arthur schopenhauer - metafísica do amor

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  • Copyright desta traduo: Editora Martin Claret Ltda., 2001

    IDEALIZAO E CooRDENAO Martin Claret

    CAPA Ilustrao Cludio Gianfardoni

    MIOLO Reviso Rosana Citino

    Traduo Pietro Nassetti

    Projeto Grfico Jos Duarte T. de Castro

    Direo de Arte Jos Duarte T. de Castro

    Digitao Conceio A. Gatti Leonardo

    Editorao Eletrnica Editora Martin Claret

    Fotolitos da Capa OESP

    Papel Off-Set, 70glm2

    Impresso e Acabamento Paulus Grfica

    Editora Martin Claret Ltda.- Rua Alegrete, 62- Bairro Sumar CEP: 01254-010- So Paulo- SP Tel.: (11) 3672-8144- Fax: (!!) 3673-7146 www .martinclaret.com.br I editorial@martinclaret.com.br

    Agradecemos a todos os nossos amigos e colaboradores - pessoas fsicas e jurdicas - que deram as condies para que fosse possvel a publicao de'ste livro.

    6" REIMPRESSO- 2008

    PALAVRAS DO EDITOR

    A histria do livro e a coleo "A Obra-Prima de Cada Autor"

    MARTIN CLARET

    Q ue o livro? Para fins estatsticos, na dcada de 60, a UNESCO considerou o livro "uma publicao impressa, no peridica,

    que consta de no mnimo 48 pginas, sem contar as capas". O livro um produto industrial. Mas tambm mais do que um simples produto. O primeiro concei-

    to que deveramos reter o de que o livro como objeto o veculo, o suporte de uma informao. O livro uma das mais revolucionrias invenes do homem.

    A Enciclopdia Abril (1972), publicada pelo editor e empresrio Victor Civita, no verbete "livro" traz concisas e importantes infor-maes sobre a histria do livro. A seguir, transcrevemos alguns tpicos desse estudo didtico sobre o livro.

    O livro na Antiguidade

    Antes mesmo que o homem pensasse em utilizar determinados materiais para escrever (como, por exemplo, fibras vegetais e teci-dos), as bibliotecas da Antiguidade estavam repletas de textos gra-vados em tabuinhas de barro cozido. Eram os primeiros "livros", depois progressivamente modificados at chegar a ser feitos- em grandes tiragens - em papel impresso mecanicamente, proporcio-nando facilidade de leitura e transporte. Com eles, tornou-se possvel, em todas as pocas, transmitir fatos, acontecimentos histricos, descobertas, tratados, cdigos ou apenas entretenimento.

    Como sua fabricao, a funo do livro sofreu enormes modifi-

  • Metafsica do amor

    s, sbios de elevada e profunda cincia, Vs que meditais e que sabeis,

    Quando, onde e como tudo se une: Por que todo esse amor e essas carcias? Vs, grandes sbios, dizei-me! Revelai-me o que sinto, Revelai-me onde, como, quando E por que tais coisas me sucederam.

    Brger

    Estamos habituados a ver os poetas ocupados sobretudo em descrever o amor. Ordinariamente, esse o tema principal de todas as obras dramticas, trgicas ou cmicas, romnticas ou clssicas, seja na ndia, seja na Europa; e do mesmo modo, o amor o mais fecundo de todos os temas na poesia lrica e na poesia pica; isso sem contar o grande nmero de romances que, h sculos, so pro-duzidos todos os anos nos pases civilizados da Europa, to re-gularmente quanto os frutos da terra. Todas essas obras, em essncia, no so outra coisa que descries variadas, resumidas ou mais desenvolvidas, dessa paixo qual nos referimos. As mais perfeitas, Romeu e l{llieta, Nova Helosa, Werther, alcanaram glria imortal. Dizer, como o fez La Rochefoucauld, que o amor apaixonado como os fantasmas de que;,odo~falam~as que ningum viu, ou, ento, contestar como Licl.tenl rgl[o s)Y Ensaio sobre o poder do amor, a realidade dessa paixo e neg~ue seja conforme natureza, ' d P ,. ''-' 1 . e cometer um gran e erro. j ts e t~rve que SeJa um sentrmento

  • estranho ou contrrio natureza humana - uma pura fantasia -isso que o gnio dos poetas vem incansavelmente tematizando atravs dos tempos, e acolhido pela humanidade com inaltervel interesse, j que sem verdade no pode haver arte completa.

    Rien n 'est beau que le vrai; Le vrai seu[ est aimable 1

    Boileau

    Na verdade, a experincia, ainda que no se repita todos os dias, geralmente nos prova que uma viva inclinao, contudo ainda passvel de controle, pode, sob certas circunstncias, aumentar e exceder pela sua intensidade todas as outras paixes, pr de lado todas as consideraes, vencer todos os obstculos com inacredit-veis fora e perseverana, a ponto de, para satisfazer seu desejo, arriscar a vida sem hesitar, e at, se esse desejo lhe recusado, sacrificar a prpria vida. No apenas nos romances que existem Werther e Jacobo Ortis: a cada ano a Europa poderia mostrar pelo menos uma meia dzia deles: sed ignotis perierunt mortibus illi 2; pois seus sofrimentos tm como cronista apenas o empregado que registra os bitos, e os redatores dos jornais. Os leitores de jornais franceses e ingleses podero atestar a exatido do que estou dizendo. Maior ainda, porm, o nmero daqueles a quem essa paixo leva ao manicmio. Enfim, a cada ano verificam-se diversos casos de suicdio simultneo de dois amantes desesperados por circunstncias externas que os separam; quanto a mim, jamais entendi como duas pessoas que se amam e esperam encontrar nesse amor a suprema felicidade, no preferem romper de vez com todas as convenes sociais e enfrentar todas as situaes, a renunciar, abandonando a vida, a uma felicidade alm da qual nada mais podem imaginar. Quanto aos graus mais atenuados, os primeiros sintomas dessa paixo, cada homem os tem diante dos olhos na vida cotidiana e, enquanto jovem, na maior parte do tempo, os tem no corao.

    Dessa forma, no se pode duvidar da realidade do amor nem da

    sua importncia; e em vez de causar admirao que um filsofo tambm trate desse assunto, tema eterno dos poetas, deve antes surpreender que uma questo que assume um papel de primeira ordem na vida humana quase no tenha sido, at agora, levada em considerao pelos filsofos, e se apresente diante de ns como uma terra inexplorada. Entre todos os filsofos, o que mais se ocupou desse assunto foi Plato, sobretudo em Banquete e F edro, porm o que ele diz sobre o assunto permanece no domnio dos mitos, das fbulas e dos ditos ambguos, e refere-se, no mais das vezes, pe-derastia grega. O pouco que diz Rousseau acerca disso no Discours sur l 'ingalit 3, falso e insuficiente. Kant, na terceira parte do seu tratado Sobre o sentimento do belo e do sublime aborda o tema de um modo superficial e s vezes inexato, como quem no entende nada do assunto. Platner, em sua Antropologia, d um tratamento medocre e sem profundidade matria. A definio de Spinoza merece ser citada em razo de sua extrema simplicidade: Amor est titillatio, concomitante idea cause externae 4 (Eth. IV, prop. XLIV, dem.) Assim, nada tenho dos meus predecessores para me valer nem para combater; esse tema se me imps no pelos livros, mas pela observao da vida, e tomou lugar no conjunto das minhas consideraes sobre o mundo. Decerto no devo esperar aprovao nem elogio daqueles que so dominados por essa paixo, e que naturalmente procuram exprimir com as mais sublimes e etreas imagens a intensidade dos seus sentimentos: a esses, o meu ponto de vista parecer demasiado fsico, demasiado material, por mais metafsico e transcendente que, no fundo, ele seja. Percebam eles, antes de me julgarem, que o objeto do seu amor, que hoje exaltam em madrigais e sonetos, mal lhes teria merecido um olhar se hou-vesse aparecido dezoito anos antes.

    Toda paixo, com efeito, por mais etrea que possa parecer, na verdade enraza-se to-somente no instinto natural dos sexos; e nada mais que um impulso sexual perfeitamente determinado e individualizado. Assim, no perdendo isso de vista, se consideramos o papel importante que o impulso sexual representa em todas as suas fases e graus, no apenas nas comdias e romances, mas

    3 Discurso sobre a desiguaf~d)(~. ;t/T.) ' "O mo< um oOCog 'fl~jut' ;d;, do um "u" oxtorim".

    (N. do T.) \,_;I

    111

  • tambm no mundo real, onde , junto com o amor pela vida, a mais poderosa e a mais ativa de todas as molas propulsoras, e se pen-sarmos que absorve continuamente as foras da poro mais jovem da humanidade, que a finalidade ltima de quase todo o esforo humano, que exerce influncia perturbadora nos negcios mais im-portantes, que interrompe a todo momento as mais srias ocupaes, que por vezes, deixa em confuso os maiores espritos, que no tem escrpulo em atrapalhar com suas frivolidades as negociaes di-plomticas e os trabalhos dos sbios, que chega at a introduzir os seus bilhetinhos meigos e os seus cachinhos de cabelos nas pastas dos ministros e nos manuscritos dos filsofos, urdindo, todos os dias, as piores e mais intrincadas disputas, que rompe as mais precio-sas relaes, desfaz os mais slidos laos, torna vtima a vida, s vezes a sade, riqueza, situao e felicidade, e faz do homem hones-to um homem sem honra, do leal um traidor, que parece ser um demnio malfazejo que se empenha em transformar, confundir e destruir tudo - se considerarmos tudo isso, ento somos levados a bradar: para que tanto barulho? Para que tanto esforo, violncia, angstia e misria? Pois, em suma, a questo simplesmente esta: que cada um encontre o seu par. 5 Por que semelhante bagatela representa um papel to importante e leva sem cessar perturbao e discrdia vida dos homens bem-regrados? Mas, para o investigador srio, o esprito da verdade revela pouco a pouco esta resposta: no se trata de uma insignificncia, e, pelo contrrio, a importncia do assunto proporcional seriedade e intensidade dos impulsos. A finalidade ltima de todo empreendimento amoroso - derive para o trgico ou para o cmico- realmente o mais grave e importante entre todos os outros fins da vida humana, merecendo, pois, a profunda seriedade com a qual todos o buscam. Com efeito, essa questo significa nada menos que a composio da prxima gerao. As dramatis personae 6 que entraro em cena quando dela sairmos sero assim determi-nadas, na sua existncia e na sua natureza, por essas to frvolas d