antiliberalismo e contra-revolução na i república (1910-1919) .os debates historiográficos que

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  • Miguel Antnio Dias Santos

    Antiliberalismo e contra-revoluo na I Repblica

    (1910-1919)

    Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

    2009

  • 2

    Miguel Antnio Dias Santos

    Antiliberalismo e contra-revoluo na I Repblica

    (1910-1919)

    Dissertao de Doutoramento em Histria, especialidade de Histria

    Contempornea, apresentada Faculdade de Letras da Universidade de

    Coimbra, sob a orientao do Professor Doutor Amadeu Carvalho Homem

    Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

    2009

  • 3

    Abreviaturas

    ADG Arquivo Distrital da Guarda

    AHD - Arquivo Histrico-Diplomtico

    AHM Arquivo Histrico-Militar

    BNP Biblioteca Nacional de Portugal

    CEP Corpo Expedicionrio Portugus

    CTGL Corpo de Tropas da Guarnio de Lisboa

    DGAPC Direco Geral da Administrao Poltica e Civil

    EAO Esplio de Aires de Ornelas

    ELM Esplio de Lus de Magalhes

    GNR Guarda Nacional Republicana

    IAN/TT Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo

    MI Ministrio do Interior

    MNE Ministrio dos Negcios Estrangeiros

    TMEL Tribunal Militar Especial de Lisboa

    TMTL Tribunal Militar Territorial de Lisboa

    UON Unio Operria Nacional

  • 4

    Introduo

    A proclamao da Repblica foi recebida, de braos abertos, por toda a gente que em Portugal, directa ou indirectamente, intervinha na poltica. Melhor do que isso: a proclamao da Repblica foi recebida, de braos abertos, por todos os indiferentes que, afinal, a essa data, constituam a grande maioria das classes conservadoras, verdadeiras foras vivas de uma nao de iletrados. Por esse pas fora o comrcio, a lavoura ou a indstria no eram monrquicos nem republicanos: em regra a nica manifestao da sua solidariedade com as instituies consistia em votar com os amigos. Desobrigados desse compromisso voltavam ao seu negcio, s suas terras ou aos seus algodes. Para eles a Repblica era uma esperana, embora imprecisa.

    (Cunha e Costa, Balano Poltico, in O Dia, n. 374, 31-12-1912, p. 1.)

    Os debates historiogrficos que se produzem em torno da primeira

    repblica tm-se centrado na natureza poltico-ideolgica do regime e nas

    razes que ditaram o seu fracasso1. Entre a historiografia mais recente

    persistem vises interpretativas dspares, baseadas em metodologias ou

    concepes diferenciadas, algumas revelando mesmo preocupaes

    ideolgicas mais ou menos assumidas2. Para alguns historiadores, a

    repblica revelou-se um regime progressista e defensor dos direitos liberais,

    apesar das dificuldades e vicissitudes conjunturais, como o provam a sua

    1 Sob a historiografia da repblica, veja-se Armando B. Malheiro da Silva, A escrita da histria da I Repblica Portuguesa, in Ler Histria, 38 (2000), pp. 197-254.

    2 Uma sntese foi produzida por Manuel Baia, Partidos e sistema partidrio na crise do liberalismo em Portugal e Espanha nos anos vinte, in Elites e Poder. A Crise do Sistema Liberal em Portugal e Espanha (1918-1931), Lisboa, Edies Colibri e Centro Interdisciplinar de Histria, Cultura e Sociedades da Universidade de vora, 2004.

  • 5

    constituio poltica e alguns progressos sociais e culturais3. Para outros, a

    repblica representou a continuao do liberalismo oligrquico da monarquia

    constitucional, dada a predominncia da mesma elite liberal e a persistncia

    de uma estrutura econmica e social arcaica que pouco ou nada mudou

    durante a nova ordem poltica4. Finalmente, alguns especialistas acentuam a

    dimenso revolucionria e ditatorial da repblica, a partir do predomnio do

    Partido Democrtico5. Esta corrente sublinha a importncia do terror

    jacobino como responsvel pela perpetuao poltica do partido

    dominante6. Mais recentemente, Rui Ramos subscreveu a tese de um regime

    estruturalmente revolucionrio, cujo Poder se baseava numa constituio

    no-escrita que presumia que se a nao constitua patrimnio de todos os

    portugueses, o Estado era propriedade exclusiva dos republicanos. S a f

    republicana podia garantir a defesa da repblica, vedando assim o acesso ao

    Poder aos adversrios do regime. A ditadura da rua, instituindo uma

    legitimidade revolucionria persistente, explica assim o falhano da I

    Repblica por ausncia de legitimidade legal, na medida em que os poderes

    eram muitas vezes exercidos fora da alada da lei. Para Rui Ramos, esta

    arbitrariedade do poder coercivo de uma parte dos cidados desmente o

    carcter liberal do regime republicano, porque aquela no permitia a

    formao de uma verdadeira comunidade poltica7.

    No objectivo desta investigao retomar a discusso das teses

    abordadas, porque o seu objecto de estudo a oposio monrquica e os

    seus esforos para restaurar o trono em Portugal. Ainda assim, entendemos

    que esta investigao pode contribuir para o aprofundamento de um debate

    que est longe de se ver esgotado, questionando ou reforando perspectivas

    e abordagens explicativas j estabelecidas. A inteleco do fenmeno

    3 Cf. Amadeu Carvalho Homem, Constituio de 1911: Programa de uma Burguesia Livre-

    Pensadora, in Histria, n. 43, Maro de 2002, pp. 32-37. 4 Antnio Costa Pinto, A queda da 1. Repblica Portuguesa: uma interpretao, in

    Manuel Baia (ed.), ob. cit., pp. 165-183. 5 O estudo de Fernando Farelo Lopes sobre o sistema eleitoral prova a existncia de um

    regime parlamentar com partido dominante. Cf. Poder Poltico e Caciquismo na 1 Repblica Portuguesa, Lisboa, Editorial Estampa, 1994.

    6 Especialmente Vasco Pulido Valente, A Repblica Velha (1910-1917), Lisboa, Gradiva, 1997.

    7 A tese foi apresentada no estudo Sobre o carcter revolucionrio da Primeira Repblica Portuguesa (1910-1926): uma primeira abordagem, in Polis, n.os 9/12, Lisboa, Universidade Lusada Editora, 2003, pp. 5-60. Foi depois retomada no estudo Foi a Primeira Repblica um regime liberal? Para uma caracterizao poltica do regime republicano portugus entre 1910 e 1926, in Manuel Baia (ed.), ob. cit., pp. 185-246.

  • 6

    republicano deve perspectivar-se, julgamos ns, dentro da conjuntura de

    crise que vai de 1890 a 1926 e na qual as foras monrquicas, no Poder ou

    na oposio, constituem dinmicas que importa estudar no quadro da

    chamada histria poltica e ideolgica8. Enquanto foras polticas e

    ideolgicas que lutaram pelo Poder, que ofereceram resistncia, como se

    relacionaram com a legitimidade e a autoridade republicanas? Contriburam

    para a paz e prosperidade necessrias construo de uma sociedade

    poltica ou adensaram o clima de discrdia permanente que anulou qualquer

    possibilidade de consenso? Como se relacionaram com as restantes foras

    de bloqueio e resistncia? Estas e outras questes no essenciais para

    compreender os meandros da contra-revoluo monrquica e a forma como

    esta condicionou a prpria evoluo do novo regime poltico e da sociedade

    em Portugal.

    Como acentua Cunha e Costa, ento advogado republicano, na

    transcrio em epgrafe, a repblica foi recebida por todos como uma

    esperana, embora imprecisa. Este optimismo inicial, esta crena nas

    virtudes regeneradoras do novo regime foi um lampejo que depressa

    esmoreceu, dando origem a um fenmeno de oposio que aqui designamos

    por contra-revoluo. A contra-revoluo assume em primeiro lugar a

    categoria de conceito operatrio investido do encargo de analisar os meios,

    aces e extenso de uma agremiao que tinha sido despojada do controlo

    do Estado. Ainda assim, veremos que o ressurgimento doutrinrio de pendor

    tradicionalista se far tambm dentro de alguns pressupostos da ideologia

    contra-revolucionria, visveis no renascimento do Partido Legitimista e da

    sua literatura pr-miguelista e das novas correntes do nacionalismo

    monrquico.

    As razes que ditaram a contra-revoluo monrquica, temtica nem

    sempre devidamente valorizada pela historiografia, correspondem quilo que

    a sociologia poltica identifica como ruptura ou inexistncia de um consenso,

    de que resultou o conflito ideolgico e a recusa da legitimidade poltica9.

    Antnio Costa Pinto identificou trs clivagens scio-polticas que

    8 Susan, Pederson, Que a histria poltica hoje?, in David Carradine (Coordenao), Que

    a Histria Hoje?, Lisboa, Gradiva, 2006, p. 62. 9 Cf. Seymour Martin Lipset, Consenso e Conflito, Lisboa, Gradiva, 1992, p. 15. Sobre a

    questo da legitimidade, leia-se Max Weber, Trs Tipos de Poder e outros Escritos, Lisboa, Tribuna, 2005.

  • 7

    contriburam para o fracasso da repblica e que podemos assumir como

    rupturas ou impedimentos formao do consenso: a questo do regime, a

    questo religiosa, que este autor identificou com a secularizao, e a

    oposio entre o campo e o mundo urbano10. foroso reconhecer que em

    todas estas dimenses a presena dos monrquicos central e relevante

    como instncia explicativa. Como procuraremos demonstrar, foi em torno

    destas clivagens polticas e ideolgicas que se concebeu a ruptura com o

    consenso inicial, foi a partir delas que se forjou a contra-revoluo.

    E se aceitarmos a hiptese do mesmo Costa Pinto, segundo a qual o eixo

    analtico que explica o fracasso da repblica reside na formao de um slido

    eixo civil-militar que contestou duramente a legitimidade da nova

    autoridade11, o campo monrquico tem pelo menos direito a uma posio de

    significativo relevo. Durante anos, a aco subversiva d