Anderson Oliva - As faces de Exu.pdf

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<ul><li><p>9Revista Mltipla, Braslia, 10(18): 9 37, junho 2005</p><p>Sobre o mundo atlntico, a frica Ocidental e a cosmologia dos iorubs</p><p>No cenrio histrico montado, a partir do sculo XV, na regio subsaarianada frica, um elemento merece destaque especial para a compreenso da intensida-de das trocas e apropriaes culturais que envolveram as sociedades ali postas emcontato: as concepes metafsicas. Frutos de contextos e mentalidades diversos,as cosmologias africanas1 e as religies europias passaram por um processo deestranhamento, repulsa e entendimento que culminou, em diversos momentos,com a interveno autoritria de agentes europeus - administradores e sacerdotes- na tentativa de anular ou suplantar certos aspectos prprios das estruturas dopensamento religioso africano. Mas certo tambm que, em sentido contrrio,houve intenso estimulo resistncia e manuteno das caractersticas essenciaisdas formulaes cosmolgicas e cosmognicas por parte dos africanos e, ao mes-mo tempo, apropriao de elementos externos s suas leituras de mundo.</p><p>De dentro desse concerto sabemos que, na frica Ocidental, a ao evan-gelizadora crist - atividade realizada por missionrios protestantes e catlicos - seintensificou com a chegada do sculo XIX. Ainda nos anos oitocentos e, mesmonos sculos anteriores, comerciantes, viajantes e outros homens que passarampela regio registraram suas impresses, espantos e preconceitos em relao sformas de vida e representaes cotidianas comuns aos africanos. No foi diferen-te com os administradores e religiosos que se instalaram no continente negro, apartir da montagem dos imprios europeus na frica. Alm do exotismo, o signo doprimitivo foi ponto de destaque nas anotaes e registros deixados por essesagentes, nos anos em que ficaram naquelas terras.</p><p>Esses trabalhos foram marcados, muitas vezes, pelas restries e interdi-es das ticas sagradas crists e das teorias cientficas europias. Apesar disso,tal material se demonstra frtil para desvendar as mentalidades de pocas e demomentos diversos do caminhar das vises europias sobre a frica e, de certa</p><p>Anderson OlivaProfessor de Histria da frica - UPIS.Doutorando em Histria Social - UnB.</p><p>As faces de Exu:representaes europiasacerca da cosmologia dos</p><p>orixs na frica Ocidental(Sculos XIX e XX)</p></li><li><p>10 Revista Mltipla, Braslia, 10(18): 9 37, junho 2005</p><p>forma, se soubermos filtrar as interdies do imaginrio europeu, das prpriasdimenses e vises africanas.</p><p> desse contexto e da regio habitada pelos iorubs na frica Ocidental,que emerge nosso objeto de estudo. A partir da leitura de vrios relatos, descriesou pesquisas que, desde o sculo XIX, fazem referncia cosmologia dos orixs,um elemento nos chamou a ateno: os relatos acerca de um orix, destacado pelassuas caractersticas funcionais e iconogrficas singulares e pelas diferentes inter-pretaes, exteriores e internas frica, realizadas sobre ele. Esse orix se chamaExu2.</p><p>Mapa da frica. As regies em destaque fazem referncia a algumas formaesestatais africanas.</p><p>(In The Times Atlas World History. Londres: Times Book, 1993, p. 135)</p><p>Chocante para os influenciados pela viso ocidental cristianizada ou mar-cada pelos racismos biolgico e cultural, objeto de reflexo e elucubraes porparte dos antroplogos e cientistas sociais, ou ainda, elemento do equilbriouniversal e de grande importncia para os iorubs, Exu uma das mais contradi-</p></li><li><p>11Revista Mltipla, Braslia, 10(18): 9 37, junho 2005</p><p>trias (na percepo ocidental) divindades do panteo dos orixs e mereceudestaque em vrios trabalhos realizados na regio. De forma esclarecedora, pelomenos para a proposta de nosso trabalho, esses estudos seguiram tendnciaspresentes em seus contextos de origem, marcados tanto pelas idias das cinciascomo das religies. As referncias imaginrias dos missionrios cristos - dosculo XV ao XX -, o darwinismo social e o evolucionismo do XIX, e os estudosetnogrficos que se estendem at o incio do sculo XX possibilitam percorrer, nahistria das vises sobre Exu, a prpria histria das representaes elaboradaspelos europeus acerca de certos aspectos da cosmologia dos orixs na fricaOcidental.</p><p>Dessa forma, o presente artigo busca revisitar parte dos estudos e dosescritos elaborados sobre a cosmologia dos iorubs, propondo-se executar umareleitura das vises e anlises acerca de algumas caractersticas centrais de Exu.Para isso, nossas atenes iro concentrar-se nas descries de certos aspectosfuncionais e simblicos que ocuparam papel de maior destaque nos trabalhosaqui selecionados para anlise. O recorte temporal no foi arbitrrio; muito me-nos os autores selecionados foram eleitos ao acaso. Cronolgica e intelectual-mente, os momentos de fala, foram cuidadosamente escolhidos. Ao mesmo tem-po, procuraremos destacar as influncias dos conjuntos de representaes euro-pias e dos imaginrios de cada contexto na elaborao de suas descries sobreExu.</p><p>Na tentativa de alcanar nossos objetivos iniciais, esforamos-nos na sele-o de fontes que esclarecem as interpretaes ou representaes construdasacerca do orix. Essas vises seguiram os mais diversos caminhos e ilustraram asidas e vindas dos estudos na regio. Nesse caso a opo foi a de acompanharmosos escritos deixados por alguns viajantes, missionrios cristos e administradoreseuropeus que, ao longo dos sculos XIX e XX, registraram suas impresses eentendimentos acerca desse orix. Os autores e obras selecionadas foram os se-guintes3:</p><p> o trabalho de dois irmos expedicionrios, Richard e John Lander, quetransitaram pela regio da foz do rio Niger, no Golfo da Guin, na primeirametade do sculo XIX e escreveram o livro Expdition au cours et em-bouchures du Nger, em 1832;</p><p> os apontamentos de dois padres catlicos, um do final do sculo XIX,Noel Baudin, em seu pioneiro estudo Ftichisme et fticheurs, publica-do em 1884, e o outro, do final do sculo XX, Ade Dopamu, com o livroExu, o inimigo invisvel do homem, de 1990;</p></li><li><p>12 Revista Mltipla, Braslia, 10(18): 9 37, junho 2005</p><p> os relatos de dois administradores, o tenente-coronel Alfred BurtonEllis, presente na frica durante a passagem do XIX para o XX, queescreveu The yoruba-speaking people of the slave coast of Africa, em1894, e Bernard Maupoil, que no livro La gomancie l'ancienne ctedes esclaves, de 1943, relatou suas impresses sobre Lgba, divindadeda religio dos Voduns que guarda profundas relaes com Exu.</p><p>Para permitir uma viso de contraponto, ou seja, para saber como os prpri-os iorubs interpretavam e se relacionavam com Exu, faremos referncia, de formamais sinttica, s representaes funcionais e imagticas do orix, a partir de umasrie de pesquisas realizadas por antroplogos no Golfo da Guin e que elegeramos iorubs como objeto de estudo. Esses trabalhos sero os de Joan Wescott - Thesculpture and myths of Eshu-Elegba, the yoruba trickster, 1962 -, John Pemberton- Eshu-Elegba: the yoruba trickster god, 1975 - e Robert Pelton - The trickster inWest Africa, 1980. Mesmo que o recorte temporal desses estudos seja diacrnico,se comparado maioria dos relatos anteriores, eles servem como espcie de refe-rncia sobre a cosmologia dos orixs do citado perodo, inclusive pelo uso fecundodos relatos da tradio oral por parte desses antroplogos.</p><p>Temos a clareza que adentrar na idia do mundo atlntico nos obrigaria atomar algumas iniciativas inditas com relao aos estudos das mltiplas facetasculturais e histricas, interpostas nos sculos de sua composio. Para tanto e porisso, iniciar uma investigao sobre as faces de Exu no Atlntico4 demandavaprimordialmente identificarmos como ele era interpretado na frica, e quais foramas leituras ou representaes elaboradas acerca do imaginrio, da funcionalidade eda simbologia criados pelos observadores de fora da frica sobre essa persona-gem iorub.</p><p>A seleo dos autores acima mencionados permite a percepo, na prtica,de como ocorreram as mltiplas influncias de teorias ou tendncias dos estudos epensamentos ocidentais nas investigaes sobre o continente africano, que esta-belecem marcos, entre os trabalhos que no se perderam no passado, ressoandoat os dias de hoje. Por fim, cabe ressaltar que, em diversos momentos, referidasinterpretaes apresentam semelhanas e dessemelhanas entre si. Em tal sentido,procuraremos retornar aos autores indicados, buscando pontos de concordncia ediscordncia nas leituras sobre Exu. Que essa tarefa se conclua com xito.</p><p>Antes de adentrarmos o universo dos orixs, uma tarefa nos parece obriga-tria. Para reconhecermos os elementos que construram grande parte das imagense representaes elaboradas acerca de Exu, ser preciso realizarmos uma breve</p></li><li><p>13Revista Mltipla, Braslia, 10(18): 9 37, junho 2005</p><p>incurso em parte do imaginrio europeu elaborado ao longo dos ltimos sculos,sobre os africanos e seus padres culturais. Parece-nos bvio que todo exercciode sntese incorre em algumas simplificaes; por isso alertamos que nossa inten-o noticiar parte do conjunto de idias ou de referncias que embeberam asmentes europias. Por isso, o recorte aqui utilizado ter incio nas imagens elabora-das principalmente no perodo que se estende do final do sculo XVIII at o sculoXX. Isso no significa que referncias anteriormente construdas acerca dos africa-nos no sero apresentadas; mas elas aparecero como idias a serem associadasao contexto referido. Terminada essa tarefa, nos debruaremos na anlise das re-presentaes elaboradas acerca de Exu pelos citados agentes europeus ou influen-ciados pelas ticas ocidentais.</p><p>As representaes dos africanos e o imaginrio europeu. A frica e os africanospercebidos a partir das leituras crists, racistas e colonialistas</p><p>A partir de meados do sculo XIX, as relaes entre europeus e africanosganharam dimenses at ento no vivenciadas em larga escala. A descoberta doquinino - remdio usado no tratamento da malria - permitiu que as viagens e expedi-es cientficas, anteriormente limitadas s rpidas incurses pelas redes fluviaisenvolvidas no trfico, pudessem devassar o interior da frica. A essas viagenssomaram-se, j nas ltimas dcadas do Dezenove, as aes imperialistas/colonialis-tas que permitiriam aos europeus o controle de quase a totalidade da frica.</p><p>Nesse momento da montagem e afirmao do colonialismo europeu, houvemigrao da imagem do africano confundido anteriormente com o escravo5 para asrepresentaes associadas selvageria, barbrie e inferioridade racial. Todosesses elementos seriam selos antagnicos s imagens divulgadas pelos europeussobre eles mesmos, associadas ao progresso tecnolgico, crena de que suascivilizaes seriam superiores, ou ainda divulgada teoria de que as mentes eestruturas europias seriam as mais complexas do orbe. Nesse contexto, os africa-nos foram tachados de preguiosos e inbeis ao trabalho sofisticado, devendo serdisciplinados e ensinados pelos servios braais, mesmo que compulsrios (Hen-riques, 2004: 285-298).</p><p>As representaes elaboradas acerca da frica e de suas populaes, nes-se perodo, se articulam ao conjunto anteriormente elaborado de esteretipos eimagens construdas principalmente sob influncia da ao de sacerdotes - protes-tantes e catlicos - e de viajantes europeus, presentes em frica desde os sculosXV e XVI.</p></li><li><p>14 Revista Mltipla, Braslia, 10(18): 9 37, junho 2005</p><p>No caso dos missionrios cristos, influenciados pelas vises e concep-es europias do incio dos tempos modernos, encontramos relatos que desde osculo XVI retratam as cosmologias africanas como sendo prticas de bruxaria eaes demonacas. No podemos ignorar que essas referncias so originadas, emgrande medida, durante o medievo, em que as imagens dos africanos passaram aser associadas, a partir dos elementos teolgicos que embaavam os olhares euro-peus, a duas idias centrais: a da passagem bblica sobre os descendentes de Came a da transposio da cosmologia celestial catlica para a cartografia terrestre,localizando na frica o inferno na Terra.</p><p>Segundo os textos bblicos, Cam, um dos filhos de No, foi punido porflagrar seu pai nu e embriagado. Como castigo, seus filhos deveriam se tornarservos dos filhos de seus irmos, teriam pele mais escura que a dos outros homense habitariam parte dos territrios da Arbia, do Egito e, principalmente, da Etipia.A queda de Cam e a localizao do local de degredo de seus descendentes nafrica serviriam como frmulas explicativas para apontar esse continente como umlocal esquecido ou amaldioado por Deus (Gnesis: 9, 18-27).</p><p>J na cartografia medieval e do incio dos tempos modernos as impressespejorativas sobre os africanos seriam reforadas e explicitadas na associao entreos espaos celestiais - paraso, purgatrio e inferno - e os continentes ento co-nhecidos. Seguindo padro mais ou menos comum, as representaes cartogrfi-cas, chamadas de T/O, apresentavam a Europa, a sia e a frica distribudas emforma de um T, cercado pelos oceanos, O. Distante dos homens, ao norte, podia serencontrado o paraso terreal. Jerusalm, local da ascenso do filho de Deus aoscus, aparecia ao centro e era considerada local de passagem para atingir as regi-es paradisacas na Terra. A Europa, cuja populao descendia de Jafet, primog-nito de No, ficava a oeste e ao sul de Jerusalm e a sia, local dos filhos de Sem,netos de No, ao norte ou a leste. Ao sul aparecia a frica, terra dos filhos de Cam.Nesse caso, a descrio do Inferno, como regio de calor insuportvel e habitadopor seres monstruosos e demonacos, era encaixada obrigatoriamente sobre a fri-ca. Pelo menos seria o que confirmariam os primeiros viajantes e missionrios quepassaram pelo continente durante os sculos XV e XVI (Noronha, 2000: 681-687;Kappler, 1994: 24).</p><p>Outro conjunto de relatos e imagens comumente encontrados nos relatosde viajantes e missionrios nesse perodo, faz referncia s prticas antropofgi-cas. Os relatos antropofgicos se estendem pelos ltimos quatrocentos anos. En-tre os sculos XVI - quando comearam a aparecer em maior nmero - e XVIII, elesestavam associados ao imaginrio cristo, que diabolizava os africanos. J nos</p></li><li><p>15Revista Mltipla, Braslia, 10(18): 9 37, junho 2005</p><p>sculos XIX e XX, persistiram, s que agora relacionados aos olhares colonialis-tas, reforando o carter primitivo e selvagem dos povos a serem civilizados. Emmeados do ltimo sculo, apesar de saberem que a antropofagia se restringia acertos momentos ritualsticos e era praticada apenas em algumas regies, aindapermanecia viva no imaginrio europeu a imagem dos grupos devoradores de car-ne humana, nos recnditos do continente (Henriques, 2004: 225-233).</p><p>Aos preconceitos elaborados nos sculos anteriores articulam-se, no scu-lo XIX, as crenas cientficas, oriundas das concepes do Darwinismo Social e doDeterminismo Racial, que alocaram os africanos nos ltimos degraus da evoluodas "raas" humanas. Infantis, primitivos, tribais, incapazes de aprender ou evo-luir, os africanos deveriam receber, portanto, a benfazeja ajuda europia por meiodas intervenes imperialistas no continente (Schwarcz e Queiroz, 1996).</p><p>No perodo, os debates entre os cientistas e instituies de pesquisa, acer-ca das explicaes das diferenas entre as sociedades humanas, giravam sempreem torno das justificativas ou explicaes ligadas aos referenciais biolgicos/raci-ais ou aos traos...</p></li></ul>