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  • Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro

    Dolo Eventual em casos de embriaguez ao volante

    Bruno de Medeiros Sigaud

    Rio de Janeiro

    2012

  • BRUNO DE MEDEIROS SIGAUD

    Dolo Eventual em casos de embriaguez ao volante.

    Artigo Cientfico apresentado como exigncia de

    Concluso de Curso de Ps-Graduao Latu

    Sensu da Escola da Magistratura do Estado do

    Rio de Janeiro.

    Orientadores: Prof. Guilherme Sandoval

    Prof. Ktia Silva

    Prof. Mnica Areal

    Prof. Nli Luiza C. Fetzner

    Prof. Nelson C. Tavares Junior

    Prof. Rafael Iorio

    Rio de Janeiro

    2012

  • 2

    DOLO EVENTUAL EM CASOS DE EMBRIAGUEZ AO VOLANTE.

    Bruno de Medeiros Sigaud

    Graduado pela Universidade da Cidade.

    Advogado.

    Resumo: o presente trabalho visa a verificar a regular aplicao dos conceitos de dolo

    eventual e culpa consciente em relao aos homicdios decorrentes de acidente de trnsito, j

    que para que possa ser considerado dolo eventual, devem restar caracterizados indcios reais

    de consentimento com o resultado, e no apenas pela ingesto de bebida alcolica.

    Palavras-chave: Dolo Eventual. Culpa Consciente. Embriaguez.

    Sumrio: Introduo. 1. O Cdigo de Trnsito e os institutos do dolo e da culpa. 2. O

    Alargamento do conceito de Dolo Eventual nos delitos de trnsito. 3. Aplicao do Dolo

    Eventual ou Culpa Consciente em caso de delitos decorrente de embriaguez ao volante.

    Concluso. Referncias.

    INTRODUO

    Em decorrncia do crescente nmero de homicdios praticados na conduo de

    veculo automotor, em especial quando da ingesto de bebida alcolica, tem-se aplicado

    indistintivamente a teoria do dolo eventual nesses casos. Tal fato vai no sentido de que, ao

    ingerir bebida alcolica, o condutor assume o risco pela produo do resultado, e no a sua

    probabilidade.

    O que tem levado adoo dessa teoria que os delitos de trnsito so, em regra,

    culposos, e, nesse caso, a pena no passar de quatro anos, considerada baixa por muitos. Est

    claro que toda sociedade anseia por uma resposta efetiva quanto aos acidentes de trnsito

    provocados por ingesto de lcool, mas por outro lado, deve-se ter ateno para no haver

    uma banalizao dos conceitos do dolo eventual e da culpa consciente, uma vez que muito

    simples afirmar que uma pessoa assumiu o risco de produzir o resultado pela simples ingesto

    de lcool, o difcil provar de forma inequvoca que o agente consentiu para o resultado, j

  • 3

    que o dolo deve ser provado, devendo ainda ser levado em considerao que nos termos da

    lei, a bebida por si no caracteriza o dolo eventual.

    Nesse passo, o objetivo do presente trabalho estabelecer a diferena entre os

    institutos do dolo eventual e da culpa consciente, utilizando os mtodos de pesquisa

    legislativa, doutrinaria e jurisprudencial, de modo a concluir pelo acerto ou no da adoo da

    tese que vem prevalecendo.

    Resta saber se com isso estaria o judicirio atuando como legislador positivo, uma

    vez que o objetivo principal seria de aumentar a pena que segundo os juristas e sociedade

    seria pequena.

    1. O CDIGO DE TRNSITO E OS INSTITUTOS DO DOLO E DA CULPA

    A primeira legislao que tratou de trnsito no Brasil surgiu em 1910 e tinha por

    objetivo disciplinar os servios por automvel no pas, somente em 1941 que foi aprovado o

    primeiro Cdigo Brasileiro de Trnsito, quase vinte anos do incio das atividades da indstria

    automobilstica no Brasil. Porm com objetivo de rever a legislao em vigor, assim como

    especificar determinadas condutas, foi institudo, em 1966, o Cdigo Nacional de Trnsito.

    Com o crescente nmero de acidentes e paralelamente o aumento no nmero de

    mortos, houve uma mobilizao de toda a sociedade no sentido de aumentar o rigor nas penas

    impostas aos infratores da lei, bem como diminuir o nmero de mortos, da surgiu a Lei

    9503/97 que trata do novo Cdigo de Trnsito Brasileiro, no qual trouxe previso legal dos

    delitos de trnsito, assim como penalidades mais gravosas aos condutores infratores.

    O Cdigo de Trnsito Brasileiro trouxe uma inovao no sistema jurdico penal

    Brasileiro, pois previu uma seo especifica sobre os crimes de trnsito, dentre esses, destaca-

  • 4

    se o homicdio culposo, porm diferentemente do cdigo penal, cometido na direo e veculo

    automotor.

    Quanto gradao de penas, o delito especfico do Cdigo de Trnsito tem pena

    mais grave, de dois a quatro anos, enquanto no delito do cdigo penal de um a trs anos,

    isso porque os delitos previstos no Cdigo de Trnsito so, em regra, culposos.

    Mesmo com essas alteraes nota-se, sem muita dificuldade, que ultimamente o

    nmero de acidentes no trnsito envolvendo condutores embriagados tem chegado a nveis

    preocupantes, e quando h algum acontecimento como esse, fala-se logo na aplicao da

    teoria do dolo eventual acompanhada da j conhecida frase assumiu o risco do resultado.

    Ocorre que no se pode verificar se o agente agiu com dolo direto ou dolo eventual

    de maneira to simplista como se tem feito, sem analisar minuciosamente a inteno do

    agente bem como as circunstncias do crime.

    Para que se possa entender sobre a possibilidade de aplicao do dolo eventual, deve-

    se ver primeiramente o conceito de dolo, que como pressuposto do delito, teve sua origem no

    Direito Romano, tendo como entendimento ofensa lei moral e lei do Estado, na forma da

    m inteno ou malicia na realizao do injusto.

    O dolo a vontade livre e consciente de realizar um tipo penal, sendo definido pelo

    cdigo penal em seu artigo 18, inciso I: O crime doloso quando o agente quis o resultado

    ou assumiu o risco de produzi-lo, dessa forma, o dolo composto de um elemento intelectual

    e outro volitivo como, formadores da ao tpica.

    Fragoso1 define dolo como sendo: a conscincia e vontade na realizao da conduta

    tpica. Compreende um elemento cognitivo (conhecimento do fato que constitui a ao tpica)

    e um volitivo (vontade de realiz-la).

    1 FRAGOSO, Heleno Cludio. Lies de direito penal. Parte Geral. 14. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2003, p.

    209.

  • 5

    J para Juarez Cirino dos Santos2 o dolo representa a energia psquica dirigida

    produo da ao incriminada e, portanto, o tipo subjetivo precede funcional e logicamente o

    tipo objetivo.

    A conscincia, diga-se, o elemento intelectual do dolo, representado pelo

    conhecimento das circunstncias do fato tpico, ou seja, a situao ftica em que se encontra o

    agente, no se exige o conhecimento potencial ou refletido do fato, e sim o conhecimento das

    circunstncias presentes e futuras do tipo objetivo, de modo que se no houver conscincia

    no se pode falar em dolo.

    J o aspecto volitivo consiste na vontade dirigida, alcanada pelo conhecimento de

    realizar um tipo objetivo, o querer o resultado danoso antevisto, de modo que essa vontade

    deve ser incondicionada, bem como capaz de influenciar o fato, vale dizer, que tal vontade

    deve ser exteriorizada, sendo que o agente deve, no mnimo, iniciar a conduta, pois se o fato

    ficar na esfera mental do agente seu comportamento ser irrelevante.

    Ao analisar as teorias acerca do dolo, bem como o artigo 18 do cdigo penal,

    constata-se que houve a adoo das teorias da vontade, que significa simplesmente a vontade

    livre e consciente de praticar o injusto penal, e segundo seus defensores, por todos Damsio

    de Jesus3, para que haja configurao do dolo necessria a presena dos seguintes requisitos:

    quem realiza o ato deve conhecer os atos e sua significao e o autor deve estar disposto a

    produzir o resultado, e a teoria do assentimento, que se caracteriza pelo fato de o agente

    prever o resultado, sem que haja a exigncia de sua produo, ou seja, h o dolo com o mero

    consentimento do agente diante da prtica da conduta.

    2 SANTOS, Juarez Cirino dos. A moderna teoria do fato punvel. 2. ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 2002, p.

    46. 3 JESUS, Damsio de. Direito Penal. Parte Geral. 28. ed. So Paulo: Saraiva, 2005, p. 288.

  • 6

    Conforme j visto, a primeira parte do artigo 18 do cdigo penal trata do dolo direto,

    ao passo que a segunda define o indireto, mais precisamente na forma eventual, tendo como

    base a teoria do assentimento, mencionada anteriormente.

    Quanto ao dolo eventual, pode-se dizer que ele ocorre quando o agente assume o

    risco de produzir o resultado do crime, ou seja, mesmo no querendo praticar o delito,

    prossegue na ao. Nesse sentido argumenta Fragoso4 assumir o risco significa prever o

    resultado como provvel e possvel e aceitar e consentir sua supervenincia

    No mbito de ao do sujeito ele antev o resultado e mesmo assim pratica o ato,

    razo pela qual sua vontade no se dirige ao resultado, e sim sua conduta, havendo previso

    de que com esta poder ocorrer a produo daquele.

    Com base nesse entendimento, segue deciso sobre o tema:

    HABEAS CORPUS. PENAL. CRIME DE HOMICDIO QUALIFICADO.

    CONDUO DE VECULO AUTOMOTOR, SOB INFLUNCIA DE ALCOOL.

    INPCIA DA DENNCIA. TRANCAMENTO DA AO PENAL. FALTA DE

    JUSTA CAUSA NO EVIDENCIADA DE PLANO. EXCLUSO DO DOLO

    EVENTUAL. NECESSIDADE DE ACURADA ANLISE DO CONJUNTO

    FTICO-PROBATRIO. INVIABILIDADE. HABEAS CORPUS DENEGADO.

    1. A existncia de eventual erro na tipificao da conduta