andréa tavares

Download Andréa Tavares

Post on 01-Feb-2016

216 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

DESCRIPTION

O SURREALISMO DE ISMAEL NERY

TRANSCRIPT

  • 430

    Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista Jlio de Mesquita Filho, So Paulo, Brasil. 9 , 10, 11 de outubro de 2012 ISBN: 978-85-62309-06-9

    MAPEAMENTO PARA CURSO DE DESENHO POR

    CORRESPONDNCIA: Relato de processo

    Andra Tavares1

    Resumo:

    Esta comunicao pretende apresentar a estratgia de pesquisa e estudo de uma seleo do

    levantamento bibliogrfico para a tese de doutorado em poticas visuais Curso de desenho por correspondncia um estudo sobre os caminhos trilhados pela prtica desenho na arte ocidental tomando como ponto de partida minha produo potica. O presente texto relata este processo em

    andamento, examina as estratgias de pesquisa desenvolvidas na sua composio. Palavras-chave: desenho. Arte contempornea. Mapeamento. Bibliografia.

    Curso

    preciso traar um curso, um caminho. E no se sabendo o destino preciso atentar

    para o ponto de partida. O ponto de partida de Curso de Desenho por Correspondncia

    minha produo potica. Utilizando-me de diversos meios constitui na ltima dcada uma

    produo que lida com imagens apropriadas da histria da arte, do cinema, da mdia de massa,

    justapostas a imagens mais pessoais, relacionadas mais com a memria pessoal e afetiva do

    que com a coletiva. Nesta justaposio surge a tenso entre o individual e o coletivo, a

    fronteira se torna visivelmente porosa. Para realizar este dilogo entre diferentes fontes de

    referncia uma das estratgias o desenho, seja sobre o papel ou sobre a chapa de cobre

    envernizada na produo de guas-fortes. Desenhar imagens que j existem, uma forma de

    apropriao, de tornar, por meio do gesto que copia, a imagem que da cultura, do

    conscincia coletiva, uma memria pessoal. Minhas memrias ao se tornarem pblicas, so

    coletivizadas e seus vazios completados, seus significados primeiros esvaziados e/ou

    reificados.

    Este caminho percorrido leva a outro curso, o que indaga sobre como as imagens chegam a

    ns. E chegam atravs de reprodues, tradues, interpretaes entre meios e linguagens.

    Uma pintura fotografada, transformada em informao digital, da pode se tornar um fotolito

    que gera uma imagem impressa, ou uma imagem luminosa na tela do computador, do tablet

    ou do celular. Em Prints and Visual Communication William Ivins conta que Ephraim

    1Doutorando em poticas visuais pela Escola de Comunicao e Artes da Universidade de So Paulo.

  • 431

    Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista Jlio de Mesquita Filho, So Paulo, Brasil. 9 , 10, 11 de outubro de 2012 ISBN: 978-85-62309-06-9

    Lessing escreveu sua teoria esttica, Laocoonte ou sobre as fronteiras da pintura e da

    poesia, sem nunca ter visto a obra cuja a anlise das figuras esculpidas no conjunto

    Laocoonte fundamental para seu raciocnio contava em sua poca com a possibilidade

    acessar cerca de 9 reprodues, em gravura em metal e xilo, no muito maiores do que uma

    folha A4, em branco e preto, da escultura de mrmore. (IVINS, 1969. pp, 90, 174)

    Lessing com a imagem grfica que a tecnologia de seu tempo colocava a sua disposio e ns

    hoje com o que temos a mo olhamos as imagens como transparncias. Dominamos um

    vocabulrio que nos permite ver direto a coisa representada antes do que a representao,

    ignoramos o processo de traduo e interpretao.

    No apenas no ato de traduzir uma imagem de um meio para outro que existe a

    interpretao, isto acontece no prprio ato de desenhar a partir da observao. O historiador

    Ernst Gombrich defendeu em muitos de seus textos, contrrios a idia romntica de gnio

    criador ou de criatividade autntica e original, que sempre desenhamos com o desenho de

    algum.

    No h naturalis mo neutro. O artista, no menos que o escritor, precisa ter umvo cabulrio

    antes de poder aventurar-se a uma cpia da realidade. (...)

    O estilo, como veculo, cria uma atitude mental que leva o artista a procurar napaisagem

    que o cerca elementos que seja capaz de reproduzir. A pintura umaatividade, e o artista

    tende, conseqentemente, a ver o que pinta ao invs de pintar oque v (GOMBRICH,1995. pp. 91,92)

    A produo de Curso de Desenho por Correspondncia quer tornar visvel caminhos,

    cursos. Alumbrar correspondncias entre tempos e espaos. Antes de desvelar uma linha

    unindo dois pontos, o projeto desvela um emaranhado de linhas. Identifica-se um conjunto de

    ns na rede, para em seguida perde-los. Estes ns da rede que compem a concepo e as

    prticas de desenho na arte ocidental so sublinhados tanto pelas imagens contidas no projeto,

    como na anlise bibliogrfica e nos textos (como este). Um processo contnuo de produo, a

    ao do artista que se utiliza de diversas estratgias de trabalho, da pesquisa acadmica, da

    organizao biblioteconmica, do desenho, da fotografia, do design grfico, se apresentar

    como pesquisa de ps graduao, em diversas formas, um srie de 7 lbuns de gravura, ou

    fascculos, um livro de ensaios sobre a origem da idia de desenho na arte ocidental, e uma

    exposio.

    A exposio tornar publico os lbuns em um espao construdo como ateli, onde

  • 432

    Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista Jlio de Mesquita Filho, So Paulo, Brasil. 9 , 10, 11 de outubro de 2012 ISBN: 978-85-62309-06-9

    acontecero atividades como aulas, palestras e performances que digam respeito as prticas do

    desenho na arte contempornea. Ainda em fase de pr-projeto a exposio recebe o nome de

    Sala de Exerccios. A proposta dever ser apresentada no momento da qualificao. O local

    e a programao das atividades sero definidos na sequncia.

    Os sete lbuns de gravura, por sua vez, simulam fascculos, cada um se constituindo numa

    aula sobre um determinado aspecto do desenho que ensinado atravs das imagens, ou da

    cpia delas. Assim no fascculo Desenho de modelo vivo podemos encontrar uma

    reproduo da Origem do Mundo de Gustave Courbet (fig.1), uma foto de um rapaz

    qualquer na grama (fig. 2) e uma imagem fotogrfica de um tubaro (fig.3). Todas estas

    imagens tendo sido impressas com matrizes de cobre. Todas as imagens gravadas partem de

    imagens pr-existentes. Estes fascculos sero finalizados antes da banca de qualificao.

    O livro de ensaios uma forma de discutir e refletir sobre todo o processo, apontando

    alm das referncias plsticas as tericas. Este repertrio de imagens acompanha, produz e

    produzido com escolhas, me interessa mapear estas escolhas. Como parte da estratgia de

    trabalho o projeto conta com uma pesquisa bibliogrfica, assim como em qualquer outro

    projeto de pesquisa de doutorado. No entanto a pesquisa bibliogrfica aqui ser tambm texto

    e imagem no sentido que sua estrutura, ou parte dela, ser includa no Livro do Curso,

    exposta como mais um dos ns da rede sobre o conceito e as prticas de desenho na arte

    Fig.1: Courbet, 2010. Estampa de

    gravura em metal. 42 X 42 cm.

    Fig.2: Al na grama , 2010. Estampa

    de gravura em metal. 10 X 15 cm.

    Fig.2: tubaro, 2010.

    Estampa de gravura em

    metal. 9 X 15 cm.

  • 433

    Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista Jlio de Mesquita Filho, So Paulo, Brasil. 9 , 10, 11 de outubro de 2012 ISBN: 978-85-62309-06-9

    ocidental. O que pretendo examinar a seguir o processo de levantamento e anlise

    bibliogrfica que antecede o momento da banca de qualificao do projeto.

    UM CURSO

    Um caminho uma interpretao a priori da melhor maneira de se atravessar uma

    paisagem, e esguir uma rota aceitar a interpretao, ou perseguir seu predecessor nele

    como eruditos, rastreadores e peergrinos fazem. 2 (SOLNIT, 2000. p.68)

    Rebecca Solnit, em Wanderlust, escreve sobre como seguir uma trilha de peregrinao

    uma maneira de acessar a estrutura que comps o trajeto que o peregrino est trilhando, o que

    ela diz sobre percorrer um caminho antes trilhado se aplica a leitura de qualquer mapa, ao

    planejamento de um curso para uma viagem. O Livro do Curso quer traar uma rota,

    mapear um caminho. Indicar e tornar visvel um caminho muitas vezes trilhado.

    Seguindo os conselhos de Umberto Eco pode-se comecei a pesquisa a partir de informaes e

    dados, previamente conhecidos, daquilo que est acessvel (ECO.1993). Parti de dois autores

    que me interessam, Ernst Gombrich, e Nicolas Bourriaud, que entendi defenderem duas

    hipteses complementares, sendo que a minha hiptese a relao complementar entre eles.

    Gombrich defende principalmente em Arte e Iluso a idia de que desenhamos com um

    desenho que pr-existe, um repertrio de solues como citado acima. Bourriaud explora a

    necessidade de trabalhar com o pr-existente, tomando conscincia do que se tem a mo, re-

    significando imagens, formas e conceitos, criando novos modelos de ao no mundo, ele

    afirma que a arte um estado de encontro(2006.p.17) e que produzir uma forma inventar

    encontros possveis, criar condies de um intercmbio, algo assim como devolver a bola a

    uma partida de tnis. (2006.p.24). Em Esttica Relacional o autor se apropria da idia de

    Michel de Certau compactuando com ele ao entender que o artista contemporneo um

    inquilino da cultura. Um inquilino no coloca a casa a baixo, pinta as paredes, troca o piso,

    redefine o lugar dos mveis, talvez at quebre uma parede,... lida com o que j existe sem a

    pretenso de fazer tabula rasa. No glossrio do livro h o verbete semionauta onde se l que

    todo o artista contemporneo inventa trajetos entre os sig