aroldo plínio gonçalves - técnica processual e teoria do processo(1992)

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    A RO LD O P LIN IO GONGALVESPROFESSOR TITULAR DEDIREITOPROCESSUAL CIVIL NAFACULDADE DE DIREITO DAUFMG - JUIZ PRESIDENTE DO

    TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO -MG

    TECNICAPROCESSUALETEORIA DO PROCESSO

    AIDE EDITORA

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    G635t Goncalves, AroIdo Plinio, 1943Tecnica ProcessuaI e teoria do processo/Aroldo Plinio Goncalves, - Rio de Janeiro :Aide Ed., 1992.220p.

    1. Direito processual civil . I.Titulo.CDD-341.45

    ISBN: 85-321-0071-6

    Impresso no BrasilPrinted in Brazil

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    INTRODU~Ao .~.! omovimento de renovacao do Direito Processual, que eclo-

    de emvarios Congressos e se manifesta em importantes obras doDireito brasileiro, atua como fonte geradora de novas ideias enovas reflexoes sobre antigas questoes da construcao doutrina-ria.

    Dentre suas contribuicoes, anuncia a superacao do tecnicis-mo do seculo XIX, onde 0rito se fazia pelo rito e a forma secumpria pela forma. Essa e realmente uma boa-nova que 0seculoXX, ja caminhando para seu final, pode deixar como conquistapara as geracoes futuras. As novas ideias tendem, entretanto, adiluir, na propria superacao do tecnicismo do seculo passado, avisao do processo como estrutura tecnica que se poe comoinstrumento para 0exercicio da jurisdicao.

    Quando se reflete sobre as superacoes .de velhos modelosproduzidas pelos movimentos inovadores, em alguns momentosda historia humana, tem-se a impressao de que todos cumpremurn destino comurn. Nao se passam como as acoes e reacoesexplicadas pela Fisica, que envolvem forcas iguais e contrarias.Neles, as forcas que se sucedem a s antigas sao mais potentes, enem sempre vao apenas na direcao contraria, .mas abrem-se em

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    urn verdadeiro prisma de possibilidades de multi pIos caminhos.Pode ser lembrado, nos anos sessenta, deste seculo ,0movimen-to da contracultura, que, reagindo contra uma cultura considera-da arcaica, propoe-se a fechar as Universidades, a retirar osprofessores das salas de aula, e a renovar 0mundo a partir deoutras bases. Seus efeitos se desdobram em march as sobre Paris ,no movimento hippie, nos woodstockes, e em tantas outras ma-nifestacoes inesqueciveis, que fizeram dos anos sessenta os anosdas revolucoes.o movimento de renovacao do Direito Processual parececumprir tambem esse destino. Tenta superar as insuficiencias deuma concepcao deficiente de processo, do rito peIo rito e daforma peIa forma, abolindo 0formalismo. Tenta superar umdireito insuficiente, porque nao deu respostas adequadas a o sproblemas sociais da epoca, eliminando 0fator juridico, que setorna 0elemento menos importante, confrontado com uma or-dem social ou politica, Tenta substituir uma tecnica juridicadeficiente, porque construida sobre antigos conceitos que naopassaram peIo necessario ajustamento, eliminando a tecnica.Nega-se, ou se exclui como algo necessario, 0papel fundamentaldo conhecimento em relacao a s necessidades sociais e humanas,e a s necessidades da Ciencia do Diretto Processual, 0 importan-te, no Direito Processual, ja nao sao os conceitos, mas e umanova mentalidade de reforma, que se quer efetiva, e se faz urgen-te, pOl'que e preciso trans formal' as condicoes sociais. E0meca-nismo dessa transformacao e direcionado para 0processo, a quese atribui a missao de reformador SOCial,peIo cumprimento definalidades polfticas e sociais.' MARXe sempre relembrado, na1 V. cANDIDO R.DINAMARCO-"0 que conceitualmente sabemos dos insti-

    tutos fundamentals desse ramo jundico ja constitui suporte suficiente parao que queremos, ou seja, para a construcao de um sistema processual aptoa conduzir aos resultados praticos desejados. Assorna, nesse contexto, 0chamado aspecto etico do processo, a sua conotacao deontol6gica." In: "AInstrumentalidade do Processo'' 2a ed. rev. e atuaL. - Sao Paulo: EditoraRevista dos Tribunais, 1990, p. 21. Ainda: "0 processualista de hoje pensana missao social, polftica e jurfdica do processo." Cf. cANDIDO R. DINA-

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    passagem mais celebre das Teses Contra Feuerbach, a 11il.tese:"Os fil6sofos se limitaram a interpretar 0mundo diferentemente,cabe transforma-lo". Mas nao sera lembrado que MARXnao cha-mava os teoricos como agentes da transformacao e sim os opera-rios do mundo, que eram conclamados a se unirem. Uma teoriasera sempre uma teoria, e por si so nao tem 0poder de ser outracoisa, e MARX certamente percebia isso. Se for usada como armade reforrna, a forca que possuir estara no brace revolucionario,ou no brace reacionario, e nao nos conceitos por ela formula-dos. GALILEUnao foi processado pela .forca .dequalquer teoriade ARIST6TELES, mas peIa forca de BELARMINOe de URBANOVIII, ou peia forca da Inquisicao, que, conforme diz RUSSELL,"foi muito bem sucedida em seu empenho de acabar com aciencia na Italia"z. NIETZSCHE certamente nao suspeitava dafutura exisrencia de GOBINEAU. E imitil perguntar se teriameles, se pudessem, dado autorizacao para 0uso pratico que foifeito de suas construcoes, A responsabilidade que 0teorico terncom as ideias que coloca em circulacao'' limita-se a sua honesti-dade, pois nao se po de amordacar 0pensamento, nem se colocarem uma camisa-de-forca a liberdade que constitui instrumentode sua veiculacao. POl'isso, teoria sao teorias.

    Os movimentos de renovacao deste seculo, no campo dacultura ocidental, como OCOlTeuem outros momentos da Histo-ria, nasceram da crise da razao, de uma razao que CASTORIADISve como uma criacao humana enlouquecida" e que tern sidomotivo de muitas angustias.

    MARCO:"Tecnica e Efetividade do Direito Processual" in Synthesis -Direitodo Trabalho Material e Processual -Rev. Sernestral, nQ4/87, pp. 46/47.

    2 Cf. BERTRANDRUSSELL- "Historia da Filosofia Ocideutal" Livro Terceiroa "Trad. de Brenno Silveira, 3- ed., Sao Paulo: Companhia Editora Nacional,1969, p. 55.3 A questao e levantada por MICHELVIRRALYLa Penseefuridique, Paris:

    Librairie Generate de Droit et dejurtsprudence, 1960.4 "Digarnos, antes, que 0homern e urn animal louco que, por meio da sua

    loucura, inventou a razao, Sendo um animal louco, naturalmenre fez da

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    Assim como, no limiar da Idade Media, SANTOAGOSTI-NI:IOchorava amargamente por haver cedido a tentacao de ter seentretido com a literatura grega.? 0Ocidente carrega essa sina.Ama a razao apaixonadamente, cultua-a como nenhum outropovo jamais 0fez,HEGEL0mostrou, mas depois se lamenta porhaver cedido a sua seducao e faz0seu mea culpa, repudiando-a.Tenta encontrar sua absolvicao no culto dos procedimentos ir-racionais (no sentido Weberiano), A razao nao deu respostasadequadas aos problemas do mundo? Exc1ui-se, elimina-se arazao.

    A crise da razao, com a negacao da racionalidade, alastrou-se pelo Ocidente, que mal percebeu que, se naodeu respostasadequadas a seus problemas, 0fato nao poderia ser tributado arazao, mas a s finalidades que foram dadas a seu usn, eleitas pelosproprios homens, Se a tecnica se aperfeicoou tanto a ponto depermitir a eficiencia em grau de excelencia para 0culto da vidaou para 0culto da morte, a responsabilidade que decorre desseaperfeicoamento nao e certamente da tecnica, ou da capacidadeque 0homem possui de produzi-la, mas da vontade que a dire-ciona para os fins. Porque a pedra foi, segundo os antigos textossagrados, a primeira arrna de urn crime, para se acabar com oscrimes nao basta destruir as pedras.o jogo de amor da cultura ocidental com a razao e urnestranh,o jogo, mas nao mais estranho do que qualquer jogo deamor. E urn jogo dirigido e presidido pelas emocoes, e forma

    nao urn curso regular, mas urn dis-curso, que, como viu ROLANDBARTHES,6e a unica via possivel em toda experiencia amorosa,porque a sua trajetoria jamais se da em uma linha reta e conti-nua. A razao e tao amada e tao cultuada que 0homem ocidentalquase se dissolve nela. Mas pede demais a ela, projeta demais .nela, espera demais dela, e logo se ressente e a repudia, incrimi-na-a por nao dar respostas satisfat6rias a todos os seus anseios .'Entretanto, a separacao nao dura muito, porque 0ser humanoocidental se fez uno com a razao e necessita dela para se reco-nhecer a si mesmo, e sem ela se ve fragmentado e, para serecompor, acaba retornando a ela, E porque a razao 0cativa, elea detem cativa."A penosa caminhada de uma sociedade, que ainda naoresolveu problemas de ordem vital para a maioria de seus mem-bros, desperta, nos estudiosos mais conscientes da dignidadereconhecida a cada ser humano pelo Direito, a indignacao porsabe-lo existente e por ve-lo, nao obstante, negado. Amdignacaoque nasce da pureza das intencoes tern pressa. A dignidadehumana e valor quenaose negocia, como realmente sempre 0f6(por 1SS0nasce a ansia de promove-Ia ja. Compreende-se,entao, 0 apelo para que 0 Direito seia 0 elemento transformadorda sociedade. Mas nao se pode esquecer que a sociedade con-ternporanea nao tern a pureza das primitivas, e ja nao aceitaprof etas com suas tabuas de leis. Quer fazer 0seu destino e querser agente da sua hist6ria. Seus conflitos sao trazidos a luz do diae resolvem-se no jogo das pressoes e das contradicoes.o direito material, enquanto canone de conduta e de orga-nizacao soci