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  • N 430 Julho / 2016FUNDAO INSTITUTO DE PESQUISAS ECONMICAS

    iss

    n 1

    678-6

    335

    As ideias e opinies expostas nos artigos so de responsabilidade exclusiva dos autores, no refletindo a opinio da Fipe

    Vera Martins da Silva comenta o desempenho recente do mercado de trabalho brasileiro com os dados da PNAD Contnua.

    Os Mitos Previdencirios no BrasilRogrio Nagamine Costanzi et al.

    Sade Integrada e Integrao da Sade: Potencialidades Sociais e Econmicas do E-Health no Contexto Europeu

    Julio Lucchesi Moraes, Ana Paula Iervolino

    A Construo Civil no Brasil: Uma Avaliao Entre 1995-2009

    Rodger Barros Antunes Campos

    Interdependncia Econmica entre as Bacias Hidrogrficas Brasileiras

    Jaqueline Coelho Visentin

    Reformas Econmicas e Crescimento: Uma Resenha da Literatura

    Bruno Cordeiro

    O Modelo de Tiebout e a Teoria de Hirschman: uma Anlise de Polticas Pblicas no Brasil

    Ariel Kessel Akerman, Jos Augusto Julio

    Relatrio de Indicadores FinanceirosNefin-USP

    anlise de conjuntura

    temas de economia aplicada

    Mercado de TrabalhoVera Martins da Silva

    p. 14

    p. 41

    p. 3

    Julio Lucchesi Moraes e Ana Paula Iervolino abordam o e-Health no mbito da agenda europeia de desenvolvimento.

    Rodger Barros Antunes Campos analisa o comportamento recente do setor de construo civil no Brasil por meio de indicadores de participao relativa e de agregados macroeconmicos.

    p. 54

    p. 63

    p. 8

    p. 19

    p. 25 Jaqueline Coelho Visentin estuda a economia de 56 Bacias Hidrogrfi-cas brasileiras por meio da estimao de uma matriz inter-regional de insumo-produto.

    Bruno Cordeiro apresenta uma reviso terica e emprica da literatura sobre reformas econmicas e crescimento econmico, com nfase nas reformas ocorridas no Brasil na dcada de 1990.

    O Ncleo de Economia Financeira da USP apresenta uma atualizao dos resultados de um investimento (terico) em quatro carteiras long-short tradicionais da literatura de Economia Financeira.

    Ariel Kessel Akerman e Jos Augusto Julio fazem uma anlise comparada dos modelos de Tiebout e Hirschman e discutem exemplos brasileiros com base nessa perspectiva.

    Luciana Suarez Lopes e Jos Flvio Motta fazem uma reflexo sobre os autores considerados os intrpretes do Brasil: Gilberto Freyre, Srgio Buarque de Holanda e Caio Prado Jnior.

    economia & histria

    Rogrio Nagamine Costanzi e demais autores refutam os argumentos usualmente utilizados que contrariam a necessidade de reformas na Previdncia Social no Brasil.

    Raas Ms, Raas Boas Gilberto Freyre e as Razes do Nosso Brasil

    Luciana Suarez Lopes, Jos Flvio Motta

    Trabalho Escravo, Trabalho Livre: o Negro na Formao da Classe Operria Brasileira

    Rafaela C. Pinheiro, Luciana Suarez Lopes

    p. 35

    p. 50

    Rafaela Carvalho Pinheiro e Luciana Suarez Lopes apresentam os resul-tados iniciais de uma pesquisa em andamento que busca compreender o papel do negro na formao do mercado de trabalho e da classe traba-lhadora aps a abolio da escravido.

  • julho de 2016

    Conselho Curador

    Juarez A. Baldini Rizzieri (Presidente) Andrea Sandro Calabi Denisard C. de Oliveira Alves Eduardo Amaral Haddad Francisco Vidal Luna Hlio Nogueira da Cruz Jos Paulo Zeetano Chahad Simo Davi Silber Vera Lucia Fava

    INFORMAES FIPE UMA PUBLICAO MENSAL DE CONJUNTURA ECONMICA DA FUNDAO INSTITUTO DE PESQUISAS ECONMICAS ISSN 1678-6335

    Luiz Martins Lopes Jos Paulo Z. Chahad Maria Cristina Cacciamali Maria Helena G. Pallares Zockun Simo Davi Silber

    Editora-Chefe

    Fabiana F. Rocha

    Preparao de Originais e Reviso

    Alina Gasparello de Araujo

    Produo Editorial

    Sandra Vilas Boas

    http://www.fipe.org.br

    Diretoria

    Diretor Presidente

    Carlos Antonio Luque

    Diretora de Pesquisa

    Maria Helena Garcia Pallares Zockun

    Diretor de Cursos

    Jos Carlos de Souza Santos

    Ps-Graduao

    Mrcio Issao Nakane

    Secretaria Executiva

    Domingos Pimentel Bortoletto

    Conselho EditorialHeron Carlos E. do Carmo Lenina Pomeranz

    Observatrio do Emprego e do Trabalho

    O Observatrio do Emprego e do Trabalho oferece aos formuladores de polticas pblicas um conjunto de ferramentas inovadoras para aprimorar as possibilidades de anlise e de compreenso da evoluo do mercado de trabalho.

    O Observatrio inova a anlise do mercado de trabalho em dois aspectos importantes. Primeiro, utiliza um conjunto de indicadores novos, especialmente criados pelos pesquisadores da FIPE, os quais junta-mente com indicadores mais conhecidos e tradicionais permitiro um acompanhamento mais detalhado do que ocorre no mercado de trabalho. Segundo, porque estes indicadores podem ser utilizados tanto para analisar o mercado como um todo, quanto para analisar aspectos desagregados do mercado como, por exemplo, uma ocupao ou um municpio. So indicadores poderosos, que oferecem uma viso de curto prazo e tambm podem formar uma srie histrica. O conjunto de indicadores pode ser usado para acompanhar tanto as flutuaes decorrentes das alteraes conjunturais de curto prazo quanto as evolu-es estruturais de longo prazo. Mensalmente divulgado um Boletim que apresenta um resumo do que ocorreu no mercado de trabalho do Estado. As bases de dados que originam as informaes divulgadas pelo Observatrio so: a) CAGED (MTE); b) RAIS (MTE); c) PNAD (IBGE).

    O Observatrio do Emprego e do Trabalho foi desenvolvido e mantido em conjunto pela Secretaria do Emprego e Relaes do Trabalho do Governo do Estado de So Paulo (SERT) e pela Fundao Instituto de Pesquisas Econmicas da USP (FIPE).

    Para saber mais, acesse:

    http://www.fipe.org.br/projetos/observatorio/

  • 3anlise de conjuntura

    julho de 2016

    Mercado de Trabalho: as Vtimas da Recesso

    Vera Martins da Silva (*)

    Os nmeros de desocupados no mercado de trabalho so triste-mente preocupantes, atingindo 11,4 milhes de pessoas no tri-mestre de maro a maio de 2016, resultado da PNADC Pesquisa Nacional por Amostra de Domic-lios Contnua do IBGE, divulgada no final de junho de 2016. Em re-lao ao mesmo trimestre mvel de 2015, houve aumento de 3,3 milhes de desocupados, aumen-to de 40,3% nesse contingente. O Grfico 1 mostra a evoluo do n-mero de desempregados segundo a PNADC, desde o trimestre jan-fev--mar de 2012, no qual se v que o

    aumento sistemtico do problema comeou em meados de 2014. Esse desemprego em massa combina (sic) com o tenebroso desempenho da atividade econmica, apesar de a inflao continuar relutante em ceder de forma significativa. O au-mento da desocupao concentrou--se na Indstria Geral (-1,4 milho de pessoas) e em alguns servios, Informao, Comunicao e Ativi-dades Financeiras, Imobilirias, Profissionais e Administrativas (-919 mil pessoas).

    O aumento de desocupados, isto , pessoas que informaram ter pro-curado emprego no ms anterior

    pesquisa, est fortemente rela-cionado ao fato de que a perda de ocupao por parte de algum mem-bro da famlia fez com que outros membros passassem a demandar trabalho para reequilibrar o ora-mento domstico, assim como pela entrada no mercado de trabalho de um contingente relevante de jovens afinal, o Brasil ainda um pas jovem. Entre maro e maio de 2016, o nmero de ocupados foi es-timado pelo IBGE em 90,8 milhes de pessoas, uma queda de 1,4% em relao ao mesmo trimestre de 2015, o que representa uma redu-o de 1,2 milhes de pessoas.

  • 5anlise de conjuntura4 anlise de conjuntura

    julho de 2016

    O contingente de pessoas fora da fora de trabalho, ou seja, que no tm ocupao nem esto procuran-do, foi estimado em 63,8 milhes, o que indicou estabilidade em rela-o ao trimestre anterior e mesmo ao mesmo trimestre de 2015. J o nvel de ocupao (a relao entre as pessoas ocupadas na semana de referncia em relao s pessoas em idade de trabalhar) apresentou declnio de 56,2% entre maro e maio de 2015 para 54,7% entre maro e maio de 2016, depois do pico de 57,2% em meados de 2012.

    O resultado que exprime a dificul-dade no mercado de trabalho a chamada taxa de desocupao no trimestre de maro a maio de 2016 foi estimada em 11,2%, um aumen-to de 40% em relao ao resultado estimado no mesmo trimestre de 2015, que foi 8,1% (ver Grfico 2). O rendimento mdio real habi-tualmente recebido por todos os tipos de trabalho pelas pessoas ocupadas foi estimado pelo IBGE em R$ 1.982,00, uma retrao de 3% em relao ao mesmo trimes-tre de 2015, quando foi estimado em R$ 2.037,00. Portanto, o ajuste no mercado de trabalho tem ocor-

    rido via quantidade do nmero de trabalhadores e muito pouco em termos de salrios. Contribui para isso o fato de a legislao trabalhis-ta dar pouca margem de manobra para acordos entre empregados e empregadores, o que tambm amplia enormemente o recurso Justia do Trabalho, pois normal-mente quem mais a procura so os desligados pelas empresas, em busca de indenizaes. mais uma jabuticaba na economia brasileira, onde h sobreproteo a quem consegue ter um emprego formal em detrimento da maior absoro de potenciais trabalhadores.

    Grfico 1 Pessoas de 14 Anos Ou Mais de Idade Desocupadas, em 1.000, Trimestres Mveis, Jan-Fev-Mar 2012/ Mar-Abr-Mai 2016

    Fonte: IBGE, PNADC.

  • 5anlise de conjuntura4 anlise de conjuntura

    julho de 2016

    Grfico 2 - Taxa de Desocupao das Pessoas de 14 Anos Ou Mais De Idade, Trimestres Mveis, Jan-Fev-Mar 2012 A Mar-Abr-Mai 2016

    Fonte: IBGE, PNADC.

    Observando os resultados pelos grandes grupos, em relao ao mesmo trimestre de 2015, destaca--se a queda dos trabalhadores com carteira assinada em 1,5 milho, ou 4,2%, enquanto os sem cartei-ra assinada ficaram estveis em relao ao mesmo trimestre de 2015. Houve aumento de 5,1% dos trabalhadores domsticos, repre-sentando 307 mil pessoas, assim como um aumento de 952 mil pes-soas por conta prpria (aumento de 4,3%). Chama a ateno a redu-o de 5,2 % de empregadores, o que representa uma queda de 208 mil pessoas. Afinal, uma recesso como a que estamos vivendo atinge

    sobretudo os empregados do setor formal, mas os empregadores, es-pecialmente dos mercados mais sujeitos concorrncia, tambm no tm vida fcil e muitas vezes desaparecem, enquanto empreen-dedores, junto com suas empresas.

    Outras grandes vtimas da dete-riorao do mercado de trabalho so a escalada da inadimplncia de vrios contratos e o aumento do risco na concesso de crdito, o que dificulta uma eventual reduo das taxas de juros e, diretamente, das contas da Previdncia Social, que tambm passaram a ser defi-citrias no setor urbano. O Grfico 3 apresenta a evoluo do nmero

    de contribuintes do INSS, desta-cando-se a reverso da incluso na receita previdenciria a partir do final de 2015. Adicione-se a isto o aumento de pessoas que passam a demandar benefcios previdenci-rios e tambm assistenciais, que em vrios casos esto dentro das despesas previdencirias. O re-sultado uma expanso vigorosa do dficit previdencirio, realado pela queda generalizada da recei-ta pblica. Enquanto a economia no sair do atoleiro da recesso prolongada, tanto os indicadores do mercado de trabalho como da receita pblica permanecero ca-tastrficos.

  • 7anlise de conjuntura6 anlise de conjuntura

    julho de 2016

    Para algum consolo, se possvel assim dizer, parece haver uma estabilizao da queda do nmero de pos-tos de trabalho formais gerados, conforme mostra o Grfico 4, que a mdia mvel de 12 meses da gerao lquida de vnculos empregatcios e, mais precisamen-te, destruio de vnculos formais a partir do incio de 2015. O ms de maro de 2016 parece ter sido o fundo do poo; contudo, pelo passo lerdo da reverso, ainda vo demorar muitos meses at que se veja uma

    retomada importante na criao de empregos. E isso ocorrer principalmente quando houver uma forte retomada dos investimentos, que a varivel macro que tem sistematicamente derrubado o produto inter-no brasileiro, conforme sugere o Grfico 5. E apesar da nebulosidade envolvida, a retomada de concesses pelos diversos nveis de governo parece ser a agenda necessria de sada da crise econmica.

    Grfico 3 Pessoas de 14 Anos ou Mais de Idade, com Contribuio para Instituto de Previdncia em Qualquer Trabalho, em 1.000, Trimestres Mveis, Jan-Fev-Mar 2012/ Mar-Abr-Maio 2016

    Fonte: PNADC, IBGE.

  • 7anlise de conjuntura6 anlise de conjuntura

    julho de 2016

    Grfico 4 Saldo de Postos de Trabalho Formal Criados: Empregados - Mdia Mvel De 12 Meses

    Fonte: Ministrio do Trabalho e Emprego, Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (MTE/CAGED).

    Grfico 5 Formao Bruta de Capital Fixo - Var. Real trim. - (%) - 1 Tri 2012/1 Tri 2016

    Fonte: IPEADATA a partir do Sistema de Contas Nacionais Referncia 2010 (IBGE/SCN 2010 Trimestral).

    (*) Economista e doutora pelo IPE-USP.

    (E-mail: veramartins2702@gmail.com).

  • 9temas de economia aplicada8 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    Os Mitos Previdencirios no Brasil

    Rogrio Nagamine Costanzi (*) Graziela Ansiliero (**)

    Luis Henrique Paiva (***)

    A elevada despesa previdenciria no Brasil, em relao ao que seria esperado pela nossa estrutura de-mogrfica, associada a um rpido processo de envelhecimento popu-lacional ameaa a sustentabilidade fiscal em mdio e longo prazos. Este cenrio decorre em larga me-dida de regras previdencirias frouxas, como as que permitem aposentadorias em idades preco-ces, nas quais no se pode supor perda de capacidade produtiva. Apesar de estarmos realizando ajustes previdencirios de forma lenta e claramente insuficiente, alguns grupos ainda questionam a urgncia de uma reforma previ-denciria, com base em uma srie de mitos. Neste artigo, trataremos de alguns deles.

    Um primeiro mito, repet ido exausto, em todos os momentos em que a necessidade de reforma previdenciria volta pauta po-ltica, o argumento de que no existe dficit da previdncia e sim supervit da seguridade social. Trata-se de um debate que mais confunde do que esclarece a socie-dade. A polmica naturalmente de cunho ideolgico: independente do resultado (superavitrio ou deficitrio) da seguridade social, o gasto pblico, a carga tributria e a efetiva situao fiscal continuam sendo rigorosamente os mesmos. Mas a discusso tambm tem ca-rter contbil, no sentido de que os resultados so diferentes em funo das despesas e receitas que so consideradas. Na contabilidade

    oficial, os resultados dos regimes previdencirios consideram as contribuies ou receitas vincu-ladas diretamente Previdncia, mas no fontes de receitas adi-cionais necessrias para garantir o pagamento de benefcios. Ao contrrio, a tese do supervit da seguridade social foi construda sobre distores graves. O primei-ro deles naturalizar algo danoso para a previdncia social e para o Pas. A Seguridade Social engloba a Previdncia Social, a Assistncia Social e a Sade. Seu financiamento feito pelas contribuies previ-dencirias (exclusivamente volta-das ao pagamento de benefcios previdencirios), mas tambm por outras fontes, como a Contribuio para o Financiamento da Segu-

  • 9temas de economia aplicada8 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    ridade Social (Cofins) e a Contri-buio Social sobre Lucro Lquido (CSLL). O pagamento de benefcios previdencirios a partir de contri-buies de carter geral (como a Cofins e a CSLL) tende a gerar um financiamento de carter regres-sivo, alm de comprometer outros usos alternativos desses recursos. A tese do supervit da segurida-de social no resulta em reduo de impostos no presente (pois a despesa previdenciria est dada, elevada e tem que ser financia-da), mas, ao negar a existncia de desequilbrios, contribui para um aumento brutal da carga tributria no futuro.

    No fundo, a tese do supervit da seguridade social apenas uma vertente da contabilidade criativa: um mecanismo para esconder um

    problema concreto, sem solucion--lo de fato. Trata-se de um desvio do verdadeiro debate: os efeitos positivos produzidos pela despesa previdenciria em relao a ques-tes como sustentabilidade fiscal, melhor forma de financiamento e custo de oportunidade do uso des-ses recursos para o Pas. A questo do uso alternativo dos recursos, por exemplo, obviamente im-portante quando se considera que as despesas previdencirias, em um sentido amplo, ou seja, RGPS, RPPS da Unio e BPC-LOAS1, cor-respondem atualmente a mais da metade da despesa primria da Unio e certamente tem efeitos de crowding-out sobre outros gastos pblicos e/ou sobre a evoluo da dvida pblica.

    Mas o supervit da seguridade social no apenas uma maneira de evitar a discusso de questes relevantes. Ele tambm falso. Na nsia de provar que est tudo bem com a Previdncia Social, seus defensores promovem distores graves na contabilizao das des-pesas e receitas. Uma dessas dis-tores considerar como receitas recursos afetados pela Desvincu-lao das Receitas da Unio (DRU) e renncias previdencirias.2 Em outras palavras, trata-se de regis-trar como receitas recursos que, legalmente ou efetivamente, no esto disposio da Seguridade Social. Seja como for, ainda que os recursos afetados pela DRU sejam levados em conta, o resultado pri-mrio da seguridade social j tem sido deficitrio desde 2008 (ver Grfico 1).

    Grfico 1 Resultado Primrio da Seguridade Social em R$ Bilhes e em % do PIB Considerando Receita da DRU Governo Central Brasil 2005 a 2015

    7,9-5,4

    4,5

    -0,9

    -39,0-20,2

    -7,6

    -21,3-29,9

    -70,2

    -105,9

    -0,2%

    -1,2%

    -0,5% -0,2% -0,4% -0,6% -1,2% -1,8%

    -2,4%

    -2,0%

    -1,6%

    -1,2%

    -0,8%

    -0,4%

    0,0%

    0,4%

    -120

    -100

    -80

    -60

    -40

    -20

    0

    20

    2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015

    Fonte: SOF/MP e STN/MF.

  • 11temas de economia aplicada10 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    Ademais, o supervit decorre da no considerao de receitas e despesas do Regime Prprio de Previdncia Social dos servidores da Unio, que possui bvia natu-reza previdenciria. As justificativas para tal procedi-mento so inconsistentes. Nas palavras de um estudo que defende a tese do supervit da seguridade social:

    Alm do RGPS, destinado aos trabalhadores da iniciativa privada, h os regimes prprios de previdncia social dos servidores pblicos (RPPS) da Unio, dos Estados, do Dis-trito Federal e dos Municpios, bem como o de categorias profissionais; esses regimes, no entanto, so inteiramente distintos. Apenas o RGPS pblico, universal e integra o oramento da seguridade social; portanto, s os nmeros do RGPS foram computados no resultado da seguridade social (...). Num clculo rigoroso, o RPPS dos servidores federais deve ser excludo, por se tratar de um sistema que estabelece uma relao entre a administrao p-blica e seus funcionrios, patrocinado por contribuies especficas de seus beneficirios (Contribuio ao Plano de Seguridade Social do Servidor - CSSS) e pela contri-buio patronal da Unio, esta ltima efetuada atravs de repasses do oramento fiscal.3

    O fato de os Regimes Prprios de Previdncia Social fazerem parte da relao entre a Administrao P-blica e seus funcionrios no retira deles sua essncia: sua arrecadao e suas despesas continuam tendo na-tureza previdenciria. Isso seria suficiente para conta-bilizar receitas e despesas como seguridade social. Em vez disso, entretanto, os defensores do supervit da seguridade social preferem se prender ao formalismo:

    Esto classificados em Benefcios Previdencirios exclusivamente os gastos com os benefcios do Regime Geral de Previdncia Social. So ex cludas, portanto, as despesas dos regimes previdencirios prprios de ser vidores e militares. Constitucionalmente, dentro do Captulo da Seguridade Social, h apenas o Regime Geral de Previdncia Social (art. 201).4

    A argumentao inconsistente e obviamente voltada obteno de um supervit, j que a natureza previ-denciria dos RPPS no alterada pelo fato de esses regimes estarem citados no Artigo 40 da Constituio, e no no artigo 201.

    Todas essas manipulaes e equvocos mostram que o objetivo fundamental do discurso do supervit da seguridade social sugerir que no h problema de sustentabilidade fiscal na Previdncia, nem neces-sidade de reforma. Trata-se de mais um exemplo da destrutiva contabilidade criativa. Como o objetivo interditar o debate, pouco importa que tenhamos des-pesas previdencirias da ordem de 12% do PIB,5 nvel esperado para pases com proporo de idosos pelo menos duas vezes maior que a encontrada no Brasil. Pouco importa, tambm, que as projees indicam que essas despesas crescero fortemente nas prximas dcadas, em funo do envelhecimento.

    O mito do supervit da seguridade social no est sozinho. Tem a companhia de outro argumento, que surge sempre que se tenta estabelecer uma idade m-nima para acesso aposentadoria por tempo de con-tribuio (ATC). Hoje, pode-se aposentar por tempo de contribuio aps 35/30 anos de contribuio para ho-mens/mulheres, independente da idade. O argumento que estabelecer uma idade mnima prejudicaria os trabalhadores mais pobres, que comeam a trabalhar mais cedo. O argumento parece fazer sentido: os mais pobres efetivamente entraram mais cedo no mercado de trabalho. Mas um olhar atento mostra que se trata de mais um mito. Os mais pobres entram no merca-do de trabalho de maneira muito mais precria, com alto nvel de desemprego e informalidade e, portanto, nveis muito baixos de contribuio previdenciria. Como na sua trajetria laboral os mais pobres tm baixa densidade contributiva, eles recorrem s apo-sentadorias por idade (APIs) aos 65/60 anos para ho-mens/mulheres, aps 15 anos de contribuio. Quando sequer conseguem acumular 15 anos de contribuio, tornam-se beneficirios do BPC-LOAS (aos 65 anos). Quem se beneficia fundamentalmente das aposenta-

  • 11temas de economia aplicada10 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    dorias por tempo de contribuio so os trabalhadores de maior nvel relativo de qualificao/renda, pois tm maior probabilidade de acumular 35/30 anos de contribuio.

    O Brasil no desigual por acaso. Temos mtodo na nossa desigualdade. Para os trabalhadores urbanos mais pobres, de menor qualificao e menor capaci-dade contributiva, temos uma idade mdia de aposen-tadoria6 de 63 anos. Para os trabalhadores de maior renda/qualificao, reservamos aposentadorias aos 54 anos de idade (mdia para as ATCs), idade na qual se pode supor plena capacidade de trabalho e esse um ponto fundamental, j que a previdncia existe

    para mitigar riscos sociais que impeam o trabalho produtivo. Os beneficirios das ATCs recebero, por um perodo bem maior que os mais pobres, benefcios que, alm disso, tm valor mdio quase duas vezes maior.7

    Os dados da Pnad/IBGE 2014 corroboram esse diag-nstico. O percentual de contribuio para a previ-dncia muito baixo entre os mais pobres, que em geral esto na informalidade, e significativamente alto entre os mais ricos: entre os 10% mais pobres apenas 12,8% contribuem para a previdncia social; entre os 10% mais ricos, so 83,2% (cf. Grfico 2).

    Grfico 2 Proporo de Contribuintes para a Previdncia Entre os Ocupados por Dcimo de Renda Familiar Per Capita Brasil PNAD/IBGE de 2014

    Fonte: Elaborao dos autores a partir dos microdados da PNAD/IBGE de 2014.

    A insero dos jovens de 16 a 20 anos mais pobres no mercado de trabalho tambm muito precria. Entre os jovens que esto nos 10% mais pobres, apenas 4,1% contriburam para a previdncia, enquanto 39,2% deles estavam desempregados. Entre os jovens que esto nos 10% mais ricos, o desemprego foi de 12,5%, enquanto 52% deles contriburam para a previdncia (cf. Grfico 3).

    Portanto, ainda que os jovens mais pobres tendam a

    entrar mais cedo no mundo do trabalho, o fazem com

    altssimo nvel de informalidade e desemprego. Tero

    trajetria laboral marcada por baixssima densidade

    contributiva, que tende a inviabilizar obter 35/30 anos

    de contribuio.

  • 13temas de economia aplicada12 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    Grfico 3 Proporo de Contribuintes para a Previdncia e Taxa de Desemprego de Jovens de 16 a 20 Anos por Dcimo de Renda Familiar Per Capita - Brasil 2014

    Fonte: Elaborao dos autores a partir dos microdados da PNAD/IBGE de 2014.

    Alm desses mitos, h outros, como o que sugere que se pode resolver a questo previdenciria aumentando as receitas ou recuperando dvi-das, sem as reformas para ajustar o nvel futuro das despesas. Esse argumento ignora que as despesas previdencirias brasileiras esto em nvel absolutamente incom-patvel com nossa atual estrutura demogrfica e que iro crescer for-temente nas prximas dcadas em funo do nosso envelhecimento. Tambm ignora que h dificuldades para o contnuo aumento da carga tributria, especialmente aps o incremento ocorrido no final dos anos 1990 e incio dos anos 2000. Mesmo que o Pas acabasse com todas as renncias previdencirias (que somam em torno de 14% das despesas previdencirias), a neces-

    sidade de financiamento do Regime Geral de Previdncia Social (RGPS) continuaria existindo. Finalmente, esse tipo de argumento no leva em conta que toda a dvida previ-denciria ativa representa cerca de 65% das despesas do RGPS em um nico ano (2015) e apenas 4% dela considerada de alta recuperabi-lidade.8 Parcela expressiva jamais ser recuperada. Isso no quer dizer que a desastrada poltica de deso-nerao da folha de pagamentos, adotada nos ltimos anos, no deva ser revertida: significa, apenas, que tais ajustes so insuficientes e no tratam do principal, o controle da despesa.

    H evidncia robusta de que uma reforma ampla necessria e urgente para garantir a susten-

    tabilidade fiscal de mdio e longo prazos da Previdncia Social no Brasil, atenuar o custo para as geraes futuras e corrigir distor-es como as aposentadorias por tempo de contribuio sem idade mnima. Um dos elementos da recente crise econmica grega foi justamente a resistncia em rea-lizar uma reforma da previdncia mais profunda desde a dcada de 80. Os anos sem reforma cobra-ram seu preo e o ajuste foi muito mais duro do que se tivesse sido feito tempestivamente: desde a crise, foram pelo menos quatro reformas e vrios cortes no valor dos benefcios.9 Ao contrrio da Grcia, muitos pases da OCDE tm buscado ajustar paulatina-mente seus sistemas previdenci-

  • 13temas de economia aplicada12 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    rios ao envelhecimento da populao de diversas formas; entre elas, o aumento da idade legal de apo-sentadoria, justamente para garantir a sustentabili-dade fiscal em mdio e em longo prazos. A continui-dade da resistncia reforma da previdncia social no Brasil, baseada em argumentos equivocados ou mitos, conforme demonstrado neste artigo, tende a ser um caminho para o desastre no futuro.

    1 RPPS da Unio corresponde ao regime de previdncia dos servidores da Unio; BPC-LOAS o Benefcio de Prestao Continuada da Lei Orgnica da Assistncia Social (BPC/LOAS) que consiste, na prtica, em uma aposentadoria de carter no contributivo.

    2 Ver a pgina 4 do documento Desmitificando o Dficit da Previdncia, da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Previdncia Social, disponvel em: .

    3 Trecho extrado da seguinte Tese de Doutorado em Economia (UFRJ): A Poltica Fiscal e a Falsa Crise da Seguridade Social Brasileira Anlise financeira do perodo 19902005 (2006), de Denise Lobato Gentil (pgina 48).

    4 Trecho extrado do trabalho Anlise da Seguridade Social 2014 da Associao Nacional dos Auditores-Fiscais da Receita Federal do Brasil (ANFIP) e Fundao ANFIP de Estudos da Seguridade Social (pgina 160).

    5 Considerando RGPS, RPPS e BPC/LOAS, que , na realidade, uma aposentadoria de carter no contributivo.

    6 Foi considerada a mdia da aposentadoria por idade urbana.

    7 De acordo com dados do Boletim Estatstico da Previdncia Social (BEPS) de maio de 2016, o valor mdio de concesso da aposentadoria por tempo de contribuio e por idade urbana foi de, respectivamente, R$ 2.315 e R$ 1.195. O referido Boletim est disponvel em: .

    8 Dados do Ministrio da Fazenda ou elaborados a partir de informaes do Ministrio da Fazenda.

    9 Ver o seguinte artigo em The Economist: Why Greeks Are Protesting Over Pension Reform Again disponvel em: .

    (*) Mestre em Economia pelo IPE/USP e Mestre em Direo e Gesto de Sistemas de Seguridade Social pela Universidade de Alcal/Es-

    panha e da Organizao Iberoamericana de Seguridade Social (OISS). O autor teve passagens pelo Ministrio da Previdncia Social (assessor

    especial do Ministro, Diretor do Departamento do Regime Geral de Previdncia Social e Coordenador-Geral de Estudos Previdencirios),

    Ministrio do Trabalho e Emprego (assessor especial do Ministro e Coordenador-Geral de Emprego e Renda), Ministrio do Desenvolvi-

    mento Social, IPEA e OIT. Foi membro do Conselho Nacional de Previ-dncia Social (CNPS), do Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo

    ao Trabalhador (CODEFAT) e do Conselho Nacional dos Direitos do Idoso (CNDI). Ganhador do Prmio Interamericano de Proteo Social

    (2 lugar) da Conferncia Interamericana de Seguridade Social (CISS) em 2015.

    (**) Bacharel em Cincias Econmicas pela Universidade de Braslia (UnB) e mestre em Avaliao de Polticas Pblicas pela Universidade

    Complutense de Madri. A autora atuou no Ministrio do Trabalho e Emprego e no Ministrio da Previdncia Social.

    (***) Doutor em Sociologia e Poltica pela UFMG, mestre em Sociologia pela UNICAMP e em Polticas Sociais pela Universidade de Southamp-ton, gestor governamental do Ministrio do Planejamento e ex-secre-

    trio nacional do Programa Bolsa Famlia entre 2012 e 2015.

  • 15temas de economia aplicada14 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    Sade Integrada e Integrao da Sade: Potencialidades Sociais e Econmicas do E-Health no Contexto Europeu

    Julio Lucchesi Moraes (*) Ana Paula Iervolino (**)

    No presente artigo, daremos con-tinuidade discusso sobre as principais tendncias na agenda digital europeia. Como nos artigos anteriores, o intuito problemati-zar a conectividade e a acrescida ubiquidade das TICs na dinmica econmica regional, estabelecendo pontes de contato entre essa pauta com a atual estratgia de desenvol-vimento do bloco.

    Enquanto os primeiros artigos da srie centraram-se em discusses de natureza transversal, a opo agora afunilar o escopo analtico tanto do ponto de vista temti-co quanto geogrfico. O presente texto versa, assim, sobre uma rea que vem sofrendo forte impacto da nova onda tecnolgica no s na Europa, mas em todo o planeta: o setor de sade. O artigo inicia com um breve resgate histrico do con-ceito de e-Health, termo crescen-temente mobilizado por agentes privados, institucionais e gover-namentais para se referir a um rol de novas prticas e processos de gesto e monitoramento da sade por meio das TICs.

    Avanamos, em seguida, rumo ao posicionamento desse debate no

    contexto europeu, destacando: (i) as conexes entre e-Health e a agenda coesiva europeia e (ii) o caso paradigmtico da Holanda, pas que elegeu o segmento como setor prioritrio na agenda de de-senvolvimento nacional dos prxi-mos anos.

    1 E-Health: Rupturas e Continui-dades nas Relaes entre Sa-de e as TICs

    Nosso mapeamento sobre as po-tencialidades sociais e econmicas do e-Health inicia com um resgate histrico das relaes entre Sade e as TICs. Della Mea sintetiza al-gumas interessantes discusses a respeito do termo. Redigido quando de sua origem, na virada do Milnio, a questo central de seu debate justamente a compreenso das rup-turas e continuidades do e-Health em relao a seu predecessor, a Telemedicina (Cf. 2001).

    O autor identifica no e-Health uma inflexo qualitativa nas relaes entre sade e tecnologia decorren-tes do: (i) Aumento da capacidade de fluxo e armazenamento de dados dentro e fora do universo clnico

    (proporcionada pelo advento da te-lecomunicao de quarta gerao 4G) bem como do (ii) surgimento de novas solues tecnolgicas e mo-delos de negcios, como a computa-o na nuvem, SaaS (Software as a Service) e o Big Data. No contexto do acentuado incremento da ubi-quidade das TICs, registra-se uma espcie de superao do conceito de Telemedicina por um paradigma supostamente mais amplo.1

    Alm da Telemedicina, as discus-ses sobre o e-Health dariam conta de englobar (e, em grande medida, superar) outras zonas de interface anteriores entre a Sade e as TICs. H, assim, uma segunda sobrepo-sio interessante a ser destaca-da: aquela entre os conceitos de e-Health e Data Linkage. Cunhado na dcada de 1940, Data Linkage refere-se a uma srie de tcnicas de criao, gesto e manipulao de base de dados que permitem o cruzamento de informaes sobre a sade de um mesmo indivduo (um paciente, por exemplo), de uma famlia ou grupo gentico ou at mesmo um nico evento (como uma doena) a partir de diferen-tes fontes (WINGLEE; VALLIANT; SCHEUREN, 2005).

  • 15temas de economia aplicada14 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    Esse emparelhamento de informa-es pode ser feito tanto dentro da chamada correspondncia deter-minstica isto , a identificao de correspondncias perfeitas entre informaes de um mesmo indiv-duo em diferentes bases de dados ou por meio de correspondncias probabilsticas (COCKS; SEMMENS, 2010). Tambm aqui percebemos que a gerao, armazenamento e o cruzamento de dados de um paciente por meio das novas poten-cialidades das TICs permitem um espectro mais elevado de poten-cialidades. Evidencia-se, de certo modo, maior robustez do conceito de e-Health em detrimento de um termo previamente utilizado.

    Dentro de tal chave, patente a maneira pela qual o conceito abra-a as distintas discusses tcnicas e polticas a respeito dos modelos de pronturios eletrnicos mdicos. Ora, a simples transio de regis-tros de pacientes e da populao como um todo do papel para o armazenamento digital j repre-sentou, per se, um grande avano ao longo da ltima dcada do scu-lo XX. Reduo de custos, melhor comunicao interna, possibilidade de continuidade no tratamento de doenas crnicas e reduo de erros mdicos e/ou perda do his-trico dos pacientes so apenas al-guns dos diversos benefcios que a prtica trouxe (STUMPF; FREITAS, 1997).

    A promessa do e-Health, contudo, a ampliao desse fluxo de infor-

    maes a nveis bem mais altos. Se as perspectivas tcnicas de fato se concretizarem, tornar-se-ia pos-svel o rastreamento e posterior cruzamento total de informaes do paciente. No estaramos mais falando apenas de intercmbio de dados entre diferentes reas de um hospital, mas sim de trocas entre hospitais, clnicas, laboratrios, equipamentos de sade domsti-cos e mesmo tablets, smartphones. Isso sem falar numa vasta gama de produtos vinculados s chamadas tecnologias vestveis (wearable devices).

    2 Das Clnicas para a Poltica: o E-Health na Agenda Europeia

    Embora possa ser uma proposta tentadora, o conceito de e-Health raramente definido de forma in-trnseca ou esttica. interessan-te, nesse sentido, a interpretao sugerida por Oh et al. (2005) que compreende o conceito dentro de uma lgica processual. Destacam os autores a mobilizao de uma srie de prticas e processos de registro, cruzamento e resgate de dados na qual a tecnologia utilizada como um meio para expandir, ajudar ou melhorar as atividades humanas j existentes no univer-so dos servios de sade (idem). Essa abordagem interessante j que (i) foge do tecnicismo simpli-ficador; (ii) cinde com uma falsa dicotomia entre trabalho humano e inteligncia artificial e, por fim, mas igualmente fundamental (iii)

    abre portas para uma interessante interface programtica entre o e--Health e outras agendas polticas.

    H, nesse sentido, uma srie de es-tudos que avanam rumo amplia-o do escopo do objeto, mediante o estabelecimento de uma pauta transversal ou holstica de pesquisas. Debates recentes sobre o tema, como a discusso realiza-da por Van Velsen, Wentzel e Van Gemert-Pijnen (2013), apontam a importncia da considerao dos contextos socioeconmicos e insti-tucionais dos sistemas (nacionais, regionais ou locais) de sade quan-do da implementao de projetos de e-Health. Em lugar dos protoco-los de ponta ou de tcnicos ultra-qualificados, os autores centram atenes na importncia de outros protagonistas dos sistemas de sade: funcionrios e figuras cen-trais os usurios.2

    Percebe-se, em tal tipo de leitura, o elevado coeficiente poltico do debate. Afloram a temas como a proteo e salvaguarda da segu-rana e da privacidade de usurios, ampliao de direitos civis, uni-versalizao de servios mdicos e, assunto caro a nosso debate, o aprofundamento do processo de in-tegrao socioeconmica europeia. Uma extensa coleo de documen-tos e/ou iniciativas ratifica tal po-sio. A diretiva 2011/24 da Unio Europeia que versa sobre a defesa de direitos de pacientes cidados europeus demandantes de trata-mentos e/ou internaes em outros

  • 17temas de economia aplicada16 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    pases membros e o E-Health Action Plan 2012-2020, plano de ao lan-ado pela Comisso Europeia em continuidade a seu sucesso (de 2004 a 2011) so alguns dos ma-teriais sobre os quais poderamos nos deter extensivamente.3

    Como um estudo de tal natureza fu-giria ao escopo do presente artigo, cabe destacar que, em consonncia com os debates anteriormente propostos, o e-Health parece ser um interessante canal pelo qual o processo coesivo europeu avana. Embora o recente plebiscito pela sada do Reino Unido (o chamado Brexit) esteja causando temores quanto continuidade da integra-o do bloco, exemplos como este indicam os sutis caminhos pelos quais a coeso se materializa no dia a dia da sociedade europeia.

    3 O Vale da Sade Holands: Potencialidades Econmicas do E-Health

    Se as estratgias transnacionais de adoo da tecnologia de e-Health na Unio Europeia possuem um

    componente poltico e coesivo, no menos importante destacar a im-portncia do tema dentro de uma chave estritamente econmica. A potencialidade mercadolgica do conceito bastante elevada, da decorrendo tambm o interesse de empresas e governos pelo au-mento de pesquisas na rea (EC, 2006). Obviamente, as estratgias de desenvolvimento de projetos dentro do campo da Medicina 2.0 variam de pas a pas. No presente artigo, nos deteremos sobre o caso da Holanda.

    As cifras do pas de pequenas dimenses geogrficas, mas eleva-da performance econmica so, de fato, expressivas. O pas figura como quarto maior responsvel por solicitaes de patentes em tecnologias mdicas, encontrando--se tambm na elite do ranking de patentes em biotecnologia. Des-ponta tambm como o local com maior densidade de empresas ino-vadoras em sade por quilmetro quadrado, dentre vrias outras faanhas.4 A participao do setor pblico macia e, no por acaso,

    as Cincias e Tecnologias da Sade figuram na lista dos 9 Top Sec-tors, o atual plano de desenvolvi-mento nacional. Em outros casos, como no projeto Health Valley, o protagonismo recai sobre o nvel regional. A provncia de Gelder-land, por exemplo, tem por objetivo a sedimentao de uma rede de empreendedores tecnolgicos em sade.5

    A importncia do e-Health neer-lands no se restringe ao uni-verso das startups. Um dos princi-pais atores globais do setor nada menos do que o principal grupo tecnolgico do pas a Philips. Embora a atuao do grupo no uni-verso da sade venha de longa data (o primeiro tubo de Raio X da em-presa foi lanado em 1918), ine-gvel que a contribuio do setor de sade no portfolio da empresa no cessa de crescer. O Grfico 1 a seguir indica a participao das receitas em produtos e servios de sade vis--vis as demais reas de atividade do grupo (bens eletrni-cos de consumo e iluminao):

  • 17temas de economia aplicada16 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    Seria incorreto afirmar que toda essa fatia decorre exclusivamente de produtos vinculados ao e-Health. Equipamentos hospitalares de grande porte (como mquinas de ultrassonografia ou radiografias) ou pequenos (como desfibriladores e medidores de presso) so alguns dos bens comercializados pela em-presa. A princpio, nenhum destes equipamentos precisa ser dotado de conectividade para funcionar. As potencialidades sociais e eco-nmicas de conect-los, na nuvem, com uma constelao de outras in-formaes dos pacientes, contudo, so certamente imensas.

    Referncias

    COCKS, E.; SEMMENS, J. Record Linkage and Health Data the Western Australian Data Linkage System (WADLS) and National Ini-tiatives, Association of University Centers

    on Disabilities (AUCD), 2010. Disponvel em: . Acesso em: 12 jun. 2016.

    DELLA MEA, V. What is e-Health (2): The death of telemedicine?. Journal of Medical Internet Research, v.3. n.2: e22, 2001. Disponvel em: . Acesso em: 18 jun. 2016.

    EUROPEAN COMMISSION [EC]. Connected health: quality and safety for European citizens, European Communities, 2006. Disponvel em: . Aces-so em: 5 jul. 2016.

    OH, H.; RIZO, C.; ENKIN, M.; JADAD, A. What is eHealth: a systematic review of published definitions. Journal of Medical Internet Research, v.7, n.1, 2005. Disponvel em: . Acesso em: 28 jun. 2016.

    PHILIPS. Annual Report 2005. Disponvel em: . Acesso em: 2 jul. 2016.

    ______. Annual Report 2014. Disponvel em: . Acesso em: 2 jul. 2016.

    STUMPF, M. K.; FREITAS, H. M. R. A gesto da informao em um hospital uni-versitrio: o processo de definio do Patient Core Record. Revista de Adminis-trao Contempornea, v.1, n.1, p. 71-99, 1997. Disponvel em: . Acesso em: 11 jun. 2016.

    VAN GEMERT-PIJNEN, J.E. et al. A holistic framework to improve the uptake and impact of eHealth technologies. Journal of Medical Internet Reseach, v. 13, n. 4, e111, 2011. Disponvel em: . Acesso em: 17 jun. 2016.

    VAN VELSEN, L.; WENTZEL, J.; VAN GEMERT-PIJNEN, J.E. Designing eHealth that mat-ters via a multidisciplinary requirements development approach. JMIR Research Protocols, v.2, n.1, e21, 2013. Disponvel em: . Acesso em: 6 jun. 2016.

    Grfico 1 - Participao do setor de sade na receita da Philips (2005-2014)

    22%30%

    40% 42%

    78%70%

    60% 58%

    2005 2008 2011 2014

    Sade Demais reas

    Fonte: Philips (2005 e 2014).

  • 19temas de economia aplicada18 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    WINGLEE, M.; VALLIANT, R.; SCHEUREN, F. A case study in record linkage. Survey Methodology, v.31, n.1, p. 3-11, 2005. Disponvel em: . Acesso em: 20 jun. 2016.

    1 O autor no deixa de expressar certa hesitao e criticidade quanto a esta suposta superao da Telemedicina. Em sua leitura, parte expressiva desse processo de passagem rumo ao e-Health nada mais do que uma estratgia semntica e, em grande medida, es-sencialmente mercadolgica de valorizao de um novo campo de aplicao das TICs (DELLA MEA, 2001).

    2 O trabalho de Van Gemert-Pijnen et al. (2011) um bom exemplo das novas preocupaes relacionadas com a interface entre a Sade e as TICs.

    3 Igualmente interessante foi o projeto epSOS (Smart Open Services for European Patients), transcorrido entre 2008 e 2014 e que tinha por intuito testar as potencialidades de padronizao tcnica de registros mdicos entre os diversos pases-membros da UE.

    4 Os dados so do portal oficial Holland Trade and Investment.

    5 No por acaso, na Universidade de Twente, regio vizinha, que se localiza o Centre for e-Health and Wellbeing Research, um dos pro-tagonistas em reflexes sobre as interfaces entre sade e as TICs.

    (*) Graduado em Cincias Econmicas e Doutor em Histria Econmi-ca pela USP. Pesquisador do Geopolitical Economy Research Group (GERG), da Universidade de Manitoba, Canad. Encontra-se atual-

    mente sediado na Blgica, onde trabalha com temas ligados Econo-mia Digital e Economia Criativa.

    (E-mail: julio.moraes@usp.br). (**) Graduada (UFSC) e Mestre (USP) em Histria Social e mestranda

    do Programa de Governana para o Desenvolvimento do Institute of Development Policy and Management (IOB) da Universidade da Anturpia, Blgica. bolsista do programa VLIR-UOS do Governo

    de Flandres. Dedica-se a estudos e pesquisas nos campos de direitos humanos, desigualdade e emprego de solues tecnolgicas para o

    enfrentamento de questes sociais. (E-mail: ana.iervolino@usp.br).

  • 19temas de economia aplicada18 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    A Construo Civil no Brasil: Uma Avaliao Entre 1995-2009

    Rodger Barros Antunes Campos (*)

    A construo civil um importan-te setor para o desenvolvimento econmico de um pas. Essa afir-mativa se sustenta, por exemplo, ao observar sua participao no valor adicionado, na absoro de mo de obra, e na formao bruta de capi-tal fixo, bem como sua participao percentual no total do valor bruto da produo industrial (CHENERY, 1955; 1960). Nota-se tambm que a indstria da construo fornece a infraestrutura pblica e fsica para muitas atividades produtivas no setor privado (POLENSKE; SIVITA-NIDES, 1990). Assim sendo, o setor capaz de influenciar a produtivi-dade do capital por meio da oferta de infraestrutura e da produo de bens de investimento.

    O objetivo desse texto realizar uma anlise do comportamento re-cente do setor de construo civil por meio de indicadores de partici-pao relativa do setor em alguns agregados macroeconmicos. Para tanto, utiliza-se das matrizes de insumo-produto construdas pelo Ncleo de Economia Regional e Ur-bana da Universidade de So Paulo (NEREUS) para os anos de 1995 a 2009 divididas em 42 setores, utili-zando 80 produtos cabe destacar que todas as matrizes esto a pre-os constantes de 2000. impor-tante dizer que as matrizes foram construdas a partir dos dados das contas nacionais seguindo a meto-dologia destacada por Guilhoto e Sesso Filho (2005; 2010). O perodo

    de anlise aquele compreendido entre 1995 e 2009.

    Os indicadores sero capazes de responder qual o comportamento do setor em termos de participao nos agregados macroeconmicos (i.e., valor bruto da produo VBP; formao bruta de capital fixo FBCF; valor adicionado VA)?

    A Figura 1 mostra o resultado da razo entre VBP setorial e VBP total da economia , ou seja, a participao setorial no produto nacional bruto dividida em quatro classificaes: abaixo da mdia, mdia, mdia mais um desvio padro e mdia mais dois desvios padres.1

    Figura 1 Participao Percentual no Setorial do VBP2

    1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009AGROPECURIAEQUIP. ELETRNICOSREFINO DO PETRLEOOUTROS PROD. ALIMENT.S.I.U.P.CONSTRUO CIVILCOMRCIOTRANSPORTESCOMUNICAESINSTITUIES FINANCEIRASSERV. PREST. FAMLIASERV. PREST. EMPRESAALUGUEL DE IMVEISADMINISTRAO PBLICA

    ABAIXO DA MDIAMDIAMDIA + 1 DESVIO-PADROMDIA + 2 DESVIO-PADRO

    Fonte: Clculo dos autores a partir das matrizes de insumo-produto (1995-2009).

  • 21temas de economia aplicada20 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    A anlise da Figura 1 permite in-ferir que o VBP do setor da ad-ministrao pblica o que mais contribui para a produo nacional ao longo de todo o perodo de an-lise. O segundo em importncia o setor instituies financeiras seguido pelo setor de servios pres-tados famlia, aluguel de imveis e servios prestados empresa. O setor de transportes, S.I.U.P, refino de petrleo tem contribudo acima da mdia na produo nacional. To-davia, os setores da agropecuria, equipamentos eletrnicos e outros produtos alimentcios perderam importncia relativa no perodo analisado.

    O setor da construo civil se man-teve no segmento acima da mdia mais um desvio padro entre 1995-2002. A partir de 2003, sua par-ticipao na composio do VBP nacional se manteve reduzida at 2008, retornado ao patamar do primeiro intervalo em 2009. Den-tre as indstrias classificadas no padro acima da mdia, o setor da construo civil o que apre-senta maior participao relativa, quando analisado todo o perodo, podendo ser comparado, em ter-mos de participao relativa, com os setores de servios (transporte, comunicaes, servios prestados empresa, aluguel de imveis).

    A Figura 2 mostra a razo entre o valor adicionado setorial e o valor adicionado total .

    Os resultados mostram que os setores da administrao pblica, comrcio e aluguel de imveis tm maior peso na formao da renda nacional bruta da economia brasi-leira e esto agrupados na classe acima da mdia mais dois desvios padres. Outros setores relevan-tes na formao da renda nacional so o de servios prestados em-presa, servios prestados famlia e instituies financeiras. O setor de agropecuria, embora oscile ao longo do perodo, apresenta par-ticipao sempre acima da mdia.

    Figura 2 - Participao Percentual no Valor Adicionado

    1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009AGROPECURIAS.I.U.P.CONSTRUO CIVILCOMRCIOTRANSPORTESCOMUNICAESINSTITUIES FINANCEIRASSERV. PREST. FAMLIASERV. PREST. EMPRESAALUGUEL DE IMVEISADMINISTRAO PBLICA

    ABAIXO DA MDIAMDIAMDIA + 1 DESVIO-PADROMDIA + 2 DESVIO-PADRO

    Fonte: clculo dos autores a partir das matrizes de insumo-produto (1995-2009).

    A contribuio do setor da constru-o civil na formao da renda na-cional bruta esteve acima da mdia apenas em 1998. O setor mante-ve o comportamento mediano da participao na renda por todo o perodo analisado. Esse compor-tamento mediano deriva da baixa produtividade dos trabalhadores

    que compem esse setor, refletin-do, consequentemente, na baixa remunerao quando comparado aos demais setores elencados.

    Avaliando o comportamento da participao do setor da constru-o civil sobre a renda e o pro-duto nacional bruto, o Grfico 1

    apresenta a razo entre o VBP do setor da construo civil e o VBP total ( ) e a razo entre o VA do setor da construo civil e o VA total ( ). Percebe-se que o setor da constru-o civil, a partir de 1999, inicia um processo de perda da participao relativa tanto no valor bruto da

  • 21temas de economia aplicada20 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    produo quanto na renda nacional bruta. A partir de 2004 o setor volta a ganhar participao relativa, seguido por dois anos consecutivos de queda na parti-cipao relativa. O crescimento retomado a partir de 2007. importante salientar que, embora haja recu-

    perao a partir de 2007, o setor no retornou s par-ticipaes relativas dos anos de 1996 e 1997, sequer participao relativa do incio da srie analisada. Em 2009, a participao da construo civil no VA nacio-nal de 5,3%, o mesmo patamar de 2001.

    Grfico 1 - e

    Fonte: elaborao prpria, a partir das MIPs (1995-2009).

    Embora a variao das participaes no VBP e no VA seja similar, o setor apresenta maior participao na renda nacional do que na produo bruta (com-parao intrassetorial), demonstrando que o setor tem maior capacidade em gerar renda na economia nacional (Grfico 1). Todavia, quando analisado comparativamente aos demais setores, na mdia, a importncia do setor da construo civil maior no

    VBP nacional em comparao ao VA nacional (Figu-ras 1 e 2).

    A Figura 3 evidencia o claro padro esperado do setor da construo civil em relao aos demais setores no que diz respeito formao bruta de capital fixo (FBCF), isto , alta contribuio na formao de capital fixo. A participao relativa do setor da construo bem acima da mdia dos demais setores.

  • 23temas de economia aplicada22 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    Figura 3 Participao Percentual na Formao Bruta de Capital Fixo

    1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009AGROPECURIAOUTROS METALRGICOSMQUINAS E EQUIP.MATERIAL ELTRICOEQUIP. ELETRNICOSAUTOM./CAM/ONIBUSPEAS E OUT. VECULOSMADEIRA E MOBILIRIOCONSTRUO CIVILCOMRCIO

    ABAIXO DA MDIAMDIAMDIA + 1 DESVIO-PADROMDIA + 2 DESVIO-PADRO

    Fonte: elaborao prpria, a partir das MIPs do NEREUS.

    Observando o Grfico 2, importante destacar a exis-tncia de dois grupos distintos na contribuio da for-mao bruta de capital fixo: a) o setor da construo civil e b) os demais setores. Cabe ressaltar que entre 1998-2003 a participao do setor da construo civil, embora acima da mdia, caiu continuamente. A retomada do crescimento da contribuio do setor da construo civil na FBCF nacional ocorre a partir de 2007. Entretanto, uma ressalva importante o fato de que, embora a participao do setor tenha entrado num ciclo crescente, a construo civil no ano de 2009 perde espao relativamente aos demais setores.

    Em relao aos demais setores da economia que se classificam no conjunto acima da mdia nacional, cabe

    destacar o setor de mquinas e equipamentos que teve sua participao na FBCF nacional aumentada desde 2003. Os demais setores como automveis, caminhes e nibus e comrcio tiveram oscilao na taxa, todavia foi pontual e no se sustentou ao longo dos demais anos.

    A partir dos Grficos 1 e 2 possvel notar dois com-portamentos bem definidos. O primeiro entre 1995-2003 e o segundo entre 2003-2009. O primeiro per-odo apresentou decrscimo mdio da participao do setor da construo civil no VBP, VA e FBCF. No segun-do perodo houve a recuperao do setor em relao aos agregados macroeconmicos citados.

  • 23temas de economia aplicada22 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    Grfico 2 Participao Setorial na Formao Bruta de Capital Fixo

    Fonte: elaborao prpria, a partir das MIPs do NEREUS.

    O primeiro perodo marcado pela mudana de papel do Estado que no se configura mais como o nico produtor e financiador de ltima instncia, estando inserido em um contexto de ajuste fiscal, crises mone-trias internacionais e brasileira (1999) e alternncia do presidente, gerando, em alguma medida, atritos para a trajetria de investimento mais elevadas e significativas para a economia nacional o que no significa dizer que no houve qualquer inverso nesse perodo, como tratado a seguir.

    Embora tenha havido perda de participao do setor na FBKF nacional, o Plano de Privatizao3 contribuiu de forma positiva para o setor nesse perodo. Os ramos de atividades que compem o setor da construo civil receberam algum incentivo, tais como telecomunica-es4 (Telebrs), energia eltrica (empresas do setor de distribuio) e transporte5 (MONTES; REIS, 2011).

    As polticas pblicas e as intervenes privadas supra-citadas entre 1995-1998 foram capazes de induzir va-riaes positivas na contribuio do setor na formao da renda nacional. Todavia, entre 1999-2002 a partici-

    pao do VA setorial no respondeu satisfatoriamente, dado o declnio persistente da participao. Quanto a FBCF os incentivos das polticas contriburam po-sitivamente no interregno 1995-1998, enquanto no perodo 1999-2002 o declnio foi persistente at 2003, como citado acima.

    J o segundo perodo foi marcado por aumento dos investimentos pblicos que dinamizaram o setor da construo civil. Tais investimentos esto, em grande monta, atrelados ao desenvolvimento em infraestru-tura, principalmente na construo de rodovias, como o trecho Belo Horizonte-So Paulo-Curitiba-Florian-polis, BR-232, BR-230, BR-174 e BR-317, justificada pela baixa resposta da privatizao das rodovias.

    No perodo 2003-2009 possvel identificar interven-es de poltica pblica com vista ao desenvolvimento de infraestrutura no Brasil. Segundo Montes e Reis (2011), o Plano de Acelerao do Crescimento (PAC) implicou investimento no setor da construo civil em infraestrutura: construo de estradas, ampliao de portos e aeroportos, construo de usinas hidre-

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    julho de 2016

    ltricas e ampliao da rede de saneamento. Outro ponto impor-tante de estmulo nesse perodo foi o programa Minha Casa Minha Vida (MCMV), iniciado em 20096, cujo incentivo se deu no subsetor de edificaes do macrossetor da construo civil. O incentivo cre-ditcio do governo para aquisio de moradia elevou a produo das construtoras especializadas.

    Portanto, a retomada do cresci-mento do setor no perodo 2003-2009 est atrelada s modificaes macroeconmicas e s polticas de fomento do setor: estabilizao eco-nmica, reduo da taxa de juros, fomentao creditcia, transfor-maes na prpria estrutura das construtoras e a prpria viso de-senvolvimentista do novo governo.

    Resumidamente, a partir das an-lises descritivas foi possvel notar dois perodos antagnicos do cres-cimento da construo civil no Brasil, podendo, em algum sentido, dizer que estes comportamentos respondem ao contexto macroeco-nmico. Note-se que, no perodo re-cente, o setor passa a ganhar maior notoriedade, principalmente com polticas pblicas de incentivo ao setor, indo ao encontro dos tericos de desenvolvimento que ressaltam a importncia do setor, tais como Chenery (1955; 1960), Polenske e Sivitanides (1990) e Bon (1992).

    Referncias

    BON, R. The future of international con-struction: secular patterns of growth and decline. Habitat International, v. 16, n. 3, p. 119-128, 1992.

    CHENERY, H. B. Patterns of industrial growth. American Economic Review, v. 50, n. 4, p. 624-654, 1960.

    ______. The role of industrialization in devel-opments programs. American Economic Review, v. 45, n. 2, p. 40-57, 1955.

    GUILHOTO, J. J. M.; SESSO FILHO, U. A. Es-timao da matriz de insumo-produto utilizando dados preliminares das contas nacionais: aplicao e anlise de indica-dores econmicos para o Brasil em 2005. Economia & Tecnologia. UFPR/TECPAR. Ano 6, v. 23, 2010.

    ________. Estimao da matriz insumo-produto a partir de dados preliminares das contas nacionais. Economia Aplicada, v. 9, n. 2, p. 277-299, 2005.

    MONTES, G.; REIS, A. F. Investimento pblico em infraestrutura no perodo ps-priva-tizaes. Economia e Sociedade, v. 20, n. 1, p. 167-194, 2011.

    POLENSKE K.R.; SIVITANIDES P. Linkages in the construction sector. The Annals of Regional Science, v. 24, p. 147-161, 1990.

    1 Devido a questes de espao, mostram-se apenas os setores com participao no mni-mo na mdia em pelo menos um perodo da amostra.

    2 Os demais setores foram omitidos por con-triburem abaixo da mdia.

    3 necessrio pontuar que o Plano de Privati-zaes no esteve vinculado a uma poltica de incentivo propriamente dita, mas sim vincu-lado a um plano prioritrio de estabilizao econmica. Contudo, a ao privada implicou

    impulso do setor devido aos investimentos atrelados.

    4 Segundo Montes e Reis (2011, p. 179) os in-vestimentos privados totalizaram mais de R$ 62 milhes no interregno 1998-2001.

    5 Segundo Montes e Reis (2011, p. 182-183), em 2004 havia apenas 36 concesses de rodovia no Pas com 9.500 km com 165 estaes de pedgios no eixo da regio Sul-Sudeste do Pas. As ferrovias tiveram investimento por volta de 2,7 bilhes entre 1996-2004.

    6 Perodo em que foi desassociado do Plano de Acelerao do Crescimento.

    (*) Mestre em Economia, doutorando do Pro-grama de Ps-Graduao em Economia pelo

    IPE-USP, membro do Ncleo de Economia Regional e Urbana (NEREUS-USP) e bolsista

    Capes. (E-mail: rodger.campos@usp.br

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    Interdependncia Econmica entre as Bacias Hidrogrficas Bra-sileiras

    Jaqueline Coelho Visentin (*)1

    1 Introduo

    Durante os primeiros 15 anos do sculo XXI, o mundo experimen-tou o desdobramento de mltiplas crises, em que um dos grandes desafios estava relacionado dis-ponibilidade de gua doce. Neste contexto, estima-se que duas entre trs pessoas vivero em reas de estresse hdrico at 2025, sendo que apenas na frica sero 25 pa-ses nessa situao. Em 2008, 450 milhes de pessoas de 29 pases j sofriam com escassez desse recur-so. (UNEP, 2008).

    Neste contexto, um dos fatores apontados como o principal res-ponsvel pela reduo da dispo-nibilidade de gua doce refere-se prpria atividade humana. De acordo com o Joint Program on the Science and Policy of Global Change do Massachusetts Institute of Tech-nology, o crescimento da popula-o e da atividade econmica tm um efeito maior sobre o estresse hdrico do que a prpria mudana climtica em pases em desenvol-vimento. (SCHLOSSER et al. 2014).

    Neste contexto, no entanto, pouco se pesquisa sobre a demanda por

    recursos hdricos no Brasil; as in-formaes muitas vezes parecem subestimadas, desatualizadas e se do em nveis muito agrega-dos. Os dados sobre o uso de gua por parte dos setores econmicos quase sempre se referem apenas aos trs grandes setores (i) agri-cultura; (ii) indstria e (iii) ser-vios , alm do abastecimento pblico, e geralmente consideram apenas o volume de gua direta-mente incorporado na produo. Ao contrrio, a literatura dispon-vel at ento no Pas concentra-se principalmente no estudo sobre a disponibilidade desse bem, se-gundo a qual, inclusive, o Brasil apresenta uma situao confort-vel quando comparado com outros pases, ainda que tenha enfrentado inmeras crises no abastecimento pblico.

    Assim, diante desse cenrio, o pre-sente trabalho procura avanar nesse campo, produzindo informa-es teis para estudar a demanda por recursos hdricos no Brasil, em um nvel considervel de desagre-gao. Diante disto, os objetivos propostos so: (i) estimar uma matriz inter-regional de insumo--produto de modo a produzir infor-

    maes sobre a economia das 56 Bacias Hidrogrficas brasileiras, e (ii) estudar as estruturas e as interdependncias econmicas destas regies.

    Desse modo, sero produzidos dados fundamentais para uma pesquisa posterior acerca da in-terdependncia hdrica entre tais localidades, para que se possa ava-liar a influncia dos fluxos inter--regionais de bens e servios sobre a demanda de recursos hdricos em uma dada Bacia e, em especial, na-quelas caracterizadas por estresse hdrico.

    2 Estimao da Matriz Inter-Re-gional de Insumo-Produto

    Para o atendimento dos objetivos propostos, estimou-se um modelo inter-regional de insumo-produto com 50 setores e 56 regies, con-forme ilustrado a seguir, de acordo com as metodologias disponveis em Guilhoto e Sesso Filho (2005), e Guilhoto et al. (2010). Para esta estimativa foram utilizados os dados sobre as contas nacionais e regionais de 2009 do Instituto Bra-sileiro de Geografia e Estatstica (IBGE).

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    julho de 2016

    Figura 1 56 Bacias Hidrogrficas do PNRH agregadas de acordo com as 12 Regies Hidrogrficas do Brasil

    Fonte: ANA (2013a).

    Tabela 1 Relao das Bacias Hidrogrficas Estudadas

    1 Amap litoral 15 Itapecuru 29 So Francisco alto 43 Iguau2 Negro 16 Mearim 30 Litoral SE 44 Doce3 Trombetas 17 Parnaba baixo 31 Itapecuru-Paraguau 45 Litoral ES4 Paru 18 Parnaba mdio 32 Contas 46 Paraba do Sul5 Foz Amazonas 19 Parnaba alto 33 Jequitinhonha 47 Litoral RJ6 Solimes 20 Litoral CE PI 34 Litoral BA ES 48 Litoral SP7 Purus 21 Jaguaribe 35 Paraguai 03 49 Litoral RJ SP8 Madeira 22 Piranhas 36 Paraguai 02 50 Litoral SP PR SC9 Tapajs 23 Litoral CE PB 37 Paraguai 01 51 Guaba10 Xingu 24 Paraba 38 Paranaba 52 Litoral RS11 Tocantins baixo 25 Litoral AL PE PB 39 Paran RH1 53 Uruguai alto12 Tocantins alto 26 So Francisco submdio 40 Grande 54 Uruguai mdio13 Araguaia 27 So Francisco baixo 41 Tiet 55 Ibicu14 Gurupi 28 So Francisco mdio 42 Paranapanema 56 Negro RS

    Fonte: ANA (2013a).

  • 27temas de economia aplicada26 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    No que se refere ao nmero de atividades econmicas, a maior de-sagregao possvel foi para o nvel de 50 setores, em que se privile-giou a desagregao das atividades agrcolas e pecurias, visto sua importncia em relao ao uso de gua, conforme descrito a seguir.

    No que se refere estimao da matriz inter-regional de insumo--produto, verificou-se que o mto-do empregado produziu alguns flu-xos inter-regionais inconsistentes. Isso ocorreu porque o Modelo de Quociente Locacional, empregado na metodologia disponvel em Gui-lhoto et al. (2010), no controlou as distncias percorridas por deter-minados produtos. Assim, uma vez que um dos principais objetivos estudar a interdependncia econ-mica entre as Bacias brasileiras, foi necessrio verificar a consistncia desses f luxos de modo a evitar problemas na mensurao das rela-es comerciais a serem estudadas.

    Diante disso, visto que os prximos passos da presente pesquisa se referem ao clculo do comrcio de gua virtual dentro do Brasil, foi dada maior ateno aos casos rela-cionados s atividades econmicas mais intensivas em recursos hdri-cos. Baseado em estudos prelimi-nares desta pesquisa, foi verificado que o setor de cana-de-acar foi a atividade econmica mais intensi-va em gua no ano de 2009 e, por

    isso, os seus fluxos inter-regionais foram checados.

    Os dados estimados informaram que 19,7% da produo de cana-de--acar em 2009 estava relaciona-da aos fluxos inter-regionais entre Bacias no vizinhas, percorrendo, portanto, longas distncias. No entanto, de acordo com a Compa-nhia Nacional de Abastecimento (CONAB, 2013), a distncia mdia entre as lavouras de cana-de-a-car e as Unidades de Produo, no Brasil, foi de 24,44 quilmetros (Km) na safra de 2011/2012. Isso ocorre para evitar a perda de qua-lidade da cana e para no onerar demasiadamente o custo da mat-ria-prima. Portanto, foi necessrio corrigir os referidos f luxos para evitar concluses equivocadas sobre a interdependncia econmi-ca e hdrica entre as Bacias.

    Para a realizao do ajuste men-cionado, foi criada, em primeiro lugar, uma espcie de Matriz de Vizinhana binria pelo critrio de contiguidade Rainha de acor-do com o shapefile das 56 sub--bacias hidrogrficas do PNRH. (ANA, 2013a). Diz-se uma espcie de Matriz de Vizinhana porque, para o fim a qual seria aplicada, foi preciso assumir que uma dada regio seja vizinha dela mesma e, portanto, que os elementos da diagonal principal fossem iguais a um. Assim, quando os elementos

    da Matriz so iguais a um significa que as Bacias correspondentes so vizinhas limtrofes, e quando tais elementos so iguais a zero signifi-ca que as mesmas no so vizinhas.

    A partir dessa estratgia, foi pos-svel identificar os f luxos inter--regionais do setor de Cana-de-a-car para as regies no vizinhas e corrigi-los. Sobre essa correo, no entanto, cabe destacar um detalhe. Como se est trabalhando em um sistema setor x setor, deve-se ter em mente que o setor de Cana-de--acar, por exemplo, no produz somente cana-de-acar, apesar de esta ser a sua atividade principal, mas sim outros produtos como Bovinos, Bebidas, entre outros, a depender da regio.

    Portanto, quando se verificaram fluxos inter-regionais do setor de Cana-de-acar entre Bacias no vizinhas, preciso garantir que tais f luxos sejam apenas do pro-duto Cana. Diante dessa questo, a estratgia adotada para identificar apenas esses fluxos foi corrigi-los apenas no que diz respeito aos comrcios intermedirios entre o setor de Cana-de-acar e o pr-prio setor de Cana-de-acar, Fa-bricao de Acar e lcool. Assim, h mais chances de se estar corri-gindo apenas os fluxos do produto Cana-de-acar, uma vez que este o principal insumo para os trs setores destinos.

  • 29temas de economia aplicada28 temas de economia aplicada

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    Feitas tais consideraes, os ajustes dos fluxos inter--regionais inconsistentes foram realizados de acordo com os detalhes explicados a seguir.

    (1)

    Se = 1, ento, =

    Se = 0, ento, = 0 e = + (2)

    Onde:

    W representa a matriz de vizinhana;

    representa cada elemento da nova matriz Z, cha-mada de M, onde os fluxos inter-regionais inconsisten-tes do setor de Cana-de-acar foram corrigidos.

    Desse modo, a soma das colunas da matriz M (vetor linha) foi mantida igual da matriz original Z, mas houve diferenas na soma das suas linhas (vetor co-luna), as quais foram transferidas para a variao de estoque dos respectivos setores e regies.

    Adicionalmente, os fluxos inter-regionais do setor de gua e Esgoto tambm foram verificados, visto que se trata de uma atividade fundamental para a presente pesquisa. No entanto, neste caso, os fluxos inconsis-tentes representam apenas 0,0001% da produo total do setor em 2009, de modo que no foi necessrio corrigi-los.

    Assim, ajustaram-se apenas os fluxos intermedirios de Cana-de-acar entre as Bacias Hidrogrficas no vizinhas, ao passo que a matriz insumo-produto ajustada manteve a consistncia e a produo total originais.

    3 Interdependncia Econmica Entre as 56 Bacias Hidrogrficas

    Para estudar sobre a interdependncia econmica entre as Bacias Hidrogrficas, o modelo inter-regional de insumo-produto se faz crucial, pois, ao considerar os chamados spillover effects inter-regionais, pode-se medir quo dependente uma economia da outra. No presente caso, poder-se- identificar quais Bacias Hi-drogrficas foram mais dependentes uma das outras em 2009 do ponto de vista produtivo por meio do Mul-tiplicador de Produo (MP) intra e inter-regional,2 tambm chamado de Gerador de Produo. O MP, por sua vez, se refere ao ndice de Ligao para Trs ou Backward Linkage (BL),3 para o qual existem inmeras propostas de normalizao. (MILLER; BLAIR, 2009). No entanto, trabalha-se aqui com a verso no norma-lizada a fim de tornar mais clara a desagregao desse ndice entre BLs intra e inter-regionais.

    Inicialmente, a fim de identificar quais regies foram mais dependentes umas das outras, analisaram-se os BLs agregados por regio, os chamados BLs espaciais, de acordo com a metodologia disponvel em Miller e Blair (2009).

    Entre as 30 regies que apresentaram BLs espaciais maiores que a mdia nacional (1,7799), as que mais se destacaram foram: (i) Paraguai 03, (ii) Paran RH1, (iii) Paranapanema, (iv) Tiet, (v) Iguau e (vi) Tapajs. Isto , as referidas Bacias demandaram mais insumos intermedirios de outras regies diante do aumento de uma unidade monetria nas suas deman-das finais, quando comparado s demais regies.

    No entanto, no presente contexto, importante apre-sentar a decomposio dos BLs em termos dos spillo-ver effects de modo a identificar, principalmente, os transbordamentos inter-regionais. Feito isso, quando se analisaram os BLs lquidos, isto , sem considerar

    LMijm

  • 29temas de economia aplicada28 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    o choque inicial, verificou-se que na maioria dos casos os efeitos inter-regionais foram maiores que os efeitos intrarregionais, com exceo, porm, da Bacia Hidrogr-fica Tiet.

    Desse modo, o resultado encontra-do bastante interessante, pois j que foi confirmada a grande interdependncia econmica regio-nal entre as Bacias Hidrogrficas, abre-se um campo importante de

    estudos sobre a interdependncia hdrica entre as mesmas.

    A fim de apresentar os dados de modo mais detalhado, o grfico a seguir apresenta quais Bacias mos-traram um grau de interdependn-cia econmica maior e menor que a mdia entre as regies (0,5636). Entre as 30 Bacias que apresenta-ram BLs inter-regionais maiores que a mdia se destacaram as Ba-cias (i) Araguaia, (ii) Paranapane-

    ma, (iii) Paran RH1, (iv) Litoral RJ SP, (v) Paraguai 03 e (vi) Paraguai 01.

    Em geral, as referidas regies apre-sentaram uma caracterstica em comum. Suas principais atividades do ponto de vista dos BLs setoriais se referiram a pelo menos uma das seguintes: (i) Beneficiamento de outros produtos vegetais, (ii) Fabricao de leos vegetais e (iii) Abate.

    Grfico 1 BLs Espaciais Inter-Regionais

    Fonte: dados da pesquisa.

    Assim, diante desses resultados, importante distinguir de quais regies tais Bacias foram mais de-pendentes no perodo, pois, visto o objetivo a ser alcanado, funda-

    mental tambm identificar quais Bacias foram mais importantes do ponto de vista do provimento dos insumos, isto , quais economias regionais foram mais requisita-

    das em termos de oferta de bens e servios em 2009.

    Analisando os ndices de Ligao para Frente ou Forward Linkage

  • 31temas de economia aplicada30 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    (FL)4 agregados por regies, os chamados FL espa-ciais, pode-se identificar quais Bacias foram mais importantes do ponto de vista do provimento de insu-mos. Assim, seguindo o padro trabalhado at agora, calcularam-se os FLs no normalizados.

    Conforme ilustrado pelo Grfico 2, as principais Ba-cias fornecedoras de insumos para outras regies em

    2009 foram: (i) Solimes, (ii) Negro, (iii) So Fran-

    cisco Baixo, (iv) Litoral SE, (v) Paraba do Sul e (vi)

    Araguaia. Em geral, tais regies foram importantes

    no provimento de: (i) Energia eltrica (outras fontes),

    (ii) Petrleo e gs natural e (iii) Extrativismo mineral

    (exceto combustvel).

    No entanto os BLs e os FLs espa-ciais no levam em considerao os diferentes nveis de produo de cada regio e/ou setor da econo-mia, oferecendo apenas uma ideia sobre quais, entre esses, so mais importantes do ponto de vista das interligaes na cadeia de produ-o. Portanto, quando se considera o tamanho das regies e/ou seto-

    res na economia, a relao de im-portncia pode variar substancial-mente. Isto ocorre porque, mesmo que esses apresentem uma cadeia de produo mais complexa, pode ser que no sejam significativos do ponto de vista da produo em si.

    De modo alternativo, ento, em-pregou-se o ndice Puro de Liga-

    es, proposto por Guilhoto, Sonis e Hewings (1997), pois por meio deste possvel identificar quais as principais regies do ponto de vista das interligaes produtivas, considerando os respectivos nveis de produo.5

    Analisando os ndices de Ligao Puro para Trs espaciais ou os Pure

    Grfico 2 - FLs Espaciais Inter-Regionais

    Fonte: dados da pesquisa.

  • 31temas de economia aplicada30 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    Grfico 3 PBL Espacial Total

    Fonte: dados da pesquisa.

    Backward Linkages (PBLs) pode-se identificar quais Bacias foram mais importantes do ponto de vista da demanda de insumos advindos de outras regies. Isto , os PBLs indicam o impacto puro do valor da produ-o total da regio j sobre o restante da economia. Diz-se que o impacto puro porque ele est livre da demanda de insumos que a regio j produz para a prpria regio j e dos retornos do restante da econo-mia para a regio j e vice-versa. (GUILHOTO, SONIS; HEWINGS, 1997). Isto , em termos gerais, quanto

    maior o PBL do restante da economia mais ela fornece insumos para a regio j.

    Portanto, conforme ilustrado pelo Grfico 3, pode-se verificar quais foram as principais Bacias do ponto de vista da demanda por insumos de outras regies. So elas: (i) Tiet, (ii) Paranaba, (iii) Litoral RJ, (iv) Guaba e (v) Grande. Alm disso, importante chamar a ateno para regies fora do eixo Sudeste-Sul que se destacaram de acordo com o presente critrio, tais como: (i) Itapecuru-paraguau, (ii) Negro e (iii) Litoral AL PE PB.

  • 33temas de economia aplicada32 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    Por sua vez, os ndices de Ligao Puro para Frente es-paciais ou Pure Forward Linkage (PFLs) indicam o im-pacto puro do valor da produo total do restante da economia sobre uma dada regio j. De modo anlogo interpretao do PBL, o impacto do PFL chamado puro porque est livre da demanda de insumos que o restante da economia produz para si mesmo e dos retornos da regio j para o restante da economia e vice-versa. (GUILHOTO; SONIS; HEWINGS 1997). Isto , em termos gerais, quanto maior o PFL da regio j mais ela fornece insumos para o restante da economia.

    Assim, conforme mostrado no Grfico 4, verificaram--se que as principais Bacias do ponto de vista do provimento de insumos para outras regies foram, principalmente, as Bacias Tiet e Litoral RJ, seguidas de outras Bacias localizadas nas regies Sudeste e Sul. Adicionalmente, algumas Bacias de outras regies tambm chamaram a ateno, tais como: (i) Itapecuru--Paraguau e Litoral AL PE PB, localizados no Nordes-te e (ii) Negro, no Norte.

    Conhecidas as principais Bacias fornecedoras de insumos para as demais regies, pergunta-se: quais atividades econmicas, destas re-gies, foram as principais fornece-doras? Analisando a matriz Leon-tief estimada, verificou-se que no

    caso da Bacia Tiet os (i) Outros servios, (ii) Elementos qumi-cos, qumicos diversos, borracha e plsticos e (iii) Transporte foram os principais setores, enquanto na Bacia Litoral RJ as principais atividades foram (i) Petrleo e gs

    natural, (ii) Outros servios e (iii) Refino de petrleo e coque.

    Extrapolando essa anlise para as demais Bacias importantes do ponto de vista do PFL, verificaram--se que as principais atividades

    Grfico 4 PFL Espacial Total

    Fonte: dados da pesquisa.

  • 33temas de economia aplicada32 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    fornecedoras de insumos para outras regies foram os (i) Outros servios, (ii) Elementos qumicos, qumicos diversos, borracha e plsticos, (iii) Refino de petrleo e coque e (iv) Fabricao de acar. No caso da Bacia Paraba do Sul o setor Siderurgia, metalrgicos no ferrosos tambm se destacou como importante for-necedor de insumos para as outras regies, e a Bacia Negro foi importante fornecedora de Materiais eltri-cos e equipamentos eletrnicos.

    Assim, conhecida a estrutura econmica das Bacias e identificadas quais entre elas se mostraram mais importantes do ponto de vista da interdependncia econmica regional, resta investigar se tais estrutu-ras e fluxos comerciais se traduziram em importante consumo de recursos hdricos, de modo que pudesse comprometer, ou no, a disponibilidade hdrica local e de seus parceiros comerciais.

    4 Concluso

    Verificou-se que os BLs lquidos mostraram que na maioria dos casos os efeitos inter-regionais foram maiores que os efeitos intrarregionais, com exceo apenas de uma regio, a Bacia Tiet. Assim, confir-mou-se a grande interdependncia econmica regional entre as Bacias Hidrogrficas, por meio da qual abre--se um campo importante de estudos sobre a interde-pendncia hdrica entre as mesmas.

    No que se refere s principais Bacias do ponto de vista de provimento inter-regional de bens e servios, as Ba-cias Tiet e Litoral RJ se destacaram. No entanto, essas regies j estavam em situao de estresse hdrico em 2005 de acordo com os critrios da Organizao das Naes Unidas para a Educao, a Cincia e a Cultu-ra (UNESCO)6 (MMA, 2006a e 2006b). Assim, dada a sua importncia para o comrcio inter-regional e, ao mesmo tempo, sua situao desfavorvel no que se refere segurana hdrica, preciso investigar se os fluxos originados de tais regies se traduziram em im-

    portantes exportaes de gua virtual, de modo que estas exportaes podem exercer importantes efei-tos sobre a disponibilidade hdrica local. Da mesma forma, importante investigar se suas demandas por insumos implicaram importaes de gua virtual de regies onde h baixa disponibilidade de gua doce.

    Adicionalmente, os resultados acerca dos principais setores fornecedores de insumos mostraram que o setor de Fabricao de acar foi importante para o comrcio inter-regional. Assim, a contabilizao dos recursos hdricos embutidos nestes fluxos ser rele-vante para o estudo sobre a interdependncia hdrica, visto que se trata de um setor intensivo em gua que, ao depender da localizao da produo, mais inten-siva na chamada gua azul, principal fonte hdrica, inclusive, para o abastecimento pblico. (ANA, 2010).

    importante destacar, ainda, que os Estados de Ala-goas e Pernambuco estiveram entre os principais pro-dutores de cana-de-acar e seus derivados, como o prprio acar, em 2009, de modo que a sua produo se concentrou na Bacia Litoral AL PE PB a qual, tam-bm, se mostrou importante como ponto de partida dos fluxos inter-regionais. No entanto, a mesma j se encontrava em uma situao de escassez de recursos hdricos desde 2005, conforme os critrios j mencio-nados. (MMA, 2006c).

    Portanto, as evidncias encontradas levantaram al-gumas hipteses acerca dos fluxos inter-regionais de gua virtual. Viu-se que importantes Bacias do ponto de vista do fornecimento de bens e servios para o restante da economia encontravam-se, ao mesmo tempo, em uma situao desconfortvel no que se refe-re segurana hdrica. Diante desse cenrio, portanto, ser fundamental seguir com a investigao a fim de verificar se tais fluxos se traduziro em importan-tes transaes de gua virtual, de modo que possam comprometer a disponibilidade hdrica das regies fornecedoras.

  • 35temas de economia aplicada34 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    Referncias

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    1 A autora gostaria de agradecer Fundao Instituto de Pesquisas Econmicas (FIPE) pelo suporte financeiro, sem o qual no seria possvel a realizao da presente pesquisa.

    2 An output multiplier for a sector j is defined as the total value of production in all sectors of the economy that is necessary in order to satisfy a dollars worth of final demand for sector js output. (MILLER; BLAIR, 2009, p. 245).

    Intraregional Effects: For exogenous changes in final demands for region r goods the intraregional effects represent impacts on the outputs of sectors in region r. (MILLER; BLAIR, 2009).

    Interregional Effects: The essence of an interregional [] inputoutput model is that it includes impacts in one region that are caused by changes in another region; these are often termed the interregional spillover effects. []. (MILLER; BLAIR, 2009, p. 262).

    3 To capture both direct and indirect linkages in an economy, column sums of the total requirements matrix, L = [lij], were proposed as a total backward linkage measure (RASMUSSEN, 1957); these are output multipliers (Chapter 6). For sector j we have BL(t)j = (MILLER; BLAIR, 2009, p. 557).

    4 []. In addition, row sums of the Ghosh inverse, G = [gij], were sug-gested as a better measure of total forward linkages. [] (MILLER; BLAIR, 2009, p. 558). Desse modo, o FL total : FL(t)i = .

    5 Sobre a estimao desse ndice importante destacar que, por motivos computacionais, os indicadores foram regionalizados agregando-se os dados iniciais e no os resultados finais, como sugerido em Miller e Blair (2009) nos casos dos Backward e Forward Linkages, podendo se incorrer, portanto, em algum vis de agregao.

    6 < 500 m3/hab.ano Situao de escassez; 500 a 1. 700 m3/hab.ano Situao de estresse; > 1.700 m3/hab.ano Situao confortvel. (MMA, 2006a, p.55).

    (*) Departamento de Economia, FEA - Universidade de So Paulo. (E-mail: coelhovisentin@gmail.com).

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    julho de 2016

    Reformas Econmicas e Crescimento: Uma Resenha da Literatura

    Bruno Cordeiro (*)

    1 Introduo

    A economia brasileira passou por um bom momento na ltima d-cada (2001/2010), com o Produto Interno Bruto crescendo a taxas razoveis, a desigualdade e o de-semprego diminuindo. A economia mundial como um todo passou por um perodo de prosperidade at o advento da crise de 2008, e os pases emergentes foram especial-mente beneficiados com a melhoria nos termos de troca (DUARTE; DE MELLO; CARRASCO, 2014). Esse cenrio se contrasta com o difcil momento que o Brasil passou na dcada de 90, marcado por baixo crescimento e sucessivas crises internacionais. A pergunta que emerge quais os fatores que pos-sibilitaram a retomada do cresci-mento na ltima dcada, e se houve influncia das reformas estrutu-rais feitas na dcada de 90 nesse crescimento.

    Outros dois fatores tambm podem explicar o crescimento verificado: o forte crescimento no mercado de crdito e a melhoria dos termos de troca. Eles propiciaram, respecti-vamente, aumento no consumo e aumento na demanda por produ-

    tos brasileiros, especialmente por parte da China.

    O grande crescimento no volu-me de crdito pode ser efeito de reformas microeconmicas ado-tadas nos dois primeiros anos do Governo Lula, com destaque para a criao do crdito consignado e de novos instrumentos de crdito e securitizao para os setores da construo civil e do agronegcio.1

    Outra possvel fonte de crescimen-to se refere aos termos de troca. Estes esto fora do alcance dos formuladores de poltica ao menos no curto prazo, e podem ser inter-pretados como choques de renda externa. Duarte, De Mello e Carras-co (2014) mostram que o Brasil foi especialmente beneficiado nesse quesito na ltima dcada, quando comparado ao melhor grupo de comparao de pases construdo atravs do mtodo de controle sin-ttico.

    O beneficiamento do Brasil com a melhoria nos termos de troca poderia ser interpretado como sorte, em vez de boa poltica eco-nmica. Blinder e Watson (2014) mostram que os EUA cresceram em mdia 1.8 pontos percentuais a

    mais sob governos democratas do que sob republicanos desde a Se-gunda Guerra Mundial. No entanto, a anlise emprica dessa diferena de crescimento sob os dois parti-dos mostra que mais da metade dela explicada por choques po-sitivos de petrleo, produtividade e melhores condies internacio-nais sob governos Democratas. Em suma, eles teriam tido mais sorte que os republicanos nesses quesi-tos.

    A prxima seo faz uma reviso de literatura, mostrando quais as principais reformas feitas no Pas nos anos 90, como elas podem afetar o crescimento e os diver-sos pases ao redor do mundo que tambm passaram por processos similares. A penltima seo expli-ca qual a metodologia geralmente usada na literatura para se calcular os possveis efeitos de reformas sobre o crescimento. Por fim, as concluses encerram o artigo.

    2 Literatura

    A dcada de 90 ficou marcada por diversas reformas pr mercado feitas na economia e pelo Plano Real, que finalmente conseguiu acabar com a hiperinflao aps

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    julho de 2016

    inmeras fracassadas tentativas. Dentre as principais reformas, po-demos destacar as privatizaes, a liberalizao do comrcio e a adoo de iniciativas para aumen-tar a competio nos mercados internos (PINHEIRO; GIAMBIAGI; MOREIRA, 2001). At os anos 80, o Brasil era uma economia bastante fechada, e com a liberalizao do comrcio, houve um corte nas tari-fas de importao e eliminao das principais barreiras no-tarifrias. De acordo com Moreira e Correa (1998), essa liberalizao permitiu maior integrao do Brasil eco-nomia mundial, alm de moderni-zao tecnolgica e aumentos de produtividade.

    As privatizaes tiveram incio no Governo Collor, com o Programa Nacional de Desestatizao (PND), e atingiram seu pice no primeiro Governo de Fernando Henrique Cardoso, quando 80 empresas p-blicas foram vendidas, gerando re-ceitas de U$ 73 bilhes (PINHEIRO; GIAMBIAGI; MOREIRA, 2001). No campo das desregulamentaes, destacam-se o Programa Federal de Desregulamentao (PFD) e iniciativas que deram fim a mono-plios em diversos setores, como o de petrleo, e que eliminaram res-tries a investimentos externos.

    Outra medida importante toma-da foi a reestruturao do siste-ma financeiro nacional atravs do PROER (Programa de Estmulo Reestruturao e ao Fortale-cimento do Sistema Financeiro

    Nacional) e do PROES (Programa de Incentivo Reduo do Setor Pblico Estadual na Atividade Ban-cria). Com o Plano Real e o fim da hiperinflao, os bancos ficaram bastante vulnerveis, mas a adoo desses dois pacotes permitiu maior consolidao e eficincia no setor (PUGA, 1999).

    No campo macroeconmico, des-tacam-se a adoo de trs medidas em 1999 e da Lei de Responsabili-dade Fiscal em 2000. O trip ma-croeconmico consiste em metas de inf lao, cmbio f lutuante e ajuste fiscal. As metas de inflao representaram um compromisso do Governo com a estabilidade de preos, enquanto a adoo do cm-bio f lutuante permitiu liberdade maior para a poltica monetria e o ajuste fiscal possibilitou que o Brasil aderisse tendncia mun-dial e emergente das regras fiscais (PINHEIRO; GIAMBIAGI; MOREI-RA, 2001, p. 21).

    Diversos estudos correlacionam reformas econmicas a cresci-mento econmico posterior (EAS-TERLY; LOAYZA; MONTIEL, 1997; FERNNDEZ-ARIAS; MONTIEL, 1997; LOAYZA; FAJNZYLBER, 2005; VELOSO; VILLELA; GIAMBIAGI, 2008). Para o caso brasileiro, o estudo de Veloso, Villela e Giam-biagi (2008) mostra que grande parte do crescimento econmico durante o perodo do milagre de-corre de efeitos defasados do PAEG (Programa de Ao Econmica do Governo). As principais medidas

    tomadas foram: reforma fiscal/tributria, reforma do sistema financeiro e abertura ao exterior. Analisando o perodo 1964-1973 como um todo, eles concluem que no perodo 1964-1967 se plantou muito para colher pouco, em razo da necessidade de se corrigir os de-sequilbrios macroeconmicos e os entraves institucionais herdados do Governo Joo Goulart. Por outro lado, a poltica de estabilizao e as reformas do PAEG criaram as condies para a acelerao do crescimento em 1968-1973 (VE-LOSO; VILLELA; GIAMBIAGI, 2008, p. 243).

    Easterly, Loayza e Montiel (1997) mostram que a Amrica Latina tambm se beneficiou de reformas econmicas feitas nos anos 90, e que elas permitiram que o conti-nente retornasse a sua taxa hist-rica de crescimento per capita de 2%, apesar do desaquecimento da economia mundial nesse perodo. Eles sugerem que o desapontamen-to com o crescimento na regio pode refletir um desapontamento com o crescimento mundial como um todo, j que todos os tipos de pases cresceram pouco na mdia.

    Outros trabalhos tambm analisam os efeitos positivos de reformas em vrios pases. Rabbani e Maksy-menko (2011) testam os efeitos de reformas e capital humano no crescimento da ndia e da Coreia do Sul. Na metodologia, criam ndices compostos para essas duas vari-veis, de forma a testar o impacto

  • 37temas de economia aplicada36 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    delas. Chow et al. (2004) analisam como foi o processo de abertura e reforma econmica na China, e por que foi exitoso. De Melo, Denizer e Gelb (1996) estudam a transi-o das ex-repblicas soviticas e pases do Leste Europeu de uma economia planificada para uma de mercado, e concluem que pases que reformaram com mais inten-sidade e mais rapidamente conse-guiram crescer mais e estabilizar a economia em menos tempo.

    Por outro lado, Hausmann, Pri-tchett e Rodrik (2005) analisam perodos de acelerao de cresci-mento para vrios pases desde os anos 50 e concluem que eles tendem a ser altamente imprevis-veis, ou seja, esses perodos no so relacionados aos determinantes padro de crescimento e as refor-mas econmicas no produzem acelerao de crescimento. Os de-terminantes de crescimento teriam significncia estatstica sobre o tempo de acelerao, mas seriam fracos previsores como um todo dos pontos de inflexo. Para eles, perodos de acelerao de cresci-mento seriam causados sobretudo por mudanas idiossincrticas.

    Vganzons-Varoudakis e Nabli (2004) e Kehoe e Ruhl (2010) ten-tam explicar por que reformas econmicas no geraram o re-sultado esperado em termos de crescimento no Oriente Mdio e Norte da frica (Mena pases), e no Mxico, respectivamente. Os primeiros argumentam que os pa-

    ses da Mena reformaram pouco, e que o resultado insatisfatrio de algumas reformas foi obtido por causa do ambiente de instabilidade macroeconmica nesses pases. Os segundos comparam o fraco cres-cimento do Mxico ps reformas com o forte crescimento da China. Eles focam na abertura ao comr-cio e ao investimento externo que o Mxico fez, que, apesar de no resultarem em crescimento, trou-xeram ganhos de bem-estar. Alm do mais, explicam que este pas sofre com algumas deficincias, como instituies financeiras ine-ficientes e rigidez no mercado de trabalho, e que estes fatores ainda no atrapalham a China em termos de crescimento por ela ser menos desenvolvida. Mas, conforme for crescendo, haver o efeito conver-gncia diminuindo a taxa de cresci-mento caso no haja significativas reformas.

    O estudo de Fernndez-Arias e Montiel (1997) discute como as reformas econmicas pr-mercado afetam positivamente o cresci-mento econmico atravs de cinco variveis: estabilizao da inflao, tamanho do governo, abertura co-mercial, desenvolvimento do siste-ma financeiro e unificao da taxa de cmbio. Altas taxas de inflao podem influenciar as taxas de acu-mulao de capital e de crescimen-to da PTF (Produtividade Total dos Fatores), alm de resultar em ine-ficincia na alocao de recursos, por distorcer os preos relativos da economia. Governos que toleram

    altas taxas de inflao so aqueles que perderam o controle macroe-conmico, o que pode prejudicar o investimento domstico em capital fsico (FISCHER, 1993).

    Um aumento no tamanho do Go-verno pode afetar a taxa de cresci-mento de longo prazo; no entanto, o efeito desse aumento ambguo. Supondo um dficit f iscal cons-tante, um aumento nos gastos do Governo implica maior necessida-de de arrecadao. Se as receitas forem obtidas atravs um imposto distorcivo, a taxa de crescimento diminuir atravs dos impactos sobre a eficincia na alocao de recursos. Por outro lado, os gas-tos governamentais podem ser produtivos, atravs de maior in-vestimento em educao, sade ou infraestrutura. Portanto, tanto o nvel quanto a composio dos gastos podem influenciar no cres-cimento de longo prazo, e o efeito de gastos produtivos financiados por impostos distorcivos passa a ser ambguo.

    A ligao entre abertura comercial e crescimento pode ser feita prin-cipalmente por meio de dois meca-nismos. O primeiro diz que maior abertura comercial, que resulta em um maior setor domstico de bens comercializveis, reduziria o pr-mio de risco exigido por credores externos. Isso resultaria em maior estoque de capital de longo prazo e em mais rpido crescimento cau-sado pela acumulao durante a transio. O segundo mecanismo

  • 39temas de economia aplicada38 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    diz que maior abertura comercial aumenta a expo-sio da economia domstica a novas tecnologias, o que facilitaria a adoo delas e o aumento da taxa de crescimento da produtividade.

    O bom funcionamento dos mercados financeiros pode influenciar no crescimento de diversas formas. Como economias de escala e escopo esto relacionadas co-leta de informaes, monitoramento de performance dentre outros, instituies financeiras especializadas diminuiriam o custo de transformar poupana em investimento, alm de viabilizarem projetos de alto retorno que no sairiam do papel de outra forma, seja por serem longos ou por serem mais arriscados. Reunindo os ativos de diversos investidores, essas instituies diminuem a exposio deles a riscos de liquidez e idiossincrticos enquanto financiam esses projetos. Em suma, mercados financeiros que fun-cionam bem aumentam o crescimento atravs do au-mento da produtividade de novos investimentos e do capital instalado.

    Por fim, Fernndez-Arias e Montiel (1997) argumen-tam que restries a operaes de cmbio incenti-vam os agentes a movimentarem capital por meio do mercado paralelo, o que resulta em aumento no gio nesse mercado comparado ao valor oficial da moeda. A remoo de tais restries pode ajudar no cres-cimento atravs de mais recursos disponveis para investimento com o aumento dos influxos de capital. Indiretamente, esse aumento na integrao financeira melhoraria o funcionamento do mercado financeiro domstico, o que reforaria os benefcios discutidos no pargrafo anterior.

    Dadas as inmeras reformas citadas feitas no Pas e a importncia que a literatura lhes concede para o al-cance de crescimento econmico posterior, justifica-se uma anlise emprica para estimar o impacto que elas tiveram sobre o crescimento brasileiro na ltima d-cada. No caso desse impacto ser insignificante, sero investigados quais os fatores que mais influenciaram o crescimento.

    3 Metodologia

    A metodologia geralmente usada a mesma utilizada por Veloso, Villela e Giambiagi (2008) (caso brasilei-ro) e Easterly, Loayza e Montiel (1997), e consiste em estimar uma regresso de uma verso ampliada do modelo neoclssico de crescimento. Este modelo prev convergncia condicional, ou seja, controlados os de-terminantes do nvel de renda de estado estacionrio, pases mais pobres tendem a crescer mais que os mais ricos. O modelo que ser estimado tem o seguinte for-mato:

    Onde:

    a taxa de crescimento da renda per capita do pas i no perodo t;

    o valor em log da renda per capita inicial do pas i;

    indica um conjunto de variveis de poltica eco-nmica;

    indica um conjunto de variveis de controle;

    so variveis de efeito-fixo e efeito-tempo, res-pectivamente.

    As variveis de poltica econmica na regresso bus-cam capturar o efeito das reformas sobre o crescimen-to econmico. As mais comuns so: a taxa de inflao, consumo do governo em relao ao PIB, a razo M2/PIB, abertura da economia, gio do mercado paralelo e investimento/PIB. Elas representam, respectivamen-te, o grau de estabilidade macroeconmica, a poltica fiscal do governo, a participao do sistema financeiro na economia, polticas para o setor externo e outras reformas estruturais difceis de medir, como privati-zaes, desregulamentao dentre outras.

  • 39temas de economia aplicada38 temas de economia aplicada

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    Dentre as variveis de controle mais utilizadas, o log da renda per capita inicial visa capturar o efeito de convergncia associado dis-tncia da economia em relao ao seu estado estacionrio. As outras duas variveis so nvel de escola-ridade inicial da populao com 15 anos ou mais e taxa de crescimen-to dos termos de troca, que busca capturar o efeito de choques exter-nos sobre a economia domstica.

    A estimao da regresso feita com base em trs estimadores de dados de painel comumente usados na literatura de crescimento. So eles: o estimador de efeito fixo, o estimador GMM em diferenas de Arellano e Bond (1991) e o estima-dor GMM de sistema de Blundell e Bond (1998). O estimador de efei-to fixo usado como benchmark, pois h endogeneidade devido presena de varivel dependente defasada entre as covariadas. J os estimadores de GMM resolvem esse problema usando defasagens das variveis explicativas como instrumentos.

    Estimada a regresso, podemos prever o efeito das variveis de poltica econmica sobre o cresci-mento em determinado perodo de duas formas: a primeira utilizar os valores das variveis no perodo citado e os coeficientes estimados. O impacto das reformas sobre o crescimento ser

    Onde o valor estimado de , ou seja, esse coeficiente mede o

    impacto marginal das variveis de poltica econmica sobre o cresci-mento. A outra forma de medir o impacto das reformas calcular a contribuio delas para a variao na taxa de crescimento entre dois perodos. Portanto, o impacto ser

    Em suma, essas so as duas formas de se analisar o possvel efeito das reformas econmicas sobre o cres-cimento econmico no perodo de interesse.

    4 Concluso

    As duas ltimas dcadas vividas pelo Brasil foram marcadas pelo contraste entre si. A dcada de 90 lembrada como um perodo de baixo crescimento econmico, inmeras reformas feitas ao longo dos trs governos e diversas cri-ses internacionais. Por outro lado, na dcada passada, o Pas voltou a ter boas taxas de crescimento e usufruiu de uma melhora no cen-rio internacional at o advento da crise de 2008.

    A literatura emprica de cresci-mento destaca o papel de reformas econmicas sobre o crescimento; no entanto, esse benefcio obtido aps certo perodo de tempo. Para medir esses benefcios, foi discu-t ida a metodologia geralmente empregada, utilizando-se dados em painel e estimadores de GMM. Em suma, o crescimento econmico

    que o Brasil obteve na dcada pas-sada pode ser fruto, pelo menos em parte, de reformas feitas em anos anteriores. No entanto, somente uma anlise economtrica rigorosa pode nos ajudar a obter a resposta.

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  • 41temas de economia aplicada40 temas de economia aplicada

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    1 Para maiores detalhes, ver Reformas microeconmicas e crescimento de longo prazo. Braslia: Ministrio da Fazenda (MF/SPE), 2004.

    (*) Mestrando em Economia pelo IPE-USP. (E-mail: bfcordeiro89@gmail.com).

  • 41temas de economia aplicada40 temas de economia aplicada

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    O Modelo de Tiebout e a Teoria de Hirschman: uma Anlise de Polticas Pblicas no Brasil

    Ariel Kessel Akerman(*) Jos Augusto Julio (*)

    1 Introduo

    Uma das discusses mais rele-vantes a respeito da relao entre gastos em bens pblicos locais e a movimentao de pessoas entre comunidades a inaugurada no artigo de Charles Tiebout (1956), quando consegue encontrar uma soluo de mercado para a provi-so de bens pblicos. Baseada em pressupostos de fcil apreenso e capaz de levar a concluses em-piricamente testveis, sua teoria dos gastos locais, ainda que pura1, talvez seja um exemplo de um ar-tigo paradigmtico, inaugurando questes de pesquisa2 e forne-cendo insights relevantes para o entendimento de problemas que tambm so vistos no Brasil, como a criao de municpios pequenos e a distribuio de bens pblicos em regies metropolitanas. Apesar de sua inegvel relevncia, entretan-to, cremos que h muitos aspectos da teoria de Tiebout que poderiam ser mais bem caracterizados se fosse trazida tambm a discusso proposta primeiramente por Hirs-chman em seu livro Sada, Voz e Lealdade (1973), que incorpora o elemento de presso poltica na

    anlise da oferta e da qualidade de bens, pblicos inclusive.

    Com isso em vista, pretendemos, a seguir, apresentar os modelos de Tiebout e de Hirschman e alguns resultados empricos a eles relacio-nados para, em seguida, discutir-mos conjuntamente as duas inter-pretaes. Incluiremos, tambm, uma seo na qual sero explora-dos alguns aspectos brasileiros relacionados discusso, apesar de verificarmos que trabalhos em-pricos a partir dos dois modelos analisam quase que exclusivamen-te casos nos Estados Unidos ou na Europa (DOWDING; JOHN, 1994; MNCH, 2011, p. 4). Finalmente, apresentaremos uma concluso.

    2 O Modelo de Tiebout

    A questo fundamental do arti-go seminal de Tiebout (1956) a forma de serem providos3 bens pblicos de acordo com as prefe-rncias dos habitantes de diferen-tes localidades, de forma que se consiga forar o eleitor a revelar suas preferncias, satisfaz-lo da mesma forma que o mercado de bens privados o faz e, tambm, tax-lo adequadamente (TIEBOUT,

    1956, p. 417-418). Para resolv--la, o autor prope um modelo extremo de diferentes comunida-des e eleitores com preferncias igualmente distintas, baseado em sete hipteses: (1) plena mobili-dade dos consumidores-eleitores entre as comunidades; (2) pleno conhecimento; (3) h um grande nmero de comunidades; (4) no h restries de emprego; (5) h retornos constantes de escala nos bens pblicos; (6) h um tamanho timo da comunidade para cada di-menso de bens pblicos provida; e (7) comunidades menores do que o tamanho timo buscam atrair novos residentes para diminuir os custos mdios dos bens pblicos providos (TIEBOUT, 1956, p. 419).

    A partir dos sete pressupostos, Tiebout cr que, no estando em equilbrio, o sistema apresentar certo nmero de eleitores satisfei-tos e outra quantidade de eleitores insatisfeitos. Com as hipteses de mobilidade, haveria movimentao dos insatisfeitos em direo s co-munidades que mais satisfizessem suas preferncias por bens pbli-cos. Nesse ato de mudana, o con-sumidor-votante necessariamente revelaria sua preferncia por bens

  • 43temas de economia aplicada42 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    pblicos, garantindo, assim, que cada localidade tivesse um pa-dro de gasto e renda condizente com os desejos de seus residentes (TIEBOUT, 1956, p. 420).

    interessante notar, entretan-to, que alguns problemas j so percebidos ao longo do texto. Um deles, mencionado pelo autor, que, na presena das hipteses (6) e (7), o equilbrio timo poderia no ser alcanado, uma vez que comunidades com tamanho timo poderiam criar leis de zoneamen-to, por exemplo, que barrassem a chegada de novos membros e, consequentemente, a satisfao de suas preferncias por bens pbli-cos. Alm disso, certos problemas de especificao como, em ltimo caso, o irrealismo de haver uma comunidade por cidado seriam virtualmente possveis.

    Outros pontos de relevo talvez bvios para o leitor seriam que mudanas nos custos de bens pbli-cos levariam a mudanas nas quan-tidades produzidas e que os custos de mudanas entre comunidades deveriam ser considerados, de tal forma que, quanto maiores fossem, mais distante do timo se daria a alocao dos recursos. Assim, os resultados, em ltima anlise, se do de maneira semelhante ao mercado de bens privados, com os consumidores escolhendo jurisdi-es que proveem bens pblicos de forma mais satisfatria s suas preferncias, movendo-se em dire-o a elas e, assim, votando com

    os ps. Os limites de cada localida-de, dessa forma, empacotariam determinada quantidade de bens pblicos, permitindo, tal como no mercado de bens privados, sua obteno pelo indivduo (OSTROM; TIEBOUT; WARREN, 1961, p. 835)

    certo que muitos outros resulta-dos so possveis caso relaxemos algumas hipteses4, mas uma das consequncias fundamentais do que entendido por Tiebout, pelo menos no que nos interessa para a comparao com o modelo de Hirschman, que, do ponto de vista do consumidor-eleitor, a in-satisfao com a quantidade de bens pblicos provida s pode ser resolvida por meio de sua mudana para outra localidade. H, tambm, outras implicaes do modelo mais empiricamente testveis como as relaes entre nmero de juris-dies e satisfao da populao, homogeneidade das preferncias em municpios pequenos e impacto de impostos e servios sobre mobi-lidade (DOWDING; JOHN, 1994, p. 768) , como veremos a seguir.

    Brasington (2002), por exemplo, busca estimar os efeitos da qua-lidade da educao pblica e os preos de imveis em seis munic-pios do Estado americano de Ohio, de forma que estas variveis, na ausncia de barreiras formais entrada e a sada, seriam a medida de preo do bem pblico. Esse tipo de estudo, entretanto, como apon-tam Dowding e John a respeito de modelos que exploram o modelo de

    Tiebout a partir da capitalizao, dependeria de outras hipteses auxiliares relacionadas especial-mente percepo de taxas sobre propriedade para servir como teste da teoria (DOWDING; JOHN, 1994, p. 776-778).

    J no que toca motivao de sada, aspecto fundamental para verificar se os mecanismos pensados por Tiebout fariam sentido, pouca pes-quisa foi feita (DOWDING; JOHN, 1994, p. 786). Dentro dos artigos dessa vertente, o que se destaca o de Lowery e Lyons (1989), que con-siste em uma srie de question-rios populao de cinco cidades do Estado americano de Kentucky. As entrevistas tratavam da percep-o de alternativas para migrao, da satisfao com a cidade e pos-sibilidade de recurso ao mercado privado para substituir bens pbli-cos e, de forma ampla, apontaram contra a razoabilidade do modelo de Tiebout: os eleitores percebiam o nvel do condado como mais im-portante para a deciso de onde habitar do que o nvel da cidade e no tinham clareza em relao possibilidade de sada. O menor nvel de jurisdio, portanto, no era entendido como o mais rele-vante na satisfao das prefern-cias dos cidados. A possibilidade de votar com os ps, consequen-temente, no parecia fazer muito sentido para tais cidades.

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    3 O Esquema de Hirschman

    Em qualquer sistema econmico, social ou poltico, indivduos, fir-mas e organizaes em geral esto sujeitos a falhas de eficincia, ra-cionalidade, legalidade, tica ou de outros tipos de comportamento funcional. Cada sociedade aprende a lidar com certa parcela desse funcionamento deficiente ou desse mau comportamento. Entretanto, para que este no cresa, o que po-deria levar a maiores problemas, preciso que a sociedade seja capaz de forar os agentes econmicos em questo a assumir as atitu-des e mtodos exigidos para seu bom funcionamento (HIRSCHMAN, 1973, p. 13). sob esse background aqui resumidamente apresentado que Albert Hirschman, em Sada, Voz e Lealdade (1973), coloca sua contribuio para as amplas dis-cusses de economia e poltica pre-sentes nas sociedades de mercado. Conforme veremos, sua anlise serve para compreender de forma ampla a resposta de indivduos ao declnio da qualidade dos produtos oferecidos por organizaes como empresas, partidos polticos, sindi-catos5, Estados6 e pelo setor pbli-co. Ainda que o que nos interesse no presente momento seja a apli-cao de sua leitura para o ltimo tipo de organizao, comearemos por apresentar seu esquema amplo para, em seguida, traz-lo discus-so que motiva o trabalho.

    Hirschman aponta que, em geral, o declnio do desempenho tanto em

    firmas como em organizaes se reflete, tipicamente, em uma dete-riorao comparativa ou absoluta da qualidade do produto ou do ser-vio oferecido. De outro lado, exis-tem duas maneiras pelas quais a administrao toma conhecimento de suas falhas: (1) a opo sada, na qual alguns clientes param de comprar o produto da firma, ou alguns membros deixam a organi-zao; (2) a opo voz, na qual os clientes da firma ou membros da organizao expressam sua in-satisfao diretamente direo, a uma autoridade qual a direo esteja subordinada, ou atravs de protestos gerais, dirigidos a quem estiver interessado em ouvi-los (HIRSCHMAN, 1973, p. 16).

    No primeiro caso, qualquer sada resultante do declnio da qualidade levar queda da renda; com isso, a direo obrigada a procurar uma nova forma de corrigir as causas dessa sada. Porm, para que essa interao entre sada (dos clientes) e reaes (das firmas) funcione como mecanismo de re-cuperao das falhas de desem-penho, necessrio que a firma tenha uma mistura de clientes alertas e clientes inertes. Aque-les proporcionam empresa um mecanismo reversivo, que ativa o processo de reabilitao ao aler-tar a sua insatisfao com a sua sada. J os inertes garantem s firmas o tempo necessrio para se adaptarem, caso contrrio, em que todos os consumidores fossem assduos compradores de preos e

    servios, haveria uma instabilidade desastrosa e as firmas perderiam a chance de recuperao das falhas ocasionais (HIRSCHMAN, 1973, p. 34-35).

    No caso da opo de voz, aspecto para o qual Hirschman coloca n-fase, seu funcionamento entra em cena junto ou no lugar da opo de sada. Para o cliente ou scio, a escolha da voz, mais do que a de sada, uma tentativa de mudar os hbitos, a poltica e os produtos da firma da qual se compra ou da organizao a que se pertence. A voz definida, portanto, como qualquer tentativa de modifica-o, em vez de fuga, de um estado ao qual se pode fazer objees, atravs de peties individuais ou coletivas administrao direta-mente responsvel, apelos a auto-ridades superiores, com a inteno de pressionar a direo ou, vrios tipos de ao e protesto, inclusive os destinados a mobilizar a opinio pblica. importante ressaltar que a opo de voz a expresso clara de descontentamento entendida como um mecanismo muito mais complexo e menos previsvel do que a sada devido s condies em que ocorre e s diversas formas em que se d (HIRSCHMAN; NELSON, 1976, p. 386-387).

    Com as duas respostas possveis piora da qualidade de um servio explicadas, diz Hirschman que os estudiosos de cincias polticas trabalharam sistematicamente com a opo de voz conhecida

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    como articulao de interesse e suas vrias manifestaes, mas limitaram sua ateno a situaes nas quais a nica alternativa a essa articulao resignao ou indi-ferena (ao invs de sada). J os economistas, por outro lado, nor-teados pela opo de sada, se recu-sam a considerar que o consumidor descontente no necessariamente to desinteressado pelo seu forne-cedor ou indiferente a um produto similar, a ponto de adotar a sada sem o menor sacrifcio. Haveria, pois, duas possveis respostas no satisfao das preferncias dos indivduos: uma, essencialmente econmica, e outra, poltica. Porm, como Hirschman apontou, a voz pode coexistir com a sada, atuan-do como um complemento. Assim, para deixar seu modelo mais ro-busto, ele incorpora o conceito de lealdade, entrelaando a dicotomia entre sada e voz (HIRSCHMAN, 1973, p. 40).

    A presena da lealdade pode ser fa-cilmente percebida em casos como times de futebol, igrejas, famlias, consumos de produtos ligados de alguma maneira a tradies, parti-dos polticos etc. Desses exemplos explcitos, nota-se que a lealdade diminui nitidamente a probabilida-de de sada, e, consequentemente, ativa a opo de voz. Um membro muito ligado a uma organizao ou produto procurar meios de se fazer influente, principalmente quando a organizao se movimen-ta numa direo que ele considera errada. Por outro lado, provvel

    que o membro que goza de grande influncia dentro da organizao e que est, portanto, convencido de poder exerc-la melhor, desenvolva grande afeio pela firma dentro da qual poderoso. A lealdade importante devido a seu poder de neutralizar, dentro de certos limites, a tendncia de clientes ou membros mais conscientes de qualidade de serem os primeiros a sair, evitando que a deteriorao se acumule quando no existem obstculos sada. Contudo, ter a opo de sada seria um ponto favorvel no apenas ao cliente ou membro leal, mas tambm efici-ncia das empresas e organizaes privadas, pois o agente consumidor lana mo desse recurso como uma ameaa para que suas demandas sejam atendidas. Com a incorpo-rao de tal conceito na anlise, portanto, fica evidente que a rela-o entre voz e sada se torna mais complexa. Assim, a possibilidade de recorrer sada poderia aumen-tar a efetividade do mecanismo voz (HIRSCHMAN, 1973, p. 81-98).

    4 A Teoria de Hirschman Apro-fundada

    A partir da apresentao das cate-gorias bsicas de seu esquema, possvel, como o autor faz ao longo do livro e de alguns artigos pos-teriores, explorar as concluses que dizem respeito discusso sobre bens pblicos, mais espe-cificamente, luz da piora de sua qualidade.

    Em primeiro lugar, talvez a grande contribuio do livro seja a nfase dada voz como categoria rele-vante. Contrastando com o vis do economista em favor da sada expresso em Tiebout e Friedman (HIRSCHMAN, 1980, p. 448), a possibilidade de incluir a presso poltica e a articulao de interes-ses acrescenta bastante realismo a modelos que tratam, justamente, de servios pblicos7 e questes que envolvem a coletividade.

    Exemplo disso, articulado tambm com a nfase dada complexidade dos processos e inexistncia de informao perfeita seria a anlise de escolas pblicas e privadas nos Estados Unidos, feita especialmen-te como crtica a Milton Friedman e o sistema de vouchers. Diz Hirs-chman que, percebendo-se a piora na qualidade das escolas pblicas sem, entretanto, se ter como ava-liar exatamente o que piorou ou como saber o que faz uma escola boa8 haveria crescente descon-tentamento dos pais dos alunos. Dado, entretanto, o custo de sada para o sistema particular (isto , as caras mensalidades), apenas os ricos teriam como exercer essa opo, relegando escolas pblicas aos pobres. Esse movimento, en-tretanto, no seria capaz de sinali-zar aos responsveis pelo sistema educacional a piora percebida uma vez que, com financiamento pblico, no haveria diminuio do oramento para a educao capaz de sinalizar administrao edu-cacional o que estaria ocorrendo

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    , no contribuindo, assim, para a melhora da situao. Houvesse, pois, lealdade dos ricos educa-o, que se manifestaria como resistir sada apesar do descon-tentamento, e, caso se adotasse essa via, segui-la com muito pesar, talvez no tivesse havido a grande migrao para a educao privada, causando menos danos ao bem--estar geral (HIRSCHMAN, 1973, p. 100-101).

    Outro caso interessante, investi-gado empiricamente por Orbell e Uno (1972), seria o que envolve a migrao (sada) das populaes mais ricas em direo aos subr-bios nos Estados Unidos9, fugindo dos problemas da cidade, enquan-to negros, mais presos aos guetos e, consequentemente, com menos alternativas para fugir da piora da qualidade dos servios pblicos nos centros urbanos do que bran-cos em situao socioeconmica similar, no teriam como faz-lo. Para eles, incapazes de migrarem para bairros em que a oferta e a qualidade de servios pblicos fos-sem mais adequadas s suas pre-ferncias, restaria a opo voz, algo efetivamente observado pelos pesquisadores: de acordo com as respostas dos questionrios, ne-gros estariam mais propensos manifestao pblica de insatisfa-o (ORBELL; UNO, 1972, p. 484).

    interessante notar que, nessa mesma pesquisa, Orbell e Uno per-ceberam que havia dois tipos de resposta dos brancos, de acordo

    com seus status sociais (o que en-volveria educao, casa prpria e renda). Os de status mais baixo estariam mais propensos sada,10 enquanto os de status mais alto, muitas vezes j habitantes dos su-brbios, tenderiam ao uso da voz em caso de descontentamento p-blico. Os motivos para tanto diriam respeito ao cansao da sada,11 a alterao radical do padro de resposta conforme o indivduo se muda para outra vizinhana: tendo uma vez migrado em direo aos subrbios, os indivduos te-riam dificuldade de encontrar um substituto para a nova localidade e veriam outra sada como algo ainda mais custoso (HIRSCHMAN, 1980, p. 449; ORBELL; UNO, 1972, p. 482).

    5 Uma Breve Comparao Entre os Modelos

    Tendo apresentado os pontos fun-damentais dos modelos de Tiebout (1956) e Hirschman (1973, 1980), podemos explicitar alguns pon-tos relevantes para a comparao entre eles.

    A primeira noo relevante a de que o esquema apresentado pelo ltimo parece, ainda que em uma dimenso superficial, englobar parte significativa do que mode-lado pelo colega. Isso porque, ao propor uma interpretao que, em grande medida, serve como libelo da incorporao da voz s an-lises das respostas dos indivduos

    piora da qualidade dos servios pblicos, Hirschman no nega a existncia da categoria de sada, a nica modelada por Tiebout. O que ocorre a percepo de que, no modelo com a dicotomia sada-voz, a efetivao de resultados ruins, com no melhora dos servios p-blicos, seria possvel, em grande medida determinada pela facili-dade de opo sada para alguns e dificuldade de articulao de voz para tantos outros.

    certo, entretanto, que Tiebout, diferentemente do que criticam alguns ao dizerem que seu texto had celebrated mobility as making possible an efficient allocation of public services to the consumer--citizens in a metropolitan area, (HIRSCHMAN, 1980, p. 448), no deixa de explicitar que seu modelo exclusivamente terico. Com isso, fica claro que muitas das suas pro-posies e concluses dependem fortemente de hipteses pouco cr-veis, como pleno conhecimento dos agentes e capacidade de percepo total da correspondncia entre taxao e oferta de bens pblicos. Com isso, e tendo-se em vista a possibilidade de economias de es-cala tambm consideradas, ainda que superficialmente, pelo autor12 , talvez o resultado emprico de um grande nmero de municpios pequenos com diversas ofertas de bens pblicos no fosse o ideal em determinadas circunstncias par-ticulares.

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    necessrio, ainda, ressaltar que, apesar de tratarem de questes no distantes, uma leitura minu-ciosa de Tiebout e Hirschman dir que os termos de anlise so diver-sos. O primeiro deles, conforme j dissemos, trata efetivamente da quantidade de servios pblicos ofertados e da mobilidade reali-zada como uma manifestao das preferncias. J o segundo volta sua discusso para a anlise da qualidade de certo bem (no nosso caso, servios pblicos) e a propen-so dos indivduos a tomarem a de-ciso entre uma ou outra resposta possvel.

    Mesmo assim, apesar dessas di-ferenas, no se pode negar que algumas curiosas convergncias podem ser percebidas. No que toca existncia de municpios peque-nos resultado eficiente a partir da leitura de Tiebout , Young (1976, p. 380) ressalta que, a partir do mo-delo de Hirschman, poderia haver ganhos em pequenas municipali-dades. Isso porque, baseando-se tambm na teoria da ao coletiva, jurisdies menores significariam maior impacto esperado da voz, o que significaria mais benefcios aos indivduos que a exercessem e, por-tanto, implicaria maior propenso a seu uso.13

    No que diz respeito procura por verificao emprica desses mo-delos, evidente, especialmente a partir da leitura de Dowding e John (1994), que h uma grande diversidade e complexidade de

    testes derivados do modelo de Tiebout, sendo que, dentre eles, alguns usam tambm o arcabouo de nvel micro de Hirschman (quando tratam de insatisfao das comunidades). J em relao aos resultados, Dowding aponta que h uma grande quantidade deles que no falsifica certas hipteses apresentadas no artigo original. Entretanto, uma delas, fundamen-tal, repetidamente rejeitada: a que sugere que as pessoas no levam em conta na deciso de mu-dana outros fatores que no os de custo-eficincia (DOWDING; JOHN, 1994, p. 788). Isso pode ser lido como um argumento favorvel para Hirschman que, apesar de basear sua leitura em estudos de caso, enfatiza a complexidade dos servios pblicos, a dificuldade de entendimento do que seria um bem pblico ideal e a noo de leal-dade, que colocaria um custo no evidente para a sada.

    Finalmente, o que se pode dizer dos dois modelos, em grande medida, enfatizar a dicotomia j apresenta-da por Hirschman sobre a nfase dos economistas e, no caso, de Tiebout na soluo de sada em detrimento da anlise da voz, emi-nentemente derivada da cincia po-ltica. Nesse sentido, pode-se dizer que h alguma complementaridade entre as interpretaes.

    6 Alguns Casos no Brasil

    Com base nas teorias apresentadas acima, pretende-se agora discutir dois exemplos empricos evidentes no Brasil. O primeiro o Oramen-to Participativo (OP), um mecanis-mo governamental de democracia participativa que permite aos cida-dos por meio da voz influen-ciar ou decidir sobre os oramen-tos pblicos. O segundo exemplo aborda a questo da sade pblica no Brasil, tendo em vista que, atu-almente, o governo enfrenta srios problemas na tentativa de conciliar um Sistema nico de Sade (o SUS, previsto na Constituio de 1988) com um sistema privado, pois este ltimo, ao ser usado como sada por parte dos cidados, acaba por enfraquecer a opo voz.

    O OP surgiu com a redemocratiza-o e a promulgao da Constitui-o de 1988, quando foi estimulada a participao popular na definio de polticas governamentais. A pri-meira experincia de OP foi reali-zada em Porto Alegre, no Estado do Rio Grande do Sul, a partir de 1989. Surgiu nesta cidade com o objetivo de transferir o poder para a clas-se trabalhadora organizada, que participaria democraticamente da gesto da cidade e no apenas de quatro em quatro anos por ocasio da eleio dos seus representantes (GENRO; SOUZA, 1997).

    Na capital gacha, os moradores formaram as Comisses de Fis-calizao e Acompanhamento de

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    Obras, que acompanham as aes da Prefeitura desde a elaborao de projetos e das licitaes at a sua concluso. Nas reunies havia, tambm, a participao de corpo tcnico especializado com o ob-jetivo de esclarecer questes re-lativas aos projetos e aos gastos ento em questo. Essa experin-cia, em grande medida decorrente da tradio porto-alegrense de associaes de bairro, avaliada como positiva por alguns pesqui-sadores, que enfatizam o carter pr-distribuio de investimentos em servios pblicos em reas mais pobres da cidade (AVRITZER, 2006, p. 634).

    A forma de democracia participati-va implantada posteriormente em 170 cidades brasileiras at 2004 (AVRITZER, 2006, p. 633) ressoa, em grande medida, propostas im-plcitas de Hirschman quando faz seu apelo em favor da considerao do mecanismo de voz na deciso sobre a proviso de bens pblicos. Ao trazer setores da populao para o debate pblico, a prefeitura diminui significativamente a difi-culdade de articulao do interesse comum ainda que, claro, em ca-nais preestabelecidos ao mesmo tempo em que eleva o vnculo da populao ao espao e, espera--se, diminui a propenso sada. Concomitantemente, ao aumentar a transparncia do gasto e deixar mais compreensvel a relao entre oramento e servios pblicos, cremos que a percepo da ligao entre impostos e bens pblicos tor-

    na-se menos obscura. Dessa forma, um problema de informao que poderia ser crucial para a verifica-o emprica do modelo de Tiebout (1956) deixa de existir.

    Assim como o OP, no mbito da Constituio de 1988 a participa-o social nas decises referentes ao SUS entra em pauta, e so cria-dos os Conselhos de Sade.14 Os conselhos atuam para possibilitar aos usurios do sistema um me-canismo de participao e fiscali-zao das polticas de sade e so compostos por usurios, mdicos e representantes do poder pblico (MARTINS et al., 2008).

    De maneira anloga ao OP, os Con-selhos de Sade poderiam ser um importante canal para o mecanis-mo de voz de Hirschman. Entre-tanto, tal canal de participao so-cial enfrenta grandes dificuldades na efetiva melhoria da proviso do bem pblico, especialmente no que toca sua composio. O com-ponente poltico acaba, em muitos casos, sendo o fator preponderan-te na escolha dos membros dos conselhos, dificultando assim a representatividade dos interesses da populao na tomada de deciso (MARTINS et al., 2008, p. 112).

    A qualidade do SUS fica ainda mais comprometida porque h uma par-ticipao reduzida no processo de-cisrio dos conselhos de um grupo social importante, os setores com maior poder aquisitivo da socieda-de. Esse grupo, percebendo o sis-

    tema pblico como um servio de qualidade inferior, opta pelo setor privado e no participa das discus-ses nem dos mecanismos de pres-so popular no mbito das polticas pblicas na rea de sade. Sendo assim, a maior distncia entre os mais ricos e o sistema de sade pblica faz com que a maioria dos problemas no sejam sequer diag-nosticados, inviabilizando assim um mecanismo de presso popular, como a voz de Hirschman, no ajudando a melhorar a qualidade da proviso do bem pblico (MAR-TINS et al., 2008, p. 111).

    Em suma, a baixa participao de uma parcela relevante da socieda-de, aliada aos problemas de escolha na composio dos Conselhos de Sade subaproveitam o importan-te canal do mecanismo de voz de Hirschman. No primeiro caso, a existncia de outra sada, o setor privado, funciona como uma vlvu-la de escape para a presso social. E no segundo problema, os Conse-lhos, quando no integrados por pessoas que visam os interesses do povo, perdem sua eficcia. Com isso, prejudicada a capacidade de o setor pblico entender melhor as demandas sociais e, efetivamente, melhorar a qualidade do bem p-blico.

    7 Observaes Finais

    Tendo em vista o que foi acima apresentado, fica evidente o apa-rente contraste entre os modelos

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    de Tiebout e Hirschman, em es-pecial quando analisados luz de questes concretas como oramen-tos municipais e a deteriorao da sade pblica no Brasil. Em termos estritamente tericos, as propostas de reforma de cada um dos autores no poderiam ser mais distintas: decorre do modelo de Tiebout, bastante plstico, a necessidade de facilitar a mobilidade interjurisdi-cional para se elevar a eficincia na distribuio de bens pblicos, enquanto Hirschman advoga em favor da voz, capaz de efetivamen-te reverter pioras na qualidade de servios pblicos.

    De todo jeito, quando tratamos de possibilidades efetivas de cria-o de mecanismos institucionais, parece-nos fundamental partir do arcabouo de Hirschman. Isso por-que a escolha de voz pode reduzir significativamente problemas de informao subjacentes, tanto no que concerne s razes para o no atendimento das preferncias dos cidados quanto no que diz respei-to ao desconhecimento da relao entre taxao e oferta de bens p-blicos algo caro a Tiebout. Como afirma Valencia,

    [c]on el uso de la opcin de voz sin duda ganan los usuarios, como se ha advertido a lo largo del escrito, pero tambin ganan los integrantes del sistema: gana el Estado (las insti-tuciones de planeacin, regulacin, vigilancia y control), pues enciende

    las alarmas sobre las fallas del sistema. Recurdese que la Consti-tucin responsabiliza al Estado por el adecuado funcionamiento de los servicios pblicos domiciliarios, y la voz permite comprender el modus operandi de los agentes, brinda la in-formacin importante para el diseo de polticas orientadas a corregir los elementos disfuncionales del sistema. (VALENCIA, 2006, p. 139)

    Dessa forma, a criao de canais de dilogo entre a populao e os r-gos pblicos deve, no mnimo, ser uma alternativa a ser considerada.

    Referncias

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    julho de 2016

    1 O que, de acordo com Dowding e John (1994, p. 790), teria motivado certas crticas devido ao irrealismo de suas hipte-ses. Como veremos frente, h crticas como a de Lowery e Lyons (1989) bastante rgidas nessa dimenso.

    2 Seu modelo teria sido citado em mais de 1000 artigos desde 1970 (DOWDING; JOHN, 1994, p. 790).

    3 E, tambm, produzidos. A distino entre produo e proviso de bens pblicos e o papel do governo em cada uma dessas etapas trabalhada apenas em outro artigo (OSTROM; TIE-BOUT; WARREN, 1961).

    4 Como a suposio de economias de escala e de existncia de externalidades e seu impacto eventual na criao de comuni-dades maiores, algo explorado por Tiebout em seu artigo com Ostrom e Warren (1961).

    5 Ver Freeman (1976).

    6 A esse respeito, cabe a leitura de seu artigo sobre o fim da Repblica Democrtica Alem (HIRSCHMAN, 1993).

    7 Que, por si mesmos, j teriam um carter distinto dos privados:

    it is in the nature of the public good or the public happiness that striving for it cannot be neatly separated from possessing it. This is so because striving for the public happiness will often be felt not so much as a cost, but as the closest available substitute for it. We all know that participation in a movement to bring about a desirable policy is (and, unfortunately, may be for a long time) the next best thing to having that policy (HIRSCHMAN, 1980, p. 433).

    8 Algo que no pode ser ignorado:

    nem sempre os conceitos de qualidade so compartilhados, quer pelos operadores, quer pelos usurios. Isso ocorre particularmente em servios pblicos nos quais a qualidade refere-se mais a juzos de valor do que a um conjunto de especificaes.

    Os usurios desses servios (clientes externos da organizao) so, em princpio, os principais interessados na melhoria da qualidade. Mas eles nem sempre tm a noo do que preciso e do que possvel melhorar. (INOJOSA; FARRAN, 1994, p. 2)

    9 E no apenas l, certo. Suspeitamos que o esquema de Hirschman e a anlise de Orbell e Uno (1972) no seriam inadequados se aplicados a tantos outros casos de criao de

    subrbios ricos como o de Alphaville, para mencionarmos de passagem um caso brasileiro.

    10 Possivelmente por no terem imvel prprio, ou ainda, por inte-grarem aquela parcela da classe trabalhadora cujas funes so menos especializadas, tornando esse grupo menos enraizado em seus empregos.

    11 Exit-fatigue.

    12 Em casos com externalidades, haveria, alm da integrao, outra forma de resoluo de problemas:

    Those in the Tiebout tradition of favoring polycentric governance have stressed the use of intergovernmental agreements to ameliorate interjurisdictional externalities. This simply means that adjacent communities whose activities impose benefits or costs on one another can bargain in order to reach a level of externality production that would be socially optimal. (YOUNG, 1976, p. 379)

    13 Essa relao poderia ser ainda mais intensa, implicando defesa da pequenez - ainda que com homogeneidade - jurisdicional:

    In particular, the mechanism of voice itself may be more ef-fective when applied in the context of smaller, homogeneous rather than large heterogeneous communities. (YOUNG, 1976, p. 379)

    14 BRASIL. Lei n 8.142, de 28 de Dezembro de 1990. Disponvel em: .

    Graduandos em Economia, FEA-USP. (E-mails: ariel.akerman@usp.br, joas.juliao@usp.br)

  • 51temas de economia aplicada50 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    Relatrio de Indicadores Financeiros1

    Ncleo de Economia Financeira da USP nefin-FEA-USP (*)

    Em 02/jan/2012 foram (teoricamente) investidos R$ 100 em 4 carteiras long-short tradicionais da litera-tura de Economia Financeira. O Grfico 1 apresenta a evoluo dos valores das carteiras. (1) Carteira de Mercado: comprada em aes e vendida na taxa de juros livre de risco; (2) Carteira Tamanho: comprada em aes de empresas pequenas e vendida em aes em empresas grandes; (3) Carteira Valor: comprada

    em aes de empresas com alta razo valor contbil--valor de mercado e vendida em aes de empresas com baixa razo; (4) Carteira Momento: comprada em aes de empresas vencedoras e vendida em aes de empresas perdedoras. Para detalhes, visite o site do NEFIN, seo Fatores de Risco: .

    Grfico 1 Estratgias de Investimentos (Long - Short) (02/01/2012 - 15/07/2016)

    Tabela 1 TAMANHO VALOR MOMENTO MERCADO

    Semana 5,83% 6,51% -7,09% 3,98%Ms atual 8,19% 10,79% -7,80% 6,75%Ano atual 20,43% 18,76% -31,58% 18,03%2010-2016 -53,01% -41,40% 300,77% -39,90%

  • 51temas de economia aplicada50 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    O Grfico 2 apresenta a evoluo histrica do dividend yield do mercado acionrio brasileiro: razo entre o total pago de dividendos nos ltimos 12 meses pelas empresas e o valor total das empresas hoje. Essa tradicionalmente uma varivel estacionria (rever-te mdia) e positivamente correlacionada com o retorno futuro esperado dos investidores. Ou seja, alta em momentos ruins (de alto risco ou alta aver-

    so ao risco), quando os investidores exigem retorno esperado alto para investir no mercado, e baixa em momentos bons. A Tabela 2 apresenta o inverso do di-vidend yield, conhecido como Razo Preo-Dividendo, de algumas empresas. Ordena-se os papis da ltima semana de acordo com essa medida e reporta-se os pa-pis com as dez maiores e dez menores Razes Preo--Dividendo.

    Grfico 2 Dividend Yield da Bolsa (01/01/2009 - 15/07/2016)

    Tabela 2

    10 Maiores 10 Menores Papel Preo-Dividendo Papel Preo-Dividendo

    1. FLRY3 477,60 BRPR3 3,742. BRFS3 414,96 FIBR3 5,143. EVEN3 377,55 BRSR6 11,054. PCAR4 317,77 BRKM5 14,645. LIGT3 270,39 LEVE3 14,886. LAME4 267,61 TUPY3 15,907. GOAU4 254,81 MPLU3 16,528. SMLE3 253,19 BBSE3 16,579. RADL3 238,63 GRND3 17,06

    10. CSMG3 140,90 HGTX3 18,57

  • 53temas de economia aplicada52 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    O Grfico 3 apresenta a evoluo histrica do short in-terest do mercado acionrio brasileiro e a taxa mdia de aluguel de aes. O short interest de uma empresa dado pela razo entre a quantidade de aes em alu-guel e a quantidade de aes outstanding da empresa. Mede assim o estoque de vendas a descoberto realiza-das com as aes da empresa, tendendo a ser maior em momentos de expectativa de queda no valor da empre-

    sa. O short interest do mercado, apresentado no Grfico 3, a mdia (ponderada por valor) dos short interest individuais. A Tabela 3 reporta os cinco maiores short interests individuais e taxas de aluguel da semana passada, tanto em nvel como primeira diferena (no caso deste ltimo, so excludos os papis que tiveram variao negativa).

    Grfico 3 - Mercado de Aluguel de Aes (01/01/2013 - 15/07/2016)

    Tabela 3

    5 Maiores da Semana

    Short Interest Taxa de Aluguel

    1. USIM5 11,20% MGLU3 69,37%2. VALE5 8,72% AMAR3 35,93%3. POMO4 7,86% RSID3 27,47%4. ELET6 7,14% LLIS3 27,02%5. PETR4 6,48% DASA3 25,00%

    Variao no Short Interest Variao na Taxa de Aluguel 1. ELPL4 0,83% BRIN3 14,61%2. QUAL3 0,58% DASA3 12,20%3. EVEN3 0,56% GUAR3 3,88%4. POMO4 0,42% ENBR3 3,70%5. FLRY3 0,38% ODPV3 2,94%

  • 53temas de economia aplicada52 temas de economia aplicada

    julho de 2016

    Grfico 4 - Volatilidade Forward-Looking (01/08/2011 - 30/04/2016)

    A

    B

    O IVol-BR um ndice de volatilidade futura esperada para o mercado acionrio brasileiro. derivado do comportamento dos preos de opes sobre o IBOVES-PA. J o VIX o ndice de volatilidade futura espera-da para o mercado americano calculado pela CBOE.

    O Grfico 4 A apresenta ambas as sries. O Grfico 4B apresenta a diferena entre o ndices, capurando assim a evoluo da incerteza especificamente local. Para detalhes, visite o site do NEFIN, seo IVol-Br: .

    1 O NEFIN no se responsabiliza por qualquer dano ou perda oca-sionado pela utilizao das informaes aqui contidas. Se desejar reproduzir total ou parcialmente o contedo deste relatrio, est autorizado desde que cite este documento como fonte.

    O Nefin agradece FIPE pelo apoio financeiro e material na elaborao deste relatrio

    2 VIX e CBOE so marcas registradas da Chicago Board Options Exchange.

    (*) .

  • 54 economia & histria: crnicas de histria econmica

    julho de 2016

    eh

    Raas Ms, Raas Boas1Gilberto Freyre e as Razes do Nosso Brasil

    Luciana Suarez Lopes (*) Jos Flvio Motta (**)

    Os homens que esto hoje um pouco para c ou um pouco para l dos cinquenta anos aprenderam a refletir e a se interessar pelo Brasil sobretudo em termos de passado e em funo de trs livros: Casa-grande & senzala de Gilberto Freyre, publicado quando estvamos no ginsio; Razes do Brasil, de Srgio Buarque de Holanda, publicado quando estvamos no curso complementar; Formao do Brasil contemporneo, de Caio Prado Jnior, publicado quando estvamos na escola superior. So estes os livros que podemos considerar chaves, os que parecem exprimir a mentalidade ligada ao sopro de radicalismo intelectual e anlise social que eclodiu depois da Revoluo de 1930 e no foi, apesar de tudo, abafado pelo Estado Novo.

    Antonio Candido, em 1967 (CANDIDO, 2006, p. 235)

    No dia 18 de julho de 1987, mor-ria em Recife o socilogo Gilberto Freyre. Considerado um dos mais conceituados estudiosos de sua gerao que fez parte, juntamente com Caio Prado Jnior e Srgio Buarque de Holanda, de um seleto grupo de autores que a historio-

    grafia convencionou chamar de os intrpretes do Brasil; os trs, na conturbada dcada de 1930, publicaram obras seminais para a compreenso da nossa forma-o econmica e social, at hoje referncias indispensveis a qual-quer reflexo mais profunda sobre

    nossa histria. Pioneiros em sua poca, suas ref lexes originais direcionaram o olhar de historia-dores, economistas, socilogos e outros cientistas sociais para uma forma muito mais profunda e abrangente de ver o Brasil. Tais autores e suas obras sofreram,

  • 55

    julho de 2016

    economia & histria: crnicas de histria econmica

    claro, inf luncia do contexto no qual foram forjados.

    Aproveitamos, pois, o ensejo, para dedicar nossa crnica do ms de julho ao tema dos intrpretes do Brasil, sendo nosso texto estrutu-rado em duas partes. Na primeira, analisamos de forma necessaria-mente sucinta o contexto histrico das primeiras dcadas republica-nas, tendo como ponto de partida a prpria proclamao da Repblica e as mudanas institucionais a ela vinculadas. Nosso objetivo mos-trar como a Repblica Velha e a concentrao do poder poltico em torno do eixo So Paulo/Minas Ge-rais deram azo ao movimento que, a partir do final da dcada de 1920, passa a repensar os elementos de nossa formao econmica e so-cial. Na segunda parte da crnica, voltamo-nos aos trs intrpretes do Brasil elencados no pargrafo anterior.

    Institudo o regime republicano, o Pas perde, quase do dia para a noite, os princpios fundamentais sobre os quais se organizava o sis-tema poltico. O Poder Moderador, estabelecido na constituio de 1824, ao mesmo tempo em que per-mitiu a execuo do projeto centra-lizador colocou em segundo plano a poltica regional.2 Contudo, o

    Brasil amanheceu no dia 16 de no-vembro de 1889 sem Poder Mode-rador. O sistema poltico brasileiro abriu-se para uma experincia, nos dez anos que seguiram procla-

    mao, na qual ficou desprovido da chave de sua organizao institucional. Segundo a tradio do Imprio, as atribuies do Poder Moderador eram fundamentais para estabelecer os limites e a di-nmica do corpo poltico. (LESSA, 1999, p. 67)

    O estabelecimento da forma fe-derativa de governo colocava os Estados, e no mais o governo cen-tral, como principal espao de arti-culao poltico-partidria. Dessa forma, a organizao poltica das unidades federativas passou a ser o maior problema do novo regime (cf. SOUZA, 1971, p. 169). Enquanto as oligarquias polticas regionais no se consolidassem no poder em seus respectivos Estados, mediante a soluo de seus conflitos internos, dificilmente o presidente consegui-ria a estabilidade necessria para governar. Assim,

    [...] os anos que vo da Proclamao da Repblica aos princpios do qua-trinio Campos Sales (1889-1900) definem-se, no nvel poltico, pela luta em torno da formao das es-truturas de dominao nos Estados. (SOUZA, 1971, p. 169)

    No novo sistema, os protagonistas polticos passam a ser os Estados, unidades federativas autnomas que se articulavam no apoio ao presidente da Repblica. Ao con-trolar os agentes polticos locais, as oligarquias estaduais tinham o poder de condicionar o processo

    eleitoral, de forma que o candidato apoiado pelos governadores era tambm o candidato vencedor das eleies.

    Institura-se a norma bsica da po-ltica dos governadores que deve-ria propiciar ao regime federativo o equilbrio procurado nos anos anteriores. Sob sua gide fluiria a Repblica at 1930.

    A hegemonia do processo, avoca-da pelos Estados de grande fora econmica e demogrfica, Minas e So Paulo, era garantida por suas organizaes poltico-partidrias. [...] De modo geral as representa-es paulista e mineira formavam grupos compactos no Congresso Federal e, em seu nome, Minas e So Paulo asseguravam-se o controle da vida poltica nacional. (SOUZA, 1971, p. 185 e 187)

    Deste modo, a democracia era ape-nas aparente, um contedo formal, segundo Boris Fausto, j que a soberania popular significava a ra-tificao das decises palacianas e a possibilidade de representao de correntes democratizantes era anulada pelo voto a descoberto. (FAUSTO, 1971, p. 233)3

    Neste contexto poltico, dominado pelos Estados com maior poder econmico So Paulo e Minas Ge-rais destacamos a influncia de um importante grupo econmico: os cafeicultores. A atividade, que no era circunscrita apenas ao ter-

  • 56 economia & histria: crnicas de histria econmica

    julho de 2016

    ritrio paulista, dominava nossa pauta de exportaes, sendo o Bra-sil responsvel por mais da metade da produo mundial de caf no perodo 1900-1930.4

    Concomitantemente, no plano so-cial o Pas vivenciou mudanas igualmente importantes. Com a abolio da escravido em 1888, a sociedade absorve, sem plena-mente integrar, os ex-escravos, e ao mesmo tempo recebe um sig-nificativo nmero de imigrantes europeus. Nos principais ncleos urbanos, a indstria nascente d origem a um novo grupo social, tipicamente urbano, os operrios. Como resultado, a sociedade brasi-leira torna-se muito mais comple-xa, e tal complexidade d abertura a movimentos de contestao em vrios nveis, a exemplo do mo-vimento operrio, no mbito das relaes de classe, e do movimen-to modernista, no plano cultural. Sobre este ltimo, escreveu Raul Bopp (2012):

    A evoluo era inevitvel. Com ela, desenvolveram-se formas embrio-nrias de um Renascimento brasi-leiro. Um esprito jovem alastrou--se, com entusiasmo, por vrios recantos do pas, sob o impulso de ritmos construtivos. Em resumo: o movimento modernista, aps a agitao da Semana, no parou. Causou reaes de todas as manei-ras. Foi um ponto de partida, para escritores e artistas irem se bus-cando, aos poucos, com uma nova

    compreenso do momento. Em-bora ela no tivesse exercido uma influncia imediata, o movimento formou, gradualmente, e com um alcance coletivo, um conjunto de ideias bsicas, coerentes com a realidade brasileira.

    O clima de efervescncia cultural contamina os anos de 1920, pro-duzindo ref lexes intelectuais e outras manifestaes culturais mais prximas da nossa realidade. Nesse sentido, o movimento mo-dernista busca formas de divulgar sua produo e um dos caminhos escolhidos a edio de revistas. A primeira dessas revistas, a Klaxon, contava com um conjunto ilustre de organizadores,

    O grupo de Klaxon eram composto pelos articuladores da Semana de 22, Mrio de Andrade, Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida e Rubens Borba de Moraes, aos quais se somaram Tcito de Al-meida (irmo de Guilherme de Almeida), Couto de Barros, Yan de Almeida Prado, Lus Aranha e Srgio Milliet. [...] Alm do grupo mencionado contou com a colabo-rao de Menotti Del Picchia, Srgio Buarque de Holanda (que tambm era representante da revista no Rio de Janeiro), Manuel Bandeira, Ronald de Carvalho, Ribeiro Couto, Plnio Salgado e Joaquim Inojosa (representante no Recife a partir do nmero 7). (ANDRADE, 2015, p. 13 e 15)

    Todavia, uma reflexo que se faz pertinente a de que no haveria ambiente propcio aos avanos cul-turais caso no houvesse tambm um contexto econmico/poltico favorvel. No se pretende, com essa afirmao, desconsiderar os altos e baixos da economia nacio-nal naquele perodo, mas apenas apontar uma tendncia de mdio prazo.

    Por conta da influncia dos cafei-cultores, temos nas primeiras d-cadas do sculo XX trs operaes de defesa do caf 1906/1918, 1917/1920 e 1921/1924 , alm da instituio do programa de defe-sa permanente, quando a defesa da cafeicultura, feita pelo Estado, atinge seu pice. Neste sentido, esclarecedora a fala do presidente Epitcio Pessoa, em discurso pro-ferido em 1921:

    O caf representa a principal par-cela no valor global de nossa ex-portao e portanto, o produto que mais ouro fornece soluo dos nossos compromissos no es-trangeiro. A defesa do valor do caf constitui, portanto, um problema nacional, cuja soluo se impe boa poltica econmica e financeira do Brasil. (apud DELFIM NETTO, 1981, p. 109)

    O sucesso das polticas de valori-zao do caf, combinado com a re-cuperao da economia mundial ao longo da dcada de 1920, promove-ram a recuperao da economia in-

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    julho de 2016

    economia & histria: crnicas de histria econmica

    terna e a retomada do crescimento, em especial no governo Washing-ton Lus (1926-1930).

    A consolidao financeira da va-lorizao paulista (do caf-LSL/JFM) teve impacto extremamente favorvel sobre os preos e, junta-mente com a mudana de poltica monetria e cambial, permitiria rpida superao da estagnao que caracterizava o binio anterior, j no primeiro ano do governo Washington Lus. A grande onda de investimentos estrangeiros reiniciada em 1926 mais do que compensou a reduo do saldo em conta corrente. [...] A grande maio-ria desses investimentos era cons-tituda de emprstimos pblicos e, embora vrios deles tenham sido contrados para resgate de dvidas pendentes com credores estran-geiros, um montante significativo foi destinado a obras pblicas [...]. (FRITSCH, 2014, p. 66)

    O fim desse perodo seria marcado por uma conjuno de crises. Num primeiro momento, a crise do caf. Com a produo chegando a nveis difceis de serem absorvidos pelo mercado, a cafeicultura depende-ria mais uma vez, do programa de defesa permanente. No obstante este programa ser administrado pelo governo paulista e no neces-sariamente depender de recursos externos para funcionar, neste momento em particular um aporte externo se fazia necessrio, dado o volume que a safra havia alcanado

    em 1929.5 Temos ento a segunda crise, a quebra da bolsa de valores de Nova Iorque em outubro da-quele mesmo ano, que fez colapsar os mercados financeiros interna-cionais dificultando o acesso ao crdito externo.6 No bastassem as crises econmicas a do caf e a financeira internacional , o Pas mergulharia tambm numa crise poltica. Ao definir Julio Pres-tes como candidato governista sucesso presidencial de 1929, Washington Lus rompeu o acordo tcito existente entre os governa-dores e o governo federal. Como re-sultado, formou-se um movimento contestatrio que levaria Getlio Vargas ao governo federal. Dessa maneira, os anos de 1930 do incio a uma nova configurao de poder.7

    Esse, delineado, convm repisar, de maneira muito breve, o pano de fundo em que os intrpretes do Bra-sil objeto de nossa ateno produzi-ram os trs grandes livros citados no trecho de Antonio Cndido des-tacado na epgrafe desta crnica: Casa-grande & senzala, de Gilberto Freyre; Razes do Brasil, de Srgio Buarque de Holanda; e Formao do Brasil contemporneo, de Caio Prado Jnior. O primeiro deles, de Freyre, foi publicado originalmen-te em 1933, e apesar de constituir uma importante referncia, est longe de ser um consenso entre os estudiosos: 8

    Os crticos nem sempre foram generosos com Gilberto Freyre. Mesmo os que o foram, [...] rara-

    mente deixaram de mostrar suas contradies, seu conservadoris-mo, o gosto pela palavra sufocando o rigor cientfico, suas idealizaes e tudo o que, contrariando seus argumentos, era simplesmente esquecido. intil rebater as cr-ticas. Elas procedem. (CARDOSO, 2006, p. 19)9

    Ao mesmo tempo em que tornam o texto interessante e a leitura prazerosa, as descries detalha-das em estilo f luido e por vezes romanceadas acabaram sendo in-terpretadas por alguns como fruto de uma redao desprovida de fontes, pesquisas e referncias. Es-tilo que para Antonio Candido fazia uma ponte entre o naturalismo dos velhos intrpretes da nossa socie-dade, [...] e os pontos de vista mais especificamente sociolgicos que se imporiam a partir de 1940 (CANDI-DO, 2006, p. 236); e para Fernando Henrique Cardoso podia lev-lo a simplificaes e construes surre-alistas. Nas palavras deste ltimo,

    Gilberto Freyre tinha a pachorra e a paixo pelo detalhe, pela mi-ncia, pelo concreto. A tessitura assim formada, entretanto, levava--o frequentemente simplificao habitual dos grandes muralistas. Na projeo de cada mincia para compor o painel surgem constru-es hiper-realistas mescladas com perspectivas surrealistas que tornam o real fugidio. (CARDOSO, 2006, p. 20)

  • 58 economia & histria: crnicas de histria econmica

    julho de 2016

    O trecho a seguir, assim o cremos, ilustra com justeza as caracters-ticas atribudas ao texto freyriano:

    O ambiente em que comeou a vida brasileira foi de quase intoxicao sexual. O europeu saltava em terra escorregando em ndia nua; os prprios padres da Companhia pre-cisavam descer com cuidado, seno atolavam o p em carne. Muitos clrigos, dos outros, deixaram-se contaminar pela devassido. As mulheres eram as primeiras a se entregarem aos brancos, as mais ardentes indo esfregar-se nas per-nas desses que supunham deuses. Davam-se ao europeu por um pente ou um caco de espelho. (FREYRE, 2006, p. 161)

    Contudo, as consideraes de Gil-berto Freyre inovaram ao incorpo-rar nas anlises sociais aspectos da vida cotidiana, enfatizando os es-paos nos quais tais eventos ocor-riam a casa-grande; a senzala e apresentando no s as situaes, mas tambm os personagens e as emoes que as permeavam (cf. CARDOSO, 2006, p. 21). Nessa ex-trapolao, o novo enfoque tomava corpo.

    assim que a anlise do nosso antroplogo-socilogo-historiador ganha relevo. As estruturas eco-nmicas so apresentadas como processos vivenciados. Apresen-tam-se no s situaes de fato, mas pessoas e emoes que no se compreendem fora de contextos.

    [...] Assim fazendo, Gilberto Freyre inova nas anlises sociais da poca: sua sociologia incorpora a vida co-tidiana. No apenas a vida pblica ou o exerccio de funes sociais definidas (do senhor de engenho, do latifundirio, do escravo, do bacharel), mas a vida privada. (CARDOSO, 2006, p. 21)

    E ainda que sejam muitas as crti-cas e os reparos, e mesmo sendo alguns destes de difcil justificati-va, no se pode negar que o livro se tornou referncia no estudo da sociedade brasileira, sendo sua importncia reconhecida dentro e fora do Brasil, com aproximada-mente 25 edies em lngua es-trangeira, em dez pases, alm de uma edio publicada pela Unesco em 2002 (cf. FREYRE, 2006, p. 681-684). S no Brasil, j foram 52 as edies de Casa-grande & senzala.10

    Trs anos depois da publicao do aludido livro de Freyre, o pau-lista Srgio Buarque de Holanda publicou seu Razes do Brasil. Tra-balho bem mais conciso do que o primeiro, mas no por isso menos profundo. Ao se concentrar na an-lise de nossa formao econmica e social a partir da metodologia dos contrrios, focalizando pares e no um grande nmero de tipos, o historiador deixa de lado o carter mais descritivo talvez um dos pontos mais marcantes do texto de Freyre para se dedicar an-lise da dinmica existente entre os pares selecionados e com o proces-

    so histrico em si (cf. CANDIDO, 2006, p. 239-240).

    Em vrios nveis e tipos do real, ns vemos o pensamento do autor se constituir pela explorao de conceitos polares. O esclarecimen-to no decorre da opo prtica ou terica por um deles [...] mas pelo jogo dialtico entre ambos. A viso de um determinado aspecto da realidade histrica obtida, no sentido forte do termo, pelo enfoque simultneo dos dois; um suscita o outro, ambos se interpe-netram e o resultado possui uma grande fora de esclarecimento. [...] Trabalho e aventura; mtodo e ca-pricho; rural e urbano; burocracia e caudilhismo; norma impessoal ou impulso afetivo so pares que o autor destaca no modo-de-ser ou na estrutura social e poltica, para analisar e compreender o Brasil e os brasileiros. (CANDIDO, 2006, p. 240)

    Todavia, no se pode falar de Ra-zes do Brasil sem mencionar um dos mais conhecidos e populares conceitos desenvolvidos por Ho-landa: o do homem cordial. Fruto da inadequao dos filhos da elite rural ao contexto urbano, o homem cordial no consegue abandonar os preceitos fundamentais de sua educao patriarcal, esperando do Estado tratamento paternalista; confundindo a coisa pblica com a coisa privada; exteriorizando cor-dialidade. Neste sentido, a cordia-lidade como uma armadura, que

  • 59

    julho de 2016

    economia & histria: crnicas de histria econmica

    protege o filho da casa-grande do ambiente inspito da urbe, e assim sendo, engana-se quem acredita que sob o termo cordial esconde-se um homem bom, cordato e pac-fico. A cordialidade apenas uma mscara.

    Nossa forma ordinria de conv-vio social , no fundo, justamente o contrrio da polidez. Ela pode iludir na aparncia e isso se ex-plica pelo fato de a atitude polida consistir precisamente em uma espcie de mmica deliberada de manifestaes que so espontne-as no homem cordial: a forma natural e viva que se converteu em frmula. Alm disso, a polidez , de algum modo, organizao de defesa ante a sociedade. Detm-se na parte exterior, epidrmica do indivduo, podendo mesmo servir, quando necessrio, de pea de resistncia. Equivale a um disfarce que permi-tir a cada qual preservar intatas sua sensibilidade e suas emoes. (HOLANDA, 2006, p. 161)

    interessante destacar ainda a viso de Holanda sobre os anos iniciais da dcada 30, em especial considerando-se as reflexes apre-sentadas no ltimo captulo de seu livro. Preocupado com o avano do pensamento conservador e pelo cerceamento das liberdades de manifestao imposto pelo gover-no varguista desde 1935, Holanda discute o avano do fascismo na Europa e do movimento integralis-

    ta no Brasil, chegando a concluses no muito otimistas:

    J temos visto que o Estado, criatu-ra espiritual, ope-se ordem na-tural e a transcende. Mas tambm verdade que essa oposio deve resolver-se em um contraponto para que o quadro social seja co-erente consigo. [...] As formas su-periores da sociedade devem ser como um contorno congnito a ela e dela inseparvel: emergem con-tinuamente das suas necessidades especficas e jamais das escolhas caprichosas. H porm um dem-nio prfido e pretencioso, que se ocupa em obscurecer aos nossos olhos estas verdades singelas. Ins-pirados por ele, os homens se veem diversos do que so e criam novas preferncias e repugnncias. raro que sejam das boas. (HOLANDA, 2006, p. 208)

    E por ltimo, mas no menos im-portante, o terceiro dos intrpretes por ns destacados com inspirao em Antonio Candido. Depois de uma primeira tentativa de sntese histrica, publicada em 1933, sob o ttulo de Evoluo Poltica do Brasil e outros estudos, Caio Prado Jnior retoma a discusso de nossa for-mao econmica e social, numa obra que at hoje constitui leitura obrigatria nos cursos de histria e economia. Em 1942, nove anos de-pois da publicao de Casa-grande & senzala e seis anos aps a publi-cao de Razes do Brasil, ocorre a

    publicao do Formao do Brasil Contemporneo: colnia.

    H vrias maneiras pelas quais um livro e um autor se tornam clssi-cos. Caio Prado, com sua Formao do Brasil contemporneo, passou a ser autor obrigatrio de qualquer estante de estudos brasileiros, pelo caminho mais slido. Pode no ser um livro to brilhante, do ponto de vista da forma, como alguns dos en-saios clssicos sobre o Brasil. Pode no ser um livro to documentado e baseado em pesquisas pessoais nos arquivos poeirentos como as obras dos mais famosos historiadores que o antecederam. Mas poucos livros fincaram to duramente em solo to profundo as razes de nosso conhecimento sobre o Brasil Colnia. (CARDOSO, 2013, p. 143)

    J em seu ttulo possvel perceber um dos objetivos mais importan-tes do autor, que no s analisar nossa formao histrica mas tam-bm compreender o Brasil de 1942, tendo como argumento central o conceito de sentido da colonizao.

    Todo povo tem na sua evoluo, vis-ta distncia, um cento sentido. [...] O sentido da evoluo de um povo pode variar; acontecimentos estranhos a ele, transformaes internas profundas do seu equil-brio ou estrutura, ou mesmo ambas estas circunstncias conjuntamen-te, podero intervir [...]. (PRADO JNIOR, 1965, p. 13)

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    Sendo elemento central da anlise, nosso sentido est relacionado ao vnculo existente entre a expanso comercial europeia a partir dos sculos XII e XIII e a ultramarina portuguesa a partir do sculo XV. Controlador de um vasto imprio, Portugal especializa-se na ativida-de comercial, na compra de gneros tropicais, na busca por especiarias e outros produtos do oriente e na comercializao destas mercado-rias na Europa. Sendo assim,

    Se vamos essncia da nossa for-mao, veremos que na realidade nos constitumos para fornecer acar, tabaco, alguns outros gne-ros; mais tarde ouro e diamantes; depois, algodo, e em seguida caf, para o comrcio europeu. Nada mais que isto. (PRADO JNIOR, 1965, p. 26)

    Independente das crticas que o modelo pradiano recebeu poste-riormente, seu desenvolvimento constituiu, no campo da histria econmica, um importante avano. Se antes nossa formao econmi-ca era vista como uma sucesso de ciclos, uma mera troca de diaposi-tivos, o conceito de sentido da co-lonizao deu o amlgama sobre o qual os vrios ciclos passaram a ser assentados, e as articulaes entre eles, ainda que naquele momento no tenham sido plenamente ex-ploradas, j comeam a se esboar. Mesmo sendo ainda muito forte na construo pradiana o papel da

    agricultura de exportao, j apa-recem captulos sobre a pecuria e sobre a agricultura de subsistncia, atividades subsidirias, de apoio, mas registradas e analisadas pelo autor.

    Seria difcil imaginar nossa histo-riografia sem os trs autores men-cionados e suas obras; seria igual-mente difcil imaginar qual teria sido nosso entendimento sobre nossa histria e nossa formao sem os destacados intrpretes. Cer-tamente surgiriam alternativas te-ricas, mas quais teriam sido elas?

    Perdemos Gilberto Freyre, como dito no incio desta crnica, em julho de 1987; Srgio Buarque de Holanda faleceu em abril de 1982; e Caio Prado Jnior em novembro de 1990. Todos tiveram uma produo historiogrfica vastssima, tendo formado e inspirado inmeros discpulos, incluindo aqui aqueles formados meio s avessas, ou seja, aqueles que se dedicaram a criticar seus modelos, interpretaes e vises. Neste sentido, encerramos nossa crnica com uma reflexo de Fernando Henrique Cardoso,

    Quando comearam a produzir intelectualmente, as geraes pos-teriores s dos pensadores que in-ventaram o Brasil se encontraram com uma nao j formada, embora diferente daquela do sonho de seus precursores. (...) Sem que tivsse-mos muita conscincia do proces-

    so em curso, minha gerao teve que lidar com outro momento do desenvolvimento mundial do capi-talismo, chamado de globalizao. (...) Neste novo contexto, preciso inventar outro futuro para o Brasil que, sem negar a importncia das temticas do passado e os feitos concretos que delas resultaram, nem a identidade nacional que eles produziram, abra caminhos para compatibilizar os interesses nacional-populares com a inser-o econmica global. (CARDOSO, 2013, p. 12-14)

    Fontes e Referncias

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    economia & histria: crnicas de histria econmica

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    1 Trecho do poema Casa Grande & senzala, de Manuel Bandeira, publicado no livro Estrela da vida inteira e reproduzido na 51 edio de Casa-grande & senzala, lanada pela Global Editora em 2006.

    2 Esse projeto marcou o Primeiro Reinado, foi com algum sucesso combatido no pe-rodo regencial e tornou a delinear a poltica

    unitria do Segundo Reinado. De fato, e instigante a controversia entre centrali-zao e federalismo no Brasil; embora seu tratamento extrapole nossos objetivos neste texto, remetemos o leitor, sobre esse tema, por exemplo, a Coser (2008), Dolhnikoff (2005) e Ferreira (1999).

    3 Convem observarmos que muitos dos ele-mentos caractersticos da falta de lisura do processo eleitoral no foram uma prer-rogativa da Repblica Velha, mas reprodu-ziam prticas do perodo imperial. Ver, por exemplo, Nicolau (2012, caps. 1 e 2) e Porto (2004).

    4 De 1883 a 1943, o Brasil foi responsvel, anu-almente, por mais da metade da produo mundial de cafe, com porcentagens que variaram de 50,45%, em 1943, a 78,49% em 1909 (cf. MARTINS; JOHNSTON, 1992, p. 351-352).

    5 A safra brasileira no ano comercial do cafe iniciado em 1 de julho de 1929 superou a inedita cifra de 30 milhes de sacas de 60 quilos (cf. MARTINS; JOHNSTON, 1992, p. 308). No podemos esquecer que a oferta mundial de cafe era composta no s pela produo de cafe de um determinado ano, do Brasil e dos demais produtores, mas tambem pelos estoques disponveis.

    6 Mesmo assim, o governo paulista conseguiu levantar, em meados de 1930, um em-prestimo de 20 milhes de libras esterlinas com o qual deu incio compra de estoques. Segundo Simo Silber (1978, p. 190), este emprstimo foi decisivo para evitar a falncia do setor cafeeiro, pois o governo no havia ainda se reestruturado para enfrentar o pro-blema da superproduo de caf.

    7 Com essas consideraes no pretendemos reduzir a problemtica que levou Getlio Vargas ao poder a alguns poucos episdios polticos, mas apenas apontar alguns ele-mentos essenciais para nossa discusso posterior. Para um panorama mais apro-fundado da sucesso presidencial de 1929 e dos conturbados anos de 1930 ver, entre outros, Abreu (2014), Fausto (1971), Leo-poldi (2003), e Sola (1981). J sobre o cafe e a influncia da cafeicultura nesse contexto, ver, por exemplo, Delfim Netto (1981) e Silber (1978).

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    economia & histria: crnicas de histria econmica

    8 Dentre seus principais crticos destacam-se aqueles da chamada escola paulista, encabeados por Florestan Fernandes. As crticas feitas por Fernandes a Freyre, pelo menos em um primeiro momento, concentraram-se no questionamento da suposta democracia racial, que, na viso de Freyre, existiria no Brasil (cf. CARDOSO, 2013, p. 94).

    9 O prefcio de Fernando Henrique Cardoso de que nos valemos foi escrito em 2003 e publicado originalmente em 2005, na 50a. edio revisada de Casa-grande & senzala, da editora Global.

    10 Conforme dados da Editora Global, detentora dos direitos sobre o livro no Brasil. Informaes disponveis em: . Acesso em: 21 jul. 2016.

    (*) Professora Doutora da FEA/USP. (E-mail: lslopes@usp.br).

    (**) Livre-Docente da FEA/USP. (E-mail: jflaviom@usp.br).

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    economia & histria: relatos de pesquisa

    Relato de Pesquisa Trabalho Escravo, Trabalho Livre: O Negro na Formao da Classe Operria Brasileira

    Rafaela Carvalho Pinheiro (*) Luciana Suarez Lopes (**)

    O relato de pesquisa deste ms de julho apresenta os resultados ini-ciais de uma pesquisa de mestrado em andamento. O tema escolhido para esta apresentao remete a um dos captulos da mencionada dissertao, dedicado discusso da questo do trabalho no perodo de transio entre o trabalho es-cravo e o trabalho livre no Brasil.

    Por meio dessa reflexo, buscamos entender de forma melhor o papel do negro na formao do mercado de trabalho e da classe trabalha-dora aps a abolio da escravido em 1888. Compondo uma pesquisa que se prope a analisar a tran-sio do trabalho escravo para o livre na virada do sculo XIX para o XX, esse recorte surge da inquie-tao de se pensar o trabalhador brasileiro do incio do novo sculo como branco e europeu.

    Desde o sculo XVI, com o sistema de plantation nas lavouras de a-car, a economia brasileira assen-tava-se em uma estrutura de pro-duo essencialmente escravista. Trs sculos depois, com os negros nas lavouras de caf, a estrutura produtiva permaneceria a mesma at o fim da escravatura.

    A literatura crtica que abarca as discusses sobre histria do traba-lho e classe trabalhadora no che-gou a um consenso sobre o ponto inicial da formao do operariado no Brasil. Na verdade, grande parte dos estudos converge ou para a compreenso de uma formao da classe operria a partir da imi-grao europeia, com uma clara ideia de embranquecimento dos trabalhadores, ou para um deter-minismo das foras econmicas e sociais, deixando os negros a rebo-que do processo de transio para o trabalho livre. Poucas e recentes so as pesquisas que buscam ver o trabalhador negro no processo da transformao do trabalho.

    Presente tanto no campo quanto na cidade, populao escrava se somavam os negros livres e os mestios. Estes, qualificados como malandros, preguiosos e incultos, incomodavam a elite em relao sua numerosidade, primeiro pela impossibilidade de equipar-los aos escravos, depois por consider--los incapazes de se adequar ao projeto modernizador que pensa-vam para o Pas, cabendo para a tarefa os imigrantes europeus.1

    Louis Couty2 afirmou, nos anos finais da escravido, que o Brasil um pas sem povo. Francs e branco, a mxima do autor diz res-peito ao negro, dada a preocupao com a dita crise do sistema socio-econmico. Para Couty, as ideias de negro e progresso social eram contraditrias por entender que o negro brasileiro era defeituoso por natureza e, dessa forma, inferior ao irlands, ao russo, ao operrio alemo ou francs.3 No restam dvidas de que a soluo do autor para o desenvolvimento do Brasil estaria no emprego de colonos eu-ropeus assalariados.

    Nos prprios abolicionistas, pos-svel encontrar as origens da exclu-so dos negros ao serem tratados como peas, danificados ou crias. Mesmo com a tentativa de relevar tais tratamentos, con-siderada a poca em que foram praticados, alguns abolicionistas apresentam inclusive um enten-dimento equivocado do indivduo negro. Joaquim Nabuco, por exem-plo, um dos mais importantes e famosos, julgava ter o mandato da raa negra, na qual os escravos, sem conscincia de seus interesses bem como nenhuma condio de

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    se libertarem, fracos e oprimidos, incumbiam aos abolicionistas, hu-manos e solidrios, a misso de libert-los.4

    De fato, a crena dominante pres-supe que a violncia prpria da escravido cuidou de bestializar os cativos, retirando inclusive qual-quer legado cultural que ainda pu-dessem ter. Os cativos no tinham capacidade tcnica, no possuam potencial intelectual de aprendiza-gem, nem valorizavam o trabalho assalariado, caractersticas pri-mordiais para a ascenso social.

    Por mais que as ideias abolicionis-tas possam ter pretendido a eman-cipao dos escravos em algum momento, culminaram numa des-qualificao profunda deles, que foram privados do reconhecimento enquanto sujeitos de sua prpria histria. Em certos casos, v-se a negao da importncia da cul-tura poltica dos trabalhadores, bem como a certeza inabalvel na teoria do escravo-coisa, embora travestidos de eruditos e sofistica-dos em teoria.5 Diante de tudo isso, fcil compreender por que os ne-gros parecem ter sido banidos da literatura crtica que versa sobre a histria do trabalho.

    A partir de 1980, uma nova forma de pesquisa buscou romper com a relao estabelecida entre subordi-nao e passividade, de modo a re-conhecer a iniciativa, as tradies e os costumes dos escravos, conside-rando toda a opresso e dominao

    ideolgica impostas pelo sistema escravista.6

    Nesse sentido, se faz necessrio, nas palavras de Marcelo Badar Mattos7, superar as concepes estreitas de classe trabalhadora, em direo a um conceito mais ampliado, a partir da recuperao do debate original sobre a classe trabalhadora. Tal debate, obvia-mente, no deve ser adotado como um conjunto de conceitos prontos e acabados. Isso no s porque a histria dos trabalhadores supera definies e pr-noes rgidas e generalizantes, como tambm por-que os desafios da pesquisa susci-tam avaliaes atualizadas e com-plexificadas da teoria marxista.8

    A primeira considerao a ser feita diz respeito natureza terminol-gica. Nas lnguas de origem latina, a traduo da expresso alem utilizada por Marx, arbeiterklasse, ou o sinnimo em ingls, working class, geralmente corresponde classe operria. Tal traduo, como assinala Badar Mattos9, aparece, na maioria das vezes, associada ideia de que o verdadeiro sujeito revolucionrio o operrio indus-trial trabalhador produtivo, que sofre a subsuno real ao capital decorrente da interao com a moderna tecnologia empregada na grande indstria.

    O foco do trabalho de Marx no foi a classe trabalhadora, mas o capital, de maneira que acabou no definindo precisamente a termino-

    logia referente classe. Todavia, os dois termos mais utilizados em sua obra, proletariado e classe proletria, podem ser entendidos como aquele que, sem capital e sem renda da terra, vive puramen-te do trabalho, e de um trabalho unilateral, abstrato10, e como o conjunto destes. Em decorrncia disso, Marx aclara que a formao da classe operria se deu no bojo do processo histrico de afasta-mento do produtor dos meios de produo, efeito de um profundo e intenso processo de expropriao dos meios de subsistncia, que obrigou as massas populacionais a se tornarem proletrias11, ou seja, a serem exploradas.

    Como bem disse Eric Hobsbawm12, a histria da classe trabalhadora maior e mais complexa do que a histria das ideologias, dos sin-dicatos e dos partidos, bem como de suas lutas. A assertiva encontra eco em Edward Palmer Thomp-son, que revolucionou a histria do trabalho ao questionar a influ-ncia dos marxistas mecnicos e economistas trabalhistas sobre as concepes de classe, numa anlise do formar-se da classe operria na Inglaterra.

    Uma vez que a classe tem senti-do apenas no contexto histrico que a produziu13, para ele, a his-toriografia deu ateno excessiva classe, de maneira inclusive anti-histrica, e quase nenhuma luta de classes, que se apresenta como conceito prioritrio por ser

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    um conceito histrico que impli-ca um processo.14 Nesse sentido, Thompson15 diz com todas as letras que as classes no existem como entidades separadas que olham ao redor, acham um inimigo de clas-se e partem para a batalha. Pelo contrrio, os indivduos se veem em uma sociedade estruturada fundamentalmente pelas relaes de produo, suportam a explora-o, no caso dos trabalhadores, ou procuram a manuteno do poder sobre os explorados, no caso dos capitalistas, identificam os inte-resses antagnicos, debatem-se sobre tais interesses, e ao longo desse processo de luta descobrem a si mesmas enquanto uma classe, descobrindo consequentemente a sua conscincia de classe.16

    Vrias so as pesquisas que apre-sentam uma clara tendncia inter-pretativa de distanciar as experi-ncias de trabalho da escravido e da ps-abolio, como relaes de produo, foras produtivas, tec-nologia e at mesmo coero. Em diversas sociedades escravistas, porm, estudos apontam para o uso de mo de obra escrava em se-tores manufatureiros e industriais, destacando a complexidade do tra-balho escravo tanto urbano quanto rural a partir das transformaes nos campos ideolgico e tecnolgi-co em fins dos oitocentos.17

    Com o crescimento urbano, espe-cialmente no Rio de Janeiro, desde meados do sculo XIX podemos identificar a populao negra, es-

    crava e liberta, trabalhando nos setores de comrcio, servios ur-banos como transporte e abasteci-mento, alm de estar presente tam-bm nas manufaturas. Ao contrrio do que defendem alguns historia-dores, densas cidades escravistas surgiram dinamizando relaes de produo18, com escravos de ganho ou de aluguel.

    Escravos de aluguel consistiam naqueles escravos que eram cedi-dos a terceiros para as mais varia-das tarefas mediante pagamento a seus donos. J os escravos de ganho desempenhavam atividades no mercado gerando ganhos para seus senhores. Se falvamos da formao da classe trabalhadora para Thompson, que defende um sentido de classe mais amplo, nos termos marxistas os escravos de ganho consistem em uma categoria intrigante, j que se aproximam sobremaneira da concepo de tra-balhadores livres sem de fato o ser.

    O fato mais interessante consiste nos escravos de ganho empenha-dos nas manufaturas. Na maioria das vezes estes ganhavam salrios pela venda da sua fora de tra-balho, mas tinham que repassar tudo ou pelo menos parte da remu-nerao recebida para seu dono. Ento, ao mesmo tempo em que esse negro se apresentava como trabalhador assalariado, ele ainda se configurava como uma merca-doria. Os escravos, empenhados ao ganho ou no, eram empregados nos mais variadores setores do

    mercado como inclusive o de ma-nufaturas, fato que exclui por si s a tentativa dita sociolgica de dis-tanciar o cativo do trabalho.

    Nesse sentido, por mais que a pre-sente pesquisa esteja ainda em an-damento, j possvel apontar para uma formao mais heterognea da classe trabalhadora brasileira, cujo papel dos negros nessa for-mao foi fundamental. As experi-ncias adquiridas no processo das relaes de trabalho, atravs prin-cipalmente da oposio de seus interesses aos dos seus senhores, foram essenciais para a aquisio de uma conscincia de classe, pos-svel apenas atravs desse con-f lito de interesses. Desse modo, ao adquirir conscincia de si e ao mesmo tempo percorrer o caminho histrico de formao da classe, da expropriao explorao, vo de fato dando forma classe operria.

    Ademais, as tradies e os costu-mes dos negros, escravizados ou libertos, ajudam a compreender a organizao do trabalho, tornan-do-se fundamental para assegurar que as classes subalternas no sejam destitudas de sofisticao ao fazer cultura e histria.19

    Ainda so necessrios mais es-tudos que demonstrem a parti-cipao dos negros nas relaes de produo principalmente aps a emancipao, quando se tem menos informaes. De qualquer forma, a barreira que separava escravos de trabalho e escravido

  • PBeconomia & histria: relatos de pesquisa66 economia & histria: relatos de pesquisa

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    de modernidade foi rompida, permitindo com toda a certeza a compreenso de que a formao da classe trabalhadora no Brasil tem princpio essencial nos negros, escravizados ou libertos, que deram muito do seu suor para a construo do nosso Pas.

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    1 Ver Lara (1998, p. 25-38).

    2 Couty (1988).

    3 Couty (1984).

    4 O mandato da raa negra consiste no terceiro tpico da obra de Nabuco. A epgrafe, emblemtica, diz que se a inteligncia nativa e a independncia dos bretes no conseguem sobreviver no clima insalubre e adverso da escravido pessoal, como se poderia esperar que os pobres africanos, sem o apoio de nenhum sentimento de dignidade pessoal ou de direitos civis, no cedessem s influncias malignas a que h tanto tempo esto sujeitos e no ficassem deprimi-dos mesmo abaixo do nvel da espcie humana?. NABUCO, Joaquim. O abolicionismo. Disponvel em: . Acesso em: julho de 2014, p. 9; ver tambm Chalhoub e Silva (2009).

    5 Chalhoub e Silva (2009).

    6 Ibid.

    7 Mattos (Texto manuscrito, s.d., p.1). Ver tambm Mattos (2014).

    8 Mattos (2014).

    9 Ibid, p. 5.

    10 Marx (2004, p. 30).

    11 Ibid.

    12 Hobsbawn (1987).

    13 Thompson (2004 [1963]).

    14 Thompson (s.d).

    15 Ibid, p. 3.

    16 Thompson (2004).

    17 Negro e Gomes (s.d.).

    18 Alencastro (1988). Ver tambm Negro e Gomes (s.d.).

    19 Negro e Gomes (s.d.).

    (*) Mestranda do em Histria Econmica da FFLCH/USP. (**) Professora Doutora do Departamento de Economia da FEA/USP.

    (E-mail: lslopes@usp.br).

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