arte rupestre - .arte rupestre ver´nica viana1 cristiane buco2 thalison dos santos3 luci...

Download ARTE RUPESTRE - .ARTE RUPESTRE Ver´nica Viana1 Cristiane Buco2 Thalison dos Santos3 Luci Danielli

Post on 16-Sep-2018

226 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • ARTE RUPESTRE

    Vernica Viana1

    Cristiane Buco2

    Thalison dos Santos3

    Luci Danielli Avelino de Sousa4

    Arte rupestre (do latim ars rupes arte sobre rocha) ou registro rupestre

    comporta um amplo conjunto de imagens produzidas sobre suportes rochosos abrigados

    (cavernas e grutas) ou ao ar livre (paredes e lajedos). Em princpio, a arte rupestre se

    refere a realizaes de grupos pr-coloniais; no obstante, alguns especialistas tambm

    incluem, nessa categoria, produes recentes (BUCO, 2012; TAON et al., 2010;

    BERROJALBIZ, 2015).

    Para a produo da arte rupestre so utilizados dois mtodos: o gravado, que

    compreende tcnicas diversas de remoo ou abertura da superfcie rochosa, a exemplo

    da picotagem e da abraso; e o pintado, representado por tcnicas de adio de

    pigmentos de cores distintas, secos ou pastosos, atravs de pincis, dedos, sopros ou

    carimbos.

    1 Graduada em histria pela Universidade Estadual do Cear (UECE); mestre em Histria, rea de

    concentrao em Pr-histria pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com a dissertao

    intitulada Registros grficos pr-histricos do Serto Centro-Norte do Cear; doutoranda em

    Arqueologia pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), desenvolvendo a tese Dinmicas culturais e

    ambientais na praia de Jericoacoara - Cear; arqueloga da Superintendncia do IPHAN no Cear. 2 Bacharel em violo clssico pela Faculdade de Artes Alcntara Machado (FAAM); licenciada em

    Educao Artstica, com habilitao em Artes Plsticas pela Universidade Estadual Paulista (UNESP);

    mestre em Histria, com rea de concentrao em Pr-histria pela Universidade Federal de Pernambuco

    (UFPE), com a dissertao intitulada Indicadores da prtica musical na regio do Parque Nacional Serra

    da Capivara (PI); doutora em Arqueologia pela Universidade de Trs-os-Montes e Alto Douro

    (UTAD/Portugal)/Universidade de So Paulo (USP), com a tese intitulada Arqueologia do movimento.

    Relaes entre arte rupestre, arqueologia e meio ambiente da pr-histria aos dias atuais no vale da Serra

    Branca. Parque Nacional Serra da Capivara Piau Brasil; arqueloga da Superintendncia do IPHAN

    no Cear. 3 Graduado em Arqueologia e Preservao Patrimonial pela Universidade do Vale do So Francisco

    (UNIVASF); mestre em Quaternrio e Pr-histria pela Ctedra Europeia Erasmus Mundus /

    Universidade de Trs-os-Montes e Alto Douro (UTAD/Portugal) em associao com o Instituto

    Politcnico de Tomar (IPT/Portugal), Musum National dHistoire Naturelle de Paris (MNHN/Frana),

    Universit degli Studi di Ferrara (UNIFE/Itlia) e Universitat Rovira i Virgili (URV/Espanha), com a

    dissertao intitulada Rock-art of Toca do Paraguaio (Piau, Brasil): a morpho-technique approach;

    arquelogo da Superintendncia do IPHAN no Cear. 4 Graduada em Histria pela Universidade Estadual do Cear (UECE); mestre em Arqueologia pela

    Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) com dissertao intitulada Os grupos pr-histricos

    ceramistas da praia de Sabiaguaba, Fortaleza/CE Brasil; arqueloga da Superintendncia do IPHAN no

    Cear.

  • Stio Unini 4 - arte rupestre gravada, localizada no estado do Amazonas, regio do

    Baixo Rio Negro. Fonte: Valle, 2012, v. III, p. 121.

    Acredita-se que a arte rupestre tenha surgido no Paleoltico superior, entre

    40.000 e 11.000 anos AP (Antes do Presente), no seio de grupos humanos que

    dominavam o fogo, possuam tecnologia diversificada de produo de instrumentos de

    pedra lascada e que, em termos de constituio fsica, eram semelhantes ao homem

    moderno. A caverna de Chauvet, no sudeste da Frana, tem uma das dataes de arte

    rupestre mais antigas do mundo, com cerca de 32 mil anos AP (CLOTTES et al.,1995;

    SANCHIDRIN, 2005). Dataes ainda mais remotas, como as dos stios Auditorium e

    Daraki-Chattan, na ndia (BEDNARIK, 2003; KUMAR, PRAJAPATI, 2010; KUMAR,

    2010), e La Ferrassie, na Frana (BEDNARIK, 2003, 2005; PEYRONY, 1934;

    KUCKENBURG, 1997), no gozam de consenso entre os especialistas.

    Os stios de arte rupestre no Brasil foram revelados por missionrios e

    aventureiros que, nos primeiros sculos do descobrimento, exploraram o nosso territrio

    em busca de indcios de antigas civilizaes. No sculo XIX, foram objeto de estudo

  • (ainda que de forma subsidiria) das comisses cientficas organizadas para pesquisar as

    riquezas do pas em reas como a botnica, a zoologia, a mineralogia e a etnografia.

    Com a ampliao das descobertas, surgiram as primeiras interpretaes que

    atribuam a arte rupestre do Brasil a povos mediterrneos, evocando analogias entre

    certas escritas do Velho Mundo e as inscries ou petroglifos aqui existentes. Tais

    estudos acabaram por sugerir a incapacidade dos povos originrios nesse campo.

    Somente em meados do sculo XX, consolida-se a atribuio da autoria da arte rupestre

    a grupos locais.

    Com a descoberta de grutas pintadas em territrio europeu, entre o final do

    sculo XIX e o incio do sculo XX, constituindo a chamada Arte Parietal do

    Paleoltico Europeu, ocorrem os primeiros levantamentos e classificaes das figuras

    rupestres, os quais estavam focados na anlise de imagens isoladas em detrimento do

    conjunto das representaes (BREUIL, WINDELS, 1952). Tais estudos desenvolviam-

    se em duas vertentes interpretativas: a primeira, sob a perspectiva da arte pela arte,

    estabelecia uma autonomia artstica de carter meramente esttico, desligando-a de

    razes funcionais. Nessa vertente, as figuras tecnicamente bem elaboradas eram

    representativas de grupos civilizados, ao passo que as demais eram interpretadas

    como obras grosseiras de uma civilizao tambm grosseira (LAMING-

    EMPERAIRE, 1962; PESSIS, 1987). Uma segunda via, sob os conceitos de magia da

    caa e totemismo, atribua um contedo sagrado s manifestaes rupestres que

    representariam, de forma materializada, as relaes entre o homem e o sobrenatural.

    Esse vis interpretativo vai sacramentar a ideia da arte rupestre europeia como

    santurios por excelncia.

    A mudana de abordagem para que a arte do Paleoltico europeu viesse a se

    tornar uma fonte de dados sobre os seus autores comeou a se delinear nos trabalhos de

    Laming-Emperaire (1962, 1972) e Leroi-Gourhan (1983, 1985, 1971). Segundo esse

    novo enfoque, estudos acerca do significado das manifestaes grficas deveriam ser

    empreendidos com rigor similar ao das escavaes arqueolgicas e fundamentados

    sobre o prprio documento arqueolgico. No mais, os estudos de Laming-Emperaire e

    Leroi-Gourhan respondem pela primeira tentativa de sistematizao dos dados

    fornecidos pela arte rupestre europeia, assegurando que suas figuras formavam

    composies que, embora tratadas at ento como meras acumulaes casuais de

    imagens independentes, eram portadoras de significados complexos para as sociedades

    que as conceberam (PESSIS, 1987).

  • Evitando o estabelecimento de significados precedentes, estudos posteriores,

    desenvolvidos por Ucko e Rosenfeld (1967), na Europa, e Pessis (1987), no Brasil,

    passaram a interpretar a arte rupestre como um meio de comunicao de motivaes

    variadas. Desse modo, conforme Pessis (1987, p. 26) as manifestaes grficas

    corresponderiam a sistemas de apresentao grfica que seriam a expresso dos

    sistemas de comunicao das sociedades.

    Dentre outras vias interpretativas destaca-se ainda a que estabelece a relao da

    arte rupestre com um sistema xamnico de crenas. Clottes e Lewis-Williams (2001),

    seus principais expoentes, partem da premissa da existncia de certas formas de

    xamanismo em todos os povos de diferentes partes do mundo, cuja origem remonta ao

    Paleoltico. A ideia est fundamentada no prprio sistema nervoso humano, capaz de

    gerar estados de conscincia alterada, que so partes intrnsecas do acervo

    neuropsicolgico. Para os autores, as grutas paleolticas eram lugares especiais atravs

    dos quais o homem entrava em contato com o mundo dos espritos. A premissa proposta

    foi subsidiada desde o incio por relatos etnogrficos de grupos que praticavam o

    xamanismo.

    Os estudos sistemticos de arte rupestre no Brasil ganharam fora a partir da

    dcada de 1970, acompanhando o nascimento da arqueologia profissional no pas. Sob

    forte influncia da escola francesa, procurou-se abordar o carter de documento

    arqueolgico da arte rupestre atravs de levantamentos exaustivos (por fotografia ou

    decalque) e de anlises morfolgicas do corpus grfico. Ao se vincular os dados obtidos

    nas escavaes e os resultados dos estudos sobre a arte rupestre, foi possvel

    estabelecer, por exemplo, cronologias.

    O curso das anlises levou identificao de similaridades e diferenas

    observveis nas tcnicas e temticas, segregando-se, por conseguinte, conjuntos de

    imagens semelhantes que possuam uma ampla disperso territorial, denominando-os

    Tradio. Como parte das sistematizaes, algumas tradies tambm foram

    subdivididas em subtradies, fases, fcies e estilos (PROUS, 1992, 1994; GUIDON

    1984; RIBEIRO, 2007).

    Prous (1992) assinala a existncia de oito tradies da arte rupestre distribudas

    no territrio brasileiro. Quatro, so tradies de pintura: So Francisco, identificada no

    vale do rio homnimo em trecho que abrange os estados de Minas Gerais, Bahia e

    Sergipe, e, ainda, nos estados de Gois e Mato Grosso; Planalto, entre o norte do estado

    do Paran e o sul de Tocantins, com maior ocorrncia nos cerrados e nas regie

View more