argan crítica de arte uma perspectiva antropológica

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Giulio Carlo Argan

Romuald Hazoum. Galo armado, assemblage (galo de plstico e metal) e 1 fotografia cor, 380 x 110 x 100cm, 200430 concinnitas

Crtica de arte uma perspectiva antropolgica

Crtica de arte uma perspectiva antropolgica*Giulio Carlo Argan**Discutindo a relao entre arte e antropologia, Argan questiona tanto a abordagem historicista quanto o enfoque culturalista do objeto artstico e prope uma reviso da arte contempornea a partir da crise que a separou do sistema cultural. Antropologia da arte, morte da arte, aculturao

A reduo da histria da arte ou mesmo da crtica de arte antropologia pode ser includa na lgica dos fatos. No mundo contemporneo, a histria costuma ser acusada de no ser rigorosamente cientfica. Considerando-se que a estrutura da cultura moderna constituda pela cincia, a histria assume uma posio marginal ou posta fora do sistema. Sendo a histria a interpretao e o julgamento dos fatos, ela pressupe a escolha, em meio confusa massa dos eventos, daqueles que so mais interessantes. Mas que critrios orientam essa escolha? A acusao que se faz histria a de ser fundada sobre uma petio de princpio, ou seja, os historiadores fazem a histria daquilo que j histrico. A histria da arte, considerando-se que ela seja a disciplina que se ocupa da arte, participa da decadncia geral da histria; o historiador de arte deveria ocupar-se daquilo que artstico; mas qual o critrio para se estabelecer uma discriminao entre o que e o que no artstico? Deve-se acrescentar que a histria pressupe tambm a correlao, a coerncia entre os fatos e, portanto, uma tendncia de todos os fatos em direo a um nico objetivo; mas quem fixou essa finalidade e suas regras de correlao? preciso reduzir os fatos pura fenomenologia, poch, ou seja, colocar no mesmo nvel as manifestaes consideradas artsticas (ou que se apresentam como tal) e proceder a sua anlise total para assegurar-se das caractersticas comuns que podem estar contidas na mesma categoria. Atualmente, os sistemas de informao permitem conhecer o estado cultural de todos os grupos humanos, mas completamente arbitrrio afirmar-se que alguns deles ainda se encontram em estado pr-histrico ou na Idade Mdia e que outros, ao contrrio, esto mais prximo do estado cultural do mundo ocidental: ningum est autorizado a acreditar que a existncia do gnero humano no mundo seja uma longa marcha em direo a um nvel de perfeioTraduo Felipe Ferreira * Texto apresentado na AICA, 1976. ** Giulio Carlo Argan (1909-1992), foi um dos maiores historiadores e crticos do sculo XX. Argan tambm foi prefeito de Roma e elegeu-se senador pelo Partido Comunista Italiano.ano 6, volume 1, nmero 8, julho 2005

ou de felicidade, do qual nosso estado de civilizao se aproximaria cada vez mais, ainda que reste muito caminho a percorrer. Considerando-se mais avanada que as demais no caminho da civilizao, nossa cultura pretende instru-las. Na realidade ela dissimula, sob esse aspecto missionrio e didtico, a vontade de31

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explorao e dominao. No parece estranho que ela busque ser ouvida e cultivar o resto do mundo quando no pode mais ignorar sua prpria crise, suas prprias contradies, o provvel fim do qual se aproxima? A antropologia, que seguramente a mais moderna e completa das cincias humanas, contesta a prioridade ou o privilgio da cultura do mundo ocidental e, sobretudo, nega a uniformidade da civilizao e o fato de que as diferenas entre os diversos grupos tnicos constituem mera diversidade quantitativa. Compreende-se perfeitamente que, nesse contexto, o problema da criao artstica seja fundamental, dado o atual reconhecimento de que no existe evoluo ou progresso na arte e que, ao contrrio, na cultura ocidental, presumida como a mais avanada, a arte est em regresso, numa crise talvez irreversvel e final. Deveramos deduzir da que o nvel da arte decresce medida que o nvel da civilizao aumenta? A concepo teleolgica da histria, caracterstica da cultura clssica crist, no a nica possvel: radicalmente diferente, embora derivando do mesmo tronco, a ela pode-se opor a concepo materialista e marxista, segundo a qual o progresso no automtico, mas determinado pelo contraste de foras constitudas no interior da sociedade. Em uma cultura que se encontra totalmente liberada de qualquer tipo de dogmatismo e teologismo, de todo princpio de autoridade e de hierarquia, ou seja, uma cultura inteiramente laica, a fenomenologia j tomou o lugar da metafsica, e a descrio, o da interpretao de fenmenos. A histria, que no pode ficar limitada s vicissitudes polticas e nem s esferas consideradas culturalmente privilegiadas e que sobretudo no pode exprimir-se atravs de um julgamento, tende a identificar-se com a antropologia. A historiografia, porm, como qualquer disciplina e como a prpria antropologia, renova continuamente sua prpria metodologia. Ligando-se ou, melhor, identificando-se com a antropologia, ela modifica apenas o processo ou sua prpria estrutura? Em outros termos, ela cessa de ser histria ou reduz a histria ao nvel cientfico da antropologia? No acreditamos que a antropologia possa constituir essa kunstwissenschaft que atualmente alguns pesquisadores desejam colocar no lugar da kunstgeschichte; o fato de a Antropologia ter permitido que se conhecesse a arte de povos comumente considerados fora da histria (e cuja arte, somos obrigados a reconhecer, muitas vezes melhor, mesmo em funo de nossos parmetros, do que aquela de pases que se consideram mais avanados) no suficiente para justific-lo. Nessa cultura dita primitiva, o topo da civilizao que a nossa identifica com o progresso tecnolgico no seria a arte? Mas, se evidente que a cultura artstica de povos culturalmente avanados s pode ser estudada de um ponto de vista histrico, visto que somente desse modo temos a possibilidade de integr-la ao sistema global da cultura, no completamente garantido que possamos fazer a histria da frica ou da Polinsia. Existem, antes de tudo,32 concinnitas

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dificuldades objetivas, como o conhecimento limitado da cronologia e de circunstncias exteriores em que essa arte foi produzida. Nada impede acreditarmos que, aps um minucioso trabalho de pesquisa, consegussemos reconstruir a cronologia da produo artstica de tribos primitivas; mas bastante duvidoso que, uma vez estabelecida essa cronologia, a compreenso dessa arte se tornasse mais fcil. Seria igualmente difcil, embora no impossvel, compreender o significado de imagens de arte indgena em relao celebrao de ritos, a crenas religiosas ou, simplesmente, aos costumes da vida cotidiana; mas, mesmo assim, no conseguiramos captar o sentido artstico profundo dessas obras. Na verdade, saber que uma determinada esttua negra representa uma divindade da chuva ou da fecundidade pouco acrescenta a nossa compreenso, considerando-se que ela no nos aproxima do mundo interior dos indgenas, para os quais tal esttua nada mais do que um objeto mgico supostamente capaz de produzir certos efeitos, sem nenhuma possibilidade de um valor que ultrapasse a funo ritual. Mesmo que o pesquisador europeu ou americano tente adequar-se objetividade absoluta, ele no poder jamais encarar a cultura primitiva abstraindo a sua prpria cultura; e a objetividade cientfica, que deveria coloclo ao abrigo da unilateralidade do eurocentrismo, uma forte caracterstica do prprio eurocentrismo. A necessidade de absorver essas culturas que esto afastadas de nossa experincia prpria de uma cultura como a nossa, que tende a se expandir, a comunicar, a se impor. Isso se prova pelo fato de, no incio do sculo XX, o conhecimento da arte negra ter tido por funo dar cultura artstica europia a possibilidade de tomar conscincia de seus limites; assim como a explorao da arte ocidental nos pases do Terceiro Mundo s serviu para dispersar os ltimos traos de sua autonomia cultural e reafirmar sua inferioridade de pases colonizados. Dado que a antropologia descreve as diferentes culturas sem discriminao, igualmente lgico procurar-se uma perspectiva crtica antropolgica no momento em que discutimos a crtica e a destruio de todos os princpios de autoridade e de todas as ordens hierrquicas que so caractersticas da nossa cultura: e no se pode deixar de agir assim, uma vez que atualmente preciso convir que, a despeito de sua pretendida universalidade, a nossa uma cultura de classe e, mais ainda, uma cultura em declnio, que tende a dissimular seus prprios limites e contradies, mostrando-se superior s divises de classe. Aquilo que se apresentava como conceitos fundamentais para no importa que discursos sobre a arte (atualidade, valores, originalidade ou unicidade da obra) e como o nico meio vlido de reconhecer a qualidade artstica de critrios unilaterais, de meios pelos quais a classe dirigente, a burguesia, assume uma fruio privilegiada, apenas a transposio para um nvel artificialmente ideal dos interesses econmicos para os quais o produto artstico um bem de valorano 6, volume 1, nmero 8, julho 2005 33

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que se presta capitalizao ou a trocas vantajosas. A burguesia, no entanto, no mais a nica protagonista da histria, ela no pode mais afirmar o direito hegemnico de uma classe que detm o poder de orientar a cultura oposta a uma classe inferior de executantes manuais, de operrios. Pouco a pouco desenha-se o projeto, ainda incipiente, de uma cultura diferente pertencendo classe operria, do mesmo modo que a cultura atual caracterstica da burguesia. certo que essa nova cultura procurar superar a diviso de trabalho que domina a cultura burguesa e seu sistema de produo, e que ela o far sem eliminar a especializao e a autonomia disciplinares que so exigncias necessrias da pesquisa cientfica moderna. preciso se colocar em contato com esse processo de destituio progressiva de tudo que constitua privilgio, tanto na produo quanto no consumo da arte. A relao at agora fundamental da arte com a esttica, considerada a filosofia dos valores, assim como da escolha e do julgamento, encontra-se atualmente anulada. Eliminou-se o princpio segundo o qual a arte deve necessariamente produzir obras de arte, ou seja, objetos de valor que representam a prpria idia do objeto; e, dado que a idia do objeto implica o paralelo com aquela do sujeito, lgico que ao produtor privilegiado que o artista corresponde um consumidor privilegiado. Sem dvida, no curso da histria, a arte foi um elemento de prestgio e de autoridade dos grandes detentores do poder enquanto depositrios de valores ideais que eles administravam (e ainda administram), teoricamente em nome da coletividade. Discute-se o prprio conceito de arte, apresentando-a como categoria de conceitos estabelecidos de cima para afirmar, ao contrrio, que o conceito de arte s pode ser realizado na prpria prtica. Afirma-se ainda a indefinio da arte e, portanto, a impossibilidade de estabelecer a priori uma distino entre arte e no-arte na vasta sucesso de intervenes por meio das quais os homens atuam sobre o ambiente e o determinam. Se admitirmos o princpio segundo o qual todos os atos humanos, ou ao menos um grande nmero deles, determinam o meio material da existncia, torna-se claro que o nico modo de valorizar a arte pela constatao da positividade ou negatividade de sua relao com o meio. Existe, na arte contempornea, muitos sinais dessa tendncia que desembocam no urbanstico ou na ecologia. Poderamos dizer que, uma vez eliminada toda disparidade de nvel entre as artes maiores e as artes menores, uma vez superada a dificuldade de conciliar a produo da arte com a tecnologia industrial, a esfera fenomenolgica da arte coincidir com aquela da antropologia, de modo que, entre o estudo antropolgico e o estudo da arte, no haver mais nenhuma diferena de meios, mas apenas (e eventualmente) de mtodo. A ultrapassagem da concepo idealista da arte e a distino entre o artstico e o esttico so resultado do estudo dos fatos artsticos de um ponto de vista sociolgico. Existiria uma relao entre aquilo que chamamos de crtica sociolgica e a34 concinnitas

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crtica antropolgica sobre a qual acabamos de falar? A antropologia moderna estrutural, o que significa que ela tende identificao de estruturas profundas da cultura e, em ltima anlise, a demonstrar que, mesmo se certas culturas parecem tecnicamente mais desenvolvidas do que outras, toda cultura , em si, completa e autnoma. Em sua primeira fase, a sociologia da arte considerou os produtos artsticos determinados pela situao cultural e, especialmente, pelos grandes poderes religiosos, polticos ou econmicos, admitindo, assim, que os artistas nunca foram plenamente responsveis pela orientao ideolgica de seus trabalhos. A estrutura ou, melhor ainda, a composio de um produto artstico seria ento facilmente individualizvel, considerando-se que todos os seus componentes pertenceriam cultura de seu tempo e ao lugar em que ele foi realizado: a arte seria, substancialmente, apenas um meio de comunicao visual. Como imaginar, ento, que o produto artstico seja aceito e valorizado como tal por uma cultura longnqua no espao e no tempo e, por isso mesmo, absolutamente incapaz de acolher a mensagem que um tal produto tivesse transmitido em sua poca? Como explicar, por exemplo, que a escultura egpcia ou a escultura grega arcaica sejam vistas como obras-primas artsticas, se nem ao menos sabemos o que elas representavam e a que funo eram destinadas? Considerando-se que esses objetos nos interessam inicialmente como obras de arte e s depois como representaes de soberanos ou de deuses da Antigidade, chega-se facilmente quele lugar-comum segundo o qual a obra-prima artstica no possui nem tempo, nem lugar definidos, estando alm da histria e das diferenas entre as diversas culturas. Qual ser, ento, a disciplina que estudar as vicissitudes (que no estamos seguros a priori de poder chamar de histrica) das obras de arte? Essas vicissitudes sero constitudas apenas pela vida das obras de arte? ou pelas fases, pelos momentos de sua formao no pensamento e pela obra de seus autores? A distncia, que parecia impossvel superar, entre uma sociologia desejosa de dissolver inteiramente o produto artstico na situao cultural e uma semiologia cujo interesse o de fixar a estrutura profunda e constante de obras artsticas foi ultrapassada graas s pesquisas modernas (Mukarovisky, Panofsky, Francastel, Goldmann e outros), que demonstraram no haver estrutura que no pudesse ser explicada como fatos caracteristicamente culturais e, portanto, histricos, com a condio de nos lembrarmos de que a historicidade da arte no , como pensaram Hauser e Antal, o reflexo da histria religiosa, poltica ou econmica do tempo; ela antes especfica e intrinsecamente artstica. O que equivale a dizer que ela a histria de uma cultura que foi elaborada em sua origem pela arte e s pela arte , mesmo que inevitavelmente tenha tido contatos com a cultura institucionalizada de seu tempo. Assim como Lvi-Strauss, Fran...