Analise de conjuntura junho2015 (1)

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1. 1 CONFERNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL Conselho Permanente da CNBB 83 Reunio Ordinria Braslia - DF, 16 e 18 de junho de 2015. 03(Sub)CP/15 Anlise de Conjuntura Junho de 2015 A anlise da conjuntura, em mbito internacional e nacional, parte integrante da pauta das reunies ordinrias do Conselho Permanente e do Conselho Episcopal de Pastoral (CONSEP) da Conferncia Nacional dos Bispos do Brasil CNBB, precedendo a abordagem de outros temas, com a finalidade de oferecer aos senhores bispos e assessores a possibilidade de dialogar sobre o momento atual e sua incidncia na misso especfica da entidade. semelhana das oferecidas em outras oportunidades, a presente anlise reconhece seus limites de abrangncia temtica e de profundidade de reflexo, e, por isso, agradece as complementaes de todos os interlocutores, para, ao fim, alcanarmos o objetivo: encontrar o cho da vida real, para semear o Evangelho de Jesus Cristo. Desta feita, sugerimos apreciao dos participantes os seguintes temas: Em mbito internacional, a atuao do Papa Francisco, o episdio FBI-FIFA, A Reforma Poltica no Chile; em mbito nacional, o Poder Legislativo Federal e sua agenda, a politizao no Poder Judicirio, 53 Assembleia Geral da CNBB e a Mdia, Cmara Federal e a Reforma Poltica, Governo Federal e o Ajuste Fiscal; Movimentos Sociais: Trabalho Escravo, Terras Indgenas e Maioridade Penal. Seguem dois anexos: Reforma Poltica na Cmara Federal e Nota do Sistema ONU sobre a Maioridade Penal. Bom dilogo! INTERNACIONAL Papa Francisco no cenrio internacional Na realidade, torna-se cada vez mais difcil encontrar solues em nvel local para as enormes contradies globais, pelo que a poltica local se satura de problemas por resolver. Se realmente queremos alcanar uma economia global saudvel, precisamos, neste momento da histria, de um modo mais eficiente de interao que, sem prejuzo da soberania das naes, assegure o bem-estar econmico a todos os pases e no apenas a alguns. EG 206 grande a expectativa para o lanamento da Encclica do Papa Francisco sobre o meio ambiente, denominada Laudato Si Louvado sejas. Apesar de outros papas j terem feito referncias s questes ambientais, a primeira vez que um Papa trata do tema especificamente. A Encclica vem em um momento em que os pases se preparam para a 21 Conferncia do Clima - COP 21, que decidir o compromisso das naes com a diminuio das emisses de poluentes na atmosfera. H o desejo de que o documento possa interferir nas proposies a serem discutidas em Paris. Compreende-se, ento, a grande expectativa quanto ao lanamento da encclica e seu contedo. A expectativa que seja um chamado mudana na forma como estamos usando os recursos do Planeta, o que implica uma transformao tica da sociedade. Naufrgios no Mediterrneo Logo no incio do seu pontificado, em 8 de julho de 2013, o Papa Francisco foi at a ilha de Lampedusa, no Sul da Itlia, rezar pelos mortos na travessia do Mar Mediterrneo. Esta ilha uma das principais rotas de refugiados do Norte da frica que partem em direo a Europa. Buscam melhores condies de vida, fugindo de pases assolados por conflitos tnicos, religiosos, pela misria e fome. Na ocasio, Papa Francisco criticou a globalizao da indiferena diante de tamanho sofrimento de tantas pessoas. Meses depois desta visita, mais um fato lamentvel naquela mesma regio: o naufrgio de um barco que levou morte de mais de 800 pessoas. O desastre ocorrido no dia 19 de abril, desta vez, alertou as autoridades da Europa, diante de uma prtica que se perpetua, sem que se assumam inciativas concretas para enfrent-la. Segundo dados do Alto Comissariado das Naes Unidas para os Refugiados (ACNUR), somente no ano de 2. 2 2014, em torno de 218 mil pessoas cruzaram o mediterrneo, viajando em embarcaes sem as mnimas condies humanitrias e de segurana. A fuga de seus pases os faz vtimas de traficantes internacionais que no hesitam em colocar vidas em risco, frente possibilidade de bons lucros. O resultado da equao que ceifa milhares de vidas: fome, guerras e misria. Por que seus territrios de origem se tornaram inspitos? Quem se beneficiou das riquezas naturais daquelas terras exaustivamente exploradas? Onde esto os colonizadores que desconstruram as comunidades tradicionais e implantaram um sistema econmico que produziu fome e desespero? Essas perguntas esto a ressoar. A nota emitida pelas autoridades europeias em abril de 2015 aponta para o aumento do controle do trfico humano, o que poder agravar ainda mais a situao, valorizando o custo do trfico de migrantes e no resolver o problema. Cobra-se da Europa, mesmo diante da grave crise econmica, mudana de mentalidade quanto ao fenmeno da migrao africana. A xenofobia e o fechamento migrao, bandeiras de lutas de alguns partidos polticos europeus, so graves equvocos. Urge tambm pensar de que forma a Unio Europeia est contribuindo para que pases como Mali, Eritreia, Lbia e Sria, dentre outros, tenham condies de superar suas imensas dificuldades. A Geopoltica do futebol Houve surpresa com as operaes do FBI (Departamento Federal de Investigao) frente direo da Federao Internacional de Futebol (FIFA). O futebol visto por alguns como espao de congraamento dos povos, tendo mais pases em sua composio que a Organizao das Naes Unidas (ONU), surge agora como uma verdadeira caixa escura no que diz respeito sua governana, considerando as nebulosas parcerias comerciais e polticas e o perfil interventor nas relaes com os pases-sede da Copa do Mundo. A suspeita de utilizao de mtodos condenveis pelos cartolas j era antiga. A fora da chamada oligarquia da bola (chefes de estado, sistema financeiro, parasos fiscais, mdia corporativa, grupos empresariais), no entanto, parecia oferecer uma rede de proteo difcil de romper. Jornalistas independentes que ousavam desafiar esse esquema eram isolados e condenados ao esquecimento, com cassao de credenciais para a cobertura dos eventos da FIFA. Todavia, o pacto de cavalheiros se rompeu quando Londres e Chicago se lanaram como candidatas a sediar as copas do mundo de 2018 e 2022, vencidas por Rssia e Catar, respectivamente. Foi o quanto bastou, para que viessem tona denncias de extorso, suborno e corrupo, instalando-se o desentendimento entre os cartolas. Para a Rssia, a realizao da Copa do Mundo em 2018 estratgica para sua projeo internacional, servindo para angariar prestgio e capital poltico internacional. Muitos entendem que esse um elemento motivador para o desencadeamento das operaes contra os esquemas fraudulentos que dominam o futebol internacional. Seria desestabilizar a estratgia russa de projeo de sua imagem. Apesar de a tendncia atual ser a Rssia sediar o evento esportivo, as perdas diplomticas j causam srio desconforto ao pas que se v vinculado e integrante do jogo sujo, montado para vencer a disputa para sediar a copa. Somam-se a isso os graves efeitos na sua economia em decorrncia da queda do preo do petrleo e as dificuldades oriundas das sanes impostas pela anexao da Crimeia. Observadores da cena internacional tm visto as mos dos Estados Unidos nesses movimentos, haja vista que para eles, os BRICS em metfora futebolstica, jogam o grande jogo das relaes internacionais que moldaro o mundo no sculo XXI e podero rivalizar com os americanos e seus aliados no campo econmico, diplomtico, militar e poltico. No Brasil, o caso FIFA d oportunidade para serem apuradas as denncias de corrupo na Confederao Brasileira de Futebol (CBF), auxiliando na renovao do esporte brasileiro, reclamada por muitos. AMRICA LATINA Reforma Poltica no Chile Embora a justa ordem da sociedade e do Estado seja dever central da poltica, a Igreja no pode nem deve ficar margem na luta pela justia. Todos os cristos, incluindo os Pastores, so chamados a preocupar-se com a construo dum mundo melhor. EG 183 O Chile vive um momento especial no que se refere a reformas polticas para aperfeioamento do sistema representativo democrtico. Um dos aspectos principais est na forma de eleio por distritos. A Constituio de 3. 3 1925, estabeleceu o sistema de representao proporcional, mas, na poca da ditadura militar, houve mudanas na legislao e o pas foi redividido em 60 distritos eleitorais. Pelo sistema vigente com voto distrital majoritrio, apelidado de sistema binominal, cada distrito pode eleger os dois candidatos mais votados. Com isso, mesmo tendo poucos votos, o segundo colocado sempre era eleito, fazendo com que a composio do congresso chileno ocorresse, tendo sempre um da oposio e um da situao, dificultando a formao de maiorias e impedindo que foras minoritrias sub-representadas, mas com apoio popular, pudessem ter representao no Congresso. Na Reforma Poltica aprovada neste ano, os distritos eleitorais foram mantidos, mas agora elegem 20 deputados pelo voto proporcional. Assim, haver um aumento do nmero de parlamentares eleitos, para garantir que segmentos sub-representados possam se expressar no parlamento chileno. Discute-se tambm a limitao no nmero de mandatos que os congressistas podem exercer. Outros pontos importantes so: a garantia aos cidados chilenos que moram no exterior, do direito de votar nas eleies presidenciais e plebiscitos; a criao de um Programa de Fomento Descentralizao, com vistas a ampliar a autonomia das provncias e o fim de contribuies annimas e reservadas para as campanhas polticas e o fim do financiamento eleitoral por empresas. NACIONAL Um legislativo poderosamente fraco Assim como o bem tende a difundir-se, assim tambm o mal consentido, que a injustia, tende a expandir a sua fora nociva e a minar, silenciosamente, as bases de qualquer sistema poltico e social, por mais slido que parea. Se cada ao tem consequncias, um mal embrenhado nas estruturas de uma sociedade sempre contm um potencial de dissoluo e de morte. EG 59 A atual legislatura da Cmara dos Deputados tem chamado a ateno pela acelerao da agenda poltica, deixando o Executivo na defensiva, sem capacidade de tomar iniciativa e permitindo, inclusive, que se propague a tese de que se vive quase um parlamentarismo no Brasil. A intensa agenda parlamentar est direcionada a interesses econmicos, maioria refratria garantia de direitos, em contraste com as histricas conquistas do mundo do trabalho e dos Direitos Humanos e Sociais, contidas na Carta Magna de 1988 e na Consolidao das Leis do Trabalho de 1943. Pode-se afirmar que as eleies de 2014 se deram num ambiente poltico hostil pauta dos direitos humanos: em todo o Brasil, candidatos se esmeraram como porta-vozes de polticas regressivas em relao aos direitos dos apenados; insistiram em que a violncia que assola as regies metropolitanas, se deve, em grande medida, aos adolescentes em conflito com a lei, da a tentativa de aprovao da Reduo da Maioridade Penal (PEC 171/1993). Nas eleies proporcionais foi onde se expuseram, de forma mais direta, as mazelas do sistema poltico: campanhas personalizadas base de muito dinheiro de empresas, pouco contedo programtico e nenhuma vinculao com as campanhas majoritrias, verdadeira pulverizao partidria. Esse quadro favoreceu um desequilbrio na representao social: forte presena do setor patronal na Cmara dos deputados e drstica reduo da bancada sindical. Estima-se que a representao sindical tenha diminudo de 86 para 44 deputados e que 221 deputados (43%) sejam empresrios, tendo cada um gastado, em mdia, quatro milhes de reais na campanha. A distoro gerada pelo predomnio do poder econmico nas campanhas proporcionais, aliada crise do movimento sindical e ao fato de partidos com parlamentares egressos do mundo do trabalho terem optado por candidaturas oriundas da gesto de esferas do estado (secretrios, prefeitos), agravou o desequilbrio da representao no parlamento. A crise da democracia direta foi uma das principais crticas explicitadas nas manifestaes de junho de 2013, todavia, paradoxalmente, ela no repercutiu no resultado das eleies parlamentares de 2014. Perdeu-se a esperana de mudanas pela via de eleies maculadas pelo poder econmico? Qual o significado desse descompasso? Nesse ambiente, tornam-se cada vez mais correntes afirmaes de que a atual legislatura seja a mais impermevel em relao s necessidades dos segmentos excludos e discriminados da sociedade, que operam na direo da restrio de direitos trabalhistas (PL 4330/2004, da terceirizao), de territrios indgenas (PEC 215/2000) e vida (PL 3722/2012, revoga estatuto do desarmamento e PEC 171/1993, reduo da maioridade penal). 4. 4 O governo federal nem sempre reage altura desta agenda regressiva e refratria aos direitos humanos, transparecendo aturdido, mas na verdade, beneficirio e indutor de parte dessa agenda: edio das Medidas Provisrias n 664/2014 e 665/2014, que, entre outros assuntos, estabelecem regras restritivas para acesso a benefcios previdencirios como, por exemplo, Abono Salarial, Seguro Desemprego e Auxlio Doena. A sociedade civil, perplexa no primeiro momento, est reagindo ofensiva com articulao das foras sociais com o fito de impedir qualquer retrocesso nos direitos sociais, enfrentando na arena pblica o poder econmico e seus aliados-representantes no parlamento brasileiro. A fora dessa articulao foi vista nas mobilizaes contrrias aprovao do PL 4330 (terceirizao). Embora aprovado na Cmara dos Deputados, constatam-se claros sinais de que o Senado Federal poder seguir outro caminho que no diminua os direitos dos trabalhadores. A mudana na atmosfera poltica oriunda da aprovao do PL 4330, quando os parlamentares foram surpreendidos pela fora da sociedade nas ruas e nas redes sociais, fortaleceu a convico de que imperativo deslocar, para fora do parlamento, o debate dos temas atinentes s demandas sociais. Entretanto, ao longo da histria, o parlamento tem se revelado como o poder da Repblica mais permevel s presses sociais e, da, vem a sua fora! Atuante, mas sem dilogo real com as foras sociais, tende a fechar- se em si mesmo. Em outros momentos histricos, o parlamento apresentava-se aparentemente frgil, mas tinha a capacidade de conexo e sinergia com a sociedade civil, especialmente no perodo da ditadura, anistia, redemocratizao, constituinte, impeachment de 1992, Lei 9840, Ficha Limpa, e em tantos outros momentos da vida poltica nacional. O fortalecimento de uma sociedade democrtica se d com um parlamento forte, autnomo em relao aos outros poderes da repblica, altivo, construtor de pontes sociais. O ativismo parlamentar hodierno, mais voltado a pautas de interesses de grupos econmicos, apresenta-se como anttese desses valores, notadamente quando pesa sobre parte dele denncias de envolvimento em esquemas de financiamento ilegal de campanha e enriquecimento ilcito. Politizao do Judicirio e condenao miditica hora de saber como projetar, numa cultura que privilegie o dilogo como forma de encontro, a busca de consenso e de acordos, mas sem a separar da preocupao por uma sociedade justa, capaz de memria e sem excluses. O autor principal, o sujeito histrico deste processo, so as pessoas e a sua cultura, no uma classe, uma frao, um grupo, uma elite....