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Porque que foi portuguesa a expanso portuguesa? ou O revisionismo nos trpicos

Faculdade de Direito Universidade Nova de Lisboa

Antnio Manuel Hespanha

1. Introduo Depois das grandes snteses interpretativas dos anos 40, 50 e 60, preciso, de facto, voltar a ver as coisas em ponto grande, integrando as contnuas contribuies sectoriais que as historiografias de vrios pases tm vindo a trazer nos ltimos anos sobre o colonialismo portugus. Na verdade, a conscincia cada vez mais forte de que os processos histricos em curso no vasto mundo dominado por Portugal durante os sculos XVI a XVIII apresentaram perfis inevitavelmente muito diferentes entre si no constitui uma resposta adequada questo da definio estrutural do processo histrico da expanso portuguesa. Pelo contrrio, estes resultados dispersos e contraditrios pem, ainda com mais nfase, a questo de saber porque que foi portuguesa a expanso portuguesa; ou seja, a questo da sua unidade como objecto historiogrfico. Uma resposta fcil, demasiado fcil - pelo que hoje j se sabe suficientemente acerca da descerebrao dos governos modernos e da complexidade dos seus processos de deciso e redes de organizao , a de que a expanso portuguesa teria sido portuguesa pelo facto de ter sido comandada seno pensada e programada - a partir de uma poltica portuguesa, ou seja, da coroa de Portugal. Uma outra resposta, hoje basicamente inaceitvel pelos ingredientes impressionistas e, na sua fase final, poltico-ideolgicos que continha a de que o portuguesismo da expanso portuguesa era constitudo por uma disposio interior e mpar dos lusos para se 1 relacionarem com o trpico. Era, como se sabe, o eixo de leitura de Gilberto Freyre , queConferncia proferida na sesso de abertura do Colquio O espao atlntico de Antigo Regime: poderes e sociedades, org. pelo CHAM-FCSH-UNL/IICT, Lisboa, 2 a 5 de Novembro de 2005. 1 Evoco as teses lusotropicalistas de Gilberto FREIRE, apresentadas mais sistematicamente no seu livro O Luso e o Trpico: sugestes em torno dos mtodos portugueses de integrao de povos autctones e de culturas diferentes da europeia num complexo novo de civilizao, o luso tropical. Lisboa, Comisso Executiva das Comemoraes do V Centenrio da Morte do Infante D.Henrique, 1961. Para o impacto do luso-tropicalismo, v., alm da pgina da Biblioteca Virtual de Tropicologia, http://www.tropicologia.org.br/livros/livros_XXsd.html ), o recente livro de Cludia CASTELO, O Modo portugus de estar no mundo: o luso-tropicalisme e a ideologia colonial portuguesa (1933-1961), Porto, Afrontamento, 1998. A re-leitura de Aventura e rotina, Rio de Janeiro, Topbooks, 2001, de Gilberto FREYRE, esse quase dirio do seu trabalho de campo em Portugal e nas colnias portuguesas com que teria tido a oportunidade de comprovar in loco as suas teorias dos anos trinta sobre o luso-tropicalismo, mostra sobejamente o carcter impressionismo - embora, aqui e ali, atravessado por ideias dignas de uma explorao sistemtica - da interpretao sociolgica do autor quanto especificidade da colonizao portuguesa. Muito interessante, o relatrio pedido por Salazar a Orlando Ribeiro, um simpatizante, embora moderado, do luso-tropicalismo, sobre a consistncia das opinies de Freyre acerca da sociedade goesa: Orlando RIBEIRO, Goa em 1956. Relatrio ao Governo, Lisboa, Comisso dos Descobrimentos, 1999 (cf. rec. em http://www.ics.ul.pt/publicacoes/analisesocial/recensoes/158_159/goa.pdf ).

Comunicaes

incorporava, para alm de uma dimenso semi-mtica sobre o gnio tropicalista dos portugueses muito enfatizada, sobretudo, na ltima fase da sua obra -, uma dimenso histrico-sociolgica, salientando a co-habituao que espanhis e portugueses tinham tido, desde a alta Idade Mdia, com povos de outras culturas, outras religies, outras etnias, sobretudo do sul, africanas, tropicais. 2 Este ltimo argumento tem sido recorrentemente recuperado ; mas, mesmo aparte o preconceito ideolgico, no prova, a meu ver, tanto como parece, pois se poderia aplicar a todos os povos da bacia mediterrnica, incluindo os castelhanos, aos quais Freyre, aparentemente, no credita a mesma propenso para se integrarem no meio fsico e humano extico. O facto de estas duas respostas no poderem subsistir, coloca com agudez uma questo fundamental e fundamentalmente nova. Uma tambm nova historiografia, ousada e saudavelmente iconoclasta, tem procurado respostas que, podendo acomodar a diversidade das situaes histricas empiricamente investigadas, seja capaz de responder tambm a uma realidade emprica indesmentvel: existiu mesmo um espao colonial portugus, por comodidade 3 muitas vezes chamado de Imprio, que durou no tempo e que custou a ser desfeito . O tema deste encontro no abrange seno os espaos do Atlntico. No abrangendo tudo , todavia, como que uma evocao do todo. Quanto mais no seja porque o Atlntico era, na estrutura do todo, alm de um elemento componente, tambm um espao de passagem de e para o Oriente, tendo-se mesmo tornado, em certos momentos e em certos planos da vida, um 4 5 Espelho do Oriente , mas, sobretudo, um lugar de cruzamento de culturas polticas viajantes , bem como de trocas e vectores polticos mltiplos e multi-direccionais.

Um ltimo afloramento da ideia aparece no artigo de Lauren BENTON, The Legal Regime of the South Atlantic World, 1400-1750: Jurisdictional Complexity as Institutional Order, Journal of World History 11.1 (2000), pp. 27-56. Embora as suas concluses sobre as virtualidades integradoras da ordem jurdica portuguesa me paream fundamentalmente correctas, isto no acontece por essa ordem jurdica ser a portuguesa, mas antes, como direi, por ser a ordem jurdica, aberta e pluralista, do direito comum europeu medieval e ps-medieval. 3 O artigo seminal para uma nova compreenso da complexidade das relaes poder no imprio portugus foi o texto de Lus Filipe THOMAZ, A estrutura poltica e administrativa do Estado da ndia no sc. XVI em Idem, De Ceuta a Timor, Lisboa, Difel, 1994 (1 ed. 1985). Procurei concretizar, em termos poltico-administrativos, a sua ideia bsica de um Imprio poli- mrfico no meu livro Panorama da histria institucional e jurdica de Macau, Macau, Fundao Macau, 1995 (sntese em: Estruturas poltico administrativas do Imprio portugus, em Outro mundo novo vimos. Catlogo, Lisboa, CNCDP, 2001), tendo aplicado estes pontos de vista ao caso brasileiro (que tinha ficado por abordar nos textos anteriores), em Maria Fernanda BICALHO, Jos FRAGOZO, et alii, A Constituio do Imprio portugus. Reviso de alguns enviesamentos, em O Antigo Regime nos trpicos. A dinmica imperial portuguesa (sculos XVI-XVIII), Rio de Janeiro, Civilizao Brasileira, 2001, 163-188. No Brasil, a complexidade da estrutura poltico-administrativa tem vindo a ser realada por vrios autores. Creio que o melhor texto de sntese escrito nesta perspectiva , neste momento, o de Joo FRAGOSO, Maria Ftima GOUVEIA, Maria Fernanda BICALHO, Uma leitura do Brasil colonial. Bases da materialidade e da governabilidade do Imprio, Penlope, Revista de Histria e cincias sociais, 23 (2000) 67 88. Num plano mais voltado para a modelizao terica, tambm Alexander Martins VIANNA, em O Ideal e a Prtica de Governar. O Antigo Regime no Brasil Colonial, 1640-1715 (Dissertao de Mestrado defendida pelo Programa de PsGraduao em Histria Social (PPGHIS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2000) procura construir um modelo que d conta das especifidades da organizao poltica do Brasil colnia. Para um completa introduo bibliogrfica mais moderna historiografia brasileira, v. Pedro Cardim, O governo e a administrao do Brasil sob os Habsburgos e os primeiros Bragana, Hispania, 44.1, Abril 2004, pp. 117-156. 4 Este um dos pontos em que Gilberto FREYRE perspicaz quando, no seu belssimo artigo sobre os ingleses no Brasil, (Ingleses no Brasil, Rio de Janeiro, Jos Olympio, 1948) salienta a ascenso e a queda do gosto oriental - nos tecidos, no vesturio, na decorao, na prpria morfologia das casas mais abastadas - nas colnias portuguesas das costas do Atlntico, fossem elas Luanda ou So Salvador da Baa. Mas o gosto oriental tinha penetrado provam-no os estudos sobre inventrios at aos meios ricos do interior, como as vilas mais importantes (Vila Rica, Mariana) de Minas Gerais. 5 Retiro o conceito de travelling cultures de James CLIFFORD, Routes Travel and Translation in the Late Twentieth Century, Cambridge, Mass., Harvard University Press, 1997. 2 Antnio Manuel Hespanha

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Actas do Congresso Internacional Espao Atlntico de Antigo Regime: poderes e sociedades

2. Muitos poderes e um s imprio Assim, o que se retoma neste encontro novamente uma reflexo sobre a unidade do chamado imprio colonial portugus, bem como sobre a coreografia das foras centrfugas e centrpetas que a investigao emprica a vem revelando. Dedicarei uns minutos a esboar um guio para esta coreografia. Comeo por destacar os factores que diversificam e, ao mesmo tempo, tornam complexas as relaes de poder no espao colonial portugus. Comecemos pelo aparentemente menos apropriado o governo militar. Falar de guerra e de governo militar, parece evocar, desde logo, a centralidade, a disciplina e a obedincia. Nada mais errado, se nos referimos guerra portuguesa, anterior aos finais 6 do sc. XVIII . As relaes de governo colonial incluem aquilo a que podemos chamar as relaes coloniais 7 externas, com os povos colonizados mas no integrados ou com as potncias vizinhas , bem como as relaes polticas internas colnia (com os colonos e nativos bem integrados no mundo colonial dos colonos). Estas oscilam entre modelos mais civis (diplomacia, comrcio), se reina a paz, e, se reina a guerra, modelos mais militarizados e centralizados; embora, neste ltimo caso, o centro no seja necessariamente ou normalmente o centro metropolitano, mas plos situados no prprio teatro da guerra. Ou seja, o governo militar, que anteciparamos centralizado, hierrquico, puro e duro, sem refolhos nem ambiguidades, , afinal, polid

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