antonio manuel hespanha, guiando a m£o invis­vel

Download Antonio Manuel Hespanha, Guiando a M£o Invis­vel

Post on 13-Apr-2016

283 views

Category:

Documents

11 download

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Antonio Manuel Hespanha, Guiando a Mão Invisível

TRANSCRIPT

Normal

Antnio Manuel Hespanha, Guiando a mo invisvel

Guiando a mo invisvel.

Direitos, Estado e Lei no liberalismo monrquico portugus

Antnio Manuel Hespanha

Guiando a mo invisvel.

Direitos, Estado e Lei no liberalismo monrquico portugus

Coimbra

Livraria Almedina

2004

Ficha tcnica

1. Prefcio.

Num texto que ficou a ser emblemtico da teoria poltica liberal, Kant defendeu vigorosamente a Dclaration des droits de lHomme et du Citoyen, 1789, contra os que a acusavam de ser apenas uma srie de abstraces metafsicas, seguramente generosas, talvez teoricamente verdadeiras, mas sem qualquer viabilidade prtica. Com uma ironia que no era muito sua, Kant deu ao seu ensaio, publicado em 1793, o ttulo ber den Gemeinspruch: Das mag in der Theorie richtig sein, taugt aber nicht fr die Praxis (Sobre o ditado: Isto pode estar certo na teoria, mas, na prtica, no serve). Isto, no caso concreto, era a ideia de direitos naturais, que pudessem defender cada um dos actos do poder. E, por isso, Kant tem passado por ser um dos expoentes do liberalismo poltico. No vou aqui tratar de Kant, nem da questo de saber do contedo e limites do seu liberalismo. Porm, a referncia pareceu-me interessante para introduzir aquilo que pode ser a utilidade principal deste livro.Como o subttulo indica, ocupo-me aqui, isso sim, de avaliar o contedo e limites daquilo a que costumamos chamar o liberalismo portugus. Coloco-me no plano da teoria e da prtica constitucionais, entendidas num sentido bastante alargado, sem fazer, porm, economia das suas tecnicidades, sempre que elas sejam politicamente significativas. E, desde este ponto de vista, interrogo-me sobre se o liberalismo de que Kant falava este primado dos direitos sobre o direito e em torno de cuja bandeira, em Portugal, tantos sofreram e morreram, foi uma coisa praticada. Uma vez que eu, tal como Kant, penso que a prpria teoria apenas mais um nvel da prtica, a minha questo no apenas a de saber se, no dia a dia da vida, no mundo domstico, na repartio, no tribunal ou, mesmo, no parlamento, os princpios liberais eram geralmente aplicados. bastante evidente que no. O que me interessa mais saber em que medida estavam eles presentes na prpria prtica terica. No modo como se entendia e se ensinava, a uma boa parte do escol poltico o direito; nos modelos segundo os quais se organizava o Estado; nas leis, tal como estavam nos livros; ou mesmo nesses sacrrios dos direitos que teriam sido as constituies.

Antecipo, desde j, a impresso com que fico, depois de um estudo que procurou combinar vrios registos, desde o doutrinrio ao institucional, desde o constituinte ao da prtica poltica, desde o dos cdigos cognitivos do senso comum aos mecanismos burocrticos. O liberalismo neste sentido de uma constituio de liberdades individuais - foi, em Portugal, mais ou menos o mesmo que me parece ter sido em toda a Europa Ocidental, sem sequer excluir as Ilhas Britnicas: um projecto constitucional que, alm de teoricamente pouco consistente, no podia sequer realizar os pressupostos da sua realizao prtica. Ou, pondo as coisas, de forma diferente: um projecto constitucional que, para realizar os seus pressupostos de realizao prtica, tinha que comear por desmentir alguns dos seus postulados tericos.

Todo o liberalismo XE "Liberalismo" europeu carregou um mesmo paradoxo, logo desde a sua primeira hora. Reivindicava-se da natureza individual, mas pressupunha a educao. Contava com os automatismos de uma certa forma de sociabilidade, mas tinha , antes de tudo, que construir essa sociabilidade. Propunha um governo mnimo, mas tinha que governar ao mximo para poder, depois, governar pouco. Numa palavra, propunha natureza, mas precisava de artifcios prvios.

Por outro lado, aquilo que se cria ser natureza nos finais do sc. XVIII ou seja, um mundo social e econmico em que pequenos e mdios produtores, pequenos e mdios comunicadores, se encontrassem, libertos dos entraves artificiais da tradio sofreu mudanas bruscas com o surgir da produo em massa de produtos ou com a criao de um espao pblico alargado e agilizado pelo progresso dos meios de comunicao de massa. Ou seja, efeitos externos poltica que se relacionam, digamos, com o progresso cientfico e tcnico tornavam a sociedade da primeira metade do sc. XIX, numa sociedade elctrica, confrontada com novas necessidades e com novos riscos, carente de fomento e de regulao, a um nvel to global que nada nem ningum, a no ser o Estado, lhos podia assegurar.

Depois, vinham circunstncias que muitos tm por adjectivas, mas que eu prefiro trazer logo para o proscnio: ideais de governo, modelos de mando, tradies organizativas. A revoluo liberal acolhera, ainda na sua fase de arranque, um movimento poltico revolucionrio relativamente recente na histria poltica europeia o estabelecimento de um ideal, de uma tcnica e de uma prtica de governo activo. Era aquilo a que os alemes chamavam o Polizeistaat XE "Polizeistaat" , em torno do qual, eles e os franceses, vinham elaborando saberes tericos e prticos de administrao, a Polizeiwissenschaft XE "Polizeiwissenschaft" ou, para c do Reno, a science de police XE "Science de police" \t "Ver Polizeiwissenschaft" . Um saber de contornos imprecisos, feito de mximas tardo-mercantilistas, mas tambm j de propostas de naturalizao da vida pblica adoptadas dos fisiocratas. Por outras palavras, ao lado da ideia de um governo activo, surgira a de um governo cientfico e, em nome da cincia, disciplinador. As primeiras geraes revolucionrias no rejeitam esta ideia de engenharia social a cargo do Estado, agora Estado-Nao. O Imprio, por sua vez, institucionaliza-as e pe-as em prtica, ao promulgar os grandes cdigos e ao construir um aparelho administrativo centralizado e eficaz. Enquanto que, na Alemanha, se seguiu elaborando sobre este mote todo um aparelho de conceitos jurdicos poder do Estado, funo de governo, direito pblico, funo administrativa, direito administrativo.A revoluo liberal portuguesa surge neste contexto. J havia sinais precursores desta nova ideia de um governo activo na legislao e na prtica poltica dos finais do Antigo Regime, fortemente contrastantes com a ideia tradicional de que governar bem era no obrar, ideia a cuja histria dediquei muitas centenas de pginas e a que agora no vou voltar. Porm, a revoluo liberal, ademais desse pathos modernizador dos acadmicos e de muitos polticos tardo-stecentistas, precisava de Estado, XE "Estado (funes do)" tanto para destruir a velha ordem como para estabelecer uma ordem nova, em condies de funcionar. Esta eficcia administrativa artificial, cujo modelo vinha em Portugal da Frana (e, muito mais tarde, da Alemanha), s se atingiria com reformas. As reformas, com dinheiro; o dinheiro, com impostos; os impostos, com fomento, ou seja, com medidas promotoras do Estado; estas, de novo, com eficcia, para alm de mais dinheiro. E a espiral recomeava. Basta passear a vista pelos milhares de peties s cortes, desde as de vinte at s de trinta, para nos darmos conta de como tudo se esperava do Estado, desde uma estrada a uma venera, da garantia geral da ordem a uma penso de sangue, da clareza do direito civil promoo do ensino, da aprovao de uma associao ao fomento das colnias. Esta era a tradio de fazer as coisas; antigamente, no tempo do despotismo, fazia-se assim; mas era tambm a consequncia do esvaziamento de outros poderes, nomeadamente, dos poderes municipais.

A mo invisvel que, por definio, nunca ningum vira. at ter sido finalmente revelada na bela fotografia com que a Paula Hespanha enriqueceu o rosto deste livro -, parece que nem sequer se pressentia, nesta busca ansiosa do amparo do Estado. Alguns polticos bem se esforavam em proclamar a necessidade de legislar e governar habitualmente. Uns, porque acreditavam nos impulsos de tal mo. Outros, simplesmente, porque criam que a revoluo era uma regenerao e que, consequentemente, convinha manter a lei nos estritos limites em que a acantonara a doutrina jurdica do Antigo Regime clssico. Mas, de qualquer forma, est claro que, para eles, isso de sociedade era um conjunto muito restrito e largamente imaginado - de pessoas, em cujo mrito, discernimento e responsabilidade confiavam, e cuja funo dirigente tinha que ser garantida, a golpe de lei ou mesmo a golpe de sabre. Sem isso, a mo desvairava. Para manter o norte, precisava de um brao, armado da espada ou da pluma, para a guiar. De outro brao, vestido com mangas de alpaca, para a servir.

Neste mundo que cria (e queria) viver naturalmente, habitualmente, a natureza tal como nos espontneos jardins romnticos era um trabalhoso artifcio. O cidado distinguia-se da turba, a liberdade da licena, o sufrgio do motim, a opinio pblica do clamor. A pedra de toque da natureza era a ordem; mas esta, por natureza, no era natural. Para que o governo da razo triunfasse sobre o desgoverno das paixes era preciso que algum tivesse mo. Na tal mo. Esta a mundividncia estabelecida desde os finais dos anos trinta, servindo de pano de fundo a toda a literatura jurdico-constitucional, mas sobressaindo nos escritos e ditos de Baslio Alberto de Sousa Pinto, o conservador lente de Direito e, mais tarde, ordeiro Reitor da Universidade de Coimbra. Seu contemporneo na mesma Faculdade era Vicente Ferrer Neto Paiva, este, um liberal, mais confiante numa sociedade desenhada mo livre, de um gouvernement bon march. Porm, o mundo mudava. E, quando chega de novo ao poder esta ideia menos dirigista de governo, se alguns processos sociais se iam tornando rotinas e ganhavam um funcionamento automtico, outros surgiam de novo, exigindo nova ateno, novos incentivos, novas medidas reguladoras, novas reparties. O poder de governo, autnomo, activo, viril e capaz de iniciativa, substitui-se ao poder executivo, dependente, passivo, servial. Os tempos de um artificial parlamentarismo iam passando; mas, com eles, ia tambm