Apostila Const. Do Conhecimento I

Download Apostila Const. Do Conhecimento I

Post on 25-Nov-2015

22 views

Category:

Documents

7 download

TRANSCRIPT

  • Docência do Ensino Superior Pós-Graduação a distância Construção do Conhecimento na Educação Prof.ª Vivian Rio
  • Sumário TEORIAS DA CONSTRUÃÃO DO CONHECIMENTO: ABORDAGENS E IMPACTOS ........................................................................... 4 PRIMEIRA REFLEXÃO SOBRE O PROCESSO DE ENSINO- APRENDIZAGEM ..................................................................... 4 O MITO DA CAVERNA .............................................................. 4 Homem ou urso? ....................................................................... 4 TEORIAS DA APRENDIZAGEM ................................................. 7 O que é uma teoria? .................................................................. 7 O que á aprendizagem? .............................................................. 8 Aprendizagem: processo, produto ou função ................................ 9 Aprendizagem como um produto ................................................ 9 Aprendizagem como um processo: ............................................. 10 Aprendizagem: planejada ou crescimento natural ......................... 12 Aprendizagem: crescimento com enfoque no desenvolvimento cognitivo ................................................................................. 12 Aprendizagem independente ...................................................... 13 Aprendizagem não como um processo único ................................. 13 Teorias da aprendizagem .......................................................... 14 RELACIONANDO PIAGET, VYGOTSKY E PAULO FREIRE ........... 14 QUADRO SINTÃTICO DAS PRINCIPAIS ABORDAGENS ........... 14 QUADRO DE TEORIAS DE APRENDIZADO ............................... 15 ORIENTAÃÃO BEHAVIORISTA ................................................ 16 ORIENTAÃÃO COGNITIVA ...................................................... 17 ORIENTAÃÃO HUMANISTA ..................................................... 17 ORIENTAÃÃO SOCIAL / SITUACIONAL .................................. 19 PRIMEIRA IMPLICAÃÃO DE A APRENDIZAGEM SER UM PROCESSO COMPLEXO: ESTRATÃGIAS DE APRENDIZAGEM .... 21 Etratégias de aprendizagem ....................................................... 21 Exercício ................................................................................. 21
  • SEGUNDA IMPLICAÃÃO DE A APRENDIZAGEM SER UM PROCESSO COMPLEXO: COMO AVALIAR? ................................................ 24
  • www.posugf.com.br Abordagens da Construção do Conhecimento 4 TEORIAS DA CONSTRUÃÃO DO CONHECIMENTO: ABORDAGENS E IMPACTOS PRIMEIRA REFLEXÃO SOBRE O PROCESSO DE ENSINO- APRENDIZAGEM O MITO DA CAVERNA Imagine homens vivendo numa moradia subterrânea em forma de caverna, cuja entrada, aberta à luz, se estende sobre toda a largura da fachada. Estes homens aí se encontram desde a infância, presos em cadeias, de costas para a entrada, olhando para os fundos. Fora há um fogo aceso sobre uma eminência; entre o fogo e os prisioneiros, uma passarela. Ao longo da passarela, ergue-se um pequeno muro, semelhante aos tabiques que os exibidores de fantoches erigem à frente deles e por cima dos quais mostram suas maravilhas. Imagine agora que homens, transportando utensílios de toda espécie que ultrapassem a altura do muro, estejam passando na passarela. Entre os portadores uns falam, outros se calam. Os prisioneiros, nessa situação, jamais viram outra coisa senão as sombras, jamais ouviram outra voz senão os ecos que reboam no fundo da caverna. Falarão das sombras como se fossem objetos reais, terão os ecos como vozes verdadeiras. Esses estranhos prisioneiros se assemelham a nós homens. Se um desses prisioneiros se levantar, volver o pescoço, caminhar, erguer os olhos à luz, tais movimentos o farão sofrer, e a luz, ofuscando-lhe a vista, o impedirá de ver os objetos cuja sombra enxergava há pouco. Ficará muito embaraçado e dirá que as sombras que via há pouco são mais verdadeiras do que os objetos que ora lhe são mostrados. Se fitar a própria luz, seus olhos ficarão feridos. Deslumbrado pelo fulgor, necessitará de hábito para ver o espetáculo da região superior. Lembrando-se então da primeira morada, da sabedoria que nela se professa, de seus companheiros de cativeiro, alegrar-se-á com sua mudança e lastimará a sorte destes últimos. Não sentirá ciúmes das honras, louvores e distinções que lá se distribuem. Preferirá, como herói de Homero, ser apenas um servente de charrua, a serviço de um pobre lavrador e sofrer tudo no mundo, a voltar às suas antigas ilusões e viver como vivia. Suponha que nosso homem torne a descer à caverna e vá sentar-se em seu antigo lugar. Nesta passagem súbita da pura luz para a obscuridade não lhe ficariam os olhos como que submersos em trevas? E se, enquanto tivesse a vista confusa â porque bastante tempo se passaria até que os olhos se afizessem de novo à obscuridade â tivesse de dar opinião acerca das sombras, numa discussão com seus companheiros, não provocará riso à própria causa e não dirão eles que, tendo ido a região superior, voltou com a vista arruinada, de sorte que não vale mesmo a pena subir até lá? E se ele tentasse soltá-los e conduzi-los ao alto, não iriam eles pegá-lo e matá-lo? HOMEM OU URSO? Era uma vez um urso que morava em sua floresta. Conhecia cada canto de seu habitat. Os rios, as árvores, os outros animais, tudo com detalhes familiares a um morador antigo. Todos os anos durante o inverno rigoroso, o urso entrava na caverna e ficava até o verão hibernando, dormindo. Durante o inverno o urso ficou dentro da caverna.
  • www.posugf.com.br Abordagens da Construção do Conhecimento 5 Quando chegou o verão, ele saiu ansioso para ver a floresta. E algo diferente aconteceu nesse ano. Surpresa enorme teve nosso personagem quando percebeu que a floresta havia sido derrubada e no lugar dela havia uma indústria. Não acreditou no que estava vendo. Ele se beliscou várias vezes achando que sonhava. De repente se aproxima dele um trabalhador e lhe pergunta: - O que o senhor está fazendo aí parado? - Eu? Retrucou o urso. Ora, não estou fazendo nada, estou apenas olhando. - Vá fazer a barba, tomar banho, trocar de roupa e começar a trabalhar, ordenou o funcionário. - Ora, deixe disso. Eu sou um urso. Não vou fazer a barba, nem tomar banho, nem trocar de roupa e muito menos trabalhar. - Eu não vou discutir com o senhor. - Imediatamente chamou o chefe da seção. - Ele está dizendo que é um urso. - Ora, disse o chefe. Vamos parar de brincadeira. Vá fazer a barba, tomar banho, trocar de roupa e começar a trabalhar. - Eu não vou. Eu sou um urso. Não vou fazer a barba, nem tomar banho, nem trocar de roupa e muito menos trabalhar. - Eu não vou discutir. Vou levá-lo ao gerente da empresa. Lá se foram os 3, urso, funcionário e chefe ter com o gerente. - O que está acontecendo, perguntou o gerente. - Esse camarada está dizendo que é um urso, respondeu o chefe. - Estou dizendo não. Eu sou um urso. E não adianta querer me enganar. - Vamos parar com essa brincadeira. Vá fazer a barba, tomar banho, trocar de roupa e começar a trabalhar. - Não vou fazer nada disso. - Vamos levá-lo ao diretor, disse o gerente. - Senhor diretor: temos aqui um pequeno problema. Este nosso funcionário teima em afirmar que é um urso. - Teimo não. Vocês é que teimam em dizer o contrário. Eu sou um urso. - Pronto, disse o diretor. Está resolvido. O senhor agora vá fazer a barba, tomar banho, trocar de roupa e começar a trabalhar. E não se fala mais nisso. à uma ordem. - Ora essa, eu não recebo ordens de ninguém. Eu sou um urso. Não vou fazer o que o senhor está mandando! Resolveram levá-lo ao vice-presidente, que já sabia do disque-disque na empresa e foi falando sem muita paciência: - Olha aqui. Não tenho tempo a perder. Sou um homem muito ocupado. Vá imediatamente fazer a barba, tomar banho, trocar de roupa e começar a trabalhar, ou eu vou demiti-lo. - Pode demitir, disse o urso, eu não estou nem admitido. Eu sou um urso, um urso! Entenderam ou não? - Bem, disse o vice-presidente - vamos comunicar o presidente. E lá se foram, o urso, o funcionário, o chefe, o gerente e o vice-presidente. Cada sala era maior que a outra e o urso se espantava com o número de secretárias. O presidente foi logo se adiantando. - Seja bem vindo meu amigo urso! - Ora eu nem estou acreditando - retrucou o urso. - Deixem-nos a sós, pediu o presidente. - E saíram todos, ficando apenas o urso e o presidente. - Vamos dar uma volta, comunicou o presidente. - Com muito prazer, respondeu o urso. - E lá se foram ao jardim zoológico. Quando lá chegaram, viram logo uma jaula em que moravam alguns ursos. Perguntou o presidente ao urso que estava dentro da jaula: - Meu amigo urso, poderia me tirar uma dúvida? - Com toda certeza, disse o urso. - Este que está aqui comigo - apontando para o urso que o acompanhava - é um homem ou um urso? - à um homem, afirmou o urso. Se ele fosse urso, estaria aqui dentro da jaula.
  • www.posugf.com.br Abordagens da Construção do Conhecimento 6 O urso ficou espantado. O presidente continuou com aquele olhar confiante, astuto. - Vamos ao circo, disse o presidente. - Sim, concordou o urso. No circo, a cena se repetiu. O presidente pediu ao urso do picadeiro que esclarecesse a mesma dúvida. - Ora, é um homem. Se fosse um urso estaria no picadeiro. E um ursinho atrevido deu uma força: - O que ele precisa é fazer a barba, tomar um banho, trocar de roupa e trabalhar (esse vagabundo esperto!) Urso ou homem, não se sabe ao certo. Voltou com o presidente para a empresa. Fez fazer a barba, tomou um banho, trocou de roupa e começou a trabalhar. Trabalhou incansavelmente e sem muito tempo para pensar até que chegou novamente o inverno. Todos na indústria foram para suas casas; houve férias coletivas devido ao frio rigoroso. E ele, para onde iria? Ele andou de um lado para o outro, passou perto da caverna e resolveu que não poderia entrar. Tinha feito a barba, tomado um banho, trocado de roupa e trabalhasdo. Não era urso certamente. Depois de muito resistir, entrou na caverna. Deitou-se, fechou os olhos, coçou a barriga e dormiu... E sonhou que era urso. Afinal, ele era um homem ou era um urso? Perguntas para reflexão: 1. Quais são as ideias centrais de cada um dos textos? 2. O que há de semelhante entre os dois textos? 3. Que relação existe entre as idéias centrais do texto e o processo de aprendizagem? 4. Que comparações você poderia fazer entre esses textos e a prática docente? 5 Que comparações você poderia fazer entre esses textos e a prática dos aprendizes em sala de aula? Discussão sobre as 4 perguntas acima Note que, no vídeo, procurei justificar o porquê da escolha desses dois textos para iniciar nossa discussão sobre aprendizado e prática docente. Não pretendo, de forma alguma, cercear possíveis reflexões e interpretações a partir dos textos âMito da Cavernaâ e âHomem ou Urso?â. Essa é uma ressalva importante para quem trabalha com leitura e interpretação, que será aprofundada no devido momento (e disciplina desse curso). Antes de iniciar os trabalhos com conceitos importantes para esta disciplina, reflita: ⢠Quais são suas ideias principais sobre como humanos aprendem? ⢠Com base em sua experiência pessoal, que fatores-chave estão relacionados à aprendizagem? ⢠Se você tivesse um entendimento mais profundo sobre como os sujeitos aprendem, como você usaria essa informação na sua prática docente? ⢠Com base na sua experiência, que tipos de conhecimentos você acha que devem ser aprendidos nas aulas de português?
  • www.posugf.com.br Abordagens da Construção do Conhecimento 7 Observe que, neste material, haverá muitas perguntas para reflexão, para que você, professor/educador, percorra os conceitos da disciplina com um olhar reflexivo, buscando as suas próprias respostas a essas perguntas. Lembre-se de que o conhecimento não se forma a partir de um conjunto de respostas, mas, muito mais, a partir de perguntas e da busca â muitas vezes incessante â dessas respostas que, nem sempre, estão prontas ou são definitivas. TEORIAS DA APRENDIZAGEM Na maioria dos cursos de graduação ou especialização em pedagogia e em metodologia do ensino, as teorias de aprendizagem são apresentadas, trabalhadas e discutidas pelos futuros ou pelos já experientes educadores. Apesar de saber as diversas teorias, ainda há muitos educadores que fazem as seguintes perguntas a si mesmos: ⢠Quais teorias de aprendizagem estão alinhadas com a minha própria visão sobre a natureza humana e o propósito da educação? ⢠Que teoria da aprendizagem eu deveria adotar e sob quais circunstâncias? ⢠Como devo explicar a natureza e as conseqüências das várias teorias da aprendizagem? ⢠Quais são as implicações das várias teorias da aprendizagem para o desenvolvimento das competências dos alunos? ⢠Que teoria de aprendizagem está mais consistente com a minha concepção sobre o papel do educador? Antes de tentar começar a encontrar respostas, você precisa saber que essas perguntas são naturais e decorrentes do fato de que, nas teorias de aprendizado, há também hipóteses sobre a natureza humana, o propósito da educação e os valores desejáveis. Por tamanha complexidade é que, em geral, os ânão teóricosâ até se arrepiam ao ter que lidar com teorias. Mas esse arrepio pode ser decorrente também de uma complicação na abordagem das teorias e de, historicamente, haver uma separação muito dicotômica entre teoria e prática, como se uma existisse independentemente da outra. Só que compreender melhor as várias teorias da aprendizagem pode resultar em melhores decisões sobre a prática docente, as experiências de aprendizagem e quais os possíveis resultados esperados. Afinal, é para isso que serve uma boa teoria: apresentar as explicações para fenômenos e, mais importante ainda, orientar as ações. O QUE à UMA TEORIA? Existem muitas perspectivas para definir o que é uma teoria, que podem ser sintetizadas da seguinte forma: ⢠Teoria é um conjunto direcionador de suposições; ⢠Teorias é um sistema de ordenamento que sintetiza nitidamente os fatos e/ou suposições, generalizações e hipóteses. Além disso, as teorias podem ser implícitas, como afirma Torraco (1997, p. 114) âPoucas pessoas, além dos teóricos, se entusiasmam com teorias. Teorias, assim como verduras e torneios de golfe transmitidos pela televisão, não estimulam pessoas. A maior parte das teorias, com exceção das verdadeiramente revolucionárias, como as contribuições e Newton, Einstein e Darwin, operam em silêncio nos bastidores. Elas podem aprofundar nosso entendimento sobre um evento do mundo real ou comportamento, ou podem nos ajudar a prever o que irá
  • www.posugf.com.br Abordagens da Construção do Conhecimento 8 acontecer em uma dada situação. Mas elas fazem isso sem muito alarde.â Há, por outro lado, perspectivas de psicólogos que absolutamente não acreditam em teorias. Skinner, por exemplo, se opõe a teorias porque acredita que os procedimentos de hipótese-elaboração-testagem são vazios e enganosos. Para o autor, o resultado da investigação científica é um ârelacionamento funcional demonstrado por dadosâ. Gagne (1985) é outro autor que afirma: ânão acredito que a aprendizagem é um fenômeno que possa ser explicado por teorias simples, apesar do apelo supostamente intelectual que tais teorias têmâ. Mas o mesmo Gagne reconhece haver generalizações úteis que podem ser feitas sobre mudanças de classes de performance, que ele descreve como condições de aprendizagem. Assim, uma teoria pode ser definida como âaquilo que determinado autor afirma que ela éâ. Se você deseja entender o pensamento de certo autor, então é preciso seguir as definições dele. Isso que dizer que âa teoria é um sistema de ideias abrangente, coerente e internamente consistente sobre um conjunto de fenômenosâ (Knowles, Holton III & Swanson, 2009, p. 12). Note: a teoria é uma construção de um autor/pesquisador. Não significa que ela seja a verdade absoluta nem que apenas uma teoria precise ser adotada, ainda mais em se tratando de pedagogia, aprendizagem e conhecimento. Só é preciso adotar teorias que tenham uma abordagem ou princípios não contraditórios entre si. O QUE à APRENDIZAGEM? Um homem que sabe pouco ou nada de ciência médica não poderia ser um bom cirurgião, mas a excelência na cirurgia não é a mesma coisa que o conhecimento da ciência médica, não é um simples produto desta. O cirurgião deve realmente ter aprendido, por meio da instrução ou por suas próprias induções e observações, um grande número de verdades, mas ele também deve ter aprendido pela prática de um grande número de aptidões. (Ryle, 1949, p. 48-49) Aprender ou melhorar uma habilidade não é como aprender ou adquirir informações. Verdades podem ser transmitidas, os procedimentos só podem ser incorporados e, por isso, é um processo gradual. Faz sentido perguntar em que momento alguém está ciente de uma verdade, mas não faz sentido perguntar em que momento alguém adquiriu uma habilidade. (Ryle, 1949, p. 58). Antes de definir o que é aprendizagem, é importante distinguir o que é educação e o que é aprendizagem. Educação Aprendizagem - Atividade realizada ou iniciada por um ou mais agentes cujo objetivo é efetuar mudanças no conhecimento, na habilidade e nas atitudes de indivíduos, grupos ou comunidades. - Destaque para o educador, o agente de mudança que apresenta estímulos e reforço para a aprendizagem e cria atividades para induzir a mudança - Ato ou processo pelo qual a mudança comportamental, o conhecimento, as habilidades e as atitudes são adquiridas. - Destaque para a pessoa na qual a mudança acontece ou espera-se que aconteça.
  • www.posugf.com.br Abordagens da Construção do Conhecimento 9 Quando se trata de aprendizagem, portanto, deve-se focar no aprendiz. Isso tem um impacto importante: o educador não deve considerar o quanto ele sabe sobre o assunto, o que ele acha importante ensinar e como foi a melhor forma de ele aprender; mas sim o que o aprendiz precisa saber e desenvolver, o que impacta na vida desse aprendiz e como é a melhor forma de ele aprender. Apesar dessa diferenciação já conter uma definição do que é aprendizagem, quando se volta aos teóricos, há muitos que acreditam ser difícil definir esse termo, como afirma Smith (1982, p. 34): Já foi sugerido que o termo aprendizado desafia uma definição precisa, pois ele é aplicado em múltiplos contextos. Aprendizagem é usada para se referir a (1) aquisição e domínio do que já é conhecido sobre algo, (2) extensão e esclarecimento do significado e da experiência de uma pessoa, ou (3) um processo organizado e intencional de testar idéias relevantes para os problemas. Em outras palavras, ele é usado para descrever um produto, processo ou função. Outros acham que não há discordância essencial entre as definições existentes, como afirma Ernest Hilgard: Apesar de ser extremamente difícil formular uma definição satisfatória de aprendizagem que inclua todas as atividades e processos que desejamos incluir e elimine todos aqueles que desejamos excluir, a dificuldade não é constrangedora, pois ela não é uma fonte de controvérsia entre teorias. A controvérsia está entre fato e interpretação, e não sobre a definição. Hilgard e Bower, 1966, p. 6 Essa generalização parece encontrar aceitação entre todos os teóricos de aprendizagem que dominaram a área até os dias de hoje, embora haja variações imensas no grau de precisão entre elas. Passemos, então, a algumas abordagens para definir o conceito de aprendizagem. Aprendizagem: processo, produto ou função Há um consenso notável em relação à definição de aprendizagem como sendo refletida em uma mudança de comportamento como resultado da experiência. (Haggard, 1963, p. 20) Há inúmeros autores que defendem a ideia de que a aprendizagem é evidenciar por uma mudança de comportamento como resultado da experiência. O que Harris e Schwahn (1961) enfatizam é a distinção da concepção de aprendizagem como um (i) produto, ou seja, resultado final ou efeito da experiência da aprendizagem, como um (ii) processo, isto é, enfatiza-se o que acontece durante uma experiência de aprendizagem para obter um dado produto ou resultado da aprendizagem, e como uma (iii) função, que enfatiza alguns aspectos críticos da aprendizagem, como motivação, retenção e transferência, o que supostamente torna possível as mudanças comportamentais na aprendizagem humana. Aprendizagem como um produto Se ler um livro de psicologia, especialmente dos anos 1960 e 1970, provavelmente, haverá a definição de aprendizagem como uma mudança de comportamento, ou seja, a aprendizagem é considerada como um resultado, o produto final de algum processo, que pode ser reconhecido ou visto. Essa abordagem tem o mérito de destacar um aspecto crucial da aprendizagem: a mudança. Mas será que uma pessoa precisa executar algo para comprovar que o aprendizado aconteceu? Existem outros fatores que podem causar uma mudança de comportamento? à possível que uma alteração signifique um potencial para a
  • www.posugf.com.br Abordagens da Construção do Conhecimento 10 mudança? (Merriam e Caffarella 1991: 124). Questões como essas fizeram com que a definição de aprendizagem fosse sendo mais qualificada. Alguns autores olharam para a identificação de mudanças relativamente recorrentes no comportamento (ou potencial para a mudança), como resultado de experiências (ver tabela sobre behaviorismo). No entanto, nem todas as mudanças de comportamento são decorrentes da experiência envolvem a aprendizagem. Outros teóricos, então, passaram a se preocupar menos com o comportamento manifesto e se atentar mais às mudanças nas maneiras de as pessoas âcompreenderem, experimentar ou conceituar o mundo ao seu redorâ (Ramsden 1992: 4) (ver tabela cognitivismo). O foco é adquirir conhecimentos e desenvolver aptidões através da utilização da experiência. A profundidade ou a natureza das alterações que ocorrem no aprendizado podem ser diferentes. Alguns anos atrás, Säljö (1979) realizou um simples, mas muito útil, pesquisa, em que pediu para um número de estudantes adultos dizerem o que entendiam por aprendizagem. Suas respostas foram agrupadas em cinco categorias principais: 1. Aprendizagem como um aumento quantitativo dos conhecimentos. Aprender é adquirir informações ou âsaber muitoâ. 2. Aprendizagem como memorização. Aprender é armazenar informações que podem ser reproduzidas. 3. A aprendizagem como aquisição de fatos, habilidades e métodos que podem ser conservados e utilizados conforme necessário. 4. Aprender como fazer sentido ou significado abstrair. Aprender envolve relacionar as partes do assunto ao outro e ao mundo real. 5. Aprender como interpretar e compreender a realidade de uma maneira diferente. Aprendizagem envolve a compreensão do mundo através da interpretação do conhecimento. (Citado em Ramsden, 1992: 26) As concepções de 4 e 5 são qualitativamente diferentes das três primeiras. As concepções 1-3 implicam uma visão de que a aprendizagem é algo externo ao aprendiz, que simplesmente acontece ou é feita para você por professores (como na concepção 1). Nesse sentido, a aprendizagem parece-se com o shopping: as pessoas vão até as instituições de ensino para comprar o conhecimento - torna-se sua posse. As concepções 4-5 voltam-se para o âinternoâ ou o aspecto pessoal da aprendizagem, considerada algo que o sujeito faz, a fim de compreender o mundo real. Aprendizagem como um processo: A aprendizagem pode ser pensada como âum processo pelo qual as alterações de comportamento são consideradas como um resultado da experiência â(Webster 1980 Maples e apud Merriam e Caffarella 1991, p. 124). Mas até que ponto as pessoas estão conscientes do que está acontecendo? Os aprendizes, independente de suas idades, estão conscientes de que estão envolvidos no processo de aprendizagem e que isso significaria se eles estivessem conscientes desse processo? Essas questões vêm aparecendo sob várias formas ao longo dos anos. Uma forma particularmente útil de se tentar encontrar respostas foi postulada por Alan Rogers (2003), que definiu duas abordagens contrastantes: aquisição da aprendizagem ou âinformalâ e aprender- consciente ou âformalâ.
  • www.posugf.com.br Abordagens da Construção do Conhecimento 11 Aprendizado involuntário e acidental Eventos de aprendizagem que ocorrem em situações do dia a dia. Aprendizado incidental: inconsciente, mas por meio de métodos de aquisição, que ocorre em meio a outra atividade. Aprendizado mais consciente, por atividades decorrentes de preocupações ou demandas imediatas do dia a dia. Foco ainda é a tarefa Aprendizado mais proposital, em que decidimos aprender algo de forma sistemática. Há engajamento, sem que haja, necessariamente, uma situação formal de aprendizado (professor/ instituição) Aprendizado formalizado, com apoio de material comum a todos os alunos e, muitas vezes, descontextualizado. Geralmente, há uma situação formal de aprendizado (professor, instituição) Vale destacar que, ao longo do continuum não há fronteiras claras entre cada uma dessas categorias. Esse continuum ecoa de diferentes maneiras nos escritos de muitos dos envolvidos com a educação, mas, em especial, nos teóricos fundamentais, tais como Kurt Lewin, Chris Argyris, Schön, Donald, ou Michael Polanyi. A todo momento, então, estamos expostos a situações de aprendizado. Mas o educador/ professor precisa lidar com o desafio de estar, em tese, no extremo do continuum e, ainda sim, contextualizar o aprendizado e lidar com a ansiedade e até a frustração dos aprendizes/alunos que prontamente percebem que o processo de aprendizado é, por vezes, lento e gradual. Aquisição de aprendizagem (Informal) Aprender-consciente (Formal) Acontece o tempo todo concreto, imediato e focado a uma atividade específica, sem preocupação com os princípios gerais Definida como: enquanto o aluno não pode estar consciente de aprendizagem, eles geralmente são conscientes da tarefa específica, concreta. Exemplo: a maior parte do aprendizado na criação dos filhos ou a partir do funcionamento de uma casa. à a facilitação da aprendizagem â aprendizagem educativa, guiada. Aprender é a própria tarefa. A formalização da aprendizagem a torna mais consciente, a fim de melhorá- la. Rogers ressalva que essas formas, embora separadas didaticamente, podem aparecer no mesmo contexto, ou seja, ambas estão presentes nas escolas, nas famílias e em qualquer situação de aprendizagem. Assim, é possível considerar um continuum, em que há o mix de aquisição de aprendizagem informal e de aprendizagem formal.
  • www.posugf.com.br Abordagens da Construção do Conhecimento 12 Aprendizagem: planejada ou crescimento natural A aprendizagem é uma mudança de disposição ou capacidade humana, que pode ser retida, e que não é simplesmente atribuível ao processo de crescimento (Gagne, 1965, p.5) A aprendizagem é um processo pelo qual uma atividade se origina ou é alterada através da reação a uma situação controlada, desde que as características da mudança na atividade não possam ser explicadas pelas tendências de respostas nativas, maturação ou estados temporários do organismo (por exemplo, fadiga, drogas etc.) (Hilgard e Bower, 1966, p. 2) Nesse sentido, os conceitos de controle e modelagem são o cerne da abordagem de Skinner (1968) para a aprendizagem: 1. Melhorias recentes nas condições que controlam o comportamento na área da aprendizagem são de dois tipos principais. A Lei do Efeito foi levada a sério; asseguramos que os efeitos ocorrem sob as condições que são ideais para produzir as mudanças chamadas de aprendizagem 2. Uma vez que tenhamos organizado o tipo específico de conseqüência chamado reforço, nossas técnicas permitem moldar o comportamento de um organismo quase de acordo com sua vontade. O que fica claro é que esses autores citados nesta seção e seus precursores e contemporâneos concebem a aprendizagem como um processo por meio do qual o comportamento é mudado, moldado, controlado. Aprendizagem: crescimento com enfoque no desenvolvimento cognitivo Jerome Bruner (1966, p. 4-6) lista os seguintes referenciais sobre a natureza do crescimento intelectual que devem ser usados para mensurar as explicações propostas por um indivíduo: 1. O crescimento se caracteriza pelo aumento da independência de resposta em relação à natureza imediata do estímulo; 2. O crescimento depende da internalização de eventos em um âsistema de armazenamentoâ que corresponde ao ambiente; 3. O crescimento intelectual envolve uma capacidade crescente para dizer a si e a outros, através de palavras ou símbolos, o que o indivíduo fez ou fará; 4. O desenvolvimento intelectual depende da interação sistemática e contingente entre um tutor e um aprendiz 5. O ensino é amplamente facilitado pela mediação da linguagem, que não é apenas meio para essa troca, mas também o instrumento que o aprendiz pode usar para trazer ordem ao ambiente; 6. O desenvolvimento intelectual é caracterizado por uma capacidade de lidar
  • www.posugf.com.br Abordagens da Construção do Conhecimento 13 com várias alternativas simultaneamente, de estar propenso a várias sequências durante o mesmo período de tempo e alocar tempo e atenção de maneira adequada a todas as múltiplas demandas. Jones (1968) se opõe a Bruner (1966) pela pouca ênfase dada por este às habilidades emocionais, sua atenção exclusiva a estímulos extrapsíquicos, equivalência do simbolismo com o verbalismo e sua preocupação com os processos de obtenção de conceitos pela aparente exclusão dos processos de formação ou invenção de conceitos. Apesar disso, Brunes se distancia da percepção de aprendizagem como processo de controle, mudança ou moldagem de comportamentos e a coloca mais no contexto do desenvolvimento de competências. Um dos avanços mais dinâmicos e enriquecedores na área da psicologia, a psicologia humanista, recentemente ganhou grandes proporções e levou essa corrente de pensamento mais adiante. Carl Rogers (1969) é um dos expoentes. Os elementos dessa psicologia incluem: 1. Envolvimento pessoal: a pessoa integral, inclusive seus sentimentos e aspectos cognitivos estão envolvidos no evento de aprendizagem; 2. Autoiniciação: mesmo quando a força propulsora ou o estímulo vem do meio externo, a sensação de descoberta, de ir além, de captar e compreender, vem de dentro; 3. Alcance: A aprendizagem faz diferença no comportamento, atitudes e talvez até na personalidade do aprendiz; 4. Avaliação feita pelo aprendiz: o aprendiz sabe se a aprendizagem atende a uma necessidade pessoal, se ela leva ao que o indivíduo deseja saber, se ela ilumina a escuridão da ignorância que o indivíduo vivencia. A avaliação â pode-se afirmar â certamente está localizada no aprendiz 5. A essência é o significado: quando esse tipo de aprendizagem ocorre, o elemento de significado para o aprendiz é construído na experiência total. Aprendizagem independente Maslow (1970) já vê a aprendizagem como a autoatualização: âo uso pleno de talentos, capacidades, potencialidades etc. Com a mudança da imagem do homem como um ser ativo, buscador, autônomo e reflexivo â e não passivo, Sidney Jourard (1972) afirma que âé peculiar que a aprendizagem independente seja problemática, porque o homem sempre e apenas aprende sozinho... a aprendizagem não é uma tarefa ou um problema; é uma maneira de estar no mundo. O homem aprende quando busca objetivos e projetos que têm sentido para ele. Ele está sempre aprendendo alguma coisa. Talvez a chave para o problema da aprendizagem independente esteja na frase âo aprendiz tem a necessidade e a capacidade de assumir a responsabilidade pela própria aprendizagem contínuaâ (p. 66) Aprendizagem não como um processo único Gagne (1972) identificou cinco domínios do processo de aprendizagem, cada um com sua práxis: 1. Habilidades motoras, que são desenvolvidas por meio da prática 2. Informações verbais, a principal exigência para a aprendizagem é sua apresentação em um contexto organizado e significativo; 3. Habilidades intelectuais, que parecem exigir a aprendizagem prévia de determinadas habilidades;
  • www.posugf.com.br Abordagens da Construção do Conhecimento 14 4. Estratégias cognitivas, a aprendizagem que requer ocasiões repetidas em que são apresentados desafios ao pensamento; 5.Atitudes, que são aprendidas com mais eficácia a partir do uso de modelos humanos e reforço por tabela. Apresentadas algumas tentativas de definições do que é aprendizagem, com base em diferentes autores e perspectivas, podemos observar que apesar de ser difícil definir o termo é necessário entender que a forma como se define a aprendizagem influencia enormemente como ela é teorizada e executada. Observe que, no percurso apresentado, cada vez mais conceitos como habilidades, autonomia, aspectos psicológicos e emocionais vão sendo considerados como parte do processo de aprendizagem. Isso significa que aprender não requer apenas domínio de conteúdos por parte do educador e apreensão desses conteúdos por parte do aprendiz, como se essa circulação de conhecimentos fosse simples e direta. Outro comentário importante: note que muitos desses conceitos impactam diretamente nas competências e habilidades dos professores do novo milênio, tão tratadas em Perrenoud e, eventualmente, questionadas e contrariadas por outros teóricos e pelos próprios educadores. âEnsinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construçãoâ. (Paulo Freire) Teorias da aprendizagem Assim como há várias definições de aprendizagem, existe uma infinidade de teóricos que se dedicaram a definir o que é e como acontece a aprendizagem dos seres humanos. RELACIONANDO PIAGET, VYGOTSKY E PAULO FREIRE Depois de ver as concepções de aprendizagem, os principais autores da educação e as teorias de aprendizagem, vamos ver a correlação dos três autores mais aclamados e adotados na educação brasileira: Piaget, Vygotsky e Paulo Freire. ⢠O que será que os aproxima? ⢠Como será que suas teorias impactam na prática do professor/ educador? QUADRO SINTÃTICO DAS PRINCIPAIS ABORDAGENS Os mais diversos teóricos da educação podem apresentar pontos em comum e pontos divergentes. à na tentativa de aproximar autores e diferenciá-los entre si que surgem as tentativas de categorização de principais abordagens e seus principais pressupostos teóricos. Como acontece ao se tentar categorizar as teorias de aprendizagem, as divisões acabam sendo, de certa forma, arbitrárias, mas é uma forma de compreender o que cada abordagem teórica tem em comum e o que há de diferente e, até mesmo antagônico. O interessante desse quadro abaixo é que amplia-se a dicotomia behaviorista x cognitivista, a mais conhecida nesse tipo de categorização, para incluir teorias como a Humanista e a Social e Situacional, esta representada, também, por lingüistas que se voltaram às questões da aprendizagem. O objetivo é que você entenda quais são as diferenças das principais abordagens e, em seguida, clique em cada uma dessas abordagens para saber um pouco mais sobre elas.
  • www.posugf.com.br Abordagens da Construção do Conhecimento 15 QUADRO DE TEORIAS DE APRENDIZADO (com base em Merriam and Caffarella 1991, p. 138) Aspectos Behaviorista Cognitivista Humanista Social e situacional Teóricos Thorndike, Pavlov, Watson, Guthrie, Bandura, Tolman, Skinner Koffka, Kohler, Lewin, Piaget, Ausubel, Bruner, Gagne, Vygotsky Maslow, Rogers Bandura, Lave and Wenger, Salomon Visão do processo de aprendizado Mudança do comportamento Processo mental interno (incluindo insight, informação, processamento, memória e percepção Um ato pessoal para atingir o potencial. Interação/ observação nos contextos sociais. Movimento da periferia para o centro, de uma comunidade de práticas. Lócus de aprendizado Estímulos do ambiente externo Estruturação cognitiva interna Necessidades cognitivas e afetivas Aprendizado se constitui no relacionamento entre as pessoas e o ambiente. Objetivo da educação Produzir mudança comportamental na direção desejada Produzir mudança comportamental na direção desejada Tornar-se atualizado e autônomo Participar plenamente nas comunidades de prática e utilizar os recursos. Papel do educador Organiza o ambiente para obter a resposta desejada Estrutura o conteúdo da atividade de aprendizado Facilita o desenvolvimento da pessoa como um todo. Trabalha para estabelecer comunidades de prática nas quais conversação e participação podem ocorrer. Manifestação na educação de adultos Objetivos comportamentais, educação baseada em competência e formação. Desenvolvimento cognitivo, inteligência, aprendizado e memória relacionada a idade/ fases. Aprendizado de como aprender Andragogia Aprendizado autodirecionado Socialização, participação social, conversação, associativismo
  • www.posugf.com.br Abordagens da Construção do Conhecimento 16 Como se pode ver no esquema acima apresentado e nos links sugeridos em cada uma das principais vertentes teóricas, essas abordagens envolvem idéias, muitas vezes, contrastantes quanto à finalidade, ao processo de aprendizagem e à educação e ao papel que os educadores podem assumir. Por isso, é importante saber distinguir cada uma dessas teorias e seus principais preceitos e, assim, ter em mente suas consequências na prática docente. ORIENTAÃÃO BEHAVIORISTA O movimento behaviorista na psicologia tem olhado para a utilização de procedimentos experimentais para estudar o comportamento em relação ao meio ambiente. John B. Watson, que é geralmente creditado como o primeiro behaviorista, argumentou que a experiência interior era possível de ser testada em laboratório. O resultado foi a geração de modelo estímulo- resposta: fornecer estímulos para que os indivíduos respondam. Na sua essência, três pressupostos fundamentais sustentam esse ponto de vista: ⢠Foco do estudo é comportamento observável em vez de processos mentais internos. A aprendizagem, então, é manifestada por uma mudança de comportamento; ⢠O ambiente molda o comportamento de alguém, o que se aprende é determinado pelos elementos no ambiente - e não pelo indivíduo; ⢠Os princípios de contiguidade (conexão entre dois eventos) e reforço (para aumentar a probabilidade de que um evento se repetirá) são fundamentais para explicar o processo de aprendizagem. (Merriam e Caffarella, 1991, p. 126). Pesquisadores como Edward L. Thorndike, como base nesses fundamentos e no de estímulo-resposta, observou que as respostas (ou comportamentos) são reforçados ou enfraquecidos pelas consequências do comportamento. Esse conceito foi refinado por Skinner e é talvez mais conhecido como condicionamento operante - reforçando o que você quer que as pessoas façam mais uma vez, ignorar ou punir as pessoas que você quer que parem de fazer algo. Em termos de aprendizagem, de acordo com James Hartley (1998), quatro princípios fundamentais vêm à tona: ⢠Atividade é importante: o aprendizado é mais eficaz quando o aluno é ativo e não passivo.(âAprender fazendoâ); ⢠Repetição, generalização e discriminação são noções importantes: prática frequente - e prática em contextos variados - é necessário para aprender a se posicionar perante as situações. Habilidades não são adquiridas sem a prática frequente. ⢠O reforço é o motivador: reforçar positivamente, como as recompensas e as enaltações de sucesso, são mais eficazes do que os reforços negativos, como as punições e os fracassos. ⢠A aprendizagem é facilitada quando os objetivos são claros: Aqueles que olham para o behaviorismo no ensino em geral, moldam suas atividades por objetivos comportamentais. Por exemplo, âao final desta sessão os participantes serão capazes de ...â. Com isso, surge uma primeira preocupação com as competências.
  • www.posugf.com.br Abordagens da Construção do Conhecimento 17 ORIENTAÃÃO COGNITIVA Se os behavioristas olharam para o ambiente, os cognitivistas voltaram-se para os processos mentais do indivíduo. Em outras palavras, eles estavam preocupados com a cognição - o ato ou processo de conhecer. Muitos psicólogos não estavam satisfeitos com o behaviorismo, porque essa abordagem centra-se muito em eventos, estímulos e comportamento manifesto. Os críticos consideravam que as percepções deveriam ser abordadas como um padrão ou um todo - e não como uma soma das partes componentes. Pesquisadores como Jean Piaget, embora reconhecendo a contribuição do meio ambiente, exploraram as mudanças na estrutura cognitiva, interna. Piaget identificou quatro estágios de crescimento mental (sensório-motor, pré-operacional, operacional concreto e operacional formal). Jerome Bruner desenvolveu sua teoria para mostrar como processos mentais poderiam ser ligados ao ensino (com ênfase, entre outras coisas, na aprendizagem através da descoberta). Robert M. Gagné desenvolveu um modelo que destacou oito formas diferentes de aprendizagem â behavioristas, ao contrário, identificam apenas uma parte das capacidades humanas. James Hartley (1998) têm tirado proveito de alguns dos princípios-chave da aprendizagem associados com a psicologia cognitiva. Como ele diz: resultados de aprendizagem âa partir de inferências, expectativas e conexões. Em vez de adquirir os hábitos, os alunos adquirem planos e estratégias, além disso, o conhecimento prévio é importante »(1998, p. 18). Os princípios são os seguintes: ⢠Instrução deve ser bem organizada: materiais bem organizados facilitam a aprendizagem; ⢠Instrução deve ser bem estruturada: é importante estabelecer relações lógicas entre as ideias e os conceitos fundamentais para evidenciar suas conexões; ⢠Percepção da finalidade da atividade é importante: A forma como um problema ou uma atividade é apresentado é muito importante para os alunos compreenderem para que devem realizar/ solucionar o que o educador/ professor solicitou; ⢠O conhecimento prévio é importante: os novos conhecimentos devem se conectar/ relacionar com o que já se sabe para que seja aprendido. ⢠Diferenças entre indivíduos são importantes: as diferenças de âestilo cognitivoâ impactam em desenvolvimento de diferentes métodos de abordagem, o que influencia positivamente a aprendizagem. ⢠Feedback aos alunos sobre o seu sucesso ou fracasso: o reforço pode ocorrer por uma avaliação de conhecimento para mensurar resultados. ORIENTAÃÃO HUMANISTA A preocupação básica dessa orientação é o crescimento humano. Maslow e Rogers são os autores mais representativos desta abordagem. Uma grande parte da produção teórica sobre a educação de adultos na década de 1970 e 1980 baseou-se em psicologia humanista e centrou-se no potencial humano para o desenvolvimento. Na psicologia humanista, como observa Mark Tennant (1997, p. 12), a principal característica é a preocupação com o self como uma uma reação ao reducionismo científico, em que pessoas eram pessoas tratadas como objetos, passivas. Nessa nova abordagem, o mundo afetivo e o subjetivo
  • www.posugf.com.br Abordagens da Construção do Conhecimento 18 foram retomados e, assim, a liberdade pessoal, a escolha, as motivações e os sentimentos voltaram a ter destaque. Talvez o autor mais conhecido dessa orientação é Abraham Maslow, que trata da hierarquia da motivação. Para o autor, no nível considerado mais baixo, estão as necessidades fisiológicas e apenas quando essas estão satisfeitas é possível plenamente passar para o próximo nível. Para o autor, a motivação no nível inferior é sempre mais forte do que aqueles de níveis mais elevados. Esse e os demais níveis foram sistematizados por Tennant (1997) da seguinte forma: 1. necessidades fisiológicas, como fome, sede, sexo, sono, relaxamento e integridade corporal devem ser satisfeitas antes de o próximo nível entrar em jogo; 2. necessidades de segurança exigem um mundo ordenado e previsível. Se estes não estiverem satisfeitos, as pessoas vão voltar- se para os seus âmundosâ para prever qual é o grau de segurança. Se estiver satisfeito, as pessoas passarão ao terceiro nível; 3. Amor e necessidades de pertencimento levam as pessoas a procurar e estabelecer relações amigáveis; 4. autoestima precisa envolver o desejo de força, realização, suficiência, domínio e competência, além de confiança, independência, reputação e prestígio; 5. Autorrealização é a utilização plena e expressão de talentos, capacidades e potencialidades. Com selfs realizados, é possível haver regulação social sem que o indivíduo perca sua própria integridade ou sua independência, ou seja, as pessoas podem seguir uma norma social, sem a delimitação ou o cerceamento de seus horizontes, no sentido de que elas continuam vendo ou considerando outras possibilidades além das apresentadas/ trabalhadas na instituição escolar. Elas podem, por vezes, transcender o prescrito para agir socialmente. Alcançar este nível pode significar desenvolvimento para o pleno desenvolvimento de que as pessoas são capazes.(Tennant, 1997, p. 13) A aprendizagem pode, portanto, ser vista como uma espécie de autorrealização, contribuindo para a saúde psicológica (Sahakian 1984, Merriam e Caffarella 1991: 133). No entanto, apesar do self poder ser visto como o objetivo principal, outros objetivos (ligados a outras etapas) também são relacionados, incluindo a sensação de realização e o controle dos impulsos (Maslow 1970, p. 439). Muitas críticas têm sido feitas a este modelo. Por exemplo: ⢠O nível mais baixo realmente tem que ser satisfeito antes de os mais altos entrarem em jogo? Julga-se que as pessoas poderiam muito bem colocar as necessidades fisiológicas de lado para satisfazer a necessidade de amor, por exemplo; ⢠Será que somos todos movidos para os tipos de qualidades que Maslow identifica com âautoatualizaçãoâ? Até que ponto esses são aspectos culturais específicos? Apesar das críticas, a idéia de uma hierarquia de necessidades, a identificação de necessidades diferentes e a noção de autorrealização, no entanto, exercem uma forte influência na educação de adultos, como se observa na obra de escritores Malcolm Knowles. Cabe destacar que o positivo da abordagem da psicologia humanística é o enfoque nas pessoas, na sua capacidade de controlar seu próprio destino e na ênfase de que parecem ilimitadas as possibilidades para o desenvolvimento individual, o que é uma esperança para os educadores, especialmente quando se está diante de um â ou mais â alunos com dificuldades de desenvolvimento. Por fim, ainda em relação a essa abordagem da aprendizagem, vale a pena apresentar brevemente os estudos de Carl Rogers, que, postulou os seguintes elementos como sendo envolvidos na aprendizagem significativa:
  • www.posugf.com.br Abordagens da Construção do Conhecimento 19 ⢠Qualidade de envolvimento pessoal: toda a pessoa, tanto sentimento e os aspectos cognitivo, deve ser considerada na aprendizagem; ⢠Autoiniciação: Mesmo quando o estímulo vem de fora, a sensação de descobrir, de estender a mão, de apreender e compreender vem de dentro; ⢠Generalização: Considerar e diferenciar o comportamento, as atitudes e talvez até mesmo a personalidade do aluno; ⢠Avaliação com foco no educando. Só assim é possível avaliar o que ele deve e quer saber. O locus de avaliação, poderíamos dizer, reside definitivamente no aluno. ⢠A essência é o significado. Quando a aprendizagem ocorre, constrói-se significado no aluno, modificando, assim, sua experiência. (Rogers (1983: 20) ORIENTAÃÃO SOCIAL / SITUACIONAL A aprendizagem envolve a participação em uma comunidade de prática. Os behavioristas acreditavam que as pessoas aprendiam por meio da observação, influenciados pelo ambiente, por estímulo- resposta. Mais tarde, pesquisadores, como Albert Bandura, voltaram-se para a interação e os processos cognitivos. Badura afirma que a aprendizagem seria algo excessivamente trabalhoso - para não mencionar perigosos â já que as pessoas têm de confiar unicamente nos efeitos de suas próprias ações para saber o que e como fazer algo. Felizmente, a maioria dos comportamentos humanos é aprendido pela observação através da modelagem: a partir de uma observação de outras formas para depreender como os novos comportamentos são executados e, em ocasião posterior, essa informação codificada servirá como um guia para a ação. (Bandura 1977, p. 22). Atender a um comportamento desejável, lembrando-o como um possível modelo ou paradigma sem desconsiderar como se pode trabalhar os possíveis comportamentos em diferentes situações (ensaios) são os principais aspectos da aprendizagem observacional. Assim, a partir de uma experiência, o indivíduo cria um frame a partir do qual compara e modela as suas próximas ações. Durante este processo de ensaio, indivíduos observam seu próprio comportamento e comparam à sua representação cognitiva da experiência - frame. (Hergenhahn 1988 citado em Merriam e Caffarella, 1991, p. 135) Este modelo de comportamento resulta da interação do indivíduo com as situações e vai sendo reconfigurado. Ainda nessa abordagem social e situacional, há autores como Lave e Wenger (1991) que, em vez de olhar para a aprendizagem como a aquisição de certas formas de conhecimento, têm tentado encaixar a aquisição nas relações sociais e nas situações de coparticipação. Como William F. Hanks afirma: âEm vez de perguntar que tipo de processos cognitivos e estruturas conceituais estão envolvidos, os autores perguntam que tipo de compromissos sociais fornecem o contexto adequado para que a aprendizagem aconteçaâ (1991, p. 14 ). Nessa abordagem das autoras, os alunos não adquirem estruturas ou modelos para entender o mundo, mas participam de frames que estruturam seu conhecimento. Assim, a aprendizagem envolve a participação em uma comunidade de prática. Lave e Wenger ilustram sua teoria com observações de diferentes categorias de trabalho (parteiras iucateque, alfaiates, cortadores de carne, participantes de Alcoólicos Anônimos). Inicialmente, as pessoas têm de participar de comunidades e aprender nessa comunidade para se tornarem mais competentes para se mover mais ao âcentroâ da comunidade. A aprendizagem
  • www.posugf.com.br Abordagens da Construção do Conhecimento 20 é, portanto, considerada como a aquisição de conhecimentos por meio de um processo social de participação. A natureza da situação impacta significativamente o processo. Como os aprendizes inevitavelmente participam de comunidades, há o domínio de conhecimentos e habilidades desta comunidade e, à medida que vão se desenvolvendo, esses aprendizes precisam de novos conhecimentos e habilidades para transitar na sociedade e conseguir uma plena participação nas práticas socioculturais de uma ou de diversas comunidades. Aprender como aumentar a participação em comunidades de prática diz respeito à pessoa agindo em todo o mundoâ (Lave e Wenger, 1991: 49). As pessoas têm intenções de aprender se estão envolvidas e o significado da aprendizagem é configurado através do processo de se tornar o aprendiz um participante de plenos direitos na prática sociocultural. Esse processo social inclui, na verdade, subsume, a aprendizagem de competências. (Lave e Wenger, 1991, p. 29). Nesse sentido, existe uma preocupação com a identidade, com o aprender a falar, a agir e a improvisar de uma maneira que faça sentido na comunidade. Como Tennant (1997, p. 77) argumenta, essa orientação tem nítida vantagem de chamar a atenção para a necessidade de compreender o conhecimento e a aprendizagem no contexto. Contudo, aprendizagem situada depende de duas condições: ⢠Não faz sentido falar de conhecimento que é descontextualizado, abstrato ou geral; ⢠Novos conhecimentos e aprendizagem são adequadamente concebidos como estando situados em comunidades de prática (op cit.). Na prática: ⢠A aprendizagem ocorre nas relações entre as pessoas e nas condições que unem as pessoas, permitindo que as informações tenham relevância. Sem estabelecer relações, sem haver relevância, não há aprendizado. Além disso, aprender não é concernente às pessoas individuais, mas a várias interações que constituem essas pessoas; ⢠Educadores devem trabalha para que as pessoas possam tornar-se participantes de comunidades de prática , explorando a máxima participação; ⢠Há uma íntima conexão entre conhecimento e atividade, já que aaprendizagem é parte da vida cotidiana. Resolução de problemas e aprender por meio da experiência é fundamental. Outros psicólogos têm olhado para além do foco na interação humana, demonstrando que as pessoas parecem pensar em conjunto ou em parceria com os outros e com a ajuda de instrumentos culturais (Salomon, 1993). Em outras palavras, há uma necessidade de explorar como os recursos a que as pessoas têm acesso impactam no aprendizado. A importância desses recursos parece óbvia, como ir a bibliotecas e ter acesso à internet, mas também pode envolver o uso de ferramentas como lápis e canetas. Nesta perspectiva, como Gardner (1999: 24) coloca, âa inteligência é melhor entendida como âdistribuídaâem todo o mundo ao invés de estar âna cabeçaâ. Basta parar para pensar como as crianças do novo milênio são mais multitarefas e ágeis do que as de antigamente, que não tinham â tanto â acesso à internet, jogos educativos. Como pode-se observar, por se tratar de um fenômeno complexo, as teorias de aprendizagem vêm sendo sustentadas, modificadas, relidas, reinterpretadas e refeitas ao longo dos â muitos â anos. Mas, além de saber as diferentes teorias e o que postularam os mais diversos autores, é importante considerar algumas implicações práticas da complexidade desse fenômeno.
  • www.posugf.com.br Abordagens da Construção do Conhecimento 21 PRIMEIRA IMPLICAÃÃO DE A APRENDIZAGEM SER UM PROCESSO COMPLEXO: ESTRATÃGIAS DE APRENDIZAGEM Diante das discussões sobre o que é aprendizagem e as principais teorias de aprendizado, não se pode assumir que há apenas uma forma de aprender, afinal, há uma complexidade de fatores que interferem no aprender. Por isso, é importante que o educador/ professor: ⢠saiba que o ensino não pode ser padronizado, descontextualizado, caso contrário, há grande chance de o aluno/ aprendiz não desenvolver o conhecimento demandado; ⢠reconheça como ele mesmo aprende/ aprendeu; ⢠conheça estratégias de aprendizagem e entenda seu impacto na prática docente. Antes de discutir esse assunto, assista à cena abaixo, extraída do filme Mr. Holland. Na cena 1, o professor de música usa a leitura do conceito de música, presente no livro, para definir o que é música. Já na cena 2, ele toca uma música ao piano para mostrar como a composição clássica faz parte do dia a dia dos alunos. Note que bastou ele mudar a estratégia de aprendizagem para que os alunos passassem a se interessar e a fazer perguntas, o que foi gratificante para esse professor. Portanto, nem sempre a estratégia que o professor/educador usa em suas aulas é a melhor para o aprendizado de seus alunos/ aprendizes. ESTRATÃGIAS DE APRENDIZAGEM ⢠São conjuntos de atividades que podem ser usadas para a construção de novos saberes, integrando: - a dificuldade ao habitual; - o estranho ao familiar; - o desconhecido ao conhecido. ⢠São fatores individuais, atividades pessoais que levam o aprendiz a se engajar ativamente no seu processo de aprendizagem e permitem novas aquisições. EXERCÃCIO Você, educador, participa de um programa de capacitação cujo objetivo é âreciclar a forma de ensinarâ. Das atividades listadas abaixo, escolha três que você acredita que melhor o farão atingir o objetivo proposto e uma que você julga ineficaz. 1. Ler os artigos do Philippe Perrenoud sobre Pedagogia e Competências do Educador. 2. Ouvir gravações do programa de rádio em que Roxane Rojo dá dicas de como elaborar uma sequência didática. 3. Redigir um texto sobre as diferentes técnicas didáticas. 4. Ler silenciosamente um texto sobre técnicas didáticas e analisá-lo com a ajuda de questões a serem respondidas por escrito. 5. Ler uma obra completa sobre Pedagogia e os principais conceitos de ensino, composto de três livros. 6. Visitar uma escola cujos resultados são excelentes e os educadores, reconhecidos como competentes. 7. Distinguir, fazendo uma oposição entre um texto que apresenta um bom professor e outro que apresenta um mau professor.
  • www.posugf.com.br Abordagens da Construção do Conhecimento 22 8. Ler e resumir por escrito o artigo publicado na revista Nova Escola sobre as competências dos educadores do novo milênio. 9. Ouvir uma gravação em áudio com vários depoimentos de pesquisadores da educação e professores reunidos em uma coletânea. 10. Fazer uma pesquisa. Obter o depoimento de vários professores para saber o que eles pensam e o que consideram mais importante para ensinar. 11. Montar uma apresentação de dez minutos, sobre Novas formas de ensinar. 12. Assistir a uma palestra de um famoso pedagogo que publica inúmeros livros sobre o assunto. 13. Redigir uma dezena de linhas que expliquem as diferentes técnicas didáticas que podem ser aplicadas em sala de aula. 14. Assistir a um filme cujo personagem principal seja um professor e cujo tema central sejam as dificuldades enfrentadas e soluções encontradas por ele em sala de aula. Depois responder várias perguntas sobre o filme e participar de uma discussão. Note que, de acordo com o que foi assinalado no exercício, é possível afirmar que você prefere certas estratégias para aprender, as quais são categorizadas nos seguintes estilos de aprendizagem:
  • www.posugf.com.br Abordagens da Construção do Conhecimento 23 Saber o estilo de aprendizado mais adequado para você é fundamental para evitar a âperda de tempoâ em atividades indicadas por outras pessoas, mas que, para você, não surtem tanto efeito. Mas o que é ainda mais importante é que o educador: ⢠Pense se as estratégias que está utilizando em sua prática docente são meras reproduções da forma como você mesmo aprendeu, em algum momento da sua vida escolar (seja ensino fundamental, médio, graduação); ⢠Conscientize-se de que não se pode supervalorizar a própria forma de aprendizagem mais eficaz. Isso significa que, mesmo que o educador seja visual, ele precisa diversificar as estratégias, incluindo aquelas que atinjam o auditivo e o cinestésico; ⢠Escolha diferentes estratégias para desenvolver certa competência ou habilidade. Isso significa que, por exemplo, usar somente discussões de temas pode ser muito eficaz para os auditivos, mas não para os visuais; realizar jogos interativos em grupo pode ser muito eficaz para os cinestésicos, mas não para os visuais; ⢠Saiba que, na sala de aula, poderão coexistir os três estilos de aprendizagem e, para atingir todos os aprendizes, a diversificação de estratégias é um das chaves para o sucesso. Além disso, é papel também do educador estimular o estilo de aprendizado auditivo em um aprendiz visual, por exemplo, a fim de desenvolver essa outra habilidade â em vez de deixá-la simplesmente adormecida; ⢠Reflita, a partir do engajamento do(s) aluno(s) em certas estratégias e não em outras, se a estratégia usada para desenvolver uma habilidade foi a mais adequada para o grupo como um todo Em outra disciplina, mais ao final deste curso, serão trabalhadas especificamente diversas técnicas didáticas que podem ser aplicadas com base nessas estratégias de aprendizagem. Dessa forma, você, futuro especialista em metodologia do ensino da língua portuguesa, estará apto a usar técnicas diversificadas, com base em teorias pedagógicas e linguísticas â sem ser apenas intuitivo ou acertar por tentativa e erro. Para você elaborar: Você, educador, irá ministrar uma aula sobre uso da crase. Crie atividades diversas, considerando os três tipos de estratégias de aprendizagem. Lembre-se de não supervalorizar nem desconsiderar nenhuma delas. 1. . 2. . 3. . 4. . 5. . 6. . 7. . 8. . 9. . 10. . 11. . 12. . 13. . 14. . Agora, escolha três que você acredita que melhor atingirão o objetivo proposto e uma que você julga ineficaz â considere, se quiser, os alunos para os quais você dá aulas atualmente. Justifique suas escolhas. Poste no fórum de discussão para que possamos discutir no próximo chat.
  • www.posugf.com.br Abordagens da Construção do Conhecimento 24 SEGUNDA IMPLICAÃÃO DE A APRENDIZAGEM SER UM PROCESSO COMPLEXO: COMO AVALIAR? Avaliação é um tema amplo e complexo, que será tratado especificamente em uma outra disciplina deste curso. Mas, ao tratar de construção do conhecimento e aprendizagem, é inevitável se perguntar: como avaliar o conhecimento? Primeiro, que tal avaliar a imagem abaixo? Que nota você atribui, de 0 a 10? Há pessoas que atribuem nota baixa para essa imagem por considerar de mau gosto caricaturar âMonalisaâ, a obra-prima de Leonardo da Vinci e considerado o quadro mais famoso do mundo. Por outro lado, há que atribua nota alta por achar divertida essa caricatura. E se considerar que essa imagem é um quadro pintado por Salvador Dali, no início do século passado, com o principal intuito de criticar a arte pela arte e incitar a arte como forma de trabalho, mercantilizada e meio a partir do qual os pintores poderiam â e deveriam enriquecer? Por isso, as moedas nas mãos da caricaturada Monalisa. E que o bigode e os olhos são os traços marcantes da fisionomia de Salvador Dali? Para alguns, essas informações impactam positivamente na nota, fazendo-a subir. Para outros, nada muda ou há um impacto negativo. Que tal fazer mais uma avaliação? Rápida instrução: antes de clicar na imagem, para ir recebendo mais informações sobre ela, dê uma nota de 0 a 10. No total, serão 5 imagens em sequência. Portanto, você deve dar 5 notas, que podem ser iguais ou diferentes entre si.
  • www.posugf.com.br Abordagens da Construção do Conhecimento 25 à medida que as informações vão sendo acrescidas, pode ser que você tenha aumentado ou diminuído as notas que atribuiu a cada imagem. Isso parece indicar que, quanto mais informações se obtêm, passam a ser considerados mais critérios para avaliar algo. Por isso, há grande ênfase, nas teorias educacionais, para a avaliação contínua, com base em critérios bem estabelecidos e o mais objetivo possível, evitando, assim, os julgamentos pessoais e subjetivos que pouco contribuem para o ensino-aprendizagem. O que é avaliar? Julgar, coletar dados quantitativos e qualitativos e interpretar os resultados com base em critérios pré-definidos. O que avaliar? Embora a maioria das avaliações de voltem para o aprendizado dos alunos/ aprendizes, para verificar se houve apreensão dos conteúdos ou o desenvolvimento de competências e habilidades específicas de cada disciplina, em certo ciclo do desenvolvimento e do ano letivo, é possível também avaliar o docente e o programa em si. Em geral, essas avaliações centradas na prática docente e no programa ocorrem nos treinamentos empresariais. São, portanto, pouco freqüentes nas escolas e faculdades. Quando ocorrem nesses contextos institucionais-escolares, geram muitos conflitos entre alunos e professores, por não haver uma cultura de avaliar o professor e o programa, mas apenas avaliar os aprendizes. De qualquer maneira, é uma ótima oportunidade para os professores/educadores refletirem sobre suas práticas a partir da visão dos alunos/aprendizes e não só de sua própria percepção. Por que avaliar? ⢠Validar os métodos utilizados e o conhecimento dos alunos/aprendizes; ⢠Dar continuidade à construção do conhecimento e à metodologia adotada; ⢠Fazer correções metodológicas e até mesmo comportamentais, quando necessárias; ⢠Promover melhorias para favorecer um maior aproveitamento dos alunos/aprendizes em termos de aprendizagem.
  • www.posugf.com.br Abordagens da Construção do Conhecimento 26 Momentos e objetivos da avaliação: Embora as avaliações ocorram, em geral, ao final do bimestre ou do semestre, há outros momentos em que se pode aplicar avaliação, com finalidades diferentes. ⢠Diagnóstica: no início da disciplina = verificar nível de conhecimento ⢠Formativa: durante a disciplina = acompanhar, direcionar aprendizes (controle, correção, orientação) ⢠Somativa: ao final da disciplina = classificar, verificar níveis de aproveitamento Como avaliar? Como pudemos observar no exercício de atribuir nota às imagens, quanto mais informações se obtêm, mais critérios são considerados para avaliar. Com isso, a avaliação passa a ter embasamento, sendo menos subjetiva e mais objetiva. Por isso, vale a pena utilizar diversas formas de avaliar, tais como: ⢠exercícios escritos, ⢠participação em sala, ⢠estudos de caso â solução de problemas, ⢠dinâmicas de grupo, ⢠autoavaliação, ⢠avaliação dos pares, ⢠prática diária. Para esta disciplina de construção do conhecimento, reflita: ⢠O que os alunos/aprendizes precisam aprender nas aulas de português? ⢠Qual(is) a(s) melhor(es) maneira(s) para avaliar o tipo de aprendizado que você julga prioritário? ⢠Há oportunidades de aprimoramento no processo de avaliação que você utiliza atualmente? ⢠Você já experimentou fazer uma avaliação de reação, para verificar o que os alunos/aarendizes têm a contribuir para o processo de ensino- aprendizagem? ⢠Você acha que os alunos/aprendizes estão aptos a avaliar o professor/ educador? Há como você desenvolver essa habilidade neles? As respostas são podem ser dadas neste momento, mas vale a reflexão para, quando abordarmos esse assunto em profundidade, você ter amadurecido essas idéias iniciais. Para pensar: Um professor de português, do ensino médio, decide aplicar um exercício novo para estimular os alunos a redigir textos em 10 minutos e com criatividade. Segue o exercício: âUma vida de vidroâ Imagine um copo: pode ser um copo que conheça, um copo que use frequentemente. Conte a história de vida desse copo: onde nasceu, como chegou aqui, a sua vida e experiências. Mas antes de contar, na primeira pessoa, pense na forma de ser e viver de um copo: ⢠O que é que um copo conhece dos seres humanos? Mãos e lábios â e deve distingui-los por isso; ⢠Tem medo de várias coisas de que os humanos também têm: diferenças brutais de temperatura, cair no chão e partir-se, rachar-se. Também há que ter em conta que gosta ou odeia máquinas de lavar louça; ⢠Tem diferenças de forma e feitio, origem e meio, como os seres humanos: há os copos de cristal, os coloridos, os de marca etc. Desenvolva a história de vida de um copo, tendo em vista que está contando e vendo o mundo como se fosse um copo. (Exercício extraído do livro Redação Criativa I, de Pedro Sena Lino, Porto Editora.)
  • www.posugf.com.br Abordagens da Construção do Conhecimento 27 Agora, leia um dos textos produzidos por um dos alunos: Olá, eu sou o Copo de Vidro. Sou um objeto muito útil na vida das pessoas. Eu ainda sou um copo médio, mais quando crescer quero ser igual meu avô, grande, com histórias pra contar. Ãs vezes na minha estante me sinto um pouco ameaçado, por mais que esteja com minha família copos e amigos copos de plástico. Me tremo todo quando vejo uma criança se aproximando; logo penso âai meu Deus alguém tira ela de perto de mim, quero viver um pouco mais...â A minha mãe, sra. Copo de Vidro está de repouso pois a empregada sem querer deixou-a cair no chão, pra sua patroa não brigar ela logo colou o pedaço trincado para que a mesma não perceba, pois sua patroa é uma senhora de 80 anos e mal enxerga, quero também um dia chegar a essa idade. Todos pensam que só porque não tenho perna, braço, coração, cérebro entre outras coisas que os humanos tém não tenho utilidade, como sería se não existisse nós copos de vidro, para beber uma água ou fazer uma bebida no geral. Sendo um copo de vidro vejo que tudo tem uma utilidade, não importa quando ou onde mais um dia vai precisar. Na sua opinião, qual o objetivo de realizar essa atividade? Que critérios você utilizaria para avaliar esse texto? Note que o objetivo da atividade não é apenas fazer com que o aluno produza mais um texto para ser corrigido pelo professor. Esse exercício Copo de Vidro pode ser usado como uma forma de incentivar os aprendizes a saírem de seu próprio ponto de vista e assumirem o ponto de vista de um objeto. Trabalha-se, portanto, a ida do concreto para o abstrato. Também pode ser uma forma de os aprendizes escreverem sobre si mesmos, sem se exporem tanto, já que estão usando uma âmáscaraâ do copo de vidro. Por fim, vale ressaltar que assumir um novo ponto de vista que não o próprio é uma importante ferramenta para escrever de forma mais criativa. E como avaliar esse texto? Talvez seja esse o grande desafio que o educador se depara ao aplicar uma nova atividade ou criar um novo exercício. Afinal, como se avalia criatividade? A saída, então, seria fazer uma correção gramatical? Não. Um exercício rico como esse não pode ser avaliado com base em apenas um dos diversos aspectos que constituem um texto e a língua. Não há resposta única para essa pergunta que fiz, depende muito do contexto em que se aplica esse exercício para poder decidir que critérios nortearão a avaliação. O que importa nessa discussão é constatar que o exercício proposto tem como objetivo desenvolver habilidades do aprendiz e, por isso, a avaliação deve ser decidida pelo educador com base no contexto e no desenvolvimento e aprimoramento dessa habilidade â em vez de cercear a criatividade do aprendiz âcanetandoâ o texto e corrigindo erros gramaticais somente. TEORIAS DA CONSTRUÃÃO DO CONHECIMENTO: ABORDAGENS E IMPACTOS PRIMEIRA REFLEXÃO SOBRE O PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM O MITO DA CAVERNA HOMEM OU URSO? TEORIAS DA APRENDIZAGEM O QUE à UMA TEORIA? O QUE à APRENDIZAGEM? Aprendizagem: processo, produto ou função Aprendizagem como um produto Aprendizagem como um processo: Aprendizagem: planejada ou crescimento natural Aprendizagem: crescimento com enfoque no desenvolvimento cognitivo Aprendizagem independente Aprendizagem não como um processo único Teorias da aprendizagem RELACIONANDO PIAGET, VYGOTSKY E PAULO FREIRE QUADRO SINTÃTICO DAS PRINCIPAIS ABORDAGENS QUADRO DE TEORIAS DE APRENDIZADO ORIENTAÃÃO BEHAVIORISTA ORIENTAÃÃO COGNITIVA ORIENTAÃÃO HUMANISTA ORIENTAÃÃO SOCIAL / SITUACIONAL PRIMEIRA IMPLICAÃÃO DE A APRENDIZAGEM SER UM PROCESSO COMPLEXO: ESTRATÃGIAS DE APRENDIZAGEM ESTRATÃGIAS DE APRENDIZAGEM EXERCÃCIO SEGUNDA IMPLICAÃÃO DE A APRENDIZAGEM SER UM PROCESSO COMPLEXO: COMO AVALIAR?