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Rossi, Miguel A.. Aproximaes ao pensamento poltico de Immanuel Kant. En publicacion: Filosofia poltica moderna. De Hobbes a Marx Boron, Atilio A. CLACSO, Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales; DCP-FFLCH, Departamento de Ciencias Politicas, Faculdade de Filosofia Letras e Ciencias Humanas, USP, Universidade de Sao Paulo. 2006. ISBN: 978-987-1183-47-0

Disponible en la World Wide Web: http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/secret/filopolmpt/09_rossi.pdf

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INTRODUO

Constitui uma espcie de lugar comum minimizar o pensamento pol-tico de Immanuel Kant, especialmente quando comparado com a sua produo terica no terreno gnosiolgico ou tico.

bem verdade que as temticas do conhecimento e da liberda-de foram sempre as duas grandes problemticas do filsofo, mas no menos certo que pensar nelas a partir de um esvaziamento poltico constitui uma postura ingnua sem maiores justificaes.

Tanto Hegel quanto Marx, Weber e Nietszche, entre outros, ca-racterizaram a modernidade como o terreno das cises. Tais afirmaes podem ser consideradas mais do que inteligveis quando a antiguidade ou a idade mdia so tomados como parmetros de comparao.

Nosso objetivo , primordialmente, indagar no plano da teoria poltica kantiana, assumindo, porm, que no existem teorias indepen-dentes das prticas sociais. Portanto, a pergunta acerca da modernida-

Miguel A. Rossi*

Aproximaes ao pensamento poltico de Immanuel Kant

* Professor em Filosofia da Universidade de Buenos Aires (UBA). Mestre em Cincia Po-ltica na Faculdade Latino-americana de Cincias Sociais (FLACSO) e Doutor em Cincia Poltica da Universidade de So Paulo (USP). Professor de Teoria Poltica e Social I e II, Carreira de Cincia Poltica, Faculdade de Cincias Sociais, UBA.

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de supe necessariamente a reflexo sobre sua conscincia e prtica. No tocante a esse aspecto, consideramos que o pensamento poltico de Immanuel Kant constitui, por antonomsia, um dos olhares onde o iderio moderno se reflete com maior clareza e nitidez.

Partilhamos com Chtelet (Chtelet, 1992) seu juzo acerca da audcia de Kant ao se perguntar pelas condies existenciais da verda-de, enquanto a maioria dos filsofos anteriores a ele indagava apenas sobre a problemtica do erro, pois a idia de uma verdade absoluta era, para eles, o ponto de partida inevitvel.

O ingresso modernidade implica, entre outras coisas, uma rup-tura com a totalidade social organicista1, na qual o sujeito era percebido em funo de tal totalidade. Entramos no mbito das cises: separao do homem dos seus instrumentos de trabalho, falta de comunho entre ele e a natureza, quantificao desta, diviso social do trabalho, emer-gncia da sociedade civil diferenciada do Estado, s para mencionar algumas caractersticas do mundo nascente.

Essa dinmica scio-econmica ser simultaneamente acompa-nhada por mudanas profundas tanto no plano da teoria quanto no da prtica poltica. No que diz respeito ao primeiro aspecto, Kant ser o protagonista dessa grande revoluo. Ela supe, em primeiro lugar, conceber o sujeito do ponto de vista da pura atividade, inclusive criando as condies que permitem conhecer alguma coisa, graas renncia a conhec-la em si mesma. Tal renncia alcanar uma dimenso radical, alterando conseqentemente todos os mbitos da realidade. No pode-ria ser de outra maneira, pois, para a subjetividade moderna, trata-se do abandono de toda possvel metafsica.

Mas se, em termos kantianos, s podemos conhecer os fenme-nos e no as coisas em si (noumeno), na medida em que estas ltimas excedem o campo das nossas experincias, j no existem garantias de verdades absolutas, nem muito menos Deus que tambm no cog-noscvel em si mesmo ser garantia delas.

No obstante, estaramos cometendo um grave erro se penssse-mos que a modernidade est disposta a abandonar toda possvel garan-tia, pois, pelo contrrio, o logos moderno aceitar o desafio de conse-guir uma para si, como dadora de sentido e coeso social; o novo trono ser agora ocupado pela deusa razo.

Porm, no caso de Kant, no se trataria de uma razo qualquer; no a razo das idias inatas de Descartes, nem muito menos uma razo a servio da tosca experincia ou da teologia. uma razo que

1 Tal conceito de organismo ser retomado pelo imaginrio do sculo XIX, numa tentativa conservadora de recuperar a totalidade perdida. Para o positivismo, era comum estabele-cer uma analogia entre a sociedade e o organismo humano.

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estabelece o seu prprio tribunal, para fixar, para si mesma, os seus prprios limites.

A razo kantiana , antes de mais nada, uma razo cindida: uma razo ilustrada, equivalente a dizer uma razo crtica e pblica, mas tambm e talvez especialmente uma razo jurdica.

Essas caractersticas de racionalidade e essa a nossa hipte-se so as expresses tericas de uma prtica burguesa em expanso. Embora no caso especfico da Alemanha essa burguesia se encontrasse atrasada, foi um denominador comum dos pensadores idealistas ale-mes o pensar tal prtica do ponto de vista da impotncia dos seus prprios contextos sociais.

Suspendamos momentaneamente esse suposto para dilucid-lo com maior profundidade. Se partirmos do ensaio kantiano O que a ilustrao?, evidente que h um uso duplo da razo: seu uso pblico e seu uso privado.

De acordo com o primeiro uso, um direito do homem enquan-to ilustrado e livre exercer amplamente o plano da crtica. somente atravs dela que uma evoluo social ser possvel, sobretudo quan-do se trata de dspotas ilustrados vidos de escutar os interesses da burguesia. Mas essa crtica verte suas energias sobre o passado, uma crtica da denncia: denuncia obscuridades, preconceitos, instituies que j no podem cristalizar o esprito de uma nova poca. uma cr-tica que se faz transparente e necessita imperiosamente do requisito da publicidade, pois se trata justamente de ir construindo a poltica do espao pblico.

De acordo com o segundo, a razo deve limitar o seu uso crtico. No h outro caminho alm do da obedincia. Se, por um lado, deve-se criticar, pelo outro, deve-se obedecer. Ambas as instncias devem man-ter, simultaneamente as suas prprias distncias. S assim o transcor-rer das sociedades em direo ao melhor ser possvel, s assim ser legitimada uma deliberao da coisa pblica que no ponha em xeque os interesses privados. uma razo ambgua, pois muito embora a cr-tica seja exercida pela dinmica da sociedade civil, ela se depara com a lgica do Estado, que pensado juridicamente, e curiosamente termina naturalizando os interesses do privado. Essa a razo pela qual o pen-samento de Kant captou melhor do que nenhum outro os interesses da burguesia, na medida em que permite dissociar o poltico como reino da igualdade formal do social como reino da desigualdade. Entretanto, no queremos ser injustos com Kant, cujo diagnstico valioso e reve-lador para ns, nem muito menos deixar de reconhecer os esforos de uma razo pblica capaz de construir uma poltica deliberativa, uma poltica do espao pblico. Acreditamos que tal aspecto no escapou ao olhar de Arendt, nem tampouco aos tericos da teoria deliberativa. Da mesma forma que eles, tambm ns apostamos numa poltica deli-

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berativa. Anos de histria nos fizeram conscientes do perigo derivado do desmoronamento ou supresso do espao pblico, mas tambm es-tamos convencidos de que o embasamento de uma autntica comuni-dade deliberativa deve partir da resoluo das necessidades bsicas dos homens. Caso contrrio, continuaremos subsumidos numa lgica que estabelece cidados de primeira e de segunda ordem.

1. KANT E O CONTRATUALISMO

A. ESTADO DE NATUREZA2

A categoria de estado de natureza foi um dos tpicos comuns centrais do iderio jurdico, filosfico e poltico dos sculos XVII e XVIII. Nesse sen-tido, Immanuel Kant no constituiu uma exceo, ainda que o conceito tivesse para o filsofo alemo diferentes conotaes axiolgicas, tomando Hobbes e Rousseau como principais interlocutores em relao a este.

Fica claro que, para Kant, o conceito em questo tem, fundamen-talmente, pelo menos duas dimenses: como ideal crtico, na medida em que serviria para denunciar as sociedades atuais; e como hiptese de trabalho, na medida em que justifica o advento do Estado civil.

No que diz respeito primeira dimenso, cabe destacar a grande influncia de Rousseau, especialmente de suas agudas crticas dinmica do progresso como portador das sociedades do luxo e do refinamento3.

Em relao segunda, que vir a se tornar hegemnica no esquema kantiano, assimila-se o estado de natureza ao estado de guerra hobbesiano.

2 na Metafsica dos costumes que se explicitam, amplamente e com profundidade, as rela-es entre o direito natural e o direito positivo. A esse respeito, concordamos com Cortina Orts na idia de que articular ambas as facetas do direito no deixa de apresentar graves di-ficuldades, fato pelo qual se pde interpretar a postura de Kant como jusnaturalista e como apologista do direito positivo. Em nosso trabalho, limitar-nos-emos ao modelo jusnaturalis-ta na sua variante contratualista, mas antes de nos dedicarmos a tal propsito, transcrevere-mos literalmente as razes aduzidas por Orts que mostram um Kant distanciado do jusna-turalismo. O sentido de tal transcrio obedece nitidez das argumentaes da autora, que falam por si ss: a) Se por direito natural entendemos um conjunto de princpios que pode ser extrado do conhecimento da natureza humana, Kant no jusnaturalista porque a natureza humana no pode se conhecer a no ser empiricamente e um conhecimento emp-rico carece de

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