apostila politicas

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CURSO DE FARMCIA FMU DISCIPLINA DE POLTICAS DE SADE NO BRASIL Texto de apoio discente baseado na bibliografia recomendada Profa. M de Ftima B. Pavan - 2010 CONCEITO DE SADE:

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OMS (1948) - Sade um estado de completo bem-estar fsico, mental e social e no meramente ausncia de afeces ou enfermidades. (www.who.int/). Dicionrio Aurlio: Sade o estado do indivduo cujas funes orgnicas, fsicas e mentais se acham em situao normal1 Sade o resultado do equilbrio dinmico entre o indivduo e o seu meio ambiente 2 Segundo alguns autores, a sade no um conceito abstrato, ela se define no contexto histrico de determinada sociedade e num dado momento no desenvolvimento, devendo ser conquistada pela populao em suas lutas cotidianas. Consta nos anais da 8 Conferncia Nacional de Sade (1987, pg. 382) que a sade, em seu sentido mais abrangente, ... a resultante das condies de alimentao, habitao, educao, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse da terra e acesso a servios de sade. assim, antes de tudo, o resultado das formas de organizao social da produo, as quais podem gerar grandes desigualdades nos nveis de vida. O conceito de sade, ao longo do tempo, vem sendo modificado, adquirindo novos contornos e conexes com outros campos de ao da vida humana. Aristteles (384-322 a.C.), filsofo grego, definia a sade como um dos bens que cooperam para a produo da felicidade, objetivo maior da vida. Estas concepes trazem o conceito de sade como um dom inato que os homens, detentores de livre-arbtrio, so capazes de interferir por meio de bons ou maus hbitos. Ou seja, sade um fato complexo que leva a recorrer a diversos campos de conhecimento como a filosofia, a sociologia, a antropologia, a histria, enfim s cincias humanas e sociais, bem como as cincias da sade, sobretudo o campo da biologia. Os autores entendem que a sade resulta das condies concretas de vida da populao, que por sua vez resulta da ao poltica de sujeitos sociais, que disputam recursos de vrias ordens (financeiros, polticos, institucionais etc). Os servios de sade, de sua parte, resultam de concepes de sade e, tambm, de interesses de atores que jogam o jogo da sade. Sade e organizao de servios so espaos de disputa, de afirmao ou negao de direitos e de necessidades. O conceito de sade nos ltimos dois sculos incorporou a dimenso de produo social, ou seja, como resultante de condies concretas de vida (renda, alimentao, condies de trabalho e moradia etc), tal fato decorre de movimentos polticos e sociais, por necessidades de ampliao das taxas de lucratividade do capital e por razes estratgicas do Estado. Para Campos (2006), o conceito de sade da OMS contribuiu muito para ampliar o conceito mdico dominante de que sade seria simplesmente a ausncia de doena. Ao acrescentar bem - estar mental e social sua diretriz abriu espao para se pensar o direito sade de maneira mais ampla e reforou as correntes de pensamento que defendiam uma abordagem integral ou ampliada do processo sade e doena. No entanto, ao definir sade como um estado de completo bem-estar, resvalou para uma concepo de sade como sendo um estado absoluto, ou seja, uma possibilidade rara ou inexistente de gozo fsico, mental e social deixando na sombra os estados intermedirios entre este suposto estado de xtase e a morte. Seria, ento, conveniente trabalhar com um conceito de sade pensada em graus ou em coeficientes relativos ao estado (estar e no ser) de cada pessoa ou de cada agrupamento populacional. 8 Conferncia Nacional de Sade (1987): sade, em seu sentido mais abrangente, ... a resultante das condies de alimentao, habitao, educao, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse da terra e acesso a servios de sade. No Brasil, a Constituinte de 1988 no captulo VIII da Ordem social e na seco II referente Sade define no artigo 196 que: A sade direito de todos e dever do estado, garantido mediante polticas sociais e econmicas que visem a reduo de risco de doena e de outros agravos e ao acesso universal e igualitrio s aes e servios para sua promoo, proteo e recuperao. Lei 8.080, de 19 de setembro de 1990, define: A sade tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentao, a moradia, o saneamento bsico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educao, o transporte, o lazer e o acesso a bens e servios essenciais: os nveis de sade da populao expressam a organizao social e econmica do pas. O PROCESSO SADE-DOENA Segundo informaes expostas no livro 1 da srie de manuais do Projeto Sade & Cidadania do PROAC Banco Ita (www.sade.sc.gov.br/gestores/sala_de_leitura/sade_e_cidadania/ed-01/03 HTML), o sistema de sade tem como objeto de trabalho o processo sade-doena, em sua complexidade e abrangncia, e seus determinantes das condies de sade da populao. Assim, a sade deve ser entendida em sentido mais amplo, como componente da qualidade de vida e, portanto, no um "bem de troca", mas um "bem comum", um bem e um direito social, no sentido de que cada um e todos possam ter assegurado o exerccio e a prtica deste direito sade, a partir da aplicao e utilizao de toda a riqueza disponvel, conhecimentos e tecnologia que a sociedade desenvolveu e vem desenvolvendo neste campo, adequados s suas necessidades, envolvendo promoo e proteo da sade, preveno, diagnstico, tratamento e reabilitao de doenas.

CURSO DE FARMCIA FMU DISCIPLINA DE POLTICAS DE SADE NO BRASIL Texto de apoio discente baseado na bibliografia recomendada Profa. M de Ftima B. Pavan - 2010

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O processo "sade-doena" representa o conjunto de relaes e variveis que produzem e condicionam o estado de sade e doena de uma populao, que varia nos diversos momentos histricos e do desenvolvimento cientfico da humanidade. Historicamente, houve a teoria mstica sobre a doena, em que os antepassados a julgavam como um fenmeno "sobrenatural", superada, posteriormente, pela teoria de que a doena era um fato decorrente das alteraes ambientais no meio fsico e concreto que o homem vivia, envolvendo teoria do contgio. Com os estudos de Louis Pasteur (na Frana), entre outros, veio a prevalecer a Teoria da Unicausalidade, com a descoberta dos micrbios (vrus e bactrias) e, portanto, do AGENTE ETIOLGICO, ou seja, aquele que causa a doena. Teoria esta que, pela sua incapacidade e insuficincia de explicar a ocorrncia de uma srie de outros agravos sade do homem, veio a ser complementada como uma srie de conhecimentos produzidos pela epidemiologia, que evidencia a multicausalidade na determinao da doena e no apenas a presena exclusiva de um agente e, finalmente, uma srie de outros estudos e conhecimentos provindos principalmente da epidemiologia social, nos meados deste sculo, que veio esclarecer melhor a determinao e a ocorrncia das doenas nos indivduos e, principalmente, das populaes, do coletivo e entre as classes sociais. Desse modo, surgiram vrios modelos expressando a explicao e compreenso da sade, da doena e do processo sade/doena, como o modelo epidemiolgico baseado nos trs componentes - agente, hospedeiro e meio, considerados como "fatores causais" -, evoluindo para modelos mais abrangentes, como o do "campo de sade", envolvendo ambiente (no apenas o ambiente fsico), estilo de vida, biologia humana e sistema/servios de sade, numa permanente inter-relao e interdependncia. Outros autores j questionam este modelo, ressaltando, por exemplo, que o "estilo de vida" a colocado implicaria em uma opo e conduta pessoal voluntria, o que pode no ser verdadeiro, pois pode estar condicionado a fatores sociais, culturais, entre outros. De qualquer modo, e em ltima instncia, o importante saber e reconhecer esta abrangncia e complexidade causal: que sade e doena no so estados estanques, isolados, de causa aleatria, no se est com sade ou doena por acaso. H uma determinao permanente, um processo causal, que se identifica com o modo de organizao da sociedade. Da se dizer que h uma produo social da sade e ou da doena. Outro nvel de compreenso que se h de ter em relao ao processo sade-doena o conceito do que ser ou estar doente ou o que ser ou estar saudvel. No conjunto de uma dada populao h indivduos sujeitos a fatores de risco de adoecer com maior ou menor freqncia e com maior ou menor gravidade, alm do que h diferenas de possibilidades entre estes de "produzir condies para sua sade" e ter acesso aos cuidados no estado da doena. H, portanto, grupos que exigem aes e servios de natureza e complexidade variada. Ou seja, o objeto do sistema de sade deve ser entendido como as condies de sade das populaes e seus determinantes, ou seja, o seu processo de sade/doena, tendo em vista produzir progressivamente melhores estados e nveis de sade dos indivduos e das coletividades, atuando articulada e integralmente nas prevenes primria, secundria e terciria, com reduo dos riscos de doena, seqelas e bito. Isto posto, h que se compreender outra dimenso, que aquela que, necessariamente, coloca o processo de interveno, por meio de um sistema de cuidados para a sade, no sentido de atender s necessidades, demandas, aspiraes individuais e coletivas, como um processo tcnico, cientfico e poltico. poltico, no sentido que se refere a valores, interesses, aspiraes e relaes sociais e envolve a capacidade de identificar e priorizar as necessidades de sade individuais e coletivas resultantes daquele complexo processo de determinao e acumular fora e poder para nele intervir, incluindo a alocao e garantia de utilizao dos recursos necessrios para esta interveno. tcnico e cientfico, no sentido de que este saber e este fazer em relao sade/doena da populao no deve ser emprico e pode e deve ser instrumentalizado pelo conhecimento cientfico e desenvolvimento tecnolgico hoje disponibilizado pelo avano e progresso da cincia. Portanto, o saber e o fazer em relao a sade da populao por meio de um sistema de sade uma tarefa que implica na concorrncia de vrias disciplinas do conhecimento humano e na a