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A RESSOCIALIZAO DO MENOR E A TRAJETRIA DA FUNDAO CASAAmanda Aparecida Gonalves* Elisete Alves da Silva** Luana Regina Soares Buegare*** Rebecca Silva Lago**** Sandra Mara dos Reis Rentes***** Talita S. Perussi Berto******

RESUMOO trabalho tem por objetivo apresentar a anlise da ressocializao do menor infrator na sociedade, sob a tica doutrinria e jurdica. Na realizao do presente artigo foram utilizadas tcnicas de pesquisa bibliogrfica, legal e jurisprudencial, buscando fazer referncia do assunto em questo com o entendimento de operadores do Direito, tendo como foco o trabalho realizado pela Fundao Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente desempenhado na regio do Alto Tiet nas Unidades CASA Cereja I e II localizadas na cidade de Ferraz de Vasconcelos. Este estudo tem como base de sua pesquisa a abordagem sobre a questo da ressocializao do menor infrator na sociedade atravs da aplicao das medidas socioeducativas ao mesmo. Diante disso, a controvrsia recai sobre uma diretriz fundamental do Direito brasileiro que o princpio da dignidade da pessoa humana, visto que atualmente no s a Constituio, como tambm o Estatuto da Criana e do Adolescente observa o menor infrator como um ser humano em

desenvolvimento, logo prev uma possibilidade de recuperao do inimputvel. Palavras-chave: ressocializao, menor infrator, Fundao Casa, ECA Estatuto da Criana e do Adolescente.____________________________________________________________________________________* Estudante Estudante de Direito Universidade de Mogi das Cruzes E-mail: amandaapgoncalves@hotmai.com **Estudante- Estudante de Direito Universidade de Mogi das Cruzes E-mail: elisetealvesdasilva@yahoo.com.br ***Aux. de Enfermagem Estudante de Direito Universidade de Mogi das Cruzes E-mail: luanabuegare@bol.com.br ****Estudante- Estudante de Direito Universidade de Mogi das Cruzes E-mail: rebeccalago2@hotmail.com ***** Estudante Estudante de Direito Universidade de Mogi das Cruzes Email: smarareis@bol.com.br *Estudante Estudante de Direito Universidade de Mogi das Cruzes E-mail: talita.perussi@gmail.com

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INTRODUOA maneira de enxergar o menor infrator vem sofrendo alteraes ao passar do tempo. Com a nova Constituio Federal e posteriormente com a criao do ECA pode-se notar as transformaes realizadas quanto as medidas socioeducativas. Em nosso pas, ao longo da histria as legislaes que nortearam at ento os ditames para a responsabilizao de crianas e adolescentes infratores, tratavam-se de leis que tinham carter punitivo. Em meio s leis impostas criana e ao adolescente, a Constituio Federal/1988 em seu artigo 227 possibilitou no s uma ampla proteo como tambm uma nova poltica de atendimento aos direitos dos mesmos. A medida socioeducativa, desta forma, traz pauta os direitos estabelecidos por este novo paradigma, possibilitando assim a realizao de aes e medidas que possam propiciar a ressocializao das crianas e adolescentes infratores, utilizando-se de meios como aes pedaggicas, de carter socioeducativo, mas que estas sejam realizadas em conjunto com aes beneficirias. Alguns doutrinadores utilizados neste trabalho foram Tshida (2011), Tavares (2002), Rodrigues (1995) e Dallari (2009), este que, por sua vez, entende que a vida em sociedade traz benefcios a sociedade, ao homem, porm por outra vertente, favorece a criao de limitaes que afetam diretamente a liberdade humana, mas apesar disso o ser humano continua vivendo em sociedade. Procuramos neste artigo fazer uma anlise destas medidas perante os seus aspectos diferenciados com base em fundamentos doutrinrios e na prpria legislao pertinente, bem como avaliar a execuo destas medidas voltadas primordialmente aos adolescentes infratores no estado de So Paulo, dando nfase para o trabalho desempenhado pela Fundao Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente, reconhecidamente chamada como Fundao Casa e seu trabalho realizado em Ferraz de Vasconcelos, regio do Alto Tiet.

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2. EVOLUO HISTRICA DOS DIREITOS E GARANTIAS FUNDAMENTAIS DO MENORCita Dallari (2009, p.9):

A vida em sociedade traz evidentes benefcios ao homem, mas por outro lado, favorece a criao de uma srie de limitaes que, em certos momentos e em determinados lugares, so de tal modo numerosas e freqentes que chegam a afetar seriamente a prpria liberdade humana. E, apesar disso o homem continua vivendo em sociedade.

Historicamente a partir do momento em que se formaram os grupos sociais e o seu crescimento tornou-se intenso, mais complexidade adquiriram. Diante dessa complexidade, importante analisar a posio de um dos elementos, considerado ainda mais complexo, ou seja, o menor e a questo do reconhecimento dos seus direitos e garantias nesse emaranhado que a relao social. Podemos observar que essa problemtica vem do passado, e que o menor passava por incontveis castigos e em algumas ocasies pagava com a prpria vida. A exemplo disso, a prpria Bblia em Deuternimo Cap. 21, versculos 18 a 21- que estabelecia castigo at morte ao filho rebelde e incorrigvel que no obedecia aos pais. O ocidente foi influenciado pelo Direito Romano, reforando a noo de que a organizao da famlia era mantida pelo poder do pai. O pater familia possua o direito da vida e morte sobre seus descendentes, principalmente sobre os menores que eram equiparados a res (coisa). No tocante especificamente a imputabilidade do menor o Direito Romano adiantou-se ao estabelecer uma legislao penal direcionada a eles distinguindo os seres humanos em pberes e impberes. Aos considerados impberes, o discernimento era reservado ao juiz; que tinha a obrigao de determinar penas bem mais leves.

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O Estado preocupava-se apenas com o menor a partir dos sete anos no momento em que cometia algum delito, quando ento deveria ser castigado, punido. E a obrigao de reparar o dano est entre as formas de sanes que foi extrada da Lei das XXII Tbuas, em que a pena de morte era proibida. No panorama mundial ao longo do desenvolvimento da Europa, durante a Idade Mdia Alta e Baixa, pouco se diferenciou o tratamento daquele dado s crianas pelos romanos. J no Brasil, at o incio do sculo XX, no se tem registro do desenvolvimento de polticas sociais desenvolvidas pelo Estado, pois as populaes economicamente carentes eram entregues aos cuidados da Igreja Catlica atravs de algumas instituies, entre elas as Santas Casas de Misericrdia, sendo que a primeira delas foi fundada em 1543, na Capitania de So Vicente (Vila de Santos). Observa-se que estas instituies atuavam tanto com os doentes quanto com os rfos e desprovidos. Em 1871, o governo brasileiro cria o primeiro caso de atendimento criana, atravs da promulgao da Lei do Ventre Livre, quando comeou a se evidenciar o problema do jovem abandonado. No ano de 1894 o jurista Candido Mota prope a criao de uma instituio especfica para crianas e adolescentes, que at ento, ficava em prises comuns. Assim inicia-se no Brasil o atendimento e internao de crianas e jovens com a responsabilidade entregue a Igreja Catlica, juntamente com o Sistema da Roda das Santas Casas, sistema este vindo da Europa no sculo XIX, que tinha o objetivo de amparar as crianas abandonadas e de recolher donativos. A RODA Sistema usado pelos Conventos da poca, para recolher donativos, transformara-se em 1896 na CASA DOS EXPOSTOS, uma alternativa para receber as crianas vtimas da pobreza, do abandono e tambm as doentes, a qual era administrada pela Santa Casa de Misericrdia, deixando uma marca de caridade e assistencialismo.

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A Roda constitua-se de um cilindro oco de madeira que girava em torno do prprio eixo privilegiando com sua estrutura fsica alocada a um tipo de janela, o anonimato das mes; que no podiam, pelos padres da poca, assumir publicamente a condio de mes solteiras. Ento estas mes colocavam os seus bebs nessa janela que girava impedindo que fossem identificadas. (promenino.org.br, 2011) Em 1923, foi criado o Juizado de Menores, tendo Mello Mattos como o primeiro Juiz de Menores da Amrica Latina. No ano de 1927, foi promulgado o primeiro cdigo a consolidar as leis que tratavam da proteo e assistncia aos menores o Cdigo de Menores; tambm conhecido como Cdigo Mello Mattos Decreto n 17.973-A, de 12/10/1927, atualizado em 1979. Estabelecia inclusive a imputabilidade penal para os menores de 18 anos, levando internao aquelas crianas e jovens que cometiam delitos e tambm os desprovidos, que podiam ser internados por solicitao da me ou por escolha prpria. Institua a grande legislao, assim, a primeira estrutura de proteo aos menores, com a definio ideal para os Juizados e Conselhos de Assistncia, trazendo clara a primeira orientao para que a questo fosse tratada sob enfoque multidisciplinar. O Cdigo no era endereado a todas as crianas, mas apenas quelas tidas como estando em situao irregular. E definia em seu Artigo 1 caput, a quem se aplicava como vemos a seguir in verbis:

O menor, de um ou outro sexo, abandonado ou delinquente, que tiver menos de 18 annos de idade, ser submettido pela autoridade competente s medidas de assistencia e proteco contidas neste Cdigo. Cdigo de Menores Decreto N. 17.943 A 12 de outubro de 1927.

O Cdigo Mello Mattos proibiu a roda dos expostos. Visava estabelecer diretrizes claras para o trato da infncia e juventude excludas, regulamentando questes como trabalho infantil, tutela e ptrio poder, delinqncia e liberdade vigiada. Alm de revestir a figura do juiz de grande

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poder, sendo que o destino de muitas crianas e adolescentes ficava a merc do julgamento e da tica do juiz. E aps sua promulgao foram criadas outras referncias de assistncia e proteo aos menores abandonados e delinqentes. Com a entrada em vigor do Cdigo Penal de 1940 (que fixou em 18 anos a idade-limite da responsabilidade penal, com atenuante para a faixa de 18 a 21), tornou-se necessrio editar o Decreto Lei n 6.026, de 24.11.1943 (lei de emergncia), para dar diretrizes s leis