Análise econômica e economia política

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<ul><li><p>5/14/2018 An lise econ mica e economia pol tica</p><p> 1/9</p><p>ANALISE ECONOMICA E ECONOMIA POLiTICACarlos Lessa *</p><p>IntroducaoVamos abordar 0problema do ensino de economia. Nao tern muito sentido relacionar osvelhos problemas: falta de verbas, falta de professores, professores que nao tern tempointegral, alunos que nao tern dedicacao exclusiva, etc. Vou tentar discutir com voces 0 temasob urn segundo angulo, 0problema substantivo de qual 0 conteudo possivel, ou qual dosconteudos podem ser propostos a formacao do economista. E parece que nossa profissaoesta marcada por pelo menos dois seculos de urn debate que ate hoje nao se resolveu: qual eo objeto proprio de reflexao em economia.Na verdade, existem dois objetos de possivel proposicao e cada urn desses objetos deconhecimento apresenta implicacces com respeito ao angulo de abordagem e modo de trataros temas completamente distintas. A primeira vista, os dois objetos nao sao tao discrepantesassim. Urn primeiro objeto com que todos os alunos do primeiro ana do curso de economiatomam contato e dizer que a meta basica de reflexao do economista e estudar todos osfenomenos relacionados com a escassez material; entao, 0 fato economico se caracterizariapela presenca de uma escassez relativa. Ar e agua nao sao problemas economicos porquenao sao escassos; como tudo mais e escasso, tudo 0mais pertence ao terreno da economia.Eles dizem que a escassez esta diretamente relacionada com outro conceito, que e 0conceito de opcao. Entao, 0 estudo do economista e de como realizar opcoes segundocriterios. Eu chamei isto de objeto numero urn, ou objeto de ana li se economica .Agora, numa outra perspectiva se propoe como objeto proprio da reflexao do economista 0estudo das leis sociais que regem os processos de producao e reparticao dos bens e services.Dito de outra maneira, todas as sociedades organizadas, desde a neolitica inferior ate asociedade do seculo XX, de alguma maneira se organizaram para realizar os atosnecessaries para a producao e reparticao das coisas que sao produzidas e, 0 modo comoestas sociedades se organizaram para resolver 0problema da producao e reparticao, seria 0que nos vamos chamar aqui de objeto numero dois de reflexao do economista, ou objeto daeconomia po li ti ca .Vou tentar trabalhar com essas duas definicoes com 0 proposito basico de mostrar que 0matrimonio delas e , ate certo ponto, impossivel. Assim, na medida em que a formacao doeconomista se orienta, ou 0 economista opta, pelo caminho da analise economica, istoirnplica em uma determinada visao de mundo que nao e possivel integrar com a da segundarota, a economia politica. A evolucao do pensamento economico coloca a enfase ora num,ora noutro objeto, e 0 fato de por enfase num ou noutro objeto reflete urn momento doprocesso social que os sistema economicos e sociais estao atravessando . Economista; Aula Magna proferida no Departamento de Economia da Unicamp - Outubro, 1972.</p></li><li><p>5/14/2018 An lise econ mica e economia pol tica</p><p> 2/9</p><p>A p rim e ira vista , pod e-se diz er qu e nao p arece q ue h aja ta nta discrepan cia en tre o s ob jeto s.A fin al d e c on ta s, e verdad eiro qu e toda s as so cieda des organ izadas produ zem e repartemb en s, c omo e verdad eiro que em to da sociedad e o rga nizad a hie sc as se z d ele s. Enta o,alguem poderia dizer que se tratam de duas m anifestacoes sim ultaneas, e a escolha de urnou outro objeto de reflexao nao deve gerar conclusoes diam etralm ente opostas ou, pelomeno s, n ao compati ve is ,Nao e a ssim , e ntre ta nto , em p rim eiro lu ga r p or c ara cte ris tic as n ota damente meto do lo gic as ,R eparem bern: quando nos definim os que 0 obje to d o conhe cimento e de ana li seeconom ica, ou seja, estudo da escassez e da opcao, a urn alto nivel de abstracao a escassezse m an ifesta num a socied ade d e co leto res prim itivo s, n os im pe rio s classicos, n a eco nomiafeud al, n o inicio d o capitalism o m ercan til, acom pan hou a revolucao ind ustrial, a ssistiu aaparicao da sociedade capitalista num a etapa m adura, e tam bem esta presente num asociedade socialista. D ito de outra m aneira, a escassez e urn dado a p rime ir a v is ta a-historico. E ntao, a co nstrucao teo ric a a partir desse co nceito perm itiria o u prop oria aeconomia 0 carater d e u rn a ciencia que em sua propo sicao prim eira se ria a-h isto rica . D itode ou tra fo rm a, a cien cia econ om ica p oderia se preten der un iversal e atem po ral. B asea danum ob jeto de conh ecim ento inicial, 0 estudo do fenom eno da escassez, a econom iaelab oraria urn sistem a de p rop osico es teoricas ap licav eis em q ualq uer so ciedad e d equalquer epoca, U rn ou outro tenno dessa equacao poderia se m odificar a partir dea pro xim ac oe s d o mod ele a na litic o a situ acao co ncreta, m as os COlpOS te6 ricos seriam a-hist6ricos.A gora, quando se trabalha com 0 segu ndo ob jeto de con hecim en to, a econ om ia p olitica, eabsolutam ente evidente que toda e qualquer construcao nesse nivel sem pre dira respeito aurn tem po historico definido, a um a determ inada form acao social. A s leis que regem apro duc ao e a rep articao numa econ om ia m edieval sao to talm en te diferentes daq uelaspresentes nurna econom ia socialista, e assim por diante. A s leis da econom ia politica ternvigencia definida no espayo e no tem po. N a perspectiva da econom ia politica, a econom ianao p ode ria preten der con stru ir teo rias universais, abrang entes de to dos o s tem pos e tod oso s luga re s.</p><p>Analise EcondmicaUma segunda diferenca vern da exigencia do proprio objeto do conhecim ento. R eparembern: analise econom ica, O s senhores todos tern curso de analise econom ica - analise m icro-econ om ica: an alise m icro e de pois aplicacoes especificas de con stru coes analitica s. Q uequ er dizer an alisar? A nalise qu im ica significa pe gar um a sub stancia e fracion a-la em seu se lemen to s con st itu in te s. Qu alq ue r p ro cediment o ana liti co e uma o pe ra ca o d e p artic ao :tom a-se urn todo e parte-se para se obter um a colecao de partes.Eu YOU usar urn exem plo para ilustrar um a operacao analitica, com um objeto de analiseaparentem ente m uito grosseiro - um a vaca. R eparem bern, nos nao vam os analisar a vaca</p><p>2</p></li><li><p>5/14/2018 An lise econ mica e economia pol tica</p><p> 3/9</p><p>em geral, nos vamos tomar uma determinada vaca, nascida em data e lugar especificos.Tomem esta vaca, por exemplo, a Madalena, e vamos analisa-la. Agora vamos coloca-la namao de dois analistas: 0primeiro analista e urn acougueiro. 0 que e que ele vai fazer com avaca? Vai mata-la. Retira a came de primeira, a carne de segunda, a came de terceira, retiraas visceras, 0 couro, etc., ou seja, desmembra aquele todo em uma cole cao de partes. Agora,se essa mesma vaca tivesse de ser partida por outro analista, 0 professor da escola deVeterinaria, 0 que ele faria? Ele vai utilizar a vaca para uma demonstracao de anatomia,logo, mat a a vaca da mesma mane ira. Mas a partir dai, vai desmembra-la com criteriosdistintos: primeiro, 0 sistema neuro-vegetative; depois, 0 subsistema circulatorio; etc. nofinal, teria uma outra colecao de partes.Em primeiro lugar, qual e 0 denominador comum dos dois analistas? Ambos assassinaram0 todo. Segundo dado comum as duas situacoes: e impossivel reconstruir Madalena a partirdas duas colecoes de partes. 0 que aconteceu? 0 primeiro analista, 0 acougueiro, e 0segundo analista, 0 professor de anatomia, ao desmembrar a vaca obtiveram nao elementos,mas partes, que sao os elementos sem as conexoes com as demais e com 0 todo. Mas 0 quediferencia urn analista do outro e que 0primeiro tem criterios de particao que sao diferentesdo criterio de particao do segundo. Generalizando mais, poderiamos dizer que existemin fin itas co lecoes de partes obtidas a partir de ur n todo - Madalena. Entao, toda analiseeconomics e uma operacao de particao, so que nao parte de um objeto fisico, mas sim deideias. Quais sao as ideias? Producao, equilibrio geral, sistema economico, e estas ideias, 0analista em economia parte e obtem uma colecao de partes. So que, como neste caso, aoperacao de analise se da com urn objeto ideal, 0 que obtem sao conceitos. Mas os objetoscolocados sob a analise economica admitem da mesma manei ra inf in itos modos de particao.Entao, primeira coisa importante: admite infinitos modos de particao. Dizer isso e dizer queexistem criterios implicitos ou explicitos por tras dos conjuntos de conceitos economicos.</p><p>A armadilha do Crlterio de ParticaoDependendo dos criterios escolhidos teremos uma determinada colecao de conceitos e,dependendo dos conceitos que tomarmos, poderemos demonstrar qualquer coisa. Atravesda analise economica, e possivel simultaneamente demonstrar A e nao-A, dependendo dacolecao de conceitos que nos escolhermos. Apenas para efeito de exemplificacao, vamosilustrar a primeira grande armadilha dos procedimentos analiticos, a armadilha do criteriode particao.Reparem bem, M uma tese bastante difundida que diz "nao e possivel compatibilizar 0objetivo de maximo crescimento economico com 0objetivo de melhor justica social". Porque? Porque se admite que 0 crescimento se da em funcao da taxa de investimento, esta efuncao da oferta de poupanca e se sup5e que os grupos de mais alta renda poupam mais queos grupos de mais baixa renda, Para nao sacrificar a taxa de investimento, e necessario quehaja uma alta desigualdade na reparticao da renda. Melhor reparticao de renda, maisreduzida a taxa de crescimento; mais alto 0 ritmo de crescimento, pior distribuicao darenda. Esta e a tese A. Agora vem nao-A. Vamos supor 0 seguinte: os bens se classificam</p><p>3</p></li><li><p>5/14/2018 An lise econ mica e economia pol tica</p><p> 4/9</p><p>em duraveis e nao-duraveis, Os primeiros sao acumulados, os segundos sao desfrutados,Agora, uma geladeira e acumulada assim como urn trator, mas ha uma diferencafundamental entre a geladeira e 0 trator. Com a geladeira, a acumulacao e improdutiva,enquanto que com 0 trator e produtiva. Se nos tomamos a estrutura de consumo, as gruposde baixas rendas consomem a totalidade de suas r enda s, po rem 0 grosse do seu consumo eformado de bens nao duraveis. Na medida em que subimos na escala de reparticao de renda,os grupos superiores sao consumidores de bens duraveis, Dito de outra maneira, os gruposque fazem acumulacao improdutiva sao os grupos de altas rendas. Quanto mais alta a renda,mais que proporcional cresce a acumulacao improdutiva por estrato de renda. Se umaeconomia tern uma determinada capacidade de producao, esta capacidade de producao podeter ou nao uso alternativo. Por exemplo, a capacidade de produzir alimentos nao teria usoalternativo, ou produz alimentos ou entao nao pode ser desviada para a producao de bensduraveis. Mas uma industria de automoveis pode produzir automoveis ou caminhoes, podeproduzir bens para uma acumulacao improdutiva ou produtiva. A industria da construcaocivil pode fazer mais urn edificio de apartamentos (acumulacao improdutiva) ou mais urnedificio industrial (acumulacao produtiva). A industria de eletrodomesticos pode produzirgeladeiras ou instalacoes eletricas.Se a economia pretende crescer a maior taxa possivel deve forcar a maxima acumulacao;mas que acumulacao? Acumulacao produtiva. Quais sao os grupos que realizamacumulacao improdutiva? Os grupos de alta renda. Entao, quanta mais anormal a reparticaoda renda, maior sera a acumulacao improdutiva, menor sera 0 crescimento. Demonstradonao-A,Reparem bern, na primeira peca nos demonstramos que melhor justica era incompativelcom maior crescimento e na segunda, que maior justica e compativel com maiorcrescimento. Dependendo de que? No prirneiro caso, nos trabalhamos com categoriaskeynesianas - consumo e poupanca. Com isso se demonstrou a tese A. Trabalhando comconceitos de acumulacao produtiva e acumulacao improdutiva se demonstra nao-A.Houve um grego que disse 0 seguinte: me deem uma alavanca e urn ponto de apoio que eudesloco 0mundo. Com a teoria economica acontece 0 seguinte: deem-me a possibilidade demanter oculto meu criterio de particao que eu demonstro qualquer coisa.</p><p>Nivel de Abstraeaoo segundo problema que ocorre no procedimento analitico diz respeito ao chamado nivelde abstracao. Vamos tentar simular que 0pessoal fez vestibular e optou por economia. Vaoter a primeira aula de economia, bem animados porque finalmente vao travar contato com aciencia e a primeira aula e uma aula de motivacao. 0 mestre diz que a economia dispoe deleis e que vai comecar apresentando aos alunos uma lei apenas a titulo de exemplo: a lei dademanda, que diz que a quantidade demandada varia inversamente ao preco. Entao escreveuma relacao proporcional no quadro, na qual a variavel dependente e a quantidadedemandada e a variavel independente e 0 prevo. Traca as curvas e eis que a turma trava</p><p>4</p></li><li><p>5/14/2018 An lise econ mica e economia pol tica</p><p> 5/9</p><p>contato com a ciencia. Entao, esse mestre vai procurar trazer a turma ao processo de criacaointelectual. Pergunta: voces concordam com essa relacao funcional? B e uma funcao fqualquer do prevO, e vamos supor que ele vai querer discutir a funcao demanda debicicletas, Ele diz que a demanda de bicicletas varia inversamente ao preco da bicicleta,Pergunta se concordam com isso. Mas ai urn aluno levanta 0dedo e fala: a quantidade debicicletas nao depende tambem de preco de outras coisas? 0 mestre atento escreve umasegunda relacao funcional, tendo como variavel dependente a quanti dade demandada ecomo variavel independente 0preco das bicicletas e os das n-J outras coisas. Ele continuafazendo perguntas a turma. Outro fala que depende da renda. Escreve uma terceira relacaofuncional. Ai, e urn festival: surgem mais variaveis independentes. A funcao demanda setoma mais sofisticada a cada uma destas novas relacoes. Neste momento, 0mestre seencontra nurn estado de exaltacao porque a turma e formada de genies, e os alunostremendamente gratificados por saberem nao so que a economia e ciencia, mas tambem queestao contribuindo para fazer ciencia. Ai, urn espirito de porco levanta 0 dedo e conta urncaso que ocorreu na sua cidade: urn velhinho, que e amigo da turma da praca, ganhou naloteria esportiva e presenteou os garotos da praya com bicicletas, 0que aumentou ademanda de bicicletas. Isto e uma variavel funcional; seria uma variavel aleatoriaintroduzida dentro do modelo. Reparem so: entre aquela esqualida funcao demanda,definida sob condicoes ceteris paribus, ate a ultima, que incorporou uma variavel aleatoria,o que aconteceu? 0 nivel da abstracao veio baixando a cada nova variavel introduzida narelacao funcional. 0 mestre tentou se acercar do real, 0 que nunca aconteceu; casoacontecesse, ele teria urna funcao demanda com infinitas variaveis,Entao, deixando de lado 0problema do criterio da analise, ha urn segundo problema: todasas construcoes analiticas estao a um determinado nivel de abstracao, e urn dado nivel deabstracao nao pode ser operacionalizado num nivel diferente. Se operacionalizado emniveis diferentes, conduz a desenfoques. A que nivel as con...</p></li></ul>