atualmente tm posies semelhantes (cf. Barton, 1994;Bronfenbrenner and Ceci, 1994; Rosenfield, 1988; Schneider and Weinert,1989).

    A posio de Edelman com relao compreenso atual do desen-volvimento biolgico nos seres humanos foi assim resumida por Sylwester(1995):

    O padro gentico bsico de desenvolvimento para o nosso crebro , por-tanto, bastante simples e claro: (1) criar um excesso inicial de clulas econexes entre reas relacionadas na verdade, ligar temporariamentetudo a tudo; (2) utilizar a emoo, a experincia e a aprendizagem para for-talecer as conexes teis, e ento eliminar as conexes no usadas e inefi-cientes, e (3) manter uma flexibilidade sinptica (comumente chamada deplasticidade) suficiente para permitir que as conexes da rede neural semodifiquem no decorrer da existncia, na medida em que mudam as con-dies e surgem novos desafios que envolvem a soluo de problemas.(p.126)

    Uma caracterstica adicional de nossa herana biolgica afeta anatureza do desenvolvimento humano. Como foi criado por seleo natu-ral, o crebro humano no projetado perfeitamente para atender avariadas demandas do ambiente (e.g. Dawkins, 1982), nem um rgopara fins gerais, independente de domnio. Ao contrrio, o crebro com-posto de diferentes reas, ou mdulos, e inteligncias (este ltimo termoser o utilizado de ora em diante) que controlam vrias funes cognitivase que so diferencialmente capazes de se beneficiar de experinciasvariadas. Quais so, portanto, as divises estruturais e funcionais do cre-bro que podem ser desenvolvidas? Uma classificao bem conhecida

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  • refere-se a sete inteligncias distintas, descritas por Howard Gardner em1983: as inteligncias lingstica, musical, lgico-matemtica, espacial,corporal-cinesttica, interpessoal e intrapessoal. Recentemente, Gardner(1995, 1999) acrescentou uma oitava inteligncia: a naturalista. Emboracada inteligncia possa ser associada a uma ou mais reas especficas docrebro que so primordialmente responsveis para mediar o conhe-cimento relevante, cada inteligncia tambm conectada de forma intri-cada com outras inteligncias no ser humano normalmente integrado.

    Portanto, seguindo Gardner, o desenvolvimento cognitivo pode ocor-rer em oito inteligncias distintas mas estreitamente ligadas. Alm disso, odesenvolvimento reflete a crescente capacidade de cada um em domniosespecficos de conhecimento, que so reas de especializao criadas pelosseres humanos, mais do que uma habilidade cognitiva generalizada. Umapessoa, por exemplo, poder desenvolver a inteligncia espacial tornando-se competente em xadrez. Entretanto, o fato de algum se tornar perito emxadrez no o torna um perito em reconhecimento de padres visuais(Hirschfeld and Gelman, 1994). Alm disso, no se deve presumir que ocontedo de cada inteligncia igualmente fcil de ser absorvido ou trans-mitido (Cosmides and Tooby, 1994). Por ltimo, as provas examinadas porGardner sugerem que as inteligncias se desenvolvem em ritmos diferen-tes e em idades diferentes, um ponto ao qual voltaremos abaixo.

    Resumindo o argumento at aqui, o trabalho de Edelman e de outrossugere que as pessoas so equipadas, ao nascimento, para praticarqualquer esporte ou falar qualquer lngua inventada pelos homens. Entre-tanto, o esporte que uma pessoa vai praticar ou a lngua que vai falar de-pende dos ambientes fsicos e culturais nos quais ela est imersa e da idadecom a qual ela participa dessa atividade. O desenvolvimento humano noocorre uniformemente ao longo da ampla faixa da capacidade humanamas, ao contrrio, se realiza em ritmos diferentes dentro de um nmero dediferentes capacidades ou inteligncias inatas.

    A heterogeneidade do desenvolvimento cultural

    Sobre o fundo comum da capacidade humana de desenvolver as pre-disposies biolgicas encontra-se o fator cultural, que afeta a natureza e adireo especfica do desenvolvimento cognitivo individual. So apresen-

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  • tadas a seguir trs proposies que caracterizam o impacto da cultura nodesenvolvimento.

    Proposio no 1: O desenvolvimento depende de significadosmediados por signos.

    Durante os ltimos cinqenta anos, a maioria dos psiclogos e edu-cadores ocidentais manteve o ponto de vista de que o desenvolvimento li-dera a aprendizagem. Nessa perspectiva, a quantidade e os tipos deaprendizagem possveis dependem de uma seqncia invarivel deestgios que tm uma correspondncia muito prxima com a idade cro-nolgica. As teorias de Piaget e Kohlberg so exemplos dessa forma deentender o desenvolvimento humano. Entretanto, especialmente nos lti-mos 20 anos, tem havido freqentes questionamentos dessas teorias de de-senvolvimento por estgios (cf. Brainerd, 1978; Donaldson, 1979; Granottand Gardner, 1994; Phillips and Kelly, 1975; Schweder, Mahapatra, andMiller, 1990).

    Um ponto de vista alternativo do desenvolvimento humano, baseadoem diferentes linhas de pesquisa, o de que a aprendizagem lidera o de-senvolvimento. Nessa perspectiva, o nvel de desenvolvimento de umindivduo depende primordialmente de suas experincias de vida com osfenmenos em questo. guisa de ilustrao, os estudos baseados noparadigma iniciante-perito confirmam que as cria