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N 437 Fevereiro / 2017FUNDAO INSTITUTO DE PESQUISAS ECONMICAS

iss

n 1

678-6

335

As ideias e opinies expostas nos artigos so de responsabilidade exclusiva dos autores, no refletindo a opinio da Fipe

Vera Martins da Silva analisa a conjuntura econmica brasileira, com en-foque na evoluo das Transaes Correntes e nas fontes de financiamento dela, alm da evoluo das reservas e da taxa de cmbio efetiva real.

Perspectivas da Economia Mundial para o Trinio 2017-2019

Jos Paulo Zeetano Chahad

Reformas nos Regimes de Previdncia de Servidores Pblicos Civis na OCDE e PEC 287 no Brasil

Rogrio Nagamine Costanzi

Democracia, Rent-Seeking e Aumento do Tamanho do Governo no Brasil

Elson Rodrigo de Souza Santos

Entendendo a Renegociao das Dvidas Estaduais com a Unio

Guilherme Tinoco de Lima Horta

Somos um pas muito endividado?Victor Cezarini

Neutralidade da Moeda: Novo-keynesianosVitor Kayo de Oliveira

Relatrio de Indicadores FinanceirosNefin-USP

anlise de conjuntura

temas de economia aplicada

Finanas PblicasVera Martins da Silva

Setor ExternoVera Martins da Silva

p. 36

p. 3

p. 43

Vera Martins da Silva discute a situao das finanas pblicas brasileiras, mostrando a evoluo do resultado primrio do Governo Central, dividido em Tesouro Nacional, Banco Central e Previdncia Social.

Jos Paulo Zeetano Chahad faz uma resenha, destacando os principais ele-mentos da evoluo esperada do PIB global, assim como do nvel de ativi-dade nas principais regies em que so classificados os pases analisados.

p. 21

p. 13

p. 31

p. 26

p. 48

Rogrio Nagamine Costanzi discute sobre os regimes de previdncia dos servidores pblicos e do setor privado em vrios pases do mundo e faz um paralelo com a PEC 287 no Brasil.

Elson Rodrigo de Souza Santos explora os fundamentos da interao entre democracia, rent-seeking e tamanho do governo no Brasil, tomando como base o choque provocado pela abertura poltica na metade da dcada de 1980.

Victor Cezarini explica as diferentes mtricas utilizadas para medir a capacidade de pagamento de um pas e discute se o Brasil muito endi-vidado de acordo com elas.

Guilherme Tinoco de Lima Horta faz um histrico dos diferentes proces-sos de renegociao das dvidas estaduais com a Unio, alm de mostrar quais as outras possveis formas de apoio que esto em negociao.

Vitor Kayo de Oliveira faz uma pequena resenha a respeito de como a escola Novo-Keynesianos apresenta a relao terica entre moeda e va-riveis reais, sobretudo o produto agregado e o nvel de emprego.

economia & histriaRibeiro Preto e o Imposto sobre Cafeeiros

Luciana Suarez Lopes

O Ncleo de Economia Financeira da USP apresenta a evoluo dos valores de quatro tipos de carteiras, do dividend yield, do short interest e do ndice de volatilidade futura esperada para o mercado acionrio brasileiro.

Luciana Suarez Lopes analisa a arrecadao com o imposto sobre a atividade cafeeira em Ribeiro Preto e seus impactos sobre as finanas pblicas municipais.

p. 53

p. 7

fevereiro de 2017

Conselho Curador

Juarez A. Baldini Rizzieri (Presidente) Andrea Sandro Calabi Denisard C. de Oliveira Alves Eduardo Amaral Haddad Francisco Vidal Luna Hlio Nogueira da Cruz Jos Paulo Zeetano Chahad Simo Davi Silber Vera Lucia Fava

INFORMAES FIPE UMA PUBLICAO MENSAL DE CONJUNTURA ECONMICA DA FUNDAO INSTITUTO DE PESQUISAS ECONMICAS ISSN 1678-6335

Luiz Martins Lopes Jos Paulo Z. Chahad Maria Cristina Cacciamali Maria Helena G. Pallares Zockun Simo Davi Silber

Editora-Chefe

Fabiana F. Rocha

Preparao de Originais e Reviso

Alina Gasparello de Araujo

Produo Editorial

Sandra Vilas Boas

http://www.fipe.org.br

Diretoria

Diretor Presidente

Carlos Antonio Luque

Diretora de Pesquisa

Maria Helena Garcia Pallares Zockun

Diretor de Cursos

Jos Carlos de Souza Santos

Ps-Graduao

Mrcio Issao Nakane

Secretaria Executiva

Domingos Pimentel Bortoletto

Conselho EditorialHeron Carlos E. do Carmo Lenina Pomeranz

Observatrio do Emprego e do Trabalho

O Observatrio do Emprego e do Trabalho oferece aos formuladores de polticas pblicas um conjunto de ferramentas inovadoras para aprimorar as possibilidades de anlise e de compreenso da evoluo do mercado de trabalho.

O Observatrio inova a anlise do mercado de trabalho em dois aspectos importantes. Primeiro, utiliza um conjunto de indicadores novos, especialmente criados pelos pesquisadores da FIPE, os quais junta-mente com indicadores mais conhecidos e tradicionais permitiro um acompanhamento mais detalhado do que ocorre no mercado de trabalho. Segundo, porque estes indicadores podem ser utilizados tanto para analisar o mercado como um todo, quanto para analisar aspectos desagregados do mercado como, por exemplo, uma ocupao ou um municpio. So indicadores poderosos, que oferecem uma viso de curto prazo e tambm podem formar uma srie histrica. O conjunto de indicadores pode ser usado para acompanhar tanto as flutuaes decorrentes das alteraes conjunturais de curto prazo quanto as evolu-es estruturais de longo prazo. Mensalmente divulgado um Boletim que apresenta um resumo do que ocorreu no mercado de trabalho do Estado. As bases de dados que originam as informaes divulgadas pelo Observatrio so: a) CAGED (MTE); b) RAIS (MTE); c) PNAD (IBGE).

O Observatrio do Emprego e do Trabalho foi desenvolvido e mantido em conjunto pela Secretaria do Emprego e Relaes do Trabalho do Governo do Estado de So Paulo (SERT) e pela Fundao Instituto de Pesquisas Econmicas da USP (FIPE).

Para saber mais, acesse:

http://www.fipe.org.br/projetos/observatorio/

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Finanas Pblicas: Entre uma Recesso Tenebrosa e um Dese-quilbrio Fiscal Espantoso

Vera Martins da Silva (*)

No mbito das f inanas gover-namentais, foi-se o tempo de ob-teno de supervits primrios, sujeitos contabilidade criativa ou no. Desde 2015, ocorrem dficits, ou seja, tanto o primrio como o j recorrente dficit nominal, o que inclui as contas financeiras, este j tido como normal ou natural nas contas pblicas brasileiras. No ano de 2016, o dficit primrio foi cal-culado em R$ 154,3 bilhes contra um dficit de R$ 114,7 bilhes em 2015, em valores correntes. O re-sultado decorre da forte recesso que assola a economia1 e s no foi pior devido aos recursos obtidos com a repatriao de valores do exterior, com a entrada de R$ 47 bilhes. Em termos reais, usando o IPCA (ndice de Preos ao Con-

sumidor Amplo do IBGE), o dficit primrio passou de R$ 122,7 bi-lhes para R$ 155,5 bilhes, ou seja, um aumento de R$ 32,7 bi-lhes, que acabaram gerando uma dvida adicional ao estoque de d-vida j pressionada por taxas de juros elevadas.

A maior causa do aumento do pri-mrio em 2016 foram as contas da Previdncia, cuja receita do Re-gime Geral recuou R$ 23 bilhes, resultado da queda da atividade econmica e do desemprego gene-ralizado, e da queda das receitas pblicas em geral, com destaque para a queda da receita adminis-trada pela Receita Federal, de R$ 14 bilhes. As Transferncias aos governos subnacionais aumenta-

ram entre 2015 e 2016 em R$ 3,7 bilhes, como resposta s presses por alvio nas contas em meio re-cesso, e especialmente devido ao repasse do principal e das multas do Imposto de Renda relativo aos recursos repatriados do exterior. Depois das Transferncias por Re-partio de Receita, a Receita L-quida da Unio caiu R$ 47 bilhes, ou 4,1% em relao ao ano ante-rior, enquanto as Despesas caram bem menos, R$ 15 bilhes (1,2%). Esta tem sido a caracterstica das despesas pblicas no Brasil, bem menos flexveis do que as receitas pblicas. Entre os itens de Despesa, a maior expanso foram os Benef-cios Previdencirios, com aumento de R$ 35 bilhes entre 2015 e 2016.

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A Tabela 1 apresenta os valores do dficit primrio segundo as grandes instituies pblicas entre 2015 e 2016, a preos constantes (IPCA). Destaque-se que o resultado do Tesouro, apesar de ainda ser negativo, caiu substancialmente em relao ao ano anterior, 2015, pois ao final deste ltimo (2015) foram pagos uma srie de atrasos de pagamentos decorrentes da

contabilidade criativa dos anos anteriores. O ano de

2016 j ficou livre desse legado funesto, mas a econo-

mia em recesso profunda ainda levou a um primrio

negativo para o Tesouro Nacional. O dficit previdenci-

rio do Regime Geral foi de R$ 152 bilhes, um acrs-

cimo de R$ 57 bilhes sobre o ano anterior.

Tabela 1 Resultado Primrio do Governo Central em 2015 e 2016, R$ Milhes

2015 2016

A B A - B

Resultado do Tesouro Nacional -27.177,7 -2.317,2 24.860,5

Resultado do Banco Central -778,9 -988,1 -209,2

Resultado da Previdncia Social (RGPS) -94.805,4 -152.210,5 -57.405,2

Fonte: Resultado do Tesouro Nacional, dez/2016 Tabela 1.2.

A recesso a grande vil da situao das contas p-blicas na medida em que derruba vendas, faturamento e importaes, especialmente do setor industrial. Do ponto de vista da receita pblica, as principais fontes foram afetadas pela queda dos montantes arrecada-dos: R$ 16 bilhes da COFINS Contribuio para o Financiamento da Seguridade Social, R$ 11 bilhes do Imposto sobre Produtos Industrializados e R$ 11 bilhes do Imposto de Importao. No caso da Previ-dncia, no mbito do setor rural, houve at um aumen-to da arrecadao, de R$ 233 milhes, que no ajudou a reverter o desastre financeiro da rea urbana, onde houve queda de arrecadao de R$ 23 bilhes.

Outros grandes itens de receita que tiveram modifica-es importantes foram a queda de R$ 10 bilhes em dividendos de empresas estatais estas, por sua vez, tambm sujeitas ao stress de mercados recessivos e a queda da cota-parte das compensaes financeiras, especialmente devido queda dos preos do petrleo, o que impactou negativamente no s a Unio, mas os Estados produtores, como a catica situao do Rio de Janeiro deixa evidente. H que se destacar, tambm, a enorme perda de receita tributria com incentivos

fiscais, que aumentaram em R$ 152 bilhes entre 2015 e 2016. Pelo lado da entrada de recursos, alm da j citada receita por repatriao de recursos do exterior, que corresponde a R$ 23 bilhes, a receita da Unio foi tambm aumentada em R$ 16 bilhes em Concesses e Permisses, principalmente devido concesso de 29 usinas hidreltricas.2 Neste ponto, cabe a seguinte pergunta: o que seria da receita pblica e do resultado primrio sem esse conjunto volumoso de expedientes gerenciais? E at quando ser possvel essa criativi-dade arrecadatria sem um srio processo de reade-quao fiscal?

Pelo lado das despesas, alm dos pagamentos dos atra-sados ao final de 2015, em 2016 ocorreu um aumento de pagamentos de Restos a Pagar, que so compromis-sos de pagamentos deixados para o ano seguinte ao de execuo do oramento anual. Este tipo de despesa, que vinha crescendo aceleradamente, est deixando de ser uma importante fonte de financiamento pbli-co, e seu pagamento aumentou em R$ 5 bilhes entre 2015 e 2016, quando alcanou R$ 32,8 bilhes.3 No mbito das despesas discricionrias, um dos itens mais afetados pela situao econmica e fiscal do go-

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verno foi o Programa Minha Casa, Minha Vida, com queda de R$ 14 bilhes entre 2015 e 2016.

Alm dos incentivos fiscais, uma grande fonte do desequilbrio fis-cal primrio a Previdncia, objeto de uma proposta de reforma em tramitao no Congresso, que visa restringir as condies de acesso aos benefcios, seja em termos de idade, tempo de contribuio e penses, com regras de transio entre o sistema existente e o novo modelo, de modo que os efeitos fis-cais de eventuais mudanas ainda vo demorar a aparecer. No curto prazo, predomina uma corrida por parte dos possveis beneficirios ao atual sistema e o peso do desem-prego e queda das contribuies das empresas ao sistema, tornando os resultados negativos mais avas-saladores. O dficit da Previdncia aumentou 61%, passando de R$ 95 bilhes em 2015 para R$ 152 bilhes em 2016. A arrecadao lquida teve queda de R$ 22 bi-lhes, ou seja, 5,6%, enquanto os benefcios tiveram aumento de R$ 35 bilhes, ou 7,2%. Pelo lado da receita, houve decrscimo de re-passes do Tesouro em funo da re-verso de alquotas diferenciadas a alguns setores e tambm a reduo de R$ 2,5 bilhes em funo do regime diferenciado do SIMPLES, que corresponde a cerca de 10% da arrecadao das contribuies previdencirias.

1 O Novo Regime Fiscal

A novidade dentro da questo fis-cal foi a aprovao ao final de de-zembro de 2016 da Emenda Cons-titucional 95/2016, que instituiu o chamado Novo Regime Fiscal, que limita as despesas primrias reais da Unio, individualizando cada um dos seus Poderes, Tribunal de Contas, Ministrio Pblico, Defen-soria da Unio e Conselho Nacional da Justia por 20 anos, sendo pos-svel a alterao a partir do dcimo ano de vigncia da Emenda. Em 2017, os valores limites so os va-lores pagos (momento da emisso das Ordens Bancrias) em 2016 atualizados por 7,16%; a partir de 2018, o limite ser o do exerccio anterior, atualizado pela taxa de inflao de 12 meses encerrada em junho do ano anterior sua execu-o.4

Apesar de a Emenda definir um horizonte de 20 anos para o con-gelamento de gastos primrios reais, a partir do dcimo ano o Poder Executivo pode apresentar Lei Complementar para alterar o mtodo de correo dos limites. Ento, pode-se dizer que o limite real de gastos de 10 anos, e no de 20. Resta saber se at l a regra de limite de despesas vai mesmo ser duramente cumprida ou se as presses inerentes sobre os recur-sos pblicos encontraro novas formas criativas de se concretizar. De qualquer modo, a luta pelos re-cursos pblicos deve se intensificar e no est garantida sua melhor

alocao, e sim maior apropriao pelos grupos mais bem representa-dos.5 Por outro lado, sendo a Previ-dncia Pblica uma grande fonte de gastos, sua reforma pode amenizar a expanso do gasto primrio. Con-tudo, h que se notar que no s pela Previdncia que a transfern-cia de recursos ocorre. Uma fonte gigante de transferncias so os in-centivos fiscais e previdencirios. H todo um conjunto de benefcios e regimes tributrios diferencia-dos, que tornam o sistema fiscal muito complexo, oneroso e dis-funcional. Caberia, portanto, uma reordenao completa do sistema fiscal nacional, incluindo a anli-se de cada programa de governo, eventualmente uma poltica de re-cuperao de receita e at a criao de novos impostos. Ver Grfico 1 sobre o desempenho do resultado primrio do governo central desde janeiro de 2010, mostrando que a deteriorao desse indicador pas-sou a ocorrer em meados de 2014, com a recesso se espalhando pela economia.

Enquanto as novas regras fiscais vo ganhando vida e implemen-tao, a recesso continua derru-bando as receitas pblicas; muitos desempregados, que anteriormen-te eram usurios dos servios pri-vados de sade e educao, passam a demandar Estados e Municpios por estes servios pblicos, cau-sando maior presso por gastos nesses tambm comprometidos governos subnacionais. Em decor-rncia de maior exigncia de gastos

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e, em alguns casos, de administraes fiscais irres-ponsveis, v-se a decretao de calamidade pblica em alguns Estados e Municpios, que buscam auxlio financeiro na Unio. A dificuldade que a recesso uma questo premente e as solues que esto sendo desenhadas exigem tempo para produzir algum efeito. Enquanto isso, o desequilbrio primrio continua im-perando e a dvida continua em elevao. Por sorte e muito trabalho de convencimento poltico, h confian-a no Pas, cujos melhores indicadores so a continui-

dade do financiamento pblico mesmo com taxas reais de juros em declnio e tambm entrada de recursos externos para financiar a baixa poupana, especial-mente a despoupana pblica. Melhor assim... por enquanto, porm, a agenda de gerenciamento da ao pblica permanece, destacando-se o relacionamento entre Tesouro e Banco Central, ainda problemtico, e as despesas com juros decorrentes de questes varia-das, especialmente com variaes cambiais e outras.

Grfico 1 Resultado Primrio Real do Governo Central - Jan/2010 - Dez/2016 - R$ Milhes (IPCA)

Fonte: Secretaria do Tesouro Nacional (STN).

1 Em 2016, segundo a Pesquisa Mensal do Comrcio do IBGE, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica, a queda foi de 6,2% no varejo. Mesmo o setor de servios, grande campeo de desempenho nos ltimos anos, apresentou queda de 5% sobre 2015 (Pesquisa Mensal dos Servios).

2 A receita oriunda da repatriao dos recursos do exterior foi repar-tida em cerca de 50% com Estados e Municpios por se tratar de base tributria partilhada, qual seja, o Imposto de Renda.

3 O estoque de Restos a Pagar no incio de 2017 era de R$ 150 bilhes, cerca de 7% do oramento, apesar de nem tudo ainda se tratar de compromissos financeiros a serem pagos, cabendo em muitos ca-sos a verificao da efetiva prestao de servios ou compras. Em todo caso, um conjunto enorme de gastos potenciais que formam um oramento do tipo sombra e que deveria ser objeto de maior transparncia e regramento.

4 Ver Boxe 1 do Relatrio do Tesouro Nacional, janeiro/2017.

5 Note-se que o teto de gastos da EC 95/2016 abrange apenas a Unio, deixando Estados e Municpios de fora. Tambm no abrange as Trans-ferncias Constitucionais relativas s cotas-partes das compensaes financeiras devidas pela explorao de recursos naturais, receitas tributrias partilhadas, crditos extraordinrios em casos de guerra, comoo interna ou calamidade pblica, despesas no recorrentes da Justia Eleitoral para realizao de eleies e aumento de despesas de capital de empresas no dependentes.

(*) Economista e doutora em Economia pela USP.

(E-mail: veramartins2702@gmail.com).

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Setor Externo: Nebulosidade e Turbulncias Frente

Vera Martins da Silva (*)

O resultado atual das contas ex-ternas, analisado sob a tica das Transaes Correntes, um dos principais agregados do Balano de Pagamentos, mostra continui-dade do ajuste externo iniciado no comeo de 2015. Antes disso, o perodo de forte incentivo ao gasto do governo e das famlias no primeiro mandato da presidente Dilma conhecido na rea econ-mica como Nova Matriz Econ-mica havia levado a substancial aumento do dficit em Transaes Correntes, financiado por entradas de recursos externos. A partir do incio de 2015, o sonho, a festa e as eleies acabaram, o partido no poder efetivamente conseguiu a reeleio, mas o Brasil perdeu o grau de investimento, condio ne-cessria para o aporte de recursos

dos grandes fundos de penso es-trangeiros. Alm disso, houve o de-clnio dos preos das commodities e a paralisao das grandes cons-trues e construtoras no mbito da Operao Lava Jato. Os efeitos disso foram a reduo do dinamis-mo da economia, a queda da receita pblica e, a face mais cruel da crise econmica, uma forte queda no emprego e mesmo das atividades informais. Como resultado, as im-portaes tiveram queda em um contexto recessivo e, agora, num novo contexto internacional.

O Grfico 1 mostra a evoluo das Transaes Correntes, em valores mensais desde janeiro de 2014, refletindo o forte ajuste pelo qual passou a economia brasileira no front externo desde o incio de

2015, mas ainda com a presena de dficit em Transaes Correntes: em 2014, o valor mdio mensal do dficit em Transaes Corren-tes era de US$ 8,7 bilhes, caiu para US$ 4,9 bilhes e para US$ 2 bilhes em 2016, ou seja, um forte ajuste forado pela recesso. A Balana Comercial explica boa parte desse ajuste da economia brasileira, o que pode ser visto nos Grficos 2 e 3, onde fica evidente que o bom resultado da Balana Comercial de Bens e Servios a par-tir de 2015 foi principalmente em funo da queda de Importaes de Mercadorias j a partir do final de 2014, quando a queda da atividade econmica passa a se espalhar pela economia.

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fevereiro de 2017

Grfico 1- Transaes Correntes - US Milhes, Jan/2014-Dez/2016

Fonte: Bacen.

Grfico 2 Balana Comercial - Bens e Servios Jan/14 a Dez/16 US$ Milhes

Fonte: Bacen.

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No que se refere aos Servios, o Brasil tem sido sis-tematicamente deficitrio. Mas mesmo nesse caso, o ajuste foi forte, com queda do valor mdio mensal do dficit de US$ 4 bilhes em 2014 para US$ 3 bilhes e US$ 2,5 bilhes em 2015 e 2016. O grande item de des-pesa, neste caso das contas de Servios em Transaes Correntes, so os pagamentos de rendimentos a resi-dentes no exterior, seja pelo pagamento dos rendimen-tos do Investimento Direto no Pas, cuja mdia mensal foi de U$$ 1,8 bilhes em 2016, como o pagamento de juros (Rendimentos de Carteira), que nesse ano teve uma mdia mensal de US$ 1,2 bilhes.

Nesses ltimos anos, tem ocorrido uma mudana na composio das principais fontes de financiamento com relativa estabilidade do Investimento Direto e re-

duo do Investimento em Carteira, especialmente em 2016, quando houve uma sada lquida deste tipo de investimento. Em princpio, isto indica um movimento no sentido de investimentos de prazo mais longo e com menor capacidade de perturbar o mercado cambial. A Tabela 1 apresenta as informaes desses dois tipos de entrada de capitais no Brasil em termos de mdias mensais. O Grfico 4 apresenta os valores mensais do Investimento Direto no Pas e o Investimento em Car-teira, destacando-se a reduo desses valores ao longo de 2016, enquanto as crises poltica e econmica iam se desenrolando. Note-se que os dois tipos de entrada de capital aqui salientados oscilam muito ao longo dos meses, conforme as condies dos vrios mercados e de decises das firmas envolvidas.

Grfico 3 Exportaes e Importaes de Mercadorias Jan/2014 a Dez/2016 US$ Milhes

Fonte: Bacen.

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A questo mais relevante no momento qual o im-pacto da mudana da presidncia americana sobre os diversos mercados internacionais e seu impacto na economia nacional. E a questo to importante quanto o tamanho da economia americana e suas re-laes com o Brasil. A Tabela 2 mostra a participao do investimento estrangeiro no Pas segundo a origem do capital dos principais investidores, desde 2001 at 2016, destacando-se uma queda na importncia relativa dos Estados Unidos, que, contudo, continua sendo individualmente o maior investidor no Brasil. As ideias, e pelo que tudo indica, as aes do presi-

dente americano Trump para impedir que as firmas americanas invistam no exterior e sua disposio para enfrentar uma eventual guerra comercial com a China podem causar um bom estrago nos fluxos de capitais que vm ao Brasil, apesar de vrios sinais de melhoria nas condies econmicas domsticas. No somos o Mxico, mas podemos ser afetados, e muito, pelas polticas americanas. Um ambiente de protecionismo entre as grandes economias tem poder destruidor no desprezvel por aqui, apesar da retrica oficial de v-rios pases de ampliar as relaes comerciais.

Tabela 1 - Principais Fontes de Financiamento Externo Mdia Mensal, 2014/2015/2016 - US$ Milhes

2014 2015 2016

Investimento Estrangeiro Direto 5. 905 5. 081 5. 932 Investimento em Carteira 3. 226 1. 837 -1. 637

Fonte: Balano de Pagamentos, site Bacen, 08/02/2017.

Grfico 4 - Principais Fontes de Financiamento de Transaes Correntes - Jan/2014 a Dez/2016 - US$ Milhes

Fonte: Bacen.

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Tabela 2 - Participao do Investimento Estrangeiro Segundo Origem do Capital - Pases Selecionados (%)

2001 a 2016 2010 a 2016 Estados Unidos 18 15 Pases Baixos 18 19 Luxemburgo 4 11

Fonte: Bacen, site, sries histricas, 08/02/2017.

Para os prximos meses, deve ocorrer ainda uma rela-tiva estabilidade das relaes com os demais parceiros econmicos, dos resultados externos e do cmbio, ou seja, metaforicamente falando, caminhando devagar e com cuidado na neblina. No mdio prazo, contudo, as exportaes brasileiras ainda carecem de melhor infraestrutura, o que dificilmente vai ser revertido no curto e no mdio prazos, e as importaes devem se recuperar medida que a economia domstica voltar a crescer, mas tudo isso num ambiente externo bem mais competitivo. A tendncia para os prximos anos o retorno de maiores dficits em Transaes Corren-tes, mas provavelmente com fontes de financiamento externo mais complicadas. H tambm grande chance de o Brasil passar a um perodo de depreciao cam-bial, o que no um resultado de todo indesejvel, j que a apreciao cambial tem retornado ao cenrio econmico. Isto , depois de um perodo no muito longo de cmbio depreciado, logo aps a perda do grau

de investimento e da crise poltica ligada ao impeach-ment da presidente Dilma, quando se poderia supor que o cmbio teria atingido certo valor de equilbrio, a apreciao voltou com a retomada da confiana no novo governo e a reduo do risco associado ao Pas. Os fluxos para o Brasil devem ser impactados com o novo governo americano que, alm da poltica comer-cial protecionista, deve tambm modificar a poltica monetria em termos de elevao das taxas de juros.

Por sorte, as Reservas esto num nvel alm do con-fortvel para garantir a solvncia do Pas; apesar de, pelo visto, o perodo de enriquecer j ter passado, agora trabalhar para administrar as contas do me-lhor modo possvel. O Grfico 5 apresenta a evoluo das Reservas desde 2000, mostrando que o perodo de acumulao de reservas ocorreu entre meados de 2006 at meados de 2012, seis anos de vacas gordas, agora seguidos de anos difceis. O Grfico 6 mostra a evoluo do ndice de Cmbio Real, calculado pelo Bacen, com base em junho de 1994. Interessante notar que depois de todas as idas e vindas de movimento de capitais e crises variadas, o ndice real voltou ao que era no incio do Plano Real. Resta saber se correspon-de a uma taxa razovel ou no para, alm de manter certa calma no Balano de Pagamentos, tambm pro-porcionar relativa competitividade aos produtores e exportadores.

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fevereiro de 2017

Grfico 5 - Reservas - US$ Milhes - Janeiro/2000 a Dezembro/2016 -

Fonte: Bacen.

Grfico 6 - ndice da Taxa de Cmbio Efetiva Real (IPCA) - Jun/1994=100

Fonte: Bacen.

(*) Economista e doutora pela USP. (E-mail: veramartins2702@gmail.com).

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fevereiro de 2017

Perspectivas da Economia Mundial para o Trinio 2017-20191

Jos Paulo Zeetano Chahad (*)

1 Introduo

Com as recentes publicaes dos relatrios globais do Banco Mun-dial (BM) e do Fundo Monetrio Internacional (FMI), bem como das discusses ocorridas no mbito do Frum Econmico Mundial reali-zado tradicionalmente na cidade sua de Davos, possivel termos um panorama das tendncias da economia mundial para o trinio 2017-2019, de acordo com as con-dies polticas e socioeconmicas hoje vigentes no cenrio interna-cional.2 A expertise dessas institui-es permite-nos acreditar que, se as previses no se comportarem como enunciadas, certamente esta-ro prximas da trajetria traada.

Este texto far uma resenha su-cinta destacando os principais ele-

mentos apresentados em termos da evoluo esperada do PIB global, assim como do nvel de atividade nas principais regies em que so classificados os pases analisados. A seo 2 traz as projees do cres-cimento global; a seo seguinte contm uma apreciao do cenrio do crescimento em termos regio-nais; a seo 4 contempla o que de principal estes relatrios falaram sobre o Brasil e a ltima seo apresenta uma sntese conclusiva.

2 Projees do Crescimento Global

A trajetria do PIB mundial pode ser vista na Tabela 1 a seguir. As projees indicam que haver um ganho modesto de crescimento em relao ao ano de 2016, mas ficar estagnado em torno de uma mdia

de 2,83% ao ano, entre 2017 e 2019. Para o BM o cenrio decor-rente da estagnao do comrcio mundial, aumento das incertezas no mercado quanto s polticas glo-bais e a tibieza dos investimentos em nvel mundial.

A isso adiciona-se agora a clara incerteza com relao aos rumos da economia americana, dada a im-previsibilidade do governo Trump, assim como as idas e vindas na Unio Europeia com relao ao ti-ming e resultados do Brexit.

Nas palavras do Banco Mundial:

A moderate recovery is espect for 2017, with reciding obstacles to activity in commodity exporters and solid domestic demand in comm-

15temas de economia aplicada14 temas de economia aplicada

fevereiro de 2017

modity importers. Weak investi-ment in weighing on medium-term prospects across many emerging markets and developing economies (EMDEs). Although fiscal stimulus in major economies, if implemented, may boost global growth above expectations, risks to growth fore-casts remain tilted to the downside. Important downside risks stem from heightened policy uncentainty in major economies. (World Bank Report, Executive Summary, page xvii).

Tanto o BM quanto o FMI apontam outros elementos que tendem a frear o crescimento global. Entre eles esto:

i. a reviso da poltica de cresci-mento da China e seus impactos sobre os preos das commodities;

ii. ajustamento dos exportadores de commidities decorrente do decl-nio dos termos de troca;

iii. problemas demogrficos nos pa-ses em desenvolvimento;

iv. baixo crecimento da produtivida-de mundial;

v. riscos de crises nos mercados financeiros; e

vi. fatores macroeconmicos im-previsveis, tais como incertezas geopolticas e mesmo polticas.

3 Panorama Regional

3.1 Economias Avanadas

No mbito dessas naes houve uma desacelerao do crescimento em 2016 para 1,6% a.a, enquanto haviam crescido 2,1%, em 2015. Este comportamento decorreu do fraco nvel da demanda domstica, de um baixo nvel de produtividade e, em boa parte, de incertezas po-lticas e institucionais que afligem estes paises.

Para o trinio 2017-2019 espera--se um crescimento modesto, no superando o nvel de 1,8% a.a. Ainda assim, esta recuperao se apresenta de forma declinante nas principais economias avanadas do mundo: Os Estados Unidos decli-naro de 2,2% em 2017, para 1,9% em 2019. A Zona do Euro crescer modestos 1,4% em 2019, e o Japo ficar praticamente estagnado em 0,4% naquele ano.

Estas cifras podem ser afetadas negativamente pelas incertezas da nova administrao norte-ame-ricana e pela conturbada deciso do Reino Unido de deixar a Unio Europeia. Se estes fatos turvarem o horizonte de crescimento ( j fraco) das economias avanadas haver um efeito cascata em toda a economia mundial, dado o peso que representam, tanto no produto quando no comrcio global.

O Banco Mundial enfatiza bastante que o rumo do crescimento glo-bal depende da trajetria do PIB americano. O relatrio lembra que o pas responsvel por 22,0% do PIB global, 12,0% do comrcio mundial, 35,0% das aes negocia-das em bolsas e 11,0% dos crditos bancrios estrangeiros. Assim, Devido dimenso dos EUA na economia mundial, as mudanas no direcionamento das polticas podem ter um efeito cascata. Polticas fis-cais mais expansionistas nos EUA podem conduzir a um crescimento mais slido no pas e em outros em curto prazo, mas mudanas no co-mrcio e outras polticas podem anular esses ganhos.3

Nesse sentido, estas Instituies deixam claro que suas anlises, perspectivas e projees realiza-das no incluem as transformaes que podero advir da eleio do Presidente Donald Trump na eco-nomia americana. Sobre isto, afir-ma taxativamente:

The outcome of the U.S. elections has made macroeconomic projec-tions more uncertain. Proposals for corporate and personal income tax cuts; infrastructure spending; and shifts in trade, immigration, and regulation policies are likely to have sizable on the U.S outlook as well as spillovers on the res of the world (Special Focus). (World Bank Report, chapter 1, page 7).

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O BM aponta para o fato de que, nestas economias avanadas, como as polticas monetrias restriti-vas foram intensificadas, poder caber s polticas fiscais desempe-nhar um importante papel positivo nos rumos dos nveis de atividade neste trinio. Ademais, presses demogrficas afetando a oferta de trabalho e a ocorrncia de nveis fracos de produtividade podero contribuir para abaixar as taxas de retorno do capital, continuando a impor restries de longo prazo s perspectivas de crescimento nas economias avanadas.

Outros aspectos so importantes em moldar a trajetria de cresci-mento das economias avanadas:

a) Embora permanea relativamen-te baixa na Zona do Euro e no Ja-

po, a inflao que vinha apresen-tando trajetria declinante desde 2010 parece ter recrudescido a partir de 2015, especialmente no caso da economia americana. Isto no bom para o ambiente de negcios, podendo levar a mu-danas de polticas visando sua conteno e turvando o ambiente de negcios;

b) A queda no ritmo de crescimen-to da China e a reviso de sua transformao de uma economia industrial para uma sociedade de servios podem implicar cresci-mento mais modesto das expor-taes para este pas por parte das economias avanadas; e

c) No passado, os fluxos de migran-tes para as economias avanadas auxiliavam a aliviar o problema do baixo crescimento demogr-fico. Como eles eram, em geral, pessoas em idade de trabalhar, contribuam positivamente para a atividade econmica. Hoje, po-rm, os enormes fluxos migrat-rios decorrentes de conflitos em inmeras regies do mundo se constituem de famlias inteiras, trabalhadores pouco qualifica-dos, causando impacto pequeno no aumento da oferta de trabalho e muita tenso social, que vira gasto pblico. Isto faz sobrar menos espao para direcionar recursos para os investimentos produtivos.

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Tabela 1 Evoluo do PIB Mundial Segundo Pases e Regies, 2014-2019 (Variao Percentual em Relao ao Ano Anterior)

3.2 Economias Emergentes e em Desenvolvi -mento (EMDEs)

Apesar de revelar, tambm, um crescimento brando, o comportamento das economias emergentes e em desenvolvimento apresentar resultados subs-tancialmente melhores do que aqueles verificados nos

pases avanados. De fato, em 2017 crescero 4,2%, e 4,7% na mdia do perodo 2017-2019. As expectativas so de que o crescimento do EMDEs os leve a contri-buir com 1.6 pontos percentuais do crescimento global a partir de 2017, o que representar cerca de 60,0% do crescimento global pela primeira vez desde 2013.

17temas de economia aplicada16 temas de economia aplicada

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O resultado desse desempenho pode ser observado no Grfico 1, comparando a evoluo das projees do PIB para os pases de economia avanada e PIB dos EMDEs. Parece ntido que, a partir de 2017, a elevao da atividade global responder ao crescimento dos emergentes diante da quase estagnao dos pases desenvolvidos, e isto que promover alguma recupe-rao da economia mundial.

Nota-se, contudo, que duas regies do mundo so as que, praticamente, garantiro haver crescimento no PIB global: O Leste da sia, onde despontam a China e a Indonsia, e o Sul da sia, onde se destacam a ndia (pas que mais crescer nesse perodo) e Bangladesh. A decepo ficar por conta da Amrica Latina e Cari-be, com destaque para o Brasil, e a sia Central e Euro-pa, com a debacle da Rssia e o crescimento moderado da Turquia.

Grfico 1 Economia Mundial: Crescimento Global, 2014/2019 (%)

Mas o horizonte para esses pases pode no ser to tranquilo quanto parece, havendo fatores que podem debilitar essa recuperao, j fraca por sua prpria natureza. Dentre estes, aparecem:

i. necessrio haver uma continuidade do processo de recuperao do preo das commodities;

ii. O prprio desempenho fraco da economia dos Pases Avanados, e seus impactos sobre a retomada do comrcio mundial;

iii. O enfraquecimento do produto potencial dessas na-es emergentes, em decorrncia dos nveis pfios de investimento, seja em capital fsico, seja em capital humano e maior qualificao da mo de obra;

iv. A persistncia de baixos nveis de produtividade dos fatores de produo, em especial o trabalho humano; e

v. Fatores demogrficos pressionando a oferta de tra-balho e debilitando cada vez mais os sistemas de seguridade social.

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4 A Situao do Brasil

4.1 O impacto da Crise Brasilei-ra no Crescimento Mundial

Ambas as instituies, BM e FMI, reconhecem a profunda crise eco-nmica, poltica, social e institucio-nal pela qual passa o Pas. A esti-mativa de queda do PIB para 2016 bastante semelhante: 3,4% (BM) e 3,3%(FMI). Estas cifras revelam um contorno ainda mais dramtico da crise brasileira, pois em 2015 o PIB j havia cado 3,8%.

Este resultado, juntamente com a crise recessiva da Rssia (queda do PIB de 3,7% em 2015, e 0,6% em 2016), acabou por determinar um baixo crescimento do conjunto dos pases exportadores de commodi-ties , bem como funcionou como uma ncora ao desempenho dos BRICs.

No caso dos pases emergentes ex-portadores de commodities assim se manifesta o Banco Mundial, quanto importncia do Brasil nos resultados observados:

Growth in commodity-exporting EMDEs in 2016 was supported by some stabilization in domestic demand, following the contraction in 2015. Private consumption con-tinued to contract in Brazil and Russia, but at a slowing pace as confidance improved. Investiment also contracted again in 2016, espe-cially in Brazil, Colombia and Russia.

More generally, subdued investiment across commodity exporters reflec-ted policy tightening, weakness in extractive sectors, soft growth prospects, political and policy un-certanty, and earlier terms-of-trade shock. ( World Bank Report, chapter 1, page 17).

Outra consequncia da recesso brasileira em 2015/2016, tendo em vista o peso de sua economia na regio, foi a de contribuir para que a Amrica Latina tambm experi-mentasse dois anos sucessivos de recesso. De fato, em 2015 houve queda de 0,6% no nvel de ativi-dade, e em 2016 a queda foi ainda maior, 1,4%.

a) Projees de Crescimen -to para a Economia Bra-sileira

H um reconhecimento dessas Instituies de que o Brasil tem, vagarosamente, recobrado sua confiana, principalmente em con-sequncia do alvio trazido pela diminuio da incerteza poltica. Alm disso, a atividade econmica parece ter chegado ao fundo do poo em decorrncia de choques passados, como realinhamento dos preos administrados, a queda no preo das commodities e a falta de perspectivas para o ajuste das con-tas pblicas (reforma fiscal).

Diante desta melhoria nas expecta-tivas, as projees so de retomada branda do crescimento econmico

brasileiro, bem abaixo do conjun-to dos pases emergentes, abaixo tambm do crescimento dos BRICs, e menor do que o crescimento la-tino-americano. Para 2017, tanto o BM quanto o FMI estimam um crescimento prximo de 0,5%, que, mesmo sendo muito baixo, pelo menos indica reverso do quadro recessivo vivenciado nos ltimos dois anos. Prev-se que tal com-portamento de maior crescimento ocorrer tambm em 2018 (1,8%) e 2019 (2,2%), que, se no auspicio-so, pelo menos alentador.

Alm desse alento da volta do cres-cimento econmico, teremos o retorno de melhorias no mercado de trabalho, pelo menos sob a tica nmerica, ou seja, um possvel aumento da populao ocupada outra forma de dizer que haver gerao de empregos. Quantificar isto precisamente no tarefa fcil, visto envolver outras dimen-ses que a retormada do cresci-mento poder trazer, como por exemplo, maior participao de se-tores menos absorvedores de mo de obra, mudanas organizacionais na rea do trabalho e utilizao de novas tecnologias afetando a utili-zao do trabalho.

Ig norando moment anemente essas dificuldades, possivel dar uma ordem de grandeza da eleva-o esperada na ocupao da mo de obra atravs de um conceito simples e tradicional na rea da Economia do Trabalho: a elasticida-de emprego-produto.4 Ela permite-

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-nos saber qual ser o impacto da variao do produto sobre a gerao do emprego. Como nossa unidade de produto ser o PIB nacional, a varivel emprego ser representada pelo total da populao ocupada.5

A Tabela 2 apresenta sucintamente uma estimativa da evoluo da elasticidade pessoal ocupado-PIB para o perodo 2011/2016.6 Para efeitos de impacto do cres-cimento previsto para o Brasil, observados na Tabela 1, vamos considerar o valor da elasticidade naquele ano em que ela foi a mais alta, 0.73, em 2012. Alm disso, tomaremos como valor do crescimento brasi-leiro no trinio a mdia dos valores apresentados na nesta tabela: 1,5%.

Tabela 2 Brasil: Estimativas da Elasticidade Pessoal Ocupado-PIB; 2011/2016

Ano Populao Ocupada (PO)(em 1.000)

%PO %PIB PO,PIB

2012 89.497 1,4 1,9 0,732013 90.764 1,5 3 0,52014 92.112 0 0,5 02015 92.142 -1,9 -3,8 0,52016 90.384 1 -3,4 -0,29

Fontes: IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domiclios Contnua - PNAD Contnua, Principais destaques da evoluo do mercado de trabalho no Brasil (2012-2016); Banco Central do Brasil.

Se na mdia do perodo ocorrer, de fato, este cresci-mento, dado o valor da elasticidade de 2012, o empre-go dever crescer na mdia do perodo cerca de 1,1%. Tomando-se como parmetro da populao ocupada aquela existente em 2016, de 90,3 milhes de pessoas, teremos um aumento mdio anual de, aproximada-mente, 994 mil trabalhadores. Este valor ainda no supre as necessidades de emprego do mercado de tra-balho brasileiro, tendo em vista as vagas existentes e a taxa de crescimento da fora de trabalho, mas muito contribuira para aliviar as altas taxas de desemprego hoje observadas.

5 Sntese Conclusiva

As projees que mostram a evoluo da atividade econmica mundial para o trinio 2017-2019 revelam um quadro no muito promissor. Ainda que as pre-vises sejam de crescimento, isto ocorrer em nveis muito baixos, tendo mais ares de uma estagnao glo-bal do que uma verdadeira recuperao da economia mundial.

As economias avanadas crescero abaixo da mdia mundial e os pases emergentes e aqueles em desen-volvimento como um todo crescero mais que essa mdia. Apenas alguns poucos pases asiticos como China (ainda que desacelerando), ndia, Bangladesh e Indonsia apresentaram taxas de crescimento relati-vamente altas. Potncias como Japo, Rssia, Brasil e Mxico continuaro numa trajetria lenta de recupe-rao, aps anos de baixo crescimento e recesso.

De uma forma geral, este panorama destaca a neces-sidade de se voltar a ter um crescimento mais forte, visando inclusive, evitar-se o crescimento da desi-gualdade e pobreza, utilizando-se para tal de polticas estruturais que impulsionem a demanda domstica e, principalmente, aes e projetos que revigorem a reto-mada dos investimentos em escala mundial.

No caso das Economias Avanadas, que sofrem fortes tenses sociais derivadas do descontrole dos fluxos migratrios, do ponto de vista econmico, a ocorrn-cia de taxas de juros extremanente baixas, e mesmo negativas, tem constrangido a efetividade das polti-cas monetrias, e acaba por exigir um papel mais forte de polticas fiscais expansionistas.

J para as EMDEs preciso encontrar um equilbrio entre o ajuste fiscal (controle dos gastos pblicos) medidas que reduzem a vulnerabilidade do pas e reformas voltadas para o crescimento, focadas na elevao do nvel do capital humano e da qualidade

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da mo de obra. Outra linha de atuao deve ser investimentos macios em infraestrutura produ-tiva. Nesta direo preciso imple-mentar polticas domsticas com implicaes de longo prazo, como investimentos de longa maturao e forte elevao da produtividade.

Estes pases podem potencializar ainda mais as possibilidades de crescimento econmico por meio de amplos esforos de integra-o internacional, especialmente aqueles voltados para o comrcio de servios. Outro objetivo dos emergentes deve ser o de criar um ambiente institucional que bene-ficie diretamente o investimento estrangeiro direto.

Como uma viso final das proje-es para o crescimento mundial e brasileiro aqui apresentadas, podemos parodiar o famoso refro da clssica msica de Lulu Santos, Assim Caminha a Humanidade: No vamos dizer que est ruim, tam-bm no est to bom assim.

1 Este texto contou com a colaborao da estagiria de pesquisas Thais Harumi Hanai Takeuchi, aluna do curso de graduao em Cincias Econmicas da FEA-USP, a quem coube parte de levantamento bibliogrfico, assim como a elaborao de grficos e ta-belas. Os erros e omisses so de responsa-bilidade do autor.

2 World Bank Group, Global Economic Pros-pects, Weak Investment in uncertain times, Washington, January, 2017; International Monetary Fund, World Economic Outlook subdued demand symptoms and remedies (10/2016), Washington, January, 2017.

3 Palavras de Ayhan Kose, Diretor do Depar-tamento de Perspectivas Econmicas e De-senvolvimento do Banco Mundial (citado no jornal Valor Econmico, pgina A9, quarta-feira, 11 de janeiro de 2017).

4 Ela definida como a variao percentual da elevao do emprego dividida pela variao percentual da variao do produto. Apesar de ser um conceito simples, sua preciso numrica requer estimativas mais sofistica-das do que a aqui apresentada, por meio da utilizao de instrumentos economtricos mais sofisticados e da definio mais precisa das defasagens dos perodos envolvidos. Alm disso, preciso definir sua abrangn-cia, tais como unidade produtiva, ou nvel maior de agregao, bem como outros aspectos como setor ou ramo de atividade. Estamos cientes, portanto, de que o que o experimento que vamos aqui apresentar serve apenas para indicar uma ordem de grandeza do impacto do crescimento do PIB sobre o total da populao ocupada.

5 Nesse caso, se incluem na populao todas as formas de trabalho, seja ele precrio, conta-prpria, domstico, outras formas de informalidade e, claro, o conjunto de trabalhadores absorvidos pelo setor formal da economia.

6 A escolha desse perodo contemplou apenas os anos em que passou a ser publicada a PNAD contnua, a partir de 2012. A variao obtida entre 2011 e 2012 uma estimativa do prprio IBGE (ver fonte na Tabela 2).

(*) Professor Titular (aposentado) da FEA-USP e Pesquisador Snior da FIPE.

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Reformas nos Regimes de Previdncia de Servidores Pblicos Civis na OCDE e PEC 287 no Brasil

Rogrio Nagamine Costanzi (*)

H vrios pases onde existem regi-mes de previdncia especficos para servidores pblicos ou em separado daqueles voltados para os trabalha-dores do setor privado. A separao entre os sistemas de previdncia dos trabalhadores do setor privado e pblico pode ser institucional e/ou nas regras de benefcios. O Brasil se enquadra no caso em que h diferen-a institucional e na regra de benef-cios, embora esteja ocorrendo desde a dcada de 90 um movimento de convergncia entre os regimes, com diminuio das diferenas nas re-gras de benefcios. Do ponto de vista internacional tambm tem ocorrido, em vrios pases, movimentos de maior convergncia entre os siste-mas, havendo casos nos quais os novos servidores passaram a estar totalmente integrados ao mesmo sistema do setor privado.

Como colocado por OCDE (2016), historicamente, servidores pbli-cos foram os primeiros a receber aposentadorias por velhice, depois dos militares. O objetivo de garantir renda para servidores pblicos na velhice tinha como objetivo garantir a independncia e tornar a carreira pblica mais atrativa. Na maioria dos pases da OCDE, certas cate-gorias de trabalhadores no setor

pblico so cobertas por regimes de previdncia independentes, em especial, militares, bombeiros, po-liciais, professores e juzes. Durante as ltimas dcadas, contudo, muitos pases acabaram com esquemas de previdncias especficos para servidores civis e exigiram que os novos servidores passassem para o sistema geral voltado para os traba-lhadores do setor privado.

De todos os pases da OCDE, apenas quatro ainda mantm um esquema inteiramente separado (do ponto de vista institucional e de benef-cios) para servidores civis: Blgica, Frana, Alemanha e Coreia (ver Ta-bela 1). H dez pases que tm um regime integrado do ponto de vista institucional, mas com benefcios adicionais em relao ao setor pri-vado. No caso do Reino Unido, por exemplo, h um pilar ocupacional, que mandatrio para os servido-res pblicos civis e opcional para aqueles do setor privado. Contudo, o que prevalece no mbito da OCDE a igualdade entre os servidores pblicos e trabalhadores do setor privado, havendo 17 pases que no tm nenhum esquema especial em separado e outros quatro que pos-suem separao institucional, mas com benefcios similares.

Os dados entre parnteses que apa-recem na Tabela 1 significam o ano em que os novos servidores pbli-cos passaram a no ser cobertos por um sistema separado e passaram a ter um regime totalmente integrado com o setor privado ou integrado com benefcios adicionais. Aqueles pases onde no h nenhuma data associada que esto na referida categoria no mnimo h 35 anos.

Em vrios pases, os regimes de previdncia dos servidores civis esto em um perodo de transio no qual os novos entrantes esto em um novo sistema e aqueles ser-vidores mais antigos permanecem em um esquema antigo e separado. Um exemplo dessa situao a Grcia, onde apenas os servidores pblicos que entraram a partir de 2011 esto totalmente integrados com o setor privado. Essa mesma transio se aplica a vrios pases como Israel, Itlia, Japo, Portugal, Espanha, Turquia e Nova Zelndia. ustria, Irlanda e Estados Uni-dos costumavam manter regimes separados, mas agora possuem regimes integrados, mas com um componente ocupacional que serve como um benefcio adicional para os servidores pblicos.

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Tabela 1 Arranjos Institucionais Previdncia Servidores Pblicos Civis x Trabalhadores do Setor Privado OCDE e Brasil

Arranjo Institucional Totalmente Integrado Institucional e Benefcios

SeparadoInstitucionalmente mas com

benefcios similares

Totalmente Integrado mas com benefcios

adicionais

Inteiramente separado institucionalmente e nas

regras de benefcios

Pases 1 Chile (1981);2 Repblica Tcheca;3 Estnia;4 Grcia (2011);5 Hungria;6 Israel (2002);7 Itlia (1995/2008);8 Japo (2015);9 Letnia;10 Nova Zelndia (2007);11 Polnia;12 Portugal (2006);13 Repblica Eslovquia;14 Eslovnia;15 Espanha (2011);16 Sua;17 Turquia (2006)

Finlndia (1995)Luxemburgo (1999)HolandaSucia

Austrliaustria (2004,2009)CanadDinamarcaIslndiaIrlanda (1995)Mxico (2007)NoruegaReino UnidoEstados Unidos (1984)

BlgicaFranaAlemanhaCoreia

Fonte: OCDE (2016). Os anos entre parnteses correspondem aos anos em que os novos servidores pblicos passaram a ser regidos por novas regras ou mesmo passaram a ter as mesmas regras e regimes do setor privado. Para aqueles pases totalmente onde no aparecem datas, prevalece a categoria por no mnimo 35 anos.

Nos ltimos 20 anos, as regras previdencirias mu-daram virtualmente em todos os pases da OCDE, com alteraes que incluem aumento da idade de aposentadoria, aumento das contribuies e reduo da taxa de reposio, entre outras mudanas. Para os servidores civis, conforme colocado por OECD (2016), tambm houve vrias reformas: elevao da idade legal de aposentadoria (14 pases), aumento das res-tries para a aposentadoria antecipada (12 pases), reduo no valor dos benefcios ou incremento no tempo de contribuio exigido (11 pases), aumento das contribuies (13 pases) e integrao/alinha-

mento com o esquema geral (11 pases), como pode ser visto pelo Quadro 1. Esses dados deixam claro que no apenas a previdncia dos trabalhadores do setor privado passou por profundas reformas desde a dca-da de 90, como tambm houve mudanas expressivas para os servidores pblicos civis. Portanto, mesmos pases que ainda mantm um esquema separado entre servidores e trabalhadores do setor privado tambm passaram por reformas, ou seja, embora a maior con-vergncia ou integrao com o setor privado seja uma tendncia, no foi a nica direo que as reformas seguiram.

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Quadro 1 Reformas dos Servidores Pblicos Civis - OCDE

Reforma Pases

Aumento da idade de aposentadoria 14 pases ustria, Blgica, Canad, Dinamarca, Finlndia, Frana, Alemanha, Itlia, Japo, Coreia, Portugal, Espanha, Sucia, Reino Unido

Restrio para aposentadoria antecipada 12 pases ustria, Austrlia, Blgica, Canad, Finlndia, Alemanha, Itlia, Coreia, Portugal, Espanha, Sucia e Reino UnidoReduo da generosidade dos benefcios ou aumento do tempo de contribuio 11 pases

ustria, Finlndia, Frana, Alemanha, Grcia, Islndia, Coreia, Noruega, Portugal, Espanha, Reino Unido

Aumento das contribuies 13 pases ustria, Canad, Finlndia, Frana, Grcia, Israel, Itlia, Japo, Coreia, Holanda, Portugal, Sucia, Reino Unido

Integrao / Alinhamento com regime geral 11 pases ustria, Canad, Grcia, Israel, Itlia, Japo, Luxemburgo, Nova Zelndia, Portugal, Espanha, Turquia

Fonte: OCDE (2016)

De forma muito resumida, podem ser citadas as seguintes mudanas:

Integrao ou alinhamento com setor privado: na ustria, os ser-vidores civis tinham um esquema em separado at 2004, sendo que aqueles que entraram a partir de 1 de janeiro de 2005 so cober-tos pelo mesmo regime do setor privado com benefcios adicionais; na Grcia, at 2011, os servidores tinham um regime de previdncia em separado, mas a partir daquela data passaram a estar integrados com setor privado; Irlanda tinha regime para os servidores em se-parado at 1995; O esquema em separado para servidores pblicos em Israel foi fechado em 2002 e na Itlia em 1995.

Aumento das restries para apo-sentadoria antecipada: no caso da Blgica, embora ainda exista um sistema em separado, as restries para a aposentadoria antecipada do setor privado tambm afetaram

a previdncia dos servidores p-blicos.

Aumento da contribuio: no Cana-d, houve aumento das alquotas de contribuio em 2012; na Frana, a contribuio dos empregados pblicos ir aumentar de 9,54%, em 2015, para 11,1% em janeiro de 2020; na Coreia, aps sucessivas reformas em 1995, 2000, 2009 e 2015, as contribuies se elevaram de 3,6% para um patamar progra-mado de 9%; no Reino Unido, aps a reforma de 2002, as contribui-es dos empregados novos en-trantes cresceu de 1,5% para 3,5%.

Aumento da idade de aposentado-ria: na Blgica, o aumento da idade de aposentadoria ser para 66 anos at 2025 e para 67 anos at 2030, de forma similar ao que ir ocorrer para o setor privado; na Finlndia, a idade de aposentadoria ir subir de 63 anos, em 2017, para 65 anos em 2025 e, depois dessa data, pas-sar a ser ligada expectativa de

vida; na Alemanha, de forma simi-lar ao que est ocorrendo no setor privado, a idade legal de aposenta-doria est aumentando de 65 para 67 anos at 2029; na Coreia, a idade foi aumentada para 65 anos.

H pases em que, h vrias dca-das, o sistema pblico est total-mente integrado com o privado, como Repblica Tcheca, Estnia, Hungria e Chile desde 1981. Tra-zendo a discusso das reformas dos regimes de previdncia dos servidores pblicos na OCDE para o contexto atual brasileiro, de proposta de uma ampla reforma cristalizada na PEC 287/2016, a descrio anterior mostra que a referida proposta brasileira est na direo correta de um maior alinhamento das regras dos estatu-trios e dos trabalhadores do setor privado. Alm disso, a comparao internacional entre a despesa no Brasil com os Regimes Prprios de Previdncia dos Servidores P-blicos (RPPS) com o nvel de gasto

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prevalecente no mbito da OCDE refora a tese que o pas que tem um gasto muito acima da mdia e do que seria esperado em rela-o a nosso padro demogrfico. Como pode ser visto pelo Grfico 1, enquanto a mdia da despesa com previdncia dos servidores pblicos civis (e, portanto, exclu-dos os militares) ficou em torno de 1,4% do PIB para 17 pases da

OCDE, no ano de 2013 (e no Brasil, tambm em 2013), a despesa foi de 3,3% do PIB, excludos os militares do governo federal. Embora este tipo de comparao internacional seja muito complexo, em funo da dificuldade metodolgica para torn-la o mais homognea poss-vel (o dado Frana inclui militares; no caso brasileiro, foram excludos apenas os militares do governo fe-

deral; h pases que esto em tran-sio de esquemas em separado para totalmente integrado), o dado deixa claro que o Brasil tem uma despesa acima da mdia mesmo de pases desenvolvidos, entre outros fatores, pelo elevado valor mdio dos benefcios decorrentes de regras anteriores que geraram e ainda geram distores, como a paridade.

Grfico 1 Despesa com Regimes de Previdncia de Servidores Pblicos em % do PIB OCDE e Brasil - 2013

0,2 0,3

0,8 0,8 0,91,0 1,1

1,3 1,3 1,41,5 1,5

2,1 2,1 2,22,3

2,6

1,4

3,3

0,0

0,5

1,0

1,5

2,0

2,5

3,0

3,5

Em %

do PI

B

Pas

Despesa Regimes de Previdncia dosServidores Pblicos Civis em % do PIB

Fonte: OCDE (2016) e para o Brasil elaborado a partir de informaes do Ministrio da Fazenda e do IBGE

Embora, no Brasil, desde a refor-ma de 1998, passando pela re-forma de 2003 e pela instituio da previdncia complementar na Unio em 2012/2013, venha ocorrendo um processo de maior convergncia entre as regras de previdncia dos servidores p-blicos e dos trabalhadores do setor privado, ainda h um gran-de desequilbrio atuarial que

exige uma nova reforma, que atendida pela PEC 287/2016. De forma similar ao que ocorreu nas reformas da OCDE, esse proces-so de convergncia foi bastante positivo em termos fiscais, de equidade entre servidores pbli-cos e trabalhadores do setor pri-vado e na distribuio de renda. A proposta de reforma da PEC 287/2016 tambm muito positi-

va, pois aumenta a idade mnima nos RPPS para 65 anos, assim como para o INSS, com transio. A PEC 287/2016 tambm prope igualar a idade entre homens e mulheres, algo que importante tendo em vista que dois em cada trs estatutrios no Brasil so mulheres. Tambm importante o fim das aposentadorias espe-ciais dos professores que repre-

25temas de economia aplicada24 temas de economia aplicada

fevereiro de 2017

sentam uma parcela relevante dos servidores e se aposentam de forma precoce (55 anos e 30 anos de contribuio para homens e 50 anos e 25 anos de contribuio para mulheres), mudanas nas regras de aposentadoria especial, na forma de clculo dos benef-cios, entre outras medidas.

Uma medida muito importante, proposta pela PEC 287, tornar obrigatria a instituio de pre-vidncia complementar em um perodo de dois anos, que impli-ca que novos servidores tero o mesmo teto que os trabalhado-res do setor privado ou do INSS ou do Regime Geral de Previdn-cia Social (RGPS), com impactos positivos do ponto de vista fiscal, de equidade e distributivo. Em-bora a Unio j tenha institudo a previdncia complementar em 2012/2013, apenas algumas Uni-dades da Federao tambm o fizeram e a maior parte dos RPPS ainda no instituiu a previdncia complementar. Claro, entretan-to, que a importncia da medida depende do volume de servidores que ganham acima do teto do INSS/RGPS e, por este critrio, o

mais importante era o ajuste no governo federal.

De qualquer forma, o Brasil um pas que tem uma despesa com RPPS muito acima do esperado na comparao internacional, em funo de valores mdios de be-nefcio elevados, devido a regras inadequadas como, por exemplo, paridade e integralidade, que precisam ser revistas conforme proposto pela PEC 287/2016. A PEC 287/2016 prope a retirada da paridade para servidores que, mesmo tendo entrado no servio pblico antes de 2003, tm idade inferior a 50 anos no caso dos ho-mens e 45 anos no caso das mu-lheres. A reforma da previdncia, tanto nos RPPS como no RGPS/INSS, fundamental para garan-tir a sustentabilidade a mdio e longo prazos e evitar um custo insustentvel para as geraes futuras.

Referncia

OCDE. Pensions Outlook 2016. Civil service pensions: toward a unified system with the private sector, p. 155-179, 2016.

(*) Mestre em Economia pelo IPE/USP e em Direo e Gesto de Sistemas de Seguridade Social pela Universidade de Alcal/Espanha

e pela Organizao Ibero-americana de Seguridade Social (OISS). O autor teve pas-

sagens pelo Ministrio da Previdncia Social (assessor especial do Ministro, Diretor do

Departamento do RGPS e Coordenador-Geral de Estudos Previdencirios), Ministrio do Trabalho e Emprego (assessor especial do

Ministro e Coordenador-Geral de Emprego e Renda), Ministrio do Desenvolvimento Social, IPEA e OIT. Foi membro do Conselho Nacional

de Previdncia Social (CNPS), do Conselho Deliberativo do Fundo de Amparo ao Traba-lhador (CODEFAT) e do Conselho Nacional dos Direitos do Idoso (CNDI). Ganhador do Prmio Interamericano de Proteo Social

(2 lugar) da Conferencia Interamericana de Seguridad Social (CISS) em 2015 e do Prmio

SOF de Monografia (2 lugar) do Ministrio do Planejamento/ESAF em 2016. (E-mail:

rogrio.costanzi@uol.com.br).

27temas de economia aplicada26 temas de economia aplicada

fevereiro de 2017

Democracia, Rent-Seeking e Aumento do Tamanho do Governo no Brasil

Elson Rodrigo de Souza Santos (*)

1 Introduo

A proposta do artigo explorar os fundamentos da interao entre democracia, rent-seeking e tama-nho do governo no Brasil. Para isso, tomamos como base o choque provocado pela abertura poltica na metade da dcada de 1980 e que foi consolidada pela Constituio Federal de 1988. Nesse sentido, a Constituio Federal de 1988 pos-sui como importncia representar um indicador de mudanas nas preferncias e na ideologia da so-ciedade, impulsionando alterao no posicionamento no Estado. O reposicionamento do Estado pode ser encarado como uma mudana no contrato social, cujo efeito foi indicar a transio de um modelo de elevada desigualdade/baixa dis-tribuio para baixa desigualdade/elevada distribuio (ver ALSTON et al., 2012; 2008; PESSA, 2011). Ao mesmo tempo, os grupos de interesse buscaram defender seus privilgios ao entravar aprovao de temas durante a Constituinte e nas reformas posteriores, espe-cialmente em relao a tributao, eficincia de gasto e estrutura de Estado. Portanto, o aumento do tamanho do governo foi impulsio-nado, de um lado, pela necessidade

de maior oferta de bens pblicos e redistribuio, de outro, na acomo-dao de grupos de interesse pelo acesso aos recursos oramentrios e benefcios tributrios.

As caractersticas verificadas no Brasil podem ser identif icadas em outros pases em desenvolvi-mento e novas democracias, espe-cialmente na Amrica Latina (ver TANZI, 2011; GUPTA, 2007). Dessa forma, o maior tamanho do gover-no impulsionado pela necessida-de de elevar a oferta e viabilizar a universalizao do acesso aos bens pblicos (sade, educao, segu-ridade social, por exemplo) como forma de responder s demandas oriundas da redemocratizao (ver ACEMOGLU et al., 2013). Ao mesmo tempo, a fragilidade institucional e a democracia no consolidada contribuem para a dificuldade na definio dos direitos (proprie-dade, polticos e civis) e adminis-trao de conflitos (ver MUKAND; RODRIK, 2015; PROFETA; PUGLISI; SCABROSETTI, 2013; BRENDER; DRAZEN, 2007). Dessa forma, o aumento do tamanho do governo pode ser lido como resultado da necessidade de responder s de-mandas da sociedade e, em para-

lelo, a manuteno de privilgios e rent-seeking.

2 Democracia, Rent-Seeking e Au-mento do Tamanho do Governo

A Constituio Federal de 1988 consolidou as mudanas oriundas do movimento de abertura poltica e transio para maior participa-o do governo na economia. As evidncias estilizadas sugerem crescimento na participao do consumo final da administrao pblica sobre o produto nacional aps a Constituio. Os dados in-dicam que entre 1947 e a dcada de 1980 o consumo final da admi-nistrao pblica tinha uma par-ticipao estvel entre 10% e 15% do produto nacional, cujos valores menores ocorreram na dcada de 1970, quando se mantiveram pr-ximo de 10%. Na medida em que a abertura poltica ocorreu nos anos 1980s, verif icada na campanha Diretas J e na Constituinte, os governos civis passaram a elevar o consumo final. Dessa forma, entre 1985 e 1995, foi observado um au-mento de cerca de 15% na partici-pao do consumo da administra-o pblica em relao ao produto, sustentando uma tendncia de aumento na dcada de 2000.

27temas de economia aplicada26 temas de economia aplicada

fevereiro de 2017

Grfico 1 Consumo de Bens Finais da Administrao Pblica: 1947-2013 (em % PIB)

Fonte: IBGE e IPEA, grfico elaborado pelo autor.

A redemocratizao apresentou falhas e distores, especialmente oriundas da dificuldade do rede-senho do papel do Estado, acomo-dao do conflito de interesses e na defesa dos direitos. Portanto, a democracia brasileira que emergiu da abertura poltica pode ser ca-racterizada como uma democracia eleitoral que possui sufrgio uni-versal, mas que apresenta dificul-dades em evitar o aparelhamento do Estado por grupos de interesse (ver MUKAND; RODRIK, 2015; ACE-MOGLU et al., 2013). Dessa forma, ocorreram efeitos negativos sobre tributao e gasto, maior possibi-lidade de ineficincias, contribuin-do para a reduo do potencial de crescimento, produtividade e bem-estar (PESSA, 2011). Assim, sugere-se que, de um lado, existe um vis de um Estado mais com-prometido com a redistribuio e,

de outro, uma dificuldade em como acomodar esse novo direciona-mento dentro dos limites fiscais e conflitos de interesses.

As distores permitem o apare-lhamento de Estado e preservao de atividades no competitivas, acomodando grupos de interesses mais bem relacionados com o setor pblico, cujo propsito est em manter seus privilgios. A articula-o dos mecanismos rent-seeking na economia brasileira est basea-da em: sistema tributrio regres-sivo e complexo; direcionamento e composio da despesa; preserva-o de uma estrutura parafiscal; e diversas formas de protecionismo. Estes elementos so inspirados na classificao proposta por Lisboa e Lafit (2013).

A estrutura tributria favorece concetrao de renda, especial-mente baseada na regressividade e na complexidade. A regressividade ref lete preservao das carac-tersticas do sistema tributrio em enfatizar os impostos indire-tos que incidem sobre produo e consumo como forma de elevar receita. Dessa forma, os agentes possuem dificuldades em verifi-car o real custo do setor pblico, como a carga tributria distribu-da e quais parcelas da sociedade so mais afetadas. A complexida-de permite que os agentes mais bem relacionados e assessorados tenham condies de arcar com menor carga tributria, postergar pagamentos de impostos, dificultar fiscalizao e eventual punio.1

A maior participao da despesa do governo pode ser vista como forma

29temas de economia aplicada28 temas de economia aplicada

fevereiro de 2017

de atender s demandas de uma sociedade democrtica por maior acesso aos bens pblicos. No entan-to, o maior gasto pode sofrer dois problemas: i) direcionamento para grupos mais bem relacionados ao poder pblico; ii) baixa qualidade e eficincia.

No primeiro caso, os grupos mais bem relacionados ao governo (em-presariais ou sindicatos do fun-cionalismo pblico, por exemplo) utilizam o Estado como forma de obter recursos da sociedade e, ao mesmo tempo, legitimar sua atuao. Nesse sentido, no caso do Brasil, podemos citar o crdito subsidiado oriundo de instituies pblicas (BNDES, BB e CEF, por exemplo), cujo foco nas grandes empresas justificado como forma de fortalecimento da indstria nacional. O problema que essas firmas tendem a no necessitar de crdito subsidiado na medida em que so de baixo risco e possuem tamanho suficiente para buscar re-cursos no mercado financeiro local e internacional. Dessa forma, o subsdio de crdito contribui para distorcer o funcionamento do mer-cado financeiro, alocao de fundos e comportamento dos agentes (ver DE BOLLE, 2015).Adicionalmente, as firmas escolhidas tendem a ser aquelas mais bem relacionadas aos polticos e burocracia esta-tal, contribuindo para reduzir a competio e evitar a entrada de novos concorrentes nacionais ou estrangeiros (ver LAZZARINI & MUSACCHIO, 2012). Outros grupos

que podem ser citados so elites do funcionalismo pblico nos nveis federal e estadual que conseguem barganhar aumentos salariais, benefcios e condies de carreira melhores do que na iniciativa pri-vada e de outras parcelas do fun-cionalismo.

A baixa qualidade e eficincia do gasto consiste em como incre-mentos de recursos impactam no fornecimento de bens pblicos. Na comparao internacional, os resultados sugerem que o gasto pblico no Brasil pouco produti-vo em relao aos padres inter-nacionais verificados em pases desenvolvidos e em desenvolvi-mento (BENCIO; RODOPAULOS; BARDELLA, 2015). Dessa forma, mesmo que o objetivo seja claro como aumentar o acesso aos bens pblicos, o aumento de gasto pode no ser suficiente para atingi-lo ou que o objetivo seja perseguido de forma ineficiente, aumentando a demanda por recursos, mas tendo baixo efeito sobre o resultado final e impacto sobre o bem-estar da sociedade. Nesse sentido, Mattos e Terra (2015) citam a possibilidade de grupos de interesse contribu-rem para o foco dos gastos em reas que no seriam prioridade ou no gerariam maior bem-estar social como, por exemplo, sade e educao. Na sade, o gasto pode ser direcionado para hospitais em reas ricas que desenvolvem pesquisas e atendimento de alta complexidade em detrimento do cuidado mdico preventivo e pos-

tos de sade afastados em regies mais pobres. Na educao, o gasto pode priorizar o ensino superior voltado para alunos de maior poder aquisitivo em detrimento do ensi-no bsico e profissionalizante. Em ambos os casos, certos grupos so beneficiados com a elevao de seu bem-estar, especialmente os de maior renda, mas no mbito geral apresentam um impacto menor sobre o restante da sociedade.

A estrutura parafiscal foi apri-morada e fortalecida durante o governo militar, permanecendo ativa por exemplo, FGTS, Sistema S, sindicatos de trabalhadores, pa-tronais e classes, fundos de penso das estatais. Essas estruturas so capazes de criar e obrigar a coleta de taxas de indivduos e firmas que so transferidos para os grupos de interesse que dominam a entidade, mas que no esto submetidos ao oramento. Por exemplo, o Sis-tema S captou 0,3% e o FGTS foi 1,7% do PIB em 2010 (ver AFONSO; SOARES; CASTRO, 2013). Dessa forma, as estruturas constituem instrumentos legais de captao de recursos outorgadados pelo Estado, mas que esto fora do con-trole direto dos eleitores sobre a definio das contribuies e alo-cao dos recursos. Alm disso, os recursos (FGTS e fundos de penso de estatais, principalmente) podem ser utilizados como extenses da poltica econmica e aes do go-verno, potencialmente permissi-vos para diferecionamentos que prejudiquem os trabalhadores,

29temas de economia aplicada28 temas de economia aplicada

fevereiro de 2017

mas justificados como uma opo estratgica.

O protecionismo se manifesta de duas formas. A primeira, relacio-nada proteo de setores espec-ficos atravs de elevadas tarifas de importao e barreiras no tarif-rias, podendo levar inviabiliza-o do acesso dos bens e servios estrangeiros ao mercado interno. Portanto, as empresas nacionais ou estrangeiras que mantenham plantas produtivas no Brasil se beneficiam da reduo da com-petio proveniente do exterior, apresentando maior espao para praticarem preos mais elevados e reduo de custos que penalizem a qualidade do bem ou servio. A segunda consiste em medidas de poltica industrial e de compras pblicas que propositadamente foram decises que implicam a reduo da competitividade e qua-lidade, somadas ao aumento de custos, sem refletir em inovao e novas tecnologias. Assim, existe uma resistncia na abertura para competio externa e integrao das cadeias produtivas globais (ver CANUTO; FLEISCHHAKER; SCHELLEKENS, 2015; CANUTO; CAVALLARI; REIS, 2013)

Por exemplo, a Lei das Licitaes (n 8.666/1993) e alteraes pos-teriores preveem uma proteo concorrncia de empresas estran-geiras como (...) 8 As margens de preferncia por produto, ser-vio, grupo de produtos ou grupo de servios, a que se referem os

5 e 7, sero definidas pelo Poder Executivo federal, no podendo a soma delas ultrapassar o mon-tante de 25% (vinte e cinco por cento) sobre o preo dos produtos manufaturados e servios estran-geiros (...). Alm disso, incluem critrios subjetivos como gerao de emprego e renda, efeito na ar-recadao, desenvolvimento de tecnologias e inovao realizado no pas. Dessa forma, as empresas estrangeiras so obrigadas a se as-sociar s nacionais para participar de licitaes e, ao mesmo tempo, os concorrentes nacionais podem propositadamente calibrar preos maiores sem o risco de perder a concorrncia. Outro exemplo: a uti-lizao da obrigatoriedade de mon-tagem local e contedo mnimo nacional como verificado no setor petrolfero, nos programas Inova-rAuto para indstria automobils-tica e Programa de Sustentao de Investimento (PSI) justificados como incentivo ao investimento, produtividade e inovao.

Os mecanismos presentes no fun-cionamento da democracia brasi-leira buscam conciliar no aumento do tamanho do governo o maior acesso aos bens pblicos, preser-var privilgios e favorecimento aos grupos de interesse mais bem rela-cionados com o setor pblico. Por-tanto, verificamos que o aumento do tamanho do governo no re-fletido necessariamente na maior eficincia e qualidade do gasto ou que ocorre o direcionamento para elevar o provimento de bens pbli-

cos e melhorar a redistribuio. Ao mesmo tempo, o aumento do tama-nho do governo serve como forma de minimizar o conflito de interes-ses e obscurecer o real custo do Estado e os benefcios gerados.

3 C onsideraes Finais

A proposta do artigo foi explorar os fundamentos da interao entre democracia, rent-seeking e tama-nho do governo. O ponto central foi argumentar que existem distor-es presentes no funcionamento da democracia, cujo impacto pode ser observado no aumento do ta-manho do governo, refletindo em maior participao da receita e despesa em relao ao produto. No entanto, este aumento no implica necessariamente em maior oferta de bens pblicos e redistribuio na medida em que so parcialmen-te neutralizados por grupos de interesse que entravam reformas e buscam defender seus privilgios. Dessa forma, existe uma economia poltica fundamentada na fragili-dade institucional e da democracia que dificulta a real implementao da proposta presente na Constitui-o Federal de 1988.

Referncias

ACEMOGLU, D. et al. Democracy, redistribu-tion and inequality. NBER Working Paper, n. 19.746, dez. 2013. Disponvel em: . Acesso em: 21 jun. 2015.

31temas de economia aplicada30 temas de economia aplicada

fevereiro de 2017

AFONSO, J. R. R.; SOARES, J. M.; CASTRO, K. P. Avaliao da estrutura e do desempenho do sistema triburrio brasileiro: livro branco da tributao brasileira. BID - Banco Interamericano de Desenvolvimento, jan. 2013 (Documento para Discusso IDB-DP-265)

ALSTON, L. J. et al. On the road to good gov-ernance: recovering from economic and political shocks in Brazil. In: STEIN, E. et al. The policymaking in Latin America: how politics shapes policies. Cambridge: Har-vard University Press, 2008. p. 111-153.

______. Changing social contracts: beliefs and dissipative inclusion in Brazil. NBER Working Paper, n. 18588, dez. 2012. Dis-ponvel em: . Acesso em: 20 jan. 2016.

BENCIO, A. P.; RODOPAULOS, F. M. A.; BARDELLA, F. P. Um retrato do gasto pblico no Brasil: por que se busca a eficincia. In: BOUERI, R.; ROCHA, F.; RO-DOPOULOS, F. Avaliao da qualidade do gasto pblico e mensurao da eficincia. Braslia: Secretaria do Tesouro Nacional, 2015. p. 19-50.

BRENDER, A.; DRAZEN, A. Why is economic policy different in new democracies? Af-feting attitudes about democracy. NBER Working Paper, n. 13457, out. 2007.

CANUTO, O.; CAVALLARI, M.; REIS, J. G. The Brazilian competitiveness cliff. The Word Bank - Economic Premise, n. 105, fev. 2013.

CANUTO, O.; FLEISCHHAKER, C.; SCHELLEK-ENS, P. The curious case of Brazils closed-ness. World Bank, Policy Research Working Paper, abr. 2015.

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GUPTA, A. S. Determinants of tax revenue ef-forts in developing countries. IMF Working paper, n. WP07/184, 2007. Disponvel em: . Acesso em: 21 set. 2015.

LAZZARINI, S.; MUSACCHIO, A. Leviathan in business: varieties of stata capitalism and their implications for economic perfor-mance. Harvard Business School, 2011.

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PESSA, S. D. A. O contrato social da redemo-cratizao. In: BACHA, E.; SCHWARTZ-

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TANZI, V. Government versus markets: the changing economic role of the state. Cam-bridge: Cambridge University Press, 2011.

1 Ver comparao internacional Doing Business < http://www.doingbusi-ness.org/data/exploreeconomies/brazil/#paying-taxes > sobre custo e tempo dispendido para pagamento de impostos pelas firmas.

(*) Doutorando em economia pela Universi-dade de So Paulo. (E-mail: elson129@usp.br

ou elson129@gmail.com).

31temas de economia aplicada30 temas de economia aplicada

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Entendendo a Renegociao das Dvidas Estaduais com a Unio

Guilherme Tinoco de Lima Horta (*)

1 Introduo

Os Estados brasileiros vivem uma grave crise que se intensificou a partir de 2015, aps anos de rela-tiva tranquilidade financeira. Tal crise ocorreu, em grande parte, devido ao aumento de despesas nos ltimos anos, sobretudo com pes-soal, como mostrado em Tesouro Nacional (2016). Em um primeiro momento, tais despesas foram viabilizadas pelo aumento de re-ceita e tambm de endividamento. Contudo, num segundo momento, a arrecadao parou de subir, prin-cipalmente quando a economia entrou em recesso.

O que se v nos ltimos meses, portanto, so alguns Estados com problemas serssimos de caixa, com salrios atrasados e servios pblicos reduzidos. A situao preocupante tanto a curto quanto a longo prazo, j que, assim como a Unio, os Estados tambm vislum-bram um dficit crescente em seus regimes de previdncia.

Uma das despesas relevantes que recaem sobre os Estados a cada exerccio diz respeito aos juros da dvida destes com a Unio. Grande parte desta dvida tem origem no fim da dcada de 90, a partir de um

acordo da Unio com 25 Estados, e implicava uma despesa financeira anual de IGP-DI mais uma taxa fixa (de 6% a 9% a.a.) sobre o estoque1. Segundo Tesouro Nacional (2016), este gasto correspondeu a R$ 37,3 bilhes em 2015, aproximadamen-te 6,6% da Receita Lquida dos Es-tados naquele ano.

H alguns anos os Estados passa-ram a questionar os indexadores utilizados na correo desta dvi-da, procurando obter uma rene-gociao que lhes fosse vantajosa. O pleito se intensificou a partir de 2014, e, desde ento, os envolvidos tentam uma soluo definitiva para o problema. Ao longo de 2016, com o aprofundamento da crise dos Es-tados, este pleito se juntou a outras demandas Unio de diferentes formas de apoio por parte dos Es-tados, como nova renegociao das dvidas.

O noticirio recente reporta uma srie de acontecimentos (pactos, reunies, impasses), alm de in-tensa atividade legislativa, o que muitas vezes confunde o grande pblico. O objetivo desta nota , justamente, possibilitar melhor en-tendimento do problema. Para isso, busca-se fazer um breve histrico dos diferentes processos de rene-

gociao das dvidas estaduais com a Unio, bem como mostrar quais as outras possveis formas de apoio que esto em negociao.

2 Antecedentes

A maior parte da dvida dos Estados com a Unio tem origem no fim da dcada de 90, a partir de um acordo da Unio com 25 Estados (excees so AP e TO), quando o governo fe-deral assumiu dvidas dos governos regionais com seus credores origi-nais. Pelo acordo fechado em 1997, o indexador da dvida com a Unio seria o IGP-DI mais uma taxa fixa (6% a 9% a.a.).

Tal acordo vem sendo avaliado como bem-sucedido por diversos autores (por exemplo, MENDES, 2012). Na-quela poca, a maioria dos Estados apresentava um quadro financeiro muito grave: elevadas dvidas e taxas de juros, com rolagem praticamente diria. O acordo possibilitou aos Estados ter uma dvida com taxa de juros mais baixa e um prazo bem mais longo. Para a Unio tambm foi um acordo positivo, pois ela pde impor aos entes um programa de ajuste fiscal, controlando seus dfi-cits e ajudando na gerao de supe-rvit primrio. Esse acordo foi um dos pilares da relativa tranquilidade

33temas de economia aplicada32 temas de economia aplicada

fevereiro de 2017

fiscal pela qual passou o Pas nos anos 2000.

A partir de 2012, os Estados passa-ram a questionar mais incisivamente o indexador utilizado naquele acor-do, procurando estabelecer novo processo de renegociao de dvida. Embora a taxa de juros estabelecida nos contratos em 1997 fosse mais baixa que as taxas de mercado da poca, configurando um acordo favo-rvel para os Estados, com o passar dos anos essa relao se inverteu, de maneira a tornar bastante custosa a correo das dvidas estaduais.

Este movimento culminou com a aprovao da Lei Complementar 148/2014, sancionada em novembro de 2014, que autorizava a mudana do indexador para IPCA + 4% a.a., limitado pela taxa Selic retroativo a janeiro de 2013. Ademais, para o pe-rodo anterior a 2013, haveria a troca do indexador original pela Selic acu-mulada, cuja diferena seria abatida do saldo devedor dos Estados. Vale ressaltar que a lei apenas autorizava a mudana do indexador, mas no a tornava obrigatria.

O incio de 2015 foi marcado pelo discurso do ajuste fiscal, sob o co-mando do novo ministro da Fazen-da, Joaquim Levy. Assim, no havia pressa, por parte do governo federal, na implementao da LC 148/2014. Neste contexto, os governadores fizeram presso e conseguiram pas-sar a Lei Complementar 151/2015, em agosto de 2015, estabelecendo a data de 31 de janeiro de 2016 como

limite para que a Unio promovesse a alterao dos indexadores.

Como resposta, em dezembro de 2015, a Unio editou o decreto 8.616/2015, regulamentando a mu-dana do indexador, isto , definin-do o processo a ser seguido para a implementao dessa alterao. O decreto estabeleceu algumas exi-gncias, como: (i) a obteno de au-torizao legislativa por parte dos Estados; (ii) a concordncia prvia com os clculos e (iii) a desistncia de aes judiciais eventualmente propostas contra a Unio. O decreto tambm apresentou a frmula ma-temtica para o clculo correto do saldo devedor.

Nos meses seguintes, um impasse se criou, com enorme reclamao por parte dos Estados. Em primeiro lugar, estes questionavam o decre-to, principalmente a exigncia da autorizao legislativa, considerada incompatvel com o prazo de 31 de janeiro (dado o recesso das assem-bleias estaduais), e a desistncia de aes em andamento. Tais questes foram resolvidas com o Decreto 8.665/2016, de 10/02/16, que retira-va essas exigncias.

Contudo, a maior dificuldade no impasse entre os Estados e a Unio se referia ao clculo da atualizao da dvida. A frmula de clculo do desconto explicitava que a mudana de valor teria como base a utilizao de juros compostos. No entanto, os Estados acreditavam que a expres-so Selic Acumulada, utilizada nos

acordos anteriores, se referia apli-cao por juros simples.

Em consequncia, muitos Estados entraram com processos na Justia, com o objetivo de conseguir a re-negociao de dvida com base no clculo com juros simples. No dia 07/04/16, o primeiro Estado (Santa Catarina) conseguiu liminar favo-rvel. Ao longo do ms de abril de 2016, vrios outros Estados tambm conseguiram o mesmo.

Em 27/04/16, ao julgar tais limina-res, o STF decidiu conceder 60 dias para que os Estados buscassem um acordo com o governo federal a fim de solucionar o impasse em torno do pagamento de suas dvidas com a Unio. Neste tempo, eles continua-riam pagando as prestaes confor-me defendiam e sem sofrer nenhum tipo de sano pela Unio. Se no houvesse soluo neste prazo, o Tri-bunal voltaria a analisar o clculo para definio da renegociao.

A demanda dos Estados pelo clcu-lo simples representava um srio problema para as finanas da Unio. Como mostraram Mendes et al (2016), a nova regra implicaria o perdo quase integral do dbito dos Estados com o governo federal. Com dados de janeiro de 2013, adotando--se o critrio de juros simples para o reclculo da dvida de todos os Estados, o desconto seria de R$ 313 bilhes, equivalente a 78% do saldo devedor total, pela conta dos auto-res (e tambm pelas contas do MF).

33temas de economia aplicada32 temas de economia aplicada

fevereiro de 2017

Treze Estados deixariam de ser de-vedores e passariam a ser credores da Unio. J as estimativas do MF para o desconto, caso fosse adotado o clculo com juros compostos, seriam de R$ 43 bilhes.

Ao mesmo tempo em que ocorria este impasse no processo de re-negociao da dvida, em razo da forma de clculo dos juros, a crise econmica se acentuava e, com ela, a situao financeira dos Estados. Assim, em paralelo, a Unio nego-ciou com os Estados uma medida de emergncia que permitia o alon-gamento da dvida por 20 anos (ou seja, iniciou-se um novo processo de renegociao das dvidas).

O projeto de lei que viabilizava a medida (PLP 257/2016) foi envia-do ao Congresso em 22/03/16 e previa, ainda, o alongamento da dvida dos Estados com o BNDES por mais 10 anos. Trazia, entre-tanto, uma srie de exigncias, como a proibio de concesso de novos aumentos salariais para os servidores estaduais, a limitao do crescimento de outras despesas correntes dos Estados variao da inflao, a vedao de admisso de novos servidores (exceto para reposio de aposentados e fale-cidos), a aprovao de uma Lei de Responsabilidade Fiscal pelos Es-tados, a instituio de um regime de previdncia complementar para os servidores estaduais e o aumen-to na contribuio previdenciria paga por esses servidores.

Portanto, no fim do governo Dilma Rousseff, o quadro era o seguinte: (i) a renegociao das dvidas com a Unio sofria um impasse por conta do clculo dos juros, com alguns Estados obtendo liminares favorveis na Justia e (ii) iniciava--se discusso sobre um pacote emergencial de ajuda aos Estados, consistindo em alongamento de dvidas por 20 anos, com exign-cia de contrapartidas. Segundo o governo federal, esta nova rene-gociao estaria condicionada resoluo do impasse na primeira.

3 Solues do Governo Temer

A primeira medida do governo Temer em relao aos Estados, em 20/06/16, foi o fechamento do acor-do para alongar as dvidas estaduais com a Unio por mais 20 anos, in-cluindo a suspenso at o fim daque-le ano do pagamento das parcelas mensais de dvidas dos Estados com a Unio, com retomada gradual de 2017 em diante.

Tratava-se de alongamento ainda mais favorvel do que o proposto anteriormente, pois suspendia qual-quer pagamento por seis meses, com um retorno bem gradual (aumento mensal de 1/18 avos at junho de 2018) das parcelas ao pagamento normal. Como na proposta anterior, tambm previa o alongamento por 10 anos de cinco linhas de crdito do BNDES. A nova contrapartida exi-gida era que os Estados tambm se submetessem ao teto de gastos a ser

aprovado para a Unio. O alvio para o caixa dos Estados foi estimado em cerca de R$ 50 bilhes at 2018.

Em relao ao imbrglio jurdico, os Estados deveriam retirar as aes que suspendiam o pagamento da dvida no STF, desistindo, portanto, do pleito por juros simples. Assim, com as partes acordadas, o STF, em 01/07/16, decidiu adaptar ao acordo firmado as decises liminares provi-srias concedidas desde abril.

Em 10/08/16, a Cmara dos Deputa-dos aprovou o acordo (por meio de um substitutivo do PLP 257/2016; a aprovao final, que inclui a vo-tao dos destaques, ocorreu em 30/08/16). No texto do projeto de lei, havia duas contrapartidas prin-cipais: exigncia de que os Estados no pudessem conceder reajustes salariais aos seus servidores por dois anos e instituio do teto para os gastos pblicos. Contudo, a primeira foi retirada do texto final e a segunda foi aprovada por um prazo de dois anos.2

No Senado, tramitando como PLC 54/2016, o projeto resgatou as con-trapartidas previstas na proposta original, de maro. O texto tambm ganhou emenda, apresentada pela li-derana do governo (Aloysio Nunes), que criava o Regime de Recuperao Fiscal (doravante RRF)3, programa de adeso optativa para Estados em pior situao. Foi aprovado em 14/12/16.

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fevereiro de 2017

Tratava-se, portanto, de uma nova forma de ajuda emergencial aos Es-tados mais necessitados. O RRF ins-titua que os Estados em graves di-ficuldades financeiras que optassem por ingressar no regime teriam as dvidas com a Unio suspensas por at trs anos, prorrogvel por mais trs. Por outro lado, tais Estados de-veriam cumprir uma srie de outras contrapartidas, mais graves, exigi-das pelo governo federal.4

Poderiam ingressar no RRF, pela proposta, os Estados que apresen-tassem (i) receita corrente lquida menor que a dvida consolidada; (ii) receita corrente menor que as despe-sas de custeio e (iii) disponibilidade de caixa menor que as obrigaes contradas. A adeso por parte dos Estados seria voluntria e se daria por lei estadual. O plano deveria ser homologado pelo presidente da Re-pblica, aps parecer do Ministrio da Fazenda.

Assim, importante destacar o que foi aprovado pelo Senado em dezem-bro de 2016: (i) o alongamento das dvidas estaduais por 20 anos, com as contrapartidas originais e (ii) um novo plano de ajuda emergencial, denominado Regime de Recuperao Fiscal, para casos especficos e mais graves, com contrapartidas espec-ficas.

Como mudava o projeto aprovado pela Cmara, o projeto aprovado pelo Senado teve que voltar C-mara. E nesta, em 20/12/16, o pro-jeto foi aprovado, mas, novamente,

sem as contrapartidas. No caso do alongamento das dvidas, a nica contrapartida mantida foi o con-gelamento dos gastos reais por dois anos. No caso do RRF, foram retirados vrios itens, entre eles os critrios de elegibilidade ao regime e uma srie de vedaes e contra-partidas que teriam que cumprir para readquirir a solvncia fiscal e financeira.

Mesmo com uma mudana bas-tante favorvel aos Estados em relao proposta inicial do RRF, importante frisar que, nos termos do texto aprovado, o Estado que se candidatasse ao RRF continuaria a depender da aprovao do MF. Este, inclusive, se apressou em declarar, atravs de Nota divulga-da no mesmo dia (20/12), que s seriam aprovados os planos que, de fato, viabilizassem o equilbrio fiscal e financeiro dos Estados.

Posteriormente, no dia 28/12/16, o presidente sancionou a lei aprovada pela Cmara (LC 156/2016), mas vetou integralmente a criao do RRF. Segundo a imprensa, o go-verno federal enviar novo texto tratando da recuperao f iscal ao Congresso na volta do recesso parlamentar, estabelecendo novas contrapartidas a serem exigidas dos Estados em troca do apoio.

Enquanto isso no ocorre, solues para a crise dos Estados, sobre-tudo os com situao mais grave, continuam a ser buscadas. No dia 11/01/17, foi anunciado um acordo

entre o Ministrio da Fazenda e o Estado do Rio de Janeiro, em relao a um plano de recuperao fiscal para o Estado.5 Os termos do acor-do no foram divulgados. Contudo, especula-se que o Estado poder ficar alguns anos (de trs a cinco) sem pagar os juros da dvida com o governo federal.6 Dentre as contra-partidas exigidas estaro o aumento da contribuio previdenciria dos servidores, a reduo de jornada de trabalho (reduzindo-se o salrio) e a privatizao da Cedae.

4 Perspectivas

Tendo observado o histrico re-cente das tratativas entre Unio e Estados em relao renegociao de dvidas e outras medidas de apoio, verificou-se que existem trs processos principais na agenda recente: (i) primeira renegociao de dvida (alterao do indexador); (ii) segunda renegociao de dvida (alongamento de 20 anos) e (iii) ne-gociao de medidas emergenciais para os Estados com situao mais grave.

Em relao ao primeiro processo de renegociao de dvida (altera-o do indexador, conforme a LC 148/2014), a discusso parece en-cerrada, como acordado em junho de 2016. Ademais, o primeiro pa-rgrafo do Art. 1 da LC 156/2016 estabelece que o alongamento da dvida por 20 anos est condicio-nado celebrao do aditivo con-tratual de que trata o art. 4 da Lei

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Complementar n 148, de 25 de novembro de 2014. Segundo informaes do Tesouro Nacional, vrios Es-tados j assinaram o aditivo contratual, e o estoque de dvida atual j considera as alteraes para todos eles.

Em relao ao segundo processo de renegociao de dvida (alongamento de 20 anos, conforme a LC 156/2016), nota-se que j est em vigor, e os Estados j vm pagando as parcelas de juros com os descontos correspondentes.

Por ltimo, em relao a outras formas de apoio aos Estados com situao mais grave, uma das propostas contemplava o Regime de Recuperao Fiscal, que, como foi visto, no sobreviveu ao processo legislati-vo. Apesar disso, o governo federal dever, no curto prazo, enviar ao Congresso nova proposta para o RRF. Caso no consiga aprovao com as contrapartidas desejadas, provavelmente continuar a negociar acor-dos bilaterais com determinados Estados. O problema desses acordos a dependncia do legislativo de cada ente: difcil saber como as medidas mais duras sero recebidas pelas assembleias estaduais, que, obviamen-te, sofrero grande presso por parte dos grupos mais afetados.

Desta maneira, de se esperar que a questo das d-vidas estaduais ainda apresente muitos captulos em 2017, principalmente em relao aos entes em pior situao (RJ, MG e RS). O desafio, portanto, alcanar um acordo que, ao mesmo tempo em que alivie a si-tuao de curto prazo, fornea os incentivos para um comportamento responsvel daqui para frente, evi-tando uma nova crise dos Estados nos prximos anos.

Referncias

MENDES, M. Por que renegociar a dvida estadual e municipal? Brasil, Economia e Governo, 2012.

MENDES, M. et al. Juros simples, consequncias severas. O Estado de So Paulo, 12/04/2016.

TESOURO NACIONAL. Boletim das finanas pblicas dos entes sub-nacionais. Braslia, 2016.

1 Este, por sua vez, alcanou o valor de R$ 503,2 bilhes em novembro de 2016, e representa 71,8% da dvida total dos Estados. O restante se divide principalmente entre dvida bancria (inclusive BNDES) e dvida externa.

2 O projeto de lei tambm continha uma parte que tratava de mudan-as na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). A incluso dos tercei-rizados e aposentados no clculo da despesa com pessoal faria com que grande parte dos Estados descumprisse o teto fixado pela LRF. A equipe econmica chegou a concordar com um prazo de 10 anos para a adequao dos Estados a esse limite. Contudo, tal parte saiu do texto final.

3 Tal Regime havia sido apresentado pelo MF na vspera, 14/12/16.

4 Financiamento do programa de demisso voluntria dos servidores; criao de programas de desestatizao de empresas estaduais; ele-vao da contribuio previdenciria para 14% no mnimo; reduo de incentivos tributrios a empresas e suspenso de reajustes salariais de servidores estaduais.

5 Vale ressaltar que o Estado do Rio de Janeiro apresenta uma das situ-aes mais graves do Pas. Durante 2016, decretou estado de calami-dade pblica em 17 de junho e, posteriormente, em 04 de novembro, anunciou um plano para equilibrar as contas estaduais. O plano previa vrias medidas restritivas, como aumento da contribuio previdenciria dos servidores, cobrana de alquota extraordinria de 16% do salrio dos servidores por 16 meses, extino de programas sociais, corte de secretarias, aumento de tarifas de servios pblicos, dentre outras, o que gerou grande volume de protestos da populao e, principalmente, dos servidores. Como consequncia, muitas das medidas do plano no foram adiante.

6 O governo estadual desembolsa cerca de R$ 5,5 bilhes por ano com o servio da dvida.

(*) Mestre em Teoria Econmica IPE-USP, Economista do BNDES. (E-mail: gtinoco2002@hotmail.com).

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Somos um pas muito endividado?

Victor Cezarini (*)

Imagine que aps anos de trabalho duro, exaustiva dedicao, rduo esforo e constante disciplina fi-nanceira, voc consiga acumular algum dinheiro. Suponha algo em torno de R$ 100 mil, talvez seja muito para alguns e pouco para outros. Mas o que importa que esse dinheiro foi voc que obteve atravs do seu prprio esforo, um dinheiro justo e merecido, o qual voc valoriza e protege.

Agora suponha que um conhecido seu, que no est no seu crculo mais prximo de amizade, lhe pea emprestado R$ 100 mil. Voc em-prestaria?

Dvida cruel, difcil deciso... Cer-tamente voc no vai emprestar de graa, algum retorno voc tem de obter. Afinal, voc arriscaria perder de graa todo o seu capital acumulado durante anos para um mero conhecido? Claro que no. Portanto, duas questes sero cru-ciais para a sua tomada de deciso: (i) qual ser a taxa de juros que voc ir obter com esse emprsti-mo e (ii) esse conhecido possui ca-pacidade financeira para lhe pagar a dvida?

Nesse artigo vamos focar na se-gunda questo: como medir a ca-pacidade de pagamento de um devedor? Independentemente da taxa de juros cobrada, voc no ir emprestar seu dinheiro se tem certeza de que o conhecido no ir lhe pagar de volta. Portanto, crucial avaliar a capacidade finan-ceira de repagamento do sujeito. A anlise de crdito de um devedor , em ltima instncia, uma questo subjetiva. Depender de diversos fatores no mensurveis como, por exemplo, a idoneidade moral do de-vedor, seus rendimentos e riquezas futuras, a relao de amizade (ou inimizade) entre vocs dois, entre outros fatores para os quais no existe uma mtrica exata de clcu-lo. Contudo, embora no sejam su-ficientes para prever com 100% de acurcia se o conhecido ir pagar ou no, alguns ndices podem aju-dar de forma eficaz e prover im-portantes pistas para a avaliao de crdito do devedor.

Um ndice fcil de entender e bas-tante comum a razo entre o valor da dvida e o salrio (alm de outros rendimentos) dos ltimos anos. Por exemplo, (pelo menos em um primeiro momento) plausvel pensar que se esse conhecido rece-

be R$ 1 milho ao ano, a chance de ele lhe pagar maior do que se ele recebesse apenas R$ 50 mil ao ano. Afinal, o valor da dvida de R$ 100 mil, apenas 0,1x o salrio do conhecido no primeiro caso e 2,0x superior ao do segundo caso.

No mercado de ttulos soberanos de divida bilionrias e at trilio-nrias de pases, a lgica funciona da mesma forma. Investidores glo-bais no emprestam para pases beira da falncia, e quanto pior a situao fiscal de determinado pas mais alta a taxa de juros co-brada pelo emprstimo. A mtrica Dvida/Salrio no caso de pessoas fsicas anloga mtrica Dvida/Arrecadao no caso de pases. Um pas que deve R$ 100 milhes, mas arrecada R$ 1 bilho ao ano por meio de impostos e contribuies (pelo menos em um primeiro mo-mento) mais seguro que um pas que deve R$ 100 milhes e arreca-da apenas R$ 50 milhes ao ano. Correto? Ou no?

Vejamos como est o Brasil nessa mtrica; a tabela a seguir mostra o valor da dvida pblica e o valor da arrecadao de cada pas, bem como a razo Dvida/Arrecadao dos ltimos trs anos:

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Observe que, por essa mtrica, alguns pases desenvolvidos so mais arriscados que os emergentes. E o Brasil est na mdia no quesi-to de bom pagador. Nossa dvida era de US$ 1,2 trilho em 2015, nossa arrecadao no mesmo ano foi de US$ 568 bilhes e, portanto, a mtrica Dvida/Arrecadao foi de 2,1x, melhor que a do Japo, que foi de 6,4x. Cabe ressaltar apenas que nossa mtrica vem piorando ao longo do tempo. Saiu de 1,5x em 2013 para 2,1x em 2015, enquanto a do Japo apresentou precisa es-

tabilidade se situando em torno de 6,4x e 6,5x. Bom, mas ainda assim, somos bem melhores que o Japo, correto?

No exatamente. De nada adianta seu conhecido receber R$ 1 milho por ano se ele gasta R$ 1,1 milho no mesmo perodo de tempo. Se ele gasta todo o dinheiro que recebe, como ele ir lhe pagar a dvida? Nesse caso, melhor emprestar para algum que recebe R$ 50 mil ao ano e gasta apenas R$ 10 mil, dessa forma ele tem R$ 40 mil so-

brando todo o ano e ao final de trs ou quatro anos ele ter recursos suficientes para lhe pagar o que deve, dependendo da taxa de juros que voc cobrar.

Vamos, portanto, analisar qual foi o dficit que cada pas teve ao longo dos ltimos trs anos. Isto , a arrecadao total menos a des-pesa total de cada pas. Pases que possuem dficits menores ou supe-rvits tendem a possuir melhor ca-pacidade financeira de pagamento da dvida:

Tabela 1

US$ bilhes

PasDvida Arrecadao Dvida / Arrecadao

2013 2014 2015 2013 2014 2015 2013 2014 2015

Japo 10.887 10.494 9.489 1.669 1.652 1.480 6,5x 6,4x 6,4xEUA 20.816 21.613 22.706 4.826 5.021 5.254 4,3x 4,3x 4,3x

Colmbia 144 167 145 64 63 47 2,2x 2,7x 3,1x

Canad 1.660 1.665 1.531 707 687 607 2,3x 2,4x 2,5x

Reino Unido 2.346 2.644 2.547 1.039 1.096 1.047 2,3x 2,4x 2,4x

Mxico 548 602 582 298 299 269 1,8x 2,0x 2,2x

Brasil 1.275 1.384 1.191 854 801 568 1,5x 1,7x 2,1x

frica do Sul 162 165 157 90 87 81 1,8x 1,9x 1,9x

Coreia do Sul 454 509 508 287 305 300 1,6x 1,7x 1,7x

Turquia 325 299 280 199 189 172 1,6x 1,6x 1,6x

Peru 41 42 44 38 38 32 1,1x 1,1x 1,4x

Rep. Tcheca 86 80 68 56 55 50 1,5x 1,5x 1,4x

Alemanha 2.412 2.421 2.009 1.671 1.736 1.505 1,4x 1,4x 1,3x

Chile 35 39 42 58 53 51 0,6x 0,7x 0,8xRssia 218 211 135 766 704 444 0,3x 0,3x 0,3x

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fevereiro de 2017

Agora o problema ficou srio. Ao analisar o dficit percebemos que somos o pior, disparado; gastamos muito mais do que arrecadamos e nosso dficit vem piorando ao longo do tempo. Em 2013, nosso dficit era de 3,3% do PIB; em 2015, passamos para 10,3% do PIB, o pior de todos os pases em todos os anos da amostra. A dinmica perversa e contnua; houve expres-siva piora em apenas trs anos. O Japo possui um dficit significa-tivo tambm, contudo, este vem se reduzindo ao longo do tempo, mos-

trando aos credores e detentores de ttulos japoneses que o pas vem apresentando contnua melhora em suas finanas. Ns, por outro lado, estamos no caminho contrrio.

Outra mtrica muito utilizada para medir o endividamento dos pases a razo Dvida/PIB. O PIB a soma do salrio e de todos os ou-tros rendimentos (juros, aluguis, lucros etc) de todas as pessoas do pas.

Pases que possuem uma mtrica Dvida/Arrecadao alta, mas pos-suem um nvel de Arrecadao/PIB baixo podem controlar sua dvida mais facilmente, pois basta au-mentar a alquota de imposto para obter mais recursos para paga-mento da dvida. Agora, pases que j possuem uma Arrecadao/PIB alta podem enfrentar dificuldades polticas para aumentar a alquota tributria, restando somente a re-duo de gastos para controle da dvida. A tabela a seguir resume essa situao para cada pas.

Tabela 2

US$ bilhes

Pas(Arrecadao - Despesa) PIB (Arrecadao - Despesa) / PIB

2013 2014 2015 2013 2014 2015 2013 2014 2015

Brasil -80 -151 -184 2.467 2.420 1.791 -3,3% -6,2% -10,3%Japo -411 -354 -216 4.918 4.608 4.126 -8,4% -7,7% -5,2%

Reino Unido -158 -171 -127 2.721 3.003 2.859 -5,8% -5,7% -4,4%

Mxico -49 -60 -47 1.263 1.297 1.144 -3,9% -4,6% -4,1%

frica do Sul -16 -14 -13 369 352 316 -4,3% -4,1% -4,1%

EUA -1.225 -927 -671 16.692 17.393 18.037 -7,3% -5,3% -3,7%

Rssia -28 -24 -47 2.228 2.048 1.331 -1,3% -1,2% -3,5%

Colmbia -4 -5 -8 380 378 292 -1,0% -1,4% -2,8%

Chile -2 -4 -6 277 259 241 -0,7% -1,4% -2,3%

Peru 1 -0 -4 202 203 192 0,5% -0,1% -2,2%

Rep. Tcheca -6 -2 -4 209 208 185 -2,9% -1,0% -1,9%

Canad -55 -31 -26 1.837 1.786 1.553 -3,0% -1,8% -1,7%

Turquia -12 -12 -7 824 800 719 -1,5% -1,5% -1,0%

Coreia do Sul 13 4 -2 1.306 1.412 1.379 1,0% 0,3% -0,2%Alemanha 0 24 22 3.760 3.891 3.362 0,0% 0,6% 0,6%

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Ao comparar o Brasil com os ou-tros pases emergentes, percebe-mos que estamos, junto com Co-lmbia e Mxico, entre os trs mais endividados pela mtrica Dvida/Arrecadao. Contudo, o Mxico possui um ndice Arrecadao/PIB de 24% e a Colmbia de 16% muito abaixo de ns, que estamos com esse ndice por volta de 32%. Portanto, muito mais fcil para o governo da Colmbia aumentar sua alquota de imposto e incrementar sua arrecadao do que para o go-verno brasileiro, que j demasia-damente criticado por possuir uma tributao excessiva para o nvel de pases emergentes.

Dado que estamos entre os trs mais endividados do mundo emer-gente no quesito Dvida/Arreca-

dao e possumos o governo que mais arrecada em relao ao PIB, no de surpreender que possu-mos o maior nvel de Dvida/PIB entre todos os pases emergentes. Nosso ndice de 67%, muito supe-rior ao do Mxico, segundo maior com 51%. Um dado assustador se refere ao crescimento desse ndice nos ltimos trs anos: entre 2013 e 2015, a nossa Dvida/PIB cresceu 15 p.p.. Nenhum pas, desenvolvido ou no, apresentou crescimento to elevado da dvida em perodo de tempo to curto.

Contudo, quando comparamos nossa razo Dvida/PIB com a dos pases desenvolvidos, chegamos concluso de que no somos to endividados assim. Afinal, os EUA possuem uma razo Dvida/PIB de

126% e o Japo de 230%. Portan-to, ns ainda podemos aumentar muito nossa dvida, correto? No precisamos nos preocupar com endividamento, dado que os pases desenvolvidos so muito mais ala-vancados do que ns. Aumente os gastos e reduza os impostos!

Infelizmente, no funciona assim... esses pases so muito mais confi-veis do que ns. Ao longo da his-tria, os pases desenvolvidos mos-traram-se muito mais responsveis em termos fiscais do que a maioria dos pases emergentes, permitindo que adquirissem a reputao de bons pagadores, enquanto ns no tivemos ainda a oportunidade de entrar nesse restrito clube. A Tabela 4 mostra o nmero de calotes na d-vida de cada pas desde 1950.

Tabela 3

PasDvida / Arrecadao Arrecadao / PIB Dvida / PIB

2013 2014 2015 2013 2014 2015 2013 2014 2015

Japo 6,5x 6,4x 6,4x 34% 36% 36% 221% 228% 230%EUA 4,3x 4,3x 4,3x 29% 29% 29% 125% 124% 126%

Canad 2,3x 2,4x 2,5x 38% 38% 39% 90% 93% 99%

Reino Unido 2,3x 2,4x 2,4x 38% 36% 37% 86% 88% 89%

Brasil 1,5x 1,7x 2,1x 35% 33% 32% 52% 57% 67%

Alemanha 1,4x 1,4x 1,3x 44% 45% 45% 64% 62% 60%

Mxico 1,8x 2,0x 2,2x 24% 23% 24% 43% 46% 51%

frica do Sul 1,8x 1,9x 1,9x 24% 25% 26% 44% 47% 50%

Colmbia 2,2x 2,7x 3,1x 17% 17% 16% 38% 44% 50%

Turquia 1,6x 1,6x 1,6x 24% 24% 24% 40% 37% 39%

Coreia do Sul 1,6x 1,7x 1,7x 22% 22% 22% 35% 36% 37%

Rep. Tcheca 1,5x 1,5x 1,4x 27% 26% 27% 41% 39% 37%

Peru 1,1x 1,1x 1,4x 19% 19% 17% 20% 21% 23%

Chile 0,6x 0,7x 0,8x 21% 21% 21% 13% 15% 18%Rssia 0,3x 0,3x 0,3x 34% 34% 33% 10% 10% 10%

41temas de economia aplicada40 temas de economia aplicada

fevereiro de 2017

Observe que Peru e Chile, os dois pases mais caloteiros da amostra, possuem um nvel de dvida atual muito inferior ao do Brasil (Dvida/PIB em torno de 20%, enquanto o mesmo indicador para o Brasil de 68%). Nosso pas o terceiro maior caloteiro da amostra e continua-mos sendo o pas mais endividado do mundo emergente.

Os pases desenvolvidos, embora possuam uma dvida maior em re-lao sua arrecadao e seu PIB, mostraram ao longo da histria melhor gesto em suas finanas pblicas, sempre honrando os com-promissos acordados. Diferente-mente de ns.

Voc emprestaria seus R$ 100 mil para um sujeito que j deu diversos calotes na comunidade? Ou voc

preferiria emprestar seu dinheiro para outro sujeito que nunca deu calote, mesmo que esse ltimo pos-sua uma dvida maior?

Outro fator se refere ao nvel de riqueza de cada pas. Os pases de-senvolvidos so muito mais ricos do que os emergentes. No incio do artigo, falamos muito sobre o sal-rio de seu conhecido, mas no fala-mos nada sobre o nvel de riqueza que ele possui.

Imagine que agora voc est em dvida entre emprestar os seus R$ 100 mil para um sujeito que possui um salrio de R$ 500 mil ao ano e um patrimnio de R$ 10 milhes (formado por imveis, aes, au-tomveis, joias etc), e outro sujeito que possui um salrio de R$ 1 mi-lho ao ano, mas cujo patrimnio

de apenas R$ 50 mil, j que ele gasta quase tudo o que arrecada.

Certamente, mais seguro empres-tar para o primeiro sujeito. Se no ano seguinte ele perder o emprego, poder vender alguns imveis e lhe pagar. No segundo caso, menos provvel que ele tenha recursos suficientes para pagar a dvida.

Em geral, os pases emergentes possuem uma riqueza total por volta de 2x superior ao PIB e os pases desenvolvidos possuem essa mesma razo em torno de 5x. Portanto, os segundos possuem muito mais recursos para financiar a dvida pblica que os primeiros. A Tabela 5 compara o nvel de rique-za de cada pas, bem como a razo Dvida/Riqueza:

Tabela 4 - Histrico de Calotes - 1950 at hoje

Pas Calotes na Dvida Externa Calotes na Dvida Interna Nmero Total de Calotes

Peru 1969, 1976, 1978, 1980, 1984 1985 6

Chile 1961, 1963, 1966, 1972, 1974, 1983 - 6

Brasil 1961, 1964, 1983 1987, 1990 5

frica do Sul 1985, 1989, 1993 - 3

Rssia 1991, 1998 1957 3

Mxico 1982 1982 2

Turquia 1978, 1982 - 2

Japo - - 0

EUA - - 0

Colmbia - - 0

Canad - - 0

Alemanha - - 0

Reino Unido - - 0

Coreia do Sul - - 0Repblica Tcheca N/I N/I N/I

41temas de economia aplicada40 temas de economia aplicada

fevereiro de 2017

Tabela 5

US$ bilhes

PasRiqueza Total Riqueza / PIB Dvida / Riqueza

2013 2014 2015 2013 2014 2015 2013 2014 2015

Brasil 2.876 3.194 2.436 1,2x 1,3x 1,4x 44% 43% 49%Japo 22.030 23.299 19.837 4,5x 5,1x 4,8x 49% 45% 48%

Mxico 2.294 2.351 1.957 1,8x 1,8x 1,7x 24% 26% 30%

Turquia 1.251 1.288 1.025 1,5x 1,6x 1,4x 26% 23% 27%

EUA 80.274 81.262 85.901 4,8x 4,7x 4,8x 26% 27% 26%

frica do Sul 689 688 671 1,9x 2,0x 2,1x 24% 24% 23%

Colmbia 672 839 643 1,8x 2,2x 2,2x 21% 20% 23%

Canad 7.257 7.615 6.872 4,0x 4,3x 4,4x 23% 22% 22%

Rep. Tcheca 399 412 353 1,9x 2,0x 1,9x 22% 19% 19%

Alemanha 14.015 13.935 11.939 3,7x 3,6x 3,6x 17% 17% 17%

Reino Unido 13.719 15.242 15.601 5,0x 5,1x 5,5x 17% 17% 16%

Coreia do Sul 3.408 3.690 3.545 2,6x 2,6x 2,6x 13% 14% 14%

Peru 403 442 391 2,0x 2,2x 2,0x 10% 9% 11%

Rssia 2.177 2.091 1.284 1,0x 1,0x 1,0x 10% 10% 10%Chile 590 583 535 2,1x 2,3x 2,2x 6% 7% 8%

Somos o pas mais endividado da amostra em relao a nossa rique-za, nosso ndice de 49%. Metade da riqueza do nosso pas utilizada para financiar o governo. E, alm disso, o ndice vem apresentando constante piora nos ltimos anos: entre 2013 e 2015 cresceu 5 p.p.. O Mxico, segundo pas emergente mais endividado da amostra nesse quesito, possui um ndice de ape-nas 30%, 19 p.p. abaixo de ns. verdade que Japo e EUA tambm possuem uma mtrica Dvida/Riqueza elevada, mas esses pases so muito mais confiveis que os pases emergentes, pois nos lti-mos 75 anos nunca deram calote em suas dvidas.

Concluso

Como se no bastasse o fato de sermos caloteiros histricos, in-sistimos em manter nossa dvida em um patamar demasiadamente elevado. Somos o pas mais endivi-dado do mundo em relao a nossa riqueza e o pas emergente com a maior dvida em relao ao PIB. Alm disso, gastamos muito mais do que arrecadamos e nosso dficit fiscal aumentou consideravelmente nos ltimos trs anos. No ano de 2015, nosso dficit foi de 10% do PIB, o pior entre todos os pases da amostra em todos os anos analisa-dos. Esses fatos ensejam um futuro

sombrio para as finanas pblicas do Brasil.

Portanto, de extrema necessida-de que o nosso governo foque em reduzir os gastos, passe a gastar menos do que arrecada e coloque nossa dvida pblica em trajetria de queda. Somente assim, aps um longo perodo de tempo, podere-mos, quem sabe, entrar no seleto clube de bons pagadores.

Fontes: Os dados de dvida pblica, arrecadao e PIB foram obtidos na Oxford Economics. Os dados de dficit foram obtidos no Frum Econmico Mundial. Os dados de Riqueza foram obtidos no Global

43temas de economia aplicada42 temas de economia aplicada

fevereiro de 2017

Wealth Report do Credit Suisse. A tabela com o nme-ro de calotes na dvida (Tabela 4) foi obtida no livro Oito Sculos de Delrios Financeiros, de Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart.

Referncias

FRANCO, Gustavo. Os juros e as crianas. O Estado de So Paulo, 30 de outubro de 2016 (Caderno Economia & Negcios).

GIAVAZZI, Francesco; GOLDFAJN, Ilan; HERRERA, Santiago. Inflation targeting, debt, and the Brazilian experience, 1999 to 2003. MIT Press, 2005.

GOLDSTEIN, Morris. Debt sustainability, Brazil, and the IMF. Institute for International Economics Working Paper 03-1, 2003.

LARA-RESENDE, A.; Pessa, S.; Nakane, M. Por que os juros so to altos no Brasil? CLP Papers n. 6, 2011.

MESQUITA, Mrio. A poltica econmica do governo Dilma: a volta do experimentalismo. Sob a luz do sol - uma agenda para o Brasil. Coletnea CDPP, 2014.

REINHART, Carmen M.; ROGOFF, Kenneth S. This time is different: eight centuries of financial folly. Princeton University Press, 2009.

______. Growth in a time of debt (digest summary). American Eco-nomic Review, v. 100, n. 2, p.573-578, 2010.

(*) Mestre em Economia IPE-USP . (E-mail: victorcezarini@gmail.com).

43temas de economia aplicada42 temas de economia aplicada

fevereiro de 2017

Neutralidade da Moeda: Novo-keynesianos

Vitor Kayo de Oliveira (*)

1 Introduo

Dando continuao anlise de diferentes escolas da macroecono-mia as escolas Neoclssicos, Mo-netaristas e Novo-clssicos foram abordadas nos textos de edies anteriores , este trabalho faz uma pequena resenha a respeito de como a escola Novo-Keynesianos apresenta a relao terica entre moeda e variveis reais, sobretu-do o produto agregado e o nvel de emprego, tendo como pano de fundo a busca pelos mecanismos que permitem a manifestao da neutralidade ou no da moeda dentro do contexto das flutuaes econmicas. Na elaborao da re-senha, apoia-se tanto em estudos de comentadores, em particular o livro de Snowdon e Vane (2005), quanto em trabalhos pertencentes escola.

2 Novo-Keynesianos

Embora a escola novo-keynesia-na seja bastante heterognea, em termos amplos, Mankiw e Romer (1991) afirmam que, para se des-cobrir se uma teoria pertencente a essa escola, ela deve responder com um enftico sim s duas se-guintes perguntas:

i) A teoria em questo rejeita a di-cotomia clssica? Isto , ela admite a possibilidade de variaes em va-riveis nominais, como o estoque nominal de moeda, exercerem im-pacto sobre variveis reais, como o produto e o nvel de emprego?

ii) Ela assume que imperfeies reais de mercado na economia, tais como competio imperfeita, informao imperfeita e rigidez de preos relativos, alm de imperfei-es nominais so relevantes para a explicao das flutuaes econ-micas?

A primeira resposta positiva re-flete a no neutralidade da moeda, decorrente da rigidez de preos, enquanto a segunda mostra a fonte de tal rigidez ao enfatizar imperfei-es de mercado.

Snowdon e Vane (2005) comple-mentam a caracterizao dos novo--keynesianos ao dizerem que eles herdaram dos novo-clssicos a primazia pela fundamentao mi-croeconmica e pelo arcabouo de equilbrio geral. Diferentemente dos tericos dos ciclos reais de ne-gcios, que trabalham num mundo em que imperam informao per-feita, competio perfeita, custos de transao nulos e mercados

completos, os novo-keynesianos modelam os problemas econmicos num mundo em que, dentre outros elementos, reinam informao as-simtrica, competio imperfeita com firmas formadoras de preos e mercados incompletos, alm de trabalho heterogneo e percep-o por parte dos agentes do que seria justo. Os novo-keynesianos geralmente fazem uso da hiptese de expectativas racionais, outra herana dos novo-clssicos mesmo sob a qual seus modelos permitem que distrbios nominais tenham impactos reais, explicitando que o que no se adequa a essa relao causal a hiptese de mercados em equilbrio contnuo e perfeita flexibilidade de preos e salrios. Assim, embora as teorias novo--keynesianas salientem aspectos diferentes das imperfeies de mercado, todas procuram dar em-basamento microeconmico para a existncia de rigidez de preos e salrios, que ao nvel macroecon-mico pode fazer com que distrbios nominais afetem variveis reais, em claro contraste com os neocls-sicos, que simplesmente assumem como exgeno um nvel rgido de salrio nominal. Nesse sentido, os novo-keynesianos do um passo a mais que os neoclssicos.

44 temas de economia aplicada

fevereiro de 2017

A seguir, ser feito um breve exame de algumas das razes encontra-das pelos novo-keynesianos para a origem da existncia de rigidez de preos e salrios. Para tanto, seguindo a categorizao adotada em Snowdon e Vane (2005), a lite-ratura novo-keynesiana pode ser dividida em rigidezes nominais, que se referem s situaes nas quais algo impede o nvel geral de preos de se movimentar para contrabalanar algum distrbio nominal de demanda, e rigidezes reais, que ocorrem quando algo no permite o ajuste dos salrios reais, ou um salrio nominal est fixado em relao a outro salrio, ou um preo nominal est fixado em relao a outro preo.

Fischer (1977) desenvolve um mo-delo de rigidez de salrio nominal, mostrando que, mesmo sob a hip-tese de expectativas racionais, po-lticas monetrias tanto antecipa-das quanto no antecipadas afetam o produto e o nvel de emprego no curto prazo desde que a frequncia de ajuste dos contratos de trabalho seja maior que a frequncia com que a autoridade monetria maneja o estoque nominal de moeda. No caso de uma poltica monetria an-tecipada, como os agentes apenas descobrem essa informao depois de os contratos j terem sido esta-belecidos, eles no tm flexibilida-de para incorpor-la na forma de uma correspondente modificao racional nas negociaes salariais, s podendo faz-lo quando do fim dos contratos em vigor. Embora ex-

cepcionalmente no se d justifica-o microeconmica para o arranjo de contratos de trabalho de longa durao, argumenta-se que empi-ricamente razovel essa suposio, alm de ela ser completada pelo fato de os contratos de trabalho demorarem mais para serem rene-gociados que o perodo dentro do qual a autoridade monetria pro-voca mudanas na oferta nominal de moeda. Dessa forma, the use of longer-term nominal contracts puts an element of stickiness into the no-minal wage which is responsible for the effectiveness of monetary policy (p. 194), porm it has no effects on long-run output behavior (p. 191).

J Mankiw (1985) se volta para a anlise de como a rigidez de preo nominal pode resultar de uma es-colha tima no nvel individual das firmas, porm, do ponto de vista social, de uma escolha subtima. Deixando de usar a hiptese de concorrncia perfeita, que implica para a firma representativa que ela se depara com uma curva de demanda perfeitamente elstica, significando que, se ela racional, no pode desviar-se do preo de mercado dado (diz-se que ela price taker), uma vez que, se o fizer para cima, no venderia nada e, se o fizer para baixo, teria lucro negativo, adota-se a hiptese de competio imperfeita do tipo mo-noplio. Segundo essa hiptese, a nica firma no mercado tem poder de, levando em conta a demanda de mercado e o seu preo relativo, estabelecer o preo que considera

mais conveniente (diz-se que ela price setter). Suponha a ocorrncia de um choque de demanda agre-gada negativo, como, por exemplo, advindo de uma poltica monet-ria contracionista. Isso impacta a demanda do mercado com que se depara a firma monopolista. Dian-te da nova situao desfavorvel, na presena de custos de mudan-a no preo, chamados custos de menu tais como o custo de impri-mir catlogos novos e listas com o preo novo e de renegociao de contratos de vendas e compras com compradores e fornecedores , a firma racionalmente pode decidir que vale a pena manter o preo enquanto a produo vendida cai mais do que cairia caso decidisse mudar o preo para um patamar menor, j que os custos de menu so significantes o suficiente para tornar o lucro da situao com o mesmo preo ser maior que aquele com o preo menor. Do ponto de vista social, se a firma reduzisse seu preo e consequentemente expandisse a produo e as ven-das, o ganho de bem-estar geral poderia se mostrar maior que o correspondente situao sem mudana no preo. Por fim, poss-vel estender os resultados obtidos para um mercado em que vigora a competio monopolstica, com a diferena crucial de vrias firmas comportarem-se como monopolis-tas formadoras de preo que ofer-tam produtos altamente parecidos.

Numa importante contribuio sobre a associao entre rigide-

45

fevereiro de 2017

economia & histria: relatos de pesquisa

zes dos preos reais e nominais, alm de fazerem uma ressalva ao trabalho de Mankiw (1985), Ball e Romer (1990) declaram que rigi-dities in real prices are not sufficient to create rigidities in nominal prices and real effects of nominal shocks. And, by themselves, small frictions in nominal adjustment, such as costs of changing prices, create only small non-neutralities. Entretanto, a combinao entre rigidezes de preos reais e pequenas rigidezes de preos nominais pode fazer com que choques nominais de demanda no agregado influenciem o produto agregado e o nvel geral de empre-go.

De acordo com Snowdon e Vane (2005), pode-se entender como algumas rigidezes dos preos reais magnificam as rigidezes nomi-nais com o auxlio da anlise da mesma exemplificao que se fez para explicar o argumento dos custos de menu de Mankiw (1985). Considere o mesmo cenrio s que com competio monopolstica, em que ocorre um choque nominal de moeda negativo que leva a firma re-presentativa a se deparar com uma curva de demanda deslocada para a esquerda, porm que decide no diminuir seu preo por causa dos custos de menu. No agregado, as firmas produzem e vendem menos, o que se reflete numa menor de-manda por trabalho para cada sa-lrio real dado. Como o nvel geral de preos o mesmo, a queda no salrio nominal o responsvel por diminuir o salrio real de equi-

lbrio. No entanto, a correspon-dente diminuio do salrio real acarreta uma diminuio no custo marginal. Ento, de acordo com a teoria microeconmica bsica que diz que a firma escolhe seu preo a partir de um mark-up sobre o custo marginal, em que o mark-up tanto maior quanto menor a elasticidade--preo da demanda, para o preo se manter constante em face a uma queda no custo marginal, neces-sria a ocorrncia de um aumento suficiente no mark-up, o qual pode se dever, entre outras razes, a uma queda na elasticidade-preo da demanda para o mesmo preo devido ao deslocamento da deman-da da firma em resposta ao choque inicial negativo ou a uma estrutura de mercado em que, durante os momentos de baixa atividade eco-nmica, h fortes incentivos para a adoo de acordos latentes de oligoplio, significando menor con-corrncia e maior mark-up.

Ainda de acordo com Snowdon e Vane (2005), existem muitas ou-tras fontes de rigidezes dos preos reais. Uma delas a que diz res-peito a customer markets. Nesse caso, como os compradores tm de arcar com custos de transao para obter informaes dos produ-tos similares das outras firmas que no aquelas cujos produtos j esto acostumados a adquirir, em relao a esses compradores a firma detm certo poder de monoplio numa forma de fidelidade e de comodida-de, que mantido caso ela no pro-voque mudanas no preo do bem

vendido, j que, se elevar o preo, os compradores podem se sentir incentivados a procurar outras firmas e, se diminuir o preo, essa informao demora para chegar a outros potenciais consumidores que no esto habituados a com-prar seu produto.

Outra fonte de rigidez dos preos reais est ligada percepo da qualidade dos produtos que aos olhos dos compradores pode ser associada ao seu preo. Devido informao imperfeita sobre a qua-lidade dos produtos, se os compra-dores acreditam que ela se relacio-na positivamente com o preo, as firmas podem se tornar relutantes em modificar seu preo em face de uma queda da demanda porque no desejam incorrer no risco de os seus clientes interpretarem a dimi-nuio do preo como uma piora na qualidade do seu produto.

Por fim, Snowdon e Vane (2005) examinam algumas fontes de rigi-dez de salrio real que possibilitam aos novo-keynesianos explicar a contnua existncia de desemprego involuntrio devido ao salrio real de mercado se manter num valor superior ao salrio real que equi-libra a demanda por trabalho e a oferta de trabalho. Entre essas fon-tes, uma a relacionada teoria do salrio eficincia, segundo a qual as firmas tm incentivos para man-ter o salrio real acima daquele que gera o equilbrio no mercado de trabalho, pois acreditam que a pro-dutividade dos indivduos depen-

47temas de economia aplicada46 temas de economia aplicada

fevereiro de 2017

de positivamente do salrio real. Destarte, pode ser menos custoso oferecer um salrio real maior que o de equilbrio em vez de baix-lo gerando perda de produtividade.

Yellen (1984) sintetiza os princi-pais motivos que levam as firmas a se comportarem de acordo com a teoria do salrio eficincia. O primeiro diz respeito ao fato de que nos contratos de trabalho muito difcil especificar o nvel de esforo com que o trabalhador deve se comprometer, deixando--o em parte livre para escolher entre esforar-se ou no, dados os elevados custos de monitoramento mesmo quando a firma tem credi-bilidade ao afirmar que demitir aqueles vistos fazendo pouco es-foro. Caso todas as firmas ofere-cessem o mesmo nvel de salrio real condizente com o equilbrio do mercado de trabalho, haveria pleno emprego e um trabalhador indivi-dual seria encorajado a esforar-se pouco, uma vez que, ao ser demiti-do por ter empregado pouco esfor-o, encontraria outro emprego com facilidade. Se a firma contratante quer que ele se esforce, uma forma de incentiv-lo a agir assim ofere-cer um salrio real maior que o de equilbrio para aumentar o custo de ele ser demitido caso seja visto exercendo pouco esforo. O segun-do motivo que, ao pagar um sa-lrio real acima do de equilbrio, a firma d ao trabalhador um incen-tivo para no deixar seu emprego, o que vantajoso quando os custos de rotatividade da mo de obra so

elevados. O terceiro motivo se re-laciona com o problema de seleo adversa e informao imperfeita num mercado com trabalhadores heterogneos, em que a firma ofe-rece um salrio real maior a fim de atrair os trabalhadores mais habi-lidosos. Nesse cenrio, ainda, se possvel encontrar uma correlao positiva entre a habilidade e o sal-rio de reserva (i.e., o menor salrio ao qual o trabalhador aceita traba-lhar), os candidatos que revelam estar dispostos a trabalhar por um salrio real menor so potencial-mente pertencentes ao grupo dos menos habilidosos.

semelhana dos resultados rela-tivos a rigidezes de preos reais de Ball e Romer (1990), Yellen (1984, p. 204) diz que as rigidezes de sa-lrio real por si s no so capazes de gerar modelos que expliquem por que no curto prazo variaes na demanda agregada, causadas por choques monetrios, por exem-plo, impactam o produto agregado e o nvel de emprego. Todavia, so elementos importantes para mag-nificar os efeitos das rigidezes de salrio e preo nominais estes, sim, responsveis pela possibili-dade da incorporao da relao causal de curto prazo mencionada.

3 Concluso

O que se almeja mostrar com a sntese simplificada de todas essas teorias que a escola novo-keyne-siana est principalmente preocu-

pada em desenvolver modelos que joguem luz na questo da origem da existncia de rigidez de preos e salrios, pois ela fundamental para entender no curto prazo o comportamento macroeconmico de variveis reais, tais como pro-duto e emprego, frente a choques de demanda, tal como uma mu-dana na oferta nominal agregada de moeda, embora ela tambm esteja preocupada com choques de oferta. Como foi visto, h uma mi-rade de teorias novo-keynesianas que tentam explicar, dentro de um arcabouo microeconmico, essa relao macroeconmica, cujo cerne se localiza no to-somente na presena de rigidezes de preo e salrio nominais, mas, sim, numa combinao de rigidezes nomi-nais e reais, com aquelas tendo seus efeitos potencializados por estas. Portanto, in the new Key-nesian model, monetary shocks clearly have non-neutral effects in the short run, although money remains neutral in the long run (SNOWDON; VANE, 2005, p. 398).

Referncias

BALL, L.; ROMER, D. Real rigidities and the non-neutrality of money. The Review of Economic Studies, v. 57, n. 2, p. 183-203, April 1990.

FISCHER, S. Long-term contracts, rational expectations, and the optimal supply rule. The Journal of Political Economy, v. 85, n. 1, p. 191-205, February 1977.

MANKIW, N. G. Small Menu costs and large business cycles: a macroeconomic model

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fevereiro de 2017

of monopoly. The Quartely Journal of Economics, v. 100, n. 2, p. 529-537, May 1985.

______; ROMER, D. New Keynesian economics: imperfect competition and sticky prices. 2. ed. [S.l.]: MIT Press Readings in Economics, v. 1, 1991.

SNOWDON, B.; VANE, H. R. Modern macroeconomics: its origins, development and current state. 1. ed. [S.l.]: Edward Elgar, 2005.

YELLEN, J. L. Efficiency wage models of unemployment. The Ameri-can Economic Review, v. 74, n. 2, p. 200-205, 1984.

(*) Mestrando em Teoria Econmica do IPE-USP. (E-mail: vitor.kayo.de.oliveira@gmail.com).

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Relatrio de Indicadores Financeiros1

Ncleo de Economia Financeira da USP nefin-FEA-USP (*)

Em 02/jan/2012, foram (teori-camente) investidos R$ 100 em quatro carteiras long-short tradi-cionais da literatura de Economia Financeira. O Grfico 1 apresenta a evoluo dos valores das carteiras: (1) Carteira de Mercado: compra-da em aes e vendida na taxa de

juros livre de risco; (2) Carteira Tamanho: comprada em aes de empresas pequenas e vendida em aes em empresas grandes; (3) Carteira Valor: comprada em aes de empresas com alta razo valor contbil-valor de mercado e ven-dida em aes de empresas com

baixa razo; (4) Carteira Momento: comprada em aes de empresas vencedoras e vendida em aes de empresas perdedoras. Para deta-lhes, visite o site do NEFIN, seo Fatores de Risco: .

Grfico 1 Estratgias de Investimentos (Long - Short) (02/01/2012 - 10/02/2017)

Tabela 1

Tamanho Valor Momento Mercado

Semana 0.89% 2.14% 2.65% 1.54%

Ms atual 2.08% 3.60% 2.07% 2.16%

Ano atual 11.71% 21.74% 4.43% 8.53%

2010-2017 -49.25% -23.02% 289.99% -34.05%

49temas de economia aplicada48 temas de economia aplicada

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O Grfico 2 apresenta a evoluo histrica do dividend yield do mercado acionrio brasileiro: razo entre o total pago de dividendos nos ltimos 12 meses pelas empresas e o valor total das empresas hoje. Essa tradicionalmente uma varivel estacionria (rever-te mdia) e positivamente correlacionada com o retorno futuro esperado dos investidores. Ou seja, alta em momentos ruins (de alto risco ou alta aver-

so ao risco), quando os investidores exigem retorno esperado alto para investir no mercado, e baixa em momentos bons. A Tabela 2 apresenta o inverso do di-vidend yield, conhecido como Razo Preo-Dividendo, de algumas empresas. Ordenam-se os papis da ltima semana de acordo com essa medida e reportam-se os papis com as dez maiores e dez menores Razes Preo-Dividendo.

Grfico 2 Dividend Yield da Bolsa (01/01/2009 - 10/02/2017)

Tabela 2

Dez Maiores Dez Menores Papel Preo-Dividendo Papel Preo-Dividendo

1. EVEN3 502.43 ESTC3 8.41

2. LIGT3 390.99 BRKM5 13.17

3. LINX3 377.53 ENBR3 13.61

4. CIEL3 251.61 ABCB4 15.69

5. GGBR4 248.01 MPLU3 15.75

6. EQTL3 204.10 PARC3 15.77

7. LAME4 202.35 BBSE3 16.63

8. BRAP4 183.31 FLRY3 17.03

9. EMBR3 177.78 GRND3 18.06

10. VALE5 176.99 ITSA4 19.10

51temas de economia aplicada50 temas de economia aplicada

fevereiro de 2017

O Grfico 3 apresenta a evoluo histrica do short in-terest do mercado acionrio brasileiro e a taxa mdia de aluguel de aes. O short interest de uma empresa dado pela razo entre a quantidade de aes em alu-guel e a quantidade de aes outstanding da empresa. Mede assim o estoque de vendas a descoberto reali-zadas com as aes da empresa, tendendo a ser maior em momentos de expectativa de queda no valor da

empresa. O short interest do mercado, apresentado no grfico, a mdia (ponderada por valor) dos short in-terest individuais. A Tabela 3 reporta os cinco maiores short interest individuais e taxas de aluguel da semana passada, tanto em nvel como primeira diferena (no caso deste ltimo, so excludos os papis que tiveram variao negativa).

Grfico 3 Mercado de Aluguel de Aes (01/01/2013 - 10/02/2017)

Tabela 3

Cinco Maiores da Semana Short interest Taxa de Aluguel

1. RAPT4 7.72% BPHA3 53.88%2. BRML3 7.59% MGLU3 44.01%3. ELPL4 6.89% RSID3 42.10%4. GOAU4 6.46% PDGR3 39.07%5. CYRE3 6.29% MRFG3 27.48%

Variao no short interest Variao na taxa de aluguel

1. TCSA3 1.05% MRFG3 21.89%2. GGBR4 0.72% BPHA3 7.24%3. RAPT4 0.60% ADHM3 4.83%4. TESA3 0.56% CCRO3 4.67%5. CMIG4 0.49% HAGA4 3.77%

51temas de economia aplicada50 temas de economia aplicada

fevereiro de 2017

Grfico 4 Volatilidade Forward-Looking (01/08/2011 - 31/01/2017)

O IVol-BR um ndice de volatilidade futura esperada para o mercado acionrio brasileiro. derivado do comportamento dos preos de opes sobre o IBOVES-PA. J o VIX o ndice de volatilidade futura espera-da para o mercado americano calculado pela CBOE.

O Grfico 4A apresenta ambas as sries. O Grfico 4B apresenta a diferena entre o ndices, captando assim a evoluo da incerteza especificamente local. Para detalhes, visite o site do NEFIN, seo IVol-Br: .

A

B

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1 O NEFIN no se responsabiliza por qualquer dano ou perda ocasionado pela utilizao das informaes aqui contidas. Se desejar reproduzir total ou parcialmente o contedo deste relatrio, est autorizado desde que cite este documento como fonte.

O Nefin agradece FIPE pelo apoio financeiro e material na elaborao deste relatrio.

2 VIX e CBOE so marcas registradas da Chicago Board Options Exchange. (*) .

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economia & histria: relatos de pesquisa

eh

Ribeiro Preto e o Imposto sobre Cafeeiros

Luciana Suarez Lopes (*)

Como foi visto anteriormente, a discusso sobre a importncia dos impostos diretos sobre o caf ou sobre a atividade cafeeira nos mu-nicpios paulistas ainda um tema pouco explorado pela historiogra-fia. Ribeiro Preto, uma das mais importantes localidades cafeicul-toras em So Paulo, nos oferece im-portantes subsdios para o estudo desse tema.

Sendo estabelecida no f inal do perodo Imperial e ratificada pela lei de 13 de novembro de 1891, a tributao municipal sobre a ca-feicultura consistia na cobrana de uma taxa de $040 ris sobre a ar-roba de caf produzido e exportado pelo municpio. Todavia, apesar de a legislao prever tal cobrana, o resultado de sua arrecadao no aparece no oramento referente ao exerccio de 1890 a 1891.

Contudo, em oramentos e balanos posteriores, possvel localizar os montantes arrecadados sobre o caf, pois, conforme estabelecido pela Lei Municipal n 1 de 1 de se-tembro de 1893, os impostos sobre indstria e profisses passariam a ser organizados em tabelas, ficando a tributao sobre a produo cafe-eira registrada pela Tabela F. Con-forme a Tabela 1, o imposto cobrado continuava a ser de $040 por arroba de caf. (PIRES, 1994, p. 57-58)

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Em vez de aparecer o nome do imposto ou taxa e o valor arreca-dado, a receita municipal passa a ser apresentada como Arrecadado pelas Tabelas. No balano referen-te ao ano de 1901, a Tabela F foi responsvel por aproximadamente 17% do total arrecadado pelo mu-nicpio, passando essa porcenta-gem a representar 8,4% em 1902, ano em que foi ultrapassada em importncia pelos impostos arre-cadados sobre o comrcio e sobre o capital das empresas, que em conjunto representaram 28,5% do total arrecadado. (PIRES, 1994, p. 123) Infelizmente, no possvel desmembrar a arrecadao da tabela a fim de se isolar os montan-tes arrecadados com caf e avaliar seus impactos na estrutura tribu-tria do municpio.

Contudo, se inicialmente a legisla-o previa a cobrana com base na produo de caf e sua exportao pelo municpio, posteriormente passou-se a cobrar impostos de acordo com o nmero de ps de

caf plantados na localidade. Tal cobrana foi estabelecida no in-cio do sculo XX, no contexto da primeira grande crise de super-produo da lavoura cafeeira, e amparada pela reorganizao da administrao municipal promo-vida pela Lei n 1838 de 19 de de-zembro de 1906.

Em seu Captulo IV, dedicado s Rendas Municipais, previa-se a cobrana de imposto no valor de 2$000 por cada mil ps de caf plantados no municpio, conforme seu artigo 19, pargrafo 3,

Artigo 19 A receita dos munic-pios ser constituda somente das seguintes verbas:

[...]

3. Do imposto na razo mxima de 2$000, sobre cada milhar de cafe-eiros em tratamento e produo, situados no municpio, embora a sede do estabelecimento no o seja. Nenhum outro imposto ou taxa po-der ser lanado sobre o caf, por qualquer pretexto [...] (LEI 1838)

O caf passa ento a ser tribu-tado no mais se considerando como base a produo, mas sim o nmero de ps de caf no munic-pio. Conforme o censo agrcola de 1904-1905, no incio do sculo XX existiam em Ribeiro Preto apro-ximadamente 29 milhes de ps de caf em produo, produo esta que naquele mesmo ano alcanou aproximadamente 2 milhes de ar-robas. (MARCONDES, 2015)

Desde seu estabelecimento, e du-rante todo o perodo da Repblica Velha, o valor do imposto sobre cafeeiros no se modificou, ficando sempre em 2$000 por mil ps de caf ou sua frao em produ-o.1 Os pagamentos deveriam ser feitos pelos prprios cafeicultores na Contadoria Municipal at o ms de agosto. Passada a data limite, era cobrada uma multa.2 A evolu-o da arrecadao ao longo do perodo 1911-1930 pode ser obser-vada no Grfico 1, que apresenta a evoluo tanto em valores nomi-nais como em libras esterlinas.

Tabela 1 Tabela F. Ribeiro Preto, 1893

Natureza da cobrana Imposto

Cada pipa de aguardente ou bebida forte fabricada no municpio 2$000

Cada pipa de aguardente de fora do municpio 6$000

Cada 10 kg ou frao de fumo em corda ou folha que entrar no municpio, mesmo sendo para reexportao 1$000

Cada 10 kg ou frao de fumo picado ou desfiado 2$000

Cada 15 kg de caf exportado $040

Cada saca de arroz, feijo ou milho exportado at 100 litros $500

Cada 15 kg de toucinho exportado ou para reexportao $500

Fonte: Elaborado com base em Pires (1994, p. 57-58).

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Os valores em libras esterlinas esto no segundo eixo, enquanto os valores em mil-ris encontram-se no eixo principal. necessrio ado-tar esse procedimento porque no perodo 1911-1930 houve conside-rvel oscilao do valor do mil-ris. Num primeiro momento, a Caixa de Converso garantia a estabili-dade cambial, mas com o incio da

guerra e o encerramento de suas atividades ocorre acentuada des-valorizao cambial, o que dimi-nuiu, em valores reais, o montante arrecadado com o imposto ora ana-lisado. Finda a guerra, abre-se um novo perodo de desvalorizao da moeda nacional. Observa-se ento acentuada queda em valores reais do montante arrecadado, enquanto

em valores nominais a arrecadao se comporta de maneira relativa-mente estvel. Tal comportamento no se repete quando analisamos a arrecadao da cidade como um todo. Considerando o total da re-ceita municipal, a tendncia da srie em valores reais, a tendncia da srie crescente, como pode ser observado no Grfico 2.

Grfico 1 - Arrecadao com o Imposto Sobre Cafeeiros: Valores Reais Versus Valores Nominais. Ribeiro Preto, 1911-1930

Fonte: Relatrios da Prefeitura Municipal de Ribeiro Preto. APHRP. Para transformar os valores nominais em libras esterlinas utilizamos a srie Taxa de cmbio mdia mensal da libra esterlina (mil-ris por pence) na praa do Rio de Janeiro (RJ). Disponvel em: < http://www.ipeadata.gov.br>. Acesso em: 20 fev. 2017.

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Por essa razo, a participao percentual do imposto sobre cafeeiros na renda total do municpio caiu ao longo de todo o perodo, como pode ser observado no Grfico 3. As maiores porcentagens concentram-se no incio do perodo considerado, passando a cair rapida-mente, em especial a partir de 1915. Ao final do pero-do, o imposto analisado respondia por apenas 1,9% do total arrecadado pelo municpio.

Contudo, o comportamento da srie no pode ser re-lacionado diretamente ao bom ou mau desempenho da lavoura cafeeira. A bem da verdade, para alguns

anos pode-se relacionar com segurana a arrecadao sobre os ps de caf e o desempenho da cafeicultura, mas essa relao muito pontual. Um desses momen-tos o ano de 1918, quando uma severa geada com-prometeu a produo paulista, e consequentemente a produo nacional. Um segundo momento o ano de 1925, cuja queda reflete os impactos de uma grave seca em muitas regies produtoras. De modo geral, esse foi um perodo bom para a cafeicultura, prote-gida primeiro pelas operaes episdicas de defesa e depois pela defesa permanente.3

Grfico 2 - Receita Total: Valores Reais Versus Valores Nominais. Ribeiro Preto, 1911-1930

Fonte: Relatrios da Prefeitura Municipal de Ribeiro Preto. APHRP. Para transformar os valores nominais em libras esterlinas utilizamos a srie Taxa de cmbio mdia mensal da libra esterlina (mil-ris por pence) na praa do Rio de Janeiro (RJ). Disponvel em http://www.ipeadata.gov.br. Acesso em 20/02/2017.

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Grfico 3 - Participao Percentual do Imposto Sobre Cafeeiros na Receita Total do Municpio - Ribeiro Preto, 1911-1930

Fonte: Relatrios da Prefeitura Municipal de Ribeiro Preto. APHRP.

Dessa maneira, a anlise da arrecadao com o im-posto de cafeeiros em Ribeiro Preto nos d subsdios para melhor compreender os impactos da atividade cafeeira nas finanas pblicas municipais. Ribeiro Preto, uma das mais importantes cidades cafeiculto-ras do Estado de So Paulo, constitui, em boa medida, um exemplo do que acreditamos ser a regra para o perodo.

Os fluxos de renda, em muito dinamizados pela pre-sena da cafeicultura, contriburam de forma inegvel para o progresso das cidades tomadas pela onda verde. A gerao de renda, o pagamento de salrios e os gas-tos no mercado local movimentavam a economia, ali-mentando o crescimento da cidade e da arrecadao proveniente da tributao de atividades tipicamente urbanas, tais como o comrcio e a prestao de ser-vios.

Referncias

CMARA MUNICIPAL DE RIBEIRO PRETO. Leis. Ribeiro Preto: Tipografia da Casa Selles, 1917.

______. Tabela dos impostos municipais com os respectivos regulamen-tos. Ribeiro Preto: Tipografia Vallada, 1931.

______. Tabelas em vigor dos impostos e taxas municipais. Ribeiro Preto: Nogueira, Carvalho & Cia, 1923.

DELFIM NETTO, Antonio. O problema do caf no Brasil. So Paulo: IPE/USP, 1981.

JORNAL A Cidade de Ribeiro Preto. Edio de 12 de agosto de 1908. Arquivo Pblico e Histrico de Ribeiro Preto.

LEI 1838 DE 19 DE DEZEMBRO DE 1906. Disponvel em: . Acesso em: 20 fev. 2017.

MARCONDES, Renato Leite. O caf em Ribeiro Preto. (1890-1940). In: MARCONDES, R. L.; REGISTRO, T. C.; GUAZ- ZELLI, A. M. C. (Org.). Ribeiro Preto: a cidade como fonte de pesquisa. CD-ROM - Volume 1. So Paulo: Prefeitura do Campus USP. Ribeiro Preto: Seo de

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Atividades Culturais, 2015. Disponvel em: . Acesso em: 20 fev. 2017.

PIRES, Julio Manuel. Um estudo de histria econmica regional sob a tica das finanas pblicas. Relatrio Final de Pesquisa. So Paulo, 1994. (mimeo)

1 Conforme apurado em 1911, 1923 e em 1931, de acordo com as fontes a seguir. Para o ano de 1911, a coleo das leis da Cmara Municipal, publicada em 1917. (CMARA MUNICIPAL DE RIBEIRO PRETO, 1917). Para o ano de 1923, publicao Tabelas em vigor dos impostos e taxas municipais (CMARA MUNICIPAL DE RIBEIRO PRETO, 1923). E para o ano de 1931, a Tabela dos impostos munici-pais com os respectivos regulamentos, publicada em 1931. (CMARA MUNICIPAL RIBEIRO PRETO, 1931)

2 De acordo com a nota publicada no jornal A Cidade de Ribeiro Preto, de 12 de agosto de 1908.

3 Sobre as operaes de defesa do caf, ver Delfim Netto (1981, em especial os captulos 2 e 3).

(*) Professora Doutora do Departamento de Economia da FEA/USP.

(E-mail: lslopes@usp.br).

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