Analise de conjuntura junho2015 (1)

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1. 1 CONFERNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL Conselho Permanente da CNBB 83 Reunio Ordinria Braslia - DF, 16 e 18 de junho de 2015. 03(Sub)CP/15 Anlise de Conjuntura Junho de 2015 A anlise da conjuntura, em mbito internacional e nacional, parte integrante da pauta das reunies ordinrias do Conselho Permanente e do Conselho Episcopal de Pastoral (CONSEP) da Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil CNBB, precedendo a abordagem de outros temas, com a finalidade de oferecer aos senhores bispos e assessores a possibilidade de dialogar sobre o momento atual e sua incidncia na misso especfica da entidade. semelhana das oferecidas em outras oportunidades, a presente anlise reconhece seus limites de abrangncia temtica e de profundidade de reflexo, e, por isso, agradece as complementaes de todos os interlocutores, para, ao fim, alcanarmos o objetivo: encontrar o cho da vida real, para semear o Evangelho de Jesus Cristo. Desta feita, sugerimos apreciao dos participantes os seguintes temas: Em mbito internacional, a atuao do Papa Francisco, o episdio FBI-FIFA, A Reforma Poltica no Chile; em mbito nacional, o Poder Legislativo Federal e sua agenda, a politizao no Poder Judicirio, 53 Assembleia Geral da CNBB e a Mdia, Cmara Federal e a Reforma Poltica, Governo Federal e o Ajuste Fiscal; Movimentos Sociais: Trabalho Escravo, Terras Indgenas e Maioridade Penal. Seguem dois anexos: Reforma Poltica na Cmara Federal e Nota do Sistema ONU sobre a Maioridade Penal. Bom dilogo! INTERNACIONAL Papa Francisco no cenrio internacional Na realidade, torna-se cada vez mais difcil encontrar solues em nvel local para as enormes contradies globais, pelo que a poltica local se satura de problemas por resolver. Se realmente queremos alcanar uma economia global saudvel, precisamos, neste momento da histria, de um modo mais eficiente de interao que, sem prejuzo da soberania das naes, assegure o bem-estar econmico a todos os pases e no apenas a alguns. EG 206 grande a expectativa para o lanamento da Encclica do Papa Francisco sobre o meio ambiente, denominada Laudato Si Louvado sejas. Apesar de outros papas j terem feito referncias s questes ambientais, a primeira vez que um Papa trata do tema especificamente. A Encclica vem em um momento em que os pases se preparam para a 21 Conferncia do Clima - COP 21, que decidir o compromisso das naes com a diminuio das emisses de poluentes na atmosfera. H o desejo de que o documento possa interferir nas proposies a serem discutidas em Paris. Compreende-se, ento, a grande expectativa quanto ao lanamento da encclica e seu contedo. A expectativa que seja um chamado mudana na forma como estamos usando os recursos do Planeta, o que implica uma transformao tica da sociedade. Naufrgios no Mediterrneo Logo no incio do seu pontificado, em 8 de julho de 2013, o Papa Francisco foi at a ilha de Lampedusa, no Sul da Itlia, rezar pelos mortos na travessia do Mar Mediterrneo. Esta ilha uma das principais rotas de refugiados do Norte da frica que partem em direo a Europa. Buscam melhores condies de vida, fugindo de pases assolados por conflitos tnicos, religiosos, pela misria e fome. Na ocasio, Papa Francisco criticou a globalizao da indiferena diante de tamanho sofrimento de tantas pessoas. Meses depois desta visita, mais um fato lamentvel naquela mesma regio: o naufrgio de um barco que levou morte de mais de 800 pessoas. O desastre ocorrido no dia 19 de abril, desta vez, alertou as autoridades da Europa, diante de uma prtica que se perpetua, sem que se assumam inciativas concretas para enfrent-la. Segundo dados do Alto Comissariado das Naes Unidas para os Refugiados (ACNUR), somente no ano de 2. 2 2014, em torno de 218 mil pessoas cruzaram o mediterrneo, viajando em embarcaes sem as mnimas condies humanitrias e de segurana. A fuga de seus pases os faz vtimas de traficantes internacionais que no hesitam em colocar vidas em risco, frente possibilidade de bons lucros. O resultado da equao que ceifa milhares de vidas: fome, guerras e misria. Por que seus territrios de origem se tornaram inspitos? Quem se beneficiou das riquezas naturais daquelas terras exaustivamente exploradas? Onde esto os colonizadores que desconstruram as comunidades tradicionais e implantaram um sistema econmico que produziu fome e desespero? Essas perguntas esto a ressoar. A nota emitida pelas autoridades europeias em abril de 2015 aponta para o aumento do controle do trfico humano, o que poder agravar ainda mais a situao, valorizando o custo do trfico de migrantes e no resolver o problema. Cobra-se da Europa, mesmo diante da grave crise econmica, mudana de mentalidade quanto ao fenmeno da migrao africana. A xenofobia e o fechamento migrao, bandeiras de lutas de alguns partidos polticos europeus, so graves equvocos. Urge tambm pensar de que forma a Unio Europeia est contribuindo para que pases como Mali, Eritreia, Lbia e Sria, dentre outros, tenham condies de superar suas imensas dificuldades. A Geopoltica do futebol Houve surpresa com as operaes do FBI (Departamento Federal de Investigao) frente direo da Federao Internacional de Futebol (FIFA). O futebol visto por alguns como espao de congraamento dos povos, tendo mais pases em sua composio que a Organizao das Naes Unidas (ONU), surge agora como uma verdadeira caixa escura no que diz respeito sua governana, considerando as nebulosas parcerias comerciais e polticas e o perfil interventor nas relaes com os pases-sede da Copa do Mundo. A suspeita de utilizao de mtodos condenveis pelos cartolas j era antiga. A fora da chamada oligarquia da bola (chefes de estado, sistema financeiro, parasos fiscais, mdia corporativa, grupos empresariais), no entanto, parecia oferecer uma rede de proteo difcil de romper. Jornalistas independentes que ousavam desafiar esse esquema eram isolados e condenados ao esquecimento, com cassao de credenciais para a cobertura dos eventos da FIFA. Todavia, o pacto de cavalheiros se rompeu quando Londres e Chicago se lanaram como candidatas a sediar as copas do mundo de 2018 e 2022, vencidas por Rssia e Catar, respectivamente. Foi o quanto bastou, para que viessem tona denncias de extorso, suborno e corrupo, instalando-se o desentendimento entre os cartolas. Para a Rssia, a realizao da Copa do Mundo em 2018 estratgica para sua projeo internacional, servindo para angariar prestgio e capital poltico internacional. Muitos entendem que esse um elemento motivador para o desencadeamento das operaes contra os esquemas fraudulentos que dominam o futebol internacional. Seria desestabilizar a estratgia russa de projeo de sua imagem. Apesar de a tendncia atual ser a Rssia sediar o evento esportivo, as perdas diplomticas j causam srio desconforto ao pas que se v vinculado e integrante do jogo sujo, montado para vencer a disputa para sediar a copa. Somam-se a isso os graves efeitos na sua economia em decorrncia da queda do preo do petrleo e as dificuldades oriundas das sanes impostas pela anexao da Crimeia. Observadores da cena internacional tm visto as mos dos Estados Unidos nesses movimentos, haja vista que para eles, os BRICS em metfora futebolstica, jogam o grande jogo das relaes internacionais que moldaro o mundo no sculo XXI e podero rivalizar com os americanos e seus aliados no campo econmico, diplomtico, militar e poltico. No Brasil, o caso FIFA d oportunidade para serem apuradas as denncias de corrupo na Confederao Brasileira de Futebol (CBF), auxiliando na renovao do esporte brasileiro, reclamada por muitos. AMRICA LATINA Reforma Poltica no Chile Embora a justa ordem da sociedade e do Estado seja dever central da poltica, a Igreja no pode nem deve ficar margem na luta pela justia. Todos os cristos, incluindo os Pastores, so chamados a preocupar-se com a construo dum mundo melhor. EG 183 O Chile vive um momento especial no que se refere a reformas polticas para aperfeioamento do sistema representativo democrtico. Um dos aspectos principais est na forma de eleio por distritos. A Constituio de 3. 3 1925, estabeleceu o sistema de representao proporcional, mas, na poca da ditadura militar, houve mudanas na legislao e o pas foi redividido em 60 distritos eleitorais. Pelo sistema vigente com voto distrital majoritrio, apelidado de sistema binominal, cada distrito pode eleger os dois candidatos mais votados. Com isso, mesmo tendo poucos votos, o segundo colocado sempre era eleito, fazendo com que a composio do congresso chileno ocorresse, tendo sempre um da oposio e um da situao, dificultando a formao de maiorias e impedindo que foras minoritrias sub-representadas, mas com apoio popular, pudessem ter representao no Congresso. Na Reforma Poltica aprovada neste ano, os distritos eleitorais foram mantidos, mas agora elegem 20 deputados pelo voto proporcional. Assim, haver um aumento do nmero de parlamentares eleitos, para garantir que segmentos sub-representados possam se expressar no parlamento chileno. Discute-se tambm a limitao no nmero de mandatos que os congressistas podem exercer. Outros pontos importantes so: a garantia aos cidados chilenos que moram no exterior, do direito de votar nas eleies presidenciais e plebiscitos; a criao de um Programa de Fomento Descentralizao, com vistas a ampliar a autonomia das provncias e o fim de contribuies annimas e reservadas para as campanhas polticas e o fim do financiamento eleitoral por empresas. NACIONAL Um legislativo poderosamente fraco Assim como o bem tende a difundir-se, assim tambm o mal consentido, que a injustia, tende a expandir a sua fora nociva e a minar, silenciosamente, as bases de qualquer sistema poltico e social, por mais slido que parea. Se cada ao tem consequncias, um mal embrenhado nas estruturas de uma sociedade sempre contm um potencial de dissoluo e de morte. EG 59 A atual legislatura da Cmara dos Deputados tem chamado a ateno pela acelerao da agenda poltica, deixando o Executivo na defensiva, sem capacidade de tomar iniciativa e permitindo, inclusive, que se propague a tese de que se vive quase um parlamentarismo no Brasil. A intensa agenda parlamentar est direcionada a interesses econmicos, maioria refratria garantia de direitos, em contraste com as histricas conquistas do mundo do trabalho e dos Direitos Humanos e Sociais, contidas na Carta Magna de 1988 e na Consolidao das Leis do Trabalho de 1943. Pode-se afirmar que as eleies de 2014 se deram num ambiente poltico hostil pauta dos direitos humanos: em todo o Brasil, candidatos se esmeraram como porta-vozes de polticas regressivas em relao aos direitos dos apenados; insistiram em que a violncia que assola as regies metropolitanas, se deve, em grande medida, aos adolescentes em conflito com a lei, da a tentativa de aprovao da Reduo da Maioridade Penal (PEC 171/1993). Nas eleies proporcionais foi onde se expuseram, de forma mais direta, as mazelas do sistema poltico: campanhas personalizadas base de muito dinheiro de empresas, pouco contedo programtico e nenhuma vinculao com as campanhas majoritrias, verdadeira pulverizao partidria. Esse quadro favoreceu um desequilbrio na representao social: forte presena do setor patronal na Cmara dos deputados e drstica reduo da bancada sindical. Estima-se que a representao sindical tenha diminudo de 86 para 44 deputados e que 221 deputados (43%) sejam empresrios, tendo cada um gastado, em mdia, quatro milhes de reais na campanha. A distoro gerada pelo predomnio do poder econmico nas campanhas proporcionais, aliada crise do movimento sindical e ao fato de partidos com parlamentares egressos do mundo do trabalho terem optado por candidaturas oriundas da gesto de esferas do estado (secretrios, prefeitos), agravou o desequilbrio da representao no parlamento. A crise da democracia direta foi uma das principais crticas explicitadas nas manifestaes de junho de 2013, todavia, paradoxalmente, ela no repercutiu no resultado das eleies parlamentares de 2014. Perdeu-se a esperana de mudanas pela via de eleies maculadas pelo poder econmico? Qual o significado desse descompasso? Nesse ambiente, tornam-se cada vez mais correntes afirmaes de que a atual legislatura seja a mais impermevel em relao s necessidades dos segmentos excludos e discriminados da sociedade, que operam na direo da restrio de direitos trabalhistas (PL 4330/2004, da terceirizao), de territrios indgenas (PEC 215/2000) e vida (PL 3722/2012, revoga estatuto do desarmamento e PEC 171/1993, reduo da maioridade penal). 4. 4 O governo federal nem sempre reage altura desta agenda regressiva e refratria aos direitos humanos, transparecendo aturdido, mas na verdade, beneficirio e indutor de parte dessa agenda: edio das Medidas Provisrias n 664/2014 e 665/2014, que, entre outros assuntos, estabelecem regras restritivas para acesso a benefcios previdencirios como, por exemplo, Abono Salarial, Seguro Desemprego e Auxlio Doena. A sociedade civil, perplexa no primeiro momento, est reagindo ofensiva com articulao das foras sociais com o fito de impedir qualquer retrocesso nos direitos sociais, enfrentando na arena pblica o poder econmico e seus aliados-representantes no parlamento brasileiro. A fora dessa articulao foi vista nas mobilizaes contrrias aprovao do PL 4330 (terceirizao). Embora aprovado na Cmara dos Deputados, constatam-se claros sinais de que o Senado Federal poder seguir outro caminho que no diminua os direitos dos trabalhadores. A mudana na atmosfera poltica oriunda da aprovao do PL 4330, quando os parlamentares foram surpreendidos pela fora da sociedade nas ruas e nas redes sociais, fortaleceu a convico de que imperativo deslocar, para fora do parlamento, o debate dos temas atinentes s demandas sociais. Entretanto, ao longo da histria, o parlamento tem se revelado como o poder da Repblica mais permevel s presses sociais e, da, vem a sua fora! Atuante, mas sem dilogo real com as foras sociais, tende a fechar- se em si mesmo. Em outros momentos histricos, o parlamento apresentava-se aparentemente frgil, mas tinha a capacidade de conexo e sinergia com a sociedade civil, especialmente no perodo da ditadura, anistia, redemocratizao, constituinte, impeachment de 1992, Lei 9840, Ficha Limpa, e em tantos outros momentos da vida poltica nacional. O fortalecimento de uma sociedade democrtica se d com um parlamento forte, autnomo em relao aos outros poderes da repblica, altivo, construtor de pontes sociais. O ativismo parlamentar hodierno, mais voltado a pautas de interesses de grupos econmicos, apresenta-se como anttese desses valores, notadamente quando pesa sobre parte dele denncias de envolvimento em esquemas de financiamento ilegal de campanha e enriquecimento ilcito. Politizao do Judicirio e condenao miditica hora de saber como projetar, numa cultura que privilegie o dilogo como forma de encontro, a busca de consenso e de acordos, mas sem a separar da preocupao por uma sociedade justa, capaz de memria e sem excluses. O autor principal, o sujeito histrico deste processo, so as pessoas e a sua cultura, no uma classe, uma frao, um grupo, uma elite. EG 239 H uma dcada, falava-se em judicializao da poltica, referindo-se tendncia de resolver na justia, quando no se obtinham solues para conflitos de interesses por mediao poltica nos parlamentos brasileiros. Essa prtica ainda ocorre. Todavia, cresce a preocupao, nos meios jurdicos do pas, com a emergncia da denominada politizao da Justia, quando h uma atuao seletiva de membros do poder judicirio, fazendo uma abstrao do princpio fundamental da imparcialidade na administrao da justia. um caminho perigoso, visto que coloca em risco o ordenamento constitucional do pas. Situao agravada, quando tal atuao conta com expressivo aparato miditico para sua divulgao. Neste caminho, como h ruptura dos princpios fundamentais do regramento jurdico penal, como a presuno de inocncia e o devido processo legal, outras prticas se sentem autorizadas: extrapolao do papel institucional de rgos envolvidos no sistema de justia e, mesmo, a atuao para alm da jurisdio de magistrados. Instrumentos excepcionais previstos no ordenamento jurdico, construdos para enfrentar a impunidade (como a delao premiada), tornaram-se objeto de presso sobre acusados e de premiao em dinheiro (com percentuais fixados) sobre o que poder ser retomado de recursos pblicos que foram desviados. Tais prticas, realizadas com os holofotes da grande mdia brasileira, transformam rus confessos em heris. Estabelece-se assim um rito sumrio de condenao, agravando os direitos fundamentais da pessoa humana, seja ela quem for. A liberdade de imprensa tem possibilitado populao conhecer, com detalhes, esquemas de corrupo no pas e, nestes casos, cumpre um papel insubstituvel. Destaca-se a importncia de profissionais da comunicao que realizam um autntico trabalho de jornalismo investigativo, trazendo luz esquemas de corrupo que se arrastam na histria brasileira. Todavia, a apurao da imprensa, de per si, no substitui a garantia do devido processo legal. No se faz justia com aodamento de decises ou com uma lentido que possa significar impunidade. Encontrar o equilbrio necessrio para que as garantias constitucionais sejam respeitadas fundamental para que, 5. 5 depois, as decises tomadas pelas cortes jurdicas do pas no tenham que ser revisadas, retardando ainda mais o julgamento de outras contendas e alimentando o crculo vicioso da demora em processos onde o demandante seja o cidado comum do povo. Que Justia seja feita, no tempo devido e com a garantia do devido processo legal. A assembleia da CNBB na mdia ... ningum pode exigir-nos que releguemos a religio para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influncia na vida social e nacional, sem nos preocuparmos com a sade das instituies da sociedade civil, sem nos pronunciarmos sobre os acontecimentos que interessam aos cidados. EG 183 As assembleias da CNBB sempre foram pauta para a imprensa. Nos ltimos anos, porm, sua cobertura pela grande mdia tem ficado escassa. Exceo se faz quando as assembleias so eletivas, como a desse ano. Uma pesquisa com a palavra CNBB em pelo menos cinco portais (Estado, Folha, O Globo, G1 e Correio Braziliense) nos d uma dimenso da repercusso do encontro dos bispos ocorrido nos dias 14 a 24 de abril deste ano em Aparecida (SP). Excetuando o Estado, que teve uma pauta quase diria (foram 13 matrias), os demais s falaram da assembleia a partir do dia 20, quando da eleio do novo presidente da CNBB, ocorrida no dia anterior. O Globo (quatro matrias), a Folha (trs), o Correio Braziliense (trs) e o G1 (trs matrias, mas replicadas em vrios veculos de seu sistema de comunicao num total de pelo menos 20 reprodues, inclusive televisivas) deram destaque ao novo presidente e sua primeira entrevista. Alm disso, destacaram tambm a nota da CNBB em que os bispos manifestam sua posio sobre o momento nacional. O Estado, que no publicou matria nenhuma apenas nos dias 18 e 19 de abril (dias do retiro dos bispos), trouxe outros assuntos discutidos pela CNBB alm da eleio do presidente e da nota sobre o momento nacional. Repercutiu, por exemplo, a anlise de conjuntura feita pelo ex-ministro Rubens Ricupero, o pronunciamento de D. Erwin sobre a questo indgena, a viglia feita pela juventude e a posio dos bispos sobre a reforma poltica. Outros assuntos importantes, discutidos e votados pelos bispos, no tiveram repercusso nestes portais pesquisados como, por exemplo, o texto Pensando o Brasil, que tratou da desigualdade social, a mensagem de solidariedade ao povo armnio no centenrio do genocdio e a comemorao dos 50 anos do Conclio Vaticano II. Pode-se dizer, no entanto, que, mesmo assim, a cobertura da assembleia pela grande mdia foi satisfatria, embora limitada e centrada, basicamente, nos dois pontos mencionados acima, no retratando, portanto, todo o contedo da reunio dos bispos. Esse papel ficou por conta da mdia de inspirao catlica que acompanhou, passo a passo, todos os dias da assembleia. Faamos a reforma poltica antes que o povo faa! O presidente da Cmara dos Deputados fez da celeuma criada em torno do chamado distrito uma espcie de bode expiatrio, que galvanizou a antipatia de determinados crculos da imprensa e academia. Derrotado, cumpriu, entretanto, o objetivo de desviar a ateno da sociedade do ponto principal: o financiamento empresarial de campanhas eleitorais, que fora derrotado na votao realizada em 26 de maio. O tema da no participao de empresas no financiamento de campanhas poderia estar decidido se o Supremo Tribunal Federal tivesse finalizado o julgamento da ADI 4650, do Conselho Federal da OAB. O julgamento est parado h um ano com pedido de vistas do Ministro Gilmar Mendes, que comunicou sua devoluo at o final de junho para a concluso do julgamento. A constitucionalizao do financiamento de campanha por empresas renasceu 24 horas depois, numa estratgia regimental, por meio de uma controvertida emenda aglutinativa, rompendo com o acordo de lderes, com presso sobre pequenos partidos e o convencimento de parcelas da bancada religiosa temerosa de um enfraquecimento do presidente em disputas vindouras , alm do esvaziamento da dissidncia pemedebista, na promessa de ajuda a parlamentares atolados em dvidas de campanha, conforme noticiou a imprensa. No obstante, o jogo est sendo jogado, carecendo de votao em segundo turno na Cmara e um longo percurso no Senado. No meio do caminho, o STF poder se pronunciar sobre o assunto, visto que h um Mandado de Segurana impetrado por parlamentares de seis partidos, questionando a validade da votao; posio respaldada por slida fundamentao de 200 juristas, argumentando que submeter pela segunda vez em votao uma emenda rejeitada fere o artigo 60 da Constituio, que probe que uma matria seja votada duas vezes na mesma legislatura. 6. 6 Ironicamente, a Reforma Poltica h muito tempo faz parte da pauta das entidades da sociedade civil, tendo ganhado fora nas manifestaes de junho de 2013. O mundo poltico, por sua vez, mostra-se fiel antiga tradio brasileira de mudar para continuar o mesmo, ou sem exageros, piorar ainda mais o modelo de representao existente. Destarte, a criatividade da vez seria subverter o sentido da palavra reforma. Para sociedade civil, a reforma poltica deveria diminuir o abismo que separa o governante dos governados, excluir o poder econmico do processo eleitoral, ampliar formas de participao e controle social regulamentando o artigo 14 da Constituio, promover a presena das mulheres, negros e ndios nos espaos de deciso. A classe poltica, porm, busca antecipar para fazer uma reforma poltica dos parlamentares, pelos parlamentares e para os parlamentares, na crena de que a sociedade assistir mais uma vez indiferente a essa manobra. Coerentes, de alguma maneira, com a frase lapidar: faamos a independncia antes que o povo a faa, repetida com nuance em outros momentos da histria: independncia de 1822, abolio da escravatura, Proclamao da Repblica, Revoluo de 1930, as Reformas de Base, luta pela Anistia, Ampla Geral e Irrestrita, a Redemocratizao, para ficar em alguns exemplos. Em que pese a obstinao dos deputados de aprovarem a reforma poltica a toque de caixa, ainda em 2015, comea a tomar corpo, na prpria casa legislativa, o entendimento de que mais uma vez a reforma ficar para depois, visto que o aodamento da Cmara poder resultar em nada, como em outras vezes. A ousada e ampla agenda da Comisso Especial atropelada autocraticamente pela Presidncia da Casa tornou mais evidente o seu desejo oculto, que de apenas constitucionalizar o financiamento privado de campanha, negado at o momento pelo STF. A sociedade civil organizada, por meio da Coalizo pela Reforma Poltica Democrtica e Eleies Limpas, reforou a diretriz da continuidade da coleta de assinaturas para iniciativa popular, para ultrapassar um milho e meio, priorizando o debate no financiamento de campanha (para que no haja participao de empresas), dado o grau de enfrentamento com a presidncia da Cmara, e estuda como apresentar a iniciativa popular no Senado Federal, vez que ela no foi devidamente acolhida na Cmara dos Deputados. Ajuste fiscal para qu e para quem? A dignidade de cada pessoa humana e o bem comum so questes que deveriam estruturar toda a poltica econmica, mas s vezes parecem somente apndices acrescentados de fora para completar um discurso poltico sem perspectivas nem programas de verdadeiro desenvolvimento integral. EG 203 A palavra de ordem da nova equipe econmica consiste em recolocar a economia brasileira nos eixos, sem prejuzos sociais exacerbados. Maneira elegante para falar da necessidade do ajuste fiscal e do corte de gastos pblicos. Por austeridade fiscal entenda-se corte no seguro-desemprego, contingenciamento de gastos e reduo do investimento pblico. Essa volta ortodoxia econmica apresentada como prtica de boa cincia econmica, controlada e impulsada pelas agncias de cotao de crdito, tipo de selo de qualidade para o capital. Bom para o capital, ruim para o trabalho. Pois, essa primazia do capital est levando ao aumento de desemprego que subiu para 7,9%, e para uma queda da renda para muitos. Em regies metropolitanas, a taxa de desemprego foi de 6,4%. Entre os jovens, essa taxa foi bem maior, ultrapassando 16%. De 2002 a 2014, a taxa de desemprego de jovens tinha cado de 23,2% a 12%. A classe empresarial est esperanosa de uma melhoria do ambiente de negcios, revertendo o colapso de confiana que teria levado os empresrios a no investirem em novos projetos e a aplicar seus recursos nos papis da dvida pblica, puxando a taxa de juros para cima. Crise de confiana significa crise de lucro. Na falta de fazer bons negcios com lucro ou retorno que esteja acima da taxa de juros, melhor ganhar dinheiro com os juros da dvida pblica. Uma economia cada vez mais rentista sintoniza com recesso econmica. Incertezas polticas continuam a minar a confiana dos empresrios. A taxa de investimento encolheu de 7,8% em comparao com a taxa do ano passado. A chamada incerteza econmica responsvel por uma queda de 1,6% do PIB. Segundo declarao do Comit de Poltica Monetria (Copom), a alta de juros de 2,25 pontos percentuais para atingir o patamar de 13,25% tem o objetivo de combater o descontrole dos preos. O ndice dos Preos ao Consumidor Amplo (IPCA) ultrapassa 8% ao ano (nos 12 ltimos meses). Combater a inflao pelo aumento da taxa de juros teria sentido se houvesse inflao por excesso da demanda. Na verdade, trata-se de um ajuste das tarifas pblicas e de outros fatores de produo. O consumo da populao est diminuindo. Muitas famlias esto endividadas. Reduzir mais o consumo vai criar mais desemprego. uma inflao de custo por causa do aumento 7. 7 de energia e dos combustveis. O peso da energia no oramento familiar subiu 48% entre abril de 2014 e deste ano. Com desemprego em alta, oramento mais apertado por causa da inflao e juros abusivos, as famlias brasileiras sacaram recursos das cadernetas de poupana. A poupana recuou para 16% do PIB. O Copom est mais preocupado em dirigir a inflao para meta em detrimento da economia real e do mercado de trabalho. Analistas do mundo dos bancos denunciam o aumento de juros com desemprego em massa, desacelerao forte dos salrios e recesso econmica. O aumento dos juros provoca recesso e compromete o reajuste fiscal. A alta de juros de 2,25%, desde que o Banco Central comeou a elevar as taxas, significa um aumento da ordem de R$ 70 bilhes que vai para os detentores dos papis da dvida pblica, anulando o ganho previsto do ajuste fiscal. O que vai acontecer, e j comeou, uma reduo das transferncias sociais do governo e um controle do reajuste do salrio-mnimo. De fato, o ajuste fiscal compromete a estratgia de crescimento com incluso social. O governo rendeu-se ao mercado. O setor privado interno passou a cobrar mais caro pelas concesses. O discurso da equipe econmica insiste sobre a necessidade dos ajustes fiscais, para que o pas retome a capacidade de investimento. Segundo o ministro da Fazenda, o Brasil no est enfrentando uma crise econmica e os ajustes possibilitaro o efetivo controle das receitas e despesas. O ajuste fiscal precisaria vir acompanhado de outras medidas para a economia melhorar. Questiona-se: s custas de quem se est realizando o Ajuste Fiscal? Quem pagar novamente a conta? No h razo econmica que justifica um aumento da taxa de juros. O ajuste fiscal no precisa vir acompanhado de alta dos juros que contribui ao aprofundamento de um ciclo recessivo, com desemprego, baixa de salrios e rotatividade maior da mo de obra para ser recontratada com valor menor. Por outro lado, preciso que o Governo Federal faa uma autocrtica e veja como reduzir gastos revendo, inclusive, sua estrutura. MOVIMENTOS SOCIAIS Trabalho decente, trabalho precarizado e trabalho escravo Para a Igreja, a opo pelos pobres mais uma categoria teolgica que cultural, sociolgica, poltica ou filosfica. Deus manifesta a sua misericrdia antes de mais a eles. Esta preferncia divina tem consequncias na vida de f de todos os cristos, chamados a possurem os mesmos sentimentos que esto em Cristo Jesus. EG 198 Em nota recente sobre o momento nacional, a CNBB lamenta [...] que, no Congresso, se formem bancadas que reforcem o corporativismo, para defender interesses de segmentos que se opem aos direitos e conquistas sociais j adquiridos pelos mais pobres. O alerta oportuno diante da escalada de iniciativas no Congresso Nacional que atentam contra direitos dos trabalhadores e ensejam reflexo e mobilizao urgentes da sociedade civil, visando impedi-las. Entre as iniciativas mais graves que implicam na supresso de direitos bsicos dos trabalhadores, avanam os projetos que propem a terceirizao em todas as atividades laborais sejam elas atividades-fim ou meio, conforme desenhado no PL 4330/2012 , bem como as vrias proposies que visam afrouxar o conceito legal de trabalho escravo. Muitos analistas do trabalho consideram que a aprovao da terceirizao nos moldes ora propostos prefigura o fim da CLT, no que ela tem de mais positivo, qual seja, no aspecto em que ela cria um patamar bsico de direito do trabalho. De acordo com dados do Dieese, o trabalhador terceirizado recebe 27% menos e a vtima em 80% dos acidentes de trabalho. Ademais, nesse momento de retrao da economia e repique nos ndices de desemprego, tal iniciativa se revela uma perverso, na medida em que impele ainda mais ao achatamento dos salrios dos trabalhadores menos qualificados, alm de precarizar as condies trabalhistas, o aumento da rotatividade no emprego, dos acidentes de trabalho, bem como, no outro polo, aquele dos trabalhadores mais qualificados e possuidores de maiores salrios, pois estimula ainda mais o fenmeno da pejotizao prtica utilizada pelas empresas no intuito de reduzirem os encargos trabalhistas, por meio da contratao de funcionrios (pessoas fsicas) atravs da constituio de Pessoa Jurdica, nesse caso h a descaracterizao da relao de emprego e a PJ usada em substituio ao contrato de trabalho , que extrai direitos fundamentais como o dcimo terceiro salrio e frias. Haver ainda, por conseguinte, para alm dos bvios prejuzos que recairo sobre os trabalhadores, impacto no consumo, alm de reduo na arrecadao da Unio. Em sntese, todos os trabalhadores e a sociedade em geral perdem nesse novo cenrio. 8. 8 Enquanto mundialmente se afirma e se intensifica a luta pelo trabalho decente definido como o trabalho produtivo adequadamente remunerado, exercido em condies de liberdade, equidade e segurana, capaz de garantir uma vida digna , so sintomticas da atual conjuntura nacional as iniciativas que visam mudanas no conceito de trabalho escravo no Artigo 149 do Cdigo Penal. Tais mudanas visam suprimir da definio legal do trabalho escravo as situaes em que o trabalho exercido em condies degradantes, bem como a meno a jornadas de trabalho exaustivas enquanto caracterizadoras do trabalho escravo. Ao rebaixar o conceito, consequentemente se reduziro as possibilidades futuras de enquadramento das situaes de explorao do trabalho escravo pela fiscalizao do Ministrio do Trabalho e Emprego e Ministrio Pblico do Trabalho. A redao atual do artigo 149 no Cdigo Penal historicamente recente e nos foi dada pela Lei n 10.803, de 11.12.2003, na gesto de Lus Incio Lula da Silva. Essa lei, por sua vez, deu contedo tipificao de Reduo a condio anloga de escravo, situao somente citada no Decreto-Lei n 2.848, 7.12.1940 ainda com Getlio Vargas. V-se, dessa maneira, que aquilo que levou 73 anos para ser definido, o conceito de trabalho escravo em suas variadas formas, seja sob a condio de trabalho forado ou em condies degradantes sob as quais exercido; seja a jornada exaustiva exigida, ou ainda o cerceamento de locomoo via servido por dvida , em pouco mais de uma dcada se v ameaado pelos interesses econmicos. Infelizmente, o esforo conjunto de setores empresariais do campo e da cidade em tal empreendimento se contextualizam pelas constataes de uso do trabalho anlogo escravido no meio urbano, o que estimula a aliana estratgica entre os costumeiros utilizadores do trabalho escravo, os proprietrios do campo, com os empresrios de setores da produo urbana, particularmente nos ramos da indstria da construo civil e vesturio, nos quais se tornaram frequentes os flagrantes at com utilizao de migrantes internacionais. paradoxal que as mudanas propostas no Congresso Nacional e, em vias de serem impingidas aos trabalhadores, se faam quando o Governo brasileiro se dedica a referendar o Protocolo adicional Conveno 29 da OIT. A luta da sociedade brasileira nos ltimos 20 anos pela erradicao do trabalho escravo tem merecido o reconhecimento internacional. O conceito de trabalho escravo aqui adotado e demais instrumentos utilizados nessa luta, como a lista suja (tambm alvo de extino em um dos projetos aqui referidos) e a fiscalizao mvel tm influenciado diversas iniciativas dentre as quais se destaca o Protocolo Conveno 29 da OIT, sobre Trabalho Forado ou Obrigatrio, de 1930, aprovado ano passado, durante a 103 Conferncia Internacional do Trabalho. O protocolo atualiza e complementa a Conveno 29 ao orientar aes que visam preencher lacunas em sua implementao. A experincia brasileira no combate ao trabalho escravo ofereceu largos subsdios para que a OIT elaborasse o Protocolo que busca ampliar o conceito de escravido, aproximando-o do referencial utilizado no Brasil. grande a contradio: enquanto internacionalmente ainda somos apontados como referncia, o conservadorismo e o atraso de setores econmicos poderosos subtraem os meios e as perspectivas da sociedade e do Estado brasileiro de continuarem atuando de forma protagonista no combate ao trabalho escravo, a mais representativa anttese do trabalho decente. A PEC 215 e os Povos Indgenas O Projeto de Emenda Constitucional 215 tramita na Cmara dos Deputados desde 2000, e tem como proposta principal retirar do Executivo a prerrogativa de homologao de terras tradicionalmente ocupadas por povos indgenas, definindo essa atividade como de competncia exclusiva do Congresso Nacional. Nessa PEC, esto apensadas propostas que buscam restringir a prerrogativa do Executivo em definir outros territrios tradicionais, como terras quilombolas e unidades de conservao. A PEC tramitou na Comisso de Constituio e Justia - CCJ e, em 21 de maro de 2012, teve a sua admissibilidade aprovada. Com isso, foi instituda, pela Mesa Diretora da Cmara dos Deputados, uma Comisso Especial temporria para analisar a questo. O acatamento pela CCJ da admissibilidade da PEC e a criao da Comisso Especial teve uma repercusso extremamente negativa entre os povos indgenas e seus aliados que, desde o incio, se mobilizam para barrar a iniciativa. Isso porque a avaliao do Movimento Indgena e das entidades indigenistas de que essa PEC, caso seja realmente aprovada, ir impossibilitar a garantia dos direitos territoriais dos povos indgenas e tem como efeito possvel o fortalecimento de iniciativas, no mbito do Legislativo, para revisar ou mesmo invalidar todas as demarcaes e homologaes de terras indgenas, j feitas no Brasil, ao longo de toda a nossa histria. 9. 9 Durante o ano de 2013 e 2014, a Comisso Especial da PEC 215 fez uma srie de audincias nos estados para debater a proposta. Essas audincias foram marcadas pela forte presena dos setores ruralistas. Por outro lado, as organizaes indgenas e indigenistas optaram, a partir de uma avaliao poltica, por no participar dos encontros e externaram o descontentamento com a proposta e o carter inconstitucional e anti-indgena da medida. Nesse perodo, o Governo Federal se posicionou, de diversas formas, contra a iniciativa do Legislativo, a partir da leitura de que se trata de uma proposta que fere a Constituio Federal, j que o reconhecimento territorial uma prerrogativa do Executivo Federal. Destaca-se, nesse posicionamento, o parecer do Ministrio da Justia encaminhado Cmara dos Deputados, avaliando a proposta da PEC 215 como inconstitucional, e a declarao da prpria Presidente Dilma, posicionando-se contrria PEC 215 e a mudanas na Constituio que reduzam direitos dos povos indgenas. Em que pese a contrariedade dos povos indgenas e a posio do Governo Federal, a Comisso continuou com as discusses e o relator, Osmar Serraglio, concluiu seu trabalho com um relatrio favorvel aprovao da PEC, com alteraes do Artigo 231 da nossa Constituio. A nova redao traz srias flexibilizaes dos direitos territoriais indgenas ao tentar incorporar no texto as condicionantes do Caso Raposa Serra do Sol, j rejeitadas pelo STF, ao vedar a ampliao de territrios indgenas, ao permitir a permuta e arrendamento de territrios e ao afirmar que a homologao passa a ser feita por meio de projeto de Lei de iniciativa do Executivo a ser submetido ao Legislativo, para cada uma das terras a serem homologadas. A Comisso Especial buscou, durante os ltimos meses de 2014, a aprovao do relatrio, mas foi impedida pela ampla mobilizao dos povos indgenas. Parte dos membros da Comisso, declaradamente ruralistas, tentaram diversas manobras para garantir a aprovao do relatrio, antes do fim da legislatura. No entanto, nessas ocasies os indgenas, com apoio de alguns parlamentares, conseguiram obstruir a votao e impedir as sesses da Comisso. A mobilizao indgena foi exitosa e o relatrio foi arquivado sem ser apreciado pela Comisso. Regimentalmente, com o fim da legislatura o relatrio deve ser arquivado, e o trabalho desenvolvido pela Comisso perde a validade. Nessa direo, foi instituda nova Comisso Especial para apreciao da PEC 215, em 26 de fevereiro deste ano, presidida pelo Deputado Nilson Leito. A Comisso tem o prazo de quarenta sesses para avaliar a proposta. Nesse perodo, necessria a mobilizao permanente dos povos indgenas, seus apoiadores, deputados favorveis causa e o Governo Federal para impedir que o Legislativo consiga flexibilizar direitos indgenas constitudos. Um momento importante de mobilizao contra essa iniciativa foi a realizao, pelo Movimento Indgena, do Acampamento Terra Livre, ocorrido em abril deste ano, na Esplanada dos Ministrios. Entre as pautas do encontro estava o posicionamento fortemente contrrio iniciativa do Congresso em relao PEC 215. Os indgenas reuniram-se com os presidentes da Cmara e do Senado, alm de uma plenria especial, e expressaram a sua disposio de lutar pelo arquivamento do texto. A luta dos povos indgenas contra a PEC tem tido o apoio de outros povos e comunidades tradicionais, j que a proposta inicial do texto tinha repercusses ao reconhecimento de territrios tradicionais de outros grupos. Diante dessa adeso, percebe-se, na Comisso Especial, a tentativa de restringir a questo apenas aos indgenas, de forma a desmobilizar a articulao em curso entre povos indgenas, quilombolas e comunidades tradicionais. No entanto, em que pese o discurso dos deputados ruralistas da Comisso em relao aplicabilidade restrita aos indgenas, evidente que uma deciso desta teria forte impacto em todo o processo de reconhecimento de territrios tradicionais no Brasil, alm das reas de conservao e preservao ambiental. Uma conquista importante, fruto das vrias mobilizaes sociais, ocorrida no ms de maio, foi a divulgao de um manifesto assinado por mais da metade dos senadores, inclusive o presidente da Casa, opondo-se aprovao da PEC 215/2000 no Senado Federal. Vale lembrar, entretanto, que outras iniciativas contrrias aos povos indgenas, quilombolas e comunidades tradicionais tramitam no Congresso Nacional, como o PL 1610 (minerao em terras indgenas) e a PEC 227 (arrendamento de terras indgenas) e requerem a mesma ateno. Por outro lado, um importante instrumento de garantia de direitos para os povos indgenas adormece nas comisses do Congresso: o Estatuto dos Povos Indgenas (PL 2057/91). 10. 10 Mobilizaes contra Reduo da Maioridade Penal Com a atuao regressiva dos Direitos que, principalmente, a Cmara dos Deputados est protagonizando, um dos temas que ganha relevncia nacional a apreciao da PEC 171/1993, que prope a reduo da maioridade penal de 18 para 16 anos. Na ltima semana, dentro da sala de reunies da Comisso de Constituio e Justia da Cmara Federal foi utilizado spray de pimenta para conter a manifestao de estudantes, alm de outros recursos violentos para reprimir os contrrios reduo. Essa violncia, somada aos cortes no oramento para o PRONATEC (reduziu-se a um tero), apresentam-se como contradies: reduzem-se oportunidades de qualificao profissional dos jovens e, ao mesmo tempo, se projeta ampliar a punio deles com a proposta de reduo da maioridade penal. Os argumentos contrrios reduo so inmeros, conforme Nota do Sistema ONU no Brasil, que segue como anexo. Todavia, h uma intensa disputa de verses sobre as informaes, confundindo a opinio da populao sobre o tema. Muitas delas apresentadas pelos defensores da reduo se baseiam em dados no cientficos, diretamente de Secretarias Estaduais de Segurana Pblica, colocando que os adolescentes seriam autores em mais de 50% dos crimes contra a vida, sendo que os dados oficiais apontam para algo ao redor de 18% dos que so suspeitos de autoria desses crimes. O que se tem comprovado que os adolescentes so as maiores vtimas: na faixa etria so 36,5% das mortes por causas no-naturais, contra 4,8% para o restante da populao! Diante do risco da aprovao da reduo da maioridade penal, setores do Congresso Nacional se mobilizam para negociar alternativas: uma dela seria a constitucionalizao da reduo para os jovens de 16 a 18 anos que cometessem crimes hediondos (todavia essa proposta rompe com a concepo da doutrina da Proteo Integral, concretizada no Estatuto da Criana e do Adolescente); outra admitir alteraes no ECA, com o estabelecimento de gradaes de penalidades, de acordo com a idade e com a infrao penal cometida, restringindo o poder discricionrio do magistrado na aplicao das Medidas Socioeducativas, inclusive, com a restrio da liberdade. Tambm cresce o consenso entre os parlamentares para ampliar as penalidades dos adultos que cooptam os adolescentes para infraes penais. Setores organizados da sociedade civil esto se manifestando contrariamente. Na grande imprensa comeam a surgir vozes destoantes do discurso nico de criminalizao dos adolescentes e se articulam para ampliar o debate sobre o tema com a populao em geral. H sria cobrana condicionando que, se alteraes forem realizadas no ECA, que tambm se estabelea responsabilizao de agentes pblicos (secretrios de estado, magistrados, promotores de justia, alm de outros operadores do SINASE) para que haja a correta execuo das medidas socioeducativas, vez que na maioria dos estados e municpios brasileiros seu cumprimento se faz sem a garantia de seu carter educativo e ressocializador; adolescentes ficam at anos sem julgamento definitivo; no h acompanhamento das famlias dos adolescentes para superao da situao de excluso social e econmica. Para que tais medidas sejam operacionalizadas necessrio se desenvolver um sistema de indicadores objetivos de funcionamento do SINASE, tendo como ponto de partida o relatrio que o Conselho Nacional de Justia elaborou sobre o tema, juntamente com sistemas disponveis na Secretaria de Direitos Humanos. Contriburam para esta anlise: Pe. Thierry Linard SJ, Pe. Ari dos Reis, Pe. Ernanne Pinheiro, Daniel Seidel, Pe. Geraldo Martins, Gilberto Sousa, Paulo Maldos e Pedro Gontijo. Anexo 1 - Reforma poltica: caminhada feita e impasses do momento No dilogo com o Estado e com a sociedade, a Igreja no tem solues para todas as questes especficas. Mas, juntamente com as vrias foras sociais, acompanha as propostas que melhor correspondam dignidade da pessoa humana e ao bem comum. Ao faz-lo, prope sempre com clareza os valores fundamentais da existncia humana, para transmitir convices que possam depois traduzir-se em aes polticas. EG 241 Em nota publicada por ocasio da Assembleia Geral da CNBB, 21/04/2015, os Bispos caracterizam com lucidez o momento em que vive o nosso Pas: A CNBB avaliou com apreenso a realidade brasileira marcada pela profunda e prolongada crise que ameaa as conquistas, a partir da Constituio Cidad de 1988, e coloca em risco a ordem democrtica do Pas. Desta avaliao nasce nossa palavra de pastores convictos de que ningum pode exigir de ns que releguemos a religio para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influncia na vida social e nacional, sem nos 11. 11 preocupar com a sade das instituies da sociedade civil, sem nos pronunciar sobre os acontecimentos que interessam aos cidados (EG, 183). O momento no de acirrar nimos, nem de assumir posies revanchistas ou de dio que desconsiderem a poltica como defesa e promoo do bem comum. Os trs poderes da Repblica, com a autonomia que lhes prpria, tm o dever irrenuncivel do dilogo aberto, franco, verdadeiro, na busca de uma soluo que devolva aos brasileiros a certeza de superao da crise. Um dos temas em relevo na nota referida para contribuir na superao da crise mencionada, l-se a importncia da Reforma Poltica como uma das principais iniciativas da populao brasileira: ... Entre as matrias que incidem diretamente na vida do povo tm, entre seus caminhos de soluo, uma Reforma Poltica que atinja as entranhas do sistema poltico brasileiro. Apartidria, a proposta da Coalizo pela Reforma Poltica Democrtica e Eleies Limpas, da qual a CNBB signatria, se coloca nessa direo. J desde 2013, a CNBB explicita a Reforma Poltica como a me das Reformas: ... considerando os baixos ndices de credibilidade do poder legislativo, judicirio e executivo, dos partidos polticos; considerando as distores do sistema poltico e eleitoral que alarga o fosso entre o Estado e a Nao, os representados e seus representantes, a sociedade e o governo; considerando que a atual conjuntura impe que se proceda com urgncia a uma profunda Reforma em nosso sistema poltico e eleitoral... Por isso, a "Coalizo Democrtica pela Reforma Poltica e Eleies Limpas" foi apresentada como o melhor caminho para esta transformao e conclamando a todos os bispos e suas dioceses a participarem desta Campanha pelo aperfeioamento da Democracia. A Reforma Poltica democrtica poderia ter sido realizada quando o atual governo federal detinha amplo apoio popular, perdeu-se uma oportunidade histrica. Caminhada do Projeto de Lei de Iniciativa Popular e apoio do episcopado Em 2014, durante a 52 Assembleia Geral da CNBB, em Aparecida (SP), os bispos aprovaram o texto Pensando o Brasil: desafios diante das eleies 2014. Na mensagem, o episcopado brasileiro destacou pontos fundamentais sobre a vida poltica do Brasil, como a participao consciente nas eleies... a busca de candidatos que tenham compromisso com tantas reformas necessrias no pas, especialmente a Reforma Poltica. Durante a realizao Campanha da Fraternidade 2015 cujo tema foi a Fraternidade: Igreja e Sociedade, diversas dioceses do Brasil se empenharam na coleta de assinaturas em prol do Projeto de Lei, colocando mesmo as assinaturas como ao concreta da Campanha. Em artigo publicado no Jornal Folha de So Paulo, em 07 de abril de 2015, o ento presidente da CNBB, Dom Raymundo Damasceno, explicita: Ao declarar seu apoio ao projeto de lei da Reforma Poltica, a Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil o faz com a conscincia de que dever da Igreja cooperar com a sociedade para a construo do bem comum, conservando a autonomia e independncia que a caracterizam em relao comunidade poltica, como lembra o Conclio Vaticano II. Se Igreja no cabe assumir a responsabilidade da organizao poltica da sociedade nem se colocar no lugar do Estado, como nos recorda Bento 16, tampouco pode ela ficar alheia luta pela justia.... Durante a assembleia de 2015 para mostrar que a proposta da Coalizo no tinha nenhuma ligao com algum partido poltico, Dom Joaquim Mol, coordenador da Comisso da CNBB para Reforma Poltica, apresentou aos Bispos um infograma, caracterizando as acentuaes das propostas em tramitao no Congresso Nacional. Dom Mol ressaltou que a CNBB no est fazendo trabalho em favor de um partido, candidato ou seguimento. No se trata de uma ao em favor de uma parte, mas do bem comum. Ter regras adequadas para apurar a qualidade das pessoas que vo assumir as responsabilidades polticas cuidar do bem comum. Queremos bons polticos para que, como disse o Papa Francisco, nenhuma famlia fique sem casa, nenhum campons sem- terra, nenhum trabalhador sem direitos. A CNBB apoia esta atitude, esta postura, destacou. 12. 12 O Jornal Le Monde Diplomatique/Brasil, de maro/15, faz uma comparao entre a proposta da PEC 352/2013, em tramitao no Legislativo e a proposta da Coalizo. Coloca a proposta da PEC 352, em princpio democrtica, mas na prtica essencialmente plutocrtica, isto , a formulao do governo dos detentores do capital, que hoje atua de maneira informal, constitucionalizando o financiamento privado nas eleies. Enquanto apresenta o Projeto da Coalizo como simples e extremamente democrtico. So dois projetos de Brasil, diz o autor. A vitria de um ou de outro impactar geraes. No pouco o que est em jogo. (Francisco Fonseca, professor da PUC/SP). Outro ponto que tem levado os parlamentares a grandes discusses a questo do sistema eleitoral. Os sistemas mais colocados em relevo: Sistema eleitoral proporcional em dois turnos? (Proposta da coalizo: no primeiro turno os eleitores escolhem as propostas partidrias. Cada partido apresenta uma lista de candidatos pr-ordenada com alternncia entre mulheres e homens que faro campanhas defendendo as propostas do partido para o municpio, o estado ou o pas. Seriam 28 campanhas eleitorais no 1 turno. Com o resultado do 1 turno, cada partido saber quantas vagas conquistou e apresentar o dobro de candidaturas para as vagas de acordo com a lista do primeiro turno. O eleitor escolher um candidato entre o dobro de vagas, reduzindo-se drasticamente o nmero de candidatos no segundo turno). Sistema majoritrio ou distrital/distrito? (Posio do PMDB); Sistema eleitoral distrital misto? (Posio do PSDB). Lista fechada? (Posio do PT). A Proposta da Coalizo difere em alguns pontos de todas as outras propostas. Naturalmente, cada uma das posies mostra suas vantagens. Tambm pode-se caracterizar suas desvantagens. Infelizmente, o relatrio da Comisso Especial, ainda em discusso, ficou muito aqum do que a Coalizo esperava, sobretudo com relao a alguns dos pontos cruciais: o financiamento das eleies e a questo do sistema eleitoral com predominncia do Distrito. E acabou sendo desconsiderada pelo presidente da Cmara dos Deputados, temendo uma derrota no tema do financiamento de campanhas eleitorais por empresas. Assim, optou fazer a votao da Reforma Poltica por temas, escolhendo como relator o Deputado Rodrigo Maia, ento presidente da Comisso Especial. 13. 13 Anexo II Nota da Unicef sobre a Reduo da Maioridade Penal Disponvel em http://nacoesunidas.org/wp-content/uploads/2015/05/nota_onu_reducao_maioridade_penal.pdf NOTA DO SISTEMA ONU NO BRASIL SOBRE A PROPOSTA DE REDUO DA MAIORIDADE PENAL O Sistema ONU no Brasil acompanha com preocupao a tramitao, no Congresso Nacional, de uma Proposta de Emenda Constituio (PEC 171/1993) que prev a reduo da maioridade penal de 18 para 16 anos de idade e o debate nacional sobre o tema. O Sistema ONU condena qualquer forma de violncia, incluindo aquela praticada por adolescentes e jovens. No entanto, com grande inquietao que se constata que os adolescentes vm sendo publicamente apontados como responsveis pelas alarmantes estatsticas de violncia no Pas, em um ciclo de sucessivas violaes de direitos. Dados oficiais mostram que, dos 21 milhes de adolescentes que vivem no Brasil, apenas 0,013% cometeu atos contra a vida1 . Os adolescentes so muito mais vtimas do que autores de violncia. Estatsticas mostram que a populao adolescente e jovem, especialmente a negra e pobre, est sendo assassinada de forma sistemtica no Pas. Essa situao coloca o Brasil em segundo lugar no mundo em nmero absoluto de homicdios de adolescentes, atrs da Nigria2 . Os homicdios j so a causa de 36,5% das mortes de adolescentes por causas no naturais, enquanto, para a populao em geral, esse tipo de morte representa 4,8% do total. Somente entre 2006 e 2012, pelo menos 33 mil adolescentes entre 12 e 18 anos foram assassinados no Brasil3 . Na grande maioria dos casos, as vtimas so adolescentes que vivem em condies de pobreza na periferia das grandes cidades. O Sistema ONU alerta que, se as infraes cometidas por adolescentes e jovens forem tratadas exclusivamente como uma questo de segurana pblica e no como um indicador de restrio de acesso a direitos fundamentais, a cidadania e a justia, o problema da violncia no Brasil poder ser agravado, com graves consequncias no presente e futuro. O sistema penitencirio brasileiro j enfrenta enormes desafios para reinserir adultos na sociedade. Encarcerar adolescentes jovens de 16 e 17 anos em presdios superlotados ser exp-los influncia direta de faces do crime organizado. Uma soluo efetiva para os atos de violncia cometidos por adolescentes e jovens passa necessariamente pela anlise das causas e pela adoo de uma abordagem integral em relao ao problema da violncia4 . Investir na populao de adolescentes e jovens a chave para o desenvolvimento. Dificilmente progressos sociais e econmicos podero ser alcanados nos prximos anos sem os investimentos certos nesta que a maior populao jovem da histria: no mundo, so mais de 1,8 bilho de adolescentes e jovens (10 a 24 anos), e no Brasil esse nmero ultrapassa 51 milhes5 . Essa quantidade sem precedentes de adolescentes e jovens no Brasil e no mundo propiciada pelo chamado bnus demogrfico constitui uma oportunidade nica para que a consecuo do desenvolvimento em todas as suas dimenses seja sustentvel. Para isso, Estados e sociedades devem reconhecer o potencial desses adolescentes e jovens e assegurar os meios para que as contribuies presentes e futuras desses segmentos tenham impactos positivos para suas trajetrias, suas famlias, comunidades e pases. H inmeras evidncias de que as razes da criminalidade grave na adolescncia e juventude no Brasil se desenvolvem a partir de situaes anteriores de violncia e negligncia social. Essas situaes so muitas vezes agravadas pela ausncia do apoio s famlias e pela falta de acesso destas aos benefcios das polticas pblicas de educao, trabalho e emprego, sade, habitao, assistncia social, lazer, cultura, cidadania e acesso justia que, potencialmente, deveriam estar disponveis a todo e qualquer cidado, em todas as fases do ciclo de vida. Vrias evidncias apontam que o encarceramento de pessoas, em geral, agrava sua situao de sade e o seu isolamento, representando uma grande barreira ao desenvolvimento de suas habilidades para a vida. A 14. 14 reduo da maioridade penal e o consequente encarceramento de adolescentes de 16 e 17 anos poderia acentuar ainda mais as vulnerabilidades dessa faixa da populao violncia e ao crime6 . No Brasil, adolescentes a partir de 12 anos j so responsabilizados por atos cometidos contra a lei, a partir do sistema especializado de responsabilizao, por meio de medidas socioeducativas, incluindo a medida de privao de liberdade, previstas no Estatuto da Criana e do Adolescente (ECA). Se tal sistema no tem conseguido dar respostas efetivas, preciso aperfeio-lo de acordo com o modelo especializado de justia juvenil, harmonizado com os padres internacionais j incorporados Constituio Federal de 1988. Alm de estar na contramo das medidas mais efetivas de enfrentamento da violncia, a reduo da maioridade penal agrava contextos de vulnerabilidade, refora o racismo e a discriminao racial e social, e fere acordos de direitos humanos e compromissos internacionais historicamente assumidos pelo Estado brasileiro. Um dos compromissos fundamentais que o Brasil assume ao ratificar um tratado internacional o de adequar sua legislao interna aos preceitos desse tratado, tal como assinala a Conveno de Viena sobre o Direito dos Tratados7 . Assim, a Conveno sobre os Direitos da Criana (CDC), ratificada pelo Estado brasileiro no dia 24 de setembro de 1990, reconhece as crianas e os adolescentes como sujeitos e titulares de direitos, estabelecendo em seu artigo primeiro que criana todo ser humano com menos de dezoito anos de idade8 . Em relao s responsabilidades das pessoas menores de 18 anos, a CDC estabelece claramente, em seus artigos 1, 37 e 40, que: (i) nenhuma pessoa menor de 18 anos de idade pode ser julgada como um adulto; (ii) deve se estabelecer uma idade mnima na qual o Estado renuncia a qualquer tipo de responsabilizao penal; (iii) seja implementado no Pas um sistema de responsabilizao especfico para os menores de idade em relao idade penal, garantindo a presuno de inocncia e o devido processo legal, e estabelecendo penas diferenciadas, onde a privao da liberdade seja utilizada to s como medida de ltimo recurso. O Sistema das Naes Unidas no Brasil reconhece a importncia do debate sobre o tema da violncia e espera que o Brasil continue sendo uma forte liderana regional e global ao buscar respostas que assegurem os direitos humanos e ampliem o sistema de proteo social e de segurana cidad a todos e todas. O Sistema ONU no Brasil reitera seu compromisso de apoiar o trabalho do Pas em favor da garantia dos direitos de crianas, adolescentes e jovens e convoca todos os atores sociais a continuar dialogando e construindo, conjuntamente, as melhores alternativas para aprimorar o atual sistema de responsabilizao de adolescentes e jovens a quem se atribui a pratica de delitos. Braslia, 11 de maio de 2015 NOTAS 1 Estimativa do UNICEF Brasil com base em dados do Levantamento SINASE 2012 e PNAD 2012. 2 Ocorreram aproximadamente 11 mil assassinatos de brasileiros de 0 a 19 anos em 2012. In: UNICEF. Hidden in plain sight: a statistical analysis of violence against children. 2014. P. 37. Disponvel em: http://goo.gl/O3uhzE 3 Dados do SIM/DATASUS. In: UNICEF. Homicdios na Adolescncia no Brasil. IHA, 2012. P. 12 e 57. Disponvel em: http://goo.gl/U6odLu 4 UNITED NATIONS. Fact Sheet on Juvenile Justice, p.5. Vide http://goo.gl/ZPqCJT 5 Dados provenientes do relatrio Situao da Populao Mundial 2014 (UNFPA, 2014). Vide http://goo.gl/FnP2Gq 6 UNODC. Da Coero Coeso (2010). Disponvel em: http://goo.gl/MmxJt7 7 Vide http://goo.gl/SdNJuq 8 Vide http://goo.gl/unqCml