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    A SENDA AMOROSA DO DIREITO: AMOR EIUSTITIA NO DISCURSO JURDICOMODERNO

    Brief, le plus grand plaisir qui soit aprs l' amour, c' est d'en parler

    L. LAB, Dbat de folie et d'amour , Discours IV

    Sumrio: l. Introduo.-2. Os sentimentos como objeto de estudo.-3. Osestados de esprito como princpios de ao.-4. Estados de esprito,contextos, prticas e representaes.-5. A tradio literria teolgico-jurdicacomo habitus social.-6. Textos ideolgicos e textos descritivos.-7. Poltica e paixo.-8. Modelo de amor.-9. Amor e prtica poltica.-10. Amor e ordem.-11.Amor e unidade.-12. O amor concreto: a amizade.-13. Amor, amizade e justia.-14. A reconstituio do amor e a funo dos juristas.

    1. INTRODUO

    Amor a deliberatione privat 1, o amor priva o juzo;amor furoris species est 2, o amor uma espcie de loucura da alma, to violenta que no superada por nada;amor modum nonadmittit, cum humanus amor ex iis affectionibus fit, quorum virtus regula esse non potest 3, oamor no tem medida, at o ponto de no poder ter como regra a virtude.

    Assim diziam os antigos. Decididamente, a proximidade entre o amor e a justia nofaz parte dos tpicos de nossa cultura. Entretanto, deveramos afirmar o contrrio, pois nossoimaginrio social est repleto, como podemos notar, deexemplae lugares comuns que doconta da antipatia mtua reinante entre estes dois sentimentos. A invocao da justia emsituaes estruturadas pelo amor (como uma famlia feliz, uma casal de namorados, um grupode bons amigos) to estranha assim como intil (e irrelevante como critrio de deciso) ainvocao do amor no mbito de um processo judicial. Pior ainda: como regra, considera-seque o recurso justia destri as relaes de amor (ou s se verifica quando estas j estoarruinadas), da mesma forma que acreditamos que o surgimento dos afetos separa a justia deseu carter neutro e cego.

    verdade que se observarmos a justia e o amor do ponto de vista da paz social, possvel ento encontrar algum parentesco entre ambos, na medida em que os dois fatores so

    1 M. Alvares PEGAS,Commentaria ad Ordinationes Regni Portugaliae, t. I (Ulyssipone 1669), ad. I, 1, gl. 13,n. 2.2 Ibidem, t. I, ad. I, 1, gl. 13, n. 2 (a. 13).3 lbidem, t. V, ad. I, 65, gl. 45, n. 5.

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    importantes os mais importantes, na verdade para os estados de paz. Entretanto, convmsalientar que ambos cumprem esta funo servindo-se de procedimentos diversos eexcludentes entre si4. Simplificando um pouco as coisas, pode-se dizer que a justia pacifica

    pela disciplina, enquanto que o amor pacifica pelo consenso.E, no entanto, como veremos, as coisas nem sempre foram assim. No discurso moral e jurdico tradicional europeu, o amor aparece com freqncia

    associado justia, quer como estado de esprito que promovia o sentimento do justo (amor iustitiae), quer como uma virtude anexa, por mais distinta que tenha sido, justia. No se pode esquecer que a justia podia ser invocada, no que diz respeito ao amor, em relao aodbito recproco dos amantes (debitum amoris, debitum antidoralis, quasi debitum).

    2. OS SENTIMENTOS COMO OBJETO DE ESTUDO

    No h dvida que ao discorrer sobre o amor e a justia (ou, para ser mais preciso,sobre o amor na perspectiva da justia) irremediavelmente adentramo-nos no terreno dosestados de esprito, dos sentimentos. E este um territrio muito mal definido do ponto devista metodolgico. Realmente, a historiografia que tem sido praticada habitualmente nos

    ltimos anos uma historiografia da exterioridade: descrevem-se atos exteriores e se fabricamcadeias explicativas de atos exteriores para atos exteriores. A introspeco nunca convocada, nada tem a dizer, apesar de todos ns sermos conscientes de que as coisas maisimportantes de nossas vidas no consistem em atos exteriores, mas em disposies do esprito,e apesar, tambm, de todos ns sabermos que, no fundo, na origem de qualquer aoencontra-se um sentimento.

    Desse modo, falar dos sentimentos dos juristas ou levantar uma histria jurdica dos

    sentimentos constituem um passo justificvel na medida em que permitem restaurar ummomento fundamental da ao jurdica. Neste momento, temos tambm que estar conscientesdos enormes riscos envolvidos neste passo da exterioridade e da interioridade, riscos quederivam afinal, como bem sabido, da dificuldade de compatibilizar a quase irresistveltentao hermenutica de interpretar os atos visveis (como se fossem prticas discursivas) em

    4 Sobre o amor e a justia como tecnologias de obteno de estados de paz, cfr. Luc BOLTANSKY, L'amour et la justice comme comptences. Tros essais de sociologie de l'action, Paris, Mtaill, 1990. Note que aoposio que estabelece este autor entreeros e agap parece inspirar-se em A. Ngyren, o qual, segundo algunsintrpretes do tomismo, teria interpretado mal So Toms ao inclu-lo, seguindo uma leitura tradicional luterana,entre os seguidores de uma filosofia ertica ou interessada em oposio a outra exttica ou desinteressada doamor (vid. A. NGYREN, Eros et agap, Paris, 1944-1953, 3 vols., e A. MALET, Personne et amour dans lathologie trinitaire de Saint Thomas d'Aquin, Paris, Vrin, 1956).

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    funo dos sentimentos com a crua realidade, ou seja, com a impossibilidade material deentrar dentro das cabeas das pessoas (sobretudo quando esto mortas!)

    Aqui, e segundo os especialistas, esto os dois principais perigos que devem ser

    destacados: em primeiro lugar, oobjetivismoque tende a equiparar os sentimentos comestados psquicos (ou at fisiolgico) objetivamente caracterizveis; em segundo lugar, oimpressionismoque, ao seu modo, pretende busca-los mediante um exerccio de introspecoculturalmente pura (ou seja, no contaminada por modelos de apreenso culturalmenteinduzidos). Estes dois perigos so, por sua vez, manifestaes de outro mais geral, que essenaturalismo que concebe os sentimentos como realidades relacionadas com a naturezaanmica do homem, isto , providos de uma identidade capaz de sobreviver s determinaes

    dos tempos, das culturas e de outros contextos sociais.Devemos comear, ao contrrio, a prestar grande ateno ao que j fora em seu

    momento enfatizado por Wittgenstein: especificamente, ao fato de que qualquer forma deintrospeco que identifica sentimentos distingue-os com a ajuda dos esquemas lingsticosou quadros de classificao de manifestaes externas de sentimentos, sendo ambosdependentes de um contexto cultural determinado5.

    Isto significa que parece pouco fundado do ponto de vista metodolgico iniciar esta

    breve investigao, carregando nas costas os esquemas lingsticos e categoriais quegovernam no mundo de hoje estados de esprito tais como o amor. E isso o que veremos emseguida, que o sistema de classificao que hoje aplicamos aos sentimentos e a partir doqual dotamos de sentido a palavra amor- muito diferente do que estava em vigor durante oAntigo Regime. O amor de hoje no tem nenhuma semelhana com o amor de ontem. Noevoca as mesmas emoes. No se exterioriza segundo o mesmo conjunto de aes e reaesexternas. No se conecta na mesma seqncia de prticas.

    Estamos, portanto, obrigados a iniciar pela reconstruo histrica do campo semnticoao qual a palavra amor se vincula. Para alcanar esta reconstruo de um sentido, o maissensato proceder com o estudo das suas formas de materializao externa, isto , o modo emque se materializam em atos externos, em descries, cerimnias, comportamentos e textos. neste plano puramente exterior ou bruto que os sentimentos se cristalizam, permitindo-nosseguir o rastro das constelaes, as gramticas e os dispositivos que conformam e servem paradirigir as aes.

    5 Cfr. Claire ARMON-JONES, The Thesis of Constructivism, in: R. HARR (ed.),The Social Construction of Emotions, London, Basil-Blackwell, 1986, pp. 36 ss.

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    A partir da reconstruo da geometria deste sistema de sentimentos, desta almaobjetivada, trata-se j de identificar duas coisas. Por um lado, o campo de emergncia doamor. Ou seja, o conjunto de situaes sociais do qual o amor suscetvel de irromper ou do

    qual ele suscetvel de ser invocado. Por outro lado, o conjunto tpico de condutas e prticas(typical behaviour display) que, nesses contextos, considera-se relacionado com o amor; isto, o conjunto de prticas que cabalmente pode ser considerado como amoroso.

    3. OS ESTADOS DE ESPRITO COMO PRINCPIOS DE AO

    Como veremos, para a reconstruo do sistema de sentimentos na Idade Moderna

    catlica nos serviremos, sobretudo, da monumental anlise dos estados de esprito levado acabo por So Toms de Aquino na segunda parte daSumma Theologica(quando desenvolveuma teoria da virtude). A eleio deste corpo literrio levanta por si s uma interessantequesto prvia, de carter geral e relativo relao existente entre os sentimentosefetivamente vividos e as prticas que por outro lado os objetivam. Vale dizer, e expressadode outra forma: O que se diziasobre o amor tinha algo relacionado com o que se faziacom e por amor?

    Esta uma questo que ultimamente tem avivado a discusso metodolgica no mbitoda histria. Pois interessa saber se estas representaes que se colhem nos textos e, maisconcretamente, nos textos teolgico-morais e jurdicos podem ser elevadas classe defontes para o conhecimento das prticas efetivamente vividas.

    A primeira observao que convm formular a este respeito afeta o plano fundamentalde uma teoria da ao e pretende banir certas formas de mecanismo objetivista inclinados explicao da ao humana a partir de um jogo de determinaes puramente externas, que

    podem ir desde as necessidades fisiolgicas at as leis do mercado, passando pelos ritmos dos preos, as cu