Artigo Científico - Acne e Dieta - Verdade ou Mito

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  • An Bras Dermatol. 2010;85(3):346-53.

    Acne e dieta: verdade ou mito?*

    Acne and diet: truth or myth?

    Adilson Costa 1 Denise Lage 2

    Thas Abdalla Moiss 3

    Resumo: Nos ltimos 50 anos, foram publicados inmeros estudos com a finalidade de comprovar se adieta est relacionada etiologia da acne. Embora existam estudos antigos, que so bem difundidos entreos dermatologistas e negam a associao entre acne e dieta, seu delineamento cientfico pobre.Recentemente, novos artigos demonstraram evidncias contrrias s publicaes anteriores. Sendo assim,os autores realizaram esta reviso bibliogrfica com o intuito de averiguar se a dieta influencia direta ou indi-retamente um ou mais dos quatro pilares etiopatognicos fundamentais da acne: (1) hiperproliferao dosqueratincitos basais, (2) aumento da produo sebcea, (3) colonizao pelo Propionibacterium acnes e(4) inflamao.Palavras-chave: Acne vulgar; Dieta; ndice glicmico

    Abstract: Numerous studies were published over the last 50 years to investigate whether diet is associat-ed with the etiology of acne. Although older studies well known by dermatologists that refute the associ-ation between acne and diet exist, their scientific foundation is weak. New articles have recently broughtto light evidence contrary to previous findings. Therefore, we would like to investigate whether diet,directly or indirectly, influences one or more of the four fundamental etiopathogenic pillars of acne: (1)hyperproliferation of basal keratinocytes, (2) increase of sebaceous production, (3) colonization byPropionibacterium acnes, and (4) inflammation.Keywords: Acne vulgaris; Diet; Glycemic index

    Aprovado pelo Conselho Editorial e aceito para publicao em 21.09.2009. * Trabalho realizado no Servio de Dermatologia da Pontifcia Universidade Catlica de Campinas (PUC-Campinas) - Campinas (SP), Brasil.

    Conflito de interesse: Nenhum / Conflict of interest: None.Suporte financeiro: Nenhum / Financial funding: None.

    1 Dermatologista; mestre em Dermatologia pela Universidade Federal de So Paulo - Escola Paulista de Medicina; coordenador dos Setores de Acne, Cosmiatria, Dermatologia da Gravidez e Pesquisa Clnica em Dermatologia do Servio de Dermatologia da Pontifcia Universidade Catlica de Campinas (PUC-Campinas) - Campinas (SP), Brasil.

    2 Ex-Residente em Dermatologia do Servio de Dermatologia da Pontifcia Universidade Catlica de Campinas (PUC-Campinas) - Campinas (SP), Brasil.3 Residente em Dermatologia do Servio de Dermatologia da Pontifcia Universidade Catlica de Campinas (PUC-Campinas) - Campinas (SP), Brasil.

    2010 by Anais Brasileiros de Dermatologia

    346 REVISO

    INTRO DU O H mui tas dca das, alguns tra ba lhos ten tam con -

    fir mar uma teo ria anti ga, envol ta por mui tos mitos ecren di ces popu la res: a asso cia o entre acne e dieta.1-3

    A acne vul gar der ma to se cr ni ca. Doena dofol cu lo pilos se b ceo, ela tem qua tro fato res etio pa to -g ni cos fun da men tais: hiper pro du o seb cea, hiper -que ra ti ni za o foli cu lar, aumen to da colo ni za o porPropionibacterium acnes e infla ma o dr mi ca peri -glan du lar. Ocorre em todas as raas, embo ra sejamenos inten sa em orien tais e negros.4-6

    A pre va ln cia geral da acne varia entre 35% e90% nos ado les cen tes; no oci den te, de 79% a 95%nessa mesma faixa et ria.7 Observa-se, fre quen te men -te, que a acne aco me te 95% dos meni nos e 83% das

    meni nas com 16 anos de idade e pode che gar a 100%em ambos os sexos.8-10 Seu apa re ci men to e pre va ln ciaso maio res entre os pacien tes do sexo mas cu li no,gra as influn cia andro g ni ca.11,12 doen a que sofreimpor tan te impac to gen ti co, o qual se d, somen te,sobre o con tro le hor mo nal, a hiper que ra ti ni za o foli -cu lar e a secre o seb cea.12,13

    Quanto teo ria da asso cia o de fato res ambien -tais e acne, o sebo tal vez seja o com po nen te mais afe ta -do. Nessa situa o, um pos s vel esta do hipe rin su li n -mi co, asso cia do pre sen a secun d ria do fator de cres -ci men to insu li na-smi le 1 (IGF-1), esti mu la ria a sn te sede andr ge nos por vrios teci dos do corpo, os quais,sabi da men te, esti mu lam a pro du o de sebo.3,14

  • Com base nos dados exis ten tes na lite ra tu ra,que ligam a acne vul gar ali men ta o, os auto resescre ve ram este arti go de revi so a fim de des ven daras incg ni tas que per meiam o tema.

    Indcio n 1: Obesidade e acne: no uma ques -to do quan to, mas do que se come

    Embora sem com pro va o con cre ta, mui taspes soas tm a impres so de que acne e obe si da de serela cio nam. Um gran de estu do ava liou 2.720 mili ta resrecru ta dos por obe si da de e acne e notou-se tal asso -cia o ape nas em dois indi v duos, com ida des entre20 e 40 anos, e nenhu ma asso cia o entre os que tinham entre 15 e 19 anos. Isso suge re que a acne,numa popu la o mais jovem, possa estar rela cio na daa outros fato res alm da obe si da de e da resis tn ciainsu l ni ca.15

    Em um recen te estu do rea li za do com gmeos,sendo 458 deles mono zi g ti cos e 1.099 dizi g ti cos,no houve dife ren a sig ni fi ca ti va no qua dro de acneentre os gmeos em rela o ao peso, ao ndi ce demassa cor po ral, aos nveis de coles te rol, aos tri gli c ri -des e ao nvel de gli co se no san gue.16

    Com base nos dois tra ba lhos acima, cabe afir -mar: no o quan to se come, mas o que se come queafeta o qua dro de acne.

    Indcio n 2: Ocidentalizao die t ti ca e o sur gi -men to da acne

    Em um estu do no qual se ava lia ram mais de1.200 indi v duos de duas socie da des no oci den ta li za -das (os ilhus Kitavan, de Papua-Nova Guin, e ospovos Ache, do Paraguai), atri bui-se a ausn cia deacne nes sas popu la es ao seu padro ali men tar. Emsuas die tas h, subs tan cial men te, baixo ndi ce gli c mi -co em com pa ra o com as die tas oci den tais.7 Emestu dos epi de mio l gi cos com a popu la o de esqui -ms Inuit, detec tou-se que os mes mos no apre sen ta -vam tal der ma to se at a intro du o dos hbi tos ali -men ta res oci den ta li za dos.17

    Outros estu dos, rea li za dos com popu la es que viviam em vilas de rea rural, como as resi den tes doQunia, de Zmbia e de Bantu, no Sul da frica, con clu -ram que esses povos apre sen ta vam, sig ni fi ca ti va men te,menos acne do que seus des cen den tes que migra rampara os Estados Unidos, ou seja, a par tir do momen toda oci den ta li za o des tes.18-20

    Com tais acha dos epi de mio l gi cos, pos tu la-se,ento, que, ao con tr rio da ali men ta o cul tu ral des sespovos, o con su mo fre quen te de car boi dra to de alto ndi -ce gli c mi co pode, repe ti da men te, expor ado les cen tes hipe rin su li ne mia aguda que, em con se qun cia, influen ciano cres ci men to epi te lial foli cu lar, na que ra ti ni za o e,tam bm, na secre o seb cea.7

    Indcio n 3: Nutrio como ace le ra dor da matu -ra o sexual e desen ca dean te da acne

    A melho ra da nutri o popu la cio nal tem sidoasso cia da matu ra o sexual pre co ce e ao desen vol vi -men to da acne em jovens. Estudos demons tram queado les cen tes com hbi tos de inges to de ali men toscom baixo ndi ce gli c mi co apre sen tam atra so namenar ca, seme lhan te ao que ocor re em atle tas e bai la -ri nas.21 Em 1970, a pri mei ra menar ca ocor ria por voltados 12 anos, ao passo que, em 1835, era em torno dos16 anos de idade.22

    Em um estu do de coor te lon gi tu di nal, comdura o de cinco anos, em que foram inclu das 871meni nas, con cluiu-se que o qua dro come do nia nograve foi mais pre va len te em meni nas com menar capre co ce e com altos nveis de dii droe pian dros te ro -na.23 Demonstrou-se, tam bm, que a pre co ci da de dodesen vol vi men to da acne come do nia na pode ser o melhor pre di tor, no futu ro, da gra vi da de da doen a. Apre va ln cia e o prog ns ti co da acne se cor re la cio namcom a matu ra o sexual. Embora Cordain et al.7 no tenham rela ta do nada a esse res pei to, pode riam osindi v duos de Kitavan ou Ach no apre sen tar acnedevi do matu ra o sexual mais tar dia, secun d ria ao padro ali men tar orto do xo a que os mes mos estosujei tos?24

    Indcio n 4: Influncia da hipe rin su li ne mia na con -cen tra o de andr ge nos e na pro du o seb cea

    A hipe rin su li ne mia, por meio do aumen to dos nveis de andr ge nos, esti mu la a pro du o seb cea,que tem papel fun da men tal na acne. Uma res tri ocal ri ca extre ma dimi nui dras ti ca men te a taxa deexcre o seb cea, a qual se rever te com a ado o deuma dieta nor mal.25

    A hipe rin su li ne mia influen cia a con cen tra ocir cu lan te do IGF-1 e da pro te na liga do ra do fator decres ci men to seme lhan te insu li na-3 (IGFBP-3), osquais agem dire ta men te na pro li fe ra o dos que ra ti n -ci tos e na apop to se. Em um esta do hipe rin su li n mi co,ele vam-se as taxas de IGF-1, enquan to se dimi nui a deIGFBP-3, levan do a um dese qui l brio que cul mi na nahiper pro li fe ra o dos que ra ti n ci tos.26 O IGF-1 pare ce mediar fato res come do g ni cos, como andr ge nos,hor m nio de cres ci men to e gli co cor ti ci des. Em estu -do huma no, demons trou-se que o andr ge no end ge -no aumen ta os nveis sri cos de IGF-1, assim como osde IGF-1 aumen tam os de andr ge nos; esta be le ce-se,ento, um cr cu lo vicio so que, em lti ma ins tn cia,acar re ta um aumen to na pro du o de sebo.27,28

    Indcio n 5: O leite como est mu lo acneUma exce o evi dn cia da dieta de alto ndi ce

    gli c mi co a inges to de deri va dos do leite. Apesar depos su rem baixo ndi ce gli c mi co, eles indu zem, para -

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  • do xal men te, ao aumen to dos nveis de IGF-1, favo re -cen do o sur gi men to e/ou agra va men to da acne, o quepar ti cu lar men te maior quan do da inges to de leitedes na ta do. Isso demons tra que essa asso cia o no sedeve ao con te do de gor du ra no leite, refor an do ateo ria dos nveis de IGF-1.27,28

    Alm do poder acne g ni co por meio do IGF-1,o leite con tm estr ge no, pro ges te ro na, pre cur so resandr ge nos (como andros te ne dio na e sul fa to de dii -droe pian dros te ro na) e este roi des 5-redu ta se-depen -den tes (como 5-andros te ne dio na, 5-preg no na dio -na e dii dro tes tos te ro na), alguns dos quais esto impli -ca dos na come do g ne se.29

    O leite enri que ci do de outras mol cu las bioa -ti vas que agem na uni da de pilos se b cea, tais como gli -co cor ti coi des, fator de trans for ma o de cres ci men to- (TGF-), pep t deos hor mo nais seme lhan tes tireo -tro pi na e com pos tos seme lhan tes a opi ceos.Especula-se que o pro ces sa men to do leite des na ta doalte re a bio dis po ni bi li da de des sas mol cu las bioa ti vasou a inte ra o das mes mas com as pro te nas de liga -o. Sendo assim, pos s vel que o balan o dos cons -ti tuin tes hor mo nais do leite des na ta do este ja alte ra do,cul mi nan do em maior come do g ne se.29 Alm disso,para simu lar a con sis tn cia do leite inte gral, pro te nasdo soro do leite, espe cial men te, a -lac toal bu mi na,so acres cen ta das fr mu la do leite des na ta do e combaixo teor de gor du ra, o que tam bm pare ce desem -pe nhar papel impor tan te na come do g ne se.27, 28

    sabi do que a inges to de iodo pode exa cer bara acne. Outro argu men to que ajuda a refor ar a hip -te se da asso cia o entre o con su mo de leite e o qua -dro de acne a de que o iodo con ti do no leite podeestar envol vi do na etio lo gia dessa der ma to se:30 ele decor ren te da suple men ta o da dieta ofe re ci da aosani mais e do uso de solu es base de iodo nos equi -pa men tos de orde nha.31

    O que ajuda a refor ar a rela o do con te do iod -ni co do leite com a acne o resul ta do de um estu do emque 1.066 ado les cen tes foram ava lia dos por meio deques tio n rio cujo obje ti vo era deter mi nar se os nveis deiodo encon tra dos na gua ou no sal podem afe tar a pre -va ln cia ou a gra vi da de da acne. A popu la o esco lhi dahabi ta va trs regies dis tin tas da Carolina do Norte: cos -tei ra, mon ta nho sa e uma inter me di ria. Conclui-se que,nos pacien tes que viviam na regio cos tei ra, com hbi tosde maior con su mo de sal, a pre va ln cia de acne grave(cs ti ca e que evo lua para cica tri zes) foi maior. 32

    Recomenda-se, por tan to, como parte fun da -men tal tera pu ti ca da acne, que se evite a inges tode lati c nios e car boi dra tos com alto ndi ce gli c mi co,pois, assim, pos tu la-se con se guir dimi nuir os nveis deIGF-1, o qual age, siner gi ca men te com a dii dro tes tos -te ro na, na uni da de pilos se b cea de indi v duos gene ti -ca men te pre dis pos tos.33

    Indcio n 6: Evidncia cor ro bo ra ti va entre ometa bo lis mo da insu li na e a acne

    Acne uma das carac te rs ti cas cl ni cas da sn -dro me do ov rio poli cs ti co (SOP), que cursa, fre -quen te men te, com obe si da de, hipe rin su li ne mia,resis tn cia insu li na e hipe ran dro ge nis mo. Taispacien tes apre sen tam altos nveis de andr ge nos,IGF-1 e baixa con cen tra o das glo bu li nas liga do rasaos hor m nios sexuais (SHBG).3

    Tanto a insu li na quan to o IGF-1 esti mu lam asn te se de andr ge nos ova ria no e tes ti cu lar; almdisso, ini bem a sn te se hep ti ca das SHBG e, por tan -to, aumen tam a bio dis po ni bi li da de dos andr ge nosteci duais cir cu lan tes. Altas con cen tra es de andr ge -nos, insu li na e IGF-1 podem estar asso cia das com aacne da mulher adul ta.3

    Os nveis de andr ge no podem ser mini mi za dospela dimi nui o da resis tn cia insu li na, seja pelaperda de peso, seja pelo uso de medi ca men tos. A met -for mi na e a pio gli ta zo na no ape nas dimi nuem a resis -tn cia insu li na, mas, tam bm, redu zem os nveis dehor m nio adre no cor ti co tr pi co, esti mu la dor deandr ge nos nas mulhe res com SOP; a cor re o des sasalte ra es fisio l gi cas pode ser tera pu ti ca nos pacien -tes com acne.33,34

    Indcio n 7: Benefcio cl ni co da acne com dietade baixo ndi ce gli c mi co

    O meca nis mo pre ci so pelo qual o ndi ce gli c -mi co influen cia a com po si o do sebo des co nhe ci -do. Sabe-se que, para sin te ti zar lpi des, as gln du lasseb ceas pre ci sam de ener gia, que pode ser adqui ri dapela betao xi da o dos ci dos gra xos e/ou pelo cata bo -lis mo da gli co se.35 Para Downine e Kaealey, o padrode sn te se de lip dios man ti do pelo gli co g nio end -ge no, um impor tan te pro ve dor de NADPH para a sn -te se de tri gli c ri des. Assim, pos s vel que a inges tode ali men tos com baixo ndi ce gli c mi co possa alte raros esto ques de gli co g nio nas gln du las seb ceas,poden do ser fator limi tan te na lipo g ne se seb cea.35,36

    Supe-se que ali men tos com baixo ndi ce gli c -mi co influen ciem a com po si o seb cea por meio deefei tos meta b li cos e/ou, secun da ria men te, dos nveishor mo nais de tes tos te ro na livre e andr ge nos.Evidncias demons tram que a dieta base de baixondi ce gli c mi co pode dimi nuir os esto ques de gli co -g nio nos teci dos cor po rais (ms cu lo e fga do), sendofator limi tan te na lipo g ne se seb cea. Alm disto, essadieta pode redu zir a bio dis po ni bi li da de da tes tos te ro -na e a con cen tra o do sul fa to de dii droe pian dros te -ro na. Como a pro du o de sebo con tro la da pelosandr ge nos, a redu o dos mes mos pode alte rar acom po si o seb cea.37

    Como ser visto no Indcio n 8, pres su pe-seque uma dieta de baixo ndi ce gli c mi co alte re a rela -

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    o entre os ci dos gra xos monoin sa tu ra dos (Mufas)e satu ra dos (SFAs), haven do um meca nis mo pro te torcon tra a acne.37

    Supe-se, assim, que a ali men ta o com baixondi ce gli c mi co possa influen ciar a pro du o seb cea viamodu la o sin cro ni za da de andr ge nos e dos esto quesde gli co g nio, con for me demons tra do na figu ra 1.7, 35-41

    O con tra pon to desta teo ria um nico estu dopubli ca do, de Kaymak,42 que mos trou que o ndi ce gli -c mi co da dieta, o peso gli c mi co e os nveis de insu -li na no tm papel na pato g ne se da acne dos pacien -tes jovens. Porm, tal estu do muito cri ti ca do, pois o nico que vai na con tra mo do posi cio na men to dosestu dio sos do assun to.

    Indcio n 8: Antiacnegicidade median te a modu -la o die t ti ca do meta bo lis mo de ci dos gra xos

    O sebo huma no com pos to, prin ci pal men te, portri gli c ri des (40%-60%), cer deos (19%-26%), esca le no(11%-15%) e peque na quan ti da de de coles te rol e sterde coles te rol.43-45 Presume-se que a fra o de tri gli c ri desdo sebo seja res pon s vel pelo desen vol vi men to da

    acne.46,47 Bactrias podem hidro li sar os tri gli c ri des seb -ceos,48 libe ran do ci dos gra xos que podem pene trar napare de foli cu lar e ser incor po ra dos ao meta bo lis mo daepi der me ao redor. Contudo, o efei to hiper que ra t si copode no ser carac te rs ti ca de todos os ci dos gra xos,como suge re recen te evi dn cia de que ape nas os Mufasesti mu lam mudan as mor fo l gi cas, o que no vistocom os SFAs.37

    Os Mufas so com pos tos, prin ci pal men te, porcido sapi ni co (16:1 6), que pro vm da 6 desa tu -ra o do cido pal m ti co (16:0), um cido SFA.49 Aexpres so da 6-desa tu ra se e o resul tan te ac mu lo decido sapi ni co no sebo pare cem ser fato res impor -tan tes na lipo g ne se seb cea.50,51 Apoio para essa asso -cia o sur giu da obser va o de que ratos com defi -cin cia da expres so 9-desa tu ra se, que equi va len te 6-desa tu ra se em huma nos, apre sen ta vam hiplo pla -sia de gln du las seb ceas.52

    Recentemente, demons trou-se que a apli ca otpi ca de ci dos gra xos insa tu ra dos induz que ra ti ni -za o anor mal e hiper pla sia epi dr mi ca. Em con tras -te, os tri gli c ri des e os SFAs no afe ta ram a mor fo lo giada pele. Alm disso, os ci dos gra xos insa tu ra dosaumen ta ram a con cen tra o de cl cio nos que ra ti n -ci tos, tanto in vivo quan to in vitro.46 Esses resul ta dossuge rem que os ci dos gra xos insa tu ra dos pos samaumen tar a con cen tra o de cl cio nos que ra ti n ci -tos, cul mi nan do na que ra ti ni za o foli cu lar anor mal.46

    Posteriormente, um estu do con fir mou a teo ria deque os Mufas so, real men te, os ci dos gra xos cul pa dospela que ra ti ni za o anor mal e hiper pla sia epi dr mi ca.Voluntrios cl ni cos foram divi di dos em dois gru pos:um inge riu dieta com baixo peso gli c mi co e o outro foiorien ta do a incluir car boi dra tos regu lar men te nas refei -es. O pri mei ro grupo demons trou melho ra sig ni fi ca ti -va men te maior no total de leses quan do com pa ra do aogrupo-con tro le. Embora no se tenha detec ta do umefei to da inter ven o die t ti ca na sada do sebo ou nacom po si o indi vi dual dos ci dos gra xos, obser vou-seaumen to da rela o SFA/Mufa. inte res san te obser varque essas mudan as se cor re la cio na ram com a melho rana acne, suge rin do que a desa tu ra o dos ci dos gra xospossa ter um papel no desen vol vi men to da acne.37

    Embora os ci dos gra xos essen ciais (AGE), prin -ci pal men te, o cido lino lei co, desem pe nhem papelimpor tan te na fisio pa to ge nia da acne, um estu do-pilo -to com uti li za o de uma suple men ta o die t ti ca com3g di rios de AGE (ci dos lino lei co, lino l ni co e gama -li no l ni co), por trs meses, no resul tou em melho racl ni ca da acne. Entretanto, houve redu o quan ti ta ti vado tama nho das gln du las seb ceas, visua li za da porbip sias cut neas com punch, aps trs meses inin ter -rup tos de uso do pro du to, o que suge re um pos s velbene f cio des ses pro du tos com o ajus te da dose e otempo de tera pu ti ca.53

    Dieta de baixondice glicmico

    Diminuio doefeito supressivona produo da

    SHBG

    Diminuio daproduo de

    SHBG insulina-mediada

    Diminuio daoxidao de car-

    boidratos e da sn-tese de glicognio

    Diminuio dabiodisponibilidade

    de andrgenes

    Diminuio daconverso peri -

    frica de DHEA-S

    Diminuio da produo Sebcea

    andrgeno-mediada

    Diminuio daatividade da 6-

    desaturase

    Aumento da taxa deSFA/Mufa

    Aumento da taxa 6de 16:0/16:1

    Diminuio da produo Sebcea

    glicognio-mediada

    Diminuio docontedo deglicognio

    FIGURA 1: Antiacnegicidade da dieta de baixo ndice glicmico

    Adaptado e traduzido de Smith RN, Braue A, Varigos GA, Mann NJ.The effect of a low glycemic load diet on acne vulgaris and the

    fatty acid composition of skin surface triglycerides. J Dermatol Sci. 2008; 50(1):41-52.

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    Um bom ind cio para a uti li za o de uma dietarica em ci dos gra xos o fato de que a ali men ta o bem conhe ci da por ser um modu la dor da res pos tainfla ma t ria sis t mi ca. Um dos mais impor tan tes fato -res die t ti cos que influen ciam a infla ma o a inges -to rela ti va de ci dos gra xos poliin sa tu ra dos (Pufas)-6 e -3.54 A dieta oci den tal tpi ca man tm con cen -tra o sig ni fi ca ti va men te maior de -6, custa demenor con cen tra o de -3, por causa da pre do mi -nn cia de -6 na maio ria dos leos vege tais e ali men -tos pro ces sa dos fei tos com esses leos.54

    Com base nessa evi dn cia, Kris-Etherton obser -vou que a taxa de -6/-3 de 10:1 nas die tas oci den -ta li za das e de 2:1 a 3:1 nas no oci den ta li za das.55,56 Ocon su mo de dieta com Pufa -3 pode ser tera pu ti codevi do sua capa ci da de de supri mir a pro du o decito ci nas infla ma t rias. Isso visto na inges to suple -men tar de ci dos gra xos -3, a qual demons tra supri -mir IL-1,57-60 IL-1,57-62, fator de necro se tumo ral-,57-62IL-6,58,60,62 e IL-8.62 A supres so de IL-1 pela dieta com-3 pode influen ciar posi ti va men te a dife ren cia o doscor ne ci tos pela pre ven o ou ate nua o da hiper cor -ni fi ca o que ocor re duran te a micro co me do g ne se.59

    Indcio n 9: Papel pro te tor de uma dieta rica emzinco e vita mi na A

    Por longo tempo, vita mi na A e zinco tm seu usodifun di do e pro te gi do por vrios auto res no tra ta men -to da acne, por seus res pec ti vos efei tos ini bi do res nacome do g ne se.63 Tal bene f cio foi rejei ta do por muitotempo, at que Michalsson64 rea li zou um estu do naten ta ti va de pro var o efei to ben fi co da vita mi na A e dozinco na acne. Realizou-se an li se das con cen tra essan gu neas de pro te na liga do ra do reti nol (o reti nol,em lti ma an li se, pro vm do meta bo lis mo teci dual davita mi na A inge ri da na dieta) e de zinco em 173 pacien -tes com acne e em grupo-con tro le. Os pacien tes comacne reve la ram nveis infe rio res de ambos e estes erammeno res ainda nos que apre sen ta vam acne grave. Talacha do, por tan to, con fir ma o papel rele van te da vita mi -na A e do zinco na etio lo gia da acne.

    Outro dado not rio, que subs tan cia tal rela o, o fato de que die tas com bai xos teo res de zinco pio -ram ou ati vam a acne, espe cial men te, com rea espus tu lo sas. Tal situa o obser va da em diver sos rela -tos de exa cer ba o da acne com admi nis tra o dedieta paren te ral com bai xos teo res de zinco.65

    Indcio n 10: Chocolate um ino cen te equi vo ca -da men te cul pa do?

    Chocolate tem sido espe cial men te incri mi na docomo fator agra van te no qua dro de acne. Pacientesrefe rem, com fre qun cia, o sur gi men to de ps tu lasaps pou cos dias da inges to de tal ali men to.44 Poresse moti vo, mui tos nos pro cu ram em nos sos con sul -

    t rios, cobran do-nos uma posi o cien t fi ca a res pei -to. O que dizer, ento?

    Em 1969, 65 indi v duos foram sub me ti dos inges to di ria de uma barra de 112 gra mas de cho co -la te, rica em licor de cho co la te e man tei ga de cacau,por qua tro sema nas; aps esse pero do, tro ca va-se oregi me por barra-con tro le, de mesmo peso, sem licorde cho co la te e man tei ga de cacau, por mais qua trosema nas. As leses foram clas si fi ca das no in cio e nofinal do estu do em trs cate go rias: pio ra das (as lesesaumen ta ram em 30% no final do estu do), melho ra das( leses dimi nu ram em 30% no final do estu do), inal -te ra das (as leses se modi fi ca ram menos de 30%).Como no houve dife ren a sig ni fi can te entre inges todas bar ras de cho co la te e das bar ras-con tro le nas trscate go rias de clas si fi ca o das leses, os auto res con -clu ram que a inges to de gran des quan ti da des decho co la te no inter fe re no curso da acne vul gar ou nacom po si o do sebo.1

    Para Cordain et al.,3 o estu do acima faz uma con -clu so equi vo ca da. Na barra-con tro le, o cacau, na formade man tei ga e licor, foi subs ti tu do por gor du ra vege talhidro ge na da (28% do peso). Alm do mais, tanto a barramodi fi ca da quan to a barra-con tro le apre sen ta vam altascon cen tra es de sucro se (53% e 44,3% do peso, res -pec ti va men te), o que pre dis pe hiper gli ce mia e insu li ne mia, fato res envol vi dos no meca nis mo dedesen vol vi men to de acne. Logo, para esses auto res,3 oresul ta do do estu do no pode gene ra li zar e pres su porque o cho co la te no est asso cia do acne, j que, na suamanu fa tu ra, esto inclu dos outros ingre dien tes quepode riam estar impli ca dos na etio lo gia da acne.

    Em outro estu do, con du zi do por Anderson,2

    pacien tes que diziam no tole rar inges to de cho co la -te, por pio rar o seu qua dro acnei co, foram sele cio na -dos. Tais pacien tes fize ram inges to de gran de quan ti -da de de cho co la te por sete dias con se cu ti vos e nenhu -ma modi fi ca o na quan ti da de ou qua li da de da acnefoi nota da. Infelizmente, nenhu ma con ta gem de lesopr-expe ri men tal ou ps-expe ri men tal foi rela ta da,no houve grupo-con tro le nem an li se esta ts ti ca doestu do e, em com pa ra o com o estu do de refe rn cia,o tempo de an li se de inges to de cho co la te foi muitoredu zi do (uma e qua tro sema nas, res pec ti va men te).

    Embora com con clu ses dis pa ra ta das, a teo ria darela o da acne com o cho co la te quase que total men -te con fir ma da pelos acha dos cl ni cos obti dos por estu -dos bem dese nha dos e con du zi dos com exce ln cia porgru pos de estu dos em nutri o e nutro lo gia.

    Em um estu do rea li za do por cien tis tas aus tra lia -nos, com pa rou-se o per fil plas m ti co aps a inges tode ali men tos base de cho co la te com os mes mos ali -men tos sem esse pro du to. Surpreendentemente,detec tou-se um aumen to na insu li ne mia ps-pran dialem adul tos jovens magros que fize ram uso dos pro du -

  • Acne e dieta: verdade ou mito? 351

    An Bras Dermatol. 2010;85(3):346-53.

    tos acho co la ta dos (mdia 28% maior); os maio resndi ces ocor re ram com o leite acho co la ta do (mdia48% maior que o leite no acho co la ta do) e com osenri que ci dos com cho co la te negro, em com pa ra ocom o bran co (13% maior).66

    A expli ca o para os acha dos do grupo aus tra -lia no pode ser o fato de que o cho co la te rico emcom pos tos bio lo gi ca men te ati vos, como cafe na, teo -bro mi na, sero to ni na, feni le ti la mi na, tri gli c ri des e ci -dos gra xos cana bioi des-like, os quais aumen tam asecre o, bem como a resis tn cia peri f ri ca insu li -na.67,68 Alm disso, os ami no ci dos pre sen tes no cho co -la te (como a argi ni na, a leu ci na e a feni la la ni na) soextre ma men te insu li no tr pi cos quan do inge ri dos comcar boi dra tos;69,70 outros ami no ci dos (vali na, lisi na eiso leu ci na), encon tra dos em outros tipos de ali men -tos, prin ci pal men te, os ricos em lac to se, podem gerar,tam bm, tal com por ta men to plas m ti co.71

    Com base no expos to acima, no seria imper ti -nn cia suge rir que a inges to de ali men tos base decho co la te pode, sim, ter rela o com o qua dro cl ni coda acne vul gar. Um dado rele van te mere ce ser res sal -ta do: as bar ras de cho co la te comer ciais, espe cial men -te, as que apre sen tam teor lc teo ele va do, tm gran -des quan ti da des de car boi dra tos (a ca res refi na dos,por tan to, pos suem ele va do ndi ce gli c mi co), osquais aumen tam as taxas plas m ti cas ps-pran diais deIGF e da pro te na liga do ra de IGF (IGFBP), assu min -do, tam bm, um per fil insu li no tr pi co.3,26-29,33,71,72 Aos

    que se con ven ce ram do papel come do g ni co dos ali -men tos com alto ndi ce gli c mi co fica a suges to deobser var.

    CON CLU SONos lti mos 37 anos, mui tos estu dos foram rea -

    li za dos sobre a influn cia da dieta na pato g ne se daacne, com ind cios de que a ali men ta o, de fato,pode influen ciar o qua dro dessa der ma to se.73 Noentan to, faz-se neces s ria a publi ca o de estu dosinter ven cio nis tas, ran do mi za dos, com grupo-con tro -le, duplo-cego, nos quais se ava liem ml ti plos fato resnutri cio nais.

    Como ponto de par ti da, preo cu pa dos emdetec tar a influn cia do padro ali men tar sobre a acnevul gar, h uma ten dn cia a tes tar hbi tos ali men ta resde povos no oci den ta li za dos que, sabi da men te, notm acne.17-20,32 Em seus padres ali men ta res, no seencon tram ali men tos pro ces sa dos, lati c nios, a ca rese leos refi na dos, sendo eles base, prin ci pal men te,de ali men tos fres cos, fru tas, vege tais, carne, fran go efru tos do mar gre lha dos.17-20,32

    Com base nos recen tes rela tos cien t fi cos, umaafir ma o vem se tor nan do cada vez mais acei ta: hmenor inci dn cia de acne em socie da des no oci den ta li -za das, que aumen ta da quan do da ado o de die tas oci -den tais. Portanto, pare ce aos auto res deste estu do quefato res tni cos no so os ni cos impli ca dos na etio lo giada acne, refor an do a hip te se dessa rela o.7

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    Como citar este artigo/How to cite this article: Costa A, Lage D, Moiss TA. Acne e dieta: verdade ou mito? AnBras Dermatol. 2010;85(3):346-53.

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    Tel./Fax: 11 3034 1170 11 3034 1932e-mail: adilson_costa@hotmail.com

  • An Bras Dermatol. 2012;87(5):806.

    806 Correspondncia

    Dear Dr. Ana Maria Tchornobay,In reference to the comments made, in para-

    graph 7, page 267, and in figure 1, changes such asonycholisis, splinter hemorrhages, subungueal hyper-keratosis and oil drop originate in the nail bed; otherchanges originate in the nail matrix. Id like to kindlyrequest that the readers reconsider the errata in refe-rence to this paragraph and figure. However, I agree

    Reply

    Maira Mitsue Mukai 1

    1 Assistant Professor of Dermatology, Federal University of Parana (UFPR) Curitiba (PR), Brazil.

    2012 by Anais Brasileiros de Dermatologia

    that the term nail bed, rather than nail plate, is moreappropriate. Id like to thank you for pointing thisout, which led to the correction of the mistake.

    Sincerely,Maira Mitsue Mukai

    ErratumErrata

    This erratum refers to the article Acne and diet:truth or myth? An Bras Dermatol. 2010;85(3):346-53.Figure 1 was published without the subtitle. Followsthe missing information:

    Adapted and translated from Smith RN, BraueA, Varigos GA, Mann NJ. The effect of a low glycemicload diet on acne vulgaris and the fatty acid composi-tion of skin surface triglycerides. J Dermatol Sci.2008;50(1):41-52.