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    AQUISIO DA LINGUAGEM

    VOLUME ESPECIAL - 2012

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    Entoao e lxico inicial

    Ester Scarpa (UNICAMP)1

    Flaviane Fernandes- Svartman (USP)

    RESUMO: A prosdia a ponte entre aspectos interacionais/ discursivos e formais/gramaticais na aquisio da

    linguagem. Esses dois aspectos so explorados, atravs das caractersticas entoacionais da fala de 3 crianas

    expostas ao portugus brasileiro. Desde a produo das primeiras palavras interpretveis como tais pela

    comunidade de fala, observam-se distines entoacionais bsicas estabelecidas em FO (tanto em curva de altura:

    ascendente vs. descendente, quanto em mbito de altura ou tessitura: meio-baixo a baixo vs. alto a baixo)

    alinhadas a enunciados de 1, 2, 3 e, minoritariamente, 4 slabas. Tais distines so relevantes em termos de

    significados gramaticais (modalidades, vocativos) e pragmticos (fala solitria vs. fala social), alm de fornecerem pistas para bootstrapping prosdico de determinantes, de papeis argumentais e de significados

    aspectuais.

    Palavras-chave: prosdia; entonao; aquisio da linguagem

    Introduo

    Em trabalhos anteriores, Scarpa (1999a; 2003), afirma que a prosdia um espao

    privilegiado de interface entre componentes lingusticos, desde os mais formais at os mais

    discursivos. Assim, na aquisio da linguagem tem, de maneira geral, face dupla. Por um

    1 Agradecemos ao apoio, no desenvolvimento deste trabalho, dos seguintes rgos de fomento pesquisa: CNPq

    (Bolsa de Produtividade em Pesquisa processo no. 301895/2010-4), para a primeira autora, e FAPESP (processo

    2011/50044-9), FCT (PTDC/CLE-LIN/119787/2010 ), para a segunda autora.

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    lado, a via privilegiada de engajamento do infante no dilogo, atravs da entoao e

    contrastes em direo da curva (ou tipo de contorno), tessitura, velocidade de fala,

    intensidade, durao. Ao mesmo tempo, o primeiro veculo da organizao das formas

    fnicas lingsticas, basicamente atravs da construo dos sistemas de ritmo (a includa a

    aquisio de acento primrio) e entoao. Em outras palavras, os fatos prosdicos so

    recursos lingsticos privilegiados, nos primeiros anos de vida, sobretudo no comeo da

    produo de um lxico reconhecido como tal, num estgio de parcos recursos expressivos de

    cunho lxico-gramatical: a prosdia estabelece a ponte inicial entre a organizao formal da

    fala e o potencial significativo e discursivo da lngua nos primeiros anos de vida; a

    possibilidade primeira de estruturao ligando o som ao sentido.

    O foco desta apresentao o perodo do comeo da produo das primeiras palavras,

    o dos chamados enunciados de uma palavra, tambm ditos holofrsticos, isto , um uma

    nica palavra expressando uma idia complexa. O perodo particularmente interessante

    porque , entre outras coisas, o encontro entre a percepo no primeiro ano de vida e

    produo no segundo ano e subsequentes.

    Este artigo est assim organizado: primeiro faremos consideraes sobre o que

    precede a produo dos primeiros sistemas entoacionais incidindo sobre o lxico inicial

    (vocbulos reconhecveis como tais pela comunidade de fala): a percepo/ processamento

    prosdico no primeiro ano de vida da criana, por um lado, e as caractersticas prosdicas da

    fala adulta dirigida criana (FDC) ou manhs. Em seguida, hipotetizamos uma possvel

    ligao entre tais fatores prlingusticos e a produo de sistemas prosdicos no segundo ano

    de vida, apresentamos argumentos em favor de uma trajetria de baixo para cima na

    aquisio da prosdia e na estruturao de uma gramtica dos sons por parte das crianas. O

    fenmeno dos sons preenchedores, apresentado em seguida, argumento independente em

    favor dessa hiptese. Finalmente, analisamos os sistemas entoacionais iniciais de duas

    crianas, sob a tica da Fonologia Entoacional.

    Os dados ilustrativos da nossa exposio vm de 3 corpora: A., na faixa etria de 1;2 a

    1;3, T. , entre 1;4 e 2;0 e R., entre 1;3 e 1;6. Os dados foram colhidos naturalisticamente em

    dilogos com membros da famlia. Os dados de A. Sero referidos no item 2, os de T. nos

    itens 2. e 3. e os de R. no tem 3 abaixo.

    1. Processamento prosdico, manhs e a hiptese de baixo para cima

    O que acontece no primeiro de vida, que prepara a criana para a organizao da

    forma fnica e o comeo da gramtica prosdica no segundo ano de vida? Por que caminhos a

    criana andou antes de ser capaz de produzir esses enunciados, que demonstram, ao mesmo

    tempo, informao sobre a interface entre a prosdia e outros componentes e pistas de

    processo de subjetivao na fala?

    Esses caminhos tm pelo menos duas facetas, que, ao meu ver, so complementares.

    A primeira vincula-se ao processamento, discriminao e segmentao do fluxo de

    fala da lngua da comunidade lingustica a que pertence. Desde os anos 60, como resultado de

    estudos experimentais, j se sabe que a criana pr-verbal discrimina entoaes ascendentes

    de descendentes. Algumas dcadas mais tarde (anos 80 e 90 do sculo passado), demonstra-

    se, entre outros achados, o reconhecimento e a discriminao, por parte dos bebs de alguns

    meses de vida, de categorias fonemticas da lngua materna, alm de perceber positivamente

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    fronteiras prosdicas maiores, correspondentes frase fonolgica. Mais ainda: conforme as

    metodologias dos estudos experimentais se sofisticam, os resultados mostram alcance cada

    vez maior do processamento e fina discriminao da prosdia da fala dirigida criana,

    estabelecendo essa capacidade cada vez mais cedo, a rigor, desde a vida intra-uterina, pois os

    fetos perceberiam mudanas em intensidade, frequncia e ordem de colocao de fonemas nas

    palavras curtas (para maiores detalhes, ver Name, 2011).

    A segunda diz respeito s caractersticas fortemente prosdicas (e de qualidades de

    voz) presentes nos enunciados dirigidos criana, que caracterizam o que se chama de fala

    dirigida criana (FDC) ou manhs (ver Cavalcante, neste volume).

    Vejamos, a esse respeito, um dilogo entre uma criana (A.), por volta de 14 a 16

    meses e seu interlocutor adulto.

    Dilogo (1)

    Criana: aba Adulto: A bola!! Que mais que tem aqui? Criana: A.. Adulto: O que? Criana: aba ba. (A., 1;2.05)

    A figura 1 traz o espectrograma do texto todo do dilogo, extrado com base no

    software PRAAT2, uma ferramenta de anlise de voz e as caractersticas prosdicas do

    dilogo que caracterizam o referido perodo de aquisio da criana.

    Fig. 1. Forma de onda, espectrograma, contorno de F0 e camadas de fraseamento prosdico e transcrio tonal do

    trecho do dilogo (1).

    2 O PRAAT doing phonetics by computer, um software de anlise de voz, de livre acesso, encontrada no site

    www.fon.hum.uva.nl/praat/.

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    Trata-se de uma interao entre A. E sua interlocutora adulta, numa situao de

    nomeao de figuras. O primeiro enunciado da criana, dita com um tom ascendente, tem seu

    pico de altura em 544Hz, um F0 bastante alto, mas compatvel com as altas frequncias de

    uma criana desta idade e do sexo feminino. A retomada do adulto que mostra frequncias

    no encontradas provavelmente nas interaes deste mesmo adulto com outro adulto: um tom

    sinusoidal (ascendente-descendente ou baixo-alto-baixo), cujo pico de F0

    atinge uma

    frequncia mais alta que a da criana, frequncia essa aumentada pela maior intensidade de

    sua emisso. O mesmo ocorre com o prximo turno do interlocutor, que repete as altas

    frequncias do seu enunciado anterior. Os dois enunciados do adulto so ilustraes da FDC

    ou, numa perspectiva mais interacional, o chamado manhs, cujas principais caractersticas

    so: altas frequncias, normalmente no encontrveis na interao adulto-adulto, retomadas

    expandidas morfossintaticamente dos enunciados da criana, adaptaes lexicalizadas dos

    vocbulos infantis (isto , cpia do que diz a criana, com a insero fonologicamente madura

    do lxico da lngua da comunidade). Tal comportamento lingustico do adulto acompanha

    geralmente o primeiro ano da vida da criana e no raro vai at bastante tarde, mesmo depois

    que a criana demonstra formas mais maduras de uso da lngua.

    A FDC/manhs faz, a nosso ver, mais do que ser o pano de fundo, o cenrio de

    interao social, para a fala que traria consigo a lngua materna. Recorta, contm, salienta,

    cerca as manifestaes orais ou gestuais do beb, oferece uma

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