Anais 2 - Frum Nacional do Patrimnio Cultural SISTEMA NACIONAL DE PATRIMNIO CULTURAL: DESAFIOS, ESTRATGIAS E EXPERINCIAS PARA I Frum Nacional do Patrimnio Cultural Anais 2 UMA NOVA GESTO - OURO PRETO - MG | 2009

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  • I Frum Nacional do Patrimnio CulturalSISTEMA NACIONAL DE PATRIMNIO CULTURAL:

    DESAFIOS, ESTRATGIAS E EXPERINCIAS PARA

    UMA NOVA GESTO - OURO PRETO - MG | 2009

    Ana

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    VOLUME 1

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  • Presidenta da Repblica do BrasilDILMA ROUSSEFF

    Ministra de Estado da CulturaANA DE HOLLANDA

    Presidente do Instituto doPatrimnio Histrico e Artstico NacionalLUIZ FERNANDO DE ALMEIDA

    Diretoria do IphanANDREY ROSENTHAL SCHLEECLIA MARIA CORSINOESTEVAN PARDI CORRAMARIA EMLIA NASCIMENTO SANTOS

    Coordenao editorialSYLVIA MARIA BRAGA

    Edio e revisoLETRA GUIA/GRACE ELIZABETH E ROSALINA GOUVEIA

    Projeto grfico e diagramaoRARUTI COMUNICAO E DESIGN/CRISTIANE DIAS

    FotosARQUIVO IPHAN

    Coordenao do I Frum Nacional doPatrimnio Cultural IphanWEBER SUTTIHONRIO NICHOLLS PEREIRAMNICA CRISTINA DE SOUZA

    Apoio Coordenao do I Frum Nacional doPatrimnio Cultural IphanSILA RODRIGUES SILVA

    Comisso de Organizao

    ANTNIO FERNANDO A. L. NERI

    CLAUDIA FEIERABEND BAETA LEAL

    DALMO VIEIRA FILHO

    RICA CRISTINA CASTILHO DIOGO

    HONRIO NICHOLLS PEREIRA

    JOS RODRIGUES CAVALCANTI NETO

    JULIANA FERREIRA SORGINE

    MARCELO BRITO

    MRCIA ROLLEMBERG

    MRCIA SANTANNA

    MARIA CLARA MIGLIACIO

    MARIA EMLIA NASCIMENTO SANTOS

    MARIA REGINA WEISSHEIMER

    MNICA CRISTINA DE SOUZA

    SNIA RAMPIM FLORNCIO

    WEBER SUTTI

    WIVIAN DINIZ

    YOLE MILANI MEDEIROS

    CRDITOS

    I59p Instituto do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional (Iphan).

    I Frum Nacional do Patrimnio Cultural : Sistema Nacional de Patrimnio Cultural : desafios, estratgiase experincias para uma nova gesto, Ouro Preto/MG, 2009 / Instituto do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional;coordenao, Weber Sutti. -- Braslia, DF : Iphan, 2012.

    404 p. ; 24 cm. -- (Anais ; v. 2, t. 1)

    ISBN: 978-85-7334-212-3

    1. Patrimnio Cultural. 2. Poltica Cultural. 3. Sistema Nacional de Patrimnio Cultural. I. Sutti, Weber.II Ttulo. III. Srie.

    CDD 363.69

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  • 3

    Apresentao

    Desde 2007 o Iphan empreende esforos para a construo do Sistema Nacional dePatrimnio Cultural (SNPC), coordenando a realizao de diversas aes na rea de gestodo patrimnio cultural, tais como: reorganizao da Associao Brasileira de CidadesHistricas (ABCH); apoio pactuao do Frum Nacional dos Secretrios e DirigentesEstaduais de Cultura (FNSDEC) para a criao do SNPC; criao do Grupo de Trabalhodo Patrimnio, que rene o Iphan e os rgos estaduais do patrimnio; realizao da IOficina de Patrimnio; elaborao do quadro do patrimnio nos Estados; realizao deoficinas regionais para discutir o quadro do patrimnio e a construo do SNPC;participao dos seminrios de estruturao do Sistema Nacional de Cultura no subsistemade patrimnio cultural; participao da organizao da II Conferncia Nacional de Cultura;e elaborao dos Planos de Ao para Cidades Histricas.

    Como parte do processo de construo do SNPC, o Iphan realizou, em parceria coma ABCH e o FNSDEC, o I Frum Nacional do Patrimnio Cultural na cidade de OuroPreto, entre os dias 13 e 16 de dezembro de 2009. O objetivo do Frum foi a discusso,a reflexo, a construo e avaliao conjunta da Poltica Nacional de Patrimnio Cultural.Espera-se que o Frum se torne um evento bienal e que seja sempre realizado no municpioque presida a ABCH.

    Procurando atender ao critrio de democratizao das aes governamentais, asinscries para o Frum foram gratuitas e realizadas atravs do stio eletrnico do Iphan.Efetivamente compareceram ao Frum 351 participantes ouvintes e 119 convidados conferencistas, debatedores, comunicadores, coordenadores, relatores e expositores ,chegando ao nmero total de 470 pessoas presentes durante os quatro dias do evento.

    Durante o Frum foram realizadas quatro conferncias de abertura, duas confernciastemticas; quatro mesas-redondas e dez sesses temticas. Contamos com a presena de seisconferencistas, 11 debatedores, 109 comunicadores e 34 expositores de psteres, alm devrios convidados.

    O Frum tambm ofereceu espaos e momentos para a realizao de importantesreflexes e discusses pblicas, como a palestra sobre a II Conferncia Nacional da Cultura CNC e o Frum da ABCH.

    Particularmente em relao ao Frum da ABCH, ressaltamos a aprovao do seuEstatuto e a reconduo de ngelo Oswaldo de Arajo Santos, prefeito de Ouro Preto, presidncia da ABCH, diante de expressivo comparecimento de representantes municipais.

    Com o objetivo de registrar e tornar disponveis, para consulta pblica, as discussese os resultados do I Frum Nacional do Patrimnio Cultural, o Iphan edita esta publicaoem trs volumes assim divididos:

    Volume I Trs conferncias de apresentao; uma conferncia magna; duasconferncias temticas; e quatro mesas-redondas e seus relatrios.

    Volume II Sesses temticas de 1 a 5 e seus relatrios.Volume III Sesses temticas de 6 a 10 e seus relatrios, e sesses de psteres.

    LUIZ FERNANDO DE ALMEIDAPresidente do Instituto do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional

    Abril 2012

    APRESENTAO

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  • SUMRIO

    APRESENTAO

    INTRODUOABERTURA PARA NOVAS DIMENSESngelo Oswaldo de Arajo Santos

    O DESAFIO DE IMPLANTAR UM SISTEMANACIONAL DE PATRIMNIO CULTURAL

    Daniel SantAna

    DESAFIOS E ESTRATGIAS PARA UMA NOVAGESTO DO PATRIMNIO CULTURAL

    Luiz Fernando de Almeida

    CONFERNCIA MAGNAO CAMPO DO PATRIMNIO CULTURAL:UMA REVISO DE PREMISSAS

    Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses

    CONFERNCIA 1BASE PARA POLTICAS INTEGRADAS DEPRESERVAO DO PATRIMNIO CULTURAL,DESENVOLVIMENTO SOCIAL E ECONMICO

    Weber Sutti

    DEBATESO SISTEMA SETORIAL DE PATRIMNIO NOMBITO DO SISTEMA NACIONAL DE CULTURAJoo Roberto Peixe

    O PROGRAMA PERNAMBUCO NAO CULTURALClia Maria Medicis Maranho de QueirozCampos

    A EXPERINCIA REFERENCIAL E PREMIADA DEJOO PESSOAFernando Moura

    O MEMORIAL DO HOMEM KARIRI UMPATRIMNIO GERENCIADO POR CRIANAS

    Francisco Alemberg de Souza Lima

    CONFERNCIA 2BALANO DAS AES DO PROGRAMAMONUMENTARobson Antnio de Almeida

    DEBATESAVALIAO DO PROGRAMA MONUMENTAAna Lcia Paiva Dezolt

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    A CAIXA E O APOIO CULTURA E PROTEODO PATRIMNIO

    Carlos de Faria Coelho de Sousa

    AVALIAO DO PROGRAMA PELA UNESCOJurema Machado

    AVALIAO DO PROGRAMA PELA UNIVERSIDADEFEDERAL DA BAHIA (UFBA)Ana Fernandes

    MESA-REDONDA 1SISTEMA NACIONAL DE PATRIMNIO CULTURAL(SNPC) INSTRUMENTOS E FORMAS DEFINANCIAMENTO

    PROGRAMA NACIONAL DE FOMENTO EINCENTIVO CULTURAEvaristo Nunes

    PROGRAMA MECENAS UMA EXPERINCIAINSTITUCIONAL DE CAPTAO DE RECURSOS DE

    PESSOAS FSICAS PARA PROJETOS CULTURAIS

    Jos Cludio dos Santos Jnior

    BNDES, A ECONOMIA DA CULTURA E O APOIOAO PATRIMNIO HISTRICO SOB A TICA DO

    DESENVOLVIMENTO INTEGRADO

    Luciane Gorgulho

    IMPOSTO SOBRE CIRCULAO DE MERCADORIASE PRESTAO DE SERVIOS (ICMS) PATRIMNIO CULTURAL EM MINAS GERAISCarlos Henrique Rangel

    A EXPERINCIA DE PERNAMBUCOricka Rocha

    DESAFIOS DOS FUNDOS MUNICIPAIS DEPRESERVAO

    Simone Camelo Arajo

    O PODER PBLICO MUNICIPAL E AS LEIS DE INCENTIVOLuiz Fernando Mainardi

    RELATRIO SNTESE

    MESA-REDONDA 2SISTEMA NACIONAL DE PATRIMNIO CULTURAL(SNPC) COOPERAO, COMPARTILHAMENTO EDEFINIO DE PAPIS

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  • SISTEMA NACIONAL DE PATRIMNIO CULTURAL(SNPC) COOPERAO, COMPARTILHAMENTO EDEFINIO DE PAPIS

    Honrio Nicholls Pereira

    FRENTE PARLAMENTAR EM DEFESA DOPATRIMNIO CULTURAL

    Jussara Hockmller Carpes

    O PATRIMNIO CULTURAL BRASILEIRO E OCONTEXTO INTERNACIONAL

    Marcelo Brito

    O PATRIMNIO CULTURAL BRASILEIRO E OS DESAFIOSDO COMPARTILHAMENTO DE COMPETNCIAS

    Leonardo Barci Castriota

    ATUAO DO CONSELHO INTERNACIONAL DEMONUMENTOS E STIOS (ICOMOS) NAPRESERVAO DO PATRIMNIO CULTURAL

    Rosina Coeli Alice Parchen

    A EXPERINCIA DO ESCRITRIO TCNICO DELICENCIAMENTO E FISCALIZAO (ETELF/BA) EOS DESAFIOS DA GESTO INTEGRADA

    Frederico A. R. C. Mendona

    RELATRIO SNTESE

    MESA-REDONDA 3SISTEMA NACIONAL DE PATRIMNIO CULTURAL(SNPC) REGULAO E MARCOS LEGAIS

    SISTEMA NACIONAL DE PATRIMNIO CULTURAL(SNPC) REGULAO E MARCOS LEGAISAntnio Fernando A. L. Neri

    PLANEJAMENTO TERRITORIAL E O PATRIMNIOCULTURAL

    Kazuo Nakano

    INSTRUMENTOS URBANSTICOS PARA APRESERVAO DO PATRIMNIO CULTURAL:O EXEMPLO DE PARANAPIACABAVanessa Gayego Bello Figueiredo

    A EXPERINCIA DE OURO PRETOGabriel Simes Gobbi

    O PAPEL CONSTITUCIONAL DO MUNICPIO NAPROTEO DO PATRIMNIO CULTURAL

    Joo Henrique Caf de Souza Novais

    ATUAO DO MINISTRIO PBLICO EM DEFESADO PATRIMNIO CULTURAL

    Marcos Paulo de Souza Miranda

    DESAFIOS DA REGULAO DO PATRIMNIOCULTURAL

    Ana Cristina Bandeira Lins

    PATRIMNIO NATURAL E CULTURAL, BENSJURDICOS DE NATUREZA DISTINTA

    Carlos Magno de Souza Paiva

    O EXERCCIO DA COMPETNCIA CONSTITUCIONALCOMUM E CONCORRENTE NA PRESERVAO DO

    PATRIMNIO CULTURAL

    Fabiana Santos Dantas

    RELATRIO SNTESE

    MESA-REDONDA 4SISTEMA NACIONAL DE PATRIMNIO CULTURAL(SNPC) ESTRUTURA E FORMAS DEFUNCIONAMENTO

    SISTEMA NACIONAL DE PATRIMNIO CULTURAL ESTRUTURA E FORMAS DE FUNCIONAMENTO

    Weber Sutti

    A EXPERINCIA DO SISTEMA NICO DE SADE EOS DESAFIOS PARA O SISTEMA NACIONAL DEPATRIMNIO CULTURALAdson Frana

    MOBILIZAO SOCIAL PARA O SISTEMANACIONAL DE PATRIMNIO CULTURALMara Rgia Di Perna

    DESAFIOS PARA O SISTEMA NACIONAL DECULTURAFrederico Barbosa

    PROJETO BARCOS DO BRASILLuiz Phelipe Andrs

    PLANOS DE AO PARA CIDADES HISTRICASYole Milani Medeiros

    PLANOS DE AO E OS DESAFIOS DOSMUNICPIOS

    Alexandra Moreira Carvalho Gomes

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  • ABERTURA PARA NOVAS DIMENSES

    ngelo Oswaldo de Arajo Santos*

    RESUMOBreve panorama da atual poltica do Iphan, que vem implementando a

    prtica do dilogo e da parceria como premissa de trabalho. Ressalta-se aabertura das polticas do patrimnio participao dos municpios quepossibilitam o respaldo local para garantir o uso pertinente e a adequadaconservao dos bens culturais brasileiros. Revela, ainda, a abertura doInstituto do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional para o desafio deum trabalho inovador, no sentido de fugir das amarras burocrticas daanlise de projetos e aprovao de plantas, para alcanar uma rotinaprodutiva com um sedutor vis sociocultural.

    PALAVRAS-CHAVEIphan, Parcerias, Dilogo.

    O I Frum Nacional de Patrimnio Cultural enseja uma ampla avaliaodas atividades no s do Instituto do Patrimnio Histrico e ArtsticoNacional Iphan, como tambm dos municpios detentores detombamentos federais e comprometidos com a articulao decorrente dacriao, no incio de 2009, de uma associao nacional para congreg-los.O fato de o balano dos resultados do Iphan ter transcorrido durante umencontro que envolveu os municpios revela o primeiro ponto positivo daatual poltica de patrimnio no pas, a qual se resume na prtica do dilogoe da parceria como instrumentos de trabalho.

    O Iphan sempre sofreu de isolamento, em fases mais ou menos agudas,de um processo que o manteve distncia seja dos congneres estaduais, sejados municpios nos quais se acham os bens culturais protegidos pelachancela da Unio. Abrir a instituio ao entendimento e ao debate no aenfraquece, como pensavam alguns, j que sua autoridade se debilita, emverdade, quando permanece restrita a crculos burocrticos arredios realidade e, por isso, alheios s lides do cotidiano. Ao procurar e fomentaro apoio dos municpios, o Iphan tem encontrado os colaboradores que lhe

    *Prefeito de OuroPreto e presidente daAssociao Brasileirade Cidades Histricas

    Introduo

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  • faltavam, ao tempo em que auxilia a estruturao e o fortalecimento dagesto local, muitas vezes desguarnecida ou mesmo incapacitada para essaindispensvel interao.

    Compreendeu-se, finalmente, que os municpios, ainda que carentes derecursos financeiros e humanos (do ponto de vista tcnico) para as tarefasmonopolizadas pelo ente federal, devem participar e o fazem, sempre, emfavor de resultados excelentes. Demais, seria uma obra de Ssifo o ato de oIphan estar, ainda agora, depois de tantas dcadas de experincia, aempreender iniciativas sem o respaldo local que possa garantir usopertinente e conservao adequada aos bens culturais.

    A experincia paradigmtica de Ouro Preto um dos temas presentes noFrum, revelando a linha conceitual e o vis do desempenho da Prefeitura,a partir do trabalho da Secretaria Municipal de Patrimnio eDesenvolvimento Urbano. Em articulao com o Iphan e os MinistriosPblicos Federal e Estadual, novos instrumentos urbansticos foramadotados. O municpio deixou a inrcia em que submergia para atuar, demodo objetivo, ombreado ao ente federal, na consecuo das tarefascomuns, conforme destacou o secretrio municipal Gabriel Simes Gobbi.

    Nesse passo, ressalta-se o xito da incorporao do programaMonumenta ao Iphan, medida que tardou, mas chegou ainda em boa hora.Os municpios tm papel de grande relevo no Monumenta, o que veiomelhorar ainda mais o relacionamento local com o Iphan.

    Reconheceu-se que o ente autrquico no poderia sobreviver a mais umaamputao como aquela que perversamente fora urdida no Ministrio daCultura, antes da chegada do ministro Gilberto Gil. Dividir a instituio ouexclu-la de programas que lhe so inerentes tem sido um modo deenfraquec-la. O Iphan, historicamente, alvo de tentativas de esvaziamento,como se viu durante os trabalhos constituintes de 1988, entre outros trechosem que, at com a mudana de sua denominao oficial ou o fracionamentodo organismo, buscou-se a capitulao sonhada pelos oportunistas de plantoe os especuladores de toda sorte. Divergncias intestinas, mantidas sombra,igualmente favoreceram o avano do solapamento.

    O ministro Gilberto Gil teve a coragem de mudar tanto perspectivaspolticas de ao cultural quanto nomes de titulares, o que incomum nagesto brasileira. Costuma-se aceitar uma nomeao como fatoconsumado. Substituio pode parecer o reconhecimento de um equvoco,uma fragilidade poltica ou at mesmo uma ofensa. Quando AlosioMagalhes assumiu o Iphan, em 1979, a nomeao no deixou de ser

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  • percebida como uma descortesia com Renato Soeiro, que estava no cargohavia doze anos, depois dos trs decnios da gesto Rodrigo Melo Francode Andrade. Alosio citou Cames, para lembrar que a vida feita demudanas. Gilberto Gil mudou dirigentes inadaptados, reformulou oMonumenta e o integrou ao contexto do Iphan. Unificou o programaespecial na grade da ao permanente do Instituto, o que corrigiu, depronto, distrbios e anomalias que medravam no espao de construo demais um monstrengo bicfalo.

    A criao do Instituto Brasileiro de Museus Ibram, efetivada na gestodo ministro Juca Ferreira, no mais ter sido uma derradeira tentativa dereduo do Iphan, quando j se verifica que a velha repartio de RodrigoMelo Franco de Andrade e Lcio Costa havia acelerado, simultaneamente,a sua revitalizao de maneira a sustentar o desafio que lhe cumpre vencer,na vida cultural do Brasil. No h dvida de que no se pode conceber umapoltica de patrimnio sem os museus. Mas inquestionvel a constataode que o Iphan, na nova situao, se revitalizou e ganhou a densidadeperdida na virada do sculo. Foi o que se comprovou em Ouro Preto, nolargo panorama desdobrado pelos participantes do Frum.

    Tenho a convico, forjada no nos gabinetes, mas na ao direta dapoltica patrimonial, que a interao entre o museu, o arquivo, a bibliotecae a proteo patrimonial compe um arco que no deve ser abalado oucomprometido por secionamentos mutiladores da unidade imprescindvelao sucesso da misso. A instituio que restringe e controla o uso dapropriedade privada de interesse cultural haveria de ser a mesma que oferecea utilizao exemplar de um imvel protegido, por meio de um museu,tornado escola e oficina de cultura, centro de lazer e fruio. Quando sefragmenta um processo que pede o continuum do pensamento e da ao, aunidade dos esforos e a coerncia no desempenho, o cartermultidisciplinar e a complementaridade circular, o que se alcana, quasesempre, uma diminuio geral, com perda para todas as partes. Adescentralizao pode ser nefasta, se processada por meio da proliferaode escaninhos hermticos ou da prevalncia de interesses circunstanciais.Impe-se agora ao Ministrio da Cultura, mais determinadamente, oestabelecimento da sinergia entre seus institutos, com vistas harmonia deum grande programa em prol do patrimnio cultural.

    O Iphan est bem equilibrado para tanto. Resistiu e evidencia acapacidade de testemunhar um primado na poltica patrimonial, de vez queo seu paradigma essencial ao quadro federativo. Mrio de Andrade disse

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    Introduo

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    que no poderia fazer uma enciclopdia brasileira se no dispusesse de uminventrio, e foi assim que comeou a nascer o servio de patrimnio, nosidos de 1935. Hoje, no se pode falar em poltica de cultura, em espaosculturais ou museus, centros de arte ou pontos de criao, se no se enfatizaro trabalho de classificao e proteo dos acervos exemplares e dos bensedificados, que ho de acolher e viabilizar as manifestaes e assegurar avitalidade da cultura. A transformao veloz da paisagem urbana, em todasas regies, a contumaz demolio das referncias, o enfeiamento da cidadebrasileira, como expresso da excluso social, da deteriorao e da violncia,pedem uma viso diferenciada e um trabalho inovador aos formuladores egestores de polticas patrimoniais.

    Assim, o Iphan se apresenta em plena ao. Do tombamento de Iguape(SP), tardio, mas revelador da permanncia dos deveres fundamentais daautarquia, ao do conjunto ferrovirio de Campo Grande (MS); das grandesintervenes ensejadas pelo Monumenta modernizao da gesto dassuperintendncias e escritrios; das aes do patrimnio imaterial pesquisae publicaes, o rgo e sua poltica atravessam uma das melhores fases de umahistria de quase 80 anos. Busca-se uma dimenso cultural para asrepresentaes do Iphan, a fim de que no se confinem no ramerroburocrtico da anlise de projetos e aprovao de plantas, visando conjugaode uma rotina produtiva com um sedutor vis sociocultural. A gesto promovea participao e intensifica o exerccio da reflexo e do dilogo.

    Se o Monumenta, reciclado, deu substncia aos resultados internos eexternos da ao do Iphan, mais ainda se aguarda do PAC das CidadesHistricas, pelo vulto da iniciativa governamental. Esse programa foi levadoao presidente Lula pelo ministro Juca Ferreira e pelo presidente do Iphan,Luiz Fernando de Almeida, como primeira consequncia da AssociaoBrasileira de Cidades Histricas. Representa a consolidao das novasdiretrizes da poltica patrimonial. Envolve outras agncias do governo daUnio, aliando pasta da Cultura a parceria do Ministrio das Cidades evariadas fontes de recursos para uma estratgia nacional mais vasta econsistente, em termos de patrimnio cultural.

    No seminrio de Ouro Preto, o Iphan se demonstrou preparado para aampliao de horizontes, pronto para atuar em todo o pas, de formaobjetiva e eficiente. o que ir conferir ao PAC das Cidades Histricas acondio de instrumento a se integrar, definitivamente, s polticaspatrimoniais do Brasil. O Iphan traou um novo caminho, e o futuro quese desenha merece confiana.

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    IntroduoO DESAFIO DE IMPLANTAR UM

    SISTEMA NACIONAL DE

    PATRIMNIO CULTURAL

    Daniel SantAna*

    RESUMOO texto relata como as conferncias municipais e estaduais fortaleceram

    o desejo de construir um sistema compartilhado entre as esferas municipais,estaduais e federais. Revela o desafio de promover o dilogo e a aocompartilhada como os principais caminhos para uma atuao efetiva, sejana preservao ou na promoo e na proteo do patrimnio histrico, sejanos outros campos de responsabilidade da poltica de cultura, nas artes,enfim, no respeito e na promoo da diversidade cultural.

    PALAVRAS-CHAVEMunicpios, Ao compartilhada, Poltica cultural.

    O ano de 2009 foi um ano muito especial para essa articulao sistmicasobre a qual o prefeito de Ouro Preto e presidente da Associao Brasileirade Cidades Histricas, ngelo Oswaldo, fez meno. Foi o ano de realizaodas conferncias municipais e estaduais, quando muitos desses mais decinco mil municpios brasileiros, que sequer tm um rgo gestor voltadopara a cultura, ou seja, um rgo gestor especfico da rea de patrimniohistrico cultural, realizaram pela primeira vez suas conferncias de cultura.Muitos estados tambm realizaram, alguns pela primeira, outros pelasegunda vez as suas conferncias que vo culminar na segunda grandeconferncia nacional de cultura, prevista para o ano de 2010.

    E na maioria dessas conferncias o que se discutiu, o que se temdiscutido, so a implantao e o desenvolvimento dos sistemas de culturanas suas respectivas esferas municipal, estadual e nacional. O sistemaentendido realmente como mecanismo de articulao, de pacto, dedesenvolvimento de metas e de uma poltica de cultura de longo prazo.Uma poltica capaz de definir as estruturas que integram esse sistema e suas

    *Presidente do FrumNacional de Secretriose Dirigentes Estaduaisde Cultura, ano 2009;Secretrio de Culturado Acre

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    l.1 respectivas atribuies, competncias e responsabilidades e que realmente

    permitir um desenrolar e um desenvolver mais efetivo das polticas pblicasde cultura do nosso pas.

    E na rea de patrimnio no poderia ser diferente, o Ministrio daCultura atravs do Iphan; os estados atravs das suas Secretarias de Culturae, quando o caso, dos seus rgos estaduais especficos de patrimniocultural; os municpios atravs do frum de secretrios das capitais e,principalmente, da Associao Brasileira de Cidades Histricas que congregamais de cento e cinquenta cidades. com a intervenincia dos estados, aintervenincia do frum de secretrios e dirigentes estaduais de cultura quese tem feito esse grande esforo por estabelecer uma ao coordenada, comrepartio de atribuies, competncias e responsabilidade compartilhada.

    Isso , de fato, o que deve acontecer num sistema, num regime republicanoe federativo. Se no houver essa coordenao de ao, esse pacto e essecompartilhamento de atribuies e responsabilidades, fica difcil atuar demaneira efetiva, seja na preservao ou na promoo e na proteo dopatrimnio histrico, seja nos outros campos de responsabilidade da polticade cultura, nas artes, enfim, no respeito e na promoo da diversidade cultural.

    Esse pacto para estabelecimento e implantao do sistema nacional depatrimnio cultural, como um dos sistemas setoriais de cultura integrantesdesse sistema maior que o sistema nacional de cultura, , sem dvida, umgrande desafio. A meta estabelecer essa ao coordenada e essecompartilhamento de responsabilidades.

    Os Planos de Ao em processo de desenvolvimento no mbito do PACdas Cidades Histricas so o grande exemplo concreto de como isso podefuncionar de uma maneira muito positiva para a sociedade brasileira.

    Ento, este frum me faz lembrar uma reunio do Iphan que aconteceuem 2008, promovida em conjunto com o frum dos secretrios de Culturados estados. Fazia, naquela ocasio, cerca de vinte ou trinta anos, salvoengano, que o Iphan no promovia uma reunio com os gestores depatrimnio histrico dos estados e com os secretrios estaduais de Cultura,no sentido de fazer esse chamamento, convocar os estados para que juntocom os municpios e a Unio Federal articulassem o sistema nacional depatrimnio cultural. Ento, o I Frum Nacional do Patrimnio Culturalrealizado no ano de 2009, pelo Iphan, tambm um desses momentos paraaperfeioar, para avanar e para caminhar de forma mais efetiva em direoao dilogo, ao pacto.

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    IntroduoDESAFIOS E ESTRATGIAS PARA

    UMA NOVA GESTO DO

    PATRIMNIO CULTURAL

    Luiz Fernando de Almeida*

    RESUMOO texto faz uma reflexo sobre o momento de transformao pela qual

    passa o pas e evidencia a importncia da poltica de proteo ao patrimniocultural nesse contexto de reconstruo da identidade brasileira. Destaca aimportncia da atualizao dos conceitos que ampliaram o campo de aodo Iphan, que passou de mero gestor de bens tombados para, enfim,assumir seu papel de fomentador da poltica pblica cultural, responsvelpelo levantamento, valorizao e preservao de um patrimnio quepertence a toda a sociedade brasileira. O texto fala da importncia do PACdas Cidades Histricas e o aponta como um exemplo de conquista doIphan, por se tratar de uma ao do patrimnio cultural que foi levada parao seio da poltica pblica do governo federal.

    PALAVRAS-CHAVEPatrimnio, Transformao, Transversalidade.

    O pronunciamento de ngelo Oswaldo de Arajo Santos me fez lembrarde um jornalista e grande poeta, Mrio Faustino, que tem um poemafantstico, cujo nome O homem e sua hora. Creio que sempre isso, ohomem e as suas circunstncias. Acredito que a gente est com um grupode pessoas tentando responder, da melhor maneira possvel, ao desafio dedirigir uma instituio que tem essa carga para o bem e para o mal, que o Iphan.

    Eu gostaria de destacar o apoio de Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses,que tem sido, para mim, um grande professor. Na sua participao noConselho do Patrimnio Cultural Brasileiro ele sempre pontua umainflexo e uma ateno que, para mim, fundamental: ser um gestorpblico e, por outro lado, passar o tempo todo rediscutindo e pensando

    *Presidente do Iphan

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    l.1 nossos valores. Ou seja, um gestor pblico no campo do patrimnio, que

    trabalha com valor cultural, tem sempre um campo de reflexo paratrabalhar junto com uma objetividade. Ulpiano de Meneses sempre ponderaisso e, a meu ver, sua presena tem sido bastante importante.

    Quero agradecer a todos os participantes do I Frum Nacional doPatrimnio Cultural, saudando na pessoa de Weber Sutti, ocompartilhamento que existe entre todos ns na conduo da construodessa poltica de patrimnio. Acredito que estamos vivendo um momentode transformao e um momento de mudanas. Creio que em todomomento de transformao e de mudana, se formos capazes de criardentro de ns um espao de reflexo, ns conseguiremos dirigi-lo.Conseguiremos aproveitar esse momento e, na verdade, dar um salto alm.No nosso caso especfico, um salto alm na construo dessa poltica deproteo ao patrimnio.

    Acho necessrio tecer alguns comentrios para poder demonstrar esseprocesso de transformao. Primeiro, acredito que est superada uma visode desmonte que estava acontecendo do Estado brasileiro e,consequentemente, da instituio Iphan. Considerao que foi ponderadade forma muito clara por ngelo Oswaldo. O Iphan, uma instituio quetem a enorme atribuio de conduzir uma poltica de proteo aopatrimnio e, alm disso, de proteger o prprio patrimnio culturalbrasileiro, estava h quase vinte anos sem ter o ingresso de novas pessoas,num processo de reduo da sua capacidade oramentria, estava sereduzindo, se transformando numa instituio cuja estrutura se limitava aaes de licenciamento e de fiscalizao.

    Talvez, o grande exemplo desse processo todo seja o fato de que o grandeprograma de interveno, que se criou no patrimnio cultural das cidadesbrasileiras, o Monumenta, no tenha sido criado dentro da prpriainstituio Iphan. Mas, acredito que esse momento esteja superado. E essa uma circunstncia poltica, uma circunstncia social, que estamos vivendoe que precisamos aproveitar, ter a clareza do que est acontecendo, ter acapacidade de negociar no campo poltico, compreender essa transformaoe fazer desse processo de transformao um processo positivo para ainstituio e para a poltica de patrimnio.

    Outro aspecto de mudana o que trata da ampliao conceitual docampo do patrimnio. Acho que o Iphan rompeu uma viso, que aindaexistia, de que sua responsabilidade se limitava proteo dos bens que

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  • eram tombados e, fundamentalmente, os bens edificados. O Institutosuperou isso e coloca como perspectiva a conduo de um processo decriao e de gesto de uma poltica de patrimnio. Alguns elementos foramfundamentais nesse processo e, no meu ponto de vista, a constituio deuma poltica de patrimnio imaterial determinante porque amplia ocampo de ao da instituio. Hoje, o instituto pode existir comconsistncia em todo o territrio brasileiro, como em Roraima, Amap,independentemente de ter bens tombados ou no, ainda que deva ter benstombados. Mas o que pretendo enfatizar que o universo do patrimnio,sob o ponto de vista da ao da instituio, bastante diferente, ou seja,houve um redimensionamento do problema a ser enfrentado.

    E sobre o ponto de vista do tipo de problema, trata-se de enfrentar umproblema que, por natureza, vive em processo de transformao, isto , temuma natureza que no esttica, dinmica. E trabalhar com esse processode natureza dinmica implicou estabelecer uma metodologia, implicou terclareza sobre o que o processo de trabalhar com um bem cultural ou o que conhecer esse bem, o que estabelecer uma poltica de salvaguarda paraesse bem no caso, por exemplo, de trabalhar com bens culturais, comalguns recortes de ao que estavam muito ligados ao populismo poltico.Houve algo muito importante que foi o rompimento das relaes de gruposculturais, por exemplo, estabelecidas com o Estado na base de pago paravoc se apresentar naquela determinada festa.

    No campo do patrimnio material, acho que o conceito de paisagemcultural determinante tambm para se trabalhar com as ideias de dinmicasocial e transversalidade: ao, hoje feita pelo Departamento de PatrimnioMaterial e Fiscalizao, de tentar compreender um inventrio, trabalharcom inventrios que tenham carter regional no pas. Isso fundamentalnesse processo de transformao dessas aes no campo temtico quetambm tem uma natureza transversal, como o patrimnio naval, opatrimnio ferrovirio, que herdamos, aquele que pode ser considerado opatrimnio cultural que no vai ser tombado e que, mesmo assim, vamostrabalhar a sua gesto.

    Apresento tudo isso como uma ampliao do campo temtico dainstituio, que inclui ainda uma ampliao do repertrio instrumental.Repertrio que, a meu ver, importantssimo e que foi incorporado, porexemplo, pelo Monumenta, atravs de seu planejamento. A ao quefazemos numa cidade tem de ser uma ao pactuada e planejada, e esse

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    l.1 planejamento implica, tambm, a criao de instrumentos capazes de

    enfrentar todas as questes levantadas. Acredito, portanto, que, a partir doMonumenta, alguns instrumentos se incorporaram totalmente norepertrio do Iphan. Podemos citar, por exemplo, a necessidade de trabalhara requalificao urbanstica como uma parte essencial desse processo dequalidade, de qualificao das cidades histricas; o financiamento deimveis privados, talvez o maior desafio sobre o ponto de vista de criaode um novo instrumento para o Iphan, para a poltica pblica depatrimnio. E, diante disso, surge outro desafio, que esse financiamentode imveis privados ser incorporado como uma possibilidade de ao emtodas as cidades em que estamos trabalhando. Ento, esse universo todo deampliao conceitual, de ampliao de compreenso do momento polticoque estamos vivendo, de certa maneira, exemplifica o processo detransformao que est sendo aqui discutido.

    O momento de transformao e, portanto, a compreenso de todo esseprocesso faz com que, naturalmente, a gente precise mensurar os nossosdesafios. Talvez o desafio mais evidente, mais claro, mais perceptvel parans, hoje, seja a compreenso de que a poltica de patrimnio no podemais se conformar em ser uma poltica setorial; ela precisa ser uma polticatransversal. E podemos dar vrios exemplos para essa percepo, no s emrelao natureza do trabalho que enfrentamos para poder exemplificarisso, mas tambm em relao maneira como se organizam as polticassociais no campo do exerccio da poltica pblica.

    Se fizermos uma comparao com outras polticas do Ministrio daCultura, veremos que todas essas polticas setoriais se organizaram a partirda estrutura dos seus produtores. Percebemos os produtores de cinema, osprodutores de teatro, os produtores de arte visual se relacionando com aelaborao da poltica pblica, se relacionando com o Ministrio daCultura. J, ns, do patrimnio, nunca conseguimos nos organizar atravsdessas estruturas de classe. Isso sempre foi um problema, um limitador,porque, na verdade, a sociedade brasileira, depois de um processo deredemocratizao, acabou se organizando e estabelecendo a sua interlocuocom o Estado, atravs dessas formas de organizao. E o patrimnio notem uma estrutura classista, uma estrutura corporativa que d suporte a esseuniverso de pacto e de tenso sobre a poltica pblica. Acho que isso temum aspecto que, de certa maneira, limitou o patrimnio nesse processo depacto maior.

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  • Por outro lado, ficou mais claro, para todos ns, que a natureza daquesto do patrimnio era transversal e que a grande possibilidade dearticulao do campo do patrimnio cultural brasileiro se apresentava nosetor pblico. Era algo impressionante; isso que o Daniel Santana comentouque, desde os anos 70, na gesto do ex-presidente do Iphan, Renato Soeiro,de tentar construir uma poltica de criao de instituies estaduais, a genteno tivesse tido uma reunio com todos os rgos estaduais de preservaodo patrimnio. como se o patrimnio tivesse dito: Olha, h umatransversalidade, h uma competncia que compartilhada, mas ns vamosignorar essa competncia compartilhada sob o ponto de vista da nossaestratgia, do nosso planejamento.

    Talvez, esse seja um dos maiores desafios aqui apresentado, quer dizer,alm da incorporao de diversos outros setores que esto trabalhando nocampo da memria social, do patrimnio. O grande desafio pode ser, defato, como compartilhar no setor pblico. E ns estamos falando de umestado que tem uma poltica de cultura que fomentou uma poltica decriao, por exemplo, de conselhos de patrimnio. Minas Gerais tem cercade quinhentas cidades com conselhos de patrimnio e esses conselhos todosno passam pela nossa articulao, como parte do nosso processo deplanejamento.

    Creio que isso tambm tem uma relao direta com o processo queaconteceu nos ltimos anos articulao: a criao de estruturas definanciamento da poltica cultural brasileira, da cultura de produo, dacultura do Brasil, as quais no passavam pelo fortalecimento das instituiesque trabalham com a cultura brasileira. Talvez, a questo da Lei Rouanetseja, hoje, a mais evidente, a mais discutida na mesa, ou seja, a Lei Rouanetprescinde da poltica de financiamento majoritria do Ministrio daCultura, ela prescinde das instituies e da institucionalizao das polticasculturais para que se efetive um processo de transferncia de recursospblicos. No toa o que vimos acontecer nesses ltimos anos: oenfraquecimento ou a transformao de estruturas pblicas de cultura; naverdade, a transformao em estruturas que estavam intermediando projetosda Lei Rouanet. E tambm no foi a troco de nada que, nesse processotodo, quanto mais a Lei Rouanet se estabelecia como majoritria no campodo financiamento, mais se diminuam os oramentos pblicos,principalmente nos municpios e nos estados brasileiros. Ou seja, precisorestabelecer uma relao muito clara entre a sistematizao ou ainstitucionalizao da poltica pblica e o seu financiamento.

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    Por outro lado, destaco, ainda, outro grande desafio que est ligado aoque o prefeito de Ouro Preto e presidente da Associao Brasileira dasCidades Histricas, ngelo Oswaldo, mencionou: o fato de a instituio ea poltica de patrimnio terem, de certa forma, estabelecido a suaimportncia para a sociedade brasileira, a partir da construo da ideia deidentidade nacional. Isso sabido, o Brasil atrasa essa discusso deidentidade com relao a outros pases que se tornaram independentes nosculo XIX, na Amrica Latina. Ns tivemos uma situao absolutamentesingular que foi a vinda da famlia imperial portuguesa, transformando oBrasil em sede do Imprio portugus. E, depois, o prprio Imprio comdescendentes dessa famlia imperial portuguesa que, se por um lado criaum estado forte no Brasil, por outro, mantm a escravido at o final dosculo XIX e adia o processo de discusso dessa tal identidade brasileira,que acontece, exatamente, no comeo do sculo XX. Acredito que a polticade patrimnio foi importante para se criar uma ideologia do que essaidentidade. Acredito ainda que, de certa maneira, esse projeto vitorioso.

    No Brasil, ns entendemos e lemos a arquitetura, por exemplo, de OuroPreto no como uma arquitetura portuguesa, mas j como trao deindependncia intelectual e de pensamento dos brasileiros com relao metrpole. Isso representa um pensamento, uma independncia depensamento artstico e intelectual, que antecede um processo deindependncia poltica. Creio que, de certa forma, o patrimnio noconseguiu, na verdade, se recolocar em um discurso que o reinserisse nocampo das discusses polticas, no campo da discusso mais ampla dasociedade brasileira.

    No meu ponto de vista, essa questo se apresenta quando discutimosum modelo de desenvolvimento do pas. Quando, diante de um processode desenvolvimento como o que vivemos agora, o patrimnio teria algo adizer ou tem algo a dizer, tornando-se um parmetro nesse processo.

    ngelo Oswaldo tambm citou o processo de empobrecimento dascidades brasileiras. Sempre uso algo como exemplo, afirmando que, se agente tira uma foto, hoje, de uma cidade da periferia de Ouro Preto e umafoto da periferia de Belm, ou uma foto da periferia do Rio de Janeiro, todasesto crescendo de uma maneira absolutamente igual. E no estou falandosomente da periferia de baixa renda, eu estou falando, inclusive, dos bairrosda populao de alta renda e da classe mdia. Portanto, as cidades so todasiguais. Ou seja, o patrimnio no capaz de estabelecer um parmetro sob

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    o ponto de vista de identidade das nossas cidades, sob o ponto de vista derelao do homem com o meio. E, se o patrimnio tem algo a dizer, acreditoque este seja o momento, porque estamos vivendo esse processo.

    No campo, por exemplo, da arqueologia, somos cada vez mais acionadospara aes que esto acontecendo na direo amaznica do pas. Quer dizer,o nosso modelo cultural para a regio amaznica o mesmo modelo quetemos implantado na regio sudeste ou na regio nordeste do pas. Como que o pas vai discutir o seu modelo de desenvolvimento? O patrimniotem algo a dizer sobre isso? Se tiver, acho que conseguiremos nos recolocarcom outra importncia para a sociedade brasileira e que no se restringe auma importncia setorial.

    Avalio que, de certa maneira, esse processo de esvaziamento que houve,da discusso do campo do patrimnio, fez com que substitussemos osignificado das coisas pelas coisas em si. Vejo como demanda muito comumo dinheiro ou a capacidade de investimento para recuperar um sobrado oupara recuperar uma igreja, por exemplo, e vejo poucas discusses sobre aimportncia daquele meio urbano no processo de expanso ou decompreenso da cidade. Percebo que as prprias instituies de patrimniocontriburam para isso e vejo a maior parte das obras que fazemos comoum agente pblico qualquer, como se no tivssemos que explicitar osignificado das coisas que fazemos. Eu nunca vejo uma placa informandoque estamos restaurando um sobrado porque ele importante. Vejo placasque apresentam a empresa responsvel pela obra e o valor da mesma. Ouseja, esse processo de esvaziamento, de capacidade de articulao, de excessode necessidades, incluindo a de defender, tambm, as nossas condies detrabalho, foi eclipsando o sentido e a razo da nossa existncia como umainstituio que fomenta a poltica pblica de patrimnio cultural no pas.E, para isso, faz-se necessrio conseguir explicitar o significado das coisasque fazemos. E esse significado, no meu ponto de vista, vai alm de aesde educao patrimonial, formais e flderes, nos quais explicamos que oque est sendo feito mais do que isso. Tudo o que fazemos, na verdade,deve ser pela importncia daquilo que estamos fazendo.

    Ns deixamos de compartilhar com a sociedade a importncia dapreservao do patrimnio; preciso recuperar esse processo que, no meuponto de vista, o que vai dar novo significado para as nossas aes, criandolegitimidade social para o trabalho que j fizemos, que fazemos e quedevemos fazer.

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    Esse processo de criao de uma poltica de patrimnio, a meu ver, ,ento, absolutamente essencial. impossvel que o Iphan estabelea esseprocesso de uma maneira isolada. uma necessidade que esse processo sejacompartilhado e acredito que a criao do PAC das Cidades Histricas umaoportunidade nica para que, de fato, essa poltica seja exercida. Por qu?

    Porque o PAC pressupe uma ao transversal, no s sob o ponto devista de sua governana, a qual uma conquista inusitada, pois se trata deuma governana na Casa Civil em conjunto com o Ministrio do Turismo,o Ministrio das Cidades, o Ministrio da Cultura, o Ministrio daEducao e ns, do patrimnio, discutindo os Planos de Ao nas cidadeshistricas. Essa uma conquista que, h pouco tempo, no imaginvamosque pudesse acontecer. Mas, precisamos ir alm; esse processo precisa sercompartilhado com os estados, com os municpios, e mais, compartilhadocom a sociedade.

    O que aconteceu tambm, nesses ltimos anos no pas, foi oestabelecimento de uma poltica de patrimnio ambiental, oestabelecimento de uma poltica de cidades. Talvez, o Estatuto das Cidadesseja um dos instrumentos mais interessantes para se discutir; trata-se deuma poltica de interveno e a relao do Poder Pblico com as cidades.E, de certa forma, acho que o patrimnio no esteve presente nesse processode discusso. Ns no participamos como deveramos do processo deelaborao da poltica ambiental do pas, bem como do processo deelaborao da poltica urbana brasileira.

    Acredito que o PAC seja um instrumento para que tudo isso sejarepensado e para que sejamos inseridos nesse processo. Estou convicto deque uma oportunidade que no se pode perder. Por outro aspecto, o PAC transversal, ou seja, estamos trabalhando com territrios; estamostrabalhando com as polticas que vo ser colocadas nesse territrio. Trata-se de polticas que vm de todos os aspectos: da educao, do patrimnioimaterial, do patrimnio material. Isso quer dizer que o pacto feito atravsdo estabelecimento de uma espcie de agenda de patrimnio nessas cidades. fundamental, ento, o envolvimento e a compreenso de que esseinstrumento, que estamos chamando de PAC das Cidades Histricas, sejauma vitria nossa. Eu compreendo como uma vitria poltica porque, naverdade, foi o governo quem quis chamar de PAC das Cidades Histricas,movido pelo desejo de trazer para o seu seio, para o seu universo, talvezmais explcito da poltica pblica, uma ao setorial, uma ao do

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    patrimnio cultural. Considero isso importante; sintomtico desseprocesso de crescimento e de articulao que estamos vivendo e isso nosdeixa claro essa responsabilidade. Hoje, o PAC o nosso grandeinstrumento de planejamento; por isso, pretendo fazer todo o esforopossvel, e esse esforo s ter um bom resultado se for compartilhado comtodos vocs, para que esse processo, de fato, seja uma mudana de rumosdentro da instituio e na forma como a gente vem trabalhando at ento.O PAC, a meu ver, a maior oportunidade que se estabeleceu nesse perodo,no qual tenho o orgulho e o desafio de trabalhar nessa instituio.

    Considero este frum um momento que, na verdade, um processo cujoincio se deu com a nossa percepo de que precisvamos criar interlocutoresinstitucionalizados. Interlocutores no campo dos governos estaduais, nascidades histricas, nos municpios, na sociedade brasileira, para que o Iphanpudesse instituir uma interlocuo com maior organicidade, resultando emmais consequncias. Este frum, portanto, vem desse processo de percepoe de criao. um primeiro momento que, imagino, deve continuar. Naverdade, no tenho nenhuma expectativa de que consigamos estabelecer,neste momento, uma meta absolutamente clara do que ns vamos perseguir.Doravante, acredito, tenho essa expectativa, que consigamos compartilharum diagnstico das questes que estamos vivendo. E, ao compartilhar essediagnstico, possamos conseguir compactuar algumas direes para que,daqui a dois anos, na realizao de um novo frum, ele se configure comoum processo permanente de interlocuo e de planejamento.

    Desejo, ento, um bom processo de discusso e espero que consigamossair daqui com mais clareza e com mais certeza, com mais confiana e commais desejo de construir o sistema nacional de patrimnio culturalbrasileiro.

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  • O CAMPO DO PATRIMNIOCULTURAL: UMA REVISO DEPREMISSAS

    Ulpiano Toledo Bezerra de Meneses*

    RESUMOO objetivo da conferncia convidar a uma reflexo crtica permanente

    sobre certas premissas que orientam o trabalho no campo do patrimnio eque, por acomodao nossa, acabam por se desgastar ou se reduzem areferncias mecnicas. Inicialmente, apresenta-se como a desarticulaoentre prticas e representaes, acentuando estas ltimas, esvazia opatrimnio de seu contedo existencial e privilegia os perversos usosculturais da cultura, concentrados em segmentos parte do cotidiano e douniverso do trabalho. A seguir, discute-se a inconvenincia da polaridadeentre material e imaterial. Ao se examinar a Constituio de 1988, v-seque sua grande novidade, no tema, foi deslocar do estado para a sociedadee seus segmentos a matriz do valor cultural. Impe-se, assim, repensar oquadro de valores culturais vigentes e que precisaramos formular do pontode vista das prticas culturais e seus praticantes, no mais supondo que taisvalores sejam imanentes s coisas.

    PALAVRAS-CHAVEPatrimnio cultural, Matriz cultural, Categorias de valor cultural,

    Prticas culturais.

    Fiquei muito honrado e agradecido com o convite do presidente doIphan, Luiz Fernando de Almeida, para falar nesta sesso de abertura deum evento to importante como o I Frum Nacional do PatrimnioCultural. Fico agora um tanto preocupado, porque as falas que meprecederam foram perfeitas para uma sesso de abertura, foram capazes dedefinir horizontes, balizas, situar trajetrias, propor metas e, mais ainda,insuflar os nimos, alimentar o entusiasmo e recarregar as baterias para otrabalho que vir nos prximos dias. De minha parte, programei falar de

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    *Professor emrito daFFLCH/USP Conselheiro doConselho Consultivodo PatrimnioCultural

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  • problemas conceituais e de fundamentos que devem nortear nosso trabalhode especialistas do patrimnio cultural tema talvez pouco apropriado parauma abertura de evento e quase certamente menos apropriado ainda paraeste horrio tardio.

    No entanto, na disposio de ser til que escolhi o tema O campo dopatrimnio cultural: uma reviso de premissas. Sua formulao podeparecer um tanto pretensiosa, mas meu objetivo chamar a ateno para anecessidade indispensvel e urgente de manter permanentemente umaatitude crtica em relao a certas premissas que devem orientar a atividadeno campo do patrimnio cultural e que acabam por se desgastar, se banalizarou se perder em desvios. No pretendo dar lies ou doutrinar, nem mesmoser sistemtico, mas propor uma agenda de questes que, na minhaperspectiva, merecem aprofundamento crtico e reflexo continuada.

    Considerei oportuno tomar como referncia desta minha exposio umcartum publicado h muito tempo numa revista ilustrada francesa perdia pista, mas muito provvel que se trate de Paris-Match. Essa imagem meacompanha desde que comecei a me interessar pelo patrimnio cultural,pela sua capacidade de sintetizar uma srie de problemas com umaextraordinria fora de convico que s os artistas so capazes de obter(tenho a vaga memria de que o cartunista seria Semp).

    Nessa imagem, no interior hiertico, solene e penumbroso de umacatedral gtica (Chartres), aparece uma velhinha encarquilhada, de joelhosdiante do altar-mor, profundamente imersa em orao. Em torno dela, acontempl-la interrogativamente, dispe-se um magote de orientais, talvezjaponeses. A presena de um guia francs nos permite considerar que setrata de turistas em visita catedral. O guia toca os ombros da anci e lhediz: Minha senhora, a senhora est perturbando a visitao. Eis umretrato impressionante da perversidade de certa noo de patrimniocultural vigente entre ns.

    CULTURA: ENTRE PRTICAS E REPRESENTAESConviria comear por identificar as diferenas cheias de implicaes

    entre a velhinha, os turistas e o guia. Ela, ao que tudo indica, umahabitante do lugar que tambm abriga a catedral. Sua ao plenamenteterritorializada: nada nela indica que seu procedimento se dissocie dosdemais espaos contguos em que se desenrolaria sua vida cotidiana, acomear pelas roupas simples, do dia a dia e pelo fato de se encontrar

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  • sozinha, apesar das carncias trazidas pela idade. Alis, ela pode serrigorosamente considerada o prottipo do habitante para o que acotidianidade precondio.

    O verbo habeo em latim significa possuir, manter relaes com algumacoisa, apropriar-se dela. Com o acrscimo da partcula it, que indica reforo(como em salio, danar, pular e saltito, dar pulinhos), o verbo habitoacrescenta intensidade e permanncia a essas relaes. Hbito, habitualidadeexpressam bem essa noo de constncia, continuidade. Trata-se, portanto,de uma relao de pertencimento mecanismo nos processos de identidadeque nos situa no espao, assim como a memria nos situa no tempo: so asduas coordenadas que balizam nossa existncia. Consequentemente, arelao da velhinha com a catedral no deve ser pontual, de exceo ou quese consuma num momento privilegiado e depois no mais se repita, ou serepita de forma atenuada ou descontnua. A relao da velhinha existencial, pressupondo tempos dilatados (morar, moradia so palavras quetambm explicitam esse contedo de extenso temporal no habitar).

    J para os turistas, a atividade que executam se revela desterritorializada,secionada de seu cotidiano, opondo-se mesmo a ele, pois desprendida dehabitualidade. De qualquer forma, pressupe-se um fosso entre o cotidianodesses turistas e o tempo/espao comprimido da visita catedral.

    Alm disso, a forma de relacionar-se que habitante e visitantesdesenvolvem com o vamos chamar assim bem cultural funda-mentalmente diversa. A vida cultural, no caso da velhinha, pode serentendida como uma forma de qualificao pelo sentido e, portanto, comoraiz de interioridade e conscincia. Rompido, porm, o quadro dahabitualidade e da reiterao, o potencial de qualificao se restringiria. Masa fruio da velhinha profunda, vivenciada, e sua orao na catedral deveenvolver no s uma apropriao afetiva, como tambm, sem dvida,esttica, isto , perceptiva, j que o ambiente emite estmulos de toda aordem para aprofundar o tipo de ao que ela est praticando. Por certo,essa fruio tambm cognitiva: ela pode no ter conhecimentoespecializado, mas, ainda que possivelmente sem saber que sua catedral umextraordinrio exemplar da arquitetura gtica do sculo XII, deve apreendera antiguidade do templo, o que isso representa de trabalho embutido, deexperincias acumuladas ao longo do tempo, de enraizamento e refernciaspara o espao de sua cidade e de interao com seus vizinhos, com osfrequentadores e responsveis dos cultos, com a comunidade de fiis. Mais

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  • ainda, sua orao busca transcendncia e comprometimento, que envolvemdimenses profundas e abrangentes do ser, da subjetividade, de outrasesferas de sua existncia. Para ela, o bem cultural , antes de mais nada,um bem, quer dizer, coisa boa. Boa de conhecer, de ver, de sentir, deexperimentar como um vnculo pessoal e comunitrio e, finalmente, boa deusar, de praticar pragmaticamente um bom lugar para rezar.

    De seu lado, a fruio dos turistas consuma-se na mera contemplao deum lugar de culto, agora transformado em lugar de representao do lugarde culto: a catedral tornou-se bem cultural e essa perspectiva esvazia usosantigos e torna anacrnicas as prticas anteriores. A gama diversificada deapreenses possveis estreita-se, assim, ao limite da viso. Quase poderamosfalar de um voyeurismo cultural: o voyeur, com efeito, restringe suagratificao essencialmente viso e no se expe, no se compromete, emsuma, no muda. Seu espao de habitualidade, aquele em que astransformaes profundas podem ocorrer e se manter, no mobilizado.Mais precisamente, contudo, a reduo talvez nem seja viso, mas audio, j que os turistas ouvem distraidamente pois mais interessadosna anci o que o guia tem a dizer, ao invs de viver e de interagirdiretamente com o bem. So apenas informados sobre ele, necessitam damediao do guia. A experincia cultural, portanto, passa a depender daatuao de especialistas. David Horne, estudioso da public culture, diz queo padro das visitas guiadas o da transferncia: v-se aquilo que o guiadeclara que se est vendo. Seja como for, o envolvimento de nossos turistas nulo ou superficial, sobretudo externalizado.

    Estou, sem dvida, radicalizando os dois paradigmas, para melhoranalis-los, mas no ignoro a existncia, entre eles, de uma vasta escalaintermediria que, todavia, no o caso de desenvolver aqui. Assim, comos turistas, tem-se a cultura como um domnio parte na vida, embora setrate de um compartimento nobre e nobilitante, marcado por certo tipo deobjetos e prticas, que deteriam em si a prpria significao, j pronta eacabada. So espaos, tempos e comportamentos desejveis e prescritos,embora descontnuos e, em regra, excludos do cotidiano e do universo dotrabalho, duas referncias que marcam contextos essenciais da existnciahumana. Constituem focos de condensao, que podem atingir picos deintensidade, mas depois se esvaziam: a cultura-clica. Ao espasmo segue-se o descongestionamento progressivo e a volta ao ponto de partida. acultura dos produtos culturais, dos produtores, consumidores, equi-

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  • pamentos, instituies, espaos, organismos, rgos pblicos, mercados.Seria dispensvel observar que tal entendimento, dominante entre ns, o que melhor atende ao mercado simblico, parte importante do mercadotout court.

    Em contraponto, com a velhinha, a cultura se apresenta no como essesegmento recortado da vida, mas como uma forma de qualificardiferencialmente (pelo sentido, pela significao, pelo valor) qualquer fatia,instncia, tempo, objeto ou prtica. O uso que a velhinha faz do bemcultural qualificadamente existencial, por oposio ao uso cultural dosturistas. O uso cultural da cultura ao invs de estabelecer uma interao dasrepresentaes e prticas, privilegia as representaes que eliminam asprticas. O simblico substitui as condies concretas de produo ereproduo da vida.

    De passagem observo que a poltica de patrimnio imaterial que o Iphanvem desenvolvendo procura reconhecer que o campo cultural diz respeito totalidade da vida social, quando diferencialmente qualificada (pelossentidos, valores). Linhas de ao, como sistemas agrcolas tradicionais,por exemplo, so capazes de articular organicamente facetas primeira vistato alheias cultura, quando ela equivocadamente entendida como umagaveta parte.

    Uma palavra quanto aos turistas. Seria perverso pretender negar acessoa valores que podem ser partilhados e cuja partilha, alis, deveria serincentivada. O que bom para ser dividido e se trouxer benefcioseconmicos, tanto melhor. Da mesma forma, porm, seria perverso admitirque o regional, o nacional ou o universal, para se realizarem, esvaziem outroslegtimos sentidos e prticas originais locais, que no correspondem mais auma nova ordem de interesses. O comportamento da velhinha, de fato, transgressor, ela de fato perturba a visitao e est deslocando a ateno dosvisitantes pelo seu anacronismo. Tal modalidade de musealizao, deculturalizao funciona, assim, precisamente como vetor de especializaodos benefcios que os bens culturais poderiam produzir. Pior seria eessa situao no propriamente excepcional que bens declarados de valormundial fossem ignorados pela populao local (salvo como mercadoria!):como pode algo valer para o mundo todo, se no vale para aqueles que delepoderiam ter a fruio mais contnua, mais completa, mais profunda?Como pode o patrimnio mundial no ter, antes, valor municipal? (Estafrase dedicada ao prefeito ngelo Oswaldo).

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  • Alis, necessrio repensar a escala de alcance dos bens culturais(municipal, estadual, federal), quase sempre definidos a partir de critriosjurdico-administrativos ou quantitativos ou segundo apenas a extensoespacial da ocorrncia. Lembro-me de um poema de Carlos Drummond deAndrade:

    O poeta municipal

    discute com o poeta estadual,

    qual deles capaz de bater o poeta federal.

    Enquanto isso, o poeta federal tira ouro do nariz.

    O presidente Luiz Fernando de Almeida lembra, tambm, que, quandoOuro Preto ganhou o ttulo de Monumento Mundial, Carlos Drummondde Andrade saiu-se com essa no Jornal do Brasil: Qualquer dia Ouro Pretovira monumento interplanetrio e continuar com os mesmos problemas.

    preciso introduzir outros critrios para avaliar os crculos concntricosde pertinncia e interesse do bem, que possam antes de mais nada definirseu potencial de interlocuo. A grade referncia deveria ser esse potencialde interlocuo, comeando sempre com os interlocutores locais.

    MATERIALIDADE / IMATERIALIDADEVoltando imagem, o que nela se v uma anci e um grupo de turistas

    orientais que tm em comum o fato de estarem onde esto, emborareagindo ao ambiente de formas muito diferentes mas se referindo sempreao mesmo objeto material complexo: a catedral. Esse mesmo objeto temsignificados diversos, em cada caso. Para os turistas, ele tende, como jdissemos, a dispor de significados em si, estveis, fixos, definidos, que noso identificados e frudos diretamente, mas pela informao especializadado guia. como se esses significados fossem imanentes coisa, masnecessitassem da mediao de um profissional para produzir efeitos. Para avelhinha, tudo leva a crer que a catedral um vetor de significaesmltiplas, que no so inerentes coisa, mas geradas dentro e fora dela,naquela teia de relaes a que tambm acima aludi. Para a apropriaoespecfica que ela tem da catedral (lugar de orao), a velhinha contaria comoutras possibilidades: orar uma forma espiritual de comunicao que noexige um lugar especfico. Mas que pode ser enriquecida, potenciada,qualificada pela mediao de lugares especficos, como nossa catedral gtica.

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  • Portanto, essa forma espiritual de comunicao se potencia pelo aportematerial do lugar, que fornece os estmulos prprios, inclusive as imagense objetos sacros carregados de contedos simblicos, o todo acentuado pelasmarcas do hbito, da interao, da memria, etc.

    Assinalei a forma espiritual de comunicao, contudo no estouesquecendo que no apenas seu esprito que est empenhado no ato deorar, mas tambm todo seu corpo. Postura, fisionomia e se a imagemchegasse a esse ponto de preciso quem sabe at mesmo o movimentodos lbios que to comumente serve de lastro para o que vai na alma do fiel.A boca (os, oris em latim) um dos rgos da orao.

    Podemos concluir que o patrimnio cultural tem como suporte, sempre,vetores materiais. Isso vale tambm para o chamado patrimnio imaterial,pois se todo patrimnio material tem uma dimenso imaterial designificado e valor, por sua vez todo patrimnio imaterial tem umadimenso material que lhe permite realizar-se. As diferenas no soontolgicas, de natureza, mas basicamente operacionais.

    A Constituio Federal de 1988, ao introduzir uma listagem decategorias de patrimnio cultural, incluiu o patrimnio intangvel,caracterizado mais por processos do que por produtos, como formas deexpresso, modos de criar, fazer viver, os quais, porm, se examinarmos maisde perto, pressupem mltiplos suportes sensoriais, incluindo o corpo. Osconstituintes talvez nem tivessem conscincia de que, desse modo, estavamincluindo o corpo como partcipe do patrimnio cultural! O saber-fazer,por exemplo, no um conhecimento abstrato, conceitual, imaterial,filosfico ou cientfico, mas um conhecimento corporificado. Osespecialistas falam de uma memria-hbito ou memria corporificada(embodied memory). a memria que nos permite guiar um veculo ouandar de bicicleta como se fossem aes geneticamente previstas em nossoprograma biolgico. a memria do msico, da cozinheira, do arteso.Seja como for, embora no convenha alterar a nomenclaturainternacionalmente corrente, seria desejvel que, ao utilizarmos a expressopatrimnio imaterial a despssemos de qualquer polaridade com umpatrimnio material.

    No filme Kenoma de Eliane Caff, 1998, quando um ajudante levantarestries intelectuais a um matuto, cujo sonho obsessivo era construir umamquina de moto-perptuo, este replica que a mente podia ser pobre, masa mo ia fazendo e o crebro acompanhando. Bate com o que Marcel

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  • Mauss, um dos heris fundadores da antropologia, pensava do homemcomo o animal que pensa com as mos. por esse caminho que valeriaapenas conduzirmos as relaes do material e do imaterial.

    Daniel Miller, antroplogo pesquisador da cultura material, aponta umparadoxo crucial nessa rea: a imaterialidade s pode se expressar porintermdio da materialidade. Para completar, o filsofo da tcnica, BernardStiegler cunhou a expresso materialismo espiritualista para referir-sequele que no diz que o esprito redutvel matria, mas que a matria a condio do esprito em todos os sentidos da palavra condio. Impe-se, pois, superar dualismos insustentveis, como esse em que matria eesprito so mutuamente excludentes.

    Qual o fundamento dessa perspectiva? A resposta precisa: nossacondio corporal. Outro antroplogo especialista na cultura material, Jean-Pierre Warnier, insiste em que no basta dizer que temos um corpo; necessrio precisar que somos um corpo. Quer dizer, essa a maneira deestarmos no mundo, neste mundo.

    Aqui est, pois, o corao de nosso problema: falar e cuidar de bensculturais no falar de coisas ou prticas em que tenhamos identificadosignificados intrnsecos, prprios das coisas em si, obedientementeembutidos nelas, mas falar de coisas (ou prticas) cujas propriedades,derivadas de sua natureza material, so seletivamente mobilizados pelassociedades, grupos sociais, comunidades, para socializar, operar e fazer agirsuas ideias, crenas, afetos, seus significados, expectativas, juzos, critrios,normas, etc., etc. e, em suma, seus valores. S o fetiche (feitio) tem emsi, por sua autonomia, sua significao. Fora dele, a matriz desses sentidos,significaes e valores no est nas coisas em si, mas nas prticas sociais. Porisso, atuar no campo do patrimnio cultural se defrontar, antes de maisnada, com a problemtica do valor, que ecoa em qualquer esfera do campo.

    VALORPortanto, essa seria uma questo central, a demandar tratamento

    adequado que ainda no recebeu em nossa formao especializada. Fala-se muito em valor, mas raro que se saiba, precisamente, do que se estfalando e de suas consequncias. Por certo, no este o momento de traaruma smula da problemtica do valor, questo espinhosa e que demandariatempo. Ou de examinar a inconvenincia das categorias usuais de valor

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  • arquitetnico ou valor histrico, por exemplo. Irei diretamente para aquesto nuclear: a matriz do valor. Se o valor sempre uma atribuio,quem o atribui? Quem cria valor?

    Vale a pena reproduzir o famoso artigo 216 de nossa Constituio de1988, pois ela toca diretamente nesse ponto:

    Constituem patrimnio cultural brasileiro os bens de naturezamaterial e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto,portadores de referncia identidade, ao, memria dosdiferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais seincluem... (e a vem uma listagem de modalidades).

    Entre os profissionais, costuma-se considerar que a grande novidadeoferecida por esse artigo a incluso dos bens de natureza imaterial. Naverdade, o que radicalmente novo no uma extenso do horizonte dopatrimnio, mas um deslocamento da matriz. Para melhor aferir aamplitude dessa rotao de 180 convm confront-la com a legislaoanterior. O Decreto-Lei 25/1937 (que organizou o patrimnio no Brasil eainda serve de guia) estatui:

    Art.1 Constitui o patrimnio artstico e histrico nacional oconjunto dos bens mveis e imveis existentes no pas e cujaconservao seja de interesse pblico, quer por sua vinculao a fatosmemorveis da histria do Brasil, quer por seu excepcional valorarqueolgico ou etnogrfico, bibliogrfico ou artstico.

    E o pargrafo 1 completa:

    Os bens a que se refere o presente artigo s sero considerados parteintegrante do patrimnio histrico e artstico nacional, depois deinscritos separada ou agrupadamente num dos 4 Livros do Tombo,de que trata o art. 4 desta Lei.

    Em outras palavras, era o poder pblico que institua o patrimniocultural, o qual s se comporia de bens tombados. O tombamento,portanto, tinha papel instituinte do valor cultural daquele valor quecredenciava a incluso do bem num rol formalmente definido. Ao inverso,a nova Constituio Federal reconheceu aquilo que posio corrente, hmuito tempo, nas cincias sociais: os valores culturais (os valores, em geral)no so criados pelo poder pblico, mas pela sociedade. O patrimnio antes de mais nada um fato social essa afirmao, nos rgos de

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  • preservao, nas dcadas de 1970 e 1980, provocava escndalo e alimentavamal-entendidos.

    claro que o estado e o governo podem participar da criao dessesvalores, privilegiando ou marginalizando uns e outros, mas sempre no jogodas prticas sociais. Estas que so o ventre gerador. O poder pblico,agora, tem um papel declaratrio e lhe compete, sobretudo, proteo, emcolaborao com o produtor de valor, a comunidade (para usar um termoproblemtico pela sua ambiguidade e utilizado pelo constituinte).Entretanto, mesmo sem qualquer interveno do poder pblico, existe opatrimnio cultural nacional.

    No entanto, consolidou-se entre ns uma prtica esquizofrnica, em queas novas diretrizes constitucionais parecem valer s para o patrimnioimaterial e as antigas, que foram constitucionalmente invertidas, continuamem vigor nas aes relativas ao patrimnio material. A, continuamos atrabalhar como se o valor cultural fosse identificvel exclusivamente a partirde certos traos intrinsecamente presentes nos bens. deslocamento designificados, reificao, fetichizao. Se fosse aceitvel, bastaria um contadorGeiger para bens culturais, cuja agulhinha girasse emocionada diante deum belo exemplar que ostentasse uma porcentagem determinada desintomas, numa checklist capaz de identificar essncias presentes nacoisa/prtica. Tambm se observa certa esquizofrenia na personalidadeautnoma do patrimnio material e do imaterial esquizofrenia que, alis,se reflete no interesse das comunidades que solicitam o registro deexpresses de seu patrimnio imaterial, e que procuram reconhecimento,afirmao, estmulo autoestima e, de outro lado, a reaofrequentemente negativa ou, no mnimo, o desinteresse dos interessados(antes de mais nada os proprietrios), quando se trata de bens arquitetnicosou espaos urbanos. A fora da especulao imobiliria, neste ltimo caso,no razo nica e suficiente para gerar tal resistncia. Desconhecer osmecanismos de funcionamento da sociedade tambm tem parte naresponsabilidade.

    Estaramos diante de uma nova polaridade: valor tcnico versus valorsocial? No ainda, mas o risco est presente. Por isso, julgo prementecomearmos a rever nossa postura a respeito do valor e da avaliao(reconhecimento do valor), sem excluir a perspectiva do especialista,obviamente, mas sempre privilegiando aquela do usurio, do fruidor emoutras palavras, a perspectiva da velhinha do cartum. Ela, em ltima

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  • instncia, produtora do valor em causa e que ela tem o direito e agratificao de fruir. Sem entrar em detalhes, gostaria de propor aqui umroteiro para tal avaliao, que permitisse identificar componentes oureferncias do valor cultural. Embora se deva tratar o patrimniounificadamente, sem distinguir as categorias de material, imaterial, natural,ambiental, histrico, arquitetnico, artstico, etc., a imagem que nos servede guia condensar na catedral a referncia bsica, que pode ser estendidas demais categorias.

    Penso nos seguintes principais componentes do valor cultural: valorescognitivos, formais, afetivos, pragmticos e ticos. Preliminarmente, porm,vale acentuar que tais componentes no existem isolados, agrupam-se deforma variada, produzindo combinaes, recombinaes, superposies,hierarquias diversas, transformaes, conflitos.

    I) VALORES COGNITIVOS

    Se (ou quando) a catedral de nosso cartum tiver condies deconhecimento, ou constituir oportunidade relevante de conhecimento qualquer conhecimento ento o valor dominante, a, cognitivo. Por seuintermdio pode-se conhecer o conceito de espao que organizou o edifcio,seus materiais e tcnicas, seu padro estilstico; podemos traar os efeitos dosinteresses em causa na sua projetao, as condies histricas (tcnicas,econmicas, polticas, sociais, culturais) de sua construo, usos eapropriaes, os diversos agentes ou categorias sociais envolvidos, suatrajetria, sua biografia. O bem est sendo tratado, ento, comodocumento, ao qual se dirigem questes para obter, como resposta,informao de mltipla natureza. um valor de fruio basicamenteintelectual.

    II) VALORES FORMAIS

    Quando, porm, essa mesma catedral percebida (ou tambm percebida) no tanto como documento, no tanto para produzirinformao, mas como oportunidade qualificada para gratificarsensorialmente e tornar mais profundo o contato de meu eu como omundo externo ou transcendente, ento o valor predominante oformal ou esttico.

    Estou tomando esttico no sentido original, tomado do grego. Asthesissignifica percepo. No estou me referindo beleza, bela forma, aossistemas do belo, cnones historicamente mutveis, no universais. A

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    l.1 esttica diz respeito a essa ponte fundamental que os sentidos fornecem

    para nos possibilitar sair de dentro de ns, construir e intercambiarsignificados para agir sobre o mundo. Trata-se, no caso, do efeito dapresena, nos objetos, de atributos capazes de aguar a percepo, de levara uma apreenso mais profunda, de induzir a produo e a transmisso maisamplas de sentidos alimentados pela memria, convenes e outrasexperincias qualificando minha conscincia e meu agir. A esttica, assim, uma mediao que nos faz humanos. Isso no coincide com estilos,embora atributos formais dos estilos possam, precisamente, aguar minhapercepo, qualificando-a.

    III) VALORES AFETIVOS

    Os valores que costumamos chamar de histricos (mas relacionados memria e no a conhecimento controlado) estariam mais bemenquadrados na categoria de valores afetivos. No so propriamentehistricos, j que se trata de formulao de autoimagem e reforo deidentidade. So afetivos, pois constam de vinculaes subjetivas que seestabelecem com certos bens, como ocorre certamente e intensamente com a velhinha. Aqui bom lembrar: memria e Histria nem coincidem,nem so duas faces da mesma moeda. Por isso, se se tratar de Histriacomo produo crtica de conhecimento, estamos no domnio dos valorescognitivos (o primeiro mencionado). Se se tratar de carga simblica e devnculos subjetivos, como o sentimento de pertena ou identidade, odomnio dos valores afetivos. No ignoro que memria e Histriapartilham de vrios atributos comuns, inclusive de carter subjetivo ecognitivo, sem, todavia, afetar a distino acima proposta. Quanto aosvalores afetivos, sua aferio no pode confundir-se com pesquisas deopinio, muito menos com a adeso a abaixo-assinados e manifestaesequivalentes. Envolve mecanismos complexos, como as representaessociais e o imaginrio social, para os quais a psicologia social desenvolveumtodos de pesquisa adequados. Em tempo: a prpria noo de histricoadotada pelo Decreto-Lei 25 vai na direo do valor afetivo, quandoseleciona objetos que so contaminados pelo contato com eventos epersonalidades; nada impede, contudo, que eles possam ser alvo de valorescognitivos, se tratados como documentos. Em ltima instncia,documento todo suporte emprico capaz de responder a uma perguntado observador o que os leva muito alm daquilo que poderamos chamarde documentos de nascena.

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  • IV) VALORES PRAGMTICOS

    So mais que valores de uso. De novo a velhinha: ela, certamente, aoprocurar o templo para sua orao, embora no fosse indispensvel, deve terpercebido como suas condies de uso disponvel so capazes derelevantemente qualificar sua prtica, por causa tambm de valorespragmticos. Para dizer com outras palavras: valores pragmticos so valoresde uso percebidos como qualidades. Tais valores so comumentemarginalizados ou ignorados entre ns, com significativa frequncia. Noestranha, pois vivemos numa sociedade que ainda no superou a heranaescravista, em que o trabalho e o trabalhador no gozam de cidadania plena,em que criada quer dizer empregada e em que elevador de servio querdizer elevador de servial. E em que o desperdcio chega a 15% do PIB,em que o reuso no tema relevante nas escolas de arquitetura e assim pordiante.

    V) VALORES TICOS

    So aqueles associados no aos bens, mas s interaes sociais em que elesso apropriados e postos a funcionar, tendo como referncia o lugar dooutro. A postura do guia, no cartum, revela que tal valor no faz parte doscritrios que do rumo s suas aes. Uma discusso sobre os valores ticosexigiria o tratamento de questes espinhosas como o relativismo (cognitivo,cultural, moral), assim como os direitos culturais em face dos direitoshumanos questes que no cabem neste contexto. preciso, todavia,apontar que, se o direito cultura o direito diferena, esta s temlegitimidade quando capaz de dialogar e produzir transformaes mtuas.

    Sem isso, o multiculturalismo, de que tanto se fala, muitas vezes pode setransformar numa cortina de fumaa em que certo universalismo (queparadoxalmente permite a diversidade) mascara normas, valores e interesses como no deixaram de observar socilogos, antroplogos e filsofos quetrataram do assunto, tais como Birkhu Parekh ou Charles Taylor, porexemplo. Por isso, conveniente, hoje, distinguir diversidade cultural dediferena cultural. Homi Bhabha incisivo ao dizer que a tradio liberal(particularmente no relativismo filosfico e antropolgico) tornou pacficae generalizada a ideia de que as culturas so diversas e que, de certo modo,a diversidade das culturas algo bom e positivo em si e por si e deveria serautomaticamente endossada. Assim, seria lugar comum das sociedadesdemocrticas dizer que incentivam e acomodam a diversidade cultural. Naverdade, porm, o sinal de uma atitude civilizada nas sociedades

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  • ocidentais, como notam esses autores, a habilidade de apreciar culturasdiversas, mas como num museu imaginrio. Quando as culturas saem domuseu e a diferena cultural (e no mais apenas a diversidade cultural) passaa ser um dos componentes ativos das tenses sociais, o encorajamento dadiversidade cultural se acompanha de mecanismos de conteno dadiferena cultural. Em outras palavras, tem ocorrido, com os mesmossujeitos, que a diversidade cultural possa ser grandemente apreciada nosmuseus, embora rejeitada na interao social. A reao diante de traosculturais e diante dos prprios portadores da cultura pode no coincidir.

    Para finalizar estas reflexes sobre valor, penso oportuno dizer algo sobreantinomia corrente que ope o valor cultural ao valor econmico (valor detroca). Na perspectiva que desenvolvi, no h qualquer antagonismo. Huma dimenso econmica no bem cultural, assim como uma dimensocultural no bem econmico. Haja vista ao que foi entre ns a cultura dainflao e a percepo do sequestro da poupana, no Plano Collor, comoatentado memria, detectada em escala no desprezvel de poupadores. Aoposio existe, sim, entre a lgica da cultura (que uma lgica definalidade, em que a produo do sentido e da comunicao que constituiprioridade, como acentua Garca Canclini) e a lgica de mercado (que tendea instrumentalizar a cultura, na obteno do lucro).

    CONCLUSOO campo dos valores no um mapa em que se tenham fronteiras

    demarcadas, rotas seguras, pontos de chegada precisos. , antes, uma arenade conflito, de confronto de avaliao, valorao. Por isso, o campo dacultura e, em consequncia, o do patrimnio cultural, um campoeminentemente poltico. Poltico, no no sentido partidrio, mas no de plis,a cidade dos gregos, isto , aquilo que era gerido compartilhadamente peloscidados; a expresso correspondente entre os romanos, res publica,representa a outra face da moeda: a coisa comum, o interesse pblico. Ademocracia garante direitos e acesso; a repblica, finalidade eresponsabilidades. A cidadania haveria de ser obrigatoriamente democrticae republicana e instaurar direitos e as correspondentes obrigaes.

    Nesse patamar, no basta um tratamento tcnico-cientfico das questes:ele nunca dar conta de toda a problemtica presente. O que prprio dessecampo aquilo que Apel e Habermas chamam de tica do discurso: a baseracional e universal dos princpios da ao, partindo da forma de

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  • comunicao lingustica humana e da modalidade especfica que aargumentao, o convencimento, a demonstrao. No a exibio deaxiomas e razes universais ou das lgicas profissionais (corporativas)absolutas. Como os valores no esto previstos geneticamente, mas socriados, eles precisam ser enunciados, explicitados, fundamentados e podemser propostos, recusados, transformados no impostos.

    Desse modo, a atividade no campo do patrimnio cultural complexa,delicada e trabalhosa. Exige postura crtica rigorosa. Exige capacidade de iralm de suas prprias preferncias pessoais. Mas por isso tambm tofascinante e gratificante, pois estamos tratando, no de coisas, mas daquelamatria-prima os significados, os valores, a conscincia, as aspiraes edesejos que fazem de ns, precisamente, seres humanos.

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    RESUMOUm balano da atuao do Iphan nos ltimos anos e os desafios do

    instituto diante do momento em que a sociedade civil se articula paraparticipar das polticas pblicas de cultura. Evidencia a necessidade de queos gestores do patrimnio assumam seu papel no processo de consolidaode uma poltica de transversalidade, capaz de retirar aes do Iphan doisolamento e integr-las aos instrumentos de planejamento existentes, hoje,na sociedade brasileira. O plano de ao do PAC das Cidades Histricas apresentado como um modelo para essa nova fase do Iphan, na qual umaao conjunta com as esferas municipais, estaduais, o governo federal e,principalmente, com a sociedade o principal objetivo.

    PALAVRAS-CHAVEPlanos de Ao, Transversalidade, Articulao.

    Farei uma rpida apresentao e falarei mais detalhadamente sobre asbases de uma poltica integrada. Serei, na verdade, o porta-voz de umtrabalho coletivo que tem sido desenvolvido nos ltimos anos pelo Iphanem diversas frentes e que consolida este momento. Um momento que,acredito, seja de formao de um pacto, no digo de diretrizes, mas de umapactuao que representa um desejo muito profundo de transformao.Trata-se da busca de condies para criar uma poltica sobre a qual, alis, aprovocao de Ulpiano de Meneses foi muito pertinente, ao falar de umapoltica mais cotidiana, capaz de trazer a gesto do patrimnio cultural parao dia a dia de todos ns.

    BASE PARA POLTICAS INTEGRADASDE PRESERVAO DO PATRIMNIO

    CULTURAL, DESENVOLVIMENTOSOCIAL E ECONMICO

    Weber Sutti*

    *Weber Sutti -Assessor daPresidncia doIphan

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  • Acredito que, quando se fala da questo do patrimnio cultural, muitocomum a ideia de que todos os profissionais do patrimnio vivenciam eenfrentam, no seu cotidiano, vrias demandas. Principalmente, porque agesto do patrimnio cultural envolve desde o proprietrio de umpatrimnio protegido at um governador e um prefeito, o que quer dizerque envolve interesses muito diversos, inclusive, o do setor privado,interessado em fazer novos empreendimentos e, consequentemente, trazerinvestimentos. Essa pluralidade de atores como demanda de expectativastotalmente difusas sobre o patrimnio cultural gera, hoje, uma situaoconflitante que no tem base de pactuao.

    Alm disso, temos graus de responsabilidade pela gesto, tambm nocompartilhada e no pactuada, do patrimnio cultural. Ou seja, em algunslugares, voc tem um rgo estadual, um rgo municipal e o Iphan, massem relao de procedimentos. Ento, um projeto que aprovado por umrgo municipal, no aprovado pelo rgo estadual ou pelo Iphan. E, svezes, essa falta de coeso nos procedimentos leva a um deixa que eu deixoou a um jogo de empurra. Por exemplo: uma pessoa vira para oproponente de uma determinada ao e fala: Eu permiti, quem nopermitiu foi aquela pessoa, foi o Iphan... E isso gera um grande prejuzopara quem est, de fato, interessado em fazer transformaes ou aes depreservao ou, ainda, a consolidao das nossas cidades.

    O fato que essas coisas acontecem porque existem diferentes enfoquese entendimentos sobre a questo do patrimnio. O que pode ser feito nagesto de um bem protegido? O que pode ser feito numa cidade histrica?Essa falta de entendimento comum na forma de trabalhar o patrimniotem a ver com a discusso que o professor Ulpiano Bezerra de Menesesprops sobre a questo dos valores ticos. Principalmente, quando a questo definir o que pode e o que no pode ser feito na gesto do patrimnio, oudeterminar quando esse bem tem valor. Pelo fato de ser legalmenteprotegido ou pelo fato dele ter significado? E para esse bem ter ou mantersignificado, quais so as transformaes necessrias?

    Acredito que essa falta de entendimento da atuao em relao aopatrimnio cultural , portanto, o que gera essa espcie de jogo deempurra, essa falta de coeso entre as polticas de patrimnio cultural. E,ao mesmo tempo, o patrimnio cultural um bem da sociedade, um bemda coletividade, ele um bem pblico maior. Assim, a partir do conceito dobem pblico, ele pertence a todos e a ningum, ou seja, ningum pode se

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  • arrogar dono desse bem. Definir, portanto, diretriz para ele, indepen-dentemente de um pacto de ao maior, um desafio porque todos, aomesmo tempo, querem fazer essa gesto, o que gera uma srie de atritos.

    Poderia citar milhares de casos e, acho que ontem, o prefeito ngeloOswaldo, presidente da Associao Brasileira de Cidades Histricas, tambmcitou uns dez casos exemplares desses interesses difusos do bem pblico e dobem privado. Sem contar a questo da transversalidade, a qual julgo serfundamental. H algum tempo, a gesto do patrimnio cultural tem sidofeita num quadro muito especfico que so os rgos de gesto no patrimniocultural. Ou a gesto do patrimnio cultural rompe e consegue se inserir natransversalidade da atuao poltica, da gesto poltica dos rgos e dosdiversos atores que atuam na sociedade, ou ficaremos muito restritos.

    O presidente Luiz Fernando de Almeida tambm comentou o fato determos definidos, claramente, os setores de atores que atuam nos museus,que atuam na dana, porque so os produtores, so as pessoas que tm,naquela finalidade, o seu objeto de atuao. Ao contrrio da rea dopatrimnio, cuja rede de atuao muito dispersa. A falta de coeso entreos atores que atuam sobre o patrimnio cultural, bem como no discursopara colocar a gesto do patrimnio em pauta para os governos e para asprprias aes propostas, gera uma confuso que nos leva, muitas vezes, aperder a voz ou a falarmos sozinhos.

    Mas, ao mesmo tempo em que se tem esse problema de formao depactos de ao conjunta, essa falta de compartilhamento e de uma estruturacomum de gesto no patrimnio cultural, tem-se um quadro atual que no ruim. Interessante: se observarmos as outras esferas federativasperceberemos que todos os estados tm uma estrutura prpria de gesto dopatrimnio cultural. Das 173 cidades histricas que temos considerado,depois eu vou explicar o critrio, mais de 50% possuem um rgo especficode gesto no patrimnio cultural. Isso relevante, considerando que 70%dessas cidades tm menos de 50 mil habitantes, tratando-se, portanto, depequenos municpios que tm as dificuldades de gesto que todosconhecem. Sem contar que mais de setecentos municpios tm, hoje, noBrasil, conselho de patrimnio. Que se considere o fato de quinhentasdessas cidades serem mineiras. O fato que existem 240 cidades no Brasilcom um conselho especfico de patrimnio cultural. Nmeros bastanteexpressivos se compararmos com outros setores da poltica pblica.

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  • Isso quer dizer que temos, de certa forma, uma rede que est atuando eque 40% dos recursos que so investidos no patrimnio cultural vm deiniciativas da sociedade civil, por meio do Programa Nacional de Apoio Cultura (Lei Rouanet). So, portanto, iniciativas que a sociedade prope eque so financiadas. Ou seja, percebemos que existe uma rede estabelecida,uma rede que atua e que direciona um tero dos investimentos executadosem patrimnio cultural. O que est faltando, ento, para termos, de fato,uma poltica?

    Acredito que est faltando conseguirmos compartilhar nossa atuao,criar uma forma de trabalhar que seja capaz de superar essa fragmentaoentre os diversos nveis de governo, alm do governo com a sociedade.Costumamos trabalhar s para ns, temos, ento, de constituir umplanejamento e uma forma de implementar as polticas de patrimniocultural que consiga otimizar nossas aes e recursos. E, quando falo emrecursos, no estou me restringindo aos recursos financeiros, estou mereferindo tambm aos recursos humanos, logsticos, de comunicao.Afinal, temos de estar conscientes de que ou compartilhamos nossa formade fazer poltica, os nossos procedimentos, ou teremos um trabalho dobradoque desgasta a todos e no gera resultados. Pelo contrrio, gera umaduplicidade que, muitas vezes, pode gerar ambiguidade e levar ao descrditoda prpria poltica de preservao do patrimnio cultural. Tal situaoevidencia que temos como desafio buscar esse compartilhamento, essaatuao integrada. Mas, buscar uma atuao e um compartilhamento maisintegrados para qu?

    Vejo que essas metas tm de ser muito claras. Se no tivermos claro onosso objetivo, a constituio de um sistema de atuao no servir paranada. Devemos estar conscientes de que essa gesto compartilhada eintegrada que ser capaz de estabelecer estratgias de preservao nopatrimnio, projetos ligados aos processos de desenvolvimento social,econmico, urbano, recolocando o patrimnio cultural como elementoindutor nessas cidades. Estou me referindo s cidades que tenham o nossopatrimnio e que no corresponde somente ao patrimnio federal, estoufalando do patrimnio de fato (municipal, estadual e federal), de todo opas. A meta reposicionar o patrimnio cultural na agenda estratgica detodos os governos e da sociedade. E essa recolocao, esse reposicionamentodo patrimnio cultural como elemento estratgico, fundamental paragarantir algo que todos vocs sabem aqui muito melhor do que eu que

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  • fundamental: garantir que cada cidado tenha o reconhecimento do seupatrimnio e faa a sua gesto de preservao. Ou seja, garantir a presenano cotidiano, na gesto cotidiana, em cada ao executada por cada cidado,de todas as cidades, que tenham o patrimnio cultural.

    Ou conseguimos recolocar o patrimnio na agenda governamental, naagenda da sociedade e traz-lo para o cotidiano ou vamos continuardeslocados. E luz do pronunciamento do professor Ulpiano Bezerra deMeneses, temos essa clivagem, essa dissociao entre o que reconhecidopelos gestores do patrimnio cultural e o que valorizado pela populao.Um criticando o outro pela poltica estabelecida, pelos valores abordados.E a, vejo que fundamental evidenciar o fato de que, quando comeamosa discutir a questo do Sistema Nacional de Patrimnio Cultural, tivemosuma premissa muito importante que era no estabelecer o marco regulatriopara o sistema. Somente estabeleceramos o marco regulatrio quandotivssemos constitudo uma base legtima. E acredito que esse ummomento de consolidao dessa legitimidade para uma construo que temsido feita ao longo dos ltimos anos. Muitos sistemas federais foramestabelecidos com leis e, a partir dessas leis, induziram-se as formas defuncionamento. Ou nos mobilizamos e conquistamos apoio, fora social efora poltica como forma de trabalhar ou no adiantar fazer um marcolegal, que ser, apenas, mais uma lei.

    Na verdade, acredito que j consolidamos um trabalho que nos dcondio de pensar, de fato, em garantir esses marcos legais, os quaistambm so fundamentais. Juntamente com essa fora social que estconstituda, eles vo garantir a continuidade de uma poltica de patrimnio,associada a uma poltica de Estado. No adianta ter a lei, no adianta ter ogestor, tem que ter a cobrana. E tambm no adianta ter a cobrana, sevoc no tem gestores que querem fazer isso. Acredito que temos, hoje, umaconfluncia de fatores que nos propiciam a pensar na consolidaonormativa. Sem esquecer, logicamente, que a premissa era pactuarlongamente com todos os atores que atuam no patrimnio cultural, antesde estabelecermos esse marco legal. E garantir, para isso, uma mobilizaode fora poltica, uma integrao voluntria de mobilizao de recursos detodos os atores, trabalhando sempre com trs eixos.

    Assim, quando falamos de sistemas nacionais de polticas pblicas,podemos eleger trs premissas bsicas: instrumentos de financiamento efomento; instrumentos de coordenao e instrumentos de regulao.

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  • Vejo que temos muito que discutir sobre esses trs eixos, principalmente,quando me refiro a financiamento da Poltica de Patrimnio Cultural noBrasil.

    Consolidado pela Secretaria do Tesouro Nacional, apresento o quadroque mostra os investimentos nos trs nveis de governo, no qual se tem todoo investimento realizado pelo Iphan. Esses dados so de 2006, porque osdados so fechados, sempre, sobre os dois anos anteriores, ento, esse oquadro mais atual que temos. Vejamos.

    So 53 milhes executados pelo Iphan no ano de 2006; 60 milhes, peloMonumenta e outras unidades oramentrias do Ministrio da Cultura;mais nove milhes de outros ministrios e rgos federais; 66 milhesinvestidos pelos governos estaduais; 96 milhes pelos governos municipaise 140 milhes pela Lei Rouanet, que o Programa Nacional de Apoio Cultura, na modalidade mecenato. Ento, todos os recursos investidos coma rubrica patrimnio cultural no pas, somaram, em 2006, 425 milhesde reais. No nada. Isso mostra que falta muito recurso. Mas algumasiniciativas que esto em andamento podem garantir importantes avanos.Tem a reviso da Lei Rouanet, por exemplo, que est em tramitao, nono Congresso, mas dentro do Governo. A lei est sendo fechada na CasaCivil para ir ao Congresso e traz uma reviso que pretende favorecer apactuao em torno das aes propostas pela sociedade, para as polticasestabelecidas pelos municpios, pelos estados e pelo Governo Federal. Hoje,temos uma grande concentrao regional no eixo Rio/So Paulo/MinasGerais, que fica com 80% dos recursos. Alm disso existem aesindependentes das polticas estabelecidas pelos governos. E o que isso gera?Resulta, muitas vezes, em aes dispersas e que no conseguem darefetividade para a preservao do patrimnio cultural.

    Alm da reviso proposta para a Lei Rouanet no sentido de corrigir asdisparidades regionais e criar mecanismos que consigam induzir a aescasadas com as polticas pblicas estabelecidas e aprovadas pelos fruns dasociedade, h ainda a criao do Fundo Setorial do Patrimnio Cultural. Acriao desse fundo estratgica porque, com ele, vamos conseguirestabelecer uma poltica em cadeia, ou seja, pensar em trabalhar com fundosestaduais e municipais, alm de criar, com mais facilidade, um mecanismocapaz de fazer circular o que investido no patrimnio cultural. Hoje, notemos esse instrumento e padecemos, muitas vezes, de no ter nem comoreceber alguns recursos que poderamos receber. Alm disso, avanou muito

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  • a intersetorialidade da poltica de patrimnio, o que nos levou a estabelecerparcerias com diversos ministrios. Em 2009, alm do Ministrio daCultura, conseguimos cerca de dez milhes de reais de outros ministrios.

    De repente, pode-se pensar que isso no representa nada. Mas, sevoltarmos para esses dados de 2006, ou seja, nove milhes de todos osoutros rgos do Governo Federal, sentiremos a diferena. Neste ano de2009, conseguimos dez milhes que foram disponibilizados para o Iphan,fora o que os outros ministrios investiram. Quer dizer, um avano muitogrande no relativo, no absoluto ainda muito pouco.

    Outra conquista que temos parcerias estabelecidas com oMinistrio doTurismo, Ministrio de Educao, o Ministrio da Agricultura, o Ministriodas Cidades, Cincias e Tecnologia, Defesa, o Ministrio de Planejamentopor meio da Secretaria de Patrimnio da Unio, o Ministrio do MeioAmbiente, Ministrio da Integrao, ou seja, temos trabalhos emandamento com cada um desses ministrios, o que reposiciona o trabalho,a poltica de preservao do patrimnio cultural. Alm disso, o Iphan teminvestido bastante em polticas de fomento e isso significa no mais executardiretamente todo o seu recurso, mas criar canais atravs dos quais asociedade possa acessar recursos para se estabelecer, se apropriar da polticade preservao do patrimnio cultural. Existem, hoje, editais do patrimniomaterial, editais de projetos de extenso universitria, projetos de pesquisae difuso da arqueologia, que vo sair agora, editais do fundo de direitodifuso, entre outros.

    Ao tomarmos uma linha do tempo com oramentos finais do Iphan e doPrograma Monumenta, do perodo de 1995 a 2010, percebemos umaumento, por exemplo, em 1998, tivemos nove milhes de reais parainvestimentos na rea finalstica do Iphan e chegamos em 2010 com umapreviso oramentria de 220 milhes de reais finalsticos para o instituto.Acredito que isso mostra o quanto esse trabalho est conquistando ganhossignificativos. Agora em 2009, tivemos cerca de 122 milhes de reais entreo oramento do Iphan e do Programa Monumenta que , agora, executadode maneira conjunta. Ento, podemos, praticamente, chegar ao dobro derecursos de 2006. E, quando falamos quais so esses instrumentos usadoscomo meios de gesto, penso que temos de recuperar alguns deles.

    Montamos um quadro do patrimnio cultural com os rgos estaduaise conseguimos estabelecer uma pesquisa que mapeou todos esses rgos, na

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  • sua legislao, nas suas equipes, aes estratgicas, nas suas polticasestabelecidas, oramentos e nos instrumentos de gesto que cada rgo tem.Estamos trabalhando na consolidao de um sistema nacional deinformao do patrimnio, que vai criar um sistema gerencial, o qual todosos municpios e estados e, inclusive, a sociedade podero acessar e ver osrecursos que esto sendo investidos em cada contrato que o Iphan executar.Vo ter acesso ainda a cada contrato que os municpios e estados, quequiserem aderir a esses sistemas de informao gerencial, executarem. Oimportante que tenhamos essas informaes disponveis para a sociedade.

    Estamos consolidando ainda metodologias de gesto, quer dizer, j estoconsolidadas, mas digo que estamos consolidando porque ns trabalhamosnuma integrao. Creio que houve uma cooperao efetiva com os espanhisque nos mostraram seu sistema de informao e estamos buscando avanarnesse sentido. Temos, hoje, dois principais sistemas na casa que o sistemaintegrado de gesto e o Inventrio Nacional de Referncias Culturais. Existemdiversos outros sistemas de gerenciamento, mas so do patrimnioarqueolgico, como o INBI-SU e o INCEU que, inclusive, j esto em certodesuso. Agora, estamos trabalhando numa consolidao de sistemas nicosque busquem agregar todos os demais, visando conseguir instrumentos degesto para qualquer agente da sociedade, para que todos possam acessar essasinformaes. Alm disso, existem novos instrumentos como a paisagemcultural, os planos de salvaguarda, a criao dos fundos municipais que seconfiguram, hoje, como instrumentos com novos desafios para ns.

    Estamos trabalhando ainda a questo dos instrumentos urbansticos,escritrios integrados de gesto, sistema de fiscalizao e multa que estpraticamente finalizado no Iphan, entre outras coisas em que temostrabalhado. Alm disso, o Iphan est estabelecendo, a partir de 2010, comaes concretas, o Centro Regional de Formao para a Gesto doPatrimnio Cultural. A ideia desses centros que funcionem em parceriacom a Unesco regional j que pretendem atender a Amrica do Sul e ospases da CPLP Comunidade dos Pases de Lngua Portuguesa ,principalmente na formao para a gesto do patrimnio cultural. Oobjetivo estabelecer uma srie de parcerias que tenham desde cursos deespecializao at um curso bsico de gesto do estado na questo dopatrimnio cultural. Ou seja, o curso formar pessoas para entender degesto governamental, de operao de financiamento e tambm ganharrepertrio de aes que possam servir como um referencial para atuao narea do patrimnio. Quando pensamos no centro de formao, pensamos

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  • tambm num observatrio que acompanhe as polticas e que possaestabelecer um trabalho de inteligncia capaz de se contrapor aoeurocentrismo. Somos, muitas vezes, pressionados pela viso eurocntricade patrimnio cultural, o que nos impede de dar um tratamento especialpara nossa documentao e informao, o que muito importante.

    Quero dizer ainda o primeiro curso bsico ser no segundo semestre de2010 e contar com ampla divulgao pelo site do Iphan, voltado paragestores, principalmente, os gestores municipais, estaduais e federais, masaberto, tambm, para a sociedade nas diversas parcerias. Alm disso, tem arede de casas do patrimnio, e a difuso do patrimnio cultural, cujoobjetivo criar, em todas as cidades, polos propulsores de aes educativas,articuladas com a sociedade sobre o patrimnio cultural. Ouro Preto, porexemplo, vai ganhar a Casa da Baronesa que ser sede de uma srie de aescontnuas de valorizao e difuso do patrimnio cultural. Recife tambmcontar com sua casa do patrimnio, assim como Iguape (SP), e tantasoutras que esto comeando a se consolidar no Brasil. Julgo tudo issofundamental para garantir essa aproximao e integrao com a sociedade.

    Temos buscado tambm a articulao, cada vezmaior, com o ensino formal,no no sentido de estabelecer uma disciplina do patrimnio cultural, mas dopatrimnio se inserir nas diversas disciplinas. No se trata de trazer umacaixinha para o patrimnio, trata-se de fazer o patrimnio cultural trabalharcom todas as disciplinas existentes, diretriz na qual, temos conseguido avanarmuito. Alm disso, o patrimnio possibilita a insero de aes de educao epromoo do patrimnio e todos os processos de gesto.

    Acredito que qualquer obra feita pelo Iphan tem que contar com aesde educao e promoo que deem significado ao bem imvel para a toda apopulao. Qualquer outra ao, mesmo de um inventrio, pode trabalhardessa forma. Vejo, portanto, o quanto o Iphan tem avanado e acredito quetem de avanar cada vez mais e com mais atores.

    Considero de grande relevncia o aprofundamento conceitual e a novaabordagem adotada pelo Iphan. O Instituto tem realizado uma ao defundamental importncia que buscar, incessantemente, trabalhar com aconveno da diversidade. Temos procurado valorizar a questo dosprocessos das referncias culturais, buscando reconhecer a multiplicidadedo nosso patrimnio, no somente na perspectiva de um rgo, ou deoutras referncias culturais, mas entender o patrimnio como um produtodessas mltiplas referncias. Sem contar, a abordagem dos universos

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  • culturais, como o patrimnio naval, o patrimnio arqueolgico e opatrimnio ferrovirio.

    Deixemos um pouco a ideia do patrimnio mineiro, do patrimnio deOuro Preto, para entender como esse patrimnio se insere no universocultural, por exemplo, do Ciclo do Ouro, e sua infuncia nos processos deformao no nosso pas. Porque, se o patrimnio cultural o elemento queconfere a nossa identidade, temos de entend-lo a partir dos processos queconstituram o nosso pas. O Iphan tem avanado muito tambm nessesentido com os processos econmicos, a ocupao territorial, os eventoshistricos, os mapeamentos temticos, os j citados patrimnio naval,ferrovirio, alm do patrimnio rural e do patrimnio moderno. Tem umasrie de trabalhos que tm sido feitos e que valorizam, cada vez mais, oentendimento dos universos culturais, buscando estabelecer o entendimentoe a valorizao desse patrimnio. No como algo especfico de um lugarque cria a concorrncia e pode levar a um pastiche do prprio patrimnio,mas pensando na questo essencial que referenciar os processos maiores eque explicam o nosso pas.

    Quero abordar, rapidamente, o processo de articulao para estabelecerparcerias nessa nova empreitada do Sistema Nacional de PatrimnioCultural, uma discusso muito antiga no Iphan e com muito trabalho jrealizado, sobretudo, no ano de 2007. Nesse perodo, buscamos restabelecera Associao Brasileira de Cidades Histricas, fizemos uma primeiraarticulao, mas era um ano pr-eleitoral, uma vez que 2008 foi um ano deeleio municipal, e tivemos muita dificuldade em conseguir agregar osprefeitos pela prpria disputa natural nas eleies. Ento, fomos ao FrumNacional de Secretrios e Dirigentes, e fizemos uma pactuao emnovembro de 2007 e, em maro de 2008, houve uma reunio com todosos rgos de patrimnio. Foi a primeira reunio feita desde 1971, ou seja,foram mais de trinta anos sem nenhum encontro dessa natureza.

    Confesso que, quando eu estava ajudando a organizar a reunio e, quandoela aconteceu, falei: vou ser demitido. Porque a reunio foi uma catarse,mas, depois, algum percebeu que aquela catarse era falta de dilogo. Trintae tantos anos sem se reunir, sem se olhar e poder conversar, isso gerou umgrau de expectativa, um grau de demanda muito grande. E foi um primeiropasso, conseguimos tirar um grupo de trabalho, e esse grupo, que tinha umrepresentante de cada regio do pas, conseguiu estabelecer um quadro dopatrimnio, alm de fazer uma srie de outros trabalhos.

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  • Trabalhamos muito na integrao com o Plano Nacional de Cultura eo Sistema Nacional de Cultura, porque a ideia que o Plano Nacional dePatrimnio Cultural e o Sistema Nacional de Patrimnio Cultural sejamum subsistema do Sistema Nacional de Cultura. Alis, a inteno reforaruma viso integrada da rea cultural. No adianta querermos que cadamunicpio tenha um Conselho de Patrimnio, um Conselho de Cultura,um Conselho de Educao, um Conselho de Sade, um Conselho deDana, isso invivel para a realidade municipal brasileira. Seconseguirmos reforar as nossas estruturas e garantirmos equipes efetivaspara trabalhar no patrimnio cultural, ser um grande avano. Estamos,portanto, dentro do Sistema Nacional de Cultura, e Roberto Peixe,coordenador do sistema, vai falar sobre o SNC porque temos buscadosempre nos articular com essas diretrizes.

    Alm disso, ns realizamos o quadro e, em novembro e dezembro de2008, fizemos cinco oficinas regionais em cada regio do pas, reunindotodos os rgos estaduais e todas as superintendncias do Iphan, parapactuar as bases desse trabalho que est aqui hoje colocado. E, em fevereirode 2009, aps a eleio municipal, ocorreu com nosso apoio a refundaoda Associao Brasileira de Cidades Histricas, presidida pelo prefeitongelo Oswaldo, o que foi fundamental. Essa articulao dos governosestaduais com as prefeituras, atravs da Associao Brasileira, possibilitouque conse-gussemos, no ms de maio, atendendo a uma demanda dessasoficinas regionais, estabelecer uma estratgia de elaborao dos Planos deAo, ou seja, levar para a ponta o planejamento integrado da ao sobre opatrimnio cultural. Em agosto, fizemos uma primeira capacitao commais de 140 cidades, em Braslia e, em outubro, conseguimos o lanamentodo PAC das Cidades Histricas.

    Vou falar, tambm rapidamente, sobre isso, somente para as pessoassaberem o que o PAC das Cidades Histricas. Primeiro, ele foi uma janelade oportunidade no meio dessa crise que enfrentamos no fim de 2008,quando o presidente da Repblica falou que apoiaria aes anticclicasestruturadas pelos ministrios do Governo Federal. Conseguimos essamobilizao entre os governos estaduais e prefeituras, dando fora polticapara essa ao do PAC das Cidades Histricas e, consequentemente, ter ocompromisso dos governos nesse investimento.

    Enfim, todos conhecemos o quadro das nossas cidades e Luiz Fernandode Almeida fala uma coisa que julgo interessante: que o Brasil um dos

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  • pases da Amrica Latina que tem o patrimnio cultural mais descuidadoporque o grau de decadncia que temos nos nossos stios urbanos impressionante. Durante a abertura do frum, foi falado sobre a situaode nossas cidades, cujas periferias se encontram na mesma situao. Ento,fiz uma foto de Ouro Preto e, se colocarmos essa foto separada e fizermosa pergunta: Que cidade essa? Dificilmente conseguiremos identificar, oque comprova o quanto as nossas cidades, de um modo geral, tm sofridouma decadncia.

    E qual a ideia do PAC das Cidades Histricas? So 173 cidades; essascidades so os nove patrimnios mundiais, todas as capitais, todas as cidadesda Copa, 40 dos 65 destinos indutores do Ministrio do Turismo e 18cidades da regio do So Francisco. E qual o critrio de escolha dessascidades? O primeiro critrio e que funcionou como um ponto de partidafoi o das cidades protegidas ou que esto em processo de proteo peloIphan, ou seja, o primeiro recorte foi o das cidades j reconhecidas ou emprocesso de reconhecimento. importante que fique claro que a ideia no que o PAC, assim como qualquer outra ao do Iphan, fique restrito a umuniverso especfico. Pelo contrrio, cada vez maior o desejo deuniversalizar a poltica de patrimnio cultural, mas isso deve ser feito deforma consequente, consistente. Ento, esse apenas o incio, uma primeiralista de cidades. Se uma cidade, por exemplo, comear um processo detombamento ou um processo de reconhecimento de lugar, auto-maticamente se acrescenta a essa lista porque queremos trabalhar com ascidades desde o primeiro momento. No queremos tombar e somentedepois fazer um trabalho de preservao nas cidades.

    As aes propostas no PAC so aes de requalificao urbanstica,infraestrutura urbana e social, financiamento para recuperao de imveisprivados, recuperao e destinao de uso de monumentos e imveispblicos, fomento s cadeias produtivas locais e formao e promoo dopatrimnio cultural. Sem contar, uma linha muito forte de fortalecimentoinstitucional.

    Sabemos que uma poltica efetiva s ser feita se tivermos, cada vez mais,parceiros fortalecidos e com condies de fazer a gesto do patrimniocultural. So aes como a requalificao urbanstica de Corumb, noMatoGrosso do Sul; como a instalao na Universidade Federal em Laranjeiras,em Sergipe, e a recuperao de imveis privados que saem da ao especficade recuperao de um bem para uma ao estruturante, para uma ao que

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  • consegue reposicionar o patrimnio cultural como elemento dedesenvolvimento local. Porque as cidades que possuem esse patrimnioreconhecido, devem aproveitar esse potencial riqussimo e conseguirtransformar esse potencial no em um problema de gesto atravs dopensamento: eu tenho de dar conta daquilo, mas como capacidade deinvestimento, como possibilidade de agregar capitais para serem investidos,alm de desenvolver processos estratgicos de desenvolvimento.

    Quanto ao oramento do PAC e suas formas de execuo, a proposta que todas as aes sejam executadas em conjunto com os governos estaduaise municipais, juntamente com a sociedade civil, por meio dos Planos deAo. O Iphan investir nessas cidades priorizando os investimentosprevistos em seus Planos de Ao, salvo aes consideradas emergenciais. Aideia no mais o Iphan investir nessas cidades sem um planejamentoconjunto, porque pretende cobrar, tanto dessas cidades como dos governosestaduais, o mesmo compromisso de investimento. O Iphan no quer maisinvestir nas cidades e ficar, posteriormente, recebendo a conta de outroinvestimento apontado como necessrio. Afinal, ou a gente tem umaparceria e se ajuda para se fortalecer politicamente, aumentar os nossosrecursos, ou no adianta ficar olhando para o Iphan, ou qualquer outrorgo que seja, como um grande irmo ou elemento de financiamento dapoltica de preservao.

    O Programa de Cidades Histricas PCH, quando desenvolvido nosanos de 1970, funcionou, efetivamente, quando teve um grande eixo definanciamento, mas, quando esse dinheiro acabou, o PCH se desestruturou.Portanto, o que estamos tentando construir, aprendendo com as polticasdo passado, uma forma de trabalhar independentemente dos elementosde financiamento e que busque, cada vez mais, fortalecer esses elementos definanciamento. A meta do Iphan que a execuo seja compartilhada pormeio de convnios, editais e com cooperao tcnica.

    Gostaria de explicar, brevemente, que o Plano de Ao o elemento deplanejamento integrado que busca enfrentar as questes estruturantes dascidades. No se trata, portanto, de pensar um plano de aes sobre opatrimnio cultural, mas de pensar quais so as questes estruturantes dacidade e buscar uma estratgia de desenvolvimento, cuja alavanca sejam asaes de patrimnio cultural. E por qu? Pelo fato de que no podemoscontinuar trabalhando em aes isoladas como a recuperao do patrimnioou, simplesmente, tentando evitar que aumente a descaracterizao de um

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  • patrimnio edificado, se no resolvermos, por exemplo, o problema dapresso de crescimento urbano. No conseguiremos fazer uma polticaefetiva, combater a destruio de patrimnio edificado para a constituiode estacionamentos em vrios centros urbanos, caso no consigamosestabelecer planos de mobilidade e circulao nessas cidades. Isso quer dizerque ou enfrentamos os problemas reais da dinmica urbana e os entendemospara enfrent-los, ou nunca conseguiremos ter uma poltica efetiva depreservao no nosso patrimnio cultural. E a ideia que esse plano busqueestabelecer objetivos, metas e aes tambm factveis.

    No adianta falar que executaremos 300 milhes de reais na rea dopatrimnio cultural num determinado municpio, se nos ltimos dez, vinteanos, temos executado um milho por ano. Precisamos enxergar a nossareal capacidade de execuo e fazer um processo incremental, caso contrrio,faremos o que fazem em vrias polticas, com vrias promessas que geram,no final, apenas grandes frustraes.

    O presidente Lula afirmou imprensa que o PAC, muitas vezes, oprograma engana presidente porque todo mundo falou que tinha muitacoisa a ser feita, mas, na hora que o governo garantiu o recurso e o entregoupara a sociedade civil, os governos municipais e estaduais, dizem: Bom,agora a gente vai fazer o projeto. Quer dizer, ou assumimos o compromissode responsabilidade mtua pelas aes que queremos executar, pactuandoo que de fato possvel fazer, ou apenas frustraremos, no somente a nsmesmos pelo fracasso, mas a todos os parceiros que esto apostando nessaconstruo e, isso, ser lamentvel.

    Ento, o processo de atribuio de responsabilidade nesse processo deaes em parcerias muito maior. fundamental termos uma leituratransversal, ou seja, no poderemos mais dialogar apenas com a Secretariade Cultura ou com a Secretaria de Patrimnio, ou somente com a rea deeducao ou o quem quer que seja. Ou envolvemos os outros atores,potencializando as outras aes, ou no conseguiremos atingir nossas metas.Vou exemplificar, citando um caso que o da cidade de Joinville, em SantaCatarina. Na discusso dos Planos de Ao, est uma estrada que cruza ossambaquis e os Planos de Ao daquele municpio preveem, justamente,abrir vrios ncleos de visitao desses sambaquis a partir dessa estrada,visando socializao desses lugares. Quer dizer ou tambm nosestruturamos com outras aes de governo ou ficaremos sempre realizandoaes desarticuladas com a agenda mais global das cidades. importante

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  • que isso seja uma coisa muito clara para todos ns. Conquistamos, nasociedade brasileira, um ideal de que tudo seja feito com a sociedade civil,ento, hoje, a questo da participao a base para qualquer ao.

    No queremos, tambm, um plano governamental, mas um plano daprpria sociedade, seja atravs de uma agenda, e isso fundamental paragarantir a participao, dialogando com as demandas da sociedade, com osplanos j elaborados no nvel nacional, regional e local. Buscaremos, assim,solues que dialoguem com toda a intersetorialidade do patrimniocultural.

    As etapas de elaborao do plano j foram concludas e esse processo seconfigurou numa grande cruzada que durou, creio, todo o ano de 2009 ecujo desenvolvimento se deu no Brasil inteiro. Devemos destacar o esforode todos os municpios, de todos os tcnicos do Iphan e dos governosestaduais, uma vez que do ms de agosto at dezembro, conseguimos cobrir,praticamente, todas as cidades. As 170 cidades, falarei disso mais adiante,passaram por um processo de elaborao de diagnsticos e firmaram umpacto desses diagnsticos com a sociedade e com os atores, bem como adefinio dos objetivos e das aes. Estamos, hoje, num processo deestabelecimento desse pacto de aes, esclarecendo e sanando possveisdvidas entre os vrios segmentos envolvidos. E o que vai propiciar o Planode Ao? Vai propiciar, exatamente, essa articulao local e regional, aestruturao de uma poltica de patrimnio cultural em todas as esferas,desde o municpio at o governo federal, a condio de estabelecer essapoltica, alm do acesso a recursos em curto e mdio prazo.

    Se temos um plano consistente, conseguimos investimentos; nuncafaltou dinheiro para rea de patrimnio cultural e, embora afirmemos: mas to pouco, todo ano sobra porque no temos a capacidade de execuo.Podemos nos perguntar: por que no temos capacidade de execuo? Muitasvezes, porque no temos projeto. E por que no temos projeto? Porque notemos planejamento. Ento, a gente sempre fica numa poltica reativa e natural vivermos nesse tipo de poltica. Diante do desmonte que teve apoltica de preservao do patrimnio cultural nos anos 90, do suca-teamento de toda essa poltica em todo o Brasil, o projeto foi desobrevivncia, mas, agora, estamos invertendo esse ciclo. E, para inverteresse ciclo com o p direito, teremos de comear a planejar e pactuar as aesem mdio prazo, e esse um grande desafio porque no temos, inclusive,os elementos necessrios para um planejamento efetivo, no temos base de

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  • informaes confiveis e uma srie de outras coisas. Muitas vezes, nosabemos nem o nmero exato de casas que esto dentro de alguns stiosprotegidos. Essa a nossa realidade e com ela que estamos trabalhando.Acredito que todo esse quadro exposto aqui que d base concreta parauma poltica integrada de recuperao e preservao do patrimnio cultural.

    O desafio atual entender que esse processo no se trata apenas de maisuma ao. O PAC e seu Plano de Ao, por mais que se trate de umprograma do governo, e isso muito bom, para ns, significa a propostade um novo modelo de planejamento para uma poltica de Estado. O queestamos propondo partir dos Planos de Ao que esto aqui, nasSuperintendncias do Iphan, nos estados, nos municpios e na sociedade,buscando informaes, fazendo uma proposta de planejamento em mdioprazo para uma implementao conjunta que estruture redes de proteode cada estado para a preservao do patrimnio cultural. Dessa polticaconjunta sairo as assinaturas do acordo de preservao do patrimnio comcada municpio e organismos estaduais, propiciando a realizao dos frunslocais e regionais de acompanhamento e implementao. O objetivo queesses fruns funcionem como elementos efetivos de monitoramento eavaliao dessa poltica, atravs dos quais possamos acompanhar a execuode nossos projetos e, a partir dessa avaliao, se algo estiver dando errado,possamos mudar a poltica em curso. Assim, no esperaremos chegar aofim do ano para constatar que algo no deu certo. A meta realizar, a cadadois anos, o frum nacional para ir realimentando a definio dessapoltica. Ou seja, no est se propondo uma nova coisa, o que est sepropondo uma nova forma de fazer as mesmas coisas que j fazemos.Ningum est propondo inventar a roda, mas que nos organizemos de umaforma mais efetiva.

    Julgo ser fundamental para que esse novo planejamento d certo,integrar-se com os instrumentos de planejamento j existentes, hoje, nasociedade brasileira. Leis oramentrias, leis orgnicas municipais, planosdiretores, oramentos participativos, conferncias municipais, enfim, todosos instrumentos vigentes. Ou comeamos a pautar a questo do patrimniocultural nas conferncias municipais de educao, nas confernciasmunicipais de comunicao e de cultura, assumindo a responsabilidade delevar o patrimnio cultural para a transversalidade que dizemos que ele tem,ou estaremos sendo hipcritas pela nossa incapacidade de promover essatransversalidade nas nossas comunicaes e na nossa ao cotidiana na

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  • sociedade brasileira. Acredito, portanto, que essa uma responsabilidadeque todos ns temos de assumir: a de levar o patrimnio para todos esseselementos de planejamento e de participao na sociedade brasileira.

    Vejamos um balano rpido dos Planos de Ao que teve adeso de 162cidades, das 173 cidades que compem o PAC das Cidades Histricas.Foram, portanto, mais de 90% de adeso dos municpios, sendo que cercade cem cidades j entregaram as suas aes e esto num processo deestabelecimento dos pactos de ao conjunta. Como se trata de ummodelode planejamento, no tem linha de chegada, no uma corrida. Cada umtem de fazer um processo que garanta efetivo avano, mas a ideia no :Eu no fiz, eu estou fora. No. Voc vai poder fazer. S que os recursossero liberados medida que seu plano estiver pronto. Assim foi o nossocompromisso com as cidades finalizar os processos de 2009 para garantir osrecursos de 2010, dentro dos Planos de Ao.

    Agora, passarei mais rapidamente s metas do I Frum Nacional doPatrimnio Cultural, cujo objetivo central, a meu ver, discutir e avaliara atual poltica de patrimnio cultural, numa avaliao franca, atravs daqual devemos expor, da maneira mais sincera possvel, nosso ponto de vistapara que possamos avanar. Creio que no se trata de um lugar parafalarmos, exclusivamente, de nossas qualidades, mas tambm de nossasemergncias e dos nossos problemas, visando s definies de diretrizes,s estratgias de atuao, alm dos nossos desafios. Assim, poderemos, defato, estruturar o Sistema Nacional de Cultura e uma Poltica Nacional dePatrimnio Cultural.

    A previso, e Roberto Peixe poder falar disso com mais propriedade, que o Sistema seja aprovado no Congresso Nacional, no comeo de 2010.Nossa meta estabelecer o Sistema Nacional de Patrimnio Cultural, pormeio de Decreto, tambm nesse ano. Teremos, durante o frum, osmomentos das conferncias, as quais vo propiciar socializaes com todos,trazendo questes e panoramas maiores para que todos possamcompreend-los e fazer um debate das questes gerais. Teremos, ainda, asquatro sesses temticas, cujo objetivo ser trabalhar na proposta deregulamentao do patrimnio cultural, alm de instrumentos e formas definanciamento, compartilhamento e definio de papis; instrumentos eformas de funcionamento e marcos legais de regulao. Mas no eram trspilares? que ns dividimos o instrumento de coordenao da poltica emdois grupos porque, na questo de instrumentos e formas de funcio-

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  • namento, pretendemos pensar como vamos nos organizar numa estruturano s federativa, mas tambm horizontal, alm da definio e concertaode papis. Principalmente, porque temos uma grande concentrao decompetncias no Brasil e uma grande confuso de competnciasconcorrentes na poltica de patrimnio cultural. Ento, resolvemos dividir,possibilitando, assim, que essa discusso de compartilhamento decompetncia seja feita com maior rigor, por entend-la como uma questofundamental. S seremos um sistema de fato se cada um abrir, um pouco,a mo das competncias que hoje tem s para si, o que pressupe dividirpoder e, consequentemente, a forma de tomar decises. Vejo que essa amaturidade que o momento nos pede e acredito que vamos conseguir daruma resposta afirmativa nesse sentido.

    Nas mesas-redondas, teremos as dez reas temticas do patrimniocultural como por exemplo: patrimnio arqueolgico, patrimnioedificado, bens mveis integrados e o patrimnio imaterial. E a ideia ,nesses grupos, fazer uma discusso que busque dialogar com as temticas,pensando em parcerias estratgicas, objetivos, aes para o prximo ano,alm de estratgias de aes para os prximos cinco anos. Ou seja, buscarestabelecer, para cada rea do patrimnio cultural que so universoscompletamente distintos, qual ser a forma de atuao. E a proposta quea gente consolide esse material at o ms de fevereiro de 2010, para quesirva de subsdio a todos ns, para a participao na Segunda ConfernciaNacional de Cultura, alm de garantir, j na atuao de cada rgo depatrimnio da sociedade em 2010, uma coeso nessas estratgias.

    Estamos propondo o calendrio de trabalho para 2010, embora aindatenhamos, neste final de 2009, as conferncias estaduais que esto em suafase final, alm dos pactos e Planos de Ao, os quais pretendemos fechar,o mais tardar, em janeiro de 2010. Depois disso que sero assinados osacordos de preservao do patrimnio cultural, com definio oramentria,at o ms de fevereiro, e a preparao para a participao coesa dopatrimnio cultural na Segunda Conferncia Nacional de Cultura. Temosde ir para essa conferncia com uma slida coeso, no no sentido dedefender uma bandeira ou outra, mas no sentido de saber que temos amesma finalidade, estabelecendo os marcos legais at abril de 2010. importante consolidarmos os nossos marcos legais nesse governo, porque muito comum avanar em definies, em prticas novas, em polticas e,quando vem um novo governo, acontecer um desmonte desse avano

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  • porque entendido como parte da identidade de um governo antecessor.Por isso, temos de garantir que esse avano no qual estamos trabalhando,que esse tratamento que temos dado ao patrimnio cultural como polticade Estado, seja reconhecida e regulamentada dessa forma, ainda nestegoverno.

    No podemos deixar de falar ainda que, em agosto de 2011, nosencontraremos no II Frum Nacional do Patrimnio Cultural. Norealizaremos mais os fruns no ms de dezembro, para evitar que todosfiquem preocupados com a sua execuo oramentria, com a finalizao detrabalhos ou com a agenda de fim de ano. E, principalmente, para garantirum tempo propcio para fazermos uma discusso maior, realizando frunscom a durao de uma semana, no apenas trs dias.

    Gostaria de deixar um ltimo lembrete, afirmando que preservar opatrimnio no olhar para o passado, mas pensar as coisas que devemfazer parte do futuro e fazer isso, sempre, agregando esses valores para asociedade, a qual deve ser o referencial do nosso trabalho. Encerro com esselembrete por acreditar ser fundamental esse entendimento por todos ns.

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    l.1 O SISTEMA SETORIAL DE

    PATRIMNIO NO MBITO DOSISTEMA NACIONAL DE CULTURA

    Joo Roberto Peixe*

    RESUMOO texto fala sobre o Sistema Nacional de Cultura, criado com a proposta

    de funcionar como um instrumento para a implementao das polticaspblicas de cultura como polticas de Estado. O Sistema Nacional pretendepromover a articulao entre os sistemas setoriais, funcionando como oconjunto de partes integradas que interagem. Contextualiza o Iphan nessecenrio como um rgo cuja atuao, por ser mais descentralizada e estarpresente em todo o pas, pode ser referncia para os demais rgos doMinCno processo de implantao do SNC e dos demais sistemas setoriais.

    PALAVRAS-CHAVESistema Nacional de Cultura, Sistemas Setoriais, Polticas pblicas.

    Como coordenador do Sistema Nacional de Cultura tenho conscinciado enorme desafio que h pela frente. Hoje, temos um conjunto de polticaspblicas sendo implementado no pas, em todas as reas do GovernoFederal. Houve um avano especialmente no campo da cultura; novoshorizontes se abriram a partir de uma mudana conceitual, a partir de umaviso de abrangncia da prpria conceituao da cultura e da atuao doMinistrio. No entanto, deparamo-nos com um problema crucial: obaixssimo grau de institucionalizao da gesto cultural no pas.

    Evidentemente que, na estrutura do Ministrio da Cultura, o Iphan orgo vinculado que tem uma atuao mais descentralizada. Presente, hoje,em todo o pas, o Iphan possui condies de no somente avanar nesseprocesso de planejamento de articulao, de relao federativa, departicipao social mas tambm, de ser referncia para os demais rgos

    *Designer, arquitetoe gestor cultural;

    coordenador geral deRelaes Federativas

    e Sociedade SAI/MinC e

    coordenador doSistema Nacional de

    Cultura

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  • do ministrio e ajud-los nesse processo de mudana. o que colocamossempre nos debates do Sistema Nacional de Cultura, que tm sidorealizados em todo Brasil, em todos os estados brasileiros, desde julho desteano de 2009. Nesse ciclo de Seminrios, a apresentao do Sistema dePatrimnio j foi feita de maneira descentralizada pelos superintendentesregionais ou pessoas da Superintendncia de cada estado.

    Nesses encontros com os gestores estaduais e municipais de todo o pas,temos afirmado que o processo de implementao do Sistema Nacional deCultura, ao contrrio do que se pensa, no vai comear agora, ele jcomeou h bastante tempo. Esse processo vem sendo realizado, emalgumas cidades brasileiras, antes mesmo do atual governo. Vrias dessasexperincias serviram de referncia, em 2002, para a formulao doprograma de governo na rea da cultura, de Lula, ento candidato apresidente, intitulado A imaginao a servio do Brasil. Esse programatinha como um dos pontos centrais exatamente a constituio do SistemaNacional de Cultura.

    O entendimento de que as polticas de cultura no podem ficar apenasno nvel de polticas de governo; elas tm de assumir o patamar de polticasde Estado, com continuidade, permanncia, tm de ser estruturadoras edemocrticas, no Estado de Direito. Nesse aspecto, a Constituio Brasileira avanada, assegurando a participao da sociedade no apenas atravs dademocracia representativa, mas tambm, da democracia participativa.

    Portanto, o grande desafio constituir instncias de participao socialque contribuam na formulao, no acompanhamento e na implementaodas polticas pblicas de cultura. Como os governos so transitrios, soessas estruturas da sociedade que vo assegurar a continuidade das polticaspblicas, porque a institucionalizao dessas polticas, atravs doestabelecimento de marcos legais, importante, mas no suficiente.

    interessante observar que na minha vinda para o I FrumNacional doPatrimnio Cultural, encontrei, no avio, um cidado que vestia umacamisa em que estava impresso O SUS patrimnio dos brasileiros. OSistema nico de Sade est inserido na Constituio Brasileira, masmesmo assim foi ameaado por tentativas de privatizao em governospassados. Sua manuteno foi assegurada no somente por sua base legal,institucional, mas, principalmente, por esse apoio da sociedade. O SUS foiconstrudo com a participao social, e isso fundamental.

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  • O Sistema Nacional de Cultura nada mais do que um instrumento paracolocar em prtica uma Poltica Nacional de Cultura que est fundamentadaem trs pontos centrais: o primeiro trata do entendimento do papel doestado na gesto pblica da cultura; de planejar, formular e executar polticas foi exatamente no campo da cultura que a concepo do estado mnimomais avanou nos governos neoliberais que antecederam o atual Governo e,consequentemente, a desestruturao dos rgos da cultura no Estadobrasileiro foi muito grande. Ento, estamos num processo de reestruturaodo Estado. O Iphan, inclusive, foi uma das vtimas desse processo, queresultou na sua desestruturao. Foram necessrios vrios concursos pblicospara a recomposio dos recursos humanos. Dessa forma, o Estado brasileiropode ter condies mnimas para exercer o seu papel.

    No entanto, no plano nacional ns temos ainda um grau muito baixo deinstitucionalidade da gesto pblica da cultura: apenas cerca de 5% dosmunicpios brasileiros tm secretaria exclusiva de Cultura. Na verdade, nagrande maioria das administraes, infelizmente, a cultura consideradaapndice de outras reas, especialmente da de educao. natural, porexemplo, que um prefeito que tenha 25% do oramento municipaldestinado para a educao, sempre coloque frente da Secretaria algumdessa rea. O tratamento dado cultura depende da sensibilidade do gestor,mas na grande maioria dos municpios ela no considerada. Ento umaluta nossa em todo o pas convencer, sensibilizar e mobilizar a sociedadepara que se constituam, na base, rgos gestores da cultura com condiesde exercer o seu papel no planejamento, no fomento e na execuo daspolticas pblicas de cultura no municpio. a que entra a preservao e apromoo do patrimnio cultural material e imaterial, como uma questocentral, tendo o Sistema Setorial de Patrimnio como o grande articuladordesse processo.

    No plano internacional, a questo da diversidade e da identidade vemsendo objeto cada vez maior de preocupao, e o Brasil tem exercido papelimportante nesse debate, como foi na aprovao da Conveno da Unescosobre a Proteo e a Promoo da Diversidade das Expresses Culturais.Tema que aborda uma questo central no Brasil, agora visvel com aapario de dados concretos em pesquisas feitas atravs dos censos realizadospelo IBGE em parceria com o ministrio: o grau de excluso cultural maisgrave do que a prpria excluso social. Um exemplo o dado de que apenascerca de 10% dos brasileiros tm acesso aos bens e servios culturais. Ento,

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  • o desafio do Estado brasileiro democratizar e universalizar esse acesso.

    Os direitos culturais constituem a plataforma bsica da Poltica Nacionalde Cultura: o direito identidade, diversidade, participao na vidacultural (envolvendo o direito criao, fruio, difuso e participao nasdecises de polticas pblicas de cultura) alm do direito autoral e dodireito, que ao mesmo tempo um dever, de cooperao culturalinternacional.

    dimenso simblica e dimenso cidad que est calcadabasicamente na garantia desses direitos culturais soma-se a dimensoeconmica, que se d atravs do papel da cultura; do conhecimento, dainformao, que cada vez maior na sociedade, e que passa a ter um pesocada vez mais forte, inclusive como um dos setores da economia que maiscresce no mundo, passando, desse modo, a ser um dos componentescentrais desse processo de desenvolvimento, em que o Estado tem de exercero seu papel estabelecendo marcos regulatrios da economia da cultura, emtodos os seus campos.

    A partir desses pontos que surge o Sistema como instrumento para aimplementao dessa poltica. Ns o trabalhamos apenas como aconstituio dos seus componentes. O que imprescindvel, mas nosuficiente. O sistema mais do que isso, um conjunto de partes integradasque interagem, isto , tem de ter conexo para haver interao. E isso resultanuma ao do conjunto que pode ser maior ou menor do que a soma daspartes, inclusive porque esse conjunto tem caractersticas, tem qualidadesintrnsecas ao sistema que no esto em nenhuma das partes isoladamente.

    fundamental o entendimento de sistemas setoriais como o depatrimnio como parte de um sistema maior que o Sistema Nacionalde Cultura, o qual envolve todas as reas da cultura. a que ns vamosencontrar uma srie de pontos que j est sendo discutida em conjunto.Foi ideia de Weber Sutti a constituio, no ministrio, de um Grupo deTrabalho que rena os coordenadores do Sistema Nacional de Cultura e doConselho Nacional de Poltica Cultural com os coordenadores dos Sistemassetoriais existentes; de museus, de bibliotecas e o de patrimnio, que est emprocesso de construo. E nesse trabalho integrado h vrios pontos a seremresolvidos. Creio que este frum , exatamente, o espao para isso. Algunsdesses pontos j foram trabalhados pelo Weber, tentarei aqui avanar umpouco mais nessas questes.

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  • Do ponto de vista da nossa estrutura, o Sistema Nacional o conjuntodos sistemas municipais, estaduais e distrital, no caso de Braslia.Envolvendo a a esfera federal, que se confunde com a nacional. Tanto, quens entendemos que o decreto que criou o Sistema Federal de Cultura deveser reestruturado nessa nova concepo do Sistema, porque, na verdade,todos os seus componentes so de natureza nacional e no apenas federal;eles envolvem as outras esferas, os outros entes federados e tudo isso em umambiente maior, que a sociedade.

    Alguns pontos fundamentais devem ser observados em todos oscomponentes do Sistema e devem estar presentes, evidentemente, noSistema de Patrimnio. So princpios que devero ser inseridos naConstituio Brasileira por meio da emenda constitucional, que institui oSistema Nacional de Cultura. So os princpios da diversidade, dauniversalizao, da cooperao, do fomento, da integrao e interao, dacomplementaridade, da transversalidade, da autonomia, da transparncia,da democratizao e da descentralizao.

    So onze princpios que devem nortear todos os componentes doSistema, seja municipal, estadual ou distrital, sejam os Sistemas setoriais,porque eles, na verdade, orientam todas as relaes e comportamentos nombito do Sistema Nacional de Cultura.

    O objetivo do Sistema, em ltima instncia, o desenvolvimento amplo,num sentido abrangente, no da cultura isoladamente, mas da cultura comoparte de um processo de desenvolvimento humano, econmico e social,que assegure os direitos culturais e o acesso universal aos bens e serviosculturais.

    O grande desafio na concepo do Sistema era desenhar uma estruturaque possibilitasse garantir a sua estabilidade institucional e poltica, doponto de vista legal, jurdico, inclusive constitucional, e que ao mesmotempo tivesse flexibilidade para se adaptar s caractersticas da complexidadee da dinamicidade da rea da cultura.

    O Sistema de Cultura tem pontos comuns com outros sistemas, comoo da Sade, da Assistncia Social, do Meio Ambiente e outros nacionais.Mas tem pontos especficos para atender as caractersticas da rea cultural,principalmente essa dinamicidade e complexidade da cultura.

    A soluo foi criar um ncleo esttico para consolidar a parte legal, aparte jurdica do Sistema, inicialmente inserindo-o na Constituio Federal,

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  • por meio da Emenda Constitucional 416/2005, para em seguida ter leisordinrias, decretos e outras normas que complementem essa legislao.

    Mas, entendemos que muitas questes do Sistema Nacional de Cultura,que fazem parte dessa dimenso dinmica, no sero inseridas na legislao,sero acordadas nas instncias de articulao, pactuao e deliberao doSistema, que so as conferncias, os conselhos e as comisses intergestoras.Surge a o desafio de como articular e integrar os Sistemas Setoriais com oSistema Nacional.

    Os componentes bsicos do Sistema so: rgo gestor, conselho,conferncia, plano, sistema de financiamento no qual o fundo oelemento central , sistema de informaes e indicadores culturais e ossistemas setoriais que no seu interior basicamente reproduzem essesmesmos componentes.

    Ento, como integrar, por exemplo, o sistema de informaes da reade patrimnio com o sistema nacional de informaes e indicadoresculturais, para a obteno de um sistema nacional integrado, em que setenha acesso amplo, em que todos os municpios, todas as instnciaspblicas, e mesmo privadas, que atuam no campo da cultura, possamfazer um planejamento consistente a partir de dados seguros? Depois (eainda), sistemas de informaes capazes de avaliar a implementao daspolticas, de ter indicadores que vo mensurar a eficcia dessas polticasao longo do tempo.

    Temos, tambm, os programas de formao na rea da cultura. Ns jestamos, inclusive, com um curso piloto sendo colocado em prtica noestado da Bahia, por meio de uma rede que se constituir a partir domapeamento das instituies educacionais do pas que atuam na formaocultural. Esse curso ser disseminado em todo Brasil, a partir do prximoano, exatamente para qualificar e capacitar os gestores.

    Temos, ainda, as comisses intergestoras, que so comisses de gestorespblicos nas trs instncias de governo, sendo a tripartite no plano nacional,envolvendo a Unio, Estados e Municpios, e a bipartite nos Estados,envolvendo os gestores estaduais e dos municpios das diversas regies decada estado.

    So esses os componentes do Sistema. Eles basicamente se agrupam dessaforma e importante haver uma correlao no interior de cada SistemaSetorial com essa estrutura geral do Sistema.

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  • Primeiro vem a coordenao, exercida pelo rgo gestor em cadainstncia, em cada nvel de governo, ou no caso, por exemplo, dosubsistema de patrimnio, o Iphan, que o rgo de coordenao doSistema Setorial.

    Depois, as instncias de articulao, pactuao e deliberao, com asconferncias, os conselhos e as comisses intergestoras. Podero constituiroutras instncias; evidentemente essas so as bsicas, mas em funo dasespecificidades de cada Sistema Setorial, de cada Estado ou de cadamunicpio, poder haver outras instncias, especialmente fruns, colegiados,cmaras e outros tipos de colegiados, mas que devem ter uma inter-relaocom esses componentes. Por exemplo, os fruns devem ter uma relaodireta com os conselhos de poltica cultural, essa uma questo, um debateque temos que travar. Outra questo : como fica a relao entre osConselhos de Patrimnio e os Conselhos de Poltica Cultural?

    Aqui em Minas Gerais especialmente, como j foi dito, a lei estadualprovocou a criao de conselhos e fundos de patrimnio nos municpios eisso foi importante. Agora, com o Sistema Nacional de Cultura, temos osConselhos de Poltica Cultural e os fundos de cultura. Ento, como ficamesses fundos e esses conselhos de Minas Gerais? Vai haver em cadamunicpio dois conselhos um de poltica cultural que mais abrangentee um especfico para rea de patrimnio? Ou os conselhos de patrimniovo se adaptar concepo do Sistema Nacional de Cultura, reestruturando-se e incorporando novas atribuies relacionadas s demais reas da cultura?

    Temos, tambm, outros sistemas setoriais como o de museus e o debibliotecas. preciso dimensionar a capacidade e tambm a racionalidadedo ponto de vista organizacional e ver como possvel integrar, no interiorde cada sistema, esses diversos papis e funes que, no fundo, o que vaidar alma, vida, dinmica aos prprios conselhos de poltica cultural. Achoque um desafio definir como fazer essa integrao no interior dos sistemas.

    Depois, h ainda os instrumentos de gesto, que so os planos, ossistemas de financiamento a o fundo de cultura aparece como elementocentral , os sistemas de informaes e indicadores culturais e os programasde formao.

    Por fim, temos os sistemas setoriais: o de museus e o de bibliotecas, jem funcionamento, e o de patrimnio, em construo. O de bibliotecas,por exemplo, hoje restrito a bibliotecas e deve ser revisto para que passe a

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  • ter uma abrangncia maior, envolvendo livro, leitura e literatura, que soreas que j tm polticas pblicas. So questes que esto em discusso.

    O Sistema de Patrimnio tem uma situao mais favorvel, porque eleest se formando agora e j pode se constituir de uma maneira totalmenteintegrada ao Sistema Nacional de Cultura. Evidentemente, os outros doissistemas tero de fazer alguns ajustes para ficarem coerentes com essaconcepo.

    Em linhas gerais, em nvel nacional, ns temos j constitudospraticamente todos os componentes do Sistema Nacional de Cultura: oMinistrio da Cultura; as Conferncias j estamos na segunda; o ConselhoNacional, instalado desde dezembro de 2007; o Plano Nacional de Cultura.Alis, os planos de patrimnio devem ter uma relao direta, devem ser umdesdobramento do Plano Nacional de Cultura. O Plano Nacional,inclusive, j est inserido na Constituio Brasileira, e encontra-se em fasefinal de aprovao no Congresso o projeto de Lei no 6.835/2006, queinstitui o Plano Nacional de Cultura para o perodo de 2010 a 2020.Teremos, agora, o desdobramento do Plano Nacional de Cultura com osplanos setoriais, com os planos territoriais e, evidentemente, um dos setores exatamente o de patrimnio.

    O Sistema Nacional de Financiamento est sendo estruturado com amudana da Lei Rouanet e a criao do Procultura, que fortalece o FundoNacional de Cultura. O Sistema Nacional de Informaes e de IndicadoresCulturais tambm j est sendo implementado, assim como o Programa deFormao. Falta apenas a Comisso Intergestores Tripartite.

    O grande problema que, apesar desses componentes j existirem, cadaum uma ilha, com um baixo grau ou nenhuma integrao. Nofuncionam como sistema, funcionam como instncias autnomas. Ento,o grande desafio criar essa integrao. Essa situao se reproduz no nveldos estados e municpios.

    Como j falei, no plano nacional todos esses componentes j esto sendocolocados em prtica, faltando apenas a Comisso Intergestores Tripartite,que ter de aguardar a constituio das Comisses Bipartites, nos estados,para ser constituda.

    Esse o estgio em que estamos na constituio do Sistema Nacionalde Cultura. bom lembrar que o estado do Acre, por exemplo, j aprovouna sua Conferncia Estadual a Lei do Sistema Estadual de Cultura. A cidade

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  • de Rio Branco, capital do Acre, j tem um SistemaMunicipal aprovado porlei h dois anos e na ltima Conferncia Municipal foi feita uma avaliaode seu funcionamento. Em Pernambuco, na Bahia e no Cear, essas leistambm foram objeto de discusso em conferncias. Em vrios municpiosesse processo est avanando. Foz do Iguau aprovou recentemente a sua leina Cmara Municipal.

    O Sistema, enfim, est sendo constitudo em todo o Pas. E como ostrs entes federados so autnomos, isso j pode e deve acontecer. Acho,inclusive, que esse fato, de um lado, provoca e acelera ainda mais atramitao da legislao do Sistema Nacional de Cultura no CongressoNacional e, de outro, coloca o desafio, no interior do prprio SistemaNacional, da construo dessa integrao, inter-relao e interao entre osseus diversos componentes. Espero que estes dias de discusso aprofundem,enriqueam o debate e possibilitem sairmos daqui com a proposta deconstituio de um Sistema Nacional de Patrimnio Cultural forte etotalmente articulado ao Sistema Nacional de Cultura.

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    O PROGRAMA PERNAMBUCONAO CULTURAL

    Clia Maria Medicis Maranho de Queiroz Campos*

    RESUMOA Fundao do Patrimnio Histrico e Artstico de Pernambuco, na

    gesto 2007-2010, tem tido como base o Programa Pernambuco NaoCultural. Esse programa tem focado a diversidade cultural do Estado atravsde um modelo de desenvolvimento econmico inclusivo e sustentvel comuma proposta de polticas integradas do cais (litoral) ao serto (interior), nas12 Regies de Desenvolvimento RD e no Distrito de Fernando deNoronha. Por sua vez, a poltica de preservao do patrimnio cultural,vinculada ao Pernambuco Nao Cultural, tem como objetivos:potencializar o desenvolvimento cultural; preservar, difundir e pesquisar opatrimnio em suas vrias vertentes; desenvolver processos de formao equalificao profissional; fomentar a produo cultural e potencializar aeconomia da cultura e; assegurar a participao dos segmentos culturais naformulao, controle e avaliao da poltica pblica de cultura.

    PALAVRAS-CHAVEPatrimnio cultural, Preservao e Polticas pblicas.

    INTRODUOA Fundao do Patrimnio Histrico e Artstico de Pernambuco

    Fundarpe o rgo que tem como responsabilidades a formulao, aimplementao e a execuo da Poltica Pblica de Cultura PPC doEstado de Pernambuco.1 As dimenses de sua atuao tm crescido desdea sua criao, na dcada de 1970.

    A gesto do governador Eduardo Campos tem sido realizada de maneiraa congregar e integrar os diversos atores pblicos e a sociedade civil, pormeio de fruns regionais, por linguagens e culturas, alm de confernciaspara se alcanar ummodelo de cogesto, que possibilite interiorizar as aesdas polticas. A abordagem do tema base Polticas integradas de preservaodo patrimnio cultural, desenvolvimento social e econmico foi

    *Arquiteta,professora adjuntaaposentada da UFPEe diretora dePreservao Culturalda Fundao doPatrimnioHistrico e Artsticode Pernambuco Fundarpe

    1. PERNAMBUCONao Cultural.Informativo daFundao doPatrimnioHistrico e Artsticode Pernambuco.Gesto 2007-2010 Plano de Gesto, p.8.

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    l.1 estruturada a partir dos seguintes tpicos: histrico da criao da Fundarpe;

    a gesto 2007/2010; o Plano Pernambuco Nao Cultural; o Funcultura eos resultados das polticas integradas.

    HISTRICO DA CRIAO DA FUNDARPEDe acordo com Menezes,2 no incio dos anos 70, mais precisamente no

    dia 17 de julho de 1973, o diretor-presidente do Banco deDesenvolvimento de Pernambuco Bandepe instituiu a Fundao doPatrimnio Histrico e Artstico de Pernambuco Fundarpe, cujosestatutos j haviam sido publicados no Dirio Oficial do Estado dePernambuco, em 19 de maro do mesmo ano. A criao da Fundarpe estavavinculada ao Programa Federal das Cidades Histricas para execuo deprojetos de preservao dos monumentos histricos e artsticos do Estado,alm de incentivar as demais produes culturais,3 consequentemente seusestatutos foram elaborados por exigncia do mencionado programa.

    A preocupao com a reconstruo das cidades histricas representouuma ao de preservao com repercusso regional que teve Pernambucocomo sede. De acordo com Menezes,4 as aes iniciais eram mais voltadaspara a elaborao de projetos e execuo de obras para a Igreja Catlica.

    O nmero de funcionrios, no incio da Fundao, era reduzido paraatender demanda estadual, ou seja, o grupo de funcionrios somavaapenas: um secretrio-executivo, uma secretria, um contador, um auxiliarde contabilidade e dois arquitetos.5

    Em 1979, houve uma reestruturao da Fundarpe, que passou a contarcom uma Presidncia, uma Diretoria do Patrimnio Histrico e umaDiretoria de Assuntos Culturais.6 Ainda nesse ano, em 18 de setembro, oGoverno do Estado sancionou a Lei n 7.970,7 que institui e regulamentao tombamento de bens mveis ou imveis, pblicos ou privados.

    Dez anos aps sua criao, em 1983, o quadro funcional cresceu para140 funcionrios8. Alm dos tcnicos contratados, a Fundao incluiu nasua poltica de ao a formao de mo de obra especializada, para reposiodos servidores, atravs da contratao de estagirios do curso de arquiteturada Universidade Federal de Pernambuco, que depois foram incorporados Fundao. Com o passar do tempo, a Fundarpe foi aumentando o seuquadro de funcionrios e nos anos 90 chegou a contar com 170 tcnicos.9

    Na dcada de 1990, a Lei do Sistema de Incentivo Cultura (SIC), Lei

    2. MENEZES, JosLuiz Mota. Aindachegaremos l:

    histria daFundarpe. Recife:Fundarpe, 2008, p.

    22.

    3. Ibid., p. 37.

    4. Ibid., p. 34.

    5. Ibid., p. 34.

    6. Ibid., p. 35.

    7. PATRIMNIOSde Pernambuco:

    materiais eimateriais/ Fundao

    do PatrimnioHistrico e Artstico

    de Pernambuco.Recife: Fundarpe,CCS Grfica e

    Editora, 2009, p. 21.

    8. MENEZES. Op.cit., p. 34.

    9. Ibid., p. 230.

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  • n 11.005, foi sancionada no dia 20 de dezembro de 1993, com os objetivosde apoiar o desenvolvimento, incentivar e estimular a culturapernambucana.10 Foi modificada pela Lei n 12.629, de 12 de julho de2004, que alterou a denominao para Fundo Pernambucano de Incentivo Cultura Funcultura /SIC, a ser gerido pela Fundarpe.11

    Contribuindo com a valorizao das manifestaes populares etradicionais da cultura pernambucana, foi criada a Lei n 12.196 em 2 demaio de 2002,12 denominada Registro do Patrimnio Vivo RPV. Tal leivisa, ainda, garantir que os artistas selecionados por edital pblico repassemseus conhecimentos s novas geraes, na comunidade e fora dela. Desde2005, anualmente trs candidatos recebem o ttulo de Patrimnio Vivo dePernambuco. Os premiados recebem bolsa vitalcia para auxiliar o repassedas suas habilidades.

    A diversidade da natureza dos saberes e fazeres dos Patrimnios Vivos ea interao desses mestres com as novas geraes tm proporcionado umaoportunidade mpar para a reflexo sobre o desenvolvimento de estratgiasde salvaguarda do patrimnio imaterial pernambucano.

    Atualmente, a Fundao do Patrimnio Histrico e Artstico dePernambuco o rgo executor da Poltica Cultural do Estado. Tem comoobjetivo principal a promoo, o apoio, o incentivo, a preservao e adifuso das identidades e produes culturais de Pernambuco de formaestruturadora e sistmica, focada na incluso social, na universalizao doacesso, na diversidade cultural, na interiorizao das aes e nodesenvolvimento regional integrado.

    Como sntese das aes da Fundarpe, da sua criao gesto atual, 2007-2010, podemos constatar que a mesma realizou atividades voltadas pararestaurao de bens, exames tcnico-histricos, pareceres, levantamentosarquitetnicos, processos de tombamentos, registros de patrimniosimateriais, pesquisas histricas e arqueolgicas, publicaes de livros, editaisde fomento, alm de eventos e das celebraes dos ciclos culturais queprocuram difundir e valorizar a cultura pernambucana.

    A GESTO 2007-2010A proposta de gesto da Fundao do Patrimnio Histrico e Artstico

    de Pernambuco, no perodo de 2007 a 2010, corresponde ao GovernoEduardo Campos, que tem frente, como diretora-presidente, a arquiteta

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    10. Ibid., p. 191.

    11. Ibid., p. 192.

    12. PERNAMBUCONao Cultural.Informativo daFundao doPatrimnioHistrico e Artsticode Pernambuco.Gesto 2007-2010 Plano de Gesto, p.34.

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  • Luciana Azevedo. A partir da construo de um modelo de gestosintetizado no Plano Pernambuco Nao Cultural, busca-se trabalhar aPoltica Pblica de Cultura, atravs de um modelo de desenvolvimentoinclusivo e sustentvel.

    O PLANO PERNAMBUCO NAO CULTURALA montagem do Plano foi baseada em escutas comunidade cultural,

    compreendendo artistas, agentes, produtores, representantes do governo eda sociedade civil, em Fruns Regionais por Linguagens Culturais, de modoa definir em conjunto as prioridades de cada linguagem.13

    A proposta do Plano para implantar a Poltica de Cultura foi estruturadasegundo quatro eixos14 baseados em aes inseridas no contexto dodesenvolvimento da economia da cultura.

    O primeiro, denominado Constituinte Cultural, cuida da insti-tucionalizao da PPC.

    J o segundo, objetiva a dinamizao da rede de equipamentos culturaispor linguagens e das Estaes Culturais Regionais, lcus do modelo decogesto.

    O terceiro, por sua vez, compreende o desenvolvimento das aespermanentes e estruturadoras de preservao, fomento, formao, difusoe fruio cultural. Tal eixo foi materializado em seis frentes de atuao, asaber: Modelos de cogesto; Planos de Ao desenvolvidos nas EstaesCulturais Regionais; Fomento como resultado das prioridades definidaspelo tecido cultural; Fortalecimento das redes de Pontos de Cultura;Desenvolvimento dos ciclos e festivais culturais nas doze RD (incluindo oterritrio de Fernando de Noronha); e Dinamizao do Sistema dePreservao do Patrimnio Material e Imaterial.

    O quarto eixo, por fim, compreende a comunicao e a difuso culturalem meios de comunicao e pelo portal colaborativo Pernambuco NaoCultural.

    O FUNCULTURAO Fundo Pernambucano de Incentivo Cultura Funcultura

    considerado um pilar estruturador do modelo de gesto participativa eregionalizada que apoia os planos de aes da Fundarpe por reas e

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    13.PERNAMBUCO.

    Op. cit., p. 9.

    14. Disponvel emhttp://www.nacaocultural.pe.gov.br/plano-de-gestao-da-fundarpe, acessadoem 26 de fevereiro

    de 2010.

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  • linguagens. Fomenta, ainda, as aes governamentais e as dos produtores,por meio de linhas de ao holsticas e estruturadoras, focadas napreservao, formao, fomento, fruio, difuso e desenvolvimentosustentvel da cultura.

    Destaque especial cabe aos projetos dos produtores independentes, quede 2006 a 2008 tiveram ampliados, de modo considervel, o nmero deprodutores cadastrados; os investimentos; o nmero de projetos aprovados,alm da distribuio regionalizada dos investimentos.15 O Funcultura tempermitido estimular reas e linguagens culturais desde a sua criao at agesto atual.

    A ampliao dos participantes tem ocorrido pelas estratgias dedivulgao adotadas, que capacitam os produtores culturais noentendimento e preenchimento do formulrio de apresentao dos projetos.Os projetos da rea de Patrimnio Cultural passam por propostas derestaurao, aes de educao patrimonial, pesquisas, projetos deinterveno, elaborao de inventrios, estruturao de arquivos, entreoutras, ou seja, o fundo tem cumprido a sua misso de incentivar aproduo cultural como um bem social e econmico do Estado.

    Observa-se, porm, pelos dados consolidados dos ltimos cinco anos,que o valor total dos projetos aprovados, relacionados rea de patrimnio,no significativo, quando comparado aos apresentados nas demais reasculturais,16 representando em mdia 7,5% do total do valor financiado.Esse nmero sinaliza um desconhecimento e/ou no adoo da linha definanciamento do Funcultura pelos profissionais ou pesquisadores da reade preservao do patrimnio.

    O patrimnio imaterial encontra-se, ainda que indiretamente, inseridoem projetos de cultura popular ou de audiovisual, cujos objetos, tais comoo maracatu, o caboclinho, o coco, a ciranda, entre outros, correspondem abens de natureza imaterial. Quanto ao patrimnio material, por tercaractersticas de conservao mais tcnicas, relacionadas engenharia e arquitetura, concentra seus profissionais numa esfera de divulgao distintada dos produtores culturais.

    Dessa forma, como estratgia para incrementar o papel do Funculturacomo canal de financiamento para a preservao do patrimnio, sobretudoo material, faz-se cada vez mais necessrio um projeto maior de divulgaonos meios profissionais prprios desses campos disciplinares, tais como o

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    15. PERNAMBUCO.Op. cit., p. 5.

    16. As reas culturaisdo Funcultura so:artes cnicas;fotografia; literatura;msica; artes plsticase grficas; culturapopular, folclore eartesanato; culturapopular e tradicional;artesanato;patrimnio; pesquisacultural; artesintegradas; formao ecapacitao egastronomia.

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  • Instituto dos Arquitetos do Brasil IAB, o Conselho Regional deEngenharia, Arquitetura e Agronomia CREA, escolas de arquitetura,engenharia, arqueologia, sociologia e antropologia, bem como mestradosda rea de conservao do patrimnio histrico e de gesto ambiental.

    RESULTADOS DAS POLTICAS INTEGRADASOs resultados positivos das polticas integradas de preservao do

    patrimnio cultural no desenvolvimento social e econmico provm dasestratgias elencadas no Plano Pernambuco Nao Cultural, das legislaesde apoio e, principalmente, dos diversos atores e parceiros, quando atendema convocao para construirUm Pernambuco plural, um Pernambuco NaoCultural.17

    O acesso da populao cultura pernambucana via aes da PPC, noenfrentamento da excluso cultural e melhoria de desenvolvimento humanoda populao, ao longo do ano de 2009, atingiu mais de 19 milhes empblico, atravs de seus polos nos ciclos culturais do Carnaval, Paixo, SoJoo, Ciclo Libertrio e Natalino, dos festivais regionais Pernambuco NaoCultural, das Aes dos Pontos de Cultura, dos 1.312 projetos fomentadosem todas as linguagens e linhas de ao do Funcultura.18

    Com relao aos nmeros do fomento atravs de editais, foramconcedidos R$ 23 milhes, dos quais R$ 12 milhes atravs do edital doFuncultura; R$ 4milhes via edital do Audiovisual; e R$ 7 milhes emparceria com o Ministrio da Cultura, via edital de fomento continuado agrupos culturais consolidados.

    Dentre as principais aes introduzidas pela Fundarpe na rea dePreservao destacam-se a publicao do livro do arquiteto Jos Luiz daMota Menezes, Ainda chegaremos l: histria da Fundarpe, que relata atrajetria dos 35 anos da Fundao; o Programa de Especializao emPatrimnio (PEP), visando, a exemplo da iniciativa do Iphan, capacitarprofissionais para o exerccio das prticas de preservao, tendo sidoampliado de 13 para 25 o nmero de bolsistas no edital de 2009,englobando as reas de arquitetura, histria, biblioteconomia, cinciassociais, turismo, design, informtica e Engenharia.

    Outras importantes aes foram feitas atravs de oficinas de educaopatrimonial realizadas em escolas da rede pblica estadual, que fazem partedo Programa Pacto pela Vida do Governo do Estado, nos festivais

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    17.PERNAMBUCO.

    Op. cit., p. 5.

    18.PERNAMBUCO.

    Op. cit., p. 47.

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  • Pernambuco Nao Cultural, realizados nas doze RD, e em municpiosincludos nas 10 rotas tursticas de Pernambuco, em parceria com a EmpresaPernambucana de Turismo Empetur.

    A produo e publicao de cartilhas sobre o patrimnio material eimaterial de Pernambuco, alm das publicaes sobre seus acervos culturais;a interiorizao da celebrao da Semana do Patrimnio Cultural dePernambuco; a realizao das escutas de patrimnio, durante os FrunsRegionais de Cultura, realizados em municpios estratgicos, onde artistas,produtores, representantes governamentais e agentes culturais discutem,propem e planejam aes de forma democrtica, regionalizada eparticipativa, tambm so aes que foram introduzidas pela Fundarpe narea de Preservao.

    O produto desses encontros serve como base para traar e definircaminhos e regras para o desenvolvimento e integrao das aes culturaisno Estado, de acordo com suas identidades,19 alm de ser parte integrante,na elaborao do Mapa Cultural de Pernambuco, site cartogrfico com olevantamento dos ativos culturais do Estado georreferenciados, quedisponibiliza em rede internet, as informaes de que a Fundarpe dispe,relativas ao mapeamento dos bens materiais e imateriais de Pernambuco,bem como os beneficiados em programas de fomento. Esse site tem comoobjetivo funcionar como sistema de informaes atualizadas e atualizveissobre os ativos culturais de Pernambuco, estimular o conhecimento eapropriao dos patrimnios em cada municpio e permitir aos usurios domundo inteiro conhecer a cultura do Estado. O site est disponvel noendereo www.mapacultural.pe.gov.br.

    A pgina de Preservao, no Portal Pernambuco Nao Cultural,hospedada no endereo www.nacaocultural.pe.gov.br outra ferramentadigital de conhecimento e informao, onde, at o presente momento, jforam disponibilizados 82 textos, 73 imagens e 10 notcias sobrepreservao e, finalmente, a digitalizao do acervo do Registro doPatrimnio Vivo, assim como de todos os candidatos concorrentes aoRegistro.

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    19. PERNAMBUCONao Cultural.Informativo daFundao doPatrimnio Histrico eArtstico dePernambuco. Balano/Aes 2007, p. 7.

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  • REFERNCIAShttp://www.nacaocultural.pe.gov.br/plano-de-gestao-da-fundarpe, acessado em 26 de fevereiro de2010.

    MENEZES, Jos Luiz Mota. Ainda chegaremos l: histria da Fundarpe. Recife: Fundarpe, 2008.

    PATRIMNIOS de Pernambuco: materiais e imateriais/ Fundao do Patrimnio Histrico eArtstico de Pernambuco. Recife: Fundarpe, CCS Grfica e Editora, 2009.

    PERNAMBUCO. Dirio Oficial do Estado. Decreto n 30.391, de 27 de abril de 2007.Regulamento da Fundarpe. Recife, 28 de abril de 2007.

    PERNAMBUCO Nao Cultural. Informativo da Fundao do Patrimnio Histrico e Artsticode Pernambuco. Gesto 2007-2010 Plano de Gesto.

    PERNAMBUCO Nao Cultural. Informativo da Fundao do Patrimnio Histrico e Artsticode Pernambuco. Balano Aes realizadas em 2007.

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    A EXPERINCIA REFERENCIAL EPREMIADA DE JOO PESSOA

    Fernando Moura*

    RESUMOSinttico panorama do desenvolvimento das polticas pblicas de

    preservao da cidade de Joo Pessoa, capital da Paraba, num ciclo histricode 20 anos. Seus avanos e recuos, problemas e alternativas, hiatos e parcerias,culminando com a escolha do Prmio Rodrigo Melo Franco de Andrade2009, na categoria Apoio Institucional e/ou Financeiro, pelo projetoPrograma Integrado de Preservao do Patrimnio Cultural de Joo Pessoa.

    PALAVRAS-CHAVEPatrimnio, Preservao, Joo Pessoa.

    Eu gostaria de fazer aqui um apanhado geral, atendendo a solicitao deWeber Sutti de sermos todos sinceros neste momento. Peo licena, noentanto, para ser um pouco mais sincero nos aspectos positivos daexperincia de Joo Pessoa e da Paraba, porque conseguimos chegar a umestgio consistente no processo de revitalizao e preservao do patrimniocultural paraibano, de uma forma at um pouco casual, dadas ascaractersticas do seu incio. Em meados dos anos 1980, o ento ministroda Cultura, Celso Furtado, paraibano de Pombal, um dos homens maisimportantes da cultura nacional de todos os tempos, teve a compreenso deque naquele momento o Ministrio da Cultura, com as relaesinternacionais que detinha, se via na obrigao de abrir uma srie de canais,uma srie de dilogos e de pactuaes globais, para que tivssemos acesso aalguns tipos de recursos extras e pudssemos, a partir de ento, desenvolveraes de preservao, que naquele momento eram centradas no patrimnioedificado.

    Foi feita, ento, uma parceria com o governo espanhol e isso permitiu aentrada de recursos substanciais e volumosos, tendo sido determinante paraa instalao da Comisso Permanente do Centro Histrico de Joo Pessoa,

    * Jornalista, editor,escritor, pesquisadore coordenador doPatrimnio Cultural PrefeituraMunicipal de JooPessoa

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    l.1 que se mantm at hoje, e da qual Cludio Nogueira foi coordenador, alm

    da criao da Oficina-Escola de Joo Pessoa, a primeira na Amrica Latina.O Brasil, hoje, tem cinco ou seis, se no me engano, algumas comproblemas de gesto, porque a Espanha retirou o seu financiamento depoisde vinte anos. Joo Pessoa, juntamente com o Ministrio de Cincia eTecnologia, Pernambuco e So Luiz, esto conseguindo montar uma novaparceria estratgica, de forma que esse trabalho extremamente importante,tanto pra ns na Paraba quanto para outras cidades do Brasil e de outrospases da Amrica Latina, possa e consiga ter continuidade.

    A viso do Celso Furtado, naquela ocasio, foi extremamente importantee fez com que, ao longo do tempo, Joo Pessoa, de certa forma, mesmo notendo a visibilidade de outras cidades, outros estados e de outras capitais,como Ouro Preto e Salvador, por exemplo, avanasse no seu trabalho deformiguinha, na lgica preservacionista. A capital pernambucana tem umpatrimnio histrico, material e imaterial, de uma relevncia que ns,brasileiros, desconhecemos. Uma cidade com 424 anos que conseguiu, porsorte, manter preservada a sua rea central, principalmente a rea histrica,em decorrncia da debandada econmica, j que ela tem uma caractersticageogrfica diferente, pois nasceu do rio e cresceu em direo ao mar.Enquanto a maioria das nossas capitais nasceu do mar e se interiorizou,Joo Pessoa nasceu do rio Sanhau e foi invadindo o litoral, a partir dosanos 1930, 40 e 50. Essa debandada fez com que, casual e ironicamente, asedificaes histricas fossem mantidas e preservadas, mesmo a despeito dedemolies e descasos, pblicos ou privados.

    Diante desse desdm, vamos dizer assim, da sociedade com o seupatrimnio edificado porque o cultural vem sendo fortemente mantido,j que somos um celeiro cultural para o Brasil , teria que haver,essencialmente, uma reao articulada. Para citar s alguns exemplos,porque realmente precisamos, nessas ocasies, fazer ver que o Brasil muitomaior do que aquilo que ns entendemos, embora seja uma plateia seleta.Temos, por exemplo, o prprio Celso Furtado, Pedro Amrico que nasceuna Paraba, precisamente em Areia, cidade que foi recentemente, junto comJoo Pessoa, tombada pelo Patrimnio Nacional. Temos tambm JosAmrico de Almeida e Jos Lins do Rgo, dois dos nomes mais importantesda literatura nacional. Se formos para a msica, podemos citar Jackson doPandeiro, Severino Arajo, Sivuca, Z Ramalho, Elba Ramalho, ChicoCsar, Herbert Viana. E ainda, no teatro, Paulo Pontes, Ariano Suassuna.Gastaria mais dez, quinze minutos citando essas pessoas, mas no o caso,

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    tespor hora. apenas para termos uma noo da importncia dessa cidade no

    contexto nacional.

    O fato que o processo teve incio na dcada de 1980 e no mais parou,mesmo que lenta, pontual e desarticuladamente em algumas ocasies, foium processo permanente, continuado, evolutivo. Isso levou a Prefeitura acriar, no ano passado, uma Coordenadoria de Proteo do PatrimnioCultural, da qual sou coordenadora e na qual, efetivamente este ano,comeamos a trabalhar. O decreto foi em julho do ano passado e duranteos seis meses seguintes, em decorrncia inclusive das eleies, houve umaestratgia de formatao do que seria essa Coordenadoria no futuro e quaisas aes que ela deveria priorizar. Naquele momento, a sociedade foiconvocada e veio de forma muito presente, exatamente por essacaracterstica de estar h mais de vinte anos trabalhando, entendendo,participando, vislumbrando muitos problemas, mas tambm algumassolues. Ento, ela atendeu ao chamado e isso resultou num seminrio,com durao de vrios dias e em dois momentos diferentes, no qual foiestabelecido um Plano de Ao compartilhado e integrado. Esse Plano deAo determinou linhas especficas para que, a partir de 2009, vissemos aaplic-las, ampliando e adequando alguns pontos.

    Essa uma das razes de estarmos aqui neste momento. Inclusive, aindasero expostas, nesta conferncia, algumas experincias na rea da educaopatrimonial, por mim e outra colega. Assunto que tem sido referncia e temalcanado certa visibilidade por conta, exatamente, desse compartilhamento,dessa pactuao e integrao entre os setores da sociedade envolvidos com amatria. Na verdade, at nos surpreendeu o avano que se teve com aeducao patrimonial em rede, porque conseguimos juntar as universidades,as esferas governamentais, a iniciativa privada, o prprio municpio e oIphan, como parceiros iniciais e fundamentais nesse processo.

    Em 2009, fomos tambm surpreendidos com o Prmio Rodrigo MeloFranco de Andrade, no qual ganhamos na categoria Apoio financeiro e/ouinstitucional. Todo mundo cria expectativa de ter algum ganho nessesprocessos, principalmente o ganho poltico, institucional e o doconhecimento, mais do que os recursos, mais do que a divulgao ou a trocade experincia. Mas, nos surpreendeu de certa forma. E por que nsganhamos? Por que a cidade de Joo Pessoa, com um rgo com menos deum ano de gesto, conseguiu essa premiao to cobiada e entregue pelaprimeira vez Paraba?

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  • A comisso julgadora percebeu que essa ao prolongada, partilhadadurante um tempo bastante razovel, era digna de ser contemplada pelopas como estratgia a ser conhecida e, talvez, seguida por outras esferasadministrativas e polticas.

    Estamos no dia 14 de dezembro de 2009, do sculo XXI, do terceiromilnio. H trinta anos essa identificao seria vista como uma data defico cientfica, alguma coisa retirada dos seriados televisivos, como Terrade gigantes, Perdidos no espao, Os Jetsons. Enfim, o que seria ummarco de fico cientfica, hoje realidade. Pois bem, mesmo a despeito decontornos ficcionais e delirantes, h trinta anos um grupo de pessoasimaginou que trs, quatro, cinco dcadas depois seria fundamental otrabalho iniciado naquele determinado momento. Ento, essa visosistmica foi colocada no projeto e no apenas os investimentos realizadosnos ltimos cinco anos. Compreendemos, assim, que foi exatamente esseprocesso integrado e compartilhado que despertou a ateno do Iphan edos seus julgadores independentes. Alm do prprio referendo do rgofederal, os componentes da comisso julgadora entenderam que esse talvezseja um bom caminho a ser seguido.

    Longevidade e continuidade, at os dias atuais, so resultantes do que foifeito naquele momento e em outros perodos subsequentes. Com asociedade, fundamentalmente, realizamos, nos ltimos dez anos, algo emtorno de dez eventos entre seminrios, encontros, fruns e colquios.Inclusive, o prprio seminrio Monumenta, quando esteve em Joo Pessoa,foi esclarecedor e determinante. O Sebrae realizou um, a UFPB realizououtro, ns realizamos mais um no ano passado, foi criada a Associao doCentro Histrico Vivo Acerhvo, da qual fui fundador e primeiropresidente; uma entidade integrada por membros da sociedade, daorganizao civil, do empresariado e por moradores do Centro Histrico,uma entidade extremamente abrangente, que serviu como interlocutorapermanente com gestes governamentais. O que tambm, de certa forma,facilitou o compartilhamento.

    Claro que, para alcanarmos esse nvel de entendimento, ocorrerammuitos reveses, muitas cabeadas foram dadas, correes de rotas tiveramque ser implantadas e vrios embates foram travados. Mas o trabalho nuncaparou. Mesmo com altos e baixos, a ao foi continuada e reforada emalgumas ocasies, com ntido destaque para os ltimos quatro ou cincoanos. Apenas para se ter uma ideia, foram investidos cerca de R$ 40

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  • milhes, dos quais 50% eram de recursos prprios. Se considerarmos asdificuldades de uma prefeitura de porte mdio, de um estado pobre daFederao, entenderemos que o volume de aplicaes ganha contornos depoltica pblica, acenando sociedade aquilo que ela prpria estipularia aolongo do tempo. At enfrentamentos difceis, como a retirada decomerciantes ambulantes das caladas centrais, para espaos prprios maisdignos e ordenados, tiveram que ser travados, independentemente de suasrepercusses eleitorais. Mexer em verdadeiros vespeiros, como ototalmente descaracterizado e inchado Mercado Central, foi o lado menosromntico desse processo, mas fundamental para que a cidade fosserecuperando seus aspectos urbanos, paisagsticos e, fundamentalmente,humanos.

    Est tudo resolvido ento? Todos conhecem a resposta. Todos sabemosque esse um trabalho que s tem incio e que ir atravessar geraes,resultando em outros problemas, outras solues, outras ferramentas, outrastecnologias. O grande desafio, na verdade, o que est por vir, na medidaem que as cidades vo crescendo, desenvolvendo-se e estabelecendo novosespaos e hbitos que sero, dentro de algum tempo, tambm refernciasurbansticas, paisagsticas e culturais. Agora mesmo, estamos propondo otombamento, como patrimnio moderno, da Estao Cabo Branco deCincias, Cultura e Artes, obra de Oscar Niemeyer, erguida em plenoParque Ecolgico do Cabo Branco, ponto extremo oriental do Brasil. Aedificao, pela localizao, pela beleza, pelos objetivos pedaggicos e pelaautoria, j nasce histrico e deve ser entendido como patrimnio desde j.Estarmos atentos ao passado e projetarmos o futuro ser vital na equao aser formulada por gestores, tcnicos e pela sociedade, na perspectiva de umcrescimento sustentvel, respeitoso e cidado.

    Sob essa lgica, acredito que sejam esses alguns dos fatores da premiaoque recebemos e de estarmos aqui nesta sesso de abertura de evento torelevante para o patrimnio cultural brasileiro.

    Quero salientar dois aspectos, para que possamos fomentar o debate hojee nos prximos trs dias de conferncia. Carla, integrante da Prefeitura deAreia, me chamava a ateno ontem para o que sentiu na elaborao doPlano de Ao de Areia: certo distanciamento de outros ministrios emrelao ao Ministrio da Cultura e do Iphan. No por descompromisso,mas, talvez, por no conhecerem em profundidade algumas das questesinerentes ao patrimnio cultural. Talvez isso, com a viso tcnica

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    l.1 predominando essencialmente, esteja interferindo em alguns dilogos que

    foram tentados, uns com sucesso e outros no. Por isso, chamamos atenopara a necessidade de haver uma integrao bem maior do que apenas afinanceira, do que apenas a de gesto com todos os ministrios, vindo arefletir realmente numa ao de Estado, como bem foi levantado aqui pelaMesa.

    Outro aspecto que destaco para que possamos refletir nesses dias anecessidade de reforarmos e popularizarmos linhas de financiamento paraque a iniciativa privada possa participar, tambm, desse esforo depreservao do nosso patrimnio, numa escala mais ampla. Isso j foisalientado pelo Iphan como uma linha de ao a ser adotada, mas aindavejo a coisa um pouco acanhada, em decorrncia de uma situao que temosvivenciado em Joo Pessoa. Na nossa rea central, por exemplo, existemcerca de oito mil e quinhentas edificaes, entre residncias, pontoscomerciais, shoppings, etc. Dessas, cerca de cem unidades esto deterioradasna configurao histrica. Menos de 1% desse universo, portanto, estperigando ruir e, nesse recorte, cerca de 90% so de particulares.Consequentemente, a sociedade comea a elevar o nvel de cobrana, j quea criao da prpria Coordenadoria, as aes dos ltimos cinco anos daPrefeitura, esse trabalho integrado de vinte e tantos anos, a Comisso, aOficina-Escola, o Iphan, enfim, toda essa luta evidentemente chamaateno da sociedade e isso que ns queremos. S que agora a sociedadecomea a ter um grau de cobrana bem maior, e essa cobrana est voltadaequivocadamente para a gesto pblica, como sendo dela a obrigao derecuperar as edificaes privadas. Evidentemente que no essa a obrigaoda gesto pblica, a gente sabe de ctedra, mas preciso abrir algunscaminhos para resolver esse problema.

    Um deles, logicamente, o financiamento para a recuperao dessasedificaes, mas eu acredito que esse ponto deveria ser um pouco maisaprofundado para que pudssemos ter essas parcerias efetivas, porque agente calcula que algo em torno de dez e vinte mil reais seria suficiente pararecuperar fachadas, a parte interna, as cobertas e transformar um imvelque estava em runas em algo produtivo; uma residncia, uma hospedagem,uma pousada, uma casa comercial. H uma natural expectativa para queisso se resolva o mais rpido possvel, por isso trago a temtica para asdiscusses segmentadas, embora j tenha sido recorrente, devemos insistirnesse aspecto, definindo linhas menos burocrticas, mais rpidas e de acessomais facilitado.

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    tesE, para finalizar efetivamente, gostaria de lanar Joo Pessoa como

    candidata para a realizao do j anunciado segundo frum, em 2011, umavez que esse segundo encontro ainda no tem uma sede definida. Cidadescomo Ouro Preto, Salvador, Rio de Janeiro, So Luiz, Olinda, Recife, entreinmeras outras, de relevncia para a nossa histria, j tiveram os seusespaos devidamente firmados e compartilhados com o restante do Brasil.Por continuada visibilidade, essas localidades so referncias automticasquando pensamos em problemas e solues ligadas ao espectro patrimonial.Joo Pessoa, ainda no. Mesmo sendo to antiga ou mais que algumasdessas, a capital paraibana permanece h dcadas fechada em copas,expondo-se apenas quando visitada ou estudada por interessados natemtica, como o presidente Luiz Fernando, um grande admirador eparceiro da cidade. Mas no h um entendimento generalizado da suaestrutura espacial, ambiental e histrica e, muito menos, de suasperspectivas referenciais.

    Que tal passear pelas mesmas ruas que transitou um dos maiores poetasda humanidade, Augusto dos Anjos? Ou visitar os ambientes e respirar ahistria da Revoluo de 30, cuja Paraba foi o estopim? Por que no fazero mesmo roteiro do imperador Pedro II, em sua ltima visita fora da capitaldo Imprio? Ou conhecer a igreja barroca mais formosa do Brasil, a SoFrancisco, na tica de Mrio de Andrade? Ou, ainda, desfrutar de seu verde,de seus ventos, de suas guas, de seus cheiros, que credenciaram a capitalparaibana a ser uma das mais ecolgicas do mundo? Conhecer, por exemplo,a Lagoa, um dos seus mais simblicos e agradveis espaos, local ondenasceu Geraldo Vandr e onde est localizada a escultura A pedra do reino,em homenagem a Ariano Suassuna mais uma opo de deleite econhecimento? Falar nas praias de Tamba, Cabo Branco, Manara, Jacare Seixas provoc-los a se incorporarem a uma malha de beleza epreservao responsvel, na lgica de uma legislao que impede aconstruo de espiges beira-mar.

    Por tudo isso e muito mais tanto que me limitarei a esses exemplos projeta a realizao de um frum dessa magnitude como to produtivo eempolgante como este, realizado no cho dos libertadores da ptria. Deforma diferente, somos iguais nos tesouros preservados ou perdidos. Da aproposta para apreciao dos senhores e senhoras. Aguardaremos todos coma decantada hospitalidade, alegria e operosidade dos paraibanos. Quem noconhece, ter a oportunidade de se deparar com uma das joias da coroabrasileira. At l e muito obrigado!

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  • OMEMORIAL DO HOMEM KARIRI UM PATRIMNIO GERENCIADO POR CRIANAS

    Francisco Alemberg de Souza Lima*

    RESUMOA histria da Fundao Casa Grande Memorial do Homem Kariri, do

    Cear, espao agraciado, em 2004, com a Ordem do Mrito Cultural doMinistrio da Cultura e que, em novembro de 2009, passou a ser casa dopatrimnio. Trata-se de um relato de como uma casa antiga, restaurada pormoradores locais, tornou-se o centro de um movimento sociocultural quetransformou a vida de crianas e moradores da pequena cidade de NovaOlinda, no Cear. A histria da Casa Grande, como ficou conhecida pelascrianas, sintetiza o processo de identificao de um patrimnio cultural apartir de seu reconhecimento pela prpria comunidade.

    PALAVRAS-CHAVENova Olinda, Comunidade, Patrimnio.

    Ns estamos falando sobre o patrimnio para a sociedade brasileira, euvou falar da sociedade brasileira para o patrimnio. Vou falar de uma cidadeque Nova Olinda que de Nova Olinda no tem nada. Quando eu eramenino l em Nova Olinda, a professora mostrava o mapa do Brasil e dizia:Ns estamos mais ou menos aqui, ou seja, no estava nem no mapa, e agente tinha que adivinhar no meio daquele mapo verde onde que estavaNova Olinda.

    A arte l era quando o menino subia em cima de um p de goiaba e caa,a dizia: Omenino fez uma arte, caiu de cima do p de goiaba. E os nicospatrimnios que havia na cidade eram as filhas do ZTotonho, que emborativessem as caras feias, os corpos eram patrimnios culturais que a gentevalorizava muito.

    Em 1992, ns resolvemos restaurar a casa do meu av, uma casa velha,de runa, que deu origem cidade. Resolvemos restaur-la junto com acomunidade, com aquele povo mais velho de l, dizendo que cor era a

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    *Diretor-presidente daFundao Casa

    Grande Memorial doHomem Kariri

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  • fachada, que cor era dentro, o que acontecia na casa... Pegamos os pedreirosantigos da cidade, acostumados a derrubar casa velha, e comeamos arestaurao.

    Minha formao de msico popular e, na verdade, tudo comeou porcausa da pesquisa musical que tnhamos na regio, voltada para a msica napr-histria do homem. Andvamos por l e tnhamos as lendas regionaispara pesquisar, para saber informaes, para fazer msica, participar defestivais e fazer espetculos nessa linha. E pegvamos pedra, semente,madeira desses lugares, fazamos os instrumentos, tocvamos eexecutvamos a msica com o material da localidade. Depois, ficamossabendo que aquilo ali, aquelas cavernas com aquelas pinturas, chamavamacervo arqueolgico e, depois, soubemos que aquela lenda era chamada deacervo mitolgico.

    Passamos, ento, esses nossos objetos para dentro da casa querestauramos e que passou a guardar, tambm, os presentes que ganhvamos.Sim, porque o povo ia plantando na roa e quando estavam trabalhando,muitas vezes cavando, encontravam uma pedra, que chamava pedra decorisco, e botava para escorar a porta. Ali, era um artefato ltico que elesescoravam, e a gente foi andando por esses lugares, pesquisando, lendo e aspessoas foram doando para ns esse acervo e comearam, tambm, a visitara nossa casa e conversar e contar histria, ento, resolvemos pegar a casa domeu av, restaurar e colocar esses objetos l dentro. Fizemos um memorialque denominamos Memorial do Homem Kariri, porque os ndios quehabitavam essa regio eram os ndios Kariris.

    Est a a casa que fizemos. Surpreendemo-nos quando as crianas dacidade a invadiram comeando a tomar conta da casa, vendo a genteexplicar aquele espao para o povo. E, de repente, comearam tambm aexplicar a casa para a populao. Comeamos a perceber o potencial queexistia naquelas crianas porque no foi a juventude, no foram as pessoasadultas da cidade, que comearam a visitar aquele pequeno museu; eram osmeninos que iam l ver como a gente explicava a histria da casa e dosobjetos que foram se juntando dentro dela. Comearam, ento, a explicare a passamos a dar funes para esses meninos. Aquele que explicava,colocamos o nome de diretor de pesquisa, responsvel pelo museu. E elerecepcionava as pessoas que andavam por l, contava 80% de histria reale 20% ele inventava. Tinha uma caverna l que ele dizia: Tem um lugaraqui que tem vrios caminhos, mas no chega a lugar nenhum.

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  • Nessas cavernas tinha pintura rupestre e comeamos a visitar os stioscom essas crianas, cantando e conversando sobre aqueles espaos. A CasaGrande nasceu na poca da bilha, a bola de gude digo isso, porque acriana conta o ano pelo tempo das brincadeiras, o tempo da bilha, o tempoda pipa, o tempo do pio... E a chegou um menino que organizava ocampeonato de bilha e ns o denominamos diretor de cultura. Teve outromenino que chegou organizando a casa, chegava e varria, virou o diretorde manuteno, e foram, ento, os trs primeiros diretores.

    Um dia, chegou um gordinho e disse: Alemberg, eu estou notando quenessa casa o povo anda de cueca. Chegou um pequenininho e disse: Euestou notando que o povo est jogando lixo nas plantas. Respondi: Ento,voc vai ser o diretor dos papeizinhos, o papel que tiver a voc pega.Depois de uma semana, ele chegou para mim e disse: Alemberg, eu noquero mais ser diretor dos papeizinhos. Eu disse: Ento, voc estexonerado. A, ele achou esse cargo muito mais bonito do que diretor dospapeizinhos, porque exonerado no para qualquer um. Nasceu assim oprimeiro exonerado.

    E a gente comeou numa pobreza... Na verdade, comeamos na nossasimplicidade de quem no tinha dinheiro; tnhamos duzentos reais paramanter a casa: cem reais para pagar a energia, e cem para botar uma mulherque morava na frente para olhar os meninos, porque se chegasse umaautoridade tinha uma pessoa com CPF para dizer, eu que tomo contadesses meninos. que a gente morava a quarenta e dois quilmetros deNova Olinda. A casa comeou como uma instituio gerenciada pelascrianas da cidade e elas, de fato, se apropriaram da casa. E, alm degerenciar o museu, comearam a interagir com o povo, conversando; foramse desenvolvendo e trazendo os pais para dentro dela. Depois, resgatamosuma amplificadora antiga de Nova Olinda, da dcada de 1940, que era demeu pai. Eu me criei dentro de uma amplificadora, vendo aquelas capasdos Beatles, de Bob Dylan, de todo esse povo a, eu era admirador de capade disco l na rdio.

    Resgatamos essa amplificadora para conversarmos com a comunidade,para que ela soubesse o que tinha dentro daquela casa velha, na qual se dizia,antigamente, que aparecia alma, que estava em runa e o povo tinha medo.E comeamos a fazer trs programas na amplificadora: o Submarinoamarelo, um programa infantil que tocava aqueles discos do Carequinha;A hora da saudade, somente commsicas antigas com cantores como Nat

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  • King Cole, que faziam parte da histria dos ouvintes mais velhos na poca;e o programa Manh de feira, um programa de forr que ia ao ar no diada feira da cidade. Mas os meninos comearam a ouvir e passaram, tambm,a fazer a programao.

    Havia uma coisa interessante: a hora certa era dada pelo jumento. E issogerou certo impasse depois do governo Sarney, quando foi criado o horriode vero. O problema que, no Cear, onde os jumentos relincham aomeio-dia, eles ficaram todos desorientados, sem saber se relinchavam aomeio-dia ou se relinchavam a uma hora da tarde, porque hora mesmo dejumento relinchar meio-dia; esse o relgio do Serto, mas comearam adesorientar o jumento, um relinchava ao meio-dia, outro, que estava pordentro do plano Sarney, relinchava uma hora depois. O resultado foi quetivemos de gravar um jumento eletrnico para orientar aquele problemapatrimonial que estava acontecendo na nossa cidade.

    L fui eu gravar um jumento; passei quase duas horas com o microfonena boca do jumento e ele no queria nem papo comigo. Da, subi uma serracom um binculo, deixei o microfone l, quando eu olhei, o jumento estavacom o traseiro virado para o microfone. Eu desisti nesse dia e voltamosdepois, quando eu ia desistindo, de novo, um velho disse: Meu filho, voc que anda querendo gravar um jumento? Pois eu tenho um jumentotreinado que rincha na hora que eu quiser. Fomos e, chegando l, o velhopegou uma peneira de milho, jogou para cima, na hora que o jumentoouviu aquela cantiga deu uma relinchada que o ponteiro bateu l em cima,no gravador, e quase quebra. Conseguimos, ento, gravar aquilo, e ao meio-dia o jumento relinchava na rdio e, dessa forma, comeou a orientar todosos jumentos. Houve uma afinao e uma sincronia jumental l no Cear,que os jumentos ficaram todos relinchando na hora certa. Esse foi o nossoprimeiro patrimnio imaterial.

    A casa comeou a ser visitada pelas pessoas; comearam a receber notciasdo museu, porque fuxico no Serto coisa que corre depressa, pois comeoua correr cho, como se diz, e as pessoas comearam a ir casa, que foi seampliando. Hoje, o museu tem os programas de memria que foram osprimeiros; depois veio o programa de comunicao, que nasceu com a rdio;em seguida foi criado o programa de artes.

    Certo dia, resolvemos olhar o livro que o povo assinava quando ia visitara casa e constatamos que j tnhamos recebido entre 1.500 a 3.000 pessoas.Percebemos, ento, que numa cidade com 15 mil habitantes, dos quais 10

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  • mil vivem na zona rural, restando cinco mil habitantes na cidade, quer dizer,at eu sair de l eram cinco mil, no sei se uma velha que estava passandomal morreu durante esses dias que eu estou aqui e no acessei a internet.Mas, o fato que a gente viu que o museu tinha um potencial de geraode renda com as famlias e que podia desenvolver o turismo. Foi a quenasceu o programa de turismo e, com ele, as pousadas domiciliares, aslojinhas onde os pais vendem os souvenirs da casa e tudo o mais. Paraadministrar essa renda foi criada, ento, a cooperativa dos pais, atravs daqual 80% do dinheiro eram destinados para as famlias investirem nareposio do que era gasto quando recebiam as pessoas, para a energia, porexemplo, que aumentou porque tinha uma pessoa a mais ligando a luz epara a prpria renda da famlia; 10% iam para a manuteno dacooperativa, os outros 10%, para um fundo de educao que banca otransporte escolar para aqueles meninos que passaram no vestibular echegaram universidade, e j so vrios.

    Uma vez era para eu ganhar uma bolsa de mecnica, me levaram para oRio de Janeiro onde encontrei com uma americana que ia comigo at olugar onde eu ia fazer a entrevista. No trajeto, ela ia conversando comigo emportugus, quando chegamos l tinha um ingls ou um americano e ela medisse: Agora eu vou falar ingls, esse americano vai traduzir para voc edepois ele traduz em ingls para mim. E eu disse: Mas ns no estvamosconversando, porque no continuamos falando em portugus? E ela: No,porque ele contratado para isso. Disse: T bom! A, quando expliqueio que estava querendo fazer l no Serto, ela disse: Eu no vou dar agorade advogado do diabo. E eu disse: Agora lascou. E ela: Isso no vai darcerto porque o que voc est criando, l no Serto, no tem mercado detrabalho para isso, o que vai ocasionar? O xodo rural. A eu: O xodorural? Ela: ! E eu respondi: E esse americano que t aqui, no xodorural tambm? Ele vindo l da terra dele pra nossa, pra se empregar aqui?Da, ento, s xodo rural pra pobre, pra rico turismo?

    Mas, voltando Casa. Hoje ela est centrada em dois pilares: olaboratrio de contedo e o laboratrio de produo. No laboratrio decontedo ns temos uma biblioteca especializada em quadrinhos dereferncia e de raridades; duas bibliotecas, uma infantil e outra de referncia;uma dvdteca, onde os meninos conhecem a histria do cinema, com umacervo que possibilita que os meninos, ainda na infncia, possam assistir aclssicos, ou seja, crescem assistindo coisa boa. Atravs dos acervos, eles tm

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  • acesso arte de qualidade, com bom cinema, podem conhecer a impor-tncia dos quadrinhos pelos roteiristas, pelos desenhistas...

    Temos ainda o laboratrio de produo, onde havia uma TV que eratoda produzida por criana, desde o roteiro at a filmagem. Ela foi ao ardurante trs meses, da a Anatel lacrou. Foi l e disse: A partir de hoje vocsno podem transmitir, quem o responsvel por isso aqui? E responderam: Alemberg. Eu acabei respondendo a um processo na Polcia Federal ena Justia Federal e fui proibido de deixar o pas por dois anos. Tambm,eu no tinha para onde ir mesmo, foi priso domiciliar. E, depois disso, nstemos uma rdio; uma produo de cinema para a comunidade, na qualtodo domingo tem matin noite; temos o site da Fundao que elaborado e mantido pelos prprios meninos; tem ainda o teatro, ondecriamos os espetculos. Hoje, por exemplo, estamos com um espetculoque tem turns marcadas para a Itlia, Portugal e Alemanha, entre os mesesde maro e junho. Sem contar, que os meninos tm feito intercmbios,inclusive com parceria com o Unicef, para a extenso da Rdio de Criana,cuja sede em Moambique, onde h 32 programas de rdio feitos porcrianas e para crianas. Em Angola, sete provncias j faziam rdio decriana para crianas, onde elas so no apenas ouvintes, mascomunicadores. Estamos falando, portanto, de comunicao apropriadapara as crianas.

    Minha histria essa, eu vou pedir ao Rodrigo, um dos nossos meninos,que apresente esse vdeo que se chama Meu olhar. Trata-se do olhar delesobre a Casa Grande e achei interessante trazer porque ela , na realidade,um espao de criana. Hoje, a Casa um dos 65 estimuladores do turismoe, isso, foi dado pelas crianas ao municpio porque, em 2004, o museu foiagraciado com o mrito da Ordem Cultural do Ministrio da Cultura e,em novembro de 2009, passou a ser casa do patrimnio. Assim, eu costumodizer que as crianas de Nova Olinda tocaram o corao dos velhos e dosfs, trazendo a criana que tem dentro deles. Podemos dizer, ento, comocostumo afirmar, que os fs t uva, porque criana gosta de fanta uva,ento, fanta uva depois que a Casa Grande passou a ser casa dopatrimnio.

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  • * Coordenadornacional adjunto doProgramaMonumenta

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    BALANO DAS AES DOPROGRAMA MONUMENTA

    Robson Antnio de Almeida*

    RESUMOO texto faz um balano das aes do programa Monumenta, do

    Ministrio da Cultura, que conta com o financiamento do BancoInteramericano de Desenvolvimento BID, recursos da Unio, Estados emunicpios e iniciativa privada, alm da cooperao tcnica da Unesco. Oprograma foi criado para atuar de forma integrada e garantir as condiesde desenvolvimento econmico de cidades protegidas, alm de promoveraes que garantam a sustentabilidade desses stios. Prioritariamente, atuouem 26 cidades, por meio de convnios com Estados e municpios,investindo mais de 250 milhes de reais nessas aes.

    PALAVRAS-CHAVEPrograma Monumenta, Ao compartilhada, Financiamento de imveis

    privados.

    Vamos apresentar um pouco da experincia do Programa Monumentanas cidades do Brasil. A inteno falar como o programa se deu, como foisua operacionalizao e execuo, mostrando alguns indicadores, e como elefoi executado nas cidades em que atuamos. O Programa foi concebido comouma tentativa de intervir no patrimnio federal, no patrimnio protegidopelo Iphan. A inteno era atuar de forma integrada para garantir ascondies de desenvolvimento econmico desses stios e obter acontinuidade das aes realizadas a to falada sustentabilidade. OMonumenta um programa do Ministrio da Cultura, conta com ofinanciamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento BID, comrecursos da Unio, dos Estados, municpios e iniciativa privada, alm dacooperao tcnica da Unesco.

    O incio do Programa se deu em 1996 onde deveria: no Iphan. Comeouem um grupo de trabalho vinculado ao gabinete e, por conjunes polticas

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    da poca, a sua execuo se iniciou fora do Iphan, a partir de 2000, noMinistrio da Cultura.

    Em 1999, se deu a assinatura do Programa de emprstimo e, em 2000,sua execuo, tendo o Iphan um Grupo de Trabalho pertencente suaestrutura, que tinha a responsabilidade da aprovao tcnica dos projetos.

    Em 2006, retorna ao Iphan, quando o seu coordenador nacional nomeado presidente do Instituto e leva a estrutura do Programa para dentroda instituio, em sua rea central, apesar de j atuarmos muito prximo dasSuperintendncias Regionais do rgo nas cidades conveniadas.

    O Programa atuou, prioritariamente, nas 26 cidades conveniadas com osEstados e os municpios e sempre buscando a prtica da gestocompartilhada do patrimnio cultural. Mais de 250 milhes de reais foramdestinados a essas aes, esses convnios, e uma das obrigaes que o Estadoe o municpio tinham era o de instituir unidades locais, as chamadasUnidades Executoras de Projetos UEPs. Essas unidades tinham umaestrutura mnima de coordenao com especialista em patrimnio, em obrasde restauro e na rea financeira para executar o programa, mas, claro,contando tambm com uma estrutura mnima no municpio para pensar opatrimnio. A maioria das cidades, at o incio do programa, no tinhanenhuma estrutura atuando na rea.

    Em outros municpios, como Ouro Preto, tinha um arquiteto antes doincio do Programa. Ento, formaram-se essas equipes mnimas e esperamosque elas continuem para alm do Programa.

    A seleo das cidades foi feita por um grupo de especialistas convocadopelo ministro da Cultura, usando uma metodologia especfica, que colocouesses stios numa ordem de prioridade de urgncia e emergncia, indicandoquais teriam ou precisariam receber recursos ou uma ao. Foram entoselecionados 94 cidades, com 101 stios elencados, e uma mostra prioritriaque reuniu cinco cidades. Depois, novas cidades foram se agregando, at2004, quando chegamos s 26 atendidas.

    As estratgias dos projetos, de forma geral, j buscavam odesenvolvimento de um projeto local e a identificao de uma rea deinterveno prioritria reas de projeto que sempre estavam dentro darea protegida. Algumas vezes, era a rea protegida toda e, em outras, era umrecorte dessa rea. Nos objetivos estabelecidos, j se buscavasustentabilidade, sempre tendo alguma inteno de dar uma dinmica

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    econmica e social a esses stios. A vocao da rea era sempre buscada. Noincio, tivemos um grande vis voltado ao turismo, como se o turismoresolvesse todos os problemas das cidades histricas, como se fosse a nicasada para essas cidades.

    Isso foi sendo adequado e acertado no decorrer da execuo. Ao longodesses anos, foram muitos os que passaram pelo Programa, conseguindofazer esses ajustes e correes no decorrer do caminho. E, para isso, eradefinido o chamado perfil, que j era uma definio de aes dentro doterritrio. Aes, obras, os usos dos imveis, aes de promoo deatividades econmicas, de educao patrimonial, mas muito voltadas paraa formatao de um convnio e de sua execuo. Diferente do que estamospensando para o futuro, que o PAC das Cidades Histricas e a elaboraodos Planos de Ao.

    No momento da apresentao do programa localmente, era definido umperfil dessas aes, mas para formatao do convnio era ainda verificada acapacidade de contrapartida do Estado ou do municpio. Por isso, emalgumas cidades, nosso convnio era com o Estado, porque o municpiono tinha capacidade de dar a contrapartida necessria. Uma anliseeconmica, financeira, resultava num plano de trabalho com aes e valoresdefinidos e um convnio considervel, de grande porte. Alm das aes defomento, de educao patrimonial, tambm aconteceram aes decapacitao de mo de obra especfica para o restauro e de fortalecimentoinstitucional.

    O Monumenta formado por vrios componentes. Um deles ocomponente de obras de conservao e restauro de monumentos, intervindoem espaos pblicos, em logradouros, e aes urbanas mais integradas.Logicamente que, em algumas cidades, as aes foram pontuais e, emoutras, houve uma ao mais integrada no territrio, com requalificao delogradouros e, at, com pequenas obras de drenagem, embutimento defiao etc., caracterizando em vrios casos uma grande transformaourbana.

    At o momento foram investidos cerca de 120 milhes de reais, nessetipo de obra. Dentre as obras, esto as de restauro, de elementos integradosdos monumentos, como, por exemplo, o Conjunto do Carmo deCachoeira, uma obra de restauro arquitetnico e de bens integrados; ou aMatriz de Nossa Senhora de Natividade, um monumento, claro, compatvel

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    com o porte do conjunto da cidade do Estado do Tocantins. As obrasurbanas foram principalmente as praas, como o largo do Theberge, emIc (CE), um largo com uma extenso considervel; ou a praa Frei CaetanoBrando, em Belm (PA). Sem contar as aes de requalificao de orlas derios e de baas, como a orla do Porto Geral, em Corumb (MS); ou a orlade So Francisco do Sul, em Santa Catarina; ou a beira-rio, em Gois.Intervimos tambm nos mercados pblicos, uma ao supercomplexa coma qual aprendemos muito ao longo do caminho pela quantidade de pessoasparticipantes e pelos mais variados interesses envolvidos. E, tambm, haviaquestes de uso, da cesso do espao para esses cessionrios, as pessoas que,normalmente, estavam no local h 30, 40 anos: famlias, geraes. Existiauma cesso formal do poder pblico para essas famlias. Podemos citarcomo exemplo o Mercado Pblico de Diamantina (MG) e o MercadoPblico de Oeiras, no Piau.

    Quanto aos parques, podemos citar o Vale dos Contos, aqui em OuroPreto. Trata-se de uma ao em um espao nico dentro da densidade doconjunto protegido: uma rea de vazo que oferece uma viso diferenciadado stio, uma viso de dentro do prprio stio, uma coisa muito inusitada,uma rea considervel, que fica acima e abaixo da Ponte dos Contos, o hortoe o parque. Podemos citar tambm o Morro do Hospcio, em So Franciscodo Sul; ou Parque do Carmo, em Olinda.

    Uma das aes que consideramos uma das mais exitosas do Programa foia articulao que a Coordenao do Programa teve com o Ministrio daEducao, aproveitando o incio do processo de interiorizao dasuniversidades federais. Atravs dessa articulao, o Programa executou arestaurao de quarteires e o MEC instalou as universidades. Esse foi ocaso da Universidade Federal do Recncavo Baiano, em Cachoeira, antigafbrica de charutos; e o campus de Laranjeiras, da Universidade Federal deSergipe. E, claro, ns conseguimos, com o Ministrio da Educao, que oscursos instalados nesses lugares fossem cursos das reas de arte, cinema,teatro, arquitetura, museologia, usando esses espaos, essas cidades comolaboratrios, como lugar de aprendizado tambm. No s cenrio. Oscursos conversam com a cidade e criam uma nova dinmica urbana.Cachoeira estava, h cinco anos, numa situao precria. Quem conheceuCachoeira sabe. O patrimnio estava muito degradado, no tinha atividadeeconmica na cidade. Hoje, com as universidades, sabemos a dinmica queela traz, e Ouro Preto sabe disso melhor do que ningum. Esse movimento

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    de estudantes pode trazer muito benefcio para a cidade. Em Cachoeira jtem restaurantes, pousadas se instalando, j d para sentir a alterao dessadinmica.

    E a ao de habitao, em Salvador. Fomos partcipes nessa grande aode habitao, a chamada Stima Etapa. Uma ao articulada entreMinistrio da Cultura, Iphan, Cidades, Caixa Econmica e Governo doEstado da Bahia, na qual quarteires da rea do Pelourinho ou Saldanha foram ou esto sendo restaurados para habitao de servidores do Estadoe para moradia de algumas famlias que sero mantidas na rea.

    Temos tambm o trabalho feito com financiamento de imveis privados,a experincia mais inovadora, a nosso ver, neste Programa. J foi citada aquino Frum essa ao, esse financiamento, mas era uma demanda deproprietrios de stios urbanos protegidos, os quais sempre sentiam otombamento, a proteo, como um nus. Essa foi uma primeira tentativa,com xito, de diminuir isso, de trazer algum benefcio, um subsdiofinanceiro para esses proprietrios, de conseguir investir recursos pblicos,nas casas desses moradores de centros urbanos protegidos. Uma linha definanciamento somente para imveis privados nas reas protegidas.

    A experincia do Monumenta ocorreu apenas nas 26 cidades, mas, comoum projeto piloto, demonstrou que possvel disponibilizarmos umfinanciamento para imveis privados. Ainda uma ao muito complicada,demanda um convnio, editais de seleo, mas uma linha de crdito comfinanciamento a juro zero, com at 20 anos para pagar e flexibilizao dasgarantias, j que a Caixa Econmica (o banco que operacionalizou aoperao) foi contratada para ser agente financeiro dessa ao.Conseguimos, dessa forma, flexibilizar garantias, formas de pagamento paraconseguir que a ao fosse exitosa. Porque, por exemplo, a maioria daspessoas que moram em centro histrico no consegue comprovar apropriedade: as casas no tm escritura, o cartrio pegou fogo, etc.

    Quem contrai o financiamento o usurio e no necessariamente o donoda casa. E esse financiamento , prioritariamente, para melhorias externas,estruturais, instalaes eltricas, hidrulicas; em alguns casos especficos,instalaes sanitrias, construes de banheiros, escada contra incndio etc.Esse financiamento tambm usado para adequao e gerao de renda,no somente para habitao. Na verdade, para habitao e gerao derenda. No importa o uso, importa que essas casas sejam usadas.

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    Um dos exemplos o Clube 24 de Janeiro, em So Francisco do Sul,uma sociedade que contraiu financiamento; temos tambm o exemplo deNatividade (TO), onde tivemos as maiores demandas. Nessa cidade,considerando e relativizando o tamanho do stio, foram quase 80% dosimveis da rea protegida que contraram financiamento.

    Foram 76 editais. O municpio ou o Estado lanava o edital, havia umaseleo por um grupo formado pela Prefeitura, pelo Iphan e pelo Estado.Conforme o valor disponvel no convnio, as pessoas iam sendo chamadas,existindo, claro, uma anlise financeira e de capacidade de endividamento,e assinavam os contratos para poder executar essas obras. Dos 76 editaislanados foram mais de 1.600 propostas, com uma demanda de mais de100 milhes de reais.

    At o momento, temos 300 propostas contratadas, em torno de 17milhes de reais investidos ou em investimento, mas vemos que houve umagrande distribuio desses recursos. Conseguimos atender uma grandequantidade de pessoas: 50% dos beneficirios tm renda de at trs salriosmnimos e 60% dos financiamentos tm valor inferior a 20 mil reais.Atendemos propostas de financiamento de cinco at 800 mil reais. Noexiste limite nem mnimo, nem mximo; tudo depende da capacidade deendividamento dessas pessoas. E o financiamento de imveis privados temuma outra caracterstica, que era mais uma obrigao do municpio ou doEstado quando assinava o convnio: a criao de um fundo municipal depreservao, dentro da tica da sustentabilidade que vrias aesretornariam para o fundo, atravs de seus usos. Vimos que isso nem sempreaconteceu porque, s vezes, os perfis no eram to colados realidade local,como achvamos ou como se achava. Ento, os financiamentos dos imveisprivados so pagos para a conta do fundo municipal, pagam para omunicpio e esse dinheiro vai ser disponibilizado para ser reaplicado emaes de fomento do patrimnio da cidade. Esse fundo criado por Lei egerido por um conselho paritrio entre poder pblico, iniciativa privada esociedade, com representantes das trs esferas de governo e da comunidade.

    Esses fundos foram criados na assinatura do convnio, mas no foramimplantados. Esto sendo implantados no decorrer do programa. A maioriadeles j tem recurso em conta e achamos que isso, talvez, seja um grandecomeo para que as pessoas atentem para as possibilidades que esses fundospodem ter nas aes dos stios. Como falei, vrias cidades j tm recursosem conta, os conselhos, na maioria das vezes, j esto nomeados, mas so

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    poucos os fundos que esto, realmente, operantes. Natividade uma dascidades que tm o fundo operante, que j tm ao realizada. Vimos que possvel.

    Abordaremos agora as aes de fomento no Programa, componente deeducao e promoo que previa realizao de campanhas, programaseducativos e aes pedaggicas para conhecimento e valorizao dopatrimnio. Essas aes, que no so obras, faziam parte do convnioinicialmente. Em 2005, houve uma mudana depois da constatao de quea obra acaba se sobrepondo, como prioridade das cidades, a esse tipo deao. E a gente sabe o quanto essas aes so importantes e complementamo trabalho de restaurao.

    A coordenao do Programa decidiu que essas aes seriam executadasdiretamente como componente federal. Assim, a partir de 2005, elas saramdos convnios e, salvo algumas excees, em algumas cidades as aes forampropostas pelas unidades locais, as UEPs. A maior parte desse componentefoi executada pelo apoio a propostas selecionadas por editais pblicos.Foram lanados quatro editais, dois em 2005 e dois em 2007, para esse tipode ao de educao e para as outras que vou falar mais frente. E, claro,tivemos mais uma inovao. Nos lanamentos dos editais, resolvemos queeles seriam abertos para todas as cidades protegidas, no s para as 26conveniadas. Com isso, abrimos possibilidades e vimos que o resultado foimuito melhor que o esperado. Temos projetos fabulosos pelo Brasil. Foram49 projetos educativos selecionados por meio de edital pblico em 2007,com investimento de mais de dois milhes de reais. Alm do projetoeditorial do Programa, que tambm foi uma execuo direta pela unidadecentral, nacional, pelo qual foram publicados mais de 70 volumes, comcerca de 50 ttulos em nove linhas editoriais. Vrios desses livros estoexpostos e venda aqui no Frum. Esses registros so buscados ou feitosnaquelas aes selecionadas pelos editais, aes que o programa executoudiretamente, que o Iphan executou nas cidades, prioritariamente, nos stiosde atuao do Programa.

    A promoo de atividades com o intuito de estimular a dinmicaeconmica desses stios, sempre em parceria com a comunidade e o setorprivado no desenvolvimento dos projetos, visa auxiliar a permanncia dasmanifestaes culturais e oferecer alternativa de emprego e renda para ascomunidades. Nesses projetos tambm existe uma contrapartida dasentidades, ONGs, associaes que propuseram os projetos para os editais.

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    Mostramos aqui o exemplo da oficina do mestre Juvenal de Natividade: oSaber da Ourivesaria, da Filigrana, estava se acabando, uma vez que nohavia condies de comprar o material, de manter uma estrutura. Foi,ento, apresentado um projeto em que foi dado apoio para isso e, hoje, aoficina funciona normalmente. A oficina hoje um exemplo exitoso denossas aes.

    Foram, portanto, 76 projetos, inclusive de roteiros tursticos, como parteda capacitao de agentes de turismo, pelo edital de 2007. Foram 34 asaes de capacitao de mo de obra, com a criao de centros de formaode artfices em conservao e restauro e a difuso do conhecimentotradicional para os profissionais e empreendedores. O incio da ao se deulevando alguns mestres artfices a Veneza para serem treinados em algumastcnicas especficas. At hoje, alguns desses mestres atuam em obras derestauro pelo Brasil, outros do aula em cursos de formao, sendo quealguns desses cursos so decorrentes de edital de promoo de formao demo de obra. So exemplos de cursos que apoiamos.

    O Programa promoveu tambm o apoio a trs ncleos de formao derestauro: no Rio de Janeiro, Ouro Preto e Olinda com investimento inicialde um milho e meio de reais para a formao de 220 profissionais noprimeiro ano, alm das iniciativas de formao e capacitao em 20 cidades,beneficiando quase 1.300 jovens. Essas aes foram apoiadas por meio deeditais e em algumas outras aes que foram demandadas pelas unidadeslocais, por exemplo, Gois e, mais uma vez, Natividade, onde teve umagrande demanda pelo financiamento de imveis privados. Ns promovemosalguns cursos locais com os serventes, os pedreiros, levando tcnicos doIphan que conhecem as tcnicas de restauro para passar esse conhecimentoe melhorar a qualidade das intervenes, que eram em grande quantidade,mas, muitas vezes, intervenes simples de telhado, de reboco, mas quenecessitavam de um conhecimento especfico.

    No fortalecimento do Iphan, o Programa apoiou ainda a produo deinventrios, normas, planos e manuais de preservao, a melhoria decondies tecnolgicas do instituto e a proposio de alternativasinstitucionais para gesto do patrimnio cultural brasileiro. Foram 15cidades apoiadas para elaborao de seus planos diretores no mbito doestatuto das cidades. Mais ou menos na mesma poca, foram financiadosinventrios de bens imveis e normas de preservao para seis ncleosprotegidos.

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    Tambm gostaria de destacar, de forma geral, alguns avanos doPrograma. Primeiro, a tentativa inicial de uma efetiva ao integrada. Haviamuito conhecimento acumulado, mas no se havia logrado xito nessatentativa de ao integrada com obras e aes de fomento. Algumas vezes,essa tentativa teve grande impacto, noutras no. Verificamos que oPrograma foi muito mais bem executado nas pequenas cidades do que nasgrandes. Claro que nas grandes cidades os problemas so mais complexos etambm porque, nessas cidades, o Monumenta apenas mais um programa,enquanto nas pequenas ele o programa tem um peso muito maiorpara os pequenos municpios. Por isso ele teve uma ao mais prxima daplanejada, em pequenas cidades como Ic, no Cear, ou como emNatividade, em Tocantins.

    Outro grande avano foi a ao de financiamento de imveis privados,que j foi muito falada como a primeira experincia e que est sendoincorporada pelo Iphan, claro, dentro do PAC das Cidades Histricas, nosPlanos de Ao. A nossa meta conseguir ter uma linha de crdito paratodas as cidades protegidas. isso que estamos buscando. Hoje ainda no possvel, temos de usar um instrumento, que o conveniamento e olanamento de editais de seleo. Essa meta no fcil; na verdade, complexa, mas possvel e vamos busc-la.

    Percebemos tambm o avano das unidades locais, que nasceram comounidades executoras do projeto as UEPs. Em vrias cidades, elas estomaiores do que o projeto, o que timo. uma clula de gesto dopatrimnio cultural daquela cidade. Muitos dos coordenadores nos contamque, muitas vezes, estraga um paraleleppedo ou qualquer coisa na cidade,eles vo procurar a unidade do programa para resolver aquele problema,porque aquela a unidade local que cuida do patrimnio. Ento, extrapolaro limite do Programa justamente o que se buscava ou, pelo menos, o quese buscou no decorrer da sua execuo.

    Este o primeiro Programa que consegue minimamente atuar de formaintegrada e coloca em prtica vrias das teorias que vm sendo pensadas eest servindo, ou serviu, como parte da elaborao do PAC CidadesHistricas, dos Planos de Ao que so o nosso passo alm. Os Planos deAo so planos de desenvolvimento dos stios, tendo o patrimnio comoeixo indutor do desenvolvimento das cidades. No se trata mais de pensarnum perfil de um projeto para um convnio, trata-se de um planejamentocontnuo e que no se encerra, como qualquer bom planejamento deve ser.

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  • AVALIAO DO PROGRAMAMONUMENTA

    Ana Lcia Paiva Dezolt*

    O relato sobre os 10 anos de execuo do Programa Monumenta muitorico e se constitui na anlise de um processo que contou com a participaode vrios especialistas oriundos dos vrios nveis de governo, contribuindopara o aperfeioamento e correes de rumo para sua plena execuo. Emsuma, um processo de construo conjunta, sedimentado atualmente noIphan, instncia legtima para a sustentabilidade de suas aes, inseridoagora no Programa de Governo para o setor.

    As concluses obtidas sobre sua execuo so o resultado de umaavaliao independente contratada pelo Banco aos atores do Programa todas as unidades executoras, representantes do Ministrio da Cultura, doIphan, da Unesco e da CAIXA. Dessa forma, foi possvel obter uma visogeral dos acertos e tambm dos erros, contribuindo para a construo e parao aprimoramento da continuidade das aes de preservao e conservaodos stios e conjuntos histricos sob proteo federal.

    Na linha de tempo do Programa, percebem-se, claramente, ascaractersticas da gesto nas diversas fases. Hoje, o Programa Monumentafaz parte de uma poltica pblica consolidada, contribuindo para aimplementao de aes de preservao, passando a ocupar seu espao comoferramenta de gesto.

    A relevncia concedida ao tema pelo Governo Federal criou sinergias ea construo de parcerias para a otimizao do uso dos recursos, uniuesforos para objetivos comuns. Destaco, dentre vrias, as numerosas aesem conjunto com o Ministrio das Cidades, Ministrio do Meio Ambientee Ministrio do Turismo e, ainda, com os Bancos de Desenvolvimentonacionais. No mesmo sentido, o seguimento do Programa, a partir de 2004,pela Casa Civil, lhe conferiu o destaque merecido. Este foi um ponto deinflexo de sua execuo, em que tanto os instrumentos de monitoramentoforam aprimorados, quanto a disponibilidade de recursos humanos efinanceiros.

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    * Especialista emGesto Fiscal e

    Municipal / BID

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    tes importante destacar, que, neste momento, tambm acontece um

    resgate da atuao do Iphan no Programa, uma reaproximao necessriacom a instituio que tem por misso o objetivo principal deste Programa.Essa reconduo se consolidou com a nomeao do coordenador nacionaldo Programa para presidente do Iphan, acumulando os dois cargos epromovendo, assim, sua internalizao nesse Instituto. Tal soluo semostrou a mais adequada, tendo em vista o impacto que uma mudanaoperacional de tal magnitude, naquele momento, acarretaria na execuo doPrograma, considerando-se um programa complexo e com tantossubexecutores, mas fundamental para sua legitimao.

    Inicialmente, faz-se necessrio esclarecer qual era o contexto na pocade elaborao desse programa, em face dos resultados obtidos depois de 10anos de execuo.

    O valor total do Programa era de U$ 125 milhes (50% de recursosprovenientes do BID e 50% de contrapartida governamental), com prazode execuo, previsto, de cinco anos, e objetivo de atuar em sete stioshistricos urbanos sob proteo federal. Atualmente, com 10 anos deexecuo e a totalidade dos recursos financeiros comprometidos, verifica-seque o Programa ampliou sua escala para 26 stios histricos, quase quatrovezes a sua meta. Ademais, o Programa foi implementado sob o arranjoinstitucional previsto, de execuo descentralizada de suas aes e, porconsequncia, com todas as dificuldades inerentes complexidade dessemodelo exigindo capacidade de resposta dos gestores em cada nvel degoverno.

    Alm disso, o Monumenta proporcionou o desenvolvimento depequenas aes de fomento e educativas em todos os stios histricosfederais do Pas, apoiando projetos propostos por inmeras entidades dasociedade civil, setor privado, fundaes, dentre outras. Esta ampliao daatuao do Programa objetivou aumentar a conscientizao da populaosobre seu patrimnio artstico e histrico, agindo como agente catalisadore difusor de informaes, sendo que cada projeto especfico agiu como umpromotor de novas aes.

    Conclui-se, ainda, que em vrios stios histricos foram desenvolvidasdiversas iniciativas (feiras, festivais, festas e eventos), viabilizadas pelasintervenes financiadas, gerando um ciclo virtuoso na economia local. Emalguns deles, como Corumb (MS) e So Francisco do Sul (SC), comalocao de recursos superior ao que foi disponibilizado pelo Programa.

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    l.1 Bastante ilustrativos so os exemplos de Cachoeira (BA) e Laranjeiras

    (SE), com a construo de parcerias que resultaram na implantao decursos universitrios na rea protegida. Natividade (TO) tambm umdestaque com a interveno voltada ao uso rotineiro de sua populao. Querdizer, o potencial turstico, nfase no desenho do Programa, no soluopara tudo. As caractersticas de cada um desses centros foramdetalhadamente estudadas, para que o projeto se voltasse para a vocaolocal ou para a construo de solues compatveis com a sua estrutura.

    Como mencionado acima, o Programa no havia sido desenhado paraatuar com um nmero to grande de atores, apesar de, originalmente,vrios deles terem sido previstos com atuao direta de execuo e/ou decoordenao e monitoramento: a Unio, como muturio e executor,representada pelo Ministrio da Cultura; o Iphan; a Secretaria do TesouroNacional; a Secretaria de Assuntos Internacionais do Ministrio doPlanejamento Seain/MP; a Agncia Brasileira de Cooperao ABC doMinistrio das Relaes Exteriores; os estados e municpios; a CAIXA; e aUnesco. Com a universalizao do apoio, via pequenos projetos defomento s cidades detentoras de stios e conjuntos histricos federais, nombito das chamadas Atividades Concorrentes, associaram-se execuoinmeras ONGs, fundaes, associaes e entidades do setor privado,selecionadas via editais.

    Ressalta-se, ainda, o papel da CAIXA, como agente financeiro doPrograma e parceiro na formulao e implementao do financiamento aosimveis privados nas reas de projeto; e do apoio tcnico e operacional daUnesco, na qualidade de agncia especializada.

    Alm do complexo esquema institucional para sua implementao, coma atuao dos atores acima citados, durante esses 10 anos de execuo houvevrias extenses de prazo e aditamentos de instrumentos legais. Para tanto,a coordenao local, ademais de sua dedicao ao cumprimento dosrequisitos necessrios execuo do Programa, tambm teve de lidar coma multiplicidade de trmites legais e burocrticos pertinentes a diversasinstncias envolvidas em sua conduo e monitoramento.

    Essa sobrecarga de trabalho se inicia desde o momento do planejamentoe se perpetua durante a execuo, pois as diversas anlises documentais nose do simultaneamente, sendo este aspecto um dos principais responsveispelo atraso significativo das aes do programa, em especial, nos projetosapoiados pelos componentes das Atividades Concorrentes.

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  • Em um Programa com execuo descentralizada, situaes deinadimplncia, por parte dos municpios e estados, interrompiam o repassede recursos. Com o apoio doTesouro, aps anos de paralisaes foradas emobras locais, foi possvel se precaver de tais descontinuidades pelatransferncia integral do valor da obra de restauro contratada contaespecfica do subprojeto, administrada pela CAIXA, de acordo com ocronograma e medies da obra.

    Numa anlise ex post fcil identificar tais dificuldades e refletir sobreerros que porventura ocorreram, mas estes no se constituram em simplesomisses, foram decorrentes de restries na capacidade institucional dosexecutores em lidar com uma gama to diversa de situaes, resultando emum hiato entre o planejado e o executado.

    Sobre a capacidade operacional dos executores, faz-se necessrio enfatizara importncia de contar com uma unidade de coordenao composta portcnicos do quadro permanente, no apenas por se tratar de uma operaode emprstimo, mas pelo aprendizado e memria institucional do executor,voltada para a consolidao de uma poltica pblica.

    As Atividades Concorrentes abarcaram aes de fortalecimentoinstitucional, formao e treinamento, promoo de atividades econmicase programas educativos, sendo cada um desses componentes independentese complementares entre si. Foram apoiados pontualmente mais de 200projetos sob a conduo direta das entidades selecionadas via editais, comdificuldades de gesto, seja pela distncia e dificuldade de treinamento nasnormas e procedimentos do Programa, seja por sua capacidade institucional.O esforo desse trabalho se justificou pela grande importncia representativadessas aes para a disseminao e conscientizao da populao sobre nossolegado histrico.

    Sobre as Atividades Concorrentes cabem as seguintes reflexes:

    FORTALECIMENTO INSTITUCIONALOriginalmente, previa-se apenas o fortalecimento institucional do Iphan

    (com a premissa de que ocorreria concurso pblico, o que aconteceu apenasmuitos anos depois), cujo plano de trabalho previa a disponibilizao emodernizao das ferramentas de trabalho e a elaborao de inventrios emanuais. No entanto, com um arranjo institucional to complexo doPrograma, com tantos subexecutores demandantes de apoio, o plano de

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    l.1 trabalho foi readequado para atender s necessidades do Ministrio da

    Cultura, para contar com ferramentas de gesto, e dos municpios, naformao de sua equipe e de sua estrutura fsica.

    Apesar de ter um regulamento operativo muito detalhado, no que tangea normas e procedimentos, faltava, na estrutura institucional do Programa,instrues quanto aos fluxos internos de tramitao, principalmente aclareza de papis relacionada a cada uma das funes desempenhadas.Aliado a isso, o fato de os integrantes da unidade de coordenao no seremdo quadro permanente do Ministrio da Cultura, no havendo umatradio e conhecimento prvio do trabalho burocrtico requerido, fez comque a coordenao nacional trabalhasse com um quadro tcnico de altarotatividade (composta por consultores e funcionrios oriundos de concursotemporrio), provocando descontinuidades, atrasos e retrabalho.

    Destaca-se que era a primeira vez que o Ministrio obtinha a gesto deuma operao de emprstimo, da mesma forma que vrios dos municpioscontemplados, mesmo que na qualidade de subexecutores. Alm disso,como se trabalhou com executores diretos, nos trs nveis de governo houvetransies de governo a cada dois anos, impactando no ritmo de suaimplementao.

    Dessa forma, a capacitao das equipes tcnicas exigiu um esforocontnuo de formao, uma vez que se modificavam constantemente.Adicionalmente, foi dificultada a oportuna oferta de eventos de intercmbioentre equipes. Ao todo, aconteceram apenas seis eventos nacionais, nmeroaqum do desejado, tendo em vista o ganho em potencial promovido pelocompartilhamento de experincias e solues.

    FORMAO E TREINAMENTOProgramado, em sua origem, para atender a trs ncleos de restauro e

    conservao, optou-se, adicionalmente, pela realizao de cursosdescentralizados. Com esta estratgia, houve o resgate de grande variedadede tcnicas construtivas, com especificidades regionais, conduzidas pormestres artfices, reconhecidos, que puderam formar mo de obra local.

    Nesse sentido, o programa passa a representar um diferencial nadisseminao de tcnicas de restauro e conservao, aproximando o gestorlocal e empresas da regio para o aperfeioamento do trato do patrimnio.

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  • PROGRAMAS EDUCATIVOSNeste componente, as aes foram planejadas para promover grandes

    campanhas e produtos de mdia. No entanto, houve um redirecionamentopara todos os stios histricos federais sob uma tica de formao e fomentode produtores locais, pesquisas histricas e uma linha editorial do Programafocalizada em boas prticas, intervenes de sucesso, estudos de interessepara o setor.

    de suma importncia que o acervo gerado por tantos projetos einiciativas, dentre elas pesquisas; festas e feiras populares; roteiros tursticose rotas histricas etc., seja trabalhado para sua difuso em mbito nacional.

    PROMOO DE ATIVIDADES ECONMICASNeste componente, procurou-se dar nfase a novos nichos econmicos,

    resgatando vocaes locais, na mesma modalidade de execuo via editaisde seleo de projeto, voltados a todos os stios histricos sob proteofederal.

    INVESTIMENTOS INTEGRADOSNeste componente, concentram-se as grandes intervenes do programa,

    o maior aporte de recursos financeiros. A primeira considerao que deveser feita sobre o demasiado tempo e o alto custo de elaborao dossubprojetos. Os projetos eram extremamente complexos e se iniciavam,apenas, quando todos os pr-requisitos estavam completos, gerando umhiato de tempo muito grande entre a chegada do Programa na cidade e seuefetivo incio, acarretando a desmotivao da populao local, que no viuresultados antes de passados trs anos.

    Entende-se esse fato como um erro de desenho, pois o hiato entre apreparao e a execuo provocou o descrdito do Programa na cidade,exigindo maior esforo para sua recuperao. No caso do ProgramaMonumenta, a credibilidade era de fundamental importncia para que oplano de revitalizao realmente ocorresse nas reas de projeto, pois um dosprincipais instrumentos para que tal objetivo se concretizasse era arecuperao dos imveis privados existentes. Tal recuperao se daria deacordo com a atratividade do instrumento de emprstimo, voltado parapessoas fsicas e jurdicas, cujos recursos deveriam ser utilizados pararestaurao e conservao de suas casas e estabelecimentos comerciais.

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  • Atualmente, h o reconhecimento da importncia e do mrito doPrograma, com dezenas de monumentos recuperados, e em uso, e centenasde financiamentos concedidos. Ainda assim, teria sido uma ferramenta desensibilizao dos gestores e da populao, o incio paulatino das atividadesnas reas de projeto, ou mesmo, a escolha de uma interveno emblemticana cidade para mostrar o potencial do Programa, promovendo rapidamentesua credibilidade no potencial de reabilitao de um stio histrico.

    Outra lio aprendida se concentra na demanda sobre a maior presenado Banco em todos os interlocutores do Programa, principalmente na fasepreparatria dos subprojetos, quando no h familiaridade com as normasdo Banco e h dificuldades na interpretao de procedimentos. A previsode no participao do Banco nessa fase e a demora na formalizao dossubexecutores geravam insegurana para o gestor local. Essa era uma faseprvia efetiva elegibilidade ao uso dos recursos do financiamento, queapenas podia ocorrer quando se cumpriam todos os pr-requisitosmetodolgicos e legais, estabelecidos no Regulamento Operativo doPrograma.

    Quanto avaliao econmica adotada, pecou-se por no sedimensionar o efeito multiplicador da revitalizao do stio histrico. Anfase da avaliao era na valorizao imobiliria, no fluxo turstico, nasbilheterias, entre outros, com medio de impacto concentrada em dadosprimrios, que so operacionalmente caros e sem garantia de permannciadas fontes de consulta.

    Pode-se citar o stio histrico de Lenis (BA) como exemplo. O foco daavaliao econmica foi na valorizao imobiliria, mas como o Programade Desenvolvimento doTurismo no Nordeste Prodetur interviu na cidadeantes que o Monumenta, a esperada valorizao j havia ocorrido, no sedeterminando mudanas significativas nos preos relativos, diante dapresena do Programa na cidade. Dessa forma, o valor mximo elegvel dosubprojeto, com todas as intervenes em seu stio histrico, quedependiam do resultado dessa avaliao econmica, foi extremamentebaixo, gerando retrabalho e medidas corretivas para um plano de trabalhocoerente com a importncia desse stio histrico.

    Finalmente, descrevo o esforo na construo de um instrumentojurdico que viabilizasse o financiamento de imveis privados nas reas deprojeto. Nesse sentido, pode-se fazer uma forte crtica ao desenho do

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  • Programa, que condicionou 30% dos recursos alocados nos subprojetospara essa finalidade, mas que sua operacionalizao dependia de uminstrumento que no estava maduro e que precisou de cinco anos para suafinalizao.

    Por outro lado, como j ressaltado, atualmente existem centenas definanciamentos de imveis privados concedidos e o consenso de que esteinstrumento jurdico o meio mais adequado para se utilizar recursos definanciamento externo, para reas protegidas, de forma gil, porque o objetode gasto, neste caso, no a obra civil e sim o financiamento.

    Portanto, na construo desse instrumento, foi necessrio realizar umprocesso de convencimento sobre sua viabilidade, identificar o agentefinanceiro e sensibilizar a populao. Formalizados os primeirosfinanciamentos nas reas de projeto, com vrios monumentos jrecuperados, o efeito demonstrao foi imediato, revelado pela imensa listade proponentes a essa modalidade de financiamento.

    Associado a financiamento de imveis privados est o retorno dessesrecursos a fundos locais de preservao. Sua operacionalizao ainda seconstitui um desafio e dever ser tema de muita reflexo, pois a lgica desustentabilidade das aes de conservao nos municpios se pautou naplena atividade destes.

    Este artigo no exprime necessariamente a opinio do BancoInteramericano de Desenvolvimento BID.

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  • A CAIXA E O APOIO CULTURA E PROTEO DO PATRIMNIO

    Carlos de Faria Coelho de Sousa*

    A Caixa Econmica Federal tem a misso de atuar na promoo dacidadania e do desenvolvimento sustentvel do Brasil, como instituiofinanceira, agente de polticas pblicas e parceira estratgica do Estado. Emuma histria de 149 anos, diversificou a misso e ampliou a rea de atuao,consolidando-se como empresa pblica eficiente, focada naresponsabilidade social e empresarial.

    Em constante compromisso com a memria e a cultura do Brasil, realizadiversas aes de apoio cultura e proteo do patrimnio, tanto cominiciativas prprias, quanto conjugadas com aes de rgos do GovernoFederal, como o Ministrio das Cidades e o Ministrio da Cultura.

    A atuao da CAIXA na rea da preservao do patrimnio culturalocorre nos seguintes eixos:

    Reabilitao de imveis para instalao de unidades e ConjuntosCulturais da CAIXA;

    Apoio reabilitao de imveis de valor cultural;

    Desenvolvimento de metodologia de reabilitao urbana nos estadose municpios;

    Contratos de repasse para apoio ao desenvolvimento de planos eprojetos de reabilitao urbana;

    Concesso de financiamentos e repasses de recursos, para restauraoe reabilitao de imveis pblicos e privados.

    REABILITAO DE IMVEIS DA CAIXAA CAIXA restaurou e reabilitou diversos imveis de valor histrico, para

    uso como agncias, edifcios administrativos e espaos culturais. Comoexemplo, citamos o edifcio So Lus, em So Lus (MA), que tem a maiorfachada de azulejos do pas, em estilo colonial, restaurado para abrigar a

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    *Gerente de Padrese Planejamento daGerncia Nacional

    de AssistnciaTcnica da Caixa

    Econmica Federal

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  • Superintendncia Regional da CAIXA. Outro exemplo a CAIXA Culturalde Salvador, instalada na antiga Casa de Oraes dos Jesutas, edifcio demais de trezentos anos. Em Recife, o antigo prdio da Bolsa de Valores dePernambuco e Paraba, localizado na praa do Marco Zero, est sendorestaurado para abrigar a Caixa Cultural.

    APOIO REABILITAO DE IMVEISO apoio reabilitao de imveis de valor cultural ocorre por meio do

    Programa de Revitalizao do Patrimnio Histrico e Cultural Brasileiro.O programa patrocina instituies culturais com atuao pblica,objetivando o desenvolvimento de aes de preservao e exposio dosacervos. Entre os beneficiados, esto o Museu Nacional de Belas-Artes e oMuseu Histrico Nacional, no Rio de Janeiro; o Museu da Inconfidncia,em Ouro Preto; e o Museu Nacional de Cultura Afro-Brasileira, emSalvador.

    PROGRAMA DE REVITALIZAO DE STIOS HISTRICOS PRSH

    No ano 2000, a CAIXA lanou o PRSH, objetivando contribuir para odesenvolvimento da poltica nacional de reabilitao urbana de stioshistricos, visando preservao do patrimnio cultural nacional e reduo do dficit habitacional brasileiro, recuperando um estoqueimobilirio em desuso e garantindo condies de habitabilidade para apermanncia das famlias residentes nos centros histricos.

    O PRSH estabeleceu como premissas, alm da manuteno das famliasmoradoras nos stios histricos, atrair novos moradores para os imveisdesocupados, contemplar imveis de uso misto, preservar as caractersticasdos imveis e buscar parcerias para projetos de gerao de trabalho e renda,como forma de manter a populao de baixo poder aquisitivo na rea e depossibilitar a manuteno dos imveis recuperados.

    No escopo do PRSH, foram concedidos financiamentos para arestaurao e a reabilitao de imveis, por meio do Programa deArrendamento Residencial PAR e do Programa Imvel na Planta, emcidades como Belm, Pelotas, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, So Paulo,Salvador, So Lus, entre 2002 e 2006, totalizando mais de 1.400 unidades.Em alguns empreendimentos, foram utilizados recursos do mecenato.

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  • DESENVOLVIMENTO DE METODOLOGIA DEREABILITAO URBANA

    Em 2001, a CAIXA firmou Acordo de Cooperao Tcnica com oGoverno Francs, o qual objetivou o intercmbio de conhecimentos eexperincias sobre a implantao de projetos de reabilitao urbana de stioshistricos, proporcionando a adequao de metodologias e instrumentosque tenham como objetivo a busca de solues para a permanncia demoradores de baixa renda dessas reas, a melhoria das condies dehabitabilidade das edificaes e a preservao do patrimnio cultural.

    Foram realizadas mais de cem misses de curta durao de tcnicosfranceses e brasileiros s cidades apoiadas pela cooperao tcnica, com oapoio ao desenvolvimento de projetos. Entre as cidades beneficiadas,esto: Aracaju, Araua, Belm, Fortaleza, Joo Pessoa, Natal, Pelotas,Pirenpolis, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Sabar, Salvador, SoLus, So Paulo e Vitria. Tambm foram realizadas misses de curtadurao de tcnicos e autoridades da CAIXA, do Governo Federal ePrefeituras Frana.

    Na primeira fase da cooperao, a troca de experincias tinha comoobjetivo, nos diversos rgos pblicos, a difuso do conceito dereabilitao urbana de reas centrais, incluindo a recuperao de imveispara uso habitacional. Foram desenvolvidos estudos de viabilidade deimveis, dentro de Permetros de Reabilitao Integrada (PRI), comomtodo de ao conjunta de diversos atores. Tambm foramdesenvolvidos estudos de demanda habitacional para essas reas, atelisparticipativos e seminrios de sensibilizao do setor da construo civil.Os trabalhos desenvolvidos nesta cooperao subsidiaram a contratao deoperaes de financiamento.

    A partir de 2003, o Ministrio das Cidades passou a integrar acooperao. Esse trabalho subsidiou a modelagem do Programa deReabilitao de reas Urbanas Centrais, da Secretaria Nacional deProgramas Urbanos.

    A cooperao contribuiu para a articulao das estratgias de ao, emque os projetos evoluram dos estudos de reabilitao de imveis paraestudos consolidados dos bairros, bem como a incluso dos planos setoriaisnas estratgias urbanas de algumas das cidades envolvidas.

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  • APOIO AO DESENVOLVIMENTO DE PLANOS EPROJETOS DE REABILITAO URBANA

    A CAIXA operacionaliza o Programa Reabilitao de reas UrbanasCentrais, do Ministrio das Cidades, onde so disponibilizados recursospara apoio Elaborao de Planos de Reabilitao de reas UrbanasCentrais de Capitais e Municpios, e apoio a Projetos de Infraestrutura eRequalificao de Espaos de Uso Pblico em reas Centrais.

    PROGRAMA MONUMENTA BIDNo ano 2001, a CAIXA assinou contrato de prestao de servios para

    o Programa de Preservao do Patrimnio Histrico Cultural Urbano Monumenta, com o Ministrio da Cultura, pelo qual so realizados repassesrelativos a investimentos integrados em reas de projeto. Entre 2005 a 2009,foram repassados mais de R$ 112 milhes.

    O objetivo do Programa Monumenta BID a execuo de aes paraa preservao de stios histricos urbanos prioritrios, aumentando oconhecimento e a valorizao do patrimnio histrico brasileiro, eamplificando o uso econmico, cultural e social dos stios restaurados.

    No Programa, cabe ao Ministrio da Cultura a seleo das operaespara contratao, bem como a anlise e aprovao da elegibilidade doprojeto e da contrapartida.

    O Programa traz diversos conceitos inovadores, entre eles, a aointegrada de diferentes entes pblicos e iniciativa privada. Como oprograma atua em um permetro de projeto, traz benefcios tanto paraedificaes tombadas, quanto no tombadas. Tambm inovador ao trazer,alm das obras na infraestrutura e obras de recuperao e restaurao debens tombados, aes de fortalecimento institucional, promoo deatividades econmicas, capacitao de artfices e de agentes locais de culturae turismo, e educao patrimonial.

    PROGRAMA MONUMENTA IMVEIS PRIVADOSDevido grande capilaridade e expertise da CAIXA, na concesso de

    financiamentos, em 2004 foi celebrado novo contrato com o Ministrio daCultura, para a operacionalizao do Programa Monumenta na modalidade definanciamento para Imveis Privados, criada para ampliar as aes do Programa.

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    l.1 O Programa Monumenta Imveis Privados tem condies especiais

    de financiamento como taxa de juros zero, opo de garantia tipo cauo eretorno dos recursos dos financiamentos para os Fundos Municipais dePreservao.

    A CAIXA participou da formatao do Programa, tendo recebidodiversas demandas especficas, entre elas, a contratao sem seguros, acontratao sem limite de idade e a ausncia de penalidades parainadimplentes, bem como a aceitao de garantias no utilizadas em outrosfinanciamentos habitacionais.

    Como agente operador, a CAIXA responsvel por prestar serviostcnicos e operacionais necessrios viabilizao dos financiamentos,compreendendo as anlises pr-contratuais, a contratao, a transferncia derecursos para os muturios, o recebimento do retorno dos financiamentose as transferncias dos recursos do retorno aos Fundos Municipais dePreservao.

    A participao na operacionalizao do Programa Monumenta umadas principais aes da CAIXA na proteo do patrimnio culturalbrasileiro.

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  • AVALIAO DO PROGRAMA

    PELA UNESCO

    Jurema Machado*

    Como as exposies de Robson Antnio de Almeida e de Ana LciaPaiva Dezolt, alm de descrever, j fizeram uma pr-avaliao extremamentequalificada de quem tem envolvimento visceral com o programa h muitosanos, eu tentarei me concentrar nos pontos frgeis da questo, em minhaopinio. E fao isso vontade, porque eu acho, particularmente, que aavaliao do Programa muito positiva. Feita esta ressalva, vou direto quiloque, talvez, no tenha funcionado ou no funcionou como deveria, parapensarmos, inclusive, no que vem pela frente. Mas antes, uma recapitulao.

    At agora foi feita a descrio de um processo bastante estruturado queconseguiu mobilizar no s as 26 cidades diretamente envolvidas, mas todoo setor do patrimnio do pas durante todo esse tempo. H um papelfundamental que temos sempre de lembrar: a questo do emprstimo. Oemprstimo teve um valor muito maior, como impacto de uma forma detrabalhar, um impacto de continuidade, do que propriamente o valor dodinheiro. Acho que, no incio, quando foi tomado, em 1999, foi bemdemonstrado que, muito mais que o recurso, o que valia era a regra.Quando que voc consegue trabalhar por um perodo to longo com umaorquestrao que vai do municpio ao governo federal, fazendo, mais oumenos, a mesma coisa, com os mesmos critrios? Quer dizer, isso umprograma que virou poltica pblica, como est demonstrado pelacontinuidade via PAC, com Planos de Ao, etc. Ento, o emprstimo teveum papel muito importante.

    Tem-se que dar um crdito Unesco tambm, pelo fato de os projetosde cooperao sucessivos tambm garantirem um mnimo de continuidade,de coeso, de coerncia entre as coisas.

    Os trs pontos que elegi como mais frgeis, em relao aos resultados doPrograma, no tm diretamente a ver com esse problema inicial; difcilfazer um juzo de valor, dizer se fragilidade, se erro, porque tudo isso temde ser visto em uma perspectiva histrica; essas palavras ficam muito

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    *Coordenadora deCultura Unesco/Brasil

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  • inadequadas, s vezes. Mas, acredito que o programa tinha erros,deficincias, desde o incio, em alguns aspectos da concepo. Eu,particularmente, participei dele, em todas as condies: como cliente doprograma aqui, em Minas Gerais, preparando o projeto de Ouro Preto;depois, como consultora, trabalhando na equipe do programa,especialmente na poca da formulao, do detalhamento, porque aformulao anterior; e, por ltimo, na Unesco, acompanhando aexecuo.

    Essa viso eu consegui acompanhando o Programa ao longo do tempo.E acredito que, desde a fase inicial, havia alguns equvocos, talvez, pelaentrada de um programa de cultura e patrimnio de um agente definanciamento que no tinha essa tradio e tampouco o governo brasileirotinha a tradio de se relacionar com um banco de fomento para um objetodessa natureza. E quais so esses pontos? Do ponto de vista inicial deconcepo: acho que tinha uma deciso clara do Programa, isso me foi ditotextualmente, o foco estava no patrimnio urbano, nos stios urbanos, masexistia uma deciso clara de que o resultado pretendido era a revitalizaodesse patrimnio, sem contribuir, necessariamente, para qualquer alteraona estrutura urbana, era a lgica desses stios, no era objeto ou resultadopretendido pelo programa. O resultado pretendido era o patrimnio, masno, necessariamente, a cidade.

    Por exemplo, o caso de Ouro Preto, que tem resultados muitointeressantes, mas um dos projetos que poderamos colocar na lista dasintervenes pontuais e pouco articuladas, porque o municpio tem umalista de bons projetos, mas eles no concorrem para um objetivo comum.Na poca em que participei da formulao inicial, ns tnhamos a intenode trabalhar na direo do Parque Vale dos Contos, aqui em Ouro Preto, efoi aqui, na Barra, nessa regio em que estamos hoje, que o centro comeou,no era como est hoje. Na poca, alegvamos que era uma contribuiopara que a cidade criasse uma nova polarizao dentro do centro histrico,com vistas a reter e funcionar um pouco como uma descompresso daquelarea comercial mais densa da rua So Jos, e criar um anteparo para todaessa expanso da cidade que est acima do morro do Gamb. Esse no oresultado pretendido pelo Programa, mudar a estrutura urbana, mudar aforma como a cidade funciona. Talvez, no Rio de Janeiro, em So Paulo, issoseja uma ambio, mas nas cidades mdias no; mas talvez pudssemos tertrabalhado nessa direo.

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  • Estava claro que o Programa no tinha essa ambio. O Programa tinhauma viso, talvez, um pouco ingnua da questo da valorizao imobiliria.Todo mundo achava que essas reas eram muito rgidas, do ponto de vistade valorizao imobiliria, porque no se consegue aumentar muito a reaconstruda. Ento, apenas o uso no capaz e se capaz, o a muitolongo prazo de promover essa valorizao imobiliria e a mudana dasplantas de valores de IPTU e, portanto, gerar mais arrecadao. As cidades,alm de serem, em termos mdios, resistentes, inertes mesmo, s mudanas,para a valorizao imobiliria, elas eram muito mal estruturadas, na suagrande maioria, do ponto de vista da arrecadao, tanto de ISS quanto deIPTU, ento, isso no mudava nada. Tanto que, na prtica, os perfis so umtanto mentirosos, no sentido de que a interveno ser compensada, serpaga pela valorizao.

    Como j mencionou Ana Lcia Paiva Dezolt, essa uma viso muitocientificista, tanto da interveno quanto dos critrios, por exemplo, parafazer especificaes, para fazer manuais, para fazer seleo de bens a seremprotegidos etc. Tudo tem um excesso de cientificismo, em cima de umobjeto que no tem como no dar margem subjetividade, a um juzo devalor. No vou me estender nisso, pois acho que esse aspecto tem um ladobom, porque trouxe uma injeo de racionalidade num ambiente em queas pessoas acham que a anlise a subjetividade e onde tem uma hegemonia.Eu tambm acho que a subjetividade tem de ser avalizada por outrosparmetros. Mas, a proposta do Programa era um enrijecimento disso.Quando eu digo tudo isso, parece que eu no avalio bem os resultados, masno isso, porque, na verdade, acho que precisamos, daqui pra frente,construir coisas cada vez melhor.

    O que permitiu minimizar um pouco esses problemas iniciais e dar umsalto para chegar nesses resultados que vemos foi, na minha opinio,basicamente, a mudana de governo, quer dizer, entrou uma equipe commenos compromisso com aquele desenho cartesiano demais, do grupoinicial, e havia recursos, porque no comeo era s falao e nenhumdinheiro. S se gastava dinheiro e no havia receita; essa equipe, ento, entracom uma viso diferenciada e mais disposio de compartilhar com o Iphan,coisa que at ento no tinha acontecido. Acho que o que propiciou essesalto foi a flexibilizao do manual operativo em vrios desses pontos quecitei, e o aprofundamento, de certa forma radicalizao, da ideia decompartilhar as aes do Programa. Toda a questo dos editais, por

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    isso disseminado no s para os trs centros de formao inicial, pensadosnesse prazo, para as 26 cidades com aes menores e at para cidades forado Programa. Isso vale para as aes de formulao, para o programaeducativo e para as atividades econmicas.

    Essa ampliao dos instrumentos de compartilhamento a abertura parao urbano, que uma abertura para uma viso de estratgia de intervenoem ambiente urbano que foi, basicamente, traduzido pelo caos deCachoeira, das universidades talvez seja uma das coisas de mais sucesso,de resultados, que temos de comemorar no Programa.

    Bom, e o que menos funcionou? Eu acho que o Iphan se aproveitoumuito mal, muito menos do que poderia, do Programa. Por todos osproblemas iniciais, mas, mesmo quando esses problemas estavam superados,o Iphan utilizou pouco do Programa, em relao ao que potencialmente foipensado ou ao que estava previsto. Beneficiou-se sim, muito, no nvel local,com legitimidade, visibilidade, com uma relao ntima e colaborativa comas Prefeituras e isso impagvel. Se o Monumenta no tivesse feito nada efizesse isso j estava de bom tamanho, os 150 milhes de dlares estariambem empregados. O que significa hoje esse auditrio cheio? A qualquersinalzinho as pessoas se mobilizam; h uma rede de envolvimento dePrefeituras nas cidades que , realmente, o grande ganho do Programa.

    E o Iphan ganhou com isso, muito no nvel local: de afirmao, devisibilidade, entre outros, pois era o Iphan que sempre fiscalizava,embargava e chateava as pessoas e, dessa forma, passou a ter uma aoproativa e uma ao que no s do patrimnio edificado, mas tambm dasaes complementares. O Iphan passa, assim, a ser identificado pelas aescomplementares tambm, que foram muito importantes na concepo doPrograma e no apenas na interveno fsica, mas havia a possibilidade dosinventrios e ela foi timidamente aproveitada, assim como a possibilidadedos desenhos de acautelamento pelo prprio Iphan e da sistematizao dapoltica de tombamento.

    Em parte porque, inicialmente, era tudo muito complicado, mastambm porque existem divergncias internas srias, com relao ao que que tem de ser abordado nos inventrios. E porque essa uma opiniomuito pessoal minha; acho que o Iphan muito resistente a qualquer coisaque implique normalizao, procedimentos, o que diz respeito aoacautelamento, como a sistematizao dos processos de tombamento.

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    tes o que est acontecendo, o que estamos vendo o Iphan fazer hoje a

    cada novo tombamento proposto, por exemplo, e o Monumenta sepropunha a isso tambm: a ajudar, a organizar a poltica de proteo,usando recursos do prprio Programa. Hoje, vemos claramente um desenhotraado do ponto de vista de que reas a suprir no territrio, a cobrir doponto de vista de representatividade, e que no esto contempladas; a cadaapresentao de um novo tombamento levada para o Conselho doPatrimnio Cultural, do qual fao parte, o Departamento de PatrimnioMaterial e Fiscalizao Depam apresenta, contextualiza aquilo ali em umapoltica que est um pouco na memria, vamos dizer assim, no registroquase oral do Departamento, mas que no foi ajudada pelo Programa epoderia ter sido. A outra coisa que acho que falta a questo do fundo.Como dito antes por Ana Lcia Paiva Dezolt, os modelos, hoje, so muitoheterogneos, h o que funciona e o que no funciona. No incio, quandoparticipei da formulao, achvamos que os desenhos das estruturas degesto, no nvel do municpio, tinham de ser mais predefinidos, propostosde cima para baixo, pelo Governo Federal.

    Achvamos que no conseguiramos fazer isso por adeso, mas criandocompromisso, queramos que os municpios criassem formalmenteestruturas a, b ou c para poderem ter acesso ao programa.

    Eu, particularmente, pensava assim na poca. Isso no prevaleceu, notenho muita certeza se teria sido melhor ou pior, mas acho que da forma queest hoje, estamos em um momento em que no podemos deixar que osfundos de preservao s venham a se tornar realidade ao final doprograma. O Governo Federal no deveria deixar isso para uma seleonatural, deveria preservar estudos melhores, pois alguns vo se perder notempo. Tinha que se fazer mais uma ao em cima disso, no sentido deformalizar, dar algum instrumento, curso etc., mediante compromisso domunicpio. Dar mais consistncia na dificuldade, estar mais presente,adentrar as polticas de educao. Seria alguma coisa mais de massa; noera para ser o que foi pensado inicialmente. De massa talvez seja exagero,mas uma coisa mais massiva mesmo, que no seja o artesanato dos projetoslocais de promoo do patrimnio e educao patrimonial.

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  • AVALIAO DO PROGRAMAMONUMENTA PELA UFBA

    Ana Fernandes*

    Em primeiro lugar, agradeo o convite para participar desta mesa.Cumprimentar pela realizao do Frum e, particularmente, por essa buscade avaliao de um programa que se tornou uma referncia ou, talvez, maisque uma referncia, uma presena em vrias cidades brasileiras.

    Em minha opinio, fazer uma avaliao implica considerar algunspressupostos. E eu tenho alguns para pensar em relao ao Monumenta.No fiz parte de nenhum projeto especfico do Monumenta e nuncapesquisei detalhadamente este programa. Na verdade, trata-se aqui de umatentativa de elaborar algumas questes para se discutir uma poltica pblica,como vem sendo feita em relao ao Patrimnio no Brasil.

    O primeiro pressuposto , sem dvida, extremamente importante haverpolticas para a rea do Patrimnio com mecanismos de financiamentoabrangentes e justos.

    Esse pressuposto me leva, no entanto, a levantar desde j a questo deonde se pensa essa poltica. E, parece-me, pensar uma poltica a partir dofinanciamento, talvez, seja uma inverso de perspectiva. A poltica deve serpensada como objetivos a serem conquistados e que o financiamento algoque faz parte do processo de operacionalizao dessa poltica. Mas a inversodisso traz, talvez, uma srie dos problemas que foram aqui apontadosinicialmente.

    O segundo pressuposto a importncia, cada vez maior, da conflunciaentre polticas para reas de Patrimnio com suas especificidades,evidentemente de configurao, de dinmica de uso e de apropriao comuma poltica urbana de forma mais geral (como acabou de indicar JuremaMachado) e tambm com a poltica do meio ambiente. A meu ver, so as trsgrandes polticas que vm sendo elaboradas no mbito do Estado brasileiro;que confluem num espao construdo e na dinmica urbana e so importantesde serem pensadas em suas interfaces em suas interdeterminaes.

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    *Professora daFaculdade deArquitetura e

    Urbanismo daUFBA

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  • E, por fim, acho que h tambm a questo da ampliao do Direito Cidade um pressuposto bsico, fundamental, de toda e qualquer polticacom relao cidade.

    Alm desses pressupostos, existe um reconhecimento, que todos aquiforam muito enfticos em falar, da importncia que o Monumenta tem naconstituio de uma poltica para as reas de Patrimnio no Brasil. Naverdade, o Monumenta mais os planos diretores, as polticas de recuperaode reas centrais, as polticas de criao de reas de Preservao Permanente APPs etc. so polticas que, no que diz respeito cidade, expressam algoque me parece muito importante; o que eu chamaria de umarecomposio do Estado brasileiro.

    Essa recomposio do Estado brasileiro foi atacada como uma versoextremamente autoritria do Estado pela ditadura militar e completamentefragmentada com a crise da segunda metade dos anos 80 e dos anos 90,alm de todo o iderio da reforma do Estado, baseada no neoliberalismoque fazia com que o Estado fosse pensado como ente mnimo que deveriaregular os fluxos financeiros, os fluxos de investimento, nica eexclusivamente; isso retirou do mbito do Setor Pblico brasileiro apossibilidade de pensar projetivamente, prospectivamente e de propor,portanto, polticas, de fato, para a cidade.

    Alm dessa questo da recomposio do Estado brasileiro, tem tambm aampliao de um espectro democrtico, digamos assim, que tem comoreferncia um reconhecimento de um Brasil plural. Isso , no meu entender,algo tambm que vem sendo recorrentemente conseguido em diversas estnciase construdo em todos os seus nveis, articulando as diversas esferas do Estado.

    So vrias as questes para discusso. Uma a que Jurema Machadoapresentou e que acho importante reforar: no d mais para pensar eminvestir em edifcio. Essa uma questo que como poltica pblica j est,de certa forma, resolvida atravs de mecanismos de financiamento. Quandopensamos em reas do Patrimnio, estamos falando de reas extremamenteproblemticas do ponto de vista da dinmica urbana.

    Formular uma poltica de interveno em reas protegidas ou em reasde Patrimnio ter a capacidade de reinserir essas reas na dinmica dacidade. Na Bahia, acreditava-se que ao se investir numa edificao, estaespraiaria um processo de valorizao. Assim, investe-se em edifcios desdeos anos 70 e isso nunca deu certo.

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  • Na verdade, o que existe na Bahia e principalmente em Salvador, umprocesso de acentuao contnua da crise do Centro. E essa crise, apesar, detodos os investimentos, se aprofunda porque outras centralidades esto sendocriadas. Enquanto no se articular a poltica para as reas protegidas com apoltica urbana da expanso, vamos continuar criando centrosrecorrentemente esvaziados, com baixa dinmica, com empobrecimento etc.

    Em Salvador, temos o Centro Colonial extremamente problemtico doponto de vista da dinmica, mas temos o Centro do Comrcio um Centrodos anos 60 que est vazio.

    Assim, ou pensamos nessa perspectiva, de articulao da poltica depreservao com a poltica urbana e a de meio ambiente ou continuamostentando, mais como uma proposta de frustrao, a mdio e longo prazo.

    O Estado brasileiro tem problemas de operao; acho que temos umaherana da ditadura, dos controles, da corrupo, da tradio portuguesa,do patrimonialismo, enfim, h vrias heranas que tornam os sistemas decontrole de operao extremamente complicados.

    Ao observar os dados do Monumenta, principalmente em relao aosimveis privados, pondero que, no incio, havia 1.449 propostas que foramclassificadas nos editais e temos 165 obras concludas, ou seja, 11,4% uma situao complicada. Considero que essa avaliao do Programa precisaser feita com a maior coragem. Resultados to pequenos em relao aoproposto originalmente no correspondem, muitas vezes, ao enorme esforoque se faz para operar um programa.

    Com essa avaliao possvel considerar esse primeiro perodo doPrograma Monumenta como um desbravamento e agora os problemas tmde ser enfrentados. Ainda que pensemos nos 300 contratos que foram feitos,isso significa 20% das propostas iniciais ou 34% das que permanecem, jaumenta, mas, de qualquer forma, ainda um valor pequeno em termos dosobjetivos.

    Algumas questes que aparecem recorrentemente so problemas para oagente financeiro. Esse ponto da operacionalizao j foi abordado peloCarlos de Faria de Sousa.

    Esses dados chamam mais ateno quando se trata de imveis privados.Quando se imagina que a esfera privada teria maior capacidade de execuodo que aquilo que fica basicamente na mo do Estado. No entanto, a

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  • questo est no processo de operao e atinge tambm o privado. Esse um longo campo a ser devastado.

    Existem tambm problemas com o prprio processo de aprovao dosprojetos e a o Iphan est diretamente envolvido. Nesse sentido, acho queo processo de abandono que se fez no Iphan durante muitas dcadas nessepas algo tambm extremamente importante de ser visto e que felizmente uma tendncia que parece revertida. Essa tendncia que parece revertidasignifica contrapor-se tambm ideia do Estado mnimo.

    A ideia de que tudo vai acontecer fora do Estado significa que as aesnunca sero contnuas porque vai depender de quem est oferecendo ocrdito. Vai depender da adeso desses ou daqueles setores da sociedade.Isso faz com que o Setor Pblico, particularmente o municipal, estejaabsolutamente esvaziado e fragilizado. Acho complicada essa ideia de seconstruir o tempo inteiro estruturas que, em nome da agilidade, devemfuncionar de forma eventual fora do aparato pblico propriamente dito.Indago se na continuidade do Monumenta, as Unidades Executoras deProjeto UEPs devem ser pensadas como as instncias de execuo doProjeto. Como o nome j diz: opera por projetos.

    Da mesma maneira, os Planos Diretores tm gravssimos problemas porterem sido licitados nos municpios. Hoje, grande parte dos PlanosDiretores est nas gavetas porque no h capacitao tcnica nos municpiosque possa execut-los.

    J se falou muito aqui da necessidade de capacitao, da necessidade deadequao dos sistemas descentralizados para que os projetos possamacontecer. E acho que isso algo extremamente importante, assim comoacho que as empresas tm de ser capacitadas; no s a populao que temque reconhecer a importncia do Patrimnio, se reconhecer nele e acharque aquilo importante para sua vida.

    Existe uma cultura empresarial no Brasil que brutal, feroz, cruel,devastadora. E, em minha opinio, esse processo tambm deve ampliar,portanto, a possibilidade de abrangncia desses outros agentes.

    Quero ressaltar a importncia do pequeno crdito. Esse pequeno crdito,57% dos contratos para imveis privados, mostra que grande parte das reaspreservadas ou das reas protegidas ainda mantm uma populao que dvida a esses centros.

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  • No caso de Salvador, isso foi completamente extirpado dessa populao,mas acho que isso um dado importante para leitura das reas protegidasque so feitas hoje, e um elemento importante tambm da avaliao.

    E por ltimo, pergunto sobre a continuidade do Programa, dado quetemos o PAC Cidades Histricas que traz em sua grande maioria o conjuntode objetivos com os quais o Monumenta trabalhava. Por um lado, issosignifica que o Estado brasileiro reconhece esses objetivos como sendoimportantes para ao nas cidades brasileiras, no entanto, pelo que eu vi, oPAC Cidades Histricas no contempla o fortalecimento institucional, queme parece ser um dado absolutamente fundamental capacitao deartfices, agentes e Programas Educativos para o Patrimnio Histrico. Osoutros elementos parecem que esto contemplados.

    O PAC Cidades Histricas tem uma misso muito maior. So 5.200imveis privados a serem feitos em 173 cidades at 2012, ou seja, em trsanos. Essa avaliao do Monumenta , ento, um dado absolutamentefundamental para, inclusive, instrumentalizar de que maneira o PACCidades Histricas vai ser feito. extremamente importante se acautelar, eisso foi dito tambm algumas vezes. Acautelar-se em relao ao turismo.Na maioria das vezes, o turismo absolutamente avassalador em relao scidades, em relao aos Centros.

    O que o turismo justifica como processo de interveno e de dilapidaodos centros , muitas vezes, assustador. Porque o turismo o grande Godot, aquele que vai trazer todo desenvolvimento e toda mudana de dinmicaurbana pra todas as cidades brasileiras nos prximos 50 anos.

    Penso, mesmo, que importante se acautelar com relao a isto, assimcomo importante pensar a ao dos centros histricos nesse prximoperodo. No s com relao a essa descentralizao que vem acontecendo,particularmente nas cidades mdias e grandes, mas, com uma mudana deinvestimento que comea acontecer em algumas cidades brasileiras, aexemplo de So Paulo, que instituiu o projeto de Concesso Urbanstica,que tem por objetivo revitalizar as reas degradadas da cidade. A primeiraconcesso, a Nova Luz, est localizada no bairro da Luz, uma das reas maisdeterioradas da regio central.

    No meu ponto de vista, esse instrumento chamado ConcessoUrbanstica dramtico em termos do que e do que significa o controledo Estado sobre o Direito Cidade, na medida em que voc simplesmente

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  • terceiriza todo e qualquer processo de desapropriao, por exemplo, comprade grandes quantidades de imveis em reas centrais.

    Hoje em Salvador, nas pontas Norte e Sul, ns temos dois grandesinvestimentos, um de hotelaria e o outro que no se sabe exatamente o queser, mas so 50 casas compradas por um nico empreendedor, umaherdeira do Grupo Iguatemy, que pretende levar para l, muitoprovavelmente, um processo de gentrificao numa rea que extremamente dinmica do ponto de vista do uso de sua populao.

    Essas realidades tm de ser analisadas para se pensar tambm osinstrumentos necessrios para se fazer frente a essas dinmicas. Tem aindaa questo de uma poltica fundiria que no est presente tambm em lugarnenhum, quer dizer, o que fazer com grandes quantidades de rea pblicaque existem nessas reas protegidas? Como se trabalha com esses estoques,digamos assim, fundirios e imobilirios?

    Considero de extrema importncia que o Programa Monumenta, emSalvador, aliado a vrias outras aes, tenha conseguido interromper umprocesso de expulso da populao do Centro da cidade. Com a mudanade prioridades polticas, de equipe, e de entendimento do significado deinsero na cidade, esse processo foi estancado. Uma negociao imensa detodos os processos aos quais vocs j se referiram se estabeleceu. Embora nose tenha conseguido abranger uma grande parcela e, ainda hoje, com ritmode execuo extremamente lento, de qualquer forma, simblica a atuaodo Monumenta em Salvador.

    Aliado a um movimento social ascendente naquela cidade que passava ater capacidade de voz de expresso, fez com que se interrompesse o cicloextremamente cruel em relao ao uso do Centro da cidade.

    Portanto, finalizo e agradeo o Monumenta por isso, e cumprimento atodos pelo comprometimento com a reabilitao desse Patrimnio que, semsombra de dvida, de todos ns.

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  • PROGRAMA NACIONAL DEFOMENTO E INCENTIVO CULTURA

    Evaristo Nunes*

    RESUMOUm panorama das formas de financiamentos vigentes e cuja base

    principal, hoje, o Incentivo Fiscal. Revela um aumento vertiginoso naordem de investimentos na cultura a partir de 2002, quando os recursossaram da casa dos trezentos milhes para alcanar o patamar de quase umbilho de reais, em 2007. Esse aumento se deve tanto ao crescimento do pase, consequentemente, de sua arrecadao e base tributria, como do prpriocrescimento e profissionalizao do mercado cultural. Em contrapartida,expe a concentrao dos recursos destinados cultura, atravs da LeiRouanet, para a regio Sudeste do pas, em detrimento da regio Nordeste.Um problema de distribuio de recursos que o MinC pretende corrigiratravs do Programa de Financiamento e Incentivo Cultura Profic.

    PALAVRAS-CHAVEFinanciamento, Incentivo Fiscal, Cultura.

    Em nome do secretrio de Fomento, Roberto Nascimento, eu tenho oprazer de poder compartilhar algumas informaes e algumas impressessobre o sistema de financiamento que baseado, hoje, muito fortemente,no Incentivo Fiscal. Apresentaremos alguns nmeros e discutiremos umpouco sobre a locao numa srie histrica, de forma que tentarei fazer umcorte metodolgico para que a gente possa ter uma anlise mais numricae financeira. Principalmente, porque estamos falando de financiamento,no estamos falando de poltica, simplesmente do ponto de vista doconceito, que muito importante, mas que na hora da verdade as coisasacontecem quando existe dinheiro em caixa para desenvolv-las. Esseplanejamento financeiro depende muito da anlise dos nmeros, capacidadeque identifico como outro grande avano do Estado brasileiro na gesto

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    *Secretaria deFomento e Incentivo Cultura / MinC

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  • Juca Ferreira. Trata-se da capacidade de desenvolver uma anlise maisacurada sobre os nmeros da cultura e parar de discutir somente em basesconceituais, tendo, de fato, nmeros para fazer uma discusso em nveladequado quando o assunto financiamento.

    Faremos essa abordagem, e fao questo de mencionar a data porque,para ns, muito importante o fechamento dessas datas, uma vez que osnmeros, normalmente, s fecham em maro do ano seguinte. Talvez, nosatisfaa a todas as perguntas que vocs, por ventura, tenham,principalmente porque vou me concentrar mais na anlise do patrimnio,versus a nova Lei Rouanet e o Programa de Financiamento e Incentivo Cultura Profic.

    O projeto ainda no est no Congresso, mas est quase. Ser entregue naCmara dos Deputados e, a partir desse momento, as discusses tomamum rumo parlamentar, no s o rumo que ns j tivemos, j que, emregistro, foi a primeira vez que uma lei desse porte foi discutida toamplamente com a sociedade na rea da cultura. importante que ossenhores acompanhem a discusso dessa lei na Cmara dos Deputadosporque ela central, afirmo, para os prximos vinte anos de financiamentocom recursos federais para cultura do pas.

    Estamos falando de uma srie histrica de 2002 para frente, quandosamos de um patamar de trezentos milhes, ao ano, de incentivos fiscais,e no estou falando de renncia, s uma questo tcnica, capacitao derecurso, que no caso do patrimnio a mesma coisa, mas em algumas outrasreas no . Ento, ns temos uma subida vertiginosa que acompanha nfatores do pas, desde seu crescimento, porque se aumenta a base dearrecadao aumenta tambm a base tributria, e se aumenta a basetributria aumenta a capacidade das empresas de alocar recurso. Mas,tambm, o prprio desenvolvimento do mercado cultural. Essaalavancagem, portanto, reflexo de vrios fatores; um deles o crescimentoda tributao e da economia, as duas coisas ao mesmo tempo e, talvez, maisdecisivamente da profissionalizao da cadeira cultura.

    Samos de trezentos e poucos milhes, em 2002, e chegamos em 2007 aopatamar de quase um bilho de reais, claro que no estamos adicionando osvalores da lei do audiovisual, se no chegaramos a um bilho e cem, em 2007,e chegaramos, no ano de 2008, prximo de novecentos e oitenta milhes.Um bilho um dado contbil, estamos na casa dos seiscentos milhes quej mais do que dezembro do ano passado, se comparado ms a ms.

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  • Os dados mostram a relevncia que isso tem para a economia do pasporque um bilho de reais um bilho de reais em qualquer lugar domundo, no um nmero desprezvel em nenhuma escala econmica, emnenhuma escala industrial, pensando indstria no sentido de setoreconmico. Ento, pensar sobre esses nmeros, no pensar de formaamadorstica, sem capacidade de anlise, porque todo subsdio, que pordefinio conceitual em economia regressivo se laissez faire, laissez aller,laissez passer acontecer. Se deixarmos que os agentes do mercado ajamsozinhos... subsdio regressivo, ele concentrador. E se a concentrao naturalizada piora tudo, porque a concentrao vai gerando maisconcentrao, uma vez que os agentes de mercado se acostumam com asregras do negcio e vo criando as prprias defesas.

    S para vocs terem uma ideia, vou dar um exemplo: 3% da base decaptadores na Lei Rouanet no tempo captaram 80% dos recursos. Ento,significa dizer que trs para oitenta mais do que a desigualdade deBangladesh ou do Zimbbue. Isso no tem sentido porque ningum, naverdade, usou esses nmeros com propriedade, eu estou falando ningumque significa todos ns, ningum usou isso como a ferramenta de gestoadequada. E eu considero o Profic uma ferramenta poderosssima parajuntar conhecimento estatstico at, com o dinheiro e com a legislaoadequada para isso, para poder alavancar questes muito relevantes para asociedade brasileira e desapaixonadamente. Isso o mais importante porquens estamos falando de recursos pblicos e que precisa ter uma anlise maisadequada.

    O Sudeste j tinha, em 2002, uma preocupao bastante avantajadadiante das demais regies e isso vai ficando cada vez mais dramtico. Cadaano que passa ns subimos um ponto percentual ou dois pontos percentuaisde concentrao no Sudeste. Claro que isso vai ter um fim, mas esse fimpode ser a prpria morte do sistema. Ento, dadas as regras de partida, hoje,do sistema de incentivo federal baseado em incentivos fiscais, ns tendemosa um modelo absolutamente concentrador e injusto do ponto de vistaredistributivo.

    Estou usando umas palavras bonitas assim, meio economs, mas eu gostode fazer isso sabe por qu? Porque a gente se esconde muito na rea dacultura com os nossos conceitos culturais, esquecemos que existe um ladoeconmico nessa cadeia que precisa ser olhado como economia e, reitero,tem que ser olhado como economia mesmo. No economia no sentido

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  • ruim da palavra, mas nos efeitos que isso traz, os efeitos danosos oubenficos, a sistemalidade positiva e negativa.

    Esse processo concentrador acontece tanto em nvel regional, quantoestadual, e em nvel dos proponentes e nos projetos que ficam cada vezmais caros e superfaturados. Calculo que 55% dos projetos esto acima dovalor de mercado e eu posso provar isso com dados estatsticos. Tudo issogera uma economia de regressividade muito grande. Esses dados reforamque no tem sentido o Norte apresentar 1% dos recursos, menos de 1%.Alis, o Norte nunca chegou a 1%. Ento, no tem sentido, sob nenhumaspecto econmico, cultural, social, voc concentrar 80% no Sudeste dopas e, apenas, 1% na regio Norte. No existe nenhum paralelo nem deproduo, nem de PIB, nem de populao, nada justifica essaconcentrao. Por qu?

    Porque ns estamos falando de uma coisa laissez faire, laissez aller, laissezpasser. uma coisa que no tem, desprovida de mecanismo de regulao,no h regulao nesse mercado, um mercado completamentedesregulamentado. Ento, isso muito complicado porque gera distoresmuito graves e essas distores podem at ser boas no varejo, porque sereformou um prdio especfico ou se construiu um centro cultural naqueleponto do pas, mas, do ponto de vista sistmico, extremamenteinadequado para o desenvolvimento cultural do pas.

    Temos um quadro de distribuio das reas culturais clssicas, muitobem, eu sei que tem vrias crticas sobre essa classificao, mas essa que estna Lei 8.303, na Lei Rouanet e mais a classificao que o Ministrio adotou,por um tempo, mas que vai mudar, com certeza.

    Mas, para se ter uma ideia, 19% dos recursos foram para artes cnicas e20% para a msica; o patrimnio cultural ficou com 16% desse montante,de 2002 a 2009, pegando uma srie histrica mais presente. Ento, h certoequilbrio, o que no significa, necessariamente, um equilbrio entrenecessidade x financiamento. Esse nmero tem que ser olhado de formabastante crtica porque se olharmos o audiovisual, por exemplo,constataremos que ele consumiu 11%, mas o que consome nas outras reasespecficas revela que teve um consumo maior e, assim, toda a parte de artesvisuais. A rea das artes integradas consumiu 14%, nmero que superior,por exemplo, ao da rea de humanidades. Isso parece um nmero s, mas,sob o ponto de vista das necessidades que so geradas na sociedade, se pegaro quadro inverso, que seria o quadro de demanda da sociedade x capitao,

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  • percebe-se uma desproporcionalidade muito grande, exatamente, por causada produo que desproporcional mesmo, ela no simtrica.

    Quanto ao patrimnio: faamos um corte no patrimnio,especificamente, apesar daquela curva vertiginosa que ns vimos l nocomeo, ele no tem essa curva vertiginosa como acontece de 2005, 2007e 2008. Ento, como se eu tivesse congelado, basicamente, as arrecadaesem incentivo fiscal. Eu estou mostrando aqui Incentivo Fiscal, no estoumostrando o Fundo Nacional de Cultura. Estou mostrando,especificamente, o Incentivo Fiscal que as pessoas costumam chamar demecenato, mas ns no usamos mais essa palavra porque ela tem umaconotao muito inadequada para o perfil da lei. Seria mecenato, se oempresrio realmente colocasse dinheiro dele, como ele no coloca, isso incentivo fiscal.

    Se o avaliador de poltica pblica olha o lado crescente e olha que noh um crescimento de patrimnio, tem que se ver exatamente se opatrimnio est estagnado do ponto de vista de necessidades para ter paradotanto aqui. A minha interpretao pessoal que houve uma acomodaodos agentes de mercado, houve uma acomodao tanto dos financiadores,quanto dos captadores. Ou seja, as pessoas captaram exatamente o quetinham de portflio, e os financiadores estabeleceram um teto em que elesiam entrar no mercado e, como so poucos os grandes players desse negcio,acabou estabilizando, tendo a queda natural de 2008, por causa da crise.

    O que significa patrimnio cultural em termos de segmentos internos?A parte arquitetnica do patrimnio ficou com 63% de todos os recursose, por exemplo, o acervo ficou com 5%. Ao comparar essas duas coisas,convenhamos que, na pior das hipteses, elas so complementares. No dpara pensar muito, no sei, sou um completo leigo em patrimnio, porfavor, me critiquem, mas no d para pensar muito em criar demaisestruturas fsicas, sem a correspondncia de acervo adequada para manteresses espaos. No vejo muito sentido em gastar 63% em arquitetura e 5%em acervo, e eu estou me referindo a uma srie histrica de sete anos. Noestou usando um ano s, um ponto fora da curva. Por exemplo, gastou-seprximo de 0% em cultura afro-brasileira, 3% em artesanato e folclore. Opessoal l do Museu do Folclore, do Rio de Janeiro, deve odiar esse nmeroabsurdo, e em arqueologia foram gastos 3%.

    Vejo que o nvel de desproporo tamanho porque os agentes, refiro-me a todo mundo, ou seja, ns, os proponentes, os tcnicos do Iphan,

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  • todos, se acostumaram a naturalizar essa concentrao. E isso significa nos criar um sistema que deixa tudo passar, como tambm naturalizar areao que o mercado tem diante de cada tipo de projeto. O resultado que os projetos esto ficando cada vez mais parecidos, atingindo as mesmascoisas e privilegiando os mesmos segmentos e isso muito grave. Por isso, necessria uma anlise adequada, daqui para frente e, quando vier o Profice o Fundo, temos de olhar os nmeros e enxergar neles um subsdio, uminsumo importantssimo para a definio, num longo prazo, alm de pensarqual a estratgia de financiamento que o pas quer para a sua rea cultural.

    Ficou meio desproporcional, como vnhamos apontando, a captao derecurso por regio do patrimnio. O Sudeste ficou com 70% dos recursosde patrimnio, enquanto o Centro-Oeste ficou com 3% e o Norte ficoucom 2%. O Norte, pelo menos, ficou com 100% a mais do que na mdia.Mas assim, o Nordeste ficou com 11%. Eu no sei, eu sou nordestino e ficomuito incomodado com esse nmero, porque acho que no 11% dopatrimnio histrico brasileiro que est no Nordeste, muito mais do queisso. Nenhum demrito, obviamente, Sudeste ter dinheiro, mas, no Norte muito pouco, completamente inadequado esse nmero. Ele no sejustifica por motivos histricos, por motivos de patrimnio tombado e,enfim, se voc colocar qualquer base para cruzar esses ndices, no encontrajustificativa plausvel.

    Mas, afirmo novamente que isso se deve porque um modelo que sedeixa dominar pelo laissez faire, laissez passer e isso muito grave. Veja,laissez faire, laissez passer um conceito do sculo XVII e a gente continuaaplicando como se fosse a soluo, nossa pedra filosofal e no . No podeser, o Estado no pode ficar ausente dessa estrutura, o Estado e a sociedadeno podem ficar ausentes de uma discusso adequada sobre esse tipo deperfil de financiamento. No pode. Acho que a minha pequenacontribuio no painel abrir um pouco os nmeros e abrir a discusso deque tipo de financiamento a gente realmente quer, a partir de umplanejamento mais adequado e compartilhado com a sociedade. E acreditoque esses nmeros so meio gritantes porque mostram um quadro dedesproporcionalidade muito grande.

    Se eu abrir os dados do Sudeste, o Rio de Janeiro ficou com 44% e MinasGerais com 17%. Eu no sei se Ouro Preto, Congonhas e todos os stioshistricos, alm da parte de patrimnio material e imaterial, correspondem,de fato, a 17%. A vocs vo dizer: Ah, mas isso no quantificvel. Existe,

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  • no entanto, a margem e existe o centro da mdia, eu posso no saber se estcerto ou se est errado no centro da mdia, mas eu sei que est errado namargem porque no tem sentido 17% ter vindo para Minas Gerais, j queestamos em territrio mineiro. Isso mostra, claramente, que no h nenhumtipo de planejamento para a colocao desses recursos. As regras de partidado Profic so a minha angstia, eu no sou redator final, mas participei demuitas discusses para a criao do Profic. Trata-se de um modelo que foifeito no meio do Governo Collor, e no tenho nada contra o Collor,especificamente, sobre esse assunto. O ministro Srgio Paulo Rouanet foiinteligentssimo, supersagaz e pragmtico e conseguiu dar um drible noMinistrio da Fazenda e na rea econmica, injetando um mecanismo queele antecipa a receita, ele faz ex ante a arrecadao e a declarao fica ex post,o que d um n na cabea do pessoal do Tesouro, mas garante recursos. Enaquele momento, o objetivo era garantir recursos porque a sobrevivnciado setor cultural dependia disso.

    Hoje em dia, aplicar uma regra de partida assim, todo mundo que teatro, artes cnicas, 100%. Ah, t bom. Ento, eu vou trazer umespetculo da Broadway, vou colocar na Zona Sul do Rio de Janeiro a umpreo de R$150,00 e est tudo certo. Isso 100. Agora, fazer educaopatrimonial numa regio, exatamente, e isso tem 30% de partida. Euprejulguei, eu congelei, o que em diplomacia se chama congelar o poder.Eu congelo o poder antecipadamente e digo isso importante, isso no importante. Eu crio, portanto, a lista de prioridades antecipada. Ao fazerisso, acaba-se com o planejamento desse mecanismo, ele no se ajusta mais.Porque as regras esto dadas, os agentes se acomodam e voc cria umcongelamento de prioridades, o que considero muito grave. Jamais umprojeto do BNDES vai ser analisado s porque a siderurgia vai recebercinco bilhes a uma taxa de juros de 4,5. Colocar, a priori, essascondicionantes um erro. Na verdade, h que se analisar o projeto e saberquais so as facetas que aquele projeto tem para aquele tipo de gastopblico que vai ser feito.

    Outra coisa, incentivo fiscal gasto pblico, gasto no corrente, mas gasto tributrio, e tudo o que feito contabilizado na nossa conta deoramento. No pensem que, porque o dinheiro foi dado, aparentemente, porum terceiro, financeiramente, no contabilizado no oramento do Ministrio.Ento, no existe mais, para ns, essa dicotomia entre dinheiro incentivado eno incentivado porque essa questo, oramentariamente, j est resolvida.

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  • Para completar, dos 17% destinados para Minas Gerais, 34% ficaramcom a parte arquitetnica. Vejam que, em Minas Gerais, houve uma maiorproporcionalidade daqueles 67 que ns vimos l atrs, ele cai para 34%; osmuseus ficam com uma parcela muito parecida e a parte de histria tambmfica com uma boa medida. Enfim, os 2% destinados aos acervosmuseolgicos representam muito pouco, mas uma parte dos recursosdestinados aos museus tambm acervo, enfim, tem uma discusso umpouco mais adequada, mas, mesmo assim, tem nveis de extorso queprecisam ser mais bem estudados. Eu no tenho agora, exatamente, umafrmula mgica para ler esse nmero, mas ele revela uma inquietude nospequenos pontos.

    Essas so as perspectivas do Profic, do Programa de Financiamento eIncentivo Cultura. A ideia fora do projeto que haja um planejamentocom planos bianuais, com participao da sociedade e que d sentido erumo ao processo. Sempre levando em conta as simetrias de produocultural, as simetrias econmicas, as simetrias do ndice deDesenvolvimento Humano, em investimentos pretritos, ou seja, reasmuito deprimidas merecem, antecipadamente, mais recursos, depois elasestabilizam.

    O fortalecimento do oramento fundamental e, se continuarmoscentrados somente em mecanismos baseados em fora de mercado, vamosfracassar nesse esforo de transformar o pas que ns estamos a caminho deconstruir. Ento, o oramento tem que ser fortalecido, a Proposta deEmenda Constituio PEC 150 importante, alm do fortalecimentodo Fundo Nacional de Cultura FNC. Se o FNC no for o grande agentede alavancagem, o MinC no ter condies de equilibrar o sistema. Spara se ter uma ideia, do um bilho de reais que ns temos de recursosinvestidos em 2007, foram quase duzentos milhes de recursos do Fundo.Ningum equaliza um bilho com duzentos milhes, isso no existe. Ento,o Fundo tem que ter, pelo menos, a mesma quantidade de recurso que oIncentivo Fiscal tem.

    fundamental ainda a diversificao e a complementaridade de recurso.Os agentes culturais no podem ficar refns de um s mecanismo, tem quehaver vrios tipos de mecanismos para os vrios tipos diferentes de agente.No d para colocar um proponente de patrimnio no mesmo p deigualdade que um proponente de msica popular, no a mesma lgica demercado, no a mesma lgica de negcio, definitivamente, no . Ento,

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  • eles no podem ficar restritos somente a um tipo de mecanismo que muitofocado em um tipo de negcio.

    Outro dado importante o compartilhamento com os Estados emunicpios. O texto j traz, claramente, a participao de recursos da Unio,do Fundo Nacional de Cultura, descentralizando para os fundos estaduaise municipais. por isso que os senhores so gestores municipais e estaduaise/ou agentes da cultura. Pressionem seus municpios para terem seus fundos,porque o Ministrio s vai repassar dinheiro fundo a fundo, no vai fazerconvnio. S, especificamente, para pontuar, vai querer fazer essa parceriajuntando recursos federais, com recursos estaduais e municipais.

    Os fundos setorializados, que sero sete fundos, um deles depatrimnio e memria que vai ser, especificamente, gerido pelo segmentocultural do patrimnio memria, mais o Estado paritrio. A inteno doministro de antecipar a setorializao dos fundos, mesmo antes daaprovao do Profic. Ento, antecipando a setorializao do FundoNacional de Cultura por essas sete reas, antecipa tambm, digamos, a curvade aprendizagem que a sociedade dever ter para a utilizao desses recursos.Isso muito importante porque, claro, vai demorar um tempo at todomundo entender e fazer uso dessas informaes para, posteriormente,trabalhar com elas.

    Quanto gesto paritria dos recursos, estados e sociedade, estamosfalando de governana, financiamento, falando de recursos e, inclusive, deplanejamento. um modelo mais dinmico de alocao dos recursos, deacordo com a evoluo do processo. que, se ns continuarmos assim,como est hoje, claramente, vamos ter um sistema to concentrado e todesigual, que ns mesmos vamos comear a desacreditar da sua funo dessesistema. Ento, acredito que a discusso no Congresso vai ser muito rica.Espero que vocs participem, criem a vontade de promover esse debateporque, de fato, a sobrevivncia de muitas instituies depende dessadiscusso e de muitas iniciativas.

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  • PROGRAMA MECENAS UMAEXPERINCIA INSTITUCIONAL DE

    CAPTAO DE RECURSOS DE

    PESSOAS FS ICAS PARA PROJETOS

    CULTURAIS

    Jos Cludio dos Santos Jnior*

    RESUMOEste trabalho apresenta os principais aspectos observados durante a

    implantao de um programa de captao de recursos para projetosculturais, destinado ao pblico interno de uma instituio, com base na LeiRouanet. O caso em discusso refere-se ao Programa Mecenas, lanado peloExrcito Brasileiro, em parceria com a Fundao Habitacional do Exrcito(FHE), a Fundao Cultural Exrcito Brasileiro (FunCEB) e a FundaoRoberto Trompowsky Leito de Almeida. Durante a exposio daexperincia adquirida h o delineamento de premissas, a indicao decondutas, e a apresentao de fatores crticos de sucesso, elementos essesidentificados durante o gerenciamento do projeto de implantao,buscando estabelecer um direcionamento a ser seguido em aes de naturezasemelhante.

    PALAVRAS-CHAVECultura, Patrimnio, Projetos culturais.

    INTRODUOO Exrcito Brasileiro conduziu, durante o ano de 2009, um projeto de

    implantao de um instrumento que viabilizasse aos seus integrantes adestinao de parte de seu imposto de renda para projetos culturais, nostermos da Lei Rouanet. Dessa iniciativa surgiu o Programa Mecenas,lanado em 17 de novembro de 2009, que passaremos a apresentar nestacomunicao.

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    * Tenente-coronel doExrcito na Diretoria

    do PatrimnioHistrico e Cultural

    do Exrcito, ondeatua no

    gerenciamento doportflio de projetosculturais e na gesto

    da preservao doPatrimnio Cultural.

    Foi o responsvel pelogerenciamento do

    projeto deimplantao do

    Programa Mecenas

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  • Em nossa abordagem trataremos, particularmente, dos fatores crticosde sucesso, que foram identificados, buscando inferir uma tipificaometodolgica, diante dos aspectos observados durante o gerenciamento doprojeto de implantao, que permita estabelecer um direcionamento a serseguido em aes de natureza semelhante.

    Nesse sentido, comeamos por apresentar os objetivos elencados para oprograma, destacando a sua potencialidade como elemento gerador departicipatividade e envolvimento do pblico em assuntos referentes cultura, que vem ao encontro de uma necessidade premente na sociedadeatual.

    A seguir, abordaremos fatores ligados ao pblico-alvo, assinalando aimprescindibilidade de um grupo mobilizvel, a necessidade deidentificao com os projetos contemplados e o relacionamento dessepblico com a marca identitria criada para o programa.Traadas essasconsideraes, discutiremos aspectos estruturais na construo doprograma, tratando da atuao da entidade proponente, da necessidade deum agente que se constitua como um antecipador financeiro e da relevnciae estabilidade no vnculo trabalhista do pblico-alvo.

    Nesse caminho, buscaremos consolidar e enumerar, ao final de nossabreve discusso, alguns ensinamentos referentes ao tema em questo.

    O PROGRAMAO Programa Mecenas constitudo por um portflio de projetos

    culturais de interesse para o Exrcito passveis de receberem doaes pormeio de incentivo fiscal. Disponibiliza aes, ferramentas e opes paraestimular a captao de recursos de pessoas fsicas. Foi concebido tendocomo pblico-alvo os militares da ativa e da reserva, bem como seusfamiliares.

    A definio do que configuramos como projetos culturais de interessepara o Exrcito se d por meio de um processo de aprovao institucional,sejam esses originrios ou no de uma organizao militar. Nesse processo,verifica-se se o projeto est coadunado com os objetivos culturais doExrcito, preestabelecidos sob o direcionamento das diretrizes estratgicasda instituio. Tal aspecto, alm de assegurar essa congruncia entre valoresinstitucionais e projetos, tambm facilitar a aceitao e a identificao dopblico-alvo com as aes culturais a serem incentivadas.

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  • A conduo do programa tem como ferramenta central um sistemainformatizado composto por bancos de dados, por interfacesadministrativas online e por um site [www.mecenas.ensino.eb.br], cominformaes e espaos de cadastro de usurios e de suas respectivas doaes.

    Dessa forma, o interessado em aderir ao programa pode, pela internet,conhecer os projetos a serem apoiados, inserir seus dados, cadastrar suadoao, emitir boletos e outros instrumentos, referentes s opes de repassefinanceiro disponibilizadas.

    Assim, ao mesmo tempo em que o programa atinge um alto ndice deexposio e divulgao, em funo da visibilidade proporcionada pelainternet, tambm gera facilidades operacionais para o usurio e maiorcapacidade de gesto para a equipe responsvel pelo programa.

    O programa tem como objetivos estimular a participao ativa e oenvolvimento da Famlia Militar nosso pblico interno, constitudo pormilitares da ativa, da reserva e seus familiares na preservao do patrimniocultural, material e imaterial, criar uma mentalidade de doao para projetosculturais, desenvolver a cultura no mbito da Fora Terrestre e da FamliaMilitar e preservar o patrimnio histrico e cultural, material e imaterial.

    O primeiro objetivo merece especial destaque, uma vez que o fazercultura tem um poder de transformao e aglutinao em torno de umaidentidade especfica muito mais efetiva do que o recebimento passivo deprodutos advindos de atividades culturais.

    Nesse sentido, estar inserido em uma ao que lhe permite compartilhara responsabilidade pela perpetuao de uma expresso cultural traz ao nossopblico interno o acesso a uma posio de protagonista, que o leva a noapenas fazer, mas tambm, a pensar e a sentir cultura. Esse processo oincitar a discutir suas memrias, seus costumes, suas tradies e suasconvices, embasando seus passos futuros, sob a argamassa da lucidez emrelao s prprias premissas. Os demais objetivos circundam o primeiro, orao complementando, ora constituindo-se em produtos resultantes daquele.

    PBLICO-ALVO

    GRUPO MOBILIZVEL

    Um fator crtico de sucesso, no estabelecimento de um programainstitucional de captao de recursos por adeso de seus integrantes, de

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  • relevncia facilmente constatvel, a existncia de um grupo mobilizvel.O costumeiro envolvimento dessa coletividade em outras atividades emcomum e a preexistncia de vnculos suficientemente estabelecidos paragerar pertencimento favorecem a ocorrncia de um cenrio propcio para oestmulo participao em uma ao de forte vis emocional, como adoao para projetos culturais.

    No caso do Programa Mecenas, nosso grupo mobilizvel constitudopor militares da ativa e da reserva, com essa abrangncia sendo ampliada pormeio dos familiares desses segmentos que, embora em situaes funcionaisdistintas, coadunam dos mesmos valores adquiridos no decorrer dasrespectivas carreiras.

    Entretanto, deve-se dar ateno, aps a implantao, para outrospblicos, inclusive pessoas jurdicas, que possam se sentir atrados pelasaes, ideias e valores difundidos pelo programa, de modo a atender, emfases futuras, a esses segmentos por meio de alteraes na linguagem, nanatureza dos projetos apoiados e, at mesmo, na identidade visual.

    Tal fato verificou-se no pblico do Mecenas, com o afluxo de doadorescivis, sem grau de parentesco com militares do Exrcito, de militares deoutras Foras e de pessoas jurdicas interessadas em colaborar com oprograma. Essa mudana de cenrio nos levou a planejar alteraes no layoute no contedo do site do programa, a criar processos especficos para essesnovos agentes e a inserir novas ideias-fora em nossas aes de marketing,sem, entretanto, descaracterizar o foco prioritrio em nosso pblico interno.

    IDENTIFICAO COM PROJETOS

    A mobilizao do pblico interno, para que destine parte de seu impostodevido para projetos culturais, requer um exaustivo trabalho de informaono sentido de esclarecer sobre a sistemtica e o instrumento legal quepermite tal ao.

    Entretanto, a deciso de participar passa por um forte componenteafetivo, sem o qual a racionalidade carece de fora para cooptar o potencialdoador. Nesse componente, um elemento crucial assegurar-se daidentificao do pblico interno com os projetos que sero inseridos noprograma de captao. Os dois projetos que inauguraram o ProgramaMecenas so destinados a aes culturais em dois estabelecimentos deensino: no Colgio Militar do Rio de Janeiro e na Escola Preparatria deCadetes do Exrcito. A identificao decorrente dessa escolha foi direta e

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  • imediata, diante do alto percentual de militares que estudaram e/ou tiveramseus filhos como alunos, nessas organizaes militares. A possibilidade deestabelecer esse vnculo imediato, afetivo, valorado, entre pblico internoe projeto, deve ser um aspecto a ser elencado na ocasio da seleo dosprojetos a serem beneficiados.

    O PBLICO INTERNO E A MARCA DO PROGRAMA

    Cada grupo humano, com seu respectivo smbolo compartilhado, deve serestimulado com os significados que atribuem s suas relaes com a realidade.

    Assim, deve ser criada para o programa uma marca identitria quesimbolize atributos relacionados ao proposta e transmita valores que,embora intangveis, encontrem ressonncia imediata e conduza a uma literaltomada de posse no sentido de entender que esse programa tambm lhepertence, por parte de nosso integrante.

    A marca Programa Mecenas foi concebida com o apelo de possibilitarao nosso integrante ser um agente ativo na preservao do patrimniomaterial e imaterial, destacando as interligaes entre eles, atuando, dessaforma, como uma sentinela de nossos valores culturais. Tal perspectiva seencontra desde o logotipo em que uma torre de fortaleza mesclada aum capacete e protege o incio da palavra mecenas, at detalhamentosde layout, passando por correlaes com caractersticas inerentes profissomilitar em nossas peas de marketing e nas palestras de divulgao.

    ASPECTOS ESTRUTURAIS

    ENTIDADE PROPONENTE

    Os projetos inseridos no programa tm como proponente a FundaoCultural Exrcito Brasileiro, entidade civil criada em 2000, por iniciativa doempresariado brasileiro, com personalidade jurdica de direito privado, sem finslucrativos, dispondo de autonomia administrativa, financeira e patrimonial.

    A instituio dotada de altssimo prestgio com o pblico interno, e deum histrico de sucesso na conduo de diversos projetos na rea cultural,educacional, de assistncia social, de preservao ambiental e decomunicao social. Tal histrico transmite confiabilidade ao doador, quepassa a ter a certeza do emprego judicioso dos recursos auferidos em prol dosprojetos apoiados.

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  • AGENTE ANTECIPADOR FINANCEIRO

    Um dos fatores crticos de sucesso que mais valor agregou ao programafoi a incluso de um agente antecipador financeiro. Essa instituioencarrega-se de arcar com os custos da doao em nome do usurio,1 quesomente lhe ir devolver esse valor no ano seguinte, a partir do ms de maio,em at oito vezes, apenas com a correo da taxa Selic, a mesma que seriautilizada nos clculos de pagamento ou restituio pela receita federal. Ovalor correspondente ao Imposto sobre Operaes de Crdito IOFtambm custeado pela instituio.

    Essa opo permite que a doao seja realizada sem que haja odesembolso imediato por parte do usurio, que no compromete, dessemodo, seu oramento pessoal at que ocorra a entrega da declarao deajuste de imposto de renda, no ano seguinte doao.

    Cabe ressaltar que para obter uma parceria que atenda a essa modalidade necessria a existncia de uma entidade financeira com alto grau decomprometimento com o programa, uma vez que uma operao em queno se aufere lucro. No caso do Programa Mecenas essa instituio aFundao Habitacional do Exrcito.

    VNCULO TRABALHISTA ESTVEL

    A doao em si no afetada pela falta de um vnculo trabalhista estvelna formatao de um programa como o Mecenas. Entretanto, a utilizaoda antecipao financeira tender a ser mais facilmente viabilizada quandoo doador tiver um status que lhe confira uma perspectiva de continuidadena instituio e, consequentemente, de sua renda. Como ocorre no caso donosso pblico interno.

    CONCLUSOOs resultados alcanados em seu primeiro ms de funcionamento, ainda

    sem a divulgao desejada, geram boas perspectivas futuras ao Mecenas:foram arrecadados R$ 222.124,39. As simulaes realizadas, com apenasuma parte de nosso efetivo, nos remete a um potencial anual de trintamilhes de reais.

    Todavia, mais expressivos do que os valores que tenham sido, ou possamser arrecadados, so alguns outros fenmenos que esto conferindo ummrito especial ao programa. Um desses fenmenos a participao desegmentos do nosso pblico interno, que no teriam como usufruir do

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    1. A instituio pagao boleto bancriogerado pelo doadorno site do programa.

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  • benefcio da deduo do valor doado no imposto de renda, por nodeclararem no modelo completo ou por estarem isentos do pagamento deimposto. a doao propriamente dita, literal e integral, configurando aparticipao pura, plena e abrangente, por incluir integrantes da instituioque, a priori, no seriam pleiteados como participantes do programa, emfuno da impossibilidade de obterem o ressarcimento do valor doado.

    Outra vertente de constatao positiva a integrao ao quadro dedoadores de elementos sem ligao direta com o Exrcito, como civis semgrau de parentesco com nossos integrantes, militares de outras Foras einstituies privadas.

    O gerenciamento do projeto de implantao do Programa Mecenas nosconferiu a possibilidade de adquirirmos convices empiricamentetrabalhadas. Tais assertivas, que passamos a enumerar, podero servir parauma reflexo inicial, mesmo que com resultado discordante, para ainstituio que pretender implantar um programa de caractersticassemelhantes.

    Assim, consolidando as colocaes at aqui emanadas, consideramos quena implantao de um programa institucional de captao de recursos depessoas fsicas do pblico interno para projetos culturais, devam ser tomadasaes no sentido de:

    estabelecer um processo de anlise dos projetos que seroincludos no programa, baseado nos valores da instituio;

    planejar a implantao do programa, tendo como premissa autilizao de recursos de tecnologia da informao comoferramentas de gesto e marketing;

    ter como principal meta, para um programa de captao derecursos do pblico interno de uma instituio, promover oenvolvimento e a participao de seus integrantes;

    verificar se o seu pblico interno configura-se como um grupomobilizvel, com a preexistncia de vnculos e sentimento depertencimento;

    monitorar, depois da implantao, a incidncia de outrospblicos e inseri-los no contexto do programa;

    inserir projetos no programa com os quais o pblico internopossa se identificar e estabelecer vnculos afetivos;

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  • criar uma marca que estimule identificao e tomada de possepelo pblico interno;

    eleger como parceira uma entidade proponente que transmitaconfiabilidade ao pblico interno;

    estabelecer parceria com uma instituio financeira que atuecomo antecipador financeiro. Esta modalidade requer umapressuposta estabilidade no vnculo empregatcio.

    Outros elementos podem ser acrescidos ou derivados dos acimadiscriminados, sendo esse resumo apenas um recorte das discusses levadasa cabo em cada fase da implantao do programa, as quais necessitariam demelhor detalhamento em um trabalho de maior extenso.

    O Programa Mecenas um produto ainda inacabado. Emboratotalmente funcional, a experincia adquirida em sua implantao e osresultados e interaes iniciais nos permitiram vislumbrar novaspossibilidades de atuao, particularmente em relao ao seu emprego comoelemento de atrao de nossos integrantes para a discusso ecompartilhamento dos significados culturais, inerentes ao nosso grupo.

    Assim como os projetos mudaro em sua natureza e destinao, medidaque forem sendo executados, o programa tambm sofrer mutaesimpulsionadas por seus resultados e influncias. Fazer com que nossointegrante seja o protagonista dessas transformaes o nosso estimulante,e j iniciado, desafio.

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  • BNDES, A ECONOMIA DA CULTURAE O APOIO AO PATRIMNIO

    HISTRICO SOB A TICA DE

    DESENVOLVIMENTO INTEGRADO

    Luciane Gorgulho*

    RESUMOO BNDES um dos agentes mais atuantes na preservao do

    patrimnio histrico e arqueolgico brasileiro. Nos ltimos 13 anos, oBanco investiu R$ 155 milhes em projetos que revitalizaram cerca de 160monumentos tombados pelo Instituto do Patrimnio Histrico e ArtsticoNacional Iphan em todo o pas, num investimento total de R$ 179milhes. A ao do BNDES busca associar a preservao do patrimniohistrico e o desenvolvimento local, motivo pelo qual a abrangncia dosprojetos pode contemplar o entorno urbano do patrimnio pblico. OBNDES entende que preciso restituir aos monumentos sua funo sociale reintegr-los na vida cotidiana das cidades, para que sua revitalizao sejapermanente.

    PALAVRAS-CHAVEBNDES, Patrimnio histrico, Desenvolvimento integrado.

    O BNDESO Banco Nacional de Desenvolvimento Econmico e Social BNDES

    o principal brao de financiamento ao desenvolvimento do Governo. um banco de propriedade integral da Unio Brasileira, fundado na dcadade 1950 para ser o principal financiador de toda a industrializao no Brasil.Toda a implantao do parque industrial brasileiro assim como aimplementao das polticas industrial, de infraestrutura, de comrcioexterior e, mais recentemente, de inovao e outros segmentos s puderamocorrer pela existncia de um banco financiador como o BNDES. Ento,hoje ele a principal fonte de financiamento, de crdito de longo prazo, na

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    * Chefe deDepartamento de

    Cultura,Entretenimento e

    Turismo do BNDES

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  • economia brasileira, at porque, os nossos bancos privados no conseguemprover essa fonte de financiamento de longo prazo. O papel do BNDES setorna, ento, muito importante no cenrio brasileiro.

    O foco de financiamento do BNDES foi sempre o investimentoprodutivo, que antigamente se focava mais num investimento industrial,um parque industrial tpico e, mais recentemente, isso tem enriquecidocom a entrada em outros setores menos afeitos ao lado tradicional daeconomia.

    Somos uma estrutura enxuta, concentrada; no somos um banco comagncias como o Banco do Brasil ou a Caixa Econmica Federal; temos umescritrio principal no Rio de Janeiro, que era a antiga sede, antes damudana da capital para Braslia, com dois mil e quinhentos funcionriospara atender a todo o Pas. Temos, assim, uma ao muito direcionada aprojetos de maior porte. No temos uma ao pulverizada e, para isso,contamos com uma rede de agentes financeiros parceiros, que repassam osnossos recursos.

    No caso do setor da cultura, o BNDES funciona de uma forma bastantediferenciada em seu sistema de apoio. Sem dvida, como banco dedesenvolvimento do Governo, temos de acreditar que mecanismos como aLei Rouanet, que deixam a deciso nas mos do mercado, o laisser-faire nofunciona, caso contrrio, bastariam os bancos e agentes privados parafinanciar todo o sistema produtivo brasileiro. Ento, acreditamos que onosso papel o de ter polticas e utilizar os recursos para financiar essaspolticas, em qualquer rea, inclusive, na cultura.

    Como mostraremos, nossa ao comeou com uma tica decomunicao, inicialmente dentro de um departamento de comunicaodo banco, como a maioria dos agentes que lidam com as leis de incentivo,mas h dois anos houve uma migrao para a estrutura operacional definanciamento. Ento, hoje ns olhamos a cultura como um setor a serdesenvolvido, no uma ao de mecenas, no uma ao de comunicao,de retorno de imagem, um setor a ser priorizado tanto quanto o setor desiderurgia, de mquinas e equipamentos e os outros setores da economia.

    O BNDES tem como caracterstica histrica a permanente adaptao aocontexto histrico e s prioridades marcadas por esse contexto. Recebeudiversas misses e sempre teve papel central na estruturao da indstriabrasileira. Assim foi com a implantao das indstrias de base, de bens de

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  • consumo e de bens de capital, nas dcadas de 1960 e 1970, com a energiae a agricultura, na dcada de 1980, e com a privatizao e a promoo dasexportaes, na dcada de 1990.

    Agora, o BNDES incorpora novas misses, adentrando um terrenodesconhecido. E espera-se que, mais uma vez, sua ao seja determinantepara a estruturao da economia da cultura e o desenvolvimento dossegmentos culturais como um todo.

    A ECONOMIA DA CULTURA: DO PATROCNIO AODESENVOLVIMENTO

    Depois de dez anos de apoio cultura sob uma tica predominante depatrocnio, especialmente por fora da utilizao das leis de incentivo cultura, o BNDES reformulou sua viso, fez um diagnstico do setor ecriou instrumentos especficos e criativos de apoio financeiro, de forma asolucionar gargalos especficos da indstria cultural e contribuir ainda paraa estruturao e profissionalizao da gesto no setor.

    Desde 1995, o Banco apoia a cultura, com um histrico relevante deatuao no restauro de patrimnio histrico arquitetnico, na preservaode acervos e no apoio produo cinematogrfica. Ao longo dos primeirosdez anos de atuao, esse apoio se deu primordialmente sob uma tica depatrocnio, utilizando-se, basicamente, dos mecanismos de deduo fiscalpara esses setores (Lei Rouanet e Lei do Audiovisual).

    Em 2006, o BNDES tomou uma deciso estratgica: incorporar aeconomia da cultura estrutura operacional da Instituio, tratando o setorcomo mais um dos setores econmicos apoiados pelo Banco e criandooutros instrumentos financeiros que dessem conta de suas necessidadesespecficas.

    O BNDES, como agente de desenvolvimento, entendeu que faz parte desua misso ajudar a criar um ambiente favorvel ao desenvolvimento dasempresas do setor, para que o mercado possa ampliar-se, ganhar eficincia,profissionalizar-se e realizar o seu potencial, de maneira sustentvel, comganhos sociais em termos de gerao de emprego, renda e incluso aoconsumo de bens culturais.

    Para isso, o Banco se disps a atuar oferecendo um leque diversificadode mecanismos de financiamento, que incluem no apenas a aplicao de

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  • recursos no reembolsveis, como tambm financiamentos e instrumentosde renda varivel. Esses mecanismos se complementam, possibilitando umaatuao mais abrangente e mais eficiente do BNDES no setor cultural.

    O setor priorizado, inicialmente, foi o do audiovisual. O desafio foigrande, por tratar-se de um setor pouco estruturado do ponto de vistaempresarial e com pouca tradio de relacionamento bancrio. Passo apasso, foram estruturadas solues criativas para atender ao setor, fazendo-se um uso articulado de diferentes instrumentos financeiros noreembolsveis, reembolsveis e de renda varivel , transformando oBNDES, em poucos anos, numa fonte de recursos importante para a cadeiaprodutiva do audiovisual.

    Alm dos instrumentos de incentivo fiscal, criamos, em 2006, uma linhade financiamento pioneiro, um emprstimo; mas um emprstimo ao setorcultural que no contemplado, hoje, pelo setor financeiro privado. Muitopor conta das prprias leis de incentivo, que geraram certa distoro, certadependncia excessiva dos setores culturais. Por outro lado, setores que antesestavam acostumados a se financiar no setor bancrio, ter seu capital de giroetc. deixaram de utilizar esse instrumento e pararam de perseguir o lucro,o resultado. Quer dizer, a produo em si, a captao na Lei Rouanet, aproduo do seu espetculo, do seu produto, virou um meio em si,desvinculado de resultados. Ento, com isso, obviamente, os resultadosfinanceiros dessas empresas ficaram ruins e os bancos no os financiammais. Criou-se, a partir da, um ciclo muito ruim, o qual se espera que, coma reforma da Lei Rouanet, venha a melhorar.

    O BNDES se colocou, ento, no papel de fornecedor do crdito quetinha sumido para o setor cultural. Dessa forma, pioneiramente, criamosuma linha de crdito formatada, no incio para o setor audiovisual. Fizemosdiversas operaes, no valor total de R$ 70 milhes, financiando, porexemplo, salas de cinema, produo de filmes, de estdios, de sries deanimao.

    Alm disso, atuamos no investimento em fundos, pois o BNDES temuma tradio de apoiar, principalmente, as pequenas e mdias empresas,atravs de fundos de investimentos, chamado fundo de capital de risco. Eno setor audiovisual existe a regulamentao dos Funcines, e passamos aatuar com isso tambm.

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  • Segue abaixo um quadro resumo com os valores desembolsados nosdiversos segmentos apoiados:

    A economia da cultura, porm, no se resume cadeia produtiva doaudiovisual. O desafio passou a ser a ampliao da atuao do BNDES paranovos setores. Os diversos conceitos de economia da cultura e de indstriascriativas foram estudados, comprovando-se a sua dinmica econmica esuas perspectivas de crescimento.

    Aprovamos, recentemente, uma ampliao do programa de linhas definanciamento, antes existentes somente para o setor audiovisual, para osdemais setores da economia. Hoje, podemos financiar, tambm, teatros,casa de espetculos, editoras, livrarias, jogos eletrnicos. Enfim, todos ossetores que, de alguma forma, estejam inseridos no conceito da economiada cultura e que tenham condies de tomar emprstimos podem passar aser financiados pelo BNDES. Temos linhas de financiamento para todosos setores.

    No que tange atuao via fundos de investimento, assim que foraprovado o novo projeto de lei que reativa os Ficarts, que so fundos deinvestimentos para os setores da economia da cultura como um todo,pretendemos investir neles tambm.

    Por fim, temos recursos prprios no reembolsveis. Hoje os recursosincentivados j representam uma parcela minoritria na atuao noreembolsvel do BNDES. Somando as duas leis, est na faixa de R$ 35, R$38 milhes, baseado nos lucros dos ltimos anos. Temos recursos prpriosno reembolsveis j, este ano, aprovados em R$ 56 milhes. Ento, nosrecursos no reembolsveis, o BNDES tem um volume de aplicaes bemmaiores que a prpria renncia fiscal. E ainda temos as linhas definanciamento que recentemente anunciamos, de forma que, para os

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  • prximos trs anos, teremos uma ao global bastante significativa somandotodas essas linhas de apoio.

    Assim, o novo Procult Programa BNDES para o Desenvolvimento daEconomia da Cultura conta com uma dotao oramentria de R$ 1bilho e tem vigncia de 2009 a 2012, quando ser realizada nova avaliaode seus resultados. Dispe de recursos diferenciados, aplicveis de formasdistintas: isolada ou complementarmente, e que se traduzem em trssubprogramas:

    Procult Financiamento: o objetivo estender aos setores editoriais, dejogos eletrnicos, fonogrficos e de espetculos ao vivo, a experincia bem-sucedida da primeira fase do Procult na cadeia produtiva do audiovisual.

    Procult Renda Varivel: as operaes de capital de risco, comparticipao acionria do BNDES em pequenas e mdias empresas,permanecem como opo de instrumento de apoio ao desenvolvimento dascadeias produtivas da economia da cultura. Alm disso, o BNDES temprocurado atuar como cotista e alavancador de fundos de investimentovoltados s atividades culturais, como os Funcines e os Ficarts. Trata-se deuma modalidade de investimento extremamente saudvel e eficaz paramelhor desenvolver a economia da cultura, reduzir sua dependncia doincentivo fiscal e criar condies para torn-la, como importante segmentoeconmico, cada vez mais autossustentvel.

    Procult No Reembolsvel: o Procult conta com os recursos passveis dededuo fiscal, conforme disposto nas Leis Rouanet e do Audiovisual, ecom recursos prprios provenientes do Fundo Cultural do BNDES, criadoem 2008. A aplicao do Procult No Reembolsvel no obedece lgicado patrocnio, mas da aplicao de recursos que viabilizem a estruturaoe organizao dos segmentos apoiados, com externalidades positivas paratoda a organizao social e produtiva local.

    O APOIO AO PATRIMNIO HISTRICONos ltimos 13 anos, o Banco investiu R$ 155 milhes em projetos que

    revitalizaram cerca de 160 monumentos tombados pelo Instituto doPatrimnio Histrico e Artstico Nacional Iphan em todo o Pas, entremuseus, igrejas, casas, fortes, teatros, universidades e centros histricos.

    Em virtude da, tambm delicada, situao em que se encontra a guardado acervo bibliogrfico, museolgico e arquivstico nacional e da neces-

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  • sidade de estancar seu processo de deteriorao, a partir de 2004, esses benspassaram a fazer parte do patrimnio pblico passvel de apoio por parte doBNDES. Como resultado, j foram apoiados 123 projetos, com aplicaototal de R$ 24 milhes, investidos no s na preservao e na seguranados acervos, mas tambm na restaurao e na modernizao dos museus,arquivos e bibliotecas e na melhoria das condies de acesso e deatendimento ao pblico. Acrescidos os recursos aprovados para arecuperao e preservao de acervos, o apoio ao patrimnio histrico chegaa R$ 179 milhes.

    Ns s apoiamos edificaes tombadas pelo Iphan. Os projetos tm queser enquadrados na Lei Rouanet, aprovados pelo Ministrio da Cultura MinC, e a propriedade dos imveis tem de ser pblica ou de entidades semfins lucrativos.

    Priorizamos aqueles que tm um alto significado cultural, que j tenhamprojetos sociais ou culturais e que tenham um plano de sustentabilidade, demanuteno, bem formulado. Quer dizer, essa uma preocupao grande,a de, no s apoiar o restauro, mas de acompanhar como aquelemonumento vai sobreviver depois desse apoio para evitar que, daqui a trsanos, venha novamente solicitar novo apoio para fazer novo restauro semque a realidade de preservao tenha sido alterada.

    Ao contrrio da concentrao geral da Lei Rouanet, no BNDES, comosempre, buscamos essa tica do desenvolvimento, temos um nmero deapoios no Nordeste quase igual ao do Sudeste. Quarenta e cinco por centodos projetos foram apoiados no Nordeste. Como era de se esperar, osEstados que tm o maior nmero de monumentos apoiados so aquelesonde se teve uma maior riqueza histrica de colonizao, so os Estadosmais antigos em termo de colonizao e isso no tem muito como serdiferente. Dificilmente, num setor de patrimnio, tem-se uma distribuio,por exemplo, na regio Norte, na regio Centro-Oeste e mesmo na regioSul, como nas reas de litoral. Na medida do possvel, tivemos que buscaresse desenvolvimento, mas ele tem uma limitao natural.

    Alm dos recursos de deduo fiscal vinculados Lei Rouanet, maisrecentemente passaram a ser aplicados recursos prprios, igualmente noreembolsveis, oriundos do Fundo Cultural do BNDES. Assim, a dotaooramentria anual do BNDES para a preservao do patrimnio culturalpassou a ser de R$ 45 milhes e a de acervos, R$ 8 milhes. O aumento do

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  • oramento permitir ampliar o escopo dos projetos, de modo a estimular efacilitar o acesso do pblico ao bem restaurado, ou seja, o seu efetivo uso pelasociedade. Para tanto, os projetos podero abarcar aes integradas ao turismoe/ou de revitalizao urbana do entorno do bem tombado, ou ainda de gesto,como a promoo de visitas guiadas, de atividades culturais no local, ou deaes estruturantes para o setor, como a formao de mo de obra.

    Na busca do aperfeioamento de seu apoio ao patrimnio cultural, oBNDES ter, como um de seus principais desafios, a participao nosprojetos do chamado PAC das Cidades Histricas. Em consonncia com oIphan e o Ministrio da Cultura, o objetivo ser melhorar a infraestruturaurbana, promovendo a requalificao urbanstica e o turismo cultural emcerca de 100 cidades histricas. Com isso, os monumentos restauradosserviriam como suporte ao desenvolvimento desses municpios.

    Ou seja, tambm em relao ao patrimnio histrico, houve umaevoluo dessa tica de como comeou o apoio do banco ao setor e comoele se d hoje, desde seu incio em 1997. Partindo de uma tica inicial depatrocnio, de mecenas, de apoios a monumentos isolados, em 2005 demosincio a uma reflexo sobre a necessidade de uma tica mais dedesenvolvimento, e a criamos um programa chamado Cidade de polo,que teve duas rodadas, mas chegamos concluso de que no era o melhormodelo pra ser aplicado. Optou-se, naquele modelo, por eleger trs cidadesa cada binio, mas isso por si s no se mostrou suficiente para gerar umaao mais integrada. A expectativa de que se conseguisse envolver maisfortemente as Prefeituras desses municpios no ocorreu da forma que eraprevista. Por isso, agora estamos reformulando essa lgica.

    E neste momento, queremos aprofundar essa tica de apoiar opatrimnio histrico, uma tica de desenvolvimento integrado, com a boanovidade de que teremos mais recursos. Recursos prprios, de valor aindamaior, para apoiar esse segmento, atravs da parceria com o Iphan no PACdas Cidades Histricas. Estamos aguardando os planos de ao dosmunicpios para que possamos analisar em conjunto com o Iphan e, assim,priorizar melhor a nossa ao, isto , ao invs de apoiar um monumentoisolado, apoiaremos o Plano de Ao inteiro de um municpio.

    Alm disso, temos a possibilidade de associar as linhas de financiamentodo BNDES para as Prefeituras e mesmo para os Estados para osinvestimentos complementares.

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  • As duas linhas que o BNDES tem para Estados e municpios ainda sopouco conhecidas, algumas vezes elas sofrem com a questo docontingenciamento de recursos, o que impede que se tomem essa dvidapor parte dos Estados e municpios, mas isso algo que ns podemos,juntos, tentar mudar.

    O BNDES PMAT um programa voltado s Prefeituras. Comeoucomo um programa de financiamento, apenas para modernizar aadministrao tributria, melhorar a gesto de arrecadao e melhorar aarrecadao dos municpios. Mas ele se ampliou e hoje tem um foco nagesto dos setores sociais bsicos, como sade, educao e, inclusive, cultura. possvel, ento, se tomar um financiamento para melhoria de gesto,treinamento, capacitao, quaisquer tipos de aes que as Prefeiturasqueiram para se preparar melhor para essa parte de gesto cultural.

    Outra linha de financiamento que o BNDES tem se chama PMI Projetos Multissetoriais Integrados. Esse sim o financiamento que cairiacomo uma luva para a ao de restauro de patrimnio. Quer dizer, ocenrio ideal seria o BNDES oferecer um apoio no reembolsvel para orestauro de um patrimnio e a Prefeitura poder tomar um financiamentopara fazer todo o resto, no s realizar uma ao estanque de restauro, maspoder fazer a urbanizao, a implantao de infraestru-tura bsica, a questode populaes em reas de risco, a revitalizao das reas degradadas, asaes sociais de educao, sade, lazer, saneamento. O BNDES dispe dessefinanciamento e isso que a gente queria tentar utilizar de uma forma maisintegrada.

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  • A partir de agora vamos priorizar o apoio do patrimnio histrico comessa tica do desenvolvimento integrado. O foco no restauro e napreservao dos monumentos tombados, preocupando-se com a questoda revitalizao, o uso que vai ser dado, a sustentabilidade, no vai ser umaao estanque, vai ser uma ao que possa ser permanente.

    A revitalizao de centros histricos ser uma prioridade, se omonumento estiver em uma rea que est sendo objeto de um programa derevitalizao de centros ou de portos, que esteja dentro de um programamais amplo em curso, ele ter prioridade. E principalmente se envolver aquesto do desenvolvimento urbano, integrado em todos os seus aspectos:econmico, social e, tambm, de infraestrutura e com a dinamizao doturismo, que outra prioridade do BNDES.

    E, para isso, ns contamos com a parceria do Iphan, estamos aguardandoansiosamente o resultado desse esforo dos Planos de Ao, paraconhecermos essas demandas e podermos, ento, ter uma ao maisplanejada, com maior foco, de forma a ter resultados mais efetivos na nossalgica, na nossa forma usual de trabalhar, como banco de desenvolvimentoque somos.

    CONSIDERAES FINAISDepois de dez anos de apoio cultura sob uma tica predominante de

    patrocnio, o BNDES reformulou sua viso e criou instrumentos especficose criativos de apoio financeiro, de forma a solucionar gargalos peculiares daindstria cultural e contribuir, ainda, para a estruturao e a profissio-nalizao da gesto.

    A histria do BNDES na economia da cultura , acima de tudo, maisum exemplo de sua capacidade de superao de obstculos e lacunas coma misso de promover o desenvolvimento do Pas. Criado em 1952 com oobjetivo de financiar a construo da infraestrutura do Pas, o Banco soubereconhecer, a cada etapa do desenvolvimento brasileiro, suas novasnecessidades e criar mecanismos e formas de atend-las. Foi assim com osbens de consumo, com os bens de capital, com a substituio deimportaes, com a promoo da integrao competitiva da economiabrasileira no cenrio internacional, com a desestatizao e com tantos outrosdesafios e oportunidades.

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  • Do seu incio e trajetria no mundo concreto e tangvel dashidroeltricas, fbricas, hospitais, produtos agrcolas, aeronaves etc., oBNDES alcana o universo intangvel da inovao, da tecnologia, da culturae dos valores socioambientais, sempre em busca de sua meta permanente:gerar desenvolvimento sustentvel e bem-estar para toda a sociedadebrasileira. E a economia da cultura representa isso: no apenassustentabilidade e incluso social, mas tambm gerao de renda, trabalho,emprego, ou seja, um vetor de desenvolvimento sustentvel, adequado aosatuais requisitos sociais, econmicos, regionais e ambientais do Pas.

    Na busca do aperfeioamento de seu apoio ao patrimnio cultural, oBNDES ter como um de seus principais desafios a participao nosprojetos do chamado PAC das Cidades Histricas, em parceria com o Iphane o Ministrio da Cultura. Com isso, os monumentos restaurados serviriamcomo suporte ao desenvolvimento desses municpios, em linha com amisso do BNDES como banco de desenvolvimento.

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  • IMPOSTO SOBRE CIRCULAO DEMERCADORIAS E PRESTAO DESERVIOS (ICMS) PATRIMNIOCULTURAL EM MINAS GERAIS

    Carlos Henrique Rangel*

    RESUMOO texto traz a histria do ICMS Patrimnio Cultural, uma iniciativa do

    governo de Minas Gerais que, em 1995, criou a Lei no 12.040, apelidadade Lei Robin Hood, destinando repasses do ICMS cultural para osmunicpios que investissem em prticas de preservao. Hoje, o ICMScultural envolve 695 municpios que comprovam, anualmente, prticas depreservao de seu patrimnio. O sistema tornou-se um modelo dedescentralizao na gesto do patrimnio cultural.

    PALAVRAS-CHAVEICMS Patrimnio Cultural, Descentralizao, Municpios.

    Sou historiador de formao, trabalho no Instituto Estadual doPatrimnio Histrico e Artstico de Minas Gerais que tem as mesmasfunes do Iphan, em nvel estadual. Farei 26 anos de patrimnio culturale o ICMS surgiu quando era superintendente de proteo e o acompanhodesde ento.

    O que o ICMS? O Instituto Estadual do Patrimnio Histrico eArtstico existe desde 1971, depois do encontro de Braslia que definiu queos estados deveriam criar os seus rgos estaduais de proteo aopatrimnio. O Instituto Estadual do Patrimnio Histrico e Artstico deMinas Gerais Iepha cuidou desse patrimnio de 1971 para c e percebeu,de cara, que era difcil; tinha de ter algum mecanismo de descentralizaoda proteo do patrimnio cultural. E comeou com uma cartilha, fizemos

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    * Diretor dePromoo do Iepha

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  • um manual chamado Caderno tcnico n1 com diretrizes para a proteodo patrimnio cultural. Mas no conseguamos fazer com que osmunicpios encampassem a ideia. No havia motivao, que s vai surgir apartir da Constituio de 1988, que definia que o imposto de circulao demercadorias e servio o ICMS teria de ser redistribudo aos municpiosde outra forma, com outros critrios. Vinte e cinco por cento dele teriamde ser repassados aos municpios com outras formas e cada Estado deveriacriar esses mecanismos de redistribuio de ICMS para os municpios.

    O Estado de Minas Gerais fez isso em dezembro de 1995, atravs da Leino12.040 que foi logo apelidada de Lei Robin Hood que definiu claramentevrios critrios para a Agricultura, Sade, Meio Ambiente e PatrimnioCultural. O que quer dizer isso? Os municpios que investissem nessas reasreceberiam repasses do ICMS cultural. Coube a cada instituio do Estadocuidar desses critrios. No caso do patrimnio cultural, coube ao Iepha.Existe uma tabela de pontuao para as aes desenvolvidas que serdetalhada no decorrer desta palestra.

    A Lei no12.040 foi alterada em 2000, pela Lei no13.203. Em janeiro de2009 foi novamente modificada pela Lei no 18.030, que estabeleceu comoum dos critrios para repasse de parte do ICMS a preservao e o cuidadocom o patrimnio cultural. Servem de base para pontuao com vistas aesse repasse de recursos, alguns itens como a criao de leis municipais depatrimnio cultural, programas de educao patrimonial, criao deconselho municipal do patrimnio cultural, quantidade de bens culturaistombados, elaborao de inventrio de proteo de acervos; e investimentosna preservao de bens e manifestaes culturais.

    O ICMS Patrimnio Cultural vale 1% desses 25%. O municpio, ento,tem de se preparar; deve criar um departamento, ou rgo afim, em suaestrutura para cuidar de patrimnio cultural. Atualmente, o municpio deveapresentar um relatrio de atividades desse departamento, alm do Relatrioda Jornada Mineira do Patrimnio Cultural que um item novo.

    Este foi o primeiro ano da jornada, so eventos culturais que acontecemem setembro/outubro deveriam acontecer em setembro, mas ampliamospara outubro quando tivemos a adeso de 500 municpios, e isso pontuano ICMS.

    O municpio tem que apresentar para o Iepha a Lei de Proteo doPatrimnio Cultural. Fornecemos o modelo de tudo. A nossa lei j cria o

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  • Conselho Municipal que tem de apresentar para o Iepha o seu regimentointerno. O Conselho tem de ser paritrio, representativo da comunidade.Recomendamos que sejam representantes de entidades e no representantesde amigos do prefeito; devem ser representantes de entidades comouniversidades, bairros, associaes comerciais ou ONGs.

    O municpio deve encaminhar, anualmente, o decreto de nomeaodesses conselheiros, documentos de posse e as atas das reunies. At esteano sua periodicidade era bimestral e, hoje, estamos aceitando que sejatrimestral, de forma que devem apresentar trs atas por semestre e,consequentemente, seis atas por ano. Alm da comprovao da publicidadedessas atas.

    O Departamento de Patrimnio Cultural tem de informar o nome doseu gestor, no importa se uma Secretaria de Cultura, Esporte, Lazer eTurismo, porque sabemos das dificuldades dos municpios. Se ele defineque ser uma Secretaria de Esporte, Lazer e Turismo a responsvel tambmpelo patrimnio cultural, timo. Quem o gestor e quem o tcnicoresponsvel? No mnimo, tem de existir o chefe do setor e mais umassistente. Pede-se tambm que o relatrio de atividades desseDepartamento seja includo, nas atividades da Prefeitura.

    Estamos pontuando, separadamente, as aes de manuteno econservao de museus, de bibliotecas e arquivos pblicos ou centros dememria, e tambm os investimentos na equipe tcnica. Se a equipe fezcursos de preparao de patrimnio cultural, se participou de um eventocomo esse, o relatrio de atividades do departamento tambm pontuado.

    O municpio que participou da Jornada Mineira tem de fazer umaadeso, preencher o formulrio e cumprir aquela adeso, caso concordemoscom a atividade. claro que apareceram coisas do tipo Folia de Reis emsetembro; isso no pode ser aceito. As festas devem acontecer na poca certae no lugar certo. Os eventos precisam manter a coerncia e o respeito s suatradio; no podem ser oportunistas.

    A data de entrega do relatrio da Jornada Mineira do Patrimnio pelomunicpio 15 de janeiro, conforme modelo do Iepha, isso vale um ponto;o Conselho em funcionamento vale dois pontos; o funcionamento do setordo patrimnio e seu respectivo relatrio valem mais um ponto.

    O municpio deve elaborar o inventrio do seu patrimnio cultural. necessrio planej-lo e explicitar como ser feita a varredura cultural

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  • dentro de seus limites, sem excluir nenhuma parte do seu territrio ondetem gente, tem de ser feito inventrio. Onde tem gente tem cultura, ondetem gente tem produo cultural, tem patrimnio. O plano encaminhado ao Iepha para avaliao e acompanhamento. precisotambm caracterizar as reas e apresentar o cronograma das atividades. OIepha orienta, manda rever o cronograma. H municpio prevendo quevai gastar 70 anos para fazer o inventrio. E a nossa pergunta : Mas seu neto que vai trazer o inventrio? No possvel, d um jeito de cortarao menos metade disso. Ou seja, preciso planejar e fazer; esse plano deinventrio tambm foi pontuado, de forma que o municpio deve nosencaminhar o inventrio, anualmente, fornecemos todos os modelos defichas para bens mveis e imveis, arte aplicada, conjuntos, ncleos. Eisso vale dois pontos para os municpios.

    Quanto aos dossis de tombamento, o municpio deve tombar eapresentar os mecanismos de proteo dos bens culturais materiais,conforme metodologia do Iepha. Esses dossis so pontuados de acordocom cada uma das quatro categorias: grupos histricos, conjuntoarquitetnico paisagstico, bens imveis e bens mveis. Eles valem 30% dospontos sobre esses bens. Por exemplo, um conjunto arquitetnico de maisde dois hectares vale dois pontos, ento o municpio ganha 30% aoapresentar o dossi. Para ganhar os outros 70% ele deve apresentar orelatrio de atividades, de investimentos da Prefeitura em bens culturais eatividades culturais.

    Seguindo esse modelo, a partir do momento que foi aprovado otombamento, o municpio deve, anualmente, apresentar os laudos sobre oestado de conservao daquele bem. Dois anos consecutivos de pssimoestado, o municpio perde os pontos referentes quele bem. Existe ainda aquesto da complementao, por exemplo: o dossi teve alguns problemas,at seis itens no aprovados, pontuamos com ressalva e pedimos paracomplementar os itens. So vrios itens, evoluo histrica do municpio,histrico do bem cultural, descrio, delimitao da rea tombada,delimitao da rea de entorno, diretrizes de interveno do bem cultural,diretrizes no entorno. So vrios critrios tcnicos, e toda a parte jurdica,de processo administrativo do tombamento edificao, impugnao, asatas aprovando o tombamento provisrio, tombamento definitivo. Tudoisso pedido. Acima de sete a dez itens, no entanto, ele no pontuado, mastem de complementar aqueles itens. E mais de dez itens no aprovados, preciso apresentar o dossi novamente.

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  • O relatrio de investimentos est dividido em dois itens: investimentoem atividades culturais e investimento em bens culturais. No caso debens culturais s pode apresentar relatrio de investimento quem tembem tombado em nvel estadual, federal ou municipal, que pontuammais. O municpio no precisa apresentar laudos tombados pelo Iepha epelo Iphan, como o caso de So Joo Del Rei e Mariana cidadestombadas pelo Instituto. No apresenta nada sobre esses bens, mas jganha e tem que apresentar o relatrio de investimento. S tem deapresentar quem tem bens tombados ou registrados como patrimnioimaterial. O relatrio de atividades tambm tem que comprovar algunsinvestimentos atravs de empenhos e notas fiscais. Ele est vinculado aoFundo Municipal de Patrimnio Cultural, uma exigncia institudarecentemente pelo ICMS cultural.

    Educao patrimonial vale tambm dois pontos. O municpio tem defazer um projeto de educao patrimonial; esse projeto vai pontuar ou no;cumprindo o projeto e apresentando o relatrio de atividades no anoseguinte, vale dois pontos.

    Outro item novo o registro. A partir de janeiro de 2010, os municpiosvo apresentar registro de patrimnio imaterial. S pode registrar omunicpio que tem lei de registro. Sabemos que tanto o Decreto-Lei no

    25/1937 como a maioria das leis municipais no prevem o registro. Entoelas precisam ser atualizadas ou criar uma lei de registro de patrimnioimaterial. O municpio vai apresentar um dossi conforme metodologia doIepha de registro do patrimnio imaterial. Ele vai ganhar 30% e para ganharos outros 70% ele deve apresentar os relatrios.

    O Fundo equivale a trs pontos, divididos da seguinte forma:

    0,50 pontos quando da instituio da lei do Fundo Municipal dePatrimnio Cultural e da publicao do seu decreto de regulamentao.Nos anos posteriores o municpio deve informar, anualmente, o nmerodessa lei e apresentar um programa de investimentos, para ter direito aos2,5 pontos complementares.

    Esse Fundo est vinculado ao valor que o municpio recebeu de ICMSno ano anterior. O valor de referncia 50% do que foi arrecadado. Porexemplo: em 15 de janeiro deve ser apresentado o programa deinvestimento, tendo como referncia a arrecadao de ICMS no exerccioanterior. o valor que ser aplicado durante o ano subsequente, conforme

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  • deciso do Conselho Municipal do Patrimnio Cultural, que define paraquem sero repassados e quais os critrios para o repasse do recurso. A atado Conselho aprovando esse programa vale um ponto.

    Em 2010 ser o primeiro ano de apresentao do programa deaplicao do Fundo. O relatrio de sua aplicao no ser realizadoporque nenhum programa foi apresentado, j que a obrigatoriedade decriao do Fundo recente, de 2009.

    Esse relatrio de aplicao, que dever ser entregue sempre no dia 15 dejaneiro de todos os anos, valer 1,5 dos pontos, ou seja, pontuaoproporcional aplicao. Se o municpio tem de aplicar 50 mil, mas teveproblemas e s conseguiu repassar 30 mil, vai ter uma pontuaoproporcional a esses 30 mil. Se for 25 mil, ele vai ganhar 0,75 e menos doque isso, o programa que ele for apresentar de novo todo ano vai ter deapresentar um novo programa no vai receber pontuao.

    Todo ano temos um perodo de questionamento da anlise. At a leianterior, o municpio tinha 30 dias para reclamar. Este ano, recebemos 112municpios presencialmente, fora os que mandaram e-mails pedindo revisoda pontuao. E ano que vem teremos somente 10 dias. No dia 15 dejaneiro, os municpios precisam apresentar a documentao para apontuao final sair dia 20 de julho.

    Comeou assim, em 1996, com pouqussimos municpios. S parailustrar, em Minas Gerais, no exerccio de 2005, comeou a ter uma grandemudana e foram 593 municpios participando. No ano passado, 645municpios. Todo ano de eleio tem uma queda, o prefeito que est saindono quer investir para deixar dinheiro para o outro. Este ano, 692municpios mandaram documentao.

    Em 2010 mais de 700 municpios vo receber pontuao. Lembrandoque municpios que tm bens tombados pelo Iepha e pelo Iphan recebem30% dos pontos, mesmo no mandando nada. So 692 participantes, mas,na verdade, sero mais de 700 recebendo recursos. Lembrando que essa leis existe em Minas Gerais que repassa o ICMS desse jeito e vem fazendo issoh 14 anos. Comeou com a apresentao de 33 municpios e hoje temos692 participantes desse processo.

    A documentao de todos esses municpios enviada ao Iepha porSedex, no pode ser entregue em mo.

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  • A EXPERINCIA DE PERNAMBUCO

    ricka Rocha*

    RESUMOCriado no ano de 2004, o Fundo Pernambucano de Incentivo Cultura

    Funcultura tornou-se o maior edital de cultura do Estado, tendo chegadoa movimentar, em 2009, 24 milhes de reais de recursos, diante dos quatromilhes de reais de seu primeiro ano de funcionamento. Tem recursosdestinados, inclusive, para a rea do Patrimnio que se divide em cincocategorias: artstico, histrico, arquitetnico, arqueolgico e paleontolgico,compreendendo museus, bibliotecas, arquivos, centros culturais econgneres. O texto revela, no entanto, que o nmero de projetos para area do Patrimnio est muito abaixo das expectativas, tendo aprovadoapenas 17 projetos do Fundo, em 2008.

    PALAVRAS-CHAVEFuncultura, Recursos, Patrimnio.

    Falarei sobre o Fundo Pernambucano de Incentivo Cultura Funcultura, mas vou comear abordando, um pouco, a area de fomento,como ela vista dentro da Fundao do Patrimnio Histrico e Artsticode Pernambuco Fundarpe. Existe o fomento por vrias vertentes, ofomento das Celebraes, em que temos os ciclos que acontecem duranteo ano inteiro, como o ciclo carnavalesco, o ciclo das paixes, o ciclo junino;alm do fomento por Linguagem que um novo rumo que est se traandoe que trata especificamente de cada linguagem cultural. Em 2008, jtivemos o fomento para o Audiovisual separado do restante, o fomentocontinuado, que ocorre em programas como o Ponto de Cultura doGoverno Federal e outros desenvolvidos pela Fundarpe, junto com ogoverno do Estado; as clulas culturais na escola, Programa DesenhandoCultura, Comunicando Cultura e a Lei do Patrimnio Vivo, que at j foitratada em outra seo.

    O Funcultura a soma desses todos; na verdade, ele o maior edital decultura do Estado e trata do fomento das vrias linguagens institudas pela

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    * Diretoria dePreservao Culturalda Fundarp

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  • Fundarpe. Acreditamos que as iniciativas em vrias frentes visam fortaleceros canais de participao popular, do desenvolvimento de Pernambuco.

    O Funcultura foi criado em 2003. No ano de 2007, houve umaampliao significativa de 200%, inclusive, no desenho, na arquitetura eno prprio Fundo que passou a ser colocado em diversas linhas de ao.Em 2008, o volume de recursos passou para 12 milhes e ele comeou aficar cada vez mais inserido na poltica pblica de Cultura por meio dosfruns regionais, atravs dos quais conseguimos obter as diretrizes, asprioridades que deveriam ser colocadas no Fundo.

    O Funcultura est relacionado dentro do plano de gesto da Fundarpeque o Pernambuco na Ao Cultural, sendo alimentado por fruns ecomisses setoriais que geram planos de linguagens. Dessa forma, cadalinguagem cultural vai gerar prioridades que vo alimentar o Funcultura e,tambm, os fruns em comisses regionais. Pernambuco dividido em dozeregies de desenvolvimento, trata-se de um Estado bastante longitudinal etem litoral, mata, agreste e serto. O governo vai at essas regies, pega asprioridades para serem aplicadas no Funcultura, garantido a participaodesses municpios.

    O Plano Diretor de Cultura para 12 anos foi criado a partir dainstituio da Lei da Poltica Pblica de Cultura que prev a participaodos canais de gesto, os conselhos, as comisses, fruns, os planos porlinguagem e as aes estruturadoras dessa poltica. Tudo isso alimenta oFuncultura nas suas linhas de preservao, fruio, difuso, formao efomento.

    Sobre a evoluo do Fundo, o volume de recursos de 2006 era de quatromilhes de reais e, em 2009, chegou a 24 milhes de reais. Em 2006,tivemos 76 projetos aprovados, nmero muito inferior expectativa para2009, cujo processo de avaliao est acontecendo nesse momento e vaiterminar em fevereiro. Dessa forma, j tivemos os processos pr-selecionados e que esto sendo agora analisados e julgados para saber quaissero os vencedores.

    A composio do Fundo, neste ano, est dividida da seguinte forma: 15milhes de reais para rea de Linguagens e Regies, seis milhes de reaispara o edital do Audiovisual que j est funcionando separado dos outroseditais e trs milhes de reais para o calendrio consolidado daqueles ciclostodos que j mostramos. Ento, dos 15 milhes, a primeira parte ficou no

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  • mdulo I, 11 milhes de reais, onde vrias linguagens culturais tm diversaslinhas de ao e cada uma dessas linhas de ao tem assegurado ao mnimoum projeto aprovado, se houver um candidato que tenha a mnimacondio e esteja atendendo ao edital, esse candidato, obrigatoriamente, aprovado. J no segundo mdulo, todos os projetos vo para umarepescagem e a a demanda muito significativa, a quantidade de projetospor rea vai determinar quantos projetos sero aprovados na repescagem.

    Os projetos envolvem as seguintes reas culturais: artes cnicas,fotografia, literatura, msica, artes plsticas, cultura popular, pesquisacultural, artes integradas, formao e capacitao e gastronomia. Fao umdestaque para a diviso do patrimnio: artstico, histrico, arquitetnico,arqueolgico e paleontolgico, compreendendo museus, bibliotecas,arquivos, centros culturais e congneres.

    Em relao rea de Patrimnio, aquela comparao que poderamosfazer: tivemos 198.941 de reais, em recursos em 2006, em dois projetosaprovados. A nossa estimativa para 2009 de mais de 1,4 milho em maisde 15 projetos, por qu? So as quantidades de linhas de aes que nstemos. Precisamos, ento, apenas que haja candidatos em todas essas linhasde ao. Alm de patrimnio, os projetos que tambm tm relao com area podem estar nas linhas de pesquisa cultural e de formao, empatrimnio. Em pesquisa cultural nos tnhamos 311 mil reais, em 2006, ea perspectiva, por ser uma rea que cresceu muito, para mais de doismilhes de reais, assim como formao e capacitao, que foi de 240 milreais, para dois milhes de reais, tambm em 2009.

    Como que as pessoas tm acesso ao Funcultura? O Fundo publicadoe lanado nas vias de comunicao, nos jornais, mas, durante todo o ano, possvel ter acesso s informaes por meio do site da Fundarpe, naspginas de editais, porque a Poltica Pblica de Cultura foi direcionada paraque todo fomento, tanto aqueles das Celebraes quanto o Continuado,funcione por meio de editais.

    Na rea de patrimnio sempre importante verificar isso com certaantecedncia. E quem pode concorrer ao Funcultura? Os produtoresculturais com situao regular no cadastro de produtores. E o que umprodutor cultural? Qualquer pessoa fsica ou jurdica domiciliada no Estadode Pernambuco h, pelo menos um ano, com inscrio devidamentehomologada no cadastro de produtores. H um limite de quatro para onmero de projetos aprovados por produtor.

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  • Gostaria de chamar a ateno, porque o foco da nossa discusso, paraos critrios para a seleo dos projetos do Fundo: valor cultural do projeto;qualidade tcnica do projeto; qualificao do produtor cultural; aspectossociais do projeto; aspectos de acessibilidade informao, fruio edivulgao das atividades.

    E quais so os pontos de dificuldade? Quando os produtores nopreenchem algumas dessas documentaes que uma fase eliminatria,anterior ao julgamento. Em 2008, tivemos apenas 23 projetos protocoladosna rea do Patrimnio. Dentre os quais, 17 foram habilitados paraconcorrer. Um total de nove foram projetos aprovados nas cinco linhas deaes existentes, mais trs em pesquisa e dois em capacitao. Foi aprovadoum milho de reais, somando as reas de Patrimnio, Pesquisa Cultural eFormao de Patrimnio. Com esse nmero, foram 17 projetos habilitadospara todo o Pernambuco, e 23 projetos apresentados. , realmente,chocante. Alguns projetos envolviam Saberes e Prticas das ParteirasIndgenas de Pernambuco, um exemplo de projeto na rea de pesquisaem patrimnio.

    Agora em 2009, estamos no meio do processo, tivemos 45 projetos,somando Patrimnio, Pesquisa Cultural em Patrimnio e Formao emPatrimnio. um nmero que me parece muito pequeno diante donmero de projetos que so colocados nas outras reas culturais. Na rea demsica foram mais de 300 projetos colocados. O prejuzo grande quandovamos para a repescagem e nossa demanda no to grande. Teremos essevalor de 1.480 milhes de reais, caso todas as linhas tivessem sidopreenchidas. Mas eu j posso dizer a vocs que nem todas as linhas tiveramconcorrentes. H linhas que no teve nenhum concorrente na rea dePatrimnio.

    Aqui esto as linhas na rea de patrimnio: obras, restaurao de acervose bens mveis, projetos de interveno, apoio a espaos destinados preservao da memria, realizao de festivais, elaborao e publicao demanuais de preservao, banco de dados fotogrficos, realizao decampanhas de conscientizao, programao de oficinas durante os festivaisPernambuco Cultural, ou seja, uma gama enorme, sendo vrias retiradasdos fruns regionais. Na rea de Pesquisa ficam, basicamente, todos osinventrios, pesquisas e planos. E a rea de Formao, que fez o maiornmero, voltada ao de educao patrimonial.

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  • Temos uma srie de exigncias para aprovar os projetos na rea depatrimnio, principalmente, quando se fala em recursos para obras no setor.Pedimos as metodologias, as plantas aprovadas nos rgos competentes. Eo que acontece que, para isso, precisamos ter uma preparao com muitaantecedncia. Chamo ateno para os desafios que j conclumos disso tudo,que so os seguintes:

    Temos um edital que atende a vrias linguagens nas outras linguagensh determinadas exigncias mais tranquilas de serem cumpridas, mas narea de patrimnio mais complicado. Ex.: Aplicao de 15% no plano demdia; 15% do plano de uma obra num planejamento de mdia complicado, sendo que quase nenhum produtor consegue atender a essecritrio.

    A demanda que muito grande em outras reas prejudica a rea dePatrimnio na repescagem. Uma questo que arquitetos, engenheiros,arquelogos, antroplogos, socilogos, historiadores tm: no se enquadramnessa categoria do produtor cultural e no se cadastram. Depois perguntam:Mas eu posso? E por mais que faamos campanha, ainda no temos umnmero significativo de produtores culturais na rea de Patrimnio.

    O principal de todas as nossas grandes dificuldades, em minha opinio,so exatamente os projetos de patrimnio; so muito complexos. De formaque no d tempo, quando o edital sai, de se preparar um projeto. Esseprojeto tem que estar preparado antes do edital sair para que o produtorconsiga tempo hbil de colocar o seu projeto no Funcultura.

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  • DESAFIOS DOS FUNDOSMUNICIPAIS DE PRESERVAO

    Simone Camelo Arajo*

    RESUMOO Programa Monumenta inovador ao trazer a abordagem sustentvel

    para a rea de patrimnio cultural. A criao do Fundo Municipal dePreservao uma exigncia do Programa e tem um importante papel noprocesso de descentralizao da gesto desse patrimnio. Atualmente, hdificuldades para sua implantao pelas cidades participantes. Vrios fatorescontribuem para isso. No apenas a falta de recursos, mas principalmenteos desafios na execuo de todas as aes para tornar possvel aoperacionalizao das polticas pblicas a que se prope. Na implantao hum longo e difcil caminho a percorrer. Os desafios so grandes e fundamental que todos os envolvidos assumam as responsabilidades.

    PALAVRAS-CHAVESustentvel, Descentralizao, Desafios.

    O Monumenta um programa de recuperao sustentvel dopatrimnio histrico urbano brasileiro sob tutela federal, resultante deContrato de Emprstimo entre o Banco Interamericano deDesenvolvimento BID e a Unio, com apoio tcnico da Organizao dasNaes Unidas para a Educao, a Cincia e a Cultura Unesco. Porrecuperao sustentvel entende-se a execuo de obras de conservao erestauro e de medidas econmicas, institucionais e educativas, para ampliaro retorno econmico e social dos investimentos do Programa, aplicando-osem sua conservao permanente.

    Na operacionalizao do Monumenta, para que haja a garantia dessaconservao permanente, as aes esto definidas atravs de umRegulamento Operativo especfico. Uma das importantes estratgias estimular aes compartilhadas entre governos de todas as esferas,

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    *Assessora especialda Fundao

    Cultural do Estadodo Tocantins e

    coordenadora daUEP Natividade

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  • comunidade e iniciativa privada. Isso se torna possvel atravs do FundoMunicipal de Preservao do Patrimnio Histrico e Cultural.

    O funcionamento dos Fundos Municipais de Preservao um grandedesafio. Em contato com as Unidades Executoras dos Projetos da maioriadas cidades participantes, percebe-se que os Fundos, apesar de criados emtodas as cidades, no esto funcionando. Mesmo no estando numa situaoideal, Natividade, no Estado do Tocantins, superou esse desafio. E estouneste evento como coordenadora da Unidade Executora do Projeto emNatividade para falar sobre os fundos municipais de preservao. EmNatividade foi constitudo e est funcionando o Fundo de Preservao querecebeu o nome de Fundo Municipal de Preservao do PatrimnioCultural de Natividade Fuppac.

    Eu no sei se o pblico aqui presente tem conhecimento do ProgramaMonumenta. Se j ouviram ou leram informaes mais detalhadas sobre essaexperincia. Para ns que trabalhamos diariamente com o projeto torna-sefcil o entendimento do processo. Por esse motivo, o tema ser abordadono apenas sobre os seus desafios, mas de forma bem simples para um bomentendimento por todos. Vamos abordar: o que um Fundo Municipal dePreservao, o histrico, sua natureza jurdica, a operacionalizao, como sed a gesto, o que um plano de aplicao, qual a origem dos recursos, comodevem ser destinados os recursos, a relao entre conselho e fundo, como sed o controle e a fiscalizao, o plano de mobilizao social e quais asprincipais dificuldades e quais os maiores desafios.

    O QUE O FUNDO MUNICIPAL DE PRESERVAO DOPATRIMNIO HISTRICO E CULTURAL

    um instrumento criado pelo Monumenta para garantir asustentabilidade das aes de preservao e conservao, que foram ou estosendo realizadas no mbito dos projetos das cidades. criado por LeiMunicipal e est no Anexo E do Regulamento Operativo a obrigatoriedadede sua existncia verso de setembro de 2006. Regulamento Operativo o documento que estabelece os termos, regras e condies que regem asaes do Programa. A durao mnima exigida do Fundo de 20 anos. importante saber que o Programa fornece modelo de minutas da Lei deCriao e do Decreto de Regulamentao dos Fundos Municipais dePreservao. Alm da legislao municipal, h uma legislao federal (Lei n4.320/64: estatui normas gerais de direito financeiro para elaborao e

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  • controle dos oramentos e balanos da Unio, dos Estados, dos municpiose do Distrito Federal) que regula os Fundos Especiais, e existe ainda umacartilha especfica sobre o assunto publicada pelo Monumenta.

    O HISTRICO DE IMPLEMENTAOO fundo foi criado em todas as cidades participantes do Monumenta.

    Como j disse, uma exigncia do Programa, mas poucas passaram dessafase de criao. Ou seja, no deram continuidade para tornar vivel o seufuncionamento. No contato com vrias Unidades Executoras de Projetos UEPs, todos foram unnimes em falar da complexidade e da dificuldade deimplementar os Fundos de Preservao. Por qu? O que deve ser feito? necessrio constituir legalmente um Conselho Curador. O prefeito, depoisde divulgado o processo para a formao do Conselho Curador, nomeia osrepresentantes indicados pelas trs esferas de governo (municipal, estaduale federal) e pelos diversos setores participantes. O Conselho constitudoelabora o Regimento Interno que ir regulamentar seu funcionamento,define o Plano de Ao especificando as aes que sero realizadas comrecursos do Fundo e o envia para o gestor.

    Algumas cidades chegaram a constituir o Conselho, mas esto na fase deatualizao da Legislao, elaborao ou alterao do Regimento Interno.Segundo informaes recentes, apenas duas esto com o conselho curadorconstitudo e funcionando Natividade (TO) e Cachoeira (BA). Noentanto, Natividade foi a nica cidade que utilizou os recursos.

    H necessidade de revises e adequaes em todas as documentaesreferentes ao Fundo que foram feitas na poca da assinatura do Convnioentre a Unio e os municpios (alguns municpios, a contrapartida foiassumida pelo Estado que o nosso caso e o da Bahia). Essas alteraesforam orientadas pelo Monumenta em 2007, atravs do Programa deCapacitao das Cidades Conveniadas, com a realizao da 1 Oficina dosFundos de Preservao. H um arquivo digital pelo qual possvel obter todasas orientaes que so fundamentais para o bom funcionamento dos fundosmunicipais de preservao. E isso uma responsabilidade do municpio e doconselho curador, com adequao realidade de cada localidade.

    QUAL A NATUREZA JURDICA?O Fundo de natureza contbil e os recursos gerados, direta ou

    indiretamente, pelo Projeto, sero depositados especificamente para esse

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  • fim, nos termos da Lei Federal n 4.320, de 17 de maro de 1964, queestatui normas gerais de direito financeiro para elaborao e controle dosoramentos e balanos da Unio, dos Estados, dos Municpios e do DistritoFederal (artigos 71 a 74: ttulo VII onde constitui os fundos especiais).

    A OPERACIONALIZAOA operacionalizao se d atravs do rgo ou ente municipal a que se

    vincula: CNPJ, conta corrente especial (x / Fundo), contabilidade,oramento programa de trabalho especfico, prestao de contas e quadrode funcionrios.

    No caso de Natividade, o fundo operacionalizado pela Prefeituraatravs da Secretaria Municipal de Educao. Em Ouro Preto, inicialmenteestava ligado diretamente ao gabinete do prefeito, mas agora est naSecretaria Municipal de Patrimnio. H casos de o fundo no ser geridopela Prefeitura, como por exemplo, em Cachoeira na Bahia.

    COMO SE D A GESTO?O Fundo administrado pelo gestor e pelo conselho curador. O gestor do

    fundo municipal o titular da pasta qual se vincula e administradoconjuntamente com o conselho curador. O gestor que deve ser conselheiro o responsvel por organizar e planejar a realizao de aes que o Conselhodefiniu no Plano de Ao. Portanto, a deciso dos conselheiros que define asaes que sero realizadas com recursos do fundo, ou seja, o plano de aplicao.

    O Conselho Curador um grupo formado por representantes das trsesferas de governo federal, estadual e municipal e da sociedade civil,definidos na lei e no decreto que institui o Fundo. paritrio. O ConselhoCurador elege um dos membros para presidi-lo. Segundo orientaes, omandato de dois anos, proibida a reeleio, e a escolha deve recair, deforma alternada, entre representantes do setor pblico e do setor privado.Normalmente o Conselho formado por dez membros titulares. importante ter os suplentes para um melhor funcionamento. EmNatividade essa alterao est sendo providenciada.

    O QUE PLANO DE GESTO E O PLANO DE APLICAO?O Plano de Ao a organizao de ideias e o estabelecimento de

    prioridades. Os conselheiros definem as aes que sero realizadas com os

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  • recursos do Fundo. No Plano de Ao as providncias so devidamentelistadas na ordem em que devem ser realizadas. Deve constar tambm noPlano de Ao quem o responsvel pela execuo, qual o prazo e/ou a datalimite para a sua concluso e quais os recursos necessrios.

    O plano de aplicao a programao da distribuio dos recursos doFundo, sob a responsabilidade do gestor. Numa planilha simples, registra-se toda entrada dos recursos e demonstra quando e como podem ser gastos,seguindo o Plano de Ao elaborado e aprovado pelo Conselho. Seguindoa legislao, os recursos no podem ser utilizados com despesas de capital,apenas despesas correntes. Ou seja, os gastos s podem ser realizados emmaterial de consumo, servios de terceiros (pessoa fsica ou jurdica). No legal utilizar em material permanente ou em investimento. vedada autilizao de recursos de fundos especiais para pagamento de pessoal.

    O plano de aplicao , portanto, um planejamento como ferramenta detrabalho. Seguindo os novos modelos da lei de criao, a deciso deaplicao dos recursos de responsabilidade do Conselho Curador. Oconselho responsvel pelos gastos dos recursos da conta especfica doFundo. Deve-se ter em mente que os recursos so pblicos e que h Lei deResponsabilidade Fiscal.

    Em Natividade, inicialmente, utilizou essa forma de definio daaplicao dos recursos. O Conselho decidiu que era importante adquirircom recursos do Fundo Municipal um imvel para funcionar a sua sede.Como existia um imvel importante no centro histrico que estava sobrisco de desabar, a famlia com vrias dificuldades para fazer a interveno,o poder pblico municipal sendo pressionado para tomar iniciativa eresolver a questo, utilizaram-se os recursos do Fuppac no pagamento dadesapropriao realizada pela Prefeitura e o Iphan fez a restaurao. Nesseimvel, alm de sede do Fundo, haver um local para desenvolvimento deatividades de preservao do nosso patrimnio cultural.

    QUAL A ORIGEM DESSES RECURSOS?So vrias as origens dos recursos de um Fundo Municipal de

    Preservao. Depende basicamente de como foram ou esto sendoinvestidos os recursos do convnio do Monumenta na localidade. As duasorigens mais importantes, que so obrigatrias, so a dotao oramentriaanual e os pagamentos dos financiamentos dos imveis privados. O Estadoe/ou o municpio deve(m) incluir no oramento de cada ano uma dotao

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  • especfica destinada ao Fundo Municipal de Preservao. Vrias cidadesesto com dificuldades quanto a essa questo. A situao piora naslocalidades em que o Estado assumiu a contrapartida do convnio. EmNatividade, o Governo do Estado do Tocantins cumpriu o seu papel e fezo depsito de trs anos (que ainda no foi totalmente gasto pelo municpio)e aguarda a prestao de contas para providenciar a sua regularizao. Hdificuldades pelas prprias Prefeituras em destinar o recurso oramentriopara a conta do fundo. Vrias cidades enfrentam esse problema.

    A fonte principal o resgate dos emprstimos concedidos a proprietriosprivados em que o retorno para o fundo de preservao. Ento ofinanciamento para a recuperao de imveis privados, que esto em todosos convnios do Monumenta, o instrumento direto para a interveno emanuteno de forma abrangente nos centros histricos.

    s vezes eu fico sentida com a finalizao do programa em Natividadeporque apesar de o municpio ter sado frente com uma participaosignificativa da comunidade no financiamento aos imveis privados, ovalor total foi pequeno. Ficaram de fora alguns proprietrios que noacreditaram num primeiro momento e perderam a chance de participardesse importante processo. Hoje o escritrio da Unidade Executora doProjeto bastante procurado para saber sobre a realizao de um novoEdital de Seleo. Ento, as cidades que tiveram seus convniosprorrogados, que procurem viabilizar o mximo de imveis privadosparticipantes. Porque esse retorno a principal fonte para o fundomunicipal. E isso resulta em novos projetos e em aes de preservao nacidade. A esperana para ns que essa ao tenha continuidade atravs doPAC de Cidades Histricas.

    Tem outras receitas possveis, que vm de alugueis, concesso de uso,entre outros; tem recursos de convnios realizados; contrapartida municipaldecorrente de acordos e convnios; receitas financeiras; receitas provenientesde servios e eventos diversos; contribuies ou doaes de pessoas fsicasou jurdicas, pblicas e privadas, nacionais e estrangeiras. E h receitas quedependem da legislao especfica do municpio que so recursosprovenientes de contribuio de melhoria gerada na rea protegida, issoprecisa de uma lei especfica. Alm de outras receitas.

    O mais importante de tudo que a garantia de recursos estpossibilitando a criao de uma poltica local de patrimnio. Umaexperincia fantstica que d trabalho, mas que se mostra vivel.

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  • QUAL A DESTINAO DOS RECURSOS?O Conselho Curador tem autonomia para decidir onde aplicar os

    recursos. No modelo sugerido pelo Programa Monumenta em 2007, noartigo 5 da lei que cria o Fundo diz:

    Os recursos provenientes das receitas sero aplicados, mediante adeciso do Conselho Curador do Fundo de Preservao doPatrimnio Histrico e Cultural, nas aes de preservao econservao a serem realizadas na rea protegida. E deve serincentivada a participao popular na discusso de aes, projetos eoramentos, assim como tornar disponvel para qualquer cidado,conforme exige a Lei de Responsabilidade Fiscal nos artigos 48 e 49,o qu e onde esto sendo aplicados os recursos.

    Se os municpios no alteraram a sua lei e o seu decreto de acordo como modelo atual, h algumas limitaes com relao ao uso dos recursos. bom procurar adequar essa questo, pois o controle e a fiscalizao dosrecursos do Fundo seguem a mesma dinmica de quaisquer outros recursospblicos.

    A RELAO ENTRE CONSELHO E FUNDOAo gestor do fundo compete:

    praticar atos necessrios gesto do Fundo;

    expedir atos normativos relativos gesto e alocao dos recursosdo Fundo;

    elaborar programas anuais e plurianuais (Plano de Aplicao),submetendo-o ao Conselho Curador;

    submeter apreciao e deliberao do Conselho as contas relativas gesto do Fundo;

    dar andamento aos programas e projetos em execuo devendoapresentar eventuais alteraes prvia anuncia do Conselho.

    Ao Conselho Curador compete:

    estabelecer as diretrizes e os programas de alocao de recursos,plano de aplicao, de todos os recursos do fundo em consonnciacom a poltica nacional de preservao do patrimnio histrico e

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  • cultural. importante no perder o foco da poltica nacional que estsendo implantada;

    acompanhar e avaliar a gesto econmica, financeira e social dosrecursos;

    acompanhar e avaliar o desempenho dos programas realizados;

    apreciar e aprovar os programas anuais;

    exercer controle dos recursos;

    recomendar medidas cabveis para a correo;

    aprovar seu Regimento Interno.

    COMO SE D O CONTROLE E A FISCALIZAO DOFUNDO MUNICIPAL?

    O controle oramentrio, financeiro, patrimonial e de resultados serefetuado pelo Conselho Curador, na forma que dispuser o Regimento. Ocontrole e a fiscalizao dos recursos dos Fundos seguem como j falei amesma dinmica de quaisquer outros recursos pblicos. Sua prestao outomada de contas est inserida nas contas do rgo a que est vinculado eest sujeito fiscalizao dos rgos de Controle Interno e Externo.

    necessrio ficar claro para os administradores municipais. O nossoprefeito gastou parte dos recursos sem a devida autorizao do Conselho,comprou vrias lixeiras. Ele foi reunio do Fundo e falou: eu fiz unsgastos porque era importante para a manuteno da limpeza do centrohistrico. Depois de ouvir as minhas explicaes, ele reconheceu o erro esolicitou a anlise do conselho para solucionar a questo. Isso serve deexemplo para todos, pois se o gestor decide por conta prpria onde gastaros recursos, no levando em considerao a deciso do Conselho Curadorou no respeitando o Plano de Ao, os conselheiros s vo tomarconhecimento aps o fato ter sido realizado.

    PLANO DE MOBILIZAO E PARTICIPAO SOCIALO plano de mobilizao e participao social o que vai ser feito no

    municpio para mobilizar e ter a participao e envolvimento dacomunidade com a preservao do patrimnio cultural. A divulgao fundamental para que se tenha sucesso nessa ao.

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  • PRINCIPAIS DIFICULDADES ENFRENTADAS PELOSCONSELHOS

    As principais dificuldades enfrentadas pelos Fundos primeiramente aprpria no formao dos conselhos. Na maioria das cidades participantesdo Monumenta est acontecendo isso. H tambm as mudanas de gestoe a demora nas devidas nomeaes, tanto pelo gestor municipal, como pelosdemais integrantes Governo Federal, governo do Estado e entidadesrepresentadas. Recentemente teve a criao das superintendncias estaduaisdo Iphan e no foi feita a formalizao imediata dos membros no Conselho dos representantes do Iphan assim como do Ministrio da Cultura.Natividade est nessa situao. Outra dificuldade a no elaborao doRegimento Interno a maioria dos fundos tem esse problema; falta deefetividade dos conselhos; a indisponibilidade de recursos comum algunsfundos que ainda no tm dinheiro em conta e outros que tm o dinheiro,mas no aplicaram nada por problemas administrativos.

    As dificuldades de repasse das informaes detalhadas sobre amovimentao dos recursos na conta corrente do Fundo pelo agentefinanceiro Caixa Econmica Federal so frequentes. H vriosproblemas quanto transferncia dos pagamentos dos financiamentos paraa conta do fundo. No h uma operao constante de transferncias dosrecursos. Para quem trabalha com planejamento sabe o que isso acarreta. Seno se sabe quanto de recursos o Fundo realmente tem e a previso do quevai entrar ao longo do ano, no tem como fazer um plano dar certo. Podeser classificada tambm como dificuldade a falta de articulao entre osnveis de governo.

    O DESAFIO NA ATUAO DOS CONSELHOSAps todas essas definies e explicaes, podemos perceber os maiores

    desafios na atuao dos Conselhos. Citando:

    Pensar a atuao dos conselhos como uma possibilidade de partilharpoder. Isso deve ser bastante trabalhado, principalmente, com osprefeitos. Mostrar que o Programa criou essa estratgia para que opoder de deciso seja efetivamente partilhado. Permitir de fato aparticipao de todos;

    Criar um espao para deciso de fato e com a participao dapopulao;

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  • Deve-se analisar tambm quem est ou no est dentro doConselho. importante analisar a representatividade. Principalmentenas cidades maiores onde h vrios segmentos que podem representara comunidade. Nas cidades pequenas isso no problema, muito pelocontrrio, nessas tm dificuldades de renovao dos conselhos. muito importante que os integrantes sejam capacitados. Muitas vezesa atuao fica vulnervel pela falta de conhecimento. J foi expostaessa situao para a Unidade Central de Gerenciamento do ProgramaMonumenta UCG e deve ser providenciada a qualificao dosconselheiros, no deixando de fora os gestores municipais;

    Produzir dados e subsdios para as decises dos conselheiros;

    Promover a articulao entre os conselhos existentes na cidade. Coma exigncia do governo federal de se ter conselho em todas as reas,nas cidades pequenas as pessoas atuantes participam de vriosconselhos. Mas o que se percebe que no h articulao entre osconselhos. Portanto, um desafio;

    Construir estratgias de articulao entre o governo federal, estaduale municipal. Um fato importante para essa questo foi criao dasSuperintendncias estaduais do Iphan que possibilita umaproximidade e uma ateno maior das localidades tombadas;

    Articular com outros espaos participativos existentes na cidade.Em cidades que tm o oramento participativo, deve-se verificar seno existem conflitos entre esse oramento com o que est previstono Plano de Ao;

    Obter melhores resultados na gesto dos recursos pblicos. Se oPlano de Ao foi discutido e analisado, se tudo estiver sendorespeitado na hora da aplicao, pressupe-se que tenha realmentemelhor resultado na gesto;

    Manter a sustentabilidade uma questo complexa e que pode gerarmuitas discusses. No incio do programa, a obra para sercontemplada teria de provar atravs do seu uso individual asustentabilidade. Hoje essa viso j foi alterada. Pensando em investirem algo que retornasse de forma rpida e que ao mesmo tempodivulgava o patrimnio cultural que os conselheiros do Fundo dePreservao de Natividade decidiram investir em comercializao decamisetas, um artigo bastante procurado, mas que no havia no

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  • mercado local. Isso nos mostra que as decises dos conselheirosdevem levar em considerao a realidade da sua comunidade. Umfator importante que coloca em risco a sustentabilidade ainadimplncia dos pagamentos do financiamento pelos proprietrios. muito importante que o municpio acompanhe esses pagamentose procure resolver as inadimplncias. Deve ser feito um trabalho deconscientizao da comunidade mostrando a importncia dosrecursos recebidos e mais ainda a importncia de que efetuem ospagamentos;

    Estar atento quanto aos recursos pblicos para os conselhos. Osconselhos s vo ter poder de fato se tiver dinheiro. Os conselheirosdevem estar atentos quanto foi definido no oramento do municpiopara o Fundo e como esto sendo realizadas as transferncias;

    Necessidade de aprimorar os ensinamentos do processo atual paracompreender a importncia da cultura nas cidades. No ter uma visoapenas local, mas ter uma viso mais ampla da cultura tambm umdesafio;

    E fechando os maiores desafios, trabalhar cultura como qualidadede vida e desenvolvimento humano. E, mais recentemente, aeconomia da cultura. A cultura passando a ser tratada como fatordinmico que interage com as lgicas econmicas e sociais,integrando-se s polticas de desenvolvimento urbano implementadaspelo municpio.

    A experincia nos mostra que o apoio dos tcnicos das UEPs fundamental para que os Fundos Municipais de Preservao se tornemviveis. E podemos afirmar que a experincia do Monumenta contribuiupara que a revitalizao de centros urbanos tombados deixasse de serrelegada a segundo plano para se tornar uma importante poltica degoverno, atravs do Iphan.

    O Monumenta um programa e finaliza, mas o fundo municipal depreservao foi criado e tem a responsabilidade de estruturar tudo isso quefoi falado, que a descentralizao da gesto do patrimnio investindo nacriao de uma poltica local de patrimnio. essa a responsabilidade e ogrande desafio dos municpios, dos conselheiros especificamente.

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  • O PODER PBLICO MUNICIPALE AS LEIS DE INCENTIVO

    Luiz Fernando Mainardi*

    RESUMOO texto retrata a experincia do municpio de Bag, no Rio Grande do

    Sul, que encontrou na poltica cultural e, sobretudo, na preservao de seupatrimnio cultural novos caminhos para resolver os problemas da gestopblica. Para isso, investiu em trs diretrizes: a capacitao de equipes parapreparao de bons projetos, principalmente, atravs da Lei Rouanet; umprograma de incluso social por entender que cuidar do patrimnio no seope a cuidar de pessoas, mas so foras complementares e, finalmente, ainsero da poltica de preservao do patrimnio cultural no Plano Diretordo Municpio.

    PALAVRAS-CHAVEProjetos culturais, Incluso social, Plano Diretor.

    A minha fala no to cmoda como outras feitas a partir de uma visomais centrada na rea tcnica, na rea de poltica pblica de preservao ouda rea cultural do patrimnio cultural histrico construdo, arquitetnicono seu municpio, Estado e pas.

    Quando participamos do outro lado do balco, na qualidade de prefeito,cada secretrio que chega, cada coordenador que conversa mostra a justezado que ele est apresentando e diz que aquilo prioridade. Ento, tudoacaba sendo prioridade. Exatamente por isso a cultura no nosso pas, aolongo dos anos, acabou deixando de ser uma prioridade, efetivamente.Porque as questes sociais, de infraestrutura, outras questes sempre sepuseram com uma fora muito grande e, apesar disso, conseguimos fazercom que o Brasil, atravs dos entes federados, pudesse ter polticas culturaisdefinidas. Por exemplo: estamos agora discutindo o Sistema Nacional dePatrimnio, porque at ento no havia. Agora, recentemente, e mritospara a equipe do Iphan com todos os seus profissionais, sob a coordenao

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    * Ex-prefeito deBag (RS)

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  • de Luiz Fernando de Almeida, que tem colocado na ordem do dia o temada preservao. Alis, surge um programa para isso chamado PAC, que nod para contemplar todos os municpios brasileiros, mas alguns j tm ofoco. Comeou com menos e hoje est com 160, 190 municpios, e temosque intencionar ampliar esse nmero cada vez mais.

    A cultura, na verdade, o tema que escolhemos quando queremos fugirdas responsabilidades. muito comum as pessoas dizerem que a Culturaest acima da poltica. uma grande bobagem; quem diz isso no temefetivamente polticas culturais como prioridade na sua rea de atuao. Oque ns precisamos so de polticas culturais, porque a cultura se inserecomo uma das reas, no meu entendimento, mais importantes e universaisda atuao do gestor pblico, tanto em nvel de municpio, quanto deEstado e de pas.

    O Rio Grande do Sul, por exemplo, riqussimo do ponto de vista dasua formao tnica, cultural, das culturas trazidas pelos europeus. Aformao tnica cultural do nosso Estado uma formao completamentediferenciada dos outros Estados porque se reflete em todas as reas damsica, da dana, do folclore, culinria e tambm na arquitetura. Portanto, muito forte isso. E, infelizmente, nos ltimos tempos no Estado do RioGrande do Sul a rea da cultura tem sido, absolutamente, secundarizada.Apesar dos esforos de quem trabalha, dos servidores pblicos do RioGrande do Sul, dos produtores culturais, dos prprios artistas, atores eprodutores culturais, no sentido mais geral.

    A nossa experincia em Bag uma experincia muito complicada parase explicar o que aconteceu. No tnhamos nenhuma experincia quepoderia servir de paradigma. Quando assumimos a Prefeitura, ofuncionalismo estava com 23 meses de salrios atrasados, sem contarproblemas de toda ordem. Tudo importante.

    Como vamos trabalhar com isso, o que prioridade? A primeiradefinio foi de que tudo era prioritrio. A segunda definio foi quedeveramos qualificar o mximo possvel as nossas equipes, incentiv-las,de forma que pudssemos produzir, fazer projetos. Eu no concebonenhuma possibilidade de mudana de uma determinada situao deavano, de aperfeioamento seja o mnimo que for, que no seja a partir debons projetos.

    E ns tivemos a sorte de reforma e restauro dos prdios mais importantes

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  • de Bag. Quando fomos questionados, quando abrimos o debate sobre oPlano Diretor, iramos iniciar o processo de tombamento de imveisparticulares para criar uma poltica dentro de uma poltica municipal depreservao do que foi edificado nesses quase 200 anos de Bag. Queramos,exatamente, trilhar um critrio capaz de fazer uma transferncia de recursospor meio da venda do ndice de construo, para a preservao dos imveisparticulares. Isso seria feito atravs da compra, a partir de umaregulamentao. E fomos questionados. Queramos estabelecer polticaspara as pessoas particulares, para os proprietrios individuais particularesde prdio, enquanto o poder pblico no fazia a sua parte. Estvamos como Museu vazio, caindo o teto, enfim, era o caos. E nos demos conta de quedeve- se fazer, primeiro, o dever de casa; temos de dar o exemplo.

    A partir da, procuramos o Iphan e comeamos a descobrir formas definanciamento. Olhvamos para um lado, vimos em Pelotas o monumento.Tem como entrar no monumento? No. Procurava o oramento da Unio,no tinha dinheiro; o oramento do Estado no tinha dinheiro; o municpioestava quebrado e o prdio estava caindo. E foi, exatamente, atravs docontato com o pessoal do Iphan na poca Jos Nascimento Junior estaval que comeamos a achar um caminho. Eles foram at Bag e fizemosuma reunio, quando optamos por intensificar o trabalho com relao Lei Rouanet.

    A partir da, procuramos bons projetos, qualificamos uma equipe,preparamos os projetos e fomos buscando um por um. E fomos tendoparceiros nesse meio tempo. A Petrobras, o BNDES, Eletrobrs e outrasempresas particulares e acabamos restaurando, praticamente, todos osnossos prdios. A questo que fica para mim que esse foi o caminho quens achamos. Fiz o esqueleto do que ia falar e acabei no falando o que defato deveria, mas acho que, ao menos, algumas coisas ficam explicadas.

    Primeiro, no h como se pensar a preservao do patrimnio como umvalor cultural, turstico de valorizao de nossa cidade se isso no estinserido em um projeto de cidade. No tem como achar que a nossa cidade bonita, que deve ser visitada, que temos o orgulho de falar a todo mundo,se encontrarmos crianas na rua pedindo esmolas ou dormindo emmarquises. Isso uma contradio brutal no meu entendimento.

    Cuidar do patrimnio no se ope a cuidar das pessoas, so aescomplementares. No nosso caso, isso acabou sendo uma diretriz. A cidade

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  • bonita sob o ponto de vista da esttica, mas a esttica se faz tambm pelagente, pelas pessoas. Pensamos isso, ao longo do tempo, no sentido detrabalhar um forte programa de incluso das pessoas. Fizemos uma amostra,em 2006, com aproximadamente 63 programas de incluso social.

    Segundo, devemos ter um Plano Diretor de fato moderno, que possa serpermanentemente atualizado. A partir desse Plano Diretor que temos deestabelecer a poltica de preservao do patrimnio.

    Terceiro, a inventariao. um absurdo, hoje, termos tantos problemasno nosso pas. No se trata de nenhuma cidade especificamente, mas nsandamos por esse Brasil, no meu caso o Rio Grande do Sul, e encontramosprdios lindssimos, de valor extraordinrio, em runas. Quando, ao mesmotempo, a gente ouve dizer: Tem dinheiro sobrando no PAC, tem dinheirosobrando neste ou naquele outro lugar. Coisa que no tinha antes. Tudobem, antes no tinha dinheiro para nada. Faltou essa transio de quandono tinha dinheiro e, portanto, no tinha projeto porque no precisava ter.E hoje tem dinheiro, mas no tem projeto.

    Precisamos nos capacitar. Talvez, a partir deste Frum possamos tiraruma grande ao nacional para que possamos nos preparar em nvel demunicpio, em nvel de Estado e nacional. Precisamos capacitar equipes emtodo o Brasil na preparao de bons projetos para exercer a fora possvelno sentido que se tenha cada vez mais recursos nas trs esferas de governo;da Lei Rouanet, de financiamentos internacionais que so fontes possveisde se arrumar; outras fontes no s do movimento, mas tambm doBNDES que pode ser o financiador no s a partir dos patrocnios, mastambm a partir de financiamentos.

    Precisamos de uma grande ao capaz de nos preparar para isso e no setrata de uma capacitao somente para a elaborao de projetos de restauro,mas tambm nos projetos complementares aos stios histricos, fazer comque as reas sejam recuperadas na sua plenitude.

    E, por ltimo, parece-me que o mais importante trabalhar na busca daconscientizao da comunidade, da nossa populao. Isso o que nos dgarantia de continuidade desse bom momento que estamos vivendo. Ummomento extraordinrio na questo do debate e do incio do processo derecuperao do nosso patrimnio. Prdios de cento e tantos anos comeama ser recuperados. Debates que no se faziam antes hoje esto acontecendoe precisamos envolver o conjunto da sociedade nesse debate. por isso que

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  • a iniciativa foi tomada em Bag pela vereadora Jussara Carpes, julgo sermuito importante a constituio de frente de vereadores em defesa dopatrimnio. E por qu?

    Porque essa frente bem articulada vai levantar um vereador em cadamunicpio, que vai ser aquele chatinho que vai para a tribuna, rdio, jornal,dizer que tem que cuidar daquele patrimnio. isso que ns precisamos, ter um chato do patrimnio pblico incomodando o prefeito, o MinistrioPblico, seja l quem for, em todos os lugares do Brasil. essa fora quetemos de levar para a Assembleia Legislativa para termos deputadospreocupados com isso. Para o Congresso Nacional, para que possamos terparlamentares, igualmente, preocupados com o patrimnio.

    isso que vai fazer com que os governantes possam investir nessa rea.Por exemplo, estamos, no Rio Grande do Sul, iniciando um processo dedebate do programa de governo estou governando a pr-campanha docandidato, o ministro Tarso Genro e estamos pautando a questo dacultura, em especial essa questo do patrimnio cultural. Precisamos tercomo prioridade do governo a organizao do sistema estadual de apoio doIphan, do Instituto do Patrimnio Histrico e Artstico do Estado Iphae,um sistema que permita ajudar os municpios. Estou convencido de queesse processo de conscientizao decisivo para a continuidade de tudo queestamos fazendo. E copiarmos as leis bem elaboradas, as iniciativas corretas quero cumprimentar Carlos Henrique Rangel pela iniciativa com o ICMSPatrimnio Cultural, que os mineiros adotaram h 15 anos.

    Eu discuti muito a questo do Valor Adicionado Fiscal, 75% quedevolvem ao municpio em funo do que os municpios no arrecadam;em funo do que os municpios movimentam na economia. Isso a coisamais perversa do mundo, porque o municpio rico fica cada vez mais ricoporque retorna mais dinheiro em funo no do que ele arrecada de ICMS,mas do que ele efetivamente contribuiu. Ento, uma grande empresa quevai para um determinado lugar, financiada atravs de grandes incentivosfiscais, muda a realidade daquele municpio. Nisso no temos nenhumainterferncia, no sobram 25% para mexer. nesses 25% que vocsmineiros tiveram a inteligncia de colocar a obrigatoriedade dos municpiostrabalharem com o tema da cultura. E a partir da organizao dos seussistemas municipais, da organizao local, da preservao do patrimnio que tero mais ou menos ICMS.

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  • Parabns por essa iniciativa e acho que isso colabora para quecontinuemos avanando naquilo que chamo de conscientizao. ela quevai fazer com que o PAC1 das Cidades Histricas possa acontecer daqui aum tempo. O PAC2, para que possamos, daqui a alguns anos, ter milmunicpios, os quais, por menores que sejam, tenham um patrimnioedificado, construdo, que marca uma poca, que marca toda uma histriae que o povo daquela regio sinta-se orgulhoso ao perceber que aquilo foirecuperado.

    Quero dizer que, nos meus oito anos de Prefeitura, pude observar que oque mais eleva a autoestima de uma comunidade uma praa bem feita,recuperada, restaurada. Porque o que tem de mais pblico. Ela foi feitapara passear, namorar, fazer comcios, reunies, brincar, caminhar. E a outracoisa que eleva a autoestima de uma populao um prdio bonito,recuperado, bem iluminado, um prdio rico, onde as pessoas sereencontram com o passado e mostram com orgulho para aqueles que lchegam e para si mesmo. Isso faz parte da esttica, e a esttica tambm ajudaa alimentar a alma.

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  • SISTEMA NACIONAL DEPATRIMNIO CULTURAL (SNPC)

    INSTRUMENTOS E FORMAS DE FINANCIAMENTOSCoordenadora: Maria Emlia Nascimento Santos (Iphan)

    Relatora: Letizia Vitale (consultora Iphan)

    COMUNICAESPrograma Nacional de Fomento e Incentivo Cultura, Evaristo Nunes(Secretaria de Fomento e Incentivo Cultura/MinC)

    Programa Mecenas, Tenente-coronel Jos Cludio (Diretoria doPatrimnio Histrico e Cultural do Exrcito)

    O BNDES Cultural, Luciane Gorgulho (BNDES)

    ICMS Patrimnio Cultural em Minas Gerais, Carlos Henrique Rangel(Iepha/MG)

    A experincia de Pernambuco, rikca Rocha (Fundarpe)

    Desafios dos fundos municipais de preservao, Simone Camelo Arajo(Unidade Executora do Programa Monumenta/UEP de Natividade/TO)

    O poder pblico municipal e as leis de incentivo, Luiz Fernando Mainardi(ex-prefeito de Bag/RS)

    RELATO

    DESAFIOS PARA A FORMULAO DA POLTICA NACIONAL

    Anlise dos dados/informaes dos anos anteriores para poderalterar rumos e identificar diretrizes de planejamentos futuros;

    Possibilidades de reverso das desproporcionalidades deinvestimentos regionais;

    Estruturar um inventrio visando construo de um diagnsticoque oriente a aplicao adequada dos recursos;

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  • Estruturar sistema de avaliao e acompanhamento da aplicaodos recursos financeiros;

    Qualificao na formulao dos editais elaborados pelospatrocinadores para apresentao de projetos.

    DESAFIOS PARA A ESTRUTURAO DO SISTEMA NACIONAL

    Regulamentao do sistema de financiamento que reflete umainadequada relao entre recursos investidos e demandas locais. Noperder de vista as realidades e exigncias dos contextos locais;

    Qualificao dos gestores para responder as exigncias daimplementao do Sistema Nacional de Patrimnio. Especificamentecapacitao das estruturas administrativas locais visando integraooperacional aos mecanismos de financiamentos nacionais;

    Capacitao das entidades/instituies de forma a disponibilizarferramentas adequadas qualificando o acesso aos fundos e recursosdisponveis;

    Constituir um marco legal regulamentador do instrumento deplanejamento Plano de Ao em implementao relacionado aum sistema financeiro de modo a formatar um desenho definitivo depoltica nacional;

    Articulaes e integrao dos espaos de discusses/deliberao/conselhos etc. nas trs esferas governamentais;

    Definio dos papis no sistema de financiamento. Quem faz oque? Onde? Para quem? etc.

    POTENCIALIDADES PARA A FORMULAO DA POLTICA NACIONAL

    Preexistncias de uma rede de relaes com bancos, instituies ergos federais;

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  • Existncia dos planos de ao como instrumentos integrados devrias esferas governamentais;

    Receber percentuais sobre os lucros bancrios, taxas de loteria, etc.

    POTENCIALIDADES PARA A ESTRUTURAO DO SNPC

    Abertura do BNDES para incorporar os planos de ao comocritrio na distribuio dos recursos;

    Processo em andamento da discusso do projeto de lei do ProgramaNacional de Fomento e Incentivo Cultura (Profic), hoje na CmaraFederal;

    Aproveitamento das experincias bem-sucedidas de uso dosimpostos vinculados preservao do patrimnio visando definiode diretrizes nacionais.

    PARCERIAS ESTRATGICAS PARA A FORMULAO DA POLTICANACIONAL

    BNDES, Petrobras, companhias eltricas, etc.

    PARCERIAS ESTRATGICAS PARA A ESTRUTURAO DO SNPC

    BNDES;

    Patrimnio na pauta poltica: sensibilizao e articulao com osdeputados, parlamentares;

    Ministrio Pblico, CREAs e IAB;

    Iepha e Fundarpe.

    OBJETIVOS PARA OS PRXIMOS DOIS ANOS (2010-2011)

    Potencializar e qualificar os procedimentos de financiamentos;

    Levantamento de todos os fundos estaduais ativos, verificando aspossibilidades de articulao ou o dilogo comum do sistemanacional;

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  • Viabilizar o mapeamento nacional e a avaliao do uso dos recursosfinanceiros;

    Potencializao das experincias de estruturao de sistemasmunicipais de direcionamento dos impostos para preservao dopatrimnio.

    AES ESTRATGICAS QUE DEVEM SER IMPLEMENTADAS NOSPRXIMOS CINCO ANOS (2010-2014)

    Realizao de mdulos de capacitaes regionais para os municpiose o setor no governamental a partir das necessidades levantadas;

    Capacitao especfica para formulao de projetos de preservaoem um sentido amplo;

    Conscientizao voltada a um pblico amplo da sociedade civilsobre o valor do patrimnio cultural;

    Criao do Fundo Nacional do Patrimnio.

    AES ESTRATGICAS QUE DEVEM SER IMPLEMENTADAS EM 2010

    Trabalhar para que possam ser priorizados os Planos de Ao dasCidades Histricas (PACH) e nos critrios do Fundo Nacional doPatrimnio;

    Estruturar marco legal e financeiro do PACH.

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  • SISTEMA NACIONAL DEPATRIMNIO CULTURAL SNPC

    COOPERAO, COMPARTILHAMENTO EDEFINIO DE PAPIS

    Honrio Nicholls Pereira*

    RESUMOO artigo aborda algumas questes fundamentais para a criao do

    Sistema Nacional de Patrimnio Cultural SNPC. Ao definir o sistemacomo uma rede de polticas pblicas, procura identificar seus objetivos ecaractersticas, estabelecendo parmetros necessrios para o seu desem-penho. As principais questes abordadas so: identificao de atores e papisque devem desempenhar; as formas de coordenao e de articulao entreatores; e os desafios do compartihamento, da descentralizao e dacooperao. O artigo tambm lista uma srie de potencialidades que podemser aproveitadas na construo do SNPC.

    PALAVRAS-CHAVESistema Nacional de Patrimnio Cultural, Rede de Polticas Pblicas,

    Iphan.

    INTRODUO: SISTEMA COMO REDE DE ATORESGostaria de iniciar minha apresentao fazendo alguns questionamentos

    acerca da criao do Sistema Nacional de Patrimnio Cultural SNPC,visando estabelecer parmetros quanto ao objeto, ao objetivo e scaractersticas desse sistema que se deseja implantar. Em primeiro lugar, faz-se necessrio explicitar os motivos que nos levam a pensar o campo dopatrimnio cultural como um sistema.

    A pesquisa sobre o Quadro do Patrimnio Cultural, elaborada a partirde 2008 pelo Iphan, levantou e analisou dados sobre a gesto do patrimniocultural nos nveis federal e estadual, resultando na montagem de umdiagnstico preocupante, que corrobora a tese da necessidade de trabalhar

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    * Arquiteto eurbanista, consultordo Iphan/Unescopara os Planos deAo para CidadesHistricas

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  • o setor do patrimnio cultural como sistema.1 Seno, vejamos:

    Existem, no setor, muitos atores com poder de deciso,representando demandas, interesses e expectativas difusos;

    As instituies no do conta de atender demanda do setor e, aomesmo tempo, podem apresentar competncias e atuaessobrepostas;

    As competncias concorrentes entre os entes da federao, definidaspela Constituio Federal de 1988 CF/88, resultam, muitas vezes,em conflitos (quando h interesse de vrias partes em umdeterminado bem cultural) ou omisses (quando nenhuma parte teminteresse);

    A prtica atual de investimentos no setor feita sem planejamentointegrado, sem objetivos comuns e sem viso de mdio e de longoprazo;

    No h uma definio de diretrizes, de prioridades de investimentose dos papis que cada ente ou instituio deve ter no processodecisrio;

    Os processos decisrios de cada ator so independentes e seguemparmetros, critrios e legislaes diversos e, por vezes, incongruentes;

    No existe pactuao e faltam procedimentos comuns aos diversosatores participantes do processo decisrio.

    Fica claro, a partir dos problemas acima elencados, que muitos delespodem ser equacionados por uma abordagem sistmica, tornando maiseficiente e eficaz a gesto do patrimnio cultural. Mas afinal, o que significapensar a gesto do patrimnio cultural como sistema?

    Como muitos que percorrem a temtica dos sistemas, recorrerei conhecida definio de Edgar Morin: sistema um conjunto de partesdiferentes e interligadas que interagem entre si com vistas a uma finalidade. Oconjunto tende a ser maior e a atuar de modo mais eficiente do que a soma desuas partes, fazendo emergir certas qualidades que no existiriam se as partesestivessem isoladas.2

    Partindo dessas premissas, entendo que o objeto do SNPC opatrimnio cultural brasileiro e que sua finalidade conceber e implementarformas de gesto e promoo conjuntas de polticas pblicas integradas,

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    l.1 1. Iphan. Gabinete

    da Presidncia.Quadro do

    Patrimnio Cultural[Impresso]. Braslia:

    Iphan, 2008.

    2. MORIN, Edgar.Por uma reforma do

    pensamento. In:PENA-VEGA,

    Alfredo &ALMEIDA, ElimarPinheiro de (orgs.).Edgar Morin e a criseda modernidade. Rio

    de Janeiro:Garamond, 1969, p.

    21-34.

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  • voltadas proteo, preservao e valorizao do patrimnio culturalbrasileiro, compartilhadas e pactuadas entre entes da federao, instituiesgovernamentais e sociedade civil.

    Tendo em mente a complexidade e a diversidade do setor, ascaractersticas dos atores e o espraiamento territorial do seu objeto, entendoque o SNPC deve se constituir como uma rede de atores articulados com afinalidade de gerir polticas integradas e compartilhadas na rea dopatrimnio cultural, promovendo objetivos comuns e, ao mesmo tempo,baseando-se na autonomia e na interdependncia entre as partes.

    A proposta de um sistema como rede de atores corrobora a tese de queas polticas pblicas contemporneas resultam da interao de atores quepodem ter interesses, metas e estratgias diferentes, mas que tambm podemconvergir por objetivos comuns. Nesse contexto, a definio de polticaspassa a depender da negociao e da construo de acordos firmados entreos vrios atores envolvidos no processo de gesto compreendendo asetapas de elaborao, implementao, monitoramento e avaliao. Entenderum sistema como rede implica aceitar uma mudana estrutural: as antigasestruturas hierarquizadas e unitrias, que definiam as polticas pblicas,precisam ser substitudas por outras estruturas decisrias policntricas,polifnicas e compartilhadas.

    A preservao do patrimnio cultural representa, de fato, um desafiopeculiar para a administrao pblica, por seu carter difuso,interdisciplinar e interinstitucional, exigindo uma reorganizao ereestruturao das prticas polticas e administrativas, ao mesmo tempo emque demanda novos padres de participao, fundamentais para o avanoem relao sustentabilidade entendida aqui em seu sentido mais amplo,isto , como sustentabilidade cultural.3

    A ampliao do conceito de patrimnio cultural e a incorporao dospressupostos do desenvolvimento sustentvel trouxeram novos dilemas edesafios para a gesto do patrimnio cultural. No mbito das discussessobre desenvolvimento sustentvel, destaca-se a dimenso da participaoe a necessidade de aprofundamento das prticas democrticas. Tambmnesse contexto, os conceitos de redes de polticas pblicas (policy networks)e de parcerias interinstitucionais vm sendo crescentemente utilizados,caracterizando um novo modelo de gesto e de relao entre as vrias formasde organizao da sociedade.

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    3. Sarah Staniforth,atual diretora doNational Trust doReino Unido,defende a adoo danoo desustentabilidadecultural comosustentabilidade designificados e valoresassociados aopatrimniocultural. A adooda noo desustentabilidadecultural reflete-sediretamente noobjetivo dapreservao e dasalvaguarda dos bensculturais, que passa aser: usar os bensculturais para asnecessidades dopresente e transmitiro mximo designificados para asgeraes futuras.Ver STANIFORTH,Sarah. Conservation:significance,relevance andsustainability. TheForbes Lecture ofthe 18th Annual IICCongress: Traditionand Innovation.Melbourne: IIC,2000. Disponvel em. Acesso em9/11/2005.

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  • A alternativa das redes, como meio de articulao entre atores, parece sera estratgia mais adequada para a gesto de polticas pblicas no setor dopatrimnio cultural, onde necessrio, como vimos, o enfrentamento deproblemas complexos. Se, para o setor governamental, as redes de polticaspblicas vm se tornando uma necessidade ou uma estratgia eficaz paralegitimar suas polticas e interesses, para a sociedade civil, a constituio deredes de polticas pblicas permite aumentar sua influncia poltica,reivindicando seus direitos e engajando-se em tais arranjos participativos ede governana. preciso reconhecer, entretanto, que as redes de polticaspblicas tm um potencial ambivalente e contraditrio. Por um lado,permitem fomentar a capacidade para a ao coletiva, promovendo aidentidade coletiva e estruturas decisrias mais horizontalizadas e, por isso,supostamente mais democrticas. Por outro, podem provocar novas formasde excluso daqueles setores sociais sem possibilidades de acesso aos novosarranjos institucionais.

    Depreende-se da uma diretriz para a constituio do SNPC: suaestrutura deve ser suficientemente malevel para fazer frente transformao e reestruturao dos processos polticos em curso, sobretudono que diz respeito sua contribuio para a eficincia e eficcia, comotambm para a democratizao e a transparncia das polticas pblicas.

    Finalizando este tpico, proponho um encaminhamento para aestruturao do sistema: o SNPC vem sendo pensado como um subsistemado Sistema Nacional de Cultura SNC, que ser coordenado pelo MinC.Ser necessrio, portanto, institucionalizar canais de articulao entre oSNC, o SNPC e os demais sistemas setoriais do MinC (Museus, Arquivose Bibliotecas). Tratando-se de uma articulao restrita e intra-institucional,creio que a estrutura de coordenao j est dada e deve ser feita no mbitodo Sistema Federal de Cultura SFC.4

    Para alm dessa articulao interna ao MinC, ser necessrio tambmarticular o SNPC a outros sistemas nacionais que tenham afinidade com opatrimnio cultural a exemplo do Turismo, Meio Ambiente, Educao eDesenvolvimento Urbano de forma a promover a transversalidade notrato da questo. Tambm a devero ser criados canais de comunicao,atravs de cmaras ou comisses setoriais, como por exemplo: Patrimnioe Turismo ou Patrimnio e Meio Ambiente.

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    4. O SFC foiinstitudo pelo

    Decreto5.520/2006, cujotexto foi alterado

    pelo Decreto6.973/2009.

    Compem o SFC asseguintes

    instituies: MinC,Iphan, Ancine,

    Fundao BibliotecaNacional, Fundao

    Casa de RuiBarbosa; Funarte,Fundao CulturalPalmares e Ibram.

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  • ATORES E PAPIS

    Na temtica da definio de papis, ocorrem-me algunsquestionamentos sobre os atores e os papis que devem desempenhar nosistema. Alguns atores do primeiro setor devero ter o papel de coordenaodo SNPC: MinC, Iphan, Secretarias Estaduais e Municipais de Cultura,rgos estaduais e municipais do patrimnio, organizados preferen-cialmente em um comit gestor do SNPC. Para permitir a interao entreas partes nas temticas mais especficas, devero ser criados outros canais einstncias de articulao, seja em comisses mais restritas ou em frunsampliados de discusso. Entre as principais atividades desse grupo de atores,destacam-se as atividades de formulao, articulao e execuo integradade polticas, planos e programas; e as proposies de regulao,normatizao e fiscalizao.

    Entre os atores dos segundo e terceiro setores, destaco a importantepresena das ONGs, Oscips (Organizao da Sociedade Civil de InteressePblico), cooperativas, entidades de classe, sindicatos, empresas eprofissionais que atuam no setor do Patrimnio Cultural, alm doschamados detentores do patrimnio cultural, aqueles que do valor esignificado a um determinado bem cultural. Estes tero papel destacado naproposio e definio de diretrizes, estratgias e objetivos para polticas eplanos; na identificao de demandas por programas e aes nas pontasdo sistema, e na participao direta ou indireta em aes, projetos eatividades. Representantes desses setores devero compor o comit gestor,escolhidos atravs de eleies ou por indicao.

    Cumpre ressaltar que os detentores do patrimnio e a sociedade civildevem ser, em ltima anlise, os beneficirios do SNPC; afinal, opatrimnio cultural tem uma funo social a cumprir. A atuao propositivadesses atores deve ocorrer, prioritariamente, em conselhos, fruns econferncias onde se discutam polticas, planos e programas de ao.Cumpre, de imediato, proceder ao cadastro dos atores do segundo e terceirosetores que tenham interesse em participar do SNPC. Esse cadastramentopoder partir do compartilhamento de bases e bancos de dados j montadospelos atores que coordenaro o sistema.

    Os canais mais amplos de participao dos diversos atores da sociedadecivil para proposio, debate e deliberao sobre as polticas pblicas parao setor vm sendo criados pelo MinC: as conferncias; os planos; e osconselhos nacional, estaduais, municipais e setoriais de cultura. Entre os

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  • planos, conferncias e conselhos setoriais est includo, naturalmente, opatrimnio cultural.

    Entre os principais parceiros do SNPC, destacam-se, em meuentendimento: o Ministrio Pblico Federal MPF e as promotoriasestaduais MPEs (dentro da temtica de marcos legais, regulao efiscalizao); as Instituies de Ensino Superior IES (programas e projetosde educao, formao profissional e pesquisa); as Secretarias de Ministriosque tenham programas vinculados ao patrimnio cultural, como osMinistrios do Turismo, Educao, Cidades e Meio Ambiente (fomento,regulao e execuo compartilhada de programas); e algumas outrasinstituies pblicas, como o BNDES, CEF, Banco do Brasil(financiamento e fomento) e Ibama (regulao e fiscalizao). Aparticipao desses parceiros em potencial depender da criao de vnculosinterinstitucionais (atravs de acordos e parcerias), que resultem naimplementao de programas, aes e atividades compartilhadas.

    COMPARTILHAMENTO

    Na temtica do compartilhamento, gostaria de retomar uma provocaofeita pelo professor Ulpiano Bezerra de Meneses, na abertura do Frum,referente distino entre patrimnios federal, estadual e municipal. Noentendimento de Meneses, tal distino desnecessria e no d conta dapluralidade, da diversidade e da mobilidade das diversas manifestaes edos valores e significados associados ao patrimnio cultural. Torna-sepertinente, nesse contexto, saber se o SNPC conseguir abranger ospatrimnios salvaguardados pelos diversos entes federativos e se deverobservar hierarquias de valores que fatalmente resultaro em priorizaesde investimentos pblicos. Em caso positivo, como seriam estabelecidasessas hierarquias de valores e quem as definiria? Continuar sendopriorizado o patrimnio protegido em nvel federal em detrimento doestadual e do municipal?

    SISTEMA NACIONAL VERSUS SISTEMA FEDERALO questionamento anterior permite divisar um desafio particular para o

    Iphan, qual seja o de interiorizar em sua estrutura, em seu corpo tcnico eem sua ao prtica, o entendimento de que o sistema nacional no umsistema federal (o primeiro necessariamente maior do que o ltimo); quea poltica nacional no necessariamente idntica poltica federal; e,

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  • finalmente, que o patrimnio salvaguardado em nvel federal no coincidenecessariamente com o conceito de patrimnio nacional. Aceitar essedesafio acarretar a alterao de conceitos, prticas e procedimentoslongamente estabelecidos pelo rgo federal do patrimnio cultural.

    Apresento alguns nmeros que auxiliam a reflexo sobre a amplitudeatual de atuao do Iphan:

    O Brasil tinha, em 2006, 5.564 municpios;5 e esse nmero s tendea aumentar;

    O Iphan tem, atualmente, bens culturais tombados ousalvaguardados em apenas 297 municpios brasileiros;6

    OMonumenta, considerado o mais ambicioso programa federal narea do patrimnio cultural, atingiu, at 2009, apenas 26 municpiosbrasileiros;

    Espera-se que o recm-lanado PAC das Cidades Histricas PACCH, considerado o sucessor do Monumenta, atinja cerca de 130municpios a partir de 2010.

    Ainda que reconheamos os avanos do Iphan em constituir umaestrutura de atuao descentralizada e bastante capilarizada, necessriofrisar, a partir desses nmeros, que a atuao do Iphan ainda restrita emtermos territoriais. Essa situao s poder ser modificada com areestruturao do rgo federal e com um aporte significativo de recursoshumanos, logsticos e financeiros em mdio e longo praz. Entendo que aestrutura atual do Ibama um bom parmetro para a estrutura que o Iphandeveria almejar.

    O j citado Quadro do Patrimnio Cultural mostrou que as polticas, osprogramas e as aes federais no setor do patrimnio cultural ainda seressentem de uma melhor distribuio por regio geogrfica e por Estado.O maior peso historicamente dado ao patrimnio dos Estados do Rio deJaneiro, Minas Gerais, Bahia, Pernambuco e So Paulo ainda persiste,podendo ser observado tanto no nmero de bens tombados e inventariadosem nvel federal, como pela quantidade de recursos federais do setorinvestidos nesses Estados.7

    Um grande desafio para o SNPC ser, portanto, contrabalanar pesos emedidas historicamente existentes na rea do patrimnio cultural,incentivando a integrao de entes federativos e agentes sociais antes

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    5. IBGE 2006.

    6. Esse nmeroinclui tombamentosprovisrios, pormno incluitombamentos destios arqueolgicos,naturais epaisagsticos, para osquais no encontreidados atualizados esistematizados.

    7. Exemplo clarodessa assertiva a LeiRouanet, que generosa no valordos incentivosconcedidos (mais deR$ 400 milhescaptados em 2007),mas bastanteconcentradora tanto em termosterritoriais (80% dosrecursos, em mdia,vo para os Estadosdo Rio de Janeiro,So Paulo e MinasGerais) como deproponentes (poucosproponentes ficamcom muitosrecursos) e atividades(poucas atividadesrecebem muitosrecursos).

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  • marginalizados no processo de preservao do patrimnio; e, tambm,investir recursos de forma mais equnime entre regies e Estados do pas.

    DESCENTRALIZAODepreende-se, ainda na temtica do compartilhamento, que um dos

    maiores desafios para a construo do SNPC ser a efetiva descentralizaoda gesto do patrimnio cultural. A descentralizao, nesse caso, deve serentendida como transferncia e compartilhamento de atribuies ecompetncias entre a Unio e os Estados; e tambm entre Estados emunicpios. Descentralizao significa, em certa medida, estadualizao emunicipalizao.

    Nesse sentido, vale aqui relembrar, de relance, o processo deinstitucionalizao de polticas pblicas de proteo ao patrimnio culturalno Brasil.

    O nosso primeiro marco legal surgiu em 1937, com a criao do Serviodo Patrimnio Histrico e Artstico Nacional Sphan e a promulgao doDecreto-Lei no 25/37 DL 25/37. Embora o artigo 23 do DL no 25/37tenha estabelecido a competncia do poder executivo para providenciar arealizao de acordos para melhor coordenao e desenvolvimento dasatividades relativas proteo do patrimnio histrico e artstico nacional epara a uniformizao da legislao estadual complementar sobre o mesmoassunto, pouco foi feito nesse sentido at 1970.

    A discusso sobre o compartilhamento entre Unio e Estados, para aproteo do patrimnio cultural, veio tona no I Encontro deGovernadores (Braslia, 1970), resultando na aprovao do Compromissode Braslia, cujas resolues estabeleciam:

    o reconhecimento da necessidade da ao supletiva dos Estados emunicpios atuao federal, no que se refere proteo dos bensculturais de valor nacional;

    a competncia de Estados e municpios na proteo dos bensculturais de valor regional;

    a necessidade de criao de rgos estaduais e municipais para lidarcom a questo patrimonial, devidamente articulados com osConselhos Estaduais de Cultura e com a Dphan (atual Iphan).

    J no II Encontro de Governadores (Salvador, 1971), adotou-se uma

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  • agenda que foi paulatinamente implementada pelos Estados ao longo dadcada de 1970:

    criao de legislao especfica no mbito dos Estados, para aproteo e valorizao dos bens culturais;

    criao dos rgos estaduais de proteo aos acervos naturais e devalor cultural;

    ampliao dos recursos financeiros destinados proteo dos bensculturais nos mbitos federal, estadual e municipal;

    criao de cursos de formao de arquitetos e tcnicos especializadosna proteo dos bens culturais, de muselogos e arquivistas;

    implantao, no ensino fundamental, de disciplinas que visam difuso do conhecimento e da compreenso dos acervos de valorhistrico e artstico existentes no Brasil;

    criao de museus, bibliotecas, e arquivos regionais, estaduais emunicipais;

    publicao e divulgao de trabalhos de pesquisa e documentaosobre aspectos socioeconmicos regionais e sobre acervos culturais.

    importante notar que muitos pontos dessa agenda, do II Encontrodos Governadores, ainda so relevantes e podem ser retomados, com asdevidas adaptaes, no atual esforo de construo do SNPC. Em certamedida, essa constatao demonstra a letargia no campo do planejamentode polticas do patrimnio cultural nos ltimos 40 anos.

    Os Encontros de Governadores e os Compromissos de Braslia eSalvador so, portanto, marcos na descentralizao (estadualizao) daspolticas pblicas e das estruturas de gesto no campo patrimonial. Amaioria dos rgos estaduais de gesto do patrimnio surgiu, de fato, nadcada de 1970, como consequncia da implementao dos Compromissosde Braslia e Salvador.8

    Para esse processo de descentralizao da dcada de 1970, muitocontribuiu o Plano de Cidades Histricas PCH, que vinculou formas definanciamento (o Fundo de Desenvolvimento Integrado) ao planejamentoe execuo de polticas, propiciando o surgimento de estruturas decisriasdescentralizadas. Criou-se, assim, na dcada de 1970, uma primeira

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    8. Honrosas excees regra so osEstados que jhaviam institudoseus rgos dopatrimnio antes de1970: Paran(1953), Guanabara(1964), Bahia(1967) e So Paulo(1968). No caso daGuanabara, aestrutura da suaDiviso doPatrimnioHistrico e Artsticofoi absorvida peloRio de Janeiroquando da fuso dosestados, em 1975.

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  • frmula de poltica nacional e de sistema nacional de gesto dopatrimnio, ainda que muito voltada para a gesto do patrimnio urbano.Como observado por Mrcia SantAnna:

    [...] o PCH veio a ser a primeira poltica nacional de cunho maisamplo em favor da preservao do patrimnio urbano no pas [...]

    O PCH se estruturou num quadro poltico de modernizao doEstado, e de estabelecimento de polticas desenvolvimentistas. [...] Oprograma deflagrou (ainda que involuntariamente) a montagem doprimeiro sistema nacional de preservao no Brasil, ao provocar acriao de rgos estaduais que vieram a compartilhar com o Iphana tarefa de preservao do patrimnio. A inteno do PCH eraestadualizar e, em seguida, municipalizar (o que no chegou a serfeito) a execuo das aes de preservao, integrando-as num sistemafederal de apoio tcnico e financeiro.9

    A partir dos esforos de concatenao poltica dos Encontros deGovernadores, das determinaes dos Compromissos de Braslia e Salvador,e tambm da implementao do PCH, deu-se o primeiro passo para adescentralizao da gesto, resultando na criao de legislaes e estruturasestaduais de gesto em todo o pas.

    Esse primeiro momento de criao de um sistema nacional, infelizmente,foi deixado de lado no incio da dcada de 1980, em decorrncia doabandono do PCH e da redefinio de prioridades federais, aps areformulao do Iphan e a criao da Fundao Pr-Memria.

    Um segundo momento de descentralizao das polticas pblicas amunicipalizao da gesto do patrimnio cultural ocorreu em perodomais recente, principalmente na dcada de 1990.10 Esse novo movimentofoi impulsionado pela promulgao da CF/88 que, alm de alar o DL25/37 condio de arcabouo constitucional, afirmou, em seus artigos215 e 216, a competncia concorrente entre entes federativos para aproteo do patrimnio cultural e a necessidade de cooperao entre poderpblico e sociedade civil para a preservao do patrimnio cultural.

    Como consequncia das novas competncias definidas pela CF/88,foram implementadas, na dcada de 1990, diversas iniciativas federais eestaduais que levaram a discusso sobre gesto do patrimnio cultural parao mbito municipal. Entre essas, so frequentemente lembradas asexperincias do Prodetur (Programa de Desenvolvimento do Turismo no

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    9. SANTANNA,Mrcia. A

    preservao de stioshistricos no Brasil

    (1937-1990)[online]. Disponvel

    em .Acesso em 26 demaro de 2010.

    10. Tambm nessecaso h excees.

    Alguns municpiosforam precursores naimplementao depolticas de gestodo patrimnio nasdcadas de 1970 e1980, como Rio de

    Janeiro, Recife eOlinda.

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  • Nordeste) e do Monumenta, em vrias cidades do pas; do ICMSPatrimnio Cultural, em Minas Gerais; e do Funcultura (FundoPernambucano de Incentivo Cultura), em Pernambuco. Essas experinciastm algumas caractersticas em comum:

    Criam mecanismos de transferncia de recursos federais e/ouestaduais aos municpios que investem na gesto do patrimniocultural;

    Incentivam a criao de rgos ou equipes tcnicas municipais paraa gesto do patrimnio cultural;

    Incentivam a criao de conselhos municipais e de estruturasdecisrias mais democrticas;

    Incentivam a criao de instrumentos municipais de fomento(fundos e leis de incentivo) que sejam sustentveis e possuam algumnvel de controle social.

    Delineia-se, assim, na temtica do compartilhamento, o limiar atual paraa efetiva criao do SNPC: generalizar a institucionalizao, nos Estados emunicpios, dos instrumentos de fomento, de regulao e de participao,que caracterizam essas experincias de gesto bem-sucedidas. Para tanto,ser necessrio criar e implementar marcos legais, federais e estaduais, quecomplementem ou regulamentem o DL no 25/37, incentivando a criaoou o aperfeioamento das estruturas de gesto patrimonial nos Estados emunicpios.

    Essas experincias recentes mostram que as tentativas de regulao einstitucionalizao apresentam sucesso quando vinculadas a programas definanciamento e fomento sustentveis, geridos de forma democrtica e queestabeleamcritrios de repasse baseados em indicadores dedesempenhona gesto.

    COOPERAO E GLOBALIZAOOutro desafio que eventualmente emergir da criao do SNPC refere-

    se s lacunas que existem entre e alm dos nveis federal, estadual e municipal e de suas respectivas estruturas de gesto. No mundo globalizado e emconstante mutao, torna-se necessrio criar instncias e canais decooperao e compartilhamento para gerir o patrimnio regional (queabrange vrios Estados ou municpios) e transnacional (que abrange vrios

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  • pases ou naes), ou seja, aquele patrimnio que vai alm das unidadesfederativas, dos estados nacionais, das fronteiras fsicas e das associaesgeogrficas mais imediatas.11 Para lidar com esses contextos mais fluidos,acredito que o SNPC dever prever a criao de comisses temticas,bilaterais ou multilaterais (orientados por regies, entes federativos,organizaes ou objetos), ligado diretamente ao seu Comit Gestor.

    POTENCIALIDADES DO SNPCMas nem tudo que se refere ao SNPC so desafios, deficincias ou

    problemas. Vrias potencialidades podem ser identificadas, das quais destaco:

    A capilaridade da estrutura de gesto do Iphan, comSuperintendncias em todos os Estados e escritrios tcnicos emvrios municpios brasileiros;

    A existncia de estruturas de gesto em todos os Estados;

    A existncia de estruturas de gesto emmuitos municpios brasileiros;

    A existncia de experincias de gesto ricas, variadas e bem-sucedidas, que serviro de modelo para a estruturao do SNPC;

    A existncia de instrumentos de financiamento e fomento nosdiversos nveis e esferas, ainda que desarticulados entre si;

    A existncia de marcos legais e regulatrios respeitados, de amploconhecimento e em uso h muitos anos;

    O adiantado processo para aprovao do Plano Nacional de Culturae o Sistema Nacional de Cultura.

    Em outras palavras: no estamos saindo do zero e no ser necessriocomear tudo de novo. Os maiores desafios para a construo do SNPC, nomeu entendimento, esto relacionados articulao, integrao, reformaou ampliao de instrumentos j existentes de fomento, coordenao,deliberao, participao e regulao. Para otimizar esse processo,entretanto, ser necessrio investir, de imediato, na gesto da informaoexistente e tambm na compatibilizao e no compartilhamento de bancosde dados referentes a polticas pblicas, programas, aes e projetosestratgicos. Um enunciado simples, mas de difcil operacionalizao, postoque significa alterar estruturas organizacionais estabelecidas e que tendema atuar de forma corporativa.

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    11. Consequnciado surgimento denovas demandasnessa rea so os

    acordosinternacionais de

    cooperao que vmsendo construdos

    pelo Iphan nombito do Mercosule da frica lusfona.

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  • FRENTE PARLAMENTAR EM DEFESADO PATRIMNIO CULTURAL

    Jussara Hockmller Carpes*

    RESUMOA preservao do patrimnio cultural uma questo de cidadania. Seu

    cuidado e proteo dever de todos. A iniciativa de criar a FrenteParlamentar em Defesa do Patrimnio Cultural nasceu em agosto de 2009,na Oficina do PAC convocada pelo Iphan em Braslia. Atenta a todas essasquestes legais e pensando na grandiosidade dos patrimnios culturais doRio Grande do Sul, a Frente Parlamentar emDefesa do Patrimnio Culturalse soma ao Governo Federal, atravs doMinistrio da Cultura e do Institutodo Patrimnio Histrico e Artstico Nacional, em seus programas para apreservao e salvaguarda do patrimnio cultural. No nos basta serpioneiros nessa iniciativa, importante que contagiemos os demais Estados,alm do Rio Grande do Sul para se organizarem e constituirmos a FrenteNacional em Defesa do Patrimnio Cultural.

    PALAVRAS-CHAVEPatrimnio, Dever de todos, Rio Grande do Sul.

    A preservao do patrimnio cultural uma questo de cidadania. Seucuidado e proteo dever de todos. O cidado deve conhecer e participar daconstruo de um processo coletivo social e legislativo , comprometer-se ecobrar dos seus representantes sua implementao, aperfeioamento e plenofuncionamento. S sabe fazer democracia quem sabe fazer leis (Montesquieu).

    Em 1 de outubro de 2009, em Porto Alegre (RS), numa parceria daCmara Municipal de Vereadores de Bag, Unio dos Vereadores do Estadodo Rio Grande do Sul Uvergs, e Instituto do Patrimnio Histrico eArtstico Nacional Iphan, lanamos a Frente Parlamentar em Defesa doPatrimnio Cultural para materializar a compreenso de que todas asquestes referentes proteo e preservao passam pelos legislativos comsua responsabilidade de construir marcos legais em cada local com suasparticularidades e riquezas histricas e culturais. Na qualidade delegisladores, temos a responsabilidade de elaborar leis que respondam s

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    * Vereadora, CmaraMunicipal deVereadores de Bag(RS)

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  • necessidades da proteo e preservao do patrimnio de cada Municpio.

    Essa responsabilidade foi conferida no Decreto-Lei Federal n 25, de 30de novembro de 1937, que vige at hoje e estabeleceu a competncia doEstado Unio, Estados, Distrito Federal e Municpios , quanto iniciativa e aes para proteger, preservar e salvaguardar os bens culturais.Na esfera de atuao dos legislativos municipais, alm da sua importnciae compromisso com a histria e a cultura popular, alguns princpios devemser observados, como a relevncia, a capacidade de produzir os efeitosnecessrios, a harmonizao com o ordenamento vigente, a aplicabilidadee a efetividade das leis que estamos propondo as leis inteis enfraquecemas leis necessrias, (Montesquieu) sempre em consonncia e respeito coma histria e com a cultura construdas pelo povo em cada local.

    O processo de formulao das leis, marcantemente autoritrio,sobrepunha o governo sociedade antes da Constituio de 1988. A partirdo marco constitucional de 1988, a sociedade se sobrepe ao governo princpio fundamental da cidadania e as leis passam a ser produzidas deacordo com as necessidades da sociedade, no municpio representada pelosvereadores. Sob esse novo paradigma, as leis podem e devem ser maisorgnicas, entranhadas na vida do povo em cada local em harmonia com ahistria e a cultura local, nacional e universal, e ao mesmo tempo devemestabelecer capacidade organizacional e operacional para a proteo epreservao do patrimnio.

    A Constituio Federal dispe de diversos dispositivos relacionados coma cultura. O artigo 23 preceitua que competncia comum da Unio, dosEstados e dos Municpios, conforme seu inciso III, proteger osdocumentos, as obras e outros bens de valor histrico, artstico e cultural,os monumentos, as paisagens naturais notveis e os stios arqueolgicos,assim como de competncia comum impedir a evaso, a destruio e adescaracterizao de obras de arte e de outros bens de valor histrico,artstico ou cultural.

    Oportuno, tambm, destacar o texto do artigo 30, que determinaenfaticamente: compete aos municpios promover a proteo dopatrimnio histrico-cultural local, observadas a legislao e a aofiscalizadora federal e estadual.

    Cabe citar o importante contedo sobre a cultura no artigo 215, e emespecial reproduzir o texto que trata do patrimnio, o artigo 216:

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  • Constituem patrimnio cultural brasileiro os bens de natureza material eimaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores dereferncia identidade, ao, memria dos diferentes grupos formadoresda sociedade brasileira, nos quais se incluem:

    I- as formas de expresso;

    II- os modos de criar, fazer e viver;

    III- as criaes cientficas, artsticas e tecnolgicas;

    IV- as obras, objetos, documentos, edificaes e demais espaosdestinados s manifestaes artstico-culturais;

    V- os conjuntos urbanos e stios de valor histrico, paisagstico, artstico,arqueolgico, paleontolgico, ecolgico e cientfico.

    1 O poder pblico, com a colaborao da comunidade, promover eproteger o patrimnio cultural brasileiro, por meio de inventrios,registros, vigilncia, tombamento e desapropriao, e de outras formas deacautelamento e preservao.

    2 Cabem administrao pblica, na forma da lei, a gesto dadocumentao governamental e as providncias para franquear sua consultaa quantos dela necessitem.

    3 A lei estabelecer incentivos para a produo e o conhecimento debens e valores culturais.

    4Os danos e ameaas ao patrimnio cultural sero punidos, na forma da lei.

    5 Ficam tombados todos os documentos e os stios detentores dereminiscncias histricas dos antigos quilombos.

    6 facultado aos Estados e ao Distrito Federal vincular a fundoestadual de fomento cultura at cinco dcimos por cento de sua receitatributria lquida, para o financiamento de programas e projetos culturais,vedada aplicao desses recursos no pagamento de:

    I- despesas com pessoal e encargos sociais;

    II- servio da dvida;

    III- qualquer outra despesa corrente no vinculada diretamente aosinvestimentos ou aes apoiados.

    Jamais, anteriormente, em todas as constituies, a cultura compareceu

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  • de forma to enftica, detalhada, profunda e direta como na atual,promulgada em 5 de outubro de 1988. Este histrico avano, construdono processo de conscientizao da nacionalidade no campo da cultura e dopatrimnio um verdadeiro guia de orientao para o estabelecimento depolticas de ao concreta, tanto por parte da administrao pblica, comopor parte da comunidade e dos cidados.

    pertinente, ainda, lembrar que na Lei Federal n 9.605 de 1998, entreas suas disposies, a seo IV trata dos crimes contra o ordenamentourbano e o patrimnio cultural, e destacar que essa lei foi regulamentada noano seguinte, em 1999, pelo Decreto Federal n 3.179/99, que fixou, almdas penalidades impostas pela lei, os valores das multas aplicveis nos casosdas infraes cometidas contra o patrimnio cultural.

    Atenta a todas essas questes legais e pensando na grandiosidade dospatrimnios culturais do Rio Grande do Sul, a Frente Parlamentar emDefesado Patrimnio Cultural se soma ao Governo Federal atravs do Ministrioda Cultura e do Instituto do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional, quetm programas para a preservao e salvaguarda do patrimnio cultural,formulando, reformulando e aperfeioando novas formas de atuao pararesponder aos desafios e s demandas da cultura, muitas delas represadas equelas novas construdas no cotidiano das comunidades.

    Estamos trabalhando concretamente nas 13 cidades que tmpatrimnios tombados no mbito do Rio Grande do Sul inseridas noPrograma de Acelerao do Crescimento (PAC Cidades Histricas) Antnio Prado, Bag, Caapava do Sul, General Cmara, Jaguaro, NovoHamburgo, Pelotas, Piratini, Porto Alegre, Rio Grande, Santa Teresa, SoMiguel das Misses e So Nicolau mais Itaqui, Rio Pardo e Alegrete queno esto includas no PAC, mas participam da Frente porque tm bens aserem preservados e pretendem desencadear aes para salvaguardar ahistria e a memria do seu povo.

    A experincia de gestora na Secretaria de Cultura de 2004 a 2008 me foifundamental para a compreenso e motivao da importncia da luta e aosocial e poltica para proteger, preservar e salvaguardar o patrimnio nicoe riqussimo dos nossos municpios. Relato algumas aes desencadeadasem Bag, a ttulo de contribuies que possam ajudar outros municpios.

    No ano de 2007, promovemos a Semana do Patrimnio e a jornadaPaisagens culturais: novos conceitos, novos desafios, promovidos pelaPrefeitura de Bag, Instituto do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional

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  • Iphan, Universidade Federal de Pelotas UFPEL, com apoio daUniversidade Regional da Campanha Urcamp, Universidade Federal doPampa Unipampa e Instituto do Patrimnio Histrico e Artstico doEstado Iphae, e l produzimos a Carta de Bag carta da paisagem cultural.A Carta o primeiro documento que trata da paisagem cultural produzidano Pas, e se encontra no site do Iphan.

    Essa trajetria constituiu, alm da compreenso e experincia comogestora da problemtica da cultura e do patrimnio, o acmulo poltico elegitimidade social que levaram eleio do mandato de vereadora em2009; as aes na rea da cultura contriburam significativamente para areeleio do nosso projeto poltico-administrativo no municpio efundamentam o compromisso no Legislativo com as lutas em defesa dacultura e do nosso patrimnio.

    No perodo, avanamos muito nas questes executivas, elaboramosprojetos, obtivemos os recursos e recuperamos/restauramos diversos prdiosde importncia histrica e cultural em Bag, e aprendemos que necessriofazer as legislaes que consolidem esses avanos. insuficiente avanarmossem consolidar no ordenamento legal do municpio as aes realizadas. Dadecorreu a maior motivao para enfrentar o desafio de trabalhar noLegislativo, bem como o respeito identificao com a cultura e arepresentao que a sociedade conferiu ao mandato.

    Nesse sentido, desencadeamos diversas aes no mbito da Cmara deVereadores. No primeiro momento, propusemos e foi constituda umaComisso Especial para tratar do patrimnio; colocamos no Plano Plurianual PPA, na Lei de Diretrizes Oramentria LDO e no Oramento Anualdiretrizes e recursos (valores ainda insuficientes aportados no mbito federal;nos municpios, sabemos que os municpios investem pouqussimo emcultura, Bag investiu 2% em cultura); trabalhamos na consolidao das leismunicipais e fizemos a consolidao das leis sobre patrimnio; fizemosemendas lei ampliando e qualificando a composio do ConselhoMunicipal do Patrimnio; realizamos no dia 17 de agosto, que o Dia doPatrimnio, Sesso Solene na Cmara; criamos o Memorial da Cmara deVereadores; fizemos uma exposio de maquetes em parceria com aUniversidade da Regio da Campanha Urcamp, onde alunos da Faculdadede Arquitetura mostraram maquetes de todos os nossos prdios histricosrecuperados; estamos trabalhando legislao para desnudar os nossospatrimnios (publicidade e propaganda imprprias em tamanhos e locais).

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  • A iniciativa de criar a Frente Parlamentar emDefesa do Patrimnio Culturalnasceu em agosto de 2009, na Oficina do PAC convocada pelo Iphan emBraslia. Incomodada de estar nessa reunio com representantes deaproximadamente 170municpios e no existir ali representao de vereadores,s os executivos, comeamos a pensar o que fazer como legisladores paraassumir nosso lugar de responsabilidade compartilhada e contribuir desde alegitimidade que a sociedade nos confere para elaborar as leis.

    A Frente rene mensalmente vereadores das cidades includas no PACCidades Histricas mais Alegrete, Rio Pardo, Itaqui e recentemente SoJos do Norte, fizemos um blog, realizamos o primeiro seminrio Legislaoda Proteo do Patrimnio Cultural e Atuao Municipal.

    A Coordenao tem incentivado os legisladores municipais a trabalhara temtica do patrimnio nos Planos Diretores, na constituio deConselhos de Proteo ao Patrimnio, Fundos Municipais, criao deMemoriais, Comisses Especiais nas Cmaras.

    Na esfera municipal, o poder pblico sempre tem privilegiado edestacado papel, hoje, contudo, assume funo de protagonista ao ser oprincipal responsvel pela formulao, implantao e avaliao permanentede sua poltica de salvaguarda dos seus patrimnios, visando garantir a todoso direito aos patrimnios culturais.

    As leis sozinhas podero ser claras, no resolvero os histricos problemasda sociedade, contudo os municpios tm a oportunidade de cumprir damelhor maneira, e ativamente, seu papel de sujeitos, responsveis que sopela formulao, implementao e avaliao da poltica de preservao dospatrimnios culturais, permitindo que todos os moradores de nossas cidadessejam beneficirios das aes implantadas.

    O tempo das leis o tempo da democracia. Ao fazer uma lei, o legisladorprecisa usar o tempo a favor do cidado e da sociedade. O processo deelaborao da lei impe que sejam analisadas todas as caractersticas queenvolvem o problema que a justifica e todas as variveis que se relacionamcom a soluo que ela prope.

    , ento, um desafio que cada municpio tenha sua Cmara Legislativatrabalhando legislao sobre a proteo dos seus bens, tanto materiais quantoimateriais. No nos basta ser pioneiros nessa iniciativa, importante quecontagiemos os demais Estados, alm doRioGrande do Sul para se organizareme constituirmos a Frente Nacional em Defesa do Patrimnio Cultural.

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  • O PATRIMNIO CULTURALBRASILEIRO E O CONTEXTO

    INTERNACIONAL

    Marcelo Brito*

    RESUMOTrata-se de uma explanao dos instrumentos necessrios para o

    desenvolvimento de uma poltica de cooperao internacional na rea dopatrimnio cultural. O texto apresenta, de forma pontual, os instrumentospara o estabelecimento desse trabalho compartilhado na identificao epreservao de um patrimnio considerado de interesse comum, entre ospases sul-americanos e os pases de lngua portuguesa. Essa poltica de apoiointernacional tem buscado, sobretudo, a atualizao das noes depatrimnio e da capacidade de desenvolvimento de aes a partir dessesnovos conceitos. Entre as metas, est o estabelecimento de estratgias definanciamento, atravs de uma abordagem do patrimnio cultural comoelemento propulsor do desenvolvimento regional.

    PALAVRAS-CHAVECooperao internacional, Histria, Patrimnio comum.

    Tomando como referncia o patrimnio cultural, tanto dos pasesintegrantes da Unio das Naes Sul-Americanas Unasul, quanto dospases da Comunidade de Pases de Lngua Portuguesa CPLP, tem-se,como princpio para atuao no campo do fomento cooperaointernacional, o reconhecimento das heranas compartilhadas como basepara elaborao de projetos de cooperao tcnica.

    No Brasil, para o desenvolvimento de iniciativas de cooperaointernacional, tem sido levado em considerao o estado da arte doarcabouo conceitual relacionado ao patrimnio cultural. Reconhece-se queo atual momento est imerso no campo da reviso e repactuao do prprioconceito de patrimnio. Tem sido levado em conta:

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    *Assessor deRelaesInternacionais doIphan

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  • A trajetria histrica de alargamento do conceito de patrimnio esua aproximao na atualidade ao campo da geografia cultural Geocultura;

    O patrimnio como uma leitura atualizada do territrio para aidentificao da interseo entre:

    Histria e geografia: marcas do processo de ocupao do territrio;

    Elementos notveis naturais como condicionantes das ocupaes:referncias fsico-simblicas;

    Naes culturais e territrio: cartografia cultural comoresultado/leitura da dimenso antropolgica do patrimnio.

    As perspectivas de cooperao em curso indicam que:

    As relaes entre os pases e a existncia de marcas, nos territriose nas culturas decorrentes dos processos de sua ocupao, propiciamo estabelecimento de itinerrios culturais e um impacto mais amplona cultura local;

    A identificao e reconhecimento de processos histricos seme-lhantes uma necessidade, como signos de memria desses processos,ressaltando suas semelhanas e particularidades;

    O desenvolvimento e a atualizao de capacidades e possibilidadesde contribuio do Brasil uma exigncia para que as iniciativassejam sustentveis.

    Assim sendo, consideram-se importantes os seguintes aspectos, nasrelaes bilaterais que o Brasil tem mantido com pases de lnguaportuguesa, por exemplo:

    De natureza geogrfica: reconhecimento das semelhanas geo-grficas, ambientais, demogrficas, entre outras caractersticas;

    De natureza histrica: entendimento comum quanto ao processode ocupao e desenvolvimento desse territrio, considerando osfatos histricos indicativos, como marcos de referncia que nopodem falar por si prprios, isoladamente, na construo danarrativa que se deseja;

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  • De natureza cultural: identificar as matrizes culturais confor-madoras, os intercmbios produzidos entre as partes envolvidas e osprodutos decorrentes bens culturais materiais e/ou imateriais,constituindo um patrimnio cultural comum.

    Quanto aos processos histricos vividos, tem-se considerado:

    A colonizao portuguesa e sua miscigenao: caractersticas dopatrimnio construdo (adaptao a materiais e a outras culturas, suarelao com o meio fsico e humano);

    Os povos originrios e seu legado: movimentos de resistncia e defuso;

    O apoio transmisso de saberes tradicionais: os inventrios comoferramenta para a produo de conhecimento e de construo deprocessos de preservao e salvaguarda desse patrimnio culturalcomum.

    As iniciativas de cooperao internacional tm se centrado nodesenvolvimento e atualizao de capacidades das partes envolvidas. Aspossibilidades de contribuio do Brasil, nesse processo, tm incidido,especialmente, em:

    Apoio ao estabelecimento de estratgias de financiamento dopatrimnio cultural e de seu uso como insumo para o desen-volvimento regional;

    Fomento a inventrios integrados e medidas efetivas de proteo;

    Orientao, quanto identificao de stios e manifestaesculturais, para integrar as listas de patrimnio mundial.

    O panorama das aes desenvolvidas e em desenvolvimento pelo Iphan,rgo nacional brasileiro responsvel pela poltica e gesto do patrimniocultural no pas, :

    Atualizao da lista indicativa nacional ao Patrimnio Mundial;

    Assessoramento formulao dos dossis de candidatura aoPatrimnio Mundial;

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  • Desenvolvimento de projetos de cooperao tcnica, a exemplo doscasos de Angola, Paraguai, Bolvia, Benim e El Salvador, que seencontram em diferentes estgios de implementao;

    Implantao de Centro Regional de Formao para Gesto doPatrimnio, no Rio de Janeiro, voltado para os pases da Amrica doSul, preferencialmente do Mercosul, e da frica, preferencialmentepara os pases integrantes da CPLP Comunidade de Pases deLngua Portuguesa;

    Promoo de intercmbio de troca de experincias e informao;

    Difuso de documentos internacionais na lngua portuguesa;

    Participao em reunies e fruns internacionais, como: CentroRegional para a Salvaguarda do Patrimnio Cultural Imaterial daAmrica Latina Crespial; Mercosul Cultural Comisso dePatrimnio Cultural; Ibas Frum ndia, Brasil e frica do Sul; eUnesco Comit do Patrimnio Mundial;

    Promoo de itinerrios culturais doMercosul, como estratgia paraa valorizao do patrimnio cultural regional e via para o desen-volvimento sustentvel da regio.

    De modo expedito, os projetos de cooperao tcnica bilateral, entre oBrasil e terceiros pases, tm incidido na assistncia tcnica prestada para aatualizao tcnico-institucional do seu rgo nacional de patrimniocultural, especialmente quanto aos princpios e procedimentos atinentes aodesenvolvimento de sua poltica nacional e de sua gesto correspondente,o que tem envolvido e pode envolver:

    Assistncia tcnica, quanto gesto do patrimnio mundial; modernizao de seus equipamentos culturais, vinculados preservao e salvaguarda do patrimnio cultural do pas; recuperao do patrimnio material, em especial ao patrimnioedificado e aos stios histricos urbanos;

    Assistncia tcnica formulao de candidaturas para a incluso debens culturais na Lista do Patrimnio Mundial e na Lista doPatrimnio Cultural Imaterial da Humanidade;

    Apoio ao desenvolvimento de projetos de interveno, para umacorreta proposio, no bem cultural protegido;

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  • Apoio estruturao de sistema de salvaguarda do patrimniocultural imaterial, para o adequado processo de identificao, registroe fomento desse bem cultural;

    Apoio capacitao tcnica de profissionais, a partir do CentroRegional de Formao para Gesto do Patrimnio Cultural, ainstalar-se no Rio de Janeiro a partir de 2010;

    Intercmbio de documentao tcnico-especializada, especialmentepara o desenvolvimento dos fundos documentais, tanto no pascooperado como no Centro Regional de Formao para Gesto doPatrimnio, mediante a constituio de uma Biblioteca de Referncia,para gestores, pesquisadores e tcnicos do patrimnio.

    Aspectos importantes tm sido levados em conta no desenvolvimento dessesprojetos e tm orientado a sua formulao e implementao, quais sejam:

    Analisar se h baixa institucionalidade do quadro funcional doorganismo nacional responsvel pela gesto da preservao do patrimniocultural do pas; aspectos como rotatividade, descontinuidade, perda dememria institucional e baixo acmulo de conhecimentos produzidosem funo da atuao institucional so avaliados;

    Verificar se h reduzida possibilidade de investimento direto, porparte do organismo nacional, no seu processo de fortalecimentoinstitucional: avaliar a capacidade de gesto e o efetivocomprometimento poltico-institucional com a iniciativa;

    Avaliar em que medida, para o desenvolvimento das iniciativas decooperao internacional, tais aes demandammobilizao poltica,de ambas as partes, de difcil concretizao, em funo da conjunturapoltica em que se pretenda desenvolver tais aes de cooperaointernacional: reconhecer este marco definidor do projeto decooperao tcnica.

    Diante do mencionado, reconhece-se que tem sido muito rica, produtivae interativa a interao instalada entre o Iphan, enquanto instituiobrasileira atuante na rea do patrimnio cultural e, por excelncia, com osdemais pases da regio sul-americana e pases africanos de lnguaportuguesa.

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  • O PATRIMNIO CULTURALBRASILE IRO E OS DESAFIOS DO

    COMPARTILHAMENTO DE

    COMPETNCIAS

    Leonardo Barci Castriota*

    RESUMONeste texto discute-se o desafio do compartilhamento das competncias

    no campo do patrimnio cultural, onde atuam os diversos nveis de governo federal, estadual e municipal. Para mostrar a desarticulao bastantecomum desses nveis, toma-se o caso de Ouro Preto (MG), tombado aindana dcada de 1930 pelo Iphan e que tem sido objeto da ao dos diversosagentes. O texto tratar, ainda, da modificao essencial que o campo dopatrimnio tem sofrido nas ltimas dcadas, com a introduo de novosgrupos e agentes, o que tambm coloca em outros termos as bases daspolticas pblicas na rea.

    PALAVRAS-CHAVEPatrimnio, Gesto, Agentes.

    A construo de um Sistema Nacional de Patrimnio Cultural,desafio, hoje, colocado a partir de iniciativa do Iphan, constitui ummomento decisivo na trajetria das polticas do patrimnio no Brasil,passo que representar o culminar de um processo de ampliao da reae de descentralizao das competncias e responsabilidades. De fato,desde os anos de 1970, quando, a partir dos compromissos de Braslia eSalvador, inicia-se a criao de rgos estaduais e municipais de proteodo patrimnio, comea-se a se exercer, de fato, em nosso pas, ocompartilhamento de competncias na rea do patrimnio, com essesoutros entes federativos assumindo lentamente, verdade suasatribuies.1

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    * Arquitetourbanista e doutor

    em filosofia,professor da UFMG;

    pesquisador doCNPq e da Fapemig;autor e organizadorde diversos livros

    1. A esse respeito,confira

    CASTRIOTA,Leonardo Barci.

    Patrimnio cultural.Conceitos, polticas,instrumentos. So

    Paulo: Annablume-Ieds, 2009, p.

    158-165.

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  • O novo Sistema Nacional de Patrimnio Cultural, hoje proposto, virresponder necessidade premente de articulao das polticas pblicas, jexistentes, e que se apresentam com os mais diversos arranjos institucionais,desenvolvendo uma rede de atores e a perspectiva de uma aoverdadeiramente integrada. Com isso, estaremos enfrentando um dosmaiores problemas de nossa rea: a desarticulao entre os diferentesagentes, que acarreta repetio de esforos, desperdcio de recursos e, muitasvezes, a perda de preciosos bens culturais.

    A DESARTICULAO DOS ATORES:O CASO DE OURO PRETO

    A competncia concorrente entre os diversos nveis federativos,estabelecida na Constituio de 1988 para o campo do patrimnio, poderiasignificar um reforo na atuao na rea, com os diversos nveis de governocontribuindo para preservar o patrimnio cultural nacional. No entanto,nem sempre assim, e, muito frequentemente, assistimos a aesdescoordenadas e mesmo conflitantes dos governos.

    O caso de Ouro Preto exemplifica bem, a nosso ver, a desarticulaoentre os diversos rgos responsveis pela preservao e administrao dascidades brasileiras: ali vamos ter a ao de trs nveis de governo federal,estadual e municipal que, ao longo da trajetria de preservao queremonta ainda aos anos 1930, nem sempre agiram na mesma direo oucolaboraram entre si. Ao Servio do Patrimnio Histrico e ArtsticoNacional Sphan, o rgo federal responsvel pelo tombamento, pareciacaber a responsabilidade pela manuteno e conservao de Ouro Preto,desde 1938, incluindo a inspeo e a coordenao de projetos e manutenode museus. O Estado, representado pelo Instituto Estadual do PatrimnioHistrico e Artstico de Minas Gerais Iepha, a partir dos anos de 1970,protege alguns distritos e, como veremos, atravs da Fundao JooPinheiro, tenta articular um grande plano urbano no mbito do Programade Cidades Histricas. J a Prefeitura, principal responsvel pelaadministrao da cidade e pelo controle do uso do solo urbano, tendia,muitas vezes, como representante dos interesses locais, a se contrapor aoSphan e s suas polticas, que eram vistas como entraves ao desenvolvimentoda cidade, fazendo com que conflitos entre os nveis de poder se tornassemmuito comuns. Na opinio de um arquiteto do Sphan, tomada h mais deuma dcada, o Governo local costuma se omitir da responsabilidade pela

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  • conservao do patrimnio local, fazendo o trabalho do Sphan ainda maisdifcil.2

    interessante percebermos que esse conflito vai se acirrar, de fato, a partirdos anos de 1950, quando, com o incio da explorao do alumnio, a cidadede Ouro Preto ganha novo impulso econmico, sofrendo grande crescimentopopulacional. Para abrigar essa populao, atrada por ela, a indstria Alcanimplanta um novo bairro nos limites da cidade, que articulado como umdistrito industrial, com uma estrutura urbana funcionalista, em tudodiferente da tradicional. No entanto, como nem toda a demandahabitacional pde ser absorvida por esse bairro, o ncleo histrico passa asofrer uma presso inusitada. Assim, o centro, que se mantinha praticamenteinalterado desde os fins do sculo XVIII, sofre um processo de expanso,levando ao aproveitamento de todas as suas reas perifricas, onde soconstrudas edificaes, na sua maioria, de baixo padro.3

    Para se ter uma ideia do nmero de novas construes, basta um dado:ao se tombar o conjunto, em 1938, este tinha aproximadamente 1.000edificaes; somente entre 1938 e 1985, so aprovadas 3.000 construesnovas. Alm disso, digno de nota o processo de adensamento do ncleooriginal, onde as edificaes passam a sofrer remanejamentos internos,numa tentativa de se abrigar um nmero maior de pessoas. Nesse processo,tambm so ocupados por novas construes os lotes vagos e mesmo osgrandes quintais, alterando-se, significativamente, a relao de cheios evazios no conjunto. Como se poderia esperar, as presses modernizadorasfazem com que cresa o antagonismo entre a populao local,sistematicamente excluda da formulao das polticas de preservao, e oSphan, que tenta manter o conjunto intacto, atravs de um controle,basicamente esttico, na aprovao de projetos.

    Tambm a partir dessa poca, a cidade comea a ser alvo de um turismode massa, atrado, principalmente, pelo valor histrico e pela atmosfera doconjunto barroco, nico no Brasil. O turismo cria impactos na vidacotidiana da cidade, com a redefinio de usos e ocupaes de algumas reasdo centro histrico e a transformao de habitaes em hotis ouestabelecimentos comerciais. Trata-se, basicamente, de um turismo cultural,perfil que vai ser reforado no final da dcada de 1960, quando comea aacontecer na cidade o Festival de Inverno, organizado pela UniversidadeFederal de Minas Gerais, que tem por objetivo a promoo de cursos eoficinas relacionadas a diferentes atividades artsticas.

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    l.1 2. BERNDT,

    Angelita. Urbanconservation:Comparison

    between Brazil andEngland.

    Manchester:University ofManchester;

    Department ofPlanning and

    Landscape, 1995, p.221. Esse tipo de

    conflito s comea aser equacionado

    quando, em 1993, secria o Grupo deAssessoramentoTcnico (GAT),formado numa

    tentativa de realizar aarticulao dasdiversas esferasgovernamentaisenvolvidas noprocesso de

    preservao dopatrimnio.

    3. A esse respeito,confira ALBANO,Celina et al. Entre oslimites do passado e asdemandas do futuro:anlise da cidadehistrica de Ouro

    Preto, Minas Gerais.Cadernos deArquitetura e

    Urbanismo. BeloHorizonte: PUC,1994 (Caderno 1),

    p. 104.

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  • Dessa maneira, tanto a industrializao quanto o turismo representamfatores de desenvolvimento que vm alterar profundamente o quadro emque a cidade de Ouro Preto se encontrava poca de seu tombamento. Noentanto, ao considerarem, como vimos, a cidade obra de arte, as polticasde preservao, a implementadas, nunca puderam incorporar, de fato, essesnovos agentes, no conseguindo elaborar estratgias que lograssemcompatibilizar preservao e desenvolvimento. No final dos anos de 1960,com a cidade se espalhando, sem controle, para todos os lados, e com acrescente descaracterizao do conjunto original, colocava-se, ento, cadavez mais, a urgncia de um planejamento urbano. Assim, em 1968, oarquiteto portugus Viana de Lima, consultor da Unesco, elabora umprimeiro plano de desenvolvimento para a cidade, que consistiu,basicamente, num zoneamento, com a definio de reas de preservao ede expanso.

    Alguns anos mais tarde, de 1974 e 1975, a Fundao Joo Pinheiro,rgo de planejamento do Estado, atravs de uma equipe multidisciplinarsob a coordenao do urbanista Rodrigo Andrade, e que contava com aparticipao de arquitetos, economistas, socilogos, historiadores egelogos, alm da consultoria do prprio Viana de Lima e do paisagistaRoberto Burle Marx, elabora um novo plano para Ouro Preto. Tratava-se,desta vez, de um amplo trabalho, que inclua projetos que contemplavamtanto a infraestrutura urbana, paisagismo e restaurao de monumentos,quanto os aspectos sociais, econmicos, institucionais e administrativos.Alm disso, formulava-se, tambm, um projeto de expanso urbana para acidade, recomendando-se a criao de novos ncleos, de forma a assegurarum processo compatvel de desenvolvimento, sem afetar a integridadehistrica do conjunto. No entanto, uma srie de dificuldades de ordeminstitucional faz com que esses planos nunca sejam implementados, e quenunca venham a ser aprovados pelo municpio, no tendo nenhum efeitosobre as polticas urbanas.

    UMA NOVA ARTICULAO DO CAMPO: A EMERGNCIADE NOVOS ATORES

    Quando se coloca, no horizonte, a possibilidade de implantao de umSistema Nacional de Patrimnio Cultural, que venha articular as polticaspblicas da rea atravs de uma rede de atores, importante no perder devista, tambm, uma modificao essencial que o campo do patrimnio tem

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  • sofrido nas ltimas dcadas com a introduo de novos grupos e agentes(stakeholders), o que tambm coloca, em outros termos, as bases das polticaspblicas na rea. J em 1992, Franoise Choay apontava que ao lado daexpanso tipolgica, cronolgica e geogrfica dos bens patrimoniais, o seupblico teria tido um crescimento exponencial, passando o patrimnio deobjeto de culto a indstria.

    Finalmente, o grande projeto de democratizao do saber, herdado dasLuzes e reanimado pela vontade moderna de erradicar as diferenase os privilgios na fruio dos valores intelectuais e artsticos, aliadoao desenvolvimento da sociedade de lazer e de seu correlato, o turismocultural dito de massa, est na origem da expanso talvez maissignificativa, a do pblico dos monumentos histricos aos grupos deiniciados, de especialistas e de eruditos, sucedeu um grupo em escalamundial, uma audincia que se conta aos milhes.4

    Para a autora, essa democratizao do campo do patrimnio acontecesimultaneamente sua transformao emmercadoria, inserindo-se na lgicada indstria cultural: os bens culturais, alm de propiciarem saber e prazer,passam, agora, a ser tambm produtos culturais, empacotados edistribudos para serem consumidos. O seu valor de uso se meta-morfosearia em valor econmico graas engenharia cultural, cuja tarefa,em ltima instncia, seria a de multiplicar indefinidamente o nmero devisitantes. Entre os vrios autores contemporneos que apontam parafenmenos semelhantes, poderamos citar, ainda, o crtico alemo AndreasHuyssen, que desenvolve a ideia segundo a qual, numa reao globalizao(ou exatamente atravs dela), o mundo estaria se musealizando ao trocaro conceito (iluminista) do progresso pela idealizao das tradies. Para ele,tambm a reciclagem e a explorao pela indstria cultural de tpicosrelacionados memria, contribuiriam para a expanso das preocupaesrelativas memria na esfera pblica, gerando uma espcie de cultura damemria, que se impe desde os anos 1980.5

    No entanto, a nosso ver, esse fenmeno no deveria ser visto unicamenteatravs de uma faceta negativa, podendo-se constatar, concomitantemente,uma efetiva democratizao no campo do patrimnio, na medida em queesse novo pblico no ir ser apenas consumidor passivo de produtosculturais,mas atuar, tambm, como cidado em relao ao seu patrimnio.O fato que, como tem sido recorrentemente apontado por vrios autores,a partir da ltima dcada do sculo XX, as polticas pblicas tm sofrido

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    4. CHOAY,Franoise. A alegoriado patrimnio. So

    Paulo: EstaoLiberdade-Unesp,

    2001, p. 210.

    5. HUYSEN,Andreas. Seduzidos

    pela memria. Rio deJaneiro: Aeroplano,

    2000.

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  • uma grande modificao, especialmente em resposta aos processos deglobalizao, descentralizao e reforma do Estado.6 A sociloga Maria deLourdes Dolabela, no interessante trabalho As polticas pblicas para apreservao do patrimnio, discute exatamente os rebatimentos dessamudana mais ampla no campo do patrimnio. Em sua opinio, tanto aadoo de novos dispositivos legais e interinstitucionais quanto amultiplicao de interlocutores dentre os quais se destaca apreponderncia das comunidades, demandariam, hoje, alteraes naspolticas de gesto do patrimnio cultural, urbano e ambiental.7

    Assim, ao lado de uma verdadeira exploso do campo de patrimnio,que passa da noo de monumento nico ampla ideia de bem cultural,assistiramos, no final do sculo XX, ao deslocamento dos centros dedeciso, com a emergncia de uma poliarquia de atores, o que no pode serignorado na implementao de qualquer poltica pblica nacontemporaneidade.

    De fato, tais mudanas vm impactar fortemente na prpria naturezadas polticas pblicas na rea do patrimnio, que passam a ter um novodesenho, no mais hierarquizado, e outra lgica, complexa e, por issomesmo, no mais explicvel pela relao binria: Estado e sociedade. Acentralidade do Estado, que tinha sido inconteste desde o incio dainstitucionalizao das polticas de patrimnio, ser abalada e ser, aospoucos, substituda, como aponta Pereira, por relaes contratuais entreEstado e coletividades locais, crescendo a importncia da coordenao deatores com interesses e lgicas diferentes. Nessa nova configurao, que seliga s novas polticas da cidade, passam a desempenhar papel importanteos conselhos do patrimnio, as parcerias, a contratualizao e as negociaesurbanas envolvendo diferentes atores pblicos e privados.

    No caso brasileiro, cabe chamar a ateno para o importante papeldesempenhado pelos conselhos do patrimnio, especialmente depois dapromulgao da Constituio de 1988, que estabeleceu novas prerrogativase competncias s instncias de poder e, a partir da, ganhou destaque emagendas locais no Brasil a abertura de canais de participao, espaos decogesto entre sociedade civil e Estado. Nesse sentido, a Carta Magna jestabelece em seu texto, pela primeira vez na legislao brasileira, que cabeao Poder Pblico, com a colaborao com a comunidade, promover aproteo do patrimnio cultural, abrindo, com isso, o espao para amultiplicao dos conselhos por todo o Pas, que passam a ter a funo de

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    papis6. Nesse sentido,

    cabe destacar aschamadas novaspolticas urbanas,com a introduo deparcerias, a adooda forma contratuale as negociaesurbanas que ocorremhoje no mbito daspolticas pblicas,sobretudo nas reasde reabilitao, depreservao dopatrimnio, do meioambiente, daspolticas sociais e decapacitao de mode obra, mastambm na polcia ena justia, entreoutros. Confira, aesse respeitoROLNIK, Raquel I.Planejamento urbanonos anos 90: novasperspectivas paravelhos temas; In:RIBEIRO, L. C. &SANTOS JR.,Orlando.Globalizao,fragmentao ereforma urbana: ofuturo das cidadesbrasileiras na crise.Rio de Janeiro:CivilizaoBrasileira, 1994, p.351-360.

    7. PEREIRA, Mariade Lourdes D. &MACHADO,Luciana Altavilla V.P. As polticaspblicas para apreservao dopatrimnio. Frum.Conservao Urbanae Gesto doPatrimnio. 2(1),2008.

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  • estabelecer as polticas de patrimnio. Em relao ao carter legal dessasinstncias deliberativas, Moreira chama a ateno para as suas prerrogativas,definidas pelas leis especficas que as criam:

    Os conselhos constituem-se em instncias de carter deliberativo,porm no executivo; so rgos com funo de controle, contudono correcional das polticas sociais, base de anulao do poderpoltico. O conselho no quebra o monoplio estatal da produodo Direito, mas pode obrigar o Estado a elaborar normas de Direitode forma compartilhada [...] em cogesto com a sociedade civil.8

    SegundoMaria de Lourdes Pereira, com os conselhos se rompe o carterhierrquico tradicional nas polticas pblicas, ampliando-se a participaodas comunidades na elaborao, discusso, fiscalizao e deciso sobre aexecuo das polticas de planejamento e desenvolvimento social urbano,incluindo os direitos sociais e coletivos gesto urbana democrtica.Estamos, ento, diante de rgos hbridos que constituem uma novaforma institucional que envolve a partilha de espaos de deliberao entreas representaes estatais e as entidades da sociedade civil.9 Aqui est agrande inovao: apesar de se encontrarem vrios tipos de conselhos variando em relao s suas atribuies, composio, jurisdio territorial,carter gestor, fiscalizador ou deliberativo, o compartilhamento deresponsabilidades Estado/sociedade civil que representa o elementoverdadeiramente novo nesses arranjos institucionais.

    importante percebermos, tambm, o novo papel do Estado nessesnovos arranjos das polticas de patrimnio: deixa de desempenhar um papelnegativo, de apenas impor restries descaracterizao, e passa a articularprojetos de desenvolvimento para as reas a serem preservadas, conservadase revitalizadas. Alm disso, tambm deixa de atuar praticamente sozinho epassa a desempenhar o importante papel de articular os outros atores e detraar em conjunto com eles os cenrios de desenvolvimento futuro.Estamos, aqui, diante de um novo padro de gesto, caracterizado porDavid Harvey como empreendedorismo urbano, onde se d odesenvolvimento de polticas que, por meio da participao da iniciativaprivada, em parceria com as administraes locais, empreendem arecuperao de reas degradadas nas cidades. Com isso, introduz-se,tambm, novo padro de planejamento das cidades, que passa a estarcomprometido com a negociao e o estabelecimento de parcerias entreatores pbicos e privados. Assim, como observa Fernanda Sanchez, a figura

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    8. MOREIRA,Maria Targuina

    Vieira. Instnciasdeliberativas dos

    sistemasdescentralizados eparticipativos das

    polticas pblicas decunho social:

    contorno jurdicodos conselhos.Informativo

    Cepam,p. 65. SoPaulo: Cepam-

    Fundao PrefeitoFaria Lima, 1999.

    9. PEREIRA, Mariade Lourdes D. &MACHADO,

    Luciana Altavilla V.P. Op. cit.

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  • do planejador, que at pouco tempo atrs era, ao menos explicitamente, ado regulador da ao da iniciativa privada, deixa de ter o perfil do vigilanteem prol do bem pblico, desempenhando, agora, um novo papel: o depromotor de crescimento.10

    Essas modificaes tm um rebatimento quase imediato na prpriapercepo do campo do patrimnio: de uma operao que pareciasimplesmente tcnica, passa-se percepo de que o patrimnio , em suaessncia, poltico e controverso. Com isso, no corao da pesquisacontempornea, interdisciplinar e crtica, est fortemente estabelecida, hoje,a noo de que o patrimnio cultural uma construo social, resultado deprocessos sociais especficos, espacial e temporalmente, como foidemonstrado magistralmente por Franoise Choay em A alegoria dopatrimnio. Hoje se sabe que objetos, colees, edificaes e lugares soreconhecidos como patrimnio, atravs de decises conscientes e/ouvalores no explicitados por instituies e pessoas, e por motivos quetambm so fortemente moldados por contextos e processos sociais. nessadireo que vai aparecer como premente a necessidade de se esmiuar osvalores em jogo, na conservao do patrimnio cultural, o que tentado porvrias teorias do valor, que, a nosso ver, oferecem um marco importantena tentativa de se estabelecer fundamentos tericos mais rigorosos para area da conservao. 219

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    10. SNCHEZ,Fernanda. Polticasurbanas emrenovao: umaleitura crtica dosmodelos emergentes.Revista Brasileira deEstudos Urbanos eRegionais. n. 1, mai.de 1999, p. 119.

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  • ATUAO DO CONSELHOINTERNACIONAL DE MONUMENTOSE STIOS (ICOMOS) NAPRESERVAO DO PATRIMNIO

    CULTURAL: EXPERINCIAS EDESAFIOS

    Rosina Coeli Alice Parchen*

    O Icomos foi fundado em 1965, em Varsvia, Polnia, um ano depoisda assinatura da Carta de Veneza documento internacional que trata daConservao e Restaurao de Monumentos e Stios. uma associaomundial que congrega profissionais que se dedicam conservao e proteo do patrimnio cultural. Sua ao consolida-se por meio deintercmbios interdisciplinares de seu quadro de associados, composto porarquitetos, urbanistas, historiadores, arquelogos, historiadores de arte,antroplogos, engenheiros, entre outros.

    Os membros do Icomos contribuem para o incremento da preservaodo patrimnio cultural em escala mundial, com a formulao de propostas,diretrizes e recomendaes para as aes atinentes aos mais diversos benspatrimoniais: arquitetnicos, urbansticos, paisagsticos, arqueolgicos, bemcomo aqueles de carter imaterial.

    O Icomos um foro de mbito internacional, no qual sodiscutidos aspectos da conservao, da promoo e da gesto doPatrimnio Cultural, em cooperao com as instituies nacionais;

    Os associados so especialistas que dividem experincias, a partirde seus comits nacionais, presentes em mais de 110 pases, ou aindapor meio de comits cientficos;

    um defensor dos convnios internacionais e o autor de inmerosdocumentos, cartas e diretivas, que tratam de definir as melhoresprticas para a conservao do patrimnio cultural mundial.

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    * Presidente doIcomos Brasil

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  • H uma rede de Comits Temticos Especializados, que so rgostcnicos consagrados ao estudo de problemas particulares e abordam temascomo: arquitetura de terra, pedra, madeira, patrimnio subaqutico, ilhasdo Pacfico, treinamento, patrimnio do sculo XX, paisagens culturais,fortificaes e patrimnio militar, interpretao de stios culturais,documentao patrimonial, gesto do patrimnio arqueolgico, arquiteturavernacular, vilas e cidades histricas, financiamento e administrao, rotasculturais, turismo cultural, patrimnio polar. A inscrio nesses ComitsTemticos facultada a todos os associados, por indicao dos ComitsNacionais.

    Na Conveno do Patrimnio Mundial, o Icomos o rgo consultivoda Unesco para as questes do patrimnio cultural. Contribui ativamentecom o trabalho do Centro do Patrimnio Mundial e com a aplicao daConveno do Patrimnio Mundial. A Secretaria Internacional do Icomose a Comisso para o Patrimnio Mundial so encarregadas da avaliao daspropostas de inscrio na Lista do Patrimnio Mundial, apresentadas pelospases participantes.

    No Brasil, o Comit Brasileiro do Conselho Internacional deMonumentos e Stios, uma associao civil, no governamental,atualmente com sede em Curitiba, que congrega pessoas que atuam nasreas pblicas e privadas voltadas para a conservao, restaurao evalorizao dos monumentos, dos conjuntos histricos e paisagsticos e daproteo de bens de valor cultural.

    Foi fundado em 17 de agosto de 1978 no Rio de Janeiro e registradoem 2 de maio de 1980 em Braslia. Seu primeiro presidente foi o arquitetoAugusto Carlos da Silva Telles e hoje conta com mais de uma centena demembros, em todo o territrio nacional e tem representao no ConselhoNacional de Patrimnio Cultural / Iphan e no Conselho Nacional deInvestimentos Culturais CNIC / Secretaria de Fomento e Incentivo,ambos do Ministrio da Cultura MinC. Sem contar que participa emdiversos Conselhos Estaduais de Patrimnio e em diversas comissesmunicipais que discutem planos diretores.

    DAS ASSEMBLEIAS GERAISA Assembleia Geral realizada a cada trs anos para a eleio do Comit

    Executivo Internacional. Paralelamente s obrigaes estatutriasdesenvolve-se um congresso cientfico sobre um tema especfico. Assim, por

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  • 16 vezes, ao longo de sua existncia, o Icomos tem realizado os congressosque definem cartas orientadoras para a ao do patrimnio cultural e cadavez mais os temas discutidos tm demonstrado as preocupaes emergentesno mbito do patrimnio mundial.

    Numa rpida observao sobre os temas discutidos pode-se verificar aevoluo dos assuntos discutidos, por exemplo:

    - 2008 - XVI Assemble Gnrale: Qubec, Canad O se cachelesprit du lieu?- 2005 - XV Assemble Gnrale: Xian, China Monuments et sitesdans leur milieu conserver le patrimoine culturel dans des villes etpaysages en mutation

    Xian China 2005

    Reconhecer a contribuio do entorno para o significado dosmonumentos, stios e reas de patrimnio cultural:

    - compreender, documentar e interpretar os entornos em contextosdiversos;

    - desenvolver instrumentos de planejamento e prticas para aconservao e a gesto do entorno;

    - o acompanhamento e a gesto das mudanas que ameaam o entorno;

    - trabalhar com as comunidades locais, interdisciplinares e internacionaispara a cooperao e o fomento de uma conscincia social sobre aconservao e a gesto do entorno.

    - 2003 - XIV Assemble Gnrale: Victoria Falls, Zimbabwe Lammoire des lieux: prserver le sens et les valeurs immatrielles desmonuments et des sites

    - 2002 - XIII Assemble Gnrale: Madri, Espanha Stratgie pourle patrimoine culturel du monde La conservation dans un mondeglobalis principes, pratiques, perspectives Presidente: Michael Petzet(Alemanha) Secretrio-geral: Dinu Bumbaru (Canad)

    - 1999 - XII Assemble Gnrale: Mxico,Mxico Du bon usagedu patrimoine patrimoine et dveloppement Presidente: MichaelPetzet (Alemanha) Secretrio-geral: Jean-Louis Luxen (Blgica)

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  • - 1996 - XI Assemble Gnrale: Sofia, Bulgria Le patrimoine etles changements sociaux Presidente: Roland Silva (Sri Lanka) Secretrio-geral: Jean-Louis Luxen (Blgica)

    - 1993 - X Assemble Gnrale: Colombo, Sri Lanka Gestion dupatrimoine archologique, tourisme culturel et aspects conomiques de laconservation Presidente: Roland Silva (Sri Lanka) Secretrio-geral:Jean-Louis Luxen (Blgica)

    - 1990 - IX Assemble Gnrale: Lausanne, Sua Icomos, unquart de sicle, bilan et avenir Presidente: Roland Silva (Sri Lanka) Secretrio-geral: Herb Stovel (Canad)

    - 1987 - VIII Assemble Gnrale: Washington, D.C., EstadosUnidos Cultures anciennes et nouveaux mondes Presidente: Robertodi Stefano (Itlia) Secretrio-geral: Helmut Stelzer (RepblicaDemocrtica Alem)

    - 1984 - VII Assemble Gnrale: Rostok, Alemanha Monumentset identit culturelle Presidente: Michel Parent (Frana) Secretrio-geral: Abdelaziz Daoulatli (Tunsia)

    - 1981 - VI Assemble Gnrale: Roma, Itlia Sans pass pasdavenir Prsident: Michel Parent (France) Secrtaire Gnral:Abdelaziz Daoulatli (Tunisie)

    - 1978 - V Assemble Gnrale: Moscou, URSS Dveloppementurbain et prservation des villes et quartiers historiques Presidente:Raymond Lemaire (Blgica) Secretrio-geral: Ernest Allen Connaly(EUA.)

    - 1975 - IV Assemble Gnrale: Rothenburg, Alemanha Lapetite ville Presidente: Raymond Lemaire (Blgica) Secretrio-geral:Ernest Allen Connaly (EUA)

    - 1972 - III Assemble Gnrale: Budapeste, Hungria Architecture moderne et ensembles historiques Presidente: PieroGazzola (Itlia) Secretrio-geral: Raymond Lemaire (Blgica)

    - 1969 - II Assemble Gnrale: Oxford, Reino Unido Intrt dela conservation et de la prsentation des monuments et des sites historiquespour le tourisme, la lumire de lexprience et des pratiques de la Grande-Bretagn Presidente: Piero Gazzola (Itlia) Secretrio-geral: RaymondLemaire (Blgica)

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  • - 1965 - I Assemble Gnrale: Cracvia, Polnia Rglements,statuts et comits nationaux Presidente: Piero Gazzola (Itlia) Secretrio-geral: Raymond Lemaire (Blgica)

    A participao do Icomos Brasil tem sido intensa nos congressosinternacionais, com contribuies discutidas em mbito regional, comoocorreu no Seminrio Internacional realizado em Foz do Iguau, em junhode 2008, do qual resultou a Declarao de Foz do Iguau. Esse documentoserviu de base para a composio da Declarao de Quebec, sobre aproteo do Esprito do Lugar, resultado da XVI Assembleia Geral doIcomos, a ltima realizada.

    Antecedendo a Assembleia Geral de Quebec, reuniram-se, em Foz doIguau, a convite do Icomos Brasil, presidentes e membros de diversoscomits nacionais da Amrica Latina para refletir sobre a noo do espritodo lugar.

    DECLARACIN DE FOZ DO IGUAULos presidentes y miembros de comits nacionales de ICOMOS de

    Argentina, Brasil, Chile, Mxico y Paraguay, conjuntamente con elVicepresidente de ICOMOS para Amrica se reunieron en la ciudad deFoz do Iguau, Brasil, los das 29, 30 y 31 de mayo de 2008, con el finde reflexionar sobre la nocin de Espritu del Lugar, tema central de laXVI Asamblea General del ICOMOS a desarrollarse en Qubec enoctubre de 2008.

    Los participantes expresan su agradecimiento al ICOMOS Brasil y aITAIPU Binacional por la organizacin de este foro y a partir de lasdiscusiones desarrolladas, aprueban las siguientes conclusiones.

    1. SOBRE LA NOCIN DE ESPRITU DEL LUGAR

    La nocin de Espritu del Lugar est vinculada a la interaccin decomponentes materiales e inmateriales de los entornos naturales y/oconstruidos por el ser humano. Se trata de un aspecto esencial, ya que, porsu misma definicin un lugar no es cualquier espacio, sino un espaciocaracterizado por su singular identidad. En este sentido, el espritu es elaliento vital que expresa tal identidad, resultado de la relacin entre unadeterminada cultura y el sitio en que se desarrolla. Entre los elementoscomponentes o con incidencia en el Espritu del Lugar, se hanidentificado los siguientes:

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  • a) Las caractersticas del entorno geogrfico y del medio natural;

    b) El patrimonio natural sacralizado a travs de los significados dados porlas comunidades;

    c) El modo particular en que se ha desarrollado, a travs del tiempo, larelacin entre las comunidades y el medio natural, expresada en paisajesculturales, ciudades, espacios urbanos y rurales;

    d) Los lugares apropiados por el ser humano, tales como los espaciosabiertos urbanos y rurales, escenarios de la vida comunitaria y de susmanifestaciones espirituales;

    e) Los espacios construidos que expresan un modo particular de resolverlas necesidades para el desarrollo de la vida humana;

    f ) Los componentes materiales que inciden en la particular identidadde los espacios urbanos, tales como pavimentos, forestacin, sealizacin,iluminacin y mobiliario urbano;

    g) Las diversas funciones y vocaciones que, a travs del tiempo, se handesarrollado en los espacios configurados por el ser humano.

    h) Los procesos sociales que se hacen patentes en la produccin yreproduccin de los bienes culturales;

    i) Los aportes sucesivos que provienien de diversas culturas y quecaracterizan a Amrica Latina.

    2. LA IMPORTANCIA DE COMPRENDER EL ESPRITU DEL LUGAR

    La identificacin de los componentes materiales e inmateriales quedefinen el Espritu del Lugar, resulta esencial para la preservacin de laidentidad de las comunidades que han creado espacios de inters histrico-cultural y los han transmitido a travs de las generaciones.

    El estudio, el anlisis y la comprensin de los componentes del lugar sonlos recursos adecuados para definir acciones que tienden a la preservacin,entendida como la accin que permite la manifestacin del espritu.

    3. AMENAZAS CONTRA EL ESPRITU DEL LUGAR

    Los participantes del Foro han identificado una serie de amenazas contra

    el Espritu del Lugar, entre las que cabe citar:

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  • a) Las presiones inmobiliarias que, particularmente en reas urbanas,atentan a travs de la especulacin en el uso y explotacin del suelo, contralas reas de inters histrico y cultural, sus entornos, as como a sus valoresesenciales;

    b) La incorporacin de usos incompatibles con el carcter o el significadotradicional de los sitios, incluyendo el comercio informal;

    c) La insercin en reas de inters histrico y cultural y sus entornos, deedificios o conjuntos edilicios y otros elementos que no tienen en cuenta sucarcter o sus valores histricos y/o culturales;

    d) La remocin o prdida de edificios, espacios abiertos y elementos quecaracterizan el Espritu del Lugar;

    e) La provisin y uso de infraestructura, equipamientos o mobiliariourbano ajenos, por su diseo o materiales de construccin, al carcter de lossitios.

    En este sentido, se han mencionado, a modo de base para la discusin,casos concretos de amenazas al Espritu del Lugar, en varias ciudadesLatinoamericanas, entre los que cabe mencionar:

    a) La especulacin inmobiliaria que genera la excesiva densificacin yverticalizacin de la ciudad de Salvador, Brasil, en el entorno del Sitio delPatrimonio Mundial;

    b) Las presiones inmobiliarias y de trfico vehicular en la ciudad deBrasilia, Brasil, que afectan la integridad del Plano Piloto, Sitio delPatrimonio Mundial;

    c) El proyecto de construccin de un Centro Cultural en la ciudad deValparaso, Chile, sin consideracin por las preexistencias del sitio y losvalores del entorno Sitio del Patrimonio Mundial;

    d) El proyecto de construccin de un Centro de Exposiciones yConvenciones en la ciudad de Puebla, Mxico, en un rea de altosignificado histrico, que forma parte del Sitio Patrimonio Mundial;

    e) Las construcciones provisionales y de una pista de patinaje sobre hieloen el Zcalo de la Ciudad de Mxico, Sitio del Patrimonio Mundial;

    f ) Las alteraciones de los santuarios de Chalma, Estado de Mxico y SanJuan de los Lagos, Jalisco, as como de la zona de Bracho en la ciudad deZacatecas, Mxico, Sitio del Patrimonio Mundial;

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  • g) El descontrol edilicio, de trfico vehicular y de publicidad en elentorno de la Manzana Jesutica de Crdoba, Argentina, Sitio delPatrimonio Mundial;

    h) El proyecto de ampliacin de estadios de ftbol en el Paseo del Bosqueen la ciudad de La Plata, Argentina, que pone en riesgo los valores histricosy ambintales del rea;

    i) El inadecuado proyecto de construccin de una crcel regional en elentorno del circuito turstico y cultural denominado Caminho de Pedra enBento Gonalves, Rio Grande do Sul, Brasil.

    4. RECOMENDACIONES

    Los participantes en el Foro acuerdan las siguientes recomendaciones:

    a) Que el concepto Espritu del Lugar sea incorporado en los procesosde planificacin urbana y territorial, como medio para la preservacinintegral de paisajes naturales y culturales, asi como de ciudades y reasurbanas con valores histricos y/o culturales;

    b) Que la legislacin urbana, planes y proyectos de nuevos desarrollos,en entornos naturales y construidos por el hombre, tengan en cuenta elpotencial impacto sobre el Espritu del Lugar;

    c) Que los sistemas de valores y las prcticas sociales de las comunidadessean comprendidos y respetados como parte del Espritu del Lugar.

    Por todo lo anterior se recomienda que las autoridades competentes enlos casos citados, extremen las precauciones para evitar acciones y/o procesosque puedan afectar el Espritu del Lugar de estos sitios.

    Foz do Iguau, Paran, Brasil 31 de mayo de 2008

    QUEBEC 2008EmQuebec, em outubro de 2008, por ocasio da XVI Assembleia Geral

    foram votadas duas novas cartas que complementam as doutrinas doIcomos: A Carta dos Itinerrios Culturais e a Carta para a Interpretao eApresentao dos Stios Patrimnios Culturais. Documentos estesdestinados a definir e promover as melhores prticas de conservao e degesto dos stios culturais. A Assembleia Geral adotou tambm aDeclarao de Quebec, sobre a proteo do Esprito do Lugar.

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  • LA CHARTE ICOMOS

    POUR LINTERPRTATION ET LA PRSENTATION DES SITESCULTURELS PATRIMONIAUX

    La Charte ICOMOS pour linterpretation et la presentation des sites culturespatrimoniaux traite des mthodes et des technologies pour engager unecommunication efficace et responsable sur le patrimoine. En effet, la demandepour des principes internationalement reconnus en matire dinterprtationet de prsentation des sites culturels patrimoniaux tait devenue pressante euregard aux menaces toujours croissantes, dues aux catastrophes naturelles ou lactivit humaine, et la cration de nombreux parcs dattraction thme inspirs par le patrimoine mais crs pour gnrer des flux financiers pluttque dans le souci de la conservation ou de lducation.

    La Charte ne prescrit pas de contenus spcifiques pour la prsentationde sites, ni nimposeun schma uniforme sur la manire dont tel ou teltype de monument, site, ou paysage culturel doivent tre expliqus aupublic. Elle porte plutt sur les questions fondamentales de l accs , des sources dinformation , du contexte , de l authenticit , de linclusion , de la durabilit , ainsi que de la recherche, ducation etformation. Elle vise sassurer que ces sujets sont pris en considration etincorpors dans la communication avec tous les acteurs du patrimoine, ycompris les touristes, les communauts locales et associes, ainsi que dansles systmes denseignement locaux.

    La Charte reprsente un consensus de lICOMOS sur les principesfondamentauxde linterprtation et la prsentationdes sites dupatrimoine culturel.

    LA CHARTE ICOMOS DES ITINRAIRES CULTURELS

    La Charte ICOMOS des Itinraires culturels propose une dfinition, desprincipes de base et une mthodologie spcifique visant lidentification,la recherche et lvaluation des itinraires culturels, ainsi que desorientations pour leur protection, leur conservation, leur usage correct etleur gestion.

    Le concept dItinraire Culturel couvre le contenu patrimonial dunphnomne spcifique de mobilit et dchanges humains qui sestdvelopp travers les voies de communication qui ont facilit sonexpansion et qui ont t utilises ou dlibrment mises au service dun butconcret et dtermin. Il peut sagir dun chemin qui fut trac expressment

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  • pour atteindre ce but ou dune voie qui a utilis, entirement ou en partie,des chemins dj existants et qui ont servi des fins diverses. Mais au-delde sa fonction comme voie de communication ou de transport, sonexistence et sa signification en tant quItinraire Culturel ne sexpliquentqu travers son utilisation pour un but concret et dtermine pendant unelongue priode de lhistoire et par la cration de valeurs et dlmentspatrimoniaux associs qui refltent lexistence dinfluences rciproques entredes groupes culturels divers et rsultent de sa propre dynamique.

    LICOMOS exprima la ncessit de mieux dfinir cette catgoriespcifique du patrimoine depuis 1993, loccasion de lvaluation duChemin de Saint-Jacques en tant que site du Patrimoine mondial delUNESCO et a travaill depuis en tablir le cadre conceptuel etoprationnel.

    LA DCLARATION DE QUBEC SUR LA SAUVEGARDE DE LESPRIT

    DU LIEU

    La Dclaration de Qubec sur la sauvegarde de lesprit du lieu prsente lesprincipes et recommandations destins la prservation de lesprit du lieu,par la sauvegarde du patrimoine matriel et immatriel, qui est envisagecomme un moyen novateur et efficace de contribuer au dveloppementdurable et social travers le monde.

    Lesprit du lieu peut tre dfini comme lensemble des lments matriels(sites, paysages, btiments, objets) et immatriels (mmoires, rcits oraux,documents crits, rituels, festivals, mtiers, savoir-faire, valeurs, odeurs),physiques et spirituels, qui donne du sens, de la valeur, de lmotion et dumystre au lieu. Plutt que de sparer lesprit du lieu, limmatriel dumatriel, et de les mettre en opposition, ICOMOS a explor les diferentesmanires dont les deux sont unis dans une troite interaction, lun seconstruisant par rapport lautre. Lesprit construit le lieu et, en mmetemps, le lieu investit et structure lesprit.

    La Dclaration de Qubec sinscrit dans une srie de mesures et dactionsentreprises par lICOMOS depuis 2003 pour sauvegarder et promouvoirlesprit des lieux, principalement leur caractre vivant, social et spirituel.

    DCLARATION DE QUBEC SUR LA SAUVEGARDE DE LESPRIT

    DU LIEU

    Adopte Qubec, Canada, le 4 octobre 2008

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  • PRAMBULE

    Runis dans la ville de Qubec (Canada) du 29 septembre au 4 octobre2008, sur linvitation dICOMOS Canada, loccasion de la 16e assemblegnrale du Conseil International des Monuments et des Sites (ICOMOS)et des clbrations marquant le 400e anniversaire de la fondation de la villede Qubec, les participants adoptent cette Dclaration de principes et derecommandations destine la prservation de lesprit du lieu, par lasauvegarde du patrimoine matriel et immatriel, qui est envisage commeun moyen novateur et efficace de contribuer au dveloppement durable etsocial travers le monde.

    Cette Dclaration sinscrit dans une srie de mesures et dactionsentreprises depuis quelques annes par ICOMOS pour sauvegarder etpromouvoir lesprit des lieux, principalement leur caractre vivant, socialet spirituel. En 2003, ICOMOS a consacr le symposium scientifique desa 14e assemble gnrale, tenue Victoria Falls, au Zimbabwe, au thmede la conservation des valeurs sociales immatrielles de monuments et desites. Par la Dclaration de Kimberley de 2003, ICOMOS sest engag tenir compte des composantes immatrielles (mmoires, croyances,appartenances, savoir-faire, affects) et des communauts locales qui lesportent et les conservent dans la gestion et la conservation des monumentset des sites rgis par la Convention pour la protection du patrimoinemondial, culturel et naturel de 1972. La Dclaration ICOMOS de Xiande 2005 attire lattention sur la conservation du contexte, dfini commetant constitu par les lments physiques, visuels et naturels ainsi que parles pratiques sociales ou spirituelles, les coutumes, les mtiers, les savoir-faire traditionnels et les autres formes et expressions immatrielles, dans laprotection et la mise en valeur des monuments et des sites du patrimoinemondial. Elle souligne galement la ncessit dune aprochemultidisciplinaire et lutilisation de sources diversifies pour mieuxcomprendre, grer et conserver le contexte. La Dclaration de Foz DoIguau de 2008, ICOMOS-rgion des Amriques, prcise que lasauvegarde des lments matriels et immatriels est fondamentale pourla prservation de lidentit des communauts qui ont cr et transmis desespaces patrimoniaux. Les nouvelles chartes sur les Itinraires culturels etsur lInterprtation et la prsentation dICOMOS, labores aprs denombreuses consultations, et prsentes pour ratification la 16eassemble gnrale, accordent aussi une place importante au patrimoineintangible et spirituel des lieux. En raison de linterdpendance du

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  • patrimoine matriel et immatriel ainsi que du sens, des valeurs et deslments contextuels que le patrimoine immatriel donne aux objets etaux lieux, ICOMOS envisage ladoption dune charte consacrespcialement au patrimoine culturel immatriel des monuments et dessites. A ce sujet, nous encourageons la mise en place de dbats pour dfinirun nouveau vocabulaire conceptuel qui ferait part ds changementsontologiques de lesprit du lieu.

    Lassemble gnrale de Qubec, plus particulirement le Forum desjeunes, le Forum des autochtones et le Symposium scientifique, ont permisde poursuivre cette rflexion avec encore plus de dtermination et dclairerles rapports entre le patrimoine matriel et immatriel et les mcanismes quirgissent lesprit du lieu. Rappelons que lesprit du lieu peut tre dfinicomme lensemble des lments matriels (sites, paysages, btiments, objets)et immatriels (mmoires, rcits oraux, documents crits, rituels, festivals,mtiers, savoir-faire, valeurs, odeurs), physiques et spirituels, qui donne dusens, de la valeur, de lmotion et du mystre au lieu. Plutt que de sparerlesprit du lieu, limmatriel du matriel, et de les mettre en opposition,nous avons explor les diffrentes manires dont les deux sont unis dansune troite interaction, lun se construisant par rapport lautre. Lespritconstruit le lieu et, en mme temps, le lieu investit et structure lesprit. Leslieux sont investis par diffrents acteurs sociaux, tant les concepteurs que lesutilisateurs qui participent trs activement la construction de leur sens.Envisag dans sa dynamique relationnelle, lesprit du lieu prend ainsi uncaractre pluriel et polyvalent, et peut possder plusieurs significations etsingularits, changer de sens avec le temps et tre partag par plusieursgroupes. Cette approche plus dynamique est mieux adapte un mondeglobalis, caractris de plus en plus par les migrations transnationales, lespopulations relocalises ou dlocalises, les contacts interculturels, lessocits multiculturelles et les appartenances multiples.

    La notion desprit du lieu permet de mieux comprendre le caractre lafois vivant et permanent des monuments, des sites et des paysages culturels.Elle donne une vision plus riche, dynamique, large et inclusive dupatrimoine culturel. Lesprit du lieu existe, sous une forme ou une autre,dans pratiquement toutes les cultures du monde et est une constructionhumaine destine desservir des besoins sociaux. Les groupes qui habitentle lieu, surtout lorsquil sagit de socits traditionnelles, devraient treintimement associs la sauvegarde de sa mmoire, de sa vitalit et de saprennit, voire de as sacralit.

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  • Les participants de la 16e assemble gnrale adressent la prsenteDclaration aux organisations intergouvernementales, aux autoritsnationales et locales ainsi qu toutes les institutions et tous les spcialistesaptes contribuer par la lgislation, par ls pratiques, par les processusdamnagement et de planification ainsi que par la gestion une meilleuresauvegarde et la promotion de lesprit du lieu.

    REPENSER LESPRIT DU LIEU

    1. Reconnaissant que lesprit du lieu est constitu dlments matriels(sites, paysages, btiments, objets) et immatriels (mmoires, rcits oraux,documents crits, rituels, festivals, mtiers, savoir-faire, valeurs, odeurs),qui servent tous de manire significative marquer un lieu et lui donnerun esprit, nous demandons ce que tout projet de conservation et derestauration de monuments, de sites, de paysages, de routes, de collectionset dobjets et ce que toute lgislation sur le patrimoine culturel tiennentcompte autant des composantes matrielles que des composantesimmatrielles de lesprit du lieu.

    2. Puisque lesprit du lieu est complexe et multiforme, nous demandonsaux gouvernements et aux organismes patrimoniaux dexiger la compositiondquipes multidisciplinaires de chercheurs, de personnes issues des milieuxculturels et cultuels et de praticiens traditionnels afin de mieux comprendre,de prserver et de transmettre lesprit du lieu.

    3. Sachant que lesprit du lieu est un processus construit et reconstruitpour rpondre aux esoins de continuit et de changement descommunauts, nous soutenons quil peut varier avec Le temps et duneculture une autre en fonction de leurs pratiques mmorielles, et quunmme lieu peut possder plusieurs esprits et tre partag par diffrentsgroupes.

    IDENTIFIER LES MENACES METTANT EN PRIL LESPRIT DU LIEU

    4. tant donn que les changements climatiques, le tourisme de masse,les conflits arms et le dveloppement urbain conduisent destransformations et ds ruptures dans les socits, il nous faut mieuxcomprendre ces menaces afin de prendre des mesures prventives et deplanifier des solutions durables. Nous recommandons que les organisationsgouvernementales et non gouvernementales, les associations patrimonialeslocales et rgionales, dveloppent des plans stratgiques long terme pour

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  • mieux protger lesprit du lieu et son environnement. De mme, leshabitants ainsi que les autorits locales doivent tre sensibiliss lasauvegarde de lesprit du lieu pour faire face aux menaces dues auxtransformations du monde actuel.

    5. Compte tenu que le partage de lieux investis desprits diffrentsaugmente le risque de tensions et de conflits, nous considrons que ces sitesncessitent des plans de gestion spcifiques, adapts au contexte pluralistedes socits multiculturelles modernes. Comme les menaces qui psent surlesprit des lieux sont particulirement leves chez les groupes minoritaires,autochtones et allochtones, nous recommandons que ces groupesbnficient prioritairement de politiques et de pratiques spcifiques.

    SAUVEGARDER LESPRIT DU LIEU

    6. tant donn que dans la plupart des pays du monde daujourdhuilesprit du lieu, particulirement ses composantes immatrielles, ne bnficieni de programmes dducation formels ni de cadres de protection juridique,nous encourageons fortemente la mise sur pied de programmes deformation et ladoption de nouvelles lois destines la conservation et lagestion de lesprit du lieu.

    7. Considrant que les technologies modernes (bases de donnesnumriques, sites Internet) permettent de constituer rapidement etefficacement des inventaires multimdias qui intgrent les lmentsmatriels et immatriels du patrimoine, nous recommandons fortementleur utilisation pour mieux conserver, diffuser et promouvoir les lieuxpatrimoniaux et leurs esprits. Ces technologies facilitent la diversit et lerenouvellement constant de la documentation sur lesprit du lieu.

    TRANSMETTRE LESPRIT DU LIEU

    8. Reconnaissant que lesprit du lieu est transmis essentiellement par despersonnes et que la transmission participe activement sa conservation,nous dclarons que cest par la communication interactive et la participationdes communauts concernes que lesprit du lieu est sauvegard, employet enrichi. La communication permet ainsi de garder lesprit du lieu vivant.

    9. Considrant que les communauts locales sont gnralement lesmieux places pour saisir lesprit du lieu, surtout dans le cas des groupesculturels traditionnels, nous soutenons quelles devraient tre intimementassocies tous les efforts de conservation et de transmission de lesprit du

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  • lieu. Les transmissions informelles (rcits oraux, rites, performances,apprentissages artistiques et artisanaux) et formelles (programmes ducatifs,banques de donnes informatises, sites Internet, trousses pdagogiques)devraient tre encourages, car elles assurent non seulement la sauvegardede lesprit du lieu, mais aussi, plus important encore, le dveloppementdurable et la vitalit de la communaut.

    10. Reconnaissant que la transmission intergnrationnelle et que latransmission transculturelle sont des composantes importantes pour lasauvegarde et la diffusion de lesprit du lieu, nous recommandonslassociation et la participation des jeunes gnrations et des diffrentsgroupes culturels en lien avec le site llaboration de politiques deprotection et la gestion de lesprit du lieu.

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  • A EXPERINCIA DO ESCRITRIOTCNICO DE LICENCIAMENTO EFISCALIZAO (ETELF/BA) E OSDESAFIOS DA GESTO INTEGRADA

    Frederico A. R. C. Mendona*

    RESUMOSalvador apresenta uma experincia de compartilhamento de aes entre

    os rgos de preservao patrimonial, federal e estadual, e a instituiomunicipal de licenciamento de construes e atividades para reas deinteresse patrimonial e paisagstico. Experincia que j dura uns 27 anos efoi objeto de nova formalizao em 2009, depois de uma dcada defuncionamento informal. Especificidades do processo de recuperao doCentro Histrico de Salvador induziram uma supervalorizao de rgos daadministrao estadual. Nos ltimos trs anos, medidas vm sendo adotadaspara corrigir as distores histricas e contextualizar a poligonal detombamento federal num planejamento estratgico para uma rea maiordenominada centro antigo de Salvador.

    PALAVRAS-CHAVEGesto, Compartilhamento, Planejamento.

    A EXPERINCIA DO ETELF/BA E OS DESAFIOS DAGESTO INTEGRADA

    Com a Lei Municipal n 3.289/83, de 21.09.1983, estabeleceu-se umaarticulao institucional entre as trs instncias de poder pblico, para olicenciamento e a fiscalizao de atividades nas reas de proteo cultural epaisagstica e do acervo arquitetnico tombado pelo Servio do PatrimnioHistrico e Artstico Nacional Sphan, cuja nfase recai, especialmente,no denominado Centro Histrico de Salvador CHS, mas abrange outrostrechos do ncleo urbano de Salvador. Da decorreu o convnio que criouo Escritrio Tcnico de Licenciamento e Fiscalizao Etelf, que rene

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    * Diretor-geral doIpac

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  • tcnicos da Superintendncia de Controle e Ordenamento do Uso do Solodo Municpio Sucom, do Instituto do Patrimnio Artstico e Cultural daBahia Ipac e do Instituto do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional Iphan. As reunies ocorrem diariamente, no turno matutino, na sede doIphan.

    Projetos arquitetnicos ou urbansticos, algumas vezes sob a forma deestudos preliminares, propostas de interveno urbana, so submetidos auma avaliao conjunta desses tcnicos, cujo parecer determinar osprocedimentos seguintes. Depois da anlise do processo, a equipe do Etelfemite um parecer tcnico que encaminhado ao superintendente do Iphanpara um parecer conclusivo. Na sequncia, o processo ser enviado Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano, Habitao e MeioAmbiente Sedham para as devidas providncias legais e administrativascabveis, no mbito municipal. Caso se trate de imveis com tombamentoestadual, o processo encaminhado ao Ipac para complementaes eprocedimentos especficos, sendo, posteriormente, enviado ao rgomunicipal responsvel pela concesso dos alvars.

    Com prazo vencido em 1999, o Etelf continuou funcionandoregularmente at que novo Termo de Convnio, visando a um programade ao integrada no municpio de Salvador, foi assinado em 20.10.2009,por iniciativa da atual Superintendncia do Iphan. Ao lado da novaformalizao de convnio, a Superintendncia do Iphan criou, ainda, umamesa multilateral, formada pelos titulares das trs instituies signatrias.No caso da Prefeitura, foi designado como representante o secretrioMunicipal de Desenvolvimento Urbano, Habitao e Meio Ambiente, aquem est subordinada a Sucom. Essa instncia, de carter informal,tornou-se responsvel pelas diretrizes polticas mais gerais, podendo seracionada em funo da complexidade dos temas apresentados apreciao.

    Em que pese o funcionamento ininterrupto do Etelf por cerca de vinte esete anos, racionalizando e agilizando os procedimentos de fiscalizao elicenciamento de empreendimentos e atividades em reas de preservaopatrimonial recentemente acrescida pelo tombamento federal do bairro doComrcio. Salvador, com seu conjunto urbanstico e arquitetnico deimportncia internacional, continua, todavia, sem uma Secretaria de Cultura.Esse papel tem sido desempenhado, em certa medida, pela FundaoGregrio de Mattos, vinculada Secretaria Municipal de Educao.1

    Esse dado constitui um fator substantivo ao se discutir a gestocompartilhada do espao urbano, posto que, numa rea como o Centro

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    1. http://www.cultura.salvador.

    ba.gov.br

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  • Histrico de Salvador, cujo elemento cultural decisivo para a adoo demedidas de salvaguarda para o stio tutelado, assim como para aalavancagem do seu desenvolvimento social e econmico, a ausncia deuma poltica cultural no mbito do municpio torna-se um grande limitador gesto dessas reas de preservao patrimonial.2

    Por outro lado, as especificidades do processo de recuperao do CHS,que se encontra em sua 7 etapa, atravs do Programa Monumenta e sob acoordenao da Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado daBahia Conder, levaram a um afastamento dos rgos municipais da gestodaquele trecho da cidade.3 Isso provocou uma supervalorizao do papeldos rgos estaduais em particular, Conder e Ipac no gerenciamento dequestes que, a rigor, seriam de competncia municipal ou da esferaparticular , a exemplo da manuteno de parte da iluminao pblica, dogerenciamento do comrcio ambulante nos logradouros ou da pintura econservao dos imveis.

    Essa distoro comeou a ser alterada em 2007, com a mudana daadministrao estadual, quando foram redefinidos os papis institucionaisdos agentes atuantes no CHS e Prefeitura foram redirecionadas suasatribuies. Um passo significativo nesse sentido foi dado com a criao,pelo Governo Estadual, atravs do Decreto n 10.478 de 2.10.2007, de umConselho Gestor e do Escritrio de Referncia do Centro Antigo deSalvador/Ercas, sinalizando uma maior abrangncia poltica e espacial noprocesso de preservao da poligonal de tombamento federal. O ConselhoGestor formado pelas Secretarias Estaduais de Cultura Secult(coordenao), de Desenvolvimento Urbano Sedur (subcoordenao),Turismo Setur, Promoo da Igualdade Sepromi e Segurana Pblica SSP. Na sequncia, o Estado assinou, em 28.12.2007, um Acordo deCooperao Tcnica com a Unio e o Municpio para elaborao eimplementao do Plano de Reabilitao Integrado Participativo do CentroAntigo de Salvador. Pela Unio, assinaram os titulares dos Ministrios dasCidades, do Planejamento, Oramento e Gesto, da Cultura, do Turismo,alm da Secretaria Especial de Portos e o presidente Nacional do Iphan. 4

    Alm de elaborar e implantar o Plano Estratgico de Gesto, de curto,mdio e longo prazo, coube ao Ercas a articulao das aes dos diversosagentes, nas trs esferas do servio pblico, da iniciativa privada e dasorganizaes sociais, num contexto geogrfico em que o CHS abordadocomo parte do Centro Antigo de Salvador, esvaziado nas ltimas dcadas deexpanso urbana na direo do vetor Norte de Salvador. Ou seja, extrapola-

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    2. Acerca darelevncia cultural doCHS, verGOTTSCHALL,Carlota S. &SANTANA, MarielyC. (org.). Centro daCultura de Salvador.Salvador: EDUFBA-SEI, 2006. 242p.

    3. A esse respeito, verSANTANNA,Mrcia. A recuperaodo Centro Histricode Salvador: origens,sentidos e resultados.RUA Revista deUrbanismo eArquitetura, 1(8):44-59. Salvador,julho/dezembro 2003.

    4. http://centroantigo.blogspot.com

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  • se a viso da poligonal de tombamento federal compartimentada, inserindo-se a poligonal de preservao patrimonial numa malha urbana mais ampla,para a qual se buscou identificar e priorizar os principais elementos queintegram uma nova dinmica de desenvolvimento urbano.

    Dentre as consequncias mais especficas dessa nova viso estratgica, oIpac encaminhou Secretaria Municipal de Servios Pblicos Sesp, em25.01.2008, a relao dos ambulantes que se instalavam noTerreiro de Jesuse na praa Jos de Alencar (largo do Pelourinho) e que, at ento, eramobjeto de gerenciamento pela sua Diretoria de Aes Culturais Dirac,responsvel pela dinamizao dos espaos livres do Pelourinho. Emboraainda promova uma programao artstica para o miolo de algunsquarteires do Pelourinho, buscando atrair a populao local atravs doprojeto Pelourinho Cultural, o Ipac busca outro modelo para asustentabilidade do local.

    Por um lado, procura estabelecer normas de convivncia entre osconcessionrios dos 235 imveis sob sua responsabilidade, dos quais 26 sode uso residencial, em alguns casos mistos de comrcio e de usosinstitucionais. Embora os contratos de (con)cesso ou autorizao de usoresponsabilizem, individualmente, os (con)cessionrios ou autorizatrios pelamanuteno do imvel, na prtica, no existe uma gesto que se traduza numaconservao predial adequada, alm de se registrar inmeros conflitos devizinhana.5 Paralelamente, foi iniciado um processo de individualizao dasligaes de gua em trs imveis (dois residenciais e o terceiro de usoinstitucional), visando reduzir os conflitos entre condminos.

    Por outro lado, busca-se assegurar uma oferta de moradias para diversossegmentos sociais, atravs dos programas federais em curso, a exemplo doMonumenta e do Programa de Acelerao do Crescimento, sob aresponsabilidade da Sedur/Conder. O Plano de Reabilitao do CentroAntigo de Salvador, coordenado pelo Ercas e a ser entregue publicamenteainda no primeiro semestre de 2010, aponta a atratividade de novosinvestimentos comerciais e culturais. Dentre os ltimos, o Ipac executa arestaurao de monumentos atravs do Prodetur NE II, com recursos doMinistrio doTurismo e do Banco do Nordeste. O repovoamento da antigarea central de Salvador, paralelo atrao de novos empreendimentos, comforte relao com as atividades tursticas e de interface com a baa de todosos santos, constituem o desafio comum para a gesto compartilhada dacapital baiana.

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    5. Entre agosto de2007 e maro de2008, a Fundao

    Escola deAdministrao da

    UFBA foi contratadapelo Ipac para

    realizar um cadastrosocioeconmico dosconcessionrios do

    Ipac e ummapeamento dasredes de amizade,

    informao econfiana no CHS.Esse trabalho serviu

    de base para asiniciativas deformao deestruturas

    condominiais emalguns imveis. Dos235 imveis, 193 sode propriedade do

    Ipac e os demais emregime de comodato

    e/ou aluguel; noconjunto, so 387

    contratos, dos quais158 para

    comrcio/servios,120 residenciais e 85de uso institucional.

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  • SISTEMA NACIONAL DEPATRIMNIO CULTURAL (SNPC)

    COOPERAO, COMPARTILHAMENTO E DEFINIODE PAPIS

    Coordenador: Honrio Nicholls Pereira (consultor Iphan)

    Relatora:Mnica Cristina de Souza Silva (consultora Iphan)

    COMUNICAESFrente Parlamentar em defesa do patrimnio cultural, Jussara HockmllerCarpes (vereadora de Bag/RS)

    O patrimnio cultural e o contexto internacional,Marcelo Brito (Iphan)

    Desafios do compartilhamento de competncias, Leonardo Barci Castriota(Escola de Arquitetura da UFMG)

    Atuao do Icomos na preservao do patrimnio cultural: experincias edesafios, Rosina Coeli Alice Parchen (Icomos Brasil)

    A experincia do Etelf/BA e os desafios da gesto integrada, Frederico A. R.Mendona (Instituto de Patrimnio Artstico e Cultural/BA)

    O papel da sociedade civil: a experincia da Sociedade Olindense em Defesada Cidade Alta (Sodeca), Juliana Cunha Barreto (Centro de EstudosAvanados da Conservao Integrada/UFPE)*

    RELATO

    DESAFIOS PARA A FORMULAO DA POLTICA NACIONAL

    Construir um conceito de gesto compartilhada juntamente com asinstituies envolvidas para elaborao de instrumentos de gestocompatveis;

    Superar o sombreamento de competncias das instituies e aexistncia de legislaes conflituosas no mesmo territrio a partir dadefinio clara de papis e responsabilidades para uma atuaocompartilhada;

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    Relatriosntese

    *Devido a problemasde transcrio dagravao esta palestrano pde ser publi-cada.

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  • Formular uma poltica nacional que considere a ampliao doconceito de patrimnio cultural com suas diversas temticas;

    Promover a articulao entre o executivo e o legislativo nasinstncias municipais;

    Promover a consolidao das legislaes de patrimnio nosmunicpios;

    Fortalecer o conhecimento dos gestores locais na rea de patrimniohistrico promovendo a identificao de potencialidades locais;

    Superar a variao das relaes institucionais de acordo com asrelaes polticas vigentes.

    DESAFIOS PARA A ESTRUTURAO DO SNPC

    Implementar instrumentos de planejamento e oramento vigentespara estruturar o SNPC superando a fragmentao e a multiplicidadede instrumentos;

    Incorporar e institucionalizar a participao de novos atores sociedade civil, ONGs e Associaes cientficas no processo deimplementao do SNPC;

    Incorporar a participao de conselhos municipais;

    Promover a criao de conselhos, fundos e rgos municipais apartir de critrios bsicos evitando a multiplicidade dos mesmos;

    Incentivar a criao de redes intermunicipais;

    Promover a realizao de acordos de cooperao entre asinstituies;

    Definir as competncias e o ciclo de gesto a partir do conceito depatrimnio cultural com suas diversas temticas;

    Institucionalizar a gesto da informao como forma departicipao social;

    Capacitar as instituies locais para o estabelecimento de parcerias.

    POTENCIALIDADES PARA A FORMULAO DA POLTICA NACIONAL

    A presena do Iphan em todo territrio nacional atuando comocanal de comunicao entre as instituies e a sociedade;

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  • Experincia do Programa Monumenta, principalmente a ao deimveis privados;

    A organizao da Frente Parlamentar em Defesa do Patrimnio apartir de experincia do municpio de Bag/RS.

    POTENCIALIDADES PARA A ESTRUTURAO DO SNPC

    O processo de troca de experincias em andamento devido realizao de conferncias, fruns, oficinas, seminrios que tratam daquesto do patrimnio cultural;

    A participao do Brasil em fruns, comits e conselhosinternacionais que possibilitam o intercmbio de experincias comoutros pases;

    A implantao do Centro Regional para Formao para Gesto doPatrimnio no Rio de Janeiro como uma ferramenta estratgica paraas aes de capacitao de gestores pblicos e privados.

    PARCERIAS ESTRATGICAS PARA A FORMULAO DA POLTICANACIONAL

    Ministrio Pblico;

    Ministrio do Meio Ambiente;

    Ministrio do Turismo;

    Agncias de Cooperao Internacional;

    BNDES.

    PARCERIAS ESTRATGICAS PARA A ESTRUTURAO DO SNPC

    rgos de fomento;

    Associaes cientficas;

    Organizaes sociais;

    Instituto dos Arquitetos do Brasil.

    OBJETIVOS PARA OS PRXIMOS DOIS ANOS (2010-2011)

    Formular uma poltica que considere o conceito da ampliao depatrimnio cultural e as suas diversas temticas;

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    Relatriosntese

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  • Reduzir as reas de sombreamento e conflito e estabelecer as reascomuns de atuao das instituies;

    Definir os papis da Unio, estados e municpios a partir das suascompetncias legais para a estruturao do SNPC;

    Institucionalizar os espaos de pactuao e os canais decomunicao para o SNPC;

    Promover a criao e o fortalecimento de estruturas municipais fundo, conselho e rgo tcnico;

    Fortalecer a rede de atores que atuam na preservao do patrimnio;

    Identificar e incorporar a participao de novos atores sociedadecivil, ONGs e associaes cientficas para a estruturao do SNPC.

    AES ESTRATGICAS QUE DEVEM SER IMPLEMENTADAS NOSPRXIMOS CINCO ANOS (20102014)

    Realizar fruns para pactuao de estratgias e aes do SNPC;

    Fortalecer a estrutura tcnica do Iphan, estados e municpios;

    Realizar um programa de capacitao contnua de educaopatrimonial para a rede de atores;

    Identificar parcerias que tenham legitimidade social.

    AES ESTRATGICAS QUE DEVEM SER IMPLEMENTADAS EM 2010

    Construir o conceito de gesto compartilhada;

    Definir o ciclo de gesto delegao de competncias;

    Elaborar uma poltica pblica de educao patrimonial nos trsnveis governamentais.

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  • *Procurador chefedo Iphan

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    SISTEMA NACIONAL DEPATRIMNIO CULTURAL SNPC

    REGULAO E MARCOS LEGAIS

    Antnio Fernando A. L. Neri*

    RESUMOO texto abre as discusses que pretendem aprofundar o debate sobre os

    marcos legais que precisam ser editados ou aprimorados para que o SistemaNacional de Patrimnio Cultural possa ser efetivamente implementado.

    PALAVRAS-CHAVESistema Nacional de Patrimnio Cultural, Marcos legais, Articulao.

    importante assinalar que a construo de um Sistema Nacional dePatrimnio Cultural envolve uma complexidade de questes, tanto em nveladministrativo, quanto tcnico, oramentrio, regulatrio, entre outros.Vivemos em um sistema federativo em que a autonomia poltica e legislativatem de ser respeitada conforme estabelece a nossa Carta Magna, isso querdizer que a Unio Federal, estados, municpios e o Distrito Federal devero,no exerccio de sua competncia institucional, comum e concorrente,articularem-se para que os valores a serem protegidos, conjuntamente, osejam de forma adequada, assegurando que a sociedade brasileira sejabeneficiada por polticas pblicas, capazes de reduzir as desigualdades sociaise permitir o seu desenvolvimento.

    Estamos aqui, justamente, para pensar e refletir como deve serimplementado o Sistema Nacional de Patrimnio Cultural, levando-se emconsiderao o nosso sistema federativo. Dessa forma, devemos indagarcomo se deve articular poltica de cultura em nvel federal, estadual,municipal e distrital, como se deve pactuar e compartilhar asresponsabilidades advindas do exerccio da competncia institucional,comum e concorrente, na preservao do nosso patrimnio cultural

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    material e imaterial, alm disso, quais deveriam ser os instrumentos e formasde financiamento de uma poltica cultural? Pois creiam, a preservao dopatrimnio cultural no se faz apenas pela boa vontade dos interessados,mas precisa de recursos financeiros, como tambm de recursos humanos,para que se possa ter, de uma forma efetiva, uma continuidade, umapermanncia na preservao dos bens culturais.

    Na seo de ontem, foi demonstrada a importncia do municpio paraa preservao dos bens culturais, bem como foi evidenciado que, para elapoder ser bem conduzida, precisa-se de regras claras, tanto em nvel federal,como estadual, igualmente, de uma ao compartilhada entre os trs entesfederativos e da efetiva participao social, conferindo legitimidade aoprocesso de defesa desses bens culturais, bem como de instituies pblicas,tanto do MP federal, MP estadual, advocacia pblica, rgo de defesa dopatrimnio cultural e das instituies privadas, como as organizaes nogovernamentais. Agora, iremos aprofundar o debate sobre os marcos legaisque precisam ser editados ou aprimorados, a fim de que o Sistema Nacionalde Patrimnio Cultural possa ser efetivamente implementado.

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    PLANEJAMENTO TERRITORIAL EPATRIMNIO CULTURAL

    Kazuo Nakano*

    RESUMOEste texto discute os sentidos na construo de sistemas de polticas

    pblicas que esto sendo realizadas no Brasil nas dcadas recentes,particularmente do Sistema Nacional de Patrimnio Cultural. Procuraenunciar algumas premissas importantes relacionadas com o direito cidadee com as tendncias da urbanizao brasileira que devem ser consideradasna construo desse Sistema. Finaliza estabelecendo pontos de contato entreo Plano Diretor, instrumento bsico da poltica de desenvolvimento urbanono Brasil, e os patrimnios culturais.

    PALAVRAS-CHAVESistema Nacional de Patrimnio Cultural, Urbanizao brasileira, Plano

    Diretor, Patrimnio cultural.

    INTRODUOA elaborao deste texto foi motivada pelo interesse em inserir as

    questes relativas ao planejamento e gesto urbana e territorial, em especialaquelas concernentes ao Plano Diretor, nas discusses sobre os processos deconstruo do Sistema Nacional de Patrimnio Cultural conduzido peloInstituto do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional Iphan. Parte dessasdiscusses ocorreu em dezembro de 2009, quando o Iphan coordenou arealizao do I Frum Nacional do Patrimnio Cultural na cidade de OuroPreto (MG). Este texto foi escrito com base na apresentao sobre asrelaes entre o Plano Diretor e o patrimnio cultural feita na sesso sobreRegulao e Marcos Legais, prevista no programa daquele Frum.

    De incio, importante contextualizar os esforos de construo doSistema Nacional de Patrimnio Cultural a partir dos marcos histricos daredemocratizao poltica do Brasil, que se iniciou na segunda metade dadcada de 1980 e vem se prolongando at os dias atuais. importante

    * Arquitetourbanista doInstituto Plis edoutorando pelaUnicamp

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    chamar a ateno para os esforos empreendidos por outros setores dasociedade brasileira na construo de sistemas de polticas pblicas,estruturados no mbito do pacto federativo, institudo pela ConstituioFederal de 1988.

    Nesse sentido, vale lembrar a importncia da construo do Sistemanico de Sade (SUS), do Sistema nico da Assistncia Social (Suas), doSistema Nacional de Habitao de Interesse Social (SNHIS), do SistemaNacional de Unidades de Conservao (SNUC), entre outros. EssesSistemas tm em comum uma estruturao sobre trs colunas vertebrais,organizados por todos os entes da federao, que so imprescindveis naspolticas pblicas contemporneas: (i) fundo de recursos pblicospermanentes distribudos segundo critrios definidos em processos deplanejamento de curto, mdio e longo prazo; (ii) instrumentos especficosde planejamento elaborados necessariamente com participao social epopular, envolvendo os agentes polticos e grupos sociais relacionados, diretaou indiretamente, com o setor; (iii) canais institucionais para a interlocuoe compartilhamento de decises e responsabilidades de interesse pblicoentre Estado e sociedade (conselhos gestores). Na operacionalizao dessasestruturas, um ponto crtico encontra-se nas formas e nos critrios derepasses e distribuio dos recursos financeiros, que se apresentam sempreinsuficientes para atender as demandas sociais existentes. Muitas vezes, essesrepasses so capturados por lgicas polticas clientelistas que inviabilizam atransparncia e as prticas do controle social que buscam garantir o usojusto e adequado desses recursos.

    importante dizer que os sistemas de polticas pblicas, que estamosexperimentando no Brasil, ainda precisam de vrios aperfeioamentos quedevem ser feitos com base em avaliaes amplas e detalhadas. Em que peseos problemas e limitaes que inegavelmente existem nos alcances,abrangncias e funcionamentos desses sistemas, interessante observar ofato de que as proposies possuem enraizamento em importantes basespropiciadas pelos setores organizados da sociedade. Tais bases incidiram econtinuam a incidir nos processos de instituio e reformulao doscomponentes, rgos, critrios, procedimentos e legislaes que compemesses sistemas. interessante observar, ainda, a clara adoo dos princpiose perspectivas que afirmam os direitos sociais universais consagrados naConstituio Federal. Pelo menos em tese, esses princpios colocam-se comoorientadores da construo e operacionalizao daqueles sistemas depolticas pblicas.

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    Nesse Brasil da redemocratizao poltica, a efetivao de sistemasnacionais e federativos de polticas pblicas, que buscam garantir os direitos sade, proteo e assistncia social, moradia digna, preservao eao uso sustentvel dos ecossistemas e biodiversidades naturais, pode ser ummeio importante para a democratizao social em vrios contextos scio-territoriais do pas. A colocao desse fato no interior da perspectivahistrica da sociedade brasileira, que nunca viveu perodos deuniversalizao dos direitos sociais bsicos, mostra o alto grau de inovaoe ineditismo dessa iniciativa. A importncia daqueles sistemas aumentaainda mais quando consideramos o fato de que eles estavam sendoinstitudos no pas durante a dcada de 1990, em pleno perodo em que oneoliberalismo, as privatizaes de servios pblicos e os chamados ajustesestruturais demandados pela globalizao econmica estavam influenciandofortemente as agendas de vrios estados nacionais, muitas vezes emdetrimento do interesse pblico e coletivo e em favor das foras privadas domercado.

    De modo simplificado podemos dizer que, num momento em que algica do mercado era apregoada e defendida por vises conservadoras comoa principal fornecedora e reguladora dos acessos sociais aos equipamentos,servios e infraestruturas bsicas para a satisfao das necessidades coletivasimprescindveis para o desenvolvimento humano, os sistemas nacionais efederativos de polticas pblicas do Brasil estavam se esforando paragarantir os direitos sociais, a partir, unicamente, da cidadania, sem asexigncias de requisitos econmicos e de inscrio nas sociedades salariais,conforme formulao de Robert Castel. Ento, importante que aconstruo do Sistema Nacional de Patrimnio Cultural extraia asaprendizagens necessrias a partir das experincias de construo dos demaissistemas de polticas pblicas, mencionados anteriormente. Para isso, importante fazer um trabalho de avaliao crtica do que se avanou e doque se deixou de avanar nesses sistemas, alm de analisar quais foram oselementos que potencializaram esses avanos e os entraves que osimpediram.

    necessrio compreender como os direitos sociais se inscrevem noscampos dos patrimnios culturais, considerando, especialmente, as diferentesconcepes enunciadas pelo professor Ulpiano Toledo Bezerra de Menezes,na conferncia de abertura do I Frum Nacional do Patrimnio Cultural,acima mencionado. Isto , compreender a efetivao de direitos sociais, pormeio de patrimnios culturais inseridos na vida prtica e nos hbitos sociais

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    cotidianos, constituintes dos espaos de habitualidade povoados porvalores, sentidos e sensaes transformadoras, que mobilizam experincias evivncias das pessoas nos seus territrios existenciais, constantementeatravessados por processos polticos, econmicos e culturais. Como bemdeclara Menezes, trata-se de compreender o patrimnio cultural numadimenso que est alm do chamado voyeurismo cultural, este alinhadomuito mais ao consumo acelerado dos patrimnios culturais do que suaincorporao na vida do dia a dia. Na perspectiva do planejamento e gestourbana e territorial, as questes relevantes que nos interpela so: Como oSistema Nacional de Patrimnio Cultural pode contribuir para efetivar osdireitos sociais bsicos, em especial o direito cidade, por meio da inscriodos sentidos, afetos, valores e crenas que impregnam os patrimniosculturais existentes nas cidades brasileiras? Como esses patrimnios culturaisurbanos podem ser incorporados nos espaos da habitualidade dacidadania cotidiana? Como essa efetivao de direitos pode ocorrer commaior fortalecimento democrtico?

    Este texto no pretende dar respostas completas e esgotar essas questes.Devido s limitaes de espao prope-se, nas partes subsequentes, discutirbrevemente algumas premissas importantes, que devem ser consideradas nabusca por reflexes em torno dessas questes. Trata-se de algumas premissasque so importantes para pensar o Sistema Nacional de Patrimnio Culturalna perspectiva do direito cidade e de uma possvel, e necessria, articulaocom um futuro Sistema Nacional de Desenvolvimento Urbano, aindainexistente. Depois dessas premissas, traam-se algumas consideraes sobrea incorporao do patrimnio cultural nos contedos e componentes doPlano Diretor, instrumento bsico para o planejamento e gesto dodesenvolvimento urbano e da expanso das cidades, inserido noordenamento jurdico do pas. Ordenamento jurdico baseado no captulosobre a poltica urbana da Constituio Federal de 1988 (Artigos 182 e183), regulamentado pelo Estatuto da Cidade, Lei Federal 10.257/2001.

    DUAS PREMISSAS PARA A ARTICULAO ENTRE OPATRIMNIO CULTURAL E O DIREITO CIDADE

    PRIMEIRA PREMISSA

    Para discutirmos a relao entre patrimnio cultural, a cidade e acidadania necessrio ter em mente trs dimenses essenciais e funda-

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    mentais, que fazem parte da prpria ideia de cidade. Trata-se das dimensespolticas, das dimenses fsicas e materiais do espao urbano e dasdimenses civilizatrias, baseadas no compartilhamento de valoressocioculturais, que amalgama os intercmbios e as convivncias entre oscitadinos em diferentes espaos e tempos. Discutir a cidade e suastransformaes, com base no entrelaamento dessas dimenses, exige,necessariamente, consideraes sobre a poltica; sobre as condies econfiguraes dos espaos urbanos; e sobre os pactos de convivncia ecompartilhamento de valores, que procuram a permanncia da cidade.

    Assim, as discusses sobre as cidades e seus patrimnios culturais,inscritos em seus territrios, implicam, necessariamente, reflexes sobre acidadania, pois as cidades se constituem a partir das prticas cidads, assimcomo a cidadania se vale dos benefcios da vida nas cidades. Portanto,refletir sobre a cidadania exige consideraes sobre as relaes polticas como outro, que se posiciona como diferente e divergente, sobre as condiesmateriais de vida nos espaos urbanos e sobre os valores civilizatrios quese compartilha na convivncia em meio diversidade social. As relaespolticas, baseadas nos exerccios de poder que envolve inmeros tipos deconflitos, so partes constituintes das cidades, inclusive dos seus patrimniosculturais. Essas relaes se fundam nos dissensos e na convivncia com adiferena e envolvem o compartilhamento de valores que, muitas vezes,esto representados e materializados na existncia e nos usos dospatrimnios culturais.

    Na medida em que negamos ou nos retiramos dessa convivncia emmeio a diversidades urbanas, na medida em que adotamos modos de vidacada vez mais encapsulados em contextos e territrios social e culturalmentehomogneos, abreviamos e erodimos a poltica e, em consequncia,colocamos em xeque a prpria ideia de cidade. Desse modo, h umenfraquecimento e uma eroso dessa ideia, quando o outro e o diferentenos aparecem como um perigo e uma ameaa e, portanto, devem serevitados e terem os acessos e as circulaes interditadas por determinadosespaos urbanos. Esse enfraquecimento ocorre, tambm, quando deixamosos espaos fsicos das cidades entrarem num processo de deteriorao ecolapso, a ponto de comprometer profundamente as condies e asqualidades positivas da vida urbana. Essa eroso se verifica ainda, quandoh um processo de decomposio e rupturas no compartilhamento eatualizao de determinados valores sociais, constitudos no presente e no

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    passado, que so importantes na criao de certos amlgamas culturais. Ospatrimnios culturais nas cidades so parte importante desses valores.Portanto, a destruio desses patrimnios traz consigo algo como umaderrocada da ideia de cidade. E com isso, teremos uma derrocada do direito cidade.

    SEGUNDA PREMISSA

    importante ter em mente que os nossos padres de urbanizao,materializados nas cidades brasileiras, so padres dirigidospredominantemente pela lgica do mercado, formal e informal. O processode produo dos espaos urbanos se d, principalmente, pela atuao dosagentes econmicos presentes nos mercados imobilirios das classespopulares, de classe mdia e das classes mais abastadas. A regulao pblica,realizada pelo Estado, se coloca de duas maneiras nesse processo. De umlado, omite-se de qualquer ao regulatria, no caso da produo de espaosurbanos destinados s classes populares que, desse modo, passam a morare viver em locais irregulares, clandestinos, informais marcados por inmerostipos de riscos e precariedades urbansticas e socioambientais. De outrolado, adota aes regulatrias patrimonialistas, que favorecem os interessesminoritrios das classes mais endinheiradas, em espaos urbanos melhorconstitudos, do ponto de vista da oferta de equipamentos, servios einfraestruturas bsicas e de diversas oportunidades urbanas, propiciadorasde desenvolvimento humano e econmico.

    Portanto, aqueles padres de urbanizao que estruturaram e continuama estruturar os espaos das cidades brasileiras, se caracterizam pela produoe apropriao desigual das terras urbanas, gerando processos de exclusoterritorial dos setores mais vulnerveis da sociedade. Tais processos reforamas desigualdades sociais existentes na distribuio de renda e em outrasriquezas socialmente produzidas. No exagero dizer que o nosso padrode urbanizao , basicamente, predatrio. Predatrio em relao spotencialidades humanas, predatrio em relao aos recursos naturais,predatrio em relao aos patrimnios culturais. Estamos testemunhandoas ocorrncias de desastres naturais cada vez mais graves, porque as cidadesso produzidas de modo incompatvel com as condies, regimes e ciclosdos elementos naturais, principalmente as vegetaes e os recursos hdricos.Produzimos espaos urbanos segundo um processo sociopoltico destrutivoe de alto risco. Por isso, faz todo o sentido discutir a violncia na cidade ea violncia da cidade.

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    Esse fenmeno pode ser verificado tanto nos modos de urbanizao dazona costeira brasileira, ocorrida desde o perodo colonial, quanto nasfrentes de urbanizao, que se encontram nas regies Centro-Oeste e Norte,nas cidades do agronegcio, nos ncleos urbanos implantados no arco dodesmatamento, que contorna a Amaznia Legal, nos corredores deurbanizao, que esto se constituindo ao longo da rodovia Belm-Brasliae da BR 364 que liga Braslia, Campo Grande, Cuiab, Porto Velho e RioBranco. Os recentes mapas da violncia nos municpios brasileiros mostramo processo de interiorizao das altas taxas de homicdio em direo a essasfrentes de urbanizao, alcanando pequenos ncleos urbanos em formao.Isso mostra que a territorializao desigual, excludente e predatria, dasnossas cidades, sempre atravessada por srios conflitos fundirios, se d deum modo violento. Esse modo violento de urbanizao acirra a violnciaque ocorre nos espaos urbanos produzidos, instaurando um ciclo vicioso,difcil de ser quebrado.

    Em So Gabriel da Cachoeira, municpio indgena localizado noAmazonas, na regio do Alto Rio Negro, conhecida como cabea docachorro (por causa do perfil canino delineado pelas divisas municipais),vemos que o padro predatrio de urbanizao capaz de destruir territriossimblicos da cultura indgena. Nesse municpio de 109 mil km, localizadona trplice fronteira entre Brasil, Colmbia e Venezuela, h mais de vintediferentes etnias indgenas, que convivem num extenso territriodemarcado como terra indgena. Essas etnias valorizam a Cachoeira deIauaret como importante patrimnio cultural relacionado com os mitos deorigem dos povos. Essa Cachoeira foi um dos primeiros registros depatrimnio imaterial feito pelo Iphan.

    Esse registro faz parte de um importante processo de valorizao dospatrimnios culturais indgenas que enriquecem So Gabriel da Cachoeira,onde, alm do portugus, h trs lnguas indgenas cooficiais institudas porlei municipal. Esses patrimnios culturais indgenas marcam vrios pontosdo territrio com narrativas mticas conhecidas pelas comunidades,principalmente pelas pessoas mais velhas. Essas narrativas foram registradasem portugus pelo Instituto Socioambiental (ISA) e pela Federao dasOrganizaes Indgenas do Alto Rio Negro (FOIRN), numa coleo depublicaes chamada narradores indgenas.

    Os territrios de So Gabriel da Cachoeira no tm somente impor-tncia fsica, ambiental, funcional, mas apresentam grande importncia

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    simblica. Na sede do municpio, o modo de urbanizao ocorreu, econtinua a ocorrer, segundo padres precrios de moradia e de uso eocupao do solo, que tambm so verificados em outras cidades do pas.Essa urbanizao est apagando as dimenses simblicas de alguns locaisinscritos no espao urbano da sede municipal e que fazem parte das vriasnarrativas que contam as vidas e os feitos dos heris, entidades eantepassados mticos das diferentes etnias indgenas. Essa destruio dopatrimnio cultural, provocada por um padro de urbanizao desreguladoe dominado pela lgica mercadolgica, ainda que informal, de produo eapropriao das terras urbanas, pode ser vista em vrias cidades brasileirasque, desse modo, perdem elementos materiais e imateriais que definem ossentidos, os afetos e os valores presentes na memria social do pas.

    O PLANO DIRETOR E O PATRIMNIO CULTURALPara iniciar uma reflexo sobre as relaes entre o Plano Diretor e o

    patrimnio cultural, em primeiro lugar importante lembrar que, segundoa Constituio Federal e o Estatuto da Cidade, o princpio bsico que devereger a poltica urbana no Brasil o da funo social das cidades e daspropriedades urbanas. importante lembrar, ainda, que o Plano Diretor,institudo por lei municipal, tem como objetivo principal definir normas eparmetros para o ordenamento das funes sociais das cidades e daspropriedades urbanas, nos municpios brasileiros. Segundo o Estatuto daCidade, as funes sociais das cidades se cumprem com base noatendimento das necessidades sociais bsicas e na garantia da qualidade devida dos cidados e cidads, portanto, na efetivao dos direitos sociais. Afuno social da propriedade urbana se cumpre conforme a obedincia atodas as determinaes estabelecidas no Plano Diretor, e no somentequelas concernentes ao combate reteno especulativa da terra urbana.As funes sociais das cidades se cumprem, tambm, pelo cumprimentodas funes sociais das propriedades urbanas.

    Aqui j aparece um primeiro ponto de contato entre o Plano Diretor eo patrimnio cultural. Trata-se do entendimento de que a proteo e autilizao adequada do patrimnio cultural nos espaos urbanos definem,junto com outros componentes, uma das linhas de cumprimento dasfunes sociais das cidades e das propriedades urbanas. As cidades cumpremas suas funes sociais quando garantem a possibilidade de todos frurem eusufrurem dos patrimnios culturais existentes nos seus territrios. As

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    propriedades urbanas, reconhecidas como parte do patrimnio cultural porseus valores cognitivos, estticos, afetivos, pragmticos e ticos, segundoas definies propostas pelo professor Ulpiano Toledo Bezerra de Menezes,na conferncia antes citada, tambm cumprem suas funes sociais, quandopreservadas e incorporadas adequadamente na vida urbana, em benefciodos interesses pblicos e coletivos da sociedade.

    Essa colocao do patrimnio cultural na perspectiva das funes sociaisdas cidades e das propriedades urbanas impe a necessidade de estabeleceraes estratgicas, normas, parmetros e regras referentes aos imveisreconhecidos como patrimnio cultural nos contedos do Plano Diretor.Tais determinaes no ferem o direito de propriedade dos imveis urbanos.Complementam esse direito, estabelecendo deveres aos proprietrios e aoPoder Pblico a fim de promover um desenvolvimento urbano maisequilibrado e menos predatrio. Os princpios constitucionais das funessociais das cidades e das propriedades urbanas no devem ser vistas de modosimplificado, como limitaes ao direito propriedade. Definem quais soos deveres, estabelecidos no Plano Diretor, que os proprietrios de imveisprecisam cumprir, para exercer seus direitos de propriedade. Portanto, asfunes sociais e o direito de propriedade no so dimenses separadas.Possuem relaes de complementao e no de cerceamento ou limitao.

    Diante da enorme responsabilidade de concretizar aqueles princpiosconstitucionais nos territrios municipais, os Planos Diretores precisam terestreita vinculao com as realidades polticas, fsico-espaciais, econmicase culturais locais. Essa vinculao d, ao Plano Diretor, um carterextremamente dinmico, que demanda processos permanentes deelaborao, implementao, monitoramento, avaliao do que foi, ou no,implementado e reviso com base nos resultados da avaliao realizada.Reviso esta que resulta num novo Plano Diretor, com propostascondizentes com o novo momento poltico, econmico e cultural da cidade.Portanto, essas definies referentes ao cumprimento das funes sociaisdas cidades e das propriedades urbanas no so estticas, porque asdinmicas polticas, econmicas e culturais, das cidades, no so estticas.Essas definies precisam ser objeto de permanente repactuao social.

    No basta ter um Plano Diretor. preciso utiliz-lo como uminstrumento de governo e gesto pblica para orientar o desenvolvimentourbano local. A gesto pblica um processo permanente que se vale deaparatos e procedimentos tcnicos, mas sempre com dimenses polticas

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    que devem ser detidamente analisadas. um processo de negociao comdiferentes agentes polticos e grupos de interesses que, muitas vezes, envolveimpasses e conflitos, que precisam ser mediados devidamente, segundo osinteresses pblicos e coletivos. OPlano Diretor deve se articular comos procedimentos tcnicos do dia adia de planejamento e controleurbano. Com isso ter condiespara ser implementado, testado,avaliado e revisto periodicamente.Esses so os ciclos bsicos doplanejamento e gesto urbana eterritorial, que caracteriza, tambm,qualquer poltica pblica, inclusiveaquelas concernentes ao patrimniocultural.

    Para que os Planos Diretores sejam constantemente aperfeioados, preciso que os seus contedos sejam submetidos aos ciclos bsicos deelaborao, implementao, monitoramento, avaliao e reviso. Taiscontedos consistem nas definies de trs grupos de propostas que seorganizam em: (i) investimentos prioritrios para a melhoria das condiesde vida e de funcionamento nos espaos urbanos; (ii) estratgias de regulaoe ordenamento territorial que orientam formas mais equilibradas de uso,ocupao e parcelamento do solo; (iii) componentes institucionais,participativos e de informaes, necessrios para a organizao de um sistemamunicipal de planejamento e gesto democrtica dos territrios locais.

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    O PLANEJAMENTO DE INVESTIMENTOS PRIORITRIOS PARAO ESPAO URBANO

    Os investimentos prioritrios, a serem realizados nos espaos urbanos erurais durante o perodo de vigncia do Plano Diretor, so importantes paraque a cidade cumpra sua funo social e, conforme visto anteriormente,atenda as principais demandas sociais por melhorias da qualidade de vidae efetive direitos sociais. As definies desses investimentos prioritrios soimportantes para criar boas condies de incorporao dos patrimniosculturais nas dinmicas urbanas locais. Em muitos casos, esses patrimniosculturais se encontram em situaes delicadas do ponto de vista urbansticoe precisam receber investimentos de diversas ordens para se adequarem aosterritrios e espaos urbanos prximos e distantes. s vezes, os prpriospatrimnios culturais necessitam de investimentos e aes para reformas eadaptaes s necessidades coletivas.

    No Plano Diretor, importante ter bem claras as indicaes dosinvestimentos prioritrios para que se possa ter um apontamento objetivoe compreensvel que, segundo o Estatuto da Cidade, deve ser obri-gatoriamente considerado na elaborao dos instrumentos de planejamentodas finanas municipais, como o Plano Plurianual (PPA), a Lei de DiretrizesOramentrias (LDO) e a Lei Oramentria Anual (LOA). Segundo oEstatuto da Cidade, o Plano Diretor tem validade de, pelo menos, dez anos.O PPA tem validade de quatro anos, correspondente a um mandato degovernante municipal, podendo sofrer algumas alteraes nesse perodo, ea LDO e a LOA tm validade de um ano. Portanto, nada mais coerenteque o Plano Diretor oriente as definies sobre os investimentos pblicosque devem ser previstos nos demais instrumentos de planejamentomunicipal, em especial os investimentos que precisam ser realizados namelhoria e na reestruturao dos espaos urbanos e na proteo e utilizaoadequada dos patrimnios culturais.

    Nesse ponto, deparamo-nos com um problema crucial, relacionado comas baixas capacidades de investimento dos municpios brasileiros, de umamaneira geral, e no campo do desenvolvimento urbano e territorial, emparticular. O oramento desses municpios encontra-se enrijecido pelosgastos com custeio, por limites impostos pela Lei de Responsabilidade Fiscale pelas obrigatoriedades constitucionais de destinao de recursos para asade e educao. Desse modo, a grande maioria desses municpios encontra-se dependente das transferncias intergovernamentais, estaduais ou federal,

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    para obter o mnimo de recursos, que pode ser usado na realizao de alguminvestimento. No cabe aqui alongar as anlises sobre esse ponto. Entretanto,vale assinalar que a construo de futuras e necessrias articulaes, entre oSistema Nacional de Patrimnio Cultural e de Desenvolvimento Urbano,dever enfrentar essas questes relativas ao financiamento pblico dodesenvolvimento urbano em contexto federativo. Isso dever envolverreflexes crticas sobre os critrios de repasses intergovernamentais derecursos no onerosos e tambm sobre a poltica tributria vigente.

    AS ESTRATGIAS DE REGULAO E ORDENAMENTOTERRITORIAL

    No Plano Diretor, as estratgias de ordenamento e regulao territorialnada mais so do que a destinao socioeconmica, sociocultural esocioambiental dos solos urbanos e rurais. Trata-se de definies, parmetrose normas de uso, ocupao e parcelamento do solo e regras de aplicaodos instrumentos de poltica urbana, previstos no Estatuto da Cidade, entreoutros tipos de instrumentos, que determinam diferentes canais de acessoe distribuio da terra urbana e rural. So definies, parmetros e normas,que determinam direitos e deveres para os proprietrios de imveis e parao Poder Pblico, mas, principalmente, que incidem nos valores econmicosdessas terras, as quais se constituem como riqueza socioeconmica e, noscasos dos patrimnios culturais, tambm como riquezas simblicas. Assimcomo a realizao de investimentos pblicos nos espaos urbanos geramvalorizaes ou desvalorizaes imobilirias, as estratgias de ordenamentoe regulao territorial incidem em revalorizaes imobilirias, tambm emsentido positivo ou negativo.

    Do ponto de vista do patrimnio cultural, as estratgias de ordenamentoe regulao urbana e territorial podem lanar mo de algumas possibilidadescomo:

    o estabelecimento de zonas especiais de interesse cultural, que criamregimes especficos para a elaborao de planos de aes einvestimentos e permitem melhorar as condies dos patrimniosculturais e formas flexveis de regulao do uso e ocupao dosimveis existentes;

    a utilizao da transferncia de potenciais construtivos de imveisreconhecidos como patrimnios culturais, a fim de se obter recursos

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    do mercado imobilirio para a reforma e adaptao das edificaes,de modo a proteg-las e reabilit-las para usos adequados;

    a utilizao de consrcios imobilirios entre proprietrios de imveisreconhecidos como patrimnios culturais e o poder pblico, a fimde se criar condies para a reabilitao e usos adequados dasedificaes;

    utilizao de instrumentos de incentivos tributrios, em benefciosde proprietrios de imveis com valores culturais reconhecidos;

    utilizao da dao em pagamento de imveis com valores culturais,cujos proprietrios possuem dvidas com a Prefeitura;

    utilizao da locao social, subsidiada, de imveis com valoresculturais, que se encontram sob domnio da Prefeitura para finsdiversos, inclusive moradia de interesse social.

    No Brasil, ainda no temos larga experincia na articulao entre opatrimnio cultural e as estratgias de ordenamento e regulao urbana paraa cidade como um todo. Tampouco temos acmulos de experincias nautilizao dessas e de outras possibilidades de aplicao de instrumentosurbansticos na gesto de patrimnios culturais. Contudo, importantetestarmos essas possibilidades para verificarmos se so ou no adequadas equais so as margens para aperfeioamentos.

    O SISTEMA MUNICIPAL DE PLANEJAMENTO E GESTODEMOCRTICA DOS TERRITRIOS LOCAIS

    importante que o Plano Diretor se preocupe em criar as condiestcnicas e institucionais na administrao municipal, para que, tanto osinvestimentos prioritrios sejam realizados, quanto as estratgias deordenamento e regulao territorial sejam efetivadas. Para isso, importanteconcretizar diferentes componentes do sistema municipal de planejamentoe gesto democrtica dos territrios locais. Trata-se dos seguintescomponentes:

    componentes institucionais, que devem ser organizados na estruturaadministrativa municipal, como uma secretaria ou diretoria deplanejamento e gesto territorial, com equipes tcnicas, equi-pamentos, infraestruturas, sistemas de informaes, cadastros e basescartogrficas, inclusive dos patrimnios culturais inventariados, ou

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    no, e tombados, ou no, que propiciem boa atuao da Prefeitura naimplementao das propostas contidas no Plano Diretor;

    componentes que instituam canais de participao social e popular,como conselhos gestores, conferncias das cidades, assembleiasterritoriais, audincias pblicas, plebiscitos, referendos, entre outraspossibilidades com condies para o compartilhamento de poder,responsabilidades e decises, entre setores organizados da sociedadee representantes do Poder Pblico;

    componentes que instituam fontes perenes de financiamentospblicos no mbito municipal, como os fundos municipais para odesenvolvimento urbano, que separam parte dos recursos dooramento municipal, inclusive aqueles obtidos com a aplicao dosinstrumentos de poltica urbana, como a outorga onerosa do direitode construir e de alterao de uso, para a realizao dos investimentosprioritrios definidos no Plano Diretor.

    Esses componentes do sistema municipal de planejamento e gestodemocrtica dos territrios locais precisam buscar, cada vez mais,articulaes horizontais com diferentes setores das polticas pblicas, emespecial aqueles com alta incidncia territorial, como a habitao, o meioambiente, o patrimnio cultural, entre outros, e articulaes verticais comdiferentes nveis da federao. Somente assim teremos ligaes mais slidasentre os Sistemas Nacionais de Patrimnio Cultural e de DesenvolvimentoUrbano. As sustentaes dessas ligaes sero realizadas, como nos arcos depedra das pontes, pelos vnculos entre cada pedra no todo do arco. Essearco sero nossos sistemas garantidores de direitos sociais e cidade.

    REFERNCIASBRASIL. Estatuto da Cidade guia para implementao pelos municpios e cidados. Braslia: Cmara dosDeputados, 2005.

    MINISTRIO DAS CIDADES. Plano Diretor Participativo guia para elaborao pelos municpios e cidados.Braslia, 2004.

    NAKANO, Kazuo. O planejamento e a gesto territorial no Brasil entre o tecnocratismo e o direito cidade.In: KOGA, Dirce; GANEV, Eliane e FAVERO, Eunice (orgs.). Cidades e questes sociais. So Paulo: Andross,2008.

    ______. So Gabriel da Cachoeira planejamento e gesto de territorialidades imbricadas. In: CASTRO, Edna(org.). Cidades na floresta. So Paulo: Annablume, 2008.

    ROLNIK, Raquel. A cidade e a lei legislao, poltica urbana e territrios na cidade de So Paulo. So Paulo:Fapesp-Studio Nobel, 1997.

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    INSTRUMENTOS URBANSTICOSPARA A PRESERVAO DO

    PATRIMNIO CULTURAL:O EXEMPLO DE PARANAPIACABA

    Vanessa Gayego Bello Figueiredo*

    RESUMOO presente trabalho discute a questo dos instrumentos urbansticos

    para a preservao do patrimnio cultural, a partir do exemploparadigmtico da gesto sustentvel de Paranapiacaba, onde foidesenvolvida e implementada a Lei da Zeipp Zona Especial de Interessedo Patrimnio de Paranapiacaba. A Zeipp, aprovada em 2007, uma leiespecfica estabelecida pelo Plano Diretor 2004 de Santo Andr, que articuladiretrizes de preservao do patrimnio com desenvolvimento urbano,ambiental, econmico e social. O processo de elaborao dessa lei ocorreude forma participativa e interdisciplinar, envolvendo a Prefeitura, os trsrgos de preservao do patrimnio cultural (Iphan, Condephaat eComdephaapasa), os conselhos municipais de poltica urbana e meioambiente, universidades, entidades de classe e a comunidade local.

    PALAVRAS-CHAVEInstrumentos urbansticos, Gesto do patrimnio, Paisagem cultural.

    Implantada no topo da Serra do Mar, parte mais alta da cordilheiramartima, numa altitude de 796 metros, a pequena Vila Ferroviria deParanapiacaba, a 64 quilmetros da capital paulista, um exemplar notveldo patrimnio cultural brasileiro.

    Situada na cidade de Santo Andr (SP), a Vila faz parte do Distrito deParanapiacaba, que tem uma rea de 83,22 km2, representando 48% darea do municpio. Essa poro do territrio andreense est totalmenteinserida em rea de proteo aos mananciais e, portanto, preservasignificativas reservas naturais. Em 1994, a Unesco reconheceu a

    * Doutoranda daFAU/USP epesquisadora daFupam-Fauusp

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    importncia da biodiversidade e dos ecossistemas de Mata Atlntica daregio por meio da criao da Reserva da Biosfera do Cinturo Verde deSo Paulo.

    Paranapiacaba, que na linguagem indgena significa local de onde se vo mar, conserva um significativo acervo tecnolgico ligado ferrovia etestemunho de um modelo arquitetnico e urbanstico bastante avanadopara a poca de sua implantao. Essa vila ferroviria nasceu e sedesenvolveu a partir de 1860, com a implantao da Estrada de FerroSantos-Jundia, a primeira ferrovia paulista, construda pela companhiainglesa So Paulo Railway SPR, para escoar a produo cafeeira do Estadode So Paulo ao mercado internacional. Em 1946, a ferrovia e todo seupatrimnio foram incorporados ao Governo Federal e, em 1957, a RedeFerroviria Federal S.A. passou a administr-los. A partir dos anos 80, aVila de Paranapiacaba passou por um intenso perodo de abandono edegradao.

    Em 1987, depois de numerosas solicitaes populares, teve seupatrimnio cultural e natural reconhecido e tombado pelo Conselho deDefesa do Patrimnio Histrico, Arqueolgico, Artstico e Turstico Condephaat; em 2002, pelo Iphan; e em 2003, pelo rgo municipal, oConselho Municipal de Defesa do Patrimnio Histrico, Artstico,Arquitetnico-Urbanstico e Paisagstico de Santo Andr Comdephaapasa. Entre 2003 e 2007, foi considerada pela WorldMonuments Fund um dos cem patrimnios mais importantes do mundoem risco. Em 2008, Paranapiacaba tornou-se o primeiro patrimniocultural paulista e tambm o primeiro patrimnio industrial ferroviriobrasileiro indicado pelo Iphan ao ttulo da Unesco de Patrimnio Mundial.

    Para administrar as especificidades da regio de Paranapiacaba, aPrefeitura de Santo Andr criou, em 2001, a Subprefeitura de Paranapiacabae Parque Andreense, viabilizando a implantao de um modelo de gestomunicipal descentralizada, articulando as polticas de desenvolvimentourbano, econmico e social, com preservao do patrimnio cultural,conservao ambiental, turismo sustentvel e participao cidad.

    A partir de 2002, com a compra da Vila pela Prefeitura, foi possvel darincio ao paradigmtico programa de Gesto do Desenvolvimento LocalSustentvel de Paranapiacaba, intensificando o processo de recuperaodesse precioso patrimnio brasileiro. O amplo e complexo programa degesto desenvolvido vem sendo considerado avanado e inovador por

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    diversas instituies, dentre elas o Iphan, sobretudo pela qualidade,quantidade e agilidade dos resultados alcanados atravs da concepo eimplementao integrada e interdisciplinar de polticas pblicas.

    No entanto, no caber, no mbito deste artigo, apresentar todas essaspolticas. Ser focado o tema do debate: desenvolvimento urbano epreservao do patrimnio cultural, por meio da apresentao eproblematizao da experincia desenvolvida durante a elaborao eimplantao da legislao urbanstica denominada Zeipp Zona Especialde Interesse do Patrimnio de Paranapiacaba.

    A Zeipp, Lei 9.018/07 aprovada em 2007, uma lei especficaestabelecida pelo Plano Diretor 2004 de Santo Andr. Alm de reconheceras especificidades de Paranapiacaba e os desafios da gesto de um conjuntourbano inserido em rea ambientalmente sensvel, com cerca de 500 imveise uma populao de 1.500 habitantes, a lei estabelece e articula diretrizes depreservao do patrimnio cultural com desenvolvimento urbano,ambiental, econmico e social.

    De incio, alguns problemas estruturais tiveram de ser enfrentados. Omaior deles foi o de desenvolver uma lei municipal, atendendo sprerrogativas do Estatuto da Cidade, da legislao ambiental (nacional,estadual e municipal) e, ao mesmo tempo, dos tombamentos nas trs esferasde governo.

    Esse complexo desafio exigiu a resoluo de trs grandes questes: aconstruo de um novo arranjo institucional vertical, que articulasse os trsnveis de governo; a construo da interdisciplinaridade, com a finalidadede compor uma nica lei que disciplinasse e integrasse as polticas depreservao do patrimnio, planejamento urbano, meio ambiente edesenvolvimento; e, por fim, a constituio de um novo arcabouo jurdicoque atendesse a todas essas questes. Soma-se, ainda, a esses desafios a buscapela participao qualificada da comunidade envolvida com as questes deParanapiacaba.

    Assim, o primeiro passo para o incio do processo de elaborao dessa leifoi promover a participao dos diversos atores, atravs da Comisso daZeipp, envolvendo a Prefeitura, os trs rgos de preservao do patrimniocultural (Iphan, Condephaat e Comdephaapasa), os conselhos municipaisde poltica urbana e meio ambiente, universidades, entidades de classe e acomunidade local.

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    Embora existissem diversos canais de participao local emParanapiacaba (Conselho de Representantes, Cmara Tcnica, Frum deEmpreendedores, Frum de Monitores e Comisso de Festejos), devido importncia dessa lei, a Comisso da Zeipp destinou 17 das 34 cadeiras aosrepresentantes da comunidade, residentes na Vila. A lei foi elaborada emoito meses, de novembro de 2005 a julho de 2006, quando ocorreram dozereunies da Comisso da Zeipp, totalizando 54 horas de trabalho, alm dediscusses especficas no mbito das equipes tcnicas da Prefeitura e doscinco conselhos participantes.

    O processo foi dividido em cinco etapas e a metodologia de trabalhoutilizada foi a do planejamento estratgico situacional. A primeira etapa foia de escuta, cujo objetivo foi informar, sensibilizar e escutar os principaisproblemas, anseios e sugestes, quanto ao desenvolvimento da Vila para osprximos dez anos. Na segunda etapa, buscou-se a constituio doselementos preliminares da lei, com definio da sua estrutura, princpios,objetivos e diretrizes gerais. Na terceira etapa, colocou-se a minuta doprojeto de lei em debate na Comisso da Zeipp, e na quarta, ampliou-se odebate para discusses especficas com os cinco conselhos envolvidos, dentreeles, os trs rgos de preservao do patrimnio. A quinta e ltima etapafoi o debate no legislativo municipal, que durou mais de um ano at apromulgao da lei, em dezembro de 2007.

    A discusso da lei, no mbito dos trs rgos de preservao, foi, de fato,uma questo complicada, visto que as atuaes independentes de cada ume suas competncias concorrentes geram diversos conflitos, com sriasconsequncias sobre a preservao e gesto dos bens tombados.

    No caso de Paranapiacaba, os conflitos comeavam com as diferenasde permetro nos trs tombamentos. Outra questo de extremaimportncia, mas no exclusiva de Paranapiacaba, que os tombamentos noBrasil, recorrentemente, no estabelecem diretrizes para a preservao emanejo dos bens, restringindo-se, apenas, a uma descrio e justificativa desua relevncia cultural. A ausncia de diretrizes preestabelecidas e pactuadasentre os rgos leva, frequentemente, a orientaes distintas, antitticas e atpersonalizadas quando da aprovao de projetos de interveno,configurando uma atuao no institucional.

    Ademais, ao convidar os rgos de preservao, para a construoconjunta da Zeipp, surgiu, tambm, o problema das questes conceituais.

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    A complexidade, a confuso e os conflitos em torno dos conceitospraticados na rea do patrimnio eram tamanhos, que foi necessria aelaborao de uma carta patrimonial para Paranapiacaba, referenciada,obviamente, nas premissas das cartas internacionais, mas atendendo sespecificidades relativas preservao de um conjunto urbano, patrimnioindustrial ferrovirio, inserido em rea de conservao ambiental. Dessamaneira, a lei foi organizada em sete ttulos, comeando pela definio dosprincpios, objetivos e conceitos.

    O plano estabelecido pela Zeipp tem como princpios o desen-volvimento local sustentvel e a gesto democrtica e participativa, tambmprincpios do Plano Diretor de Santo Andr. O objetivo geral da lei preservar e valorizar a paisagem cultural de Paranapiacaba, conciliando odesenvolvimento da atividade turstica, com a conservao esustentabilidade dos patrimnios edificado, natural e imaterial, da vilaferroviria.

    O conceito de paisagem cultural, sistematizado por rgos internacionais,como a Unesco e o Conselho de Ministros da Europa, na dcada de 1990,amplia significativamente o conceito de patrimnio cultural, na medida emque rene e articula conceitos e objetos de diversos campos disciplinares.

    Sistematizado na Recomendao R(95) do Conselho da Europa, em1995, a paisagem cultural congrega os vrios aspectos do patrimnio(cultural, natural, ambiental urbano, material e imaterial), frequentementegeridos separadamente, considerando a interdisciplinaridade. Costuraconceitos de memria, histria e cultura aos conceitos da geografia,sociologia, antropologia, arqueologia, arquitetura, urbanismo e ecologia,pressupondo a ao integrada do planejamento e gesto territoriais com aspolticas ambientais e sociais em suas dimenses culturais e econmicas.Busca conjugar a poltica de preservao com o processo dinmico dedesenvolvimento das cidades, o que implica, necessariamente, no impediras mudanas, mas direcion-las e, portanto, trabalha na perspectiva dodesenvolvimento sustentvel.

    Ao compreender o conceito de paisagem cultural, a Comisso da Zeipppercebeu que seria esse o conceito ideal para trabalhar Paranapiacaba e seumodelo de gesto, visto que j se promovia a articulao entre diversaspolticas setoriais.

    O artigo quinto desse ttulo define os conceitos de manuteno,adaptao, atualizao tecnolgica, reparao, restaurao, requalificao

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    urbana, dentre outros utilizados na lei, inclusive para estabelecerprocedimentos diferenciados de aprovao, especificando, desburocratizandoe agilizando os processos, a fim de garantir a efetiva preservao e gesto dosbens.

    O ttulo segundo organizou as diretrizes para o desenvolvimento localsustentvel, orientando, sobretudo, a promoo da atividade turstica naVila. As principais diretrizes so:

    articular a poltica de desenvolvimento socioeconmico e ambiental poltica de preservao do patrimnio cultural;

    promover o desenvolvimento econmico compatvel com oambiente e com o suporte de infraestrutura urbana da Vila deParanapiacaba;

    promover e garantir a ordenao e o controle do uso do solo, deforma a evitar a proximidade de usos incompatveis ouinconvenientes;

    disciplinar a ocupao urbana na Vila;

    incrementar e qualificar o uso de hotelaria;

    garantir o uso habitacional;

    promover a formao e qualificao contnua da comunidade local,para consolidar e fortalecer a gesto do desenvolvimento localsustentvel;

    buscar alternativas de habitabilidade e uso compatvel para osimveis pblicos;

    melhorar as condies de acessibilidade e mobilidade urbana,respeitando as condies geomorfolgicas do stio histrico;

    propiciar a incluso social e a gerao de trabalho e renda, por meiodas atividades tursticas e das demais atividades econmicascompatveis com a paisagem cultural;

    realizar eventos culturais compatveis com as diretrizes dodesenvolvimento local sustentvel e de preservao da paisagemcultural; e

    garantir a segurana dos imveis pblicos, atravs da implantaode medidas preventivas de combate a incndio e de segurana.

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    Com base nos objetivos e diretrizes enunciados, o Poder PblicoMunicipal elaborou o Plano de Desenvolvimento Turstico Sustentvel, oPlano de Melhoria do Saneamento Ambiental, o Programa de Preveno eCombate ao Incndio e o Projeto de Requalificao dos Sistemas de EnergiaEltrica e Iluminao Pblica. Paranapiacaba tem sistemas de abastecimentode gua, energia e iluminao, implantados pela So Paulo Railway noincio do sculo XIX, com curioso posteamento em trilhos metlicos,advindos da ferrovia, que funcionam precariamente, necessitando deatualizao tecnolgica e adequao s normas legais vigentes. Foram trsanos de discusso para aprovao de um projeto que atendesse s exignciasdos rgos de preservao, do licenciamento ambiental e da companhiaresponsvel pela proviso de energia eltrica.

    No ttulo terceiro, foram criadas as diretrizes para a preservao dapaisagem cultural de Paranapiacaba, suprindo a lacuna existente nostombamentos e, ao mesmo tempo, pactuando normas para a preservao egesto do stio reconhecido nas esferas nacional, estadual e municipal. Nasdiretrizes gerais, a Zeipp prope a diviso de Paranapiacaba em quatrosetores de planejamento urbano (Parte Alta, Parte Baixa, Ferrovia eRabique), identificando as caractersticas peculiares de situao fundiria etipo de uso e ocupao urbana de cada rea da Vila.

    Foram estabelecidas diretrizes especficas, como a criao dos Exemplaresde Tipologias Residenciais, superando a adoo dos nveis de tombamentoou nveis de interveno, compreendidos como uma gradao hierrquicaincoerente concepo de paisagem cultural. Assim, edificaesrepresentativas de cada tipologia arquitetnica foram selecionadas, com oobjetivo de destacar o valor documental e cognitivo do projeto ouconstruo original e, por isso, destin-las visitao pblica.

    Para os demais imveis, intervenes de ampliao so permitidas,entretanto, devem respeitar as relaes urbanas entre cheios e vazios (reasconstrudas e espaos livres), configurados pelo padro urbanstico da Vila,preservando a relao entre os recuos, o corpo principal da edificao, oquintal, o sanitrio ao fundo do lote e a viela sanitria ao meio da quadra. Isto, para os imveis que tm, originalmente, os banheiros fora da casa, serpermitida a ampliao, desde que esta no junte o corpo principal do imvelao anexo do sanitrio ao fundo e no ocupe os recuos frontais e laterais.

    A lei disciplina a comunicao visual ao ar livre e determina que osanncios permanentes devam ser posicionados na frente dos imveis e ter,

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    no mximo, 0,5m (meio metro quadrado), segundo modelos pr-aprovados pela Prefeitura e pelos rgos de preservao. Essa diretriz implicaa confeco de publicidade padronizada, gerando uma unidade visualcompatvel com a paisagem cultural da Vila.

    Permite a colocao de cercamentos nos lotes (com padro predefinido), deantenas parablicas somente no recuo de fundo e de vegetao que possibilitea visualizao da edificao e no prejudique a estabilidade estrutural.

    Uma das questes mais discutidas na comunidade foi a proibio dacobertura para estacionamento de veculos automotores dentro dos lotes.Outra questo polmica foi a definio de cores para as edificaes. A leidetermina que as casas devem permanecer pintadas para manter a proteocontra as intempries. As edificaes em madeira devem ser pintadas na cormarrom j existente e uma eventual alterao dever ser aprovada medianteprojeto de prospeco e justificativa. As casas de alvenaria devero manteras cores claras em trs opes: branco, creme ou amarelo. J as intervenesinternas devero orientar-se pela distribuio espacial e circulao existentes,pressupondo o uso compatvel da edificao.

    Nesse ttulo foram criados, ainda, o Manual de reas Verdes e Paisagismoe o Manual de Diretrizes e Procedimentos para Interveno no ConjuntoEdificado de Paranapiacaba, que, por seu detalhamento, estavam sendoregulamentados em 2008. O Plano da Zeipp prope, tambm, a criaodo Banco de Materiais, cujo objetivo constituir um estoque centralizadopara reposio de materiais e elementos construtivos. Com base nosdesenhos especficos para cada tipologia arquitetnica, sistematizados nosmanuais e investigados em quatro anos de pesquisa financiada pela Fapespe a Fundao Santo Andr, a Cooperativa de Marcenaria, composta pormoradores capacitados, fabrica peas para reposio, como portas, janelas,mos-francesas, cercamentos e guarda-corpos.

    O quarto ttulo estabeleceu os parmetros urbansticos para a ordenaodo uso e ocupao do solo do sistema virio e redefinio dos nveis deincomodidade por emisso sonora. A Zeipp reorganizou o uso do solo como objetivo de promover o desenvolvimento sustentvel, compatibilizando asatividades tursticas com a preservao do patrimnio e a manuteno daqualidade de vida da populao residente. Por isso, foi criado umzoneamento com o objetivo de minimizar os conflitos de vizinhana, ouseja, evitar que atividades incompatveis ou inconvenientes estejam prximas.

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    No Setor da Parte Baixa, onde esto 334 imveis de propriedade pblica,foram criadas zonas onde se conserva o uso residencial e ambiental e zonasonde se estimula a atividade comercial e turstica, atravs das seguintes reasde Uso do Solo: Predominantemente Residencial; PredominantementeComercial; de Transio do Parque; de Servios Diferenciados e deAtividades Noturnas.

    O zoneamento proposto trabalha com predominncia de usos,controlando e estimulando essa predominncia por meio da regulao deestoque das edificaes disponveis em cada rea. Enquanto na reaPredominantemente Residencial as categorias de uso no residencial e mistoso permitidas at atingir 20% dos lotes disponveis, na reaPredominantemente Comercial o uso no residencial permitido at oestoque mximo de 60%. Dessa maneira, o zoneamento fixa uma reservapara uso residencial correspondente a 50% dos imveis da Parte Baixa,garantindo a presena das habitaes, uso importante para manter umadinmica urbana saudvel e imprescindvel para a preservao da vilaferroviria.

    A rea de Transio do Parque Natural Nascentes de Paranapiacabacorresponde a uma faixa de 50 metros, do fim dos lotes at o comeo daUnidade de Conservao, onde se probe o uso habitacional e apenas osusos ambientalmente compatveis so permitidos.

    A rea de Servios Diferenciados dispe de apenas nove edificaes,localizadas em uma pequena colina, onde est o Hospital Velho. Nessa rea,estimulam-se usos de apoio ao turismo, mas que requerem baixaincomodidade, como hotelaria, arte, artesanato e prestao de serviosespeciais, relacionados ao condicionamento ou relaxamento fsico, mentalou espiritual, como spas, clnica mdica, psicolgica, psiquitrica outratamentos de sade alternativos.

    Na rea de Atividades Noturnas os nveis de incomodidade por emissosonora so mais permissivos, visando manter e estimular os usos decomrcio e servios relacionados ao turismo, lazer e alimentao. O nicouso no permitido nessa rea o de hotelaria, pois esse uso exige baixaincomodidade.

    O Setor da Parte Alta, com casario implantado seguindo o modelocolonial portugus, configurou-se com um tipo de ocupao urbana maishomognea e, por isso, no foi necessria sua diviso em reas. Nele, so

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    permitidos os usos residencial, no residencial e misto, mantendo acaracterstica histrica de ocupao, com sobrados de uso comercial, notrreo, e habitacional, acima.

    O Setor da Ferrovia corresponde ao ptio ferrovirio sob concesso daMRS Logstica, onde so permitidos apenas usos relacionados ao transporteferrovirio e ao comrcio e servios de apoio ao turismo.

    O Setor do Rabique uma rea imprpria para urbanizao, devido alta declividade e aos problemas de acessibilidade, visto que se localiza entrea via frrea e a rodovia. A pequena populao que ocupou, irregularmente,a rea, dever ser removida e, por isso, o zoneamento no permite o usohabitacional, apenas os usos relacionados recuperao ambiental.

    Nesse ttulo so definidas as taxas de permeabilidade dos lotes e ogabarito mximo de oito metros, ou dois pavimentos, com possibilidadede outorga onerosa at dez metros ou trs pavimentos, somente no Setor daFerrovia, mediante prvia aprovao dos rgos de preservao.

    A Zeipp promove, ainda, a regularizao urbanstica da Parte Baixa daVila, rea de propriedade da Prefeitura, definindo os limites entre os lotes.A rea planejada da Vila Nova apresenta terrenos j definidos, mas a VilaVelha e a rea de transio entre as casas e o Parque no tinham delimitaodefinida, gerando diversos conflitos de utilizao entre os moradores. A leiindica, tambm, a necessidade da regularizao fundiria do Setor da ParteAlta, rea com propriedades privadas e terras devolutas.

    Para organizar o fluxo de veculos e pedestres, o Plano da Zeippestabelece uma hierarquizao do sistema virio, com definio de trs tiposde vias: Vias de Acesso Liberado, onde a circulao de veculos e pedestres liberada; Vias de Acesso Restrito, onde permitida apenas a circulaode veculos de moradores e de prestao de servios pblicos; e Vias deAcesso de Pedestres, onde no permitida a circulao de veculosautomotores. As vias exclusivas para pedestres concentram-se na Vila Velha,que foi o acampamento inicial dos ferrovirios, constituindo o primeironcleo de povoamento, caracterizado por uma ocupao urbana irregular,com vias estreitas sem pavimentao. Neste caso, a ordenao do sistemavirio foi imprescindvel, para preservar os espaos urbanos de circulaohistoricamente definidos. A lei tambm promoveu a regularizao doslogradouros, com correo de grafia de ruas, praas, largos e vielas e criaode vias, ainda sem denominao.

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    O ttulo quinto trata dos instrumentos e incentivos para a preservaoda paisagem cultural de Paranapiacaba. Devido s especificidades relativasao campo da preservao do patrimnio e ao caso de Paranapiacaba, algunsinstrumentos previstos no Estatuto da Cidade e no Plano Diretor de SantoAndr foram adaptados e novos instrumentos foram criados, como: oEstudo de Impacto de Vizinhana EIV; a Outorga Onerosa do Direito deConstruir; a Assistncia Tcnica Gratuita para fins de preservao econservao; Incentivos e Benefcios Fiscais; Incentivos para Benfeitoriasnos Bens Imveis; a Cesso de Imveis Pblicos; a Dao de Bens Imveis,em pagamento de dvidas, e a Compensao Patrimonial.

    O Estudo de Impacto de Vizinhana (EIV) o instrumento utilizadopara anlise e aprovao de atividades ou empreendimentos de impacto,pblicos ou privados, que possam vir a causar alteraes significativas napaisagem cultural ou nas relaes sociais, sobrecarga na capacidade deinfraestrutura urbana e deteriorao da qualidade de vida da populao.Previamente, a Zeipp estabelece como sendo de impacto algunsempreendimentos, como: estaes de tratamento; estaes deradiocomunicaes; cemitrios; complexos esportivos; clubes recreativos;estacionamentos acima de 20 (vinte) vagas e novas construes comgabarito acima de 8 metros ou rea construda acima de 200 metrosquadrados. Ademais, quando se julgar necessrio, o EIV poder ser exigidopara outros empreendimentos no previsto na lei.

    A outorga onerosa do Direito de Construir, mediante contrapartidafinanceira, poder ser aprovada apenas no Setor da Ferrovia, conforme osndices preestabelecidos. No entanto, poder ser negada pelo ConselhoMunicipal de Poltica Urbana, caso se verifique a possibilidade de impactono suportvel pela infraestrutura ou o risco de comprometimento dapaisagem cultural. importante ressaltar que o direito da outorga nointerfere no processo de aprovao no mbito dos rgos responsveis pelapreservao e pelo licenciamento ambiental.

    Para incentivar a preservao da paisagem cultural, a lei garante o direitode assistncia tcnica gratuita queles que comprovarem a impossibilidadede arcar com custos de elaborao de projetos ou orientaes tcnicas parafins de preservao do patrimnio. Cria, ainda, benefcios fiscais paraaqueles que realizarem aes de conservao, desde que orientadas eaprovadas pelo Poder Pblico Municipal e pelos rgos de defesa dopatrimnio. Para os permissionrios da Parte Baixa, onde esto os imveis

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    pbicos, os materiais investidos em manuteno e demais intervenes,poderiam ser descontados da contraprestao, desde que as reformas estejamem conformidade com os projetos aprovados. Para os moradores da ParteAlta, onde os imveis so privados, h a possibilidade de descontos noIPTU Imposto Predial e Territorial Urbano.

    Essas aes, j praticadas pela Subprefeitura desde 2002, tinham afinalidade de fazer com que a comunidade se habituasse a conservar osimveis e, ao mesmo tempo, aprovar as reformas nas instnciascompetentes, gerando maior controle de fiscalizao sobre as intervenesexecutadas. A inteno de coloc-los em lei foi garantir a institucionalizaodesses direitos, ou seja, que eles constitussem uma poltica de Estado e nose restringissem, apenas, a uma poltica de Governo.

    A lei tambm consolida outra prtica j adotada pela Prefeitura. Trata-se da possibilidade de ceder, a ttulo precrio ou oneroso, atravs deconcorrncia pblica, o uso dos imveis pblicos para fins residenciais, noresidenciais ou mistos, atividades culturais diversas, exposies temporrias,dentre outros usos. Para o uso residencial, utiliza-se a permisso de uso decinco anos, renovveis, por meio de chamamento pblico. J para o usocomercial, de servios ou misto, que envolve a obteno de lucros a partirde atividades econmicas, a lei instituiu a concesso do direito real de usode vinte anos, renovveis por igual perodo, por meio de licitao pblica.Todos os casos de usos permanentes eram onerosos e no contrato estavaprevisto o investimento mnimo necessrio, para a conservao ourecuperao das edificaes.

    Um novo e polmico instrumento, ainda no praticado no campo dapreservao no Brasil, foi criado pela Zeipp: a compensao patrimonial. Ainteno promover compensaes econmicas, sociais e culturais deempreendimentos ou projetos de interveno, aprovados pela Prefeitura ergos de preservao, tal como se pratica na rea ambiental. Essa ideiasurgiu a partir da discusso sobre os impactos ambientais do projeto doTransporte de Correia de Longa Distncia TCLD, proposto pela MRSLogstica, concessionria que administra o transporte de carga no trecho deParanapiacaba. Como o empreendimento estava em rea ambientalmenteprotegida, o processo de licenciamento exigia a compensao ambiental dosdanos e interferncias causadas sobre o meio ambiente, visto,prioritariamente, com foco sobre o ambiente natural. No entanto, paraavaliao e possveis compensaes dos impactos sobre o patrimnio

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    ferrovirio da So Paulo Railway, no haviam instrumentos especficos eadequados.

    Todos os rgos envolvidos, inclusive os de patrimnio, aprovaram oestudo preliminar para a implantao doTCLD sobre a linha desativada dosegundo sistema funicular, compreendendo a necessidade econmica e asexternalidades urbanas positivas de promover a logstica ferroviria dotransporte de cargas. Ademais, a melhor maneira de recuperar o funicular,desativado e em adiantado processo de runa, promover sua atualizaotecnolgica, procedimento inerente aos sistemas industriais e, portanto,questo essencial para a preservao do patrimnio industrial. Partindodessas premissas e da aprovao pelos rgos competentes, talempreendimento estaria sujeito avaliao especfica pelo Estudo deImpacto de Vizinhana e a uma compensao que pudesse gerar arecuperao de todo o patrimnio edificado no trecho do empreendimento,inclusive daqueles no afetados diretamente, bem como em minimizar aseventuais interferncias causadas sobre a dinmica urbana e a paisagemcultural de Paranapiacaba. No entanto, o empreendimento foi abortadopor questes oramentrias e os instrumentos no puderam ser aplicados.Por outro lado, a compensao patrimonial ainda aguarda suaregulamentao para poder ser testada.

    Por fim, o ttulo sexto dispe sobre a gesto de Paranapiacaba,estabelecendo critrios para o uso dos espaos livres, dos imveis pblicose da imagem da Vila, bem como para autorizao de obras e atividadeseconmicas. Cria tambm um rigoroso e preciso sistema de fiscalizao,infraes e penalidades, imprescindvel para a preservao do patrimnio,visto que os rgos responsveis no dispem de instrumentosregulamentados para penalizar infraes cometidas.

    Na Zeipp, constitui infrao, qualquer ao que descumpra a legislao,tais como: depredao e descaracterizao da paisagem cultural ou execuode intervenes em desconformidade com as autorizaes. As infraes soclassificadas em leves, graves e gravssimas, de acordo com a intensidade ereversibilidade do dano, a reincidncia de infrao, e o no cumprimentode normas tcnicas ou administrativas.

    Ademais, para o controle de utilizao, aprovaes e fiscalizao, aSubprefeitura criou o Banco de Dados de Gesto do Patrimnio Cultural,

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    um sistema totalmente informatizado, articulando informaes doinventrio arquitetnico com o cadastro socioeconmico da populao einformaes administrativo-financeiras, como: intervenes aprovadas eexecutadas, infraes cometidas, pagamento das contraprestaes, descontose benefcios concedidos ao permissionrio, registrando toda a histria deuso dos imveis tombados.

    Nesse ttulo estabelecido o sistema de acompanhamento e gesto doplano da Zeipp, exigidos pelo Estatuto da Cidade. Mesmo com todo oaparato institucional de participao j em funcionamento, julgou-senecessria, pela importncia dessa lei, criar um organismo especfico: oFrum de Paranapiacaba, que institucionaliza a Comisso da Zeipp,responsvel pela elaborao da lei, com participao da Prefeitura, conselhosde poltica urbana e meio ambiente, rgos de preservao, universidades,entidades de classe e da comunidade local.

    O ttulo stimo trata das disposies finais e transitrias da lei que , emsua maior parte, autoaplicvel. Alguns artigos e instrumentos criadosnecessitam de regulamentao por meio de decretos que institucionalizemprocedimentos de aplicao e detalhem informaes tcnicas, como o casodos manuais.

    Por disciplinar de maneira integrada uma grande quantidade ediversidade de temas, geralmente normatizados em leis especficas esetoriais, a Zona Especial de Interesse do Patrimnio de Paranapiacaba vemsendo considerada, pelos rgos de preservao do patrimnio e peloMinistrio das Cidades, um instrumento inovador.

    A Zeipp possibilitou a elaborao, pactuao e institucionalizao dediretrizes, para a preservao sustentvel de Paranapiacaba entre os rgosresponsveis pelo tombamento nas trs esferas de governo, que secomprometeram a incorporar e validar juridicamente a normatizao criadapor meio de portarias ou incluso nos processos de tombamento. Todavia,ainda no o fizeram, exceto o rgo municipal.

    Os desafios desse arranjo institucional e interdisciplinar sugerem anecessidade de construo de um sistema nacional de patrimnio quesupere os problemas e possibilite a ao integrada, complementar ecorresponsvel entre as instituies, nos nveis federal, estadual e municipal.

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  • * SecretrioMunicipal dePatrimnio eDesenvolvimentoUrbano e presidentedo ConselhoMunicipal dePoltica Urbana deOuro Preto

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    A EXPERINCIA DE OURO PRETO

    Gabriel Simes Gobbi*

    RESUMOOs desafios enfrentados pela administrao municipal de Ouro Preto

    diante da misso de combinar uma poltica pblica voltada para atender ademanda da populao numa cidade que, ao mesmo tempo em que patrimnio histrico, apresenta um crescimento desordenado. Era preciso,criar uma poltica capaz de preservar esse patrimnio e, ao mesmo tempo,desenvolv-la urbanisticamente. A atualizao do Plano Diretor e a criaode uma secretaria especial, unindo um Conselho do Patrimnio e Conselhode Poltica Urbana revelaram o caminho que tem levado a cidade a conjugarpreservao e desenvolvimento. O ICMS cultural, por exemplo, foi um dosincentivos oferecidos aos municpios para promoverem a preservao dopatrimnio da regio.

    PALAVRAS-CHAVEPatrimnio cultural, Poltica urbana, Conciliao.

    S para mostrar que o trabalho deu resultado, o ICMS cultural de MinasGerais, a chamada Lei Robin Wood, distribui uma parcela de 2% paraaqueles municpios que, atravs do relatrio de aes, demonstramcomprometimento com o patrimnio cultural e sua preservao. A partir daatual administrao, quando foi criada a Secretaria Municipal dePatrimnio, houve uma significativa evoluo, atingindo, nos dois ltimosanos, a maior pontuao j obtida por um municpio na histria do ICMScultural do Estado, pelas aes executadas.

    Surgiu por ocasio da organizao do frum, a ideia da colocao daexperincia de Ouro Preto, cidade que tem um grande desafio e vem degestes administrativas, no mnimo, bastante discutveis. Quandoassumimos esta administrao, Ouro Preto tinha vivido um verdadeiro caos,principalmente, no que se refere questo de ocupaes desordenadas, deregulao urbana e tudo o mais, ou seja, embora tida como uma cidade

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    universitria, a questo dessas legislaes urbansticas nunca foi tratada coma devida seriedade. Ento, ns tivemos que partir, praticamente, do zero.

    A evoluo urbana de Ouro Preto muito clara ao longo dos temposporque tudo nasceu no fim do sculo XVII, em cima de um caminhotronco que, entre os anos de 1700 a 1730, foi sendo incorporado s novasconstituies que criaram essa evoluo urbana. Hoje, estamos em umprocesso de crescimento bastante extenso em uma rea que, se tivesse quese escolher para construir uma cidade, qualquer engenheiro, arquiteto ouurbanista afirmaria que, esse, no era o local indicado para se edificar. Issoquer dizer que temos um problema extremamente complexo que a questotopogrfica.

    A cidade em si, hoje, est inteiramente entre duas montanhas,apresentando uma situao de alta complexidade no que se refere ao seusistema virio de locomoo. Ento, os problemas urbansticos nasceramda falta de regulao urbana ao longo de todos esses anos, o que gerou o piorproblema de Ouro Preto que no a ocupao dos morros, conforme asinmeras acusaes e que no deixa de ser um problema, mas o maiorimpasse a sua ocupao desordenada. Esse processo configura-se umquadro que o municpio precisa reverter.

    Para se ter uma noo, cito o morro da Queimada que ainda na dcadade 1980 no existia. Trata-se de uma rea de grande valor arqueolgico,localizada acima da rua 15 de Agosto. O nosso problema, realmente, deuma complexidade muito grande porque todas as nossas encostas estosendo ocupadas e com algumas criatividades tipicamente mineiras. H umainvaso, por exemplo, em que a pessoa instalou um boneco no terreno parademonstrar a sua posse, ou seja, usou um boneco para que soubessem que,ali, estava habitado e, na verdade, esse barraco nunca foi habitado. Trata-se, portanto, de uma demarcao de terreno, uma apropriao que muitocomum em Ouro Preto.

    Temos ainda os problemas ambientais, serssimos, no s nas outrascidades; Ouro Preto apresenta muitos desses problemas porque, estandoem um canal, muito comum ter os cursos de seus rios ocupados. Trata-sede uma dificuldade legal, como sou advogado sei das dificuldades legais queenfrentamos nessas regularizaes.

    Conforme j foi demonstrado em uma foto de sua zona central, aqui noFrum, o crescimento desordenado dessa cidade , de fato, muito difcil,

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    para quem de fora acreditar que se trata de Ouro Preto. Ningum acreditaque est exatamente ao lado da Igreja Nossa Senhora da Conceio, dentrodo arruamento principal da cidade, que mostra o descaso com o tratamentourbano, da paisagem urbana na sua essncia e da falta de conscientizao.Sem contar os problemas decorrentes dessas ocupaes que hoje impedemque se possa fazer uma urbanizao.

    Quando chegamos Prefeitura encontramos esses desafios normais,praticamente comuns a todas as cidades. Mas, no se tinha nada aqui at2005, de uma forma mais efetiva, a no ser o trabalho de um Plano Diretorque foi aprovado em 1996, mas que no havia sido, realmente,implementado. Com isso, quando o prefeito ngelo Oswaldo assumiu agesto, a primeira coisa que fez foi dotar a Prefeitura de uma proposta que,pela primeira vez em seu organograma, tivesse uma secretaria para cuidar,especificamente, das questes urbanas da cidade e da sua normatizao.

    Ento, essa foi a experincia de Ouro Preto, criando, inclusive, umasituao de alto conflito. Como preservar uma cidade patrimnio dahumanidade, mas ao mesmo tempo atender demanda poltica, demanda da populao? Era: Eu preciso construir ou: Eu no tenhoonde morar, alm daquelas ocupaes que estavam acontecendo. Esse era,portanto, o grande desafio: como conciliar, preservar e, ao mesmo tempo,desenvolver urbanisticamente uma cidade que no tem para ondecaminhar? Sim, porque, se verificarmos, no temos reas passveis, atporque algumas que, por ventura, poderiam ser, hoje, so APPs, so PACsmunicipais e estaduais. Enfim, no tnhamos nenhuma perspectiva decrescimento urbano.

    Na verdade, a Secretaria veio com um papel extremamente pretensioso,concentrando as seguintes atividades: Conselho do Patrimnio e Conselhode Poltica Urbana, os quais j haviam sido implantados de 2005 para c,com coordenao do grupo de assessoramento tcnico, novidade feita, napoca, com Jurema Machado, aqui em Ouro Preto. Trata-se de umainiciativa do prefeito ngelo Oswaldo que criou um grupo deassessoramento tcnico para poder fazer o papel que hoje a Secretaria faz,ou seja, controlar a questo normativa. E esse grupo tcnico existe at hoje.Foi, inclusive, a que entrou o Monumenta, a anlise e as aprovaes deprojetos, inventrios de bens e tudo o mais. Porquanto, a Secretaria nasceucom o grande encargo de resgatar, ao longo do tempo, tudo aquilo queno se tinha feito at ento.

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    Essa Secretaria, assim, desenvolveu seus trabalhos no ano de 2005,baseada no Plano Diretor, que passou por uma reviso, e, um ano depois daposse do prefeito, estvamos aprovando o novo Plano Diretor do municpio,alm da Lei de Parcelamento, Uso e Ocupao do Solo. Enfrentamos,porm, um grande desafio: por ocasio da aprovao dessa lei, assumimosum compromisso com a Cmara de Vereadores, uma vez que a lei muitoimperfeita, principalmente, porque no tinha as caractersticas reais dasituao da cidade. A Lei de Parcelamento, Uso e Ocupao do Solo tinhasido feita em cima de mapas, no existia uma cartografia adequada e ali seestabeleceu aqui a zona de proteo ambiental, aqui a zona deadensamento residencial, aqui a zona de proteo especial porque esttombado, porm, sem levar em considerao as caractersticas especficas.O compromisso que firmamos, portanto, foi assumir que pior do que umalei no adequada realidade do municpio era no termos, imediatamente,um compromisso de iniciar um processo correto de apropriao real dosespaos pblicos, visando adequar essa lei. Projeto cujo cumprimentoprevisto o ms de fevereiro de 2010, quando apresentaremos a reviso doPlano Diretor e Lei de Uso de Solo, agora sim, com um levantamento decampo e, inclusive, harmonizando a legislao do Iphan.

    Foi criado o Conselho Municipal de Poltica Urbana Compurb. Hojeno se faz nenhuma construo de impacto, pode ser um prdio, sem queseja apresentado um estudo de impacto de vizinhana ao Compurb. Cabea esse Conselho deliberar porque esse rgo tem poder consultivo edeliberativo para aprovar ou no a construo de um empreendimento,dependendo do impacto que ele possa causar.

    De acordo com a lei complementar 60, verificamos tambm que algunszoneamentos no atendiam, especificamente, a algumas situaes porqueno tinham as caractersticas que elas se propunham em termos deparmetros urbansticos. Um desses casos eram os campus que no tinhamuma legislao especfica para eles e no havia adequao. Ento,antecipamos, at para evitar que houvesse um prejuzo ao Reuni, que oplano de desenvolvimento das universidades federais, criando parmetrosespecficos, nos quais os campus universitrios pudessem ser includos .

    E, agora, ns fizemos um projeto de Lei, n 73, que j foi aprovado, oqual era outro grande desafio para Ouro Preto porque, quando aprovamosa Lei de Uso e Ocupao de Solo e o Plano Diretor, todo mundo j tinhaconstrudo e no conseguiramos, jamais, regularizar essas construes

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    porque os parmetros urbansticos no eram aceitos. Por exemplo, tem umaconstruo que no foi aprovada em tempo hbil, agora, precisa seraprovada e a lei no d parmetros possveis, ou essa construo teria de serdemolida ou ficar irregular. Ento, o Art. 58 veio para solucionar esseimpasse, como vero adiante.

    O plano original de zoneamento de Ouro Preto, que aprovamos em 28de dezembro de 2006 no apresentava nem acidente geogrfico. Essa plantano georreferenciada e as dificuldades esto em determinar onde esto oslimites das reas, exatamente, porque no existe esse georreferenciamento.No tem nem registro de acidente geogrfico; do crrego para l, porexemplo, ZPE, do crrego para c, no . Ento, essa era a grandedificuldade de se implementar. Principalmente porque praticamente todaOuro Preto tem tombamento federal, porque, na poca, pensou-se napreservao da paisagem, esse era o esprito, era que as molduras fossempreservadas. Uma coisa ver uma igreja com montanha verde no fundo,outra coisa ver a igreja com um monte de casinha no fundo, e quem lidacom patrimnio cultural sabe disso, mas, infelizmente, esse processo no foirevertido.

    Ento, um novo zoneamento deve ser elaborado tendo em vista arealidade atual para ordenar a ocupao e o crescimento de Ouro Preto e,dessa forma, proporcionar maior qualidade de vida para seus habitantes,preservando o seu patrimnio cultural. Mas ns conseguimos uma grandevitria; conseguimos estancar 80% desse processo de ocupaodesordenada. Comeou a haver uma nova conscincia atravs dessa novalegislao. E ns temos de entender tambm que todos ns voltamos osolhos para a cidade, como patrimnio cultural, mas Ouro Preto ummunicpio de 1.280 km, com 12 cidades em seu entorno. Falo 12 cidadesporque o menor distrito de Ouro Preto tem, no mnimo, 1.500 habitantes.Cachoeira do Canto, por exemplo, tem entre 12 mil e 13 mil habitantes,hoje, e pouqussimas cidades mineiras tm essa quantidade de habitantes.Ento, repare o desafio, tanto a sede como cada distrito desses tm umpatrimnio cultural, um ncleo histrico a ser preservado e,consequentemente, tm um inventrio a ser feito. E, isso representa umtrabalho, realmente, hercleo.

    Como fazer a reviso, como corrigir aquela distoro que foi feita? Otrabalho que temos feito com uma equipe prpria, e falo isso com muitoorgulho porque sou engenheiro e eu adoro arquitetos. Dizem que os

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    engenheiros no gostam de arquitetos, mas sempre trabalhei na rea dedesenvolvimento e planejamento urbano e sempre houve essa questo, maso que acontece? Ns temos uma Secretaria, hoje, com 14 arquitetos e doisengenheiros e poucas Prefeituras no Brasil tm esse privilgio. Trata-se deum pessoal concursado e muito competente, bastante jovem, embora hajaos profissionais mais experientes tambm. Ento, o sistema que utilizamosfoi criado atravs do levantamento areo fotogrfico que verificou ozoneamento atual. Buscou verificar como ele se inseria no zoneamentoanterior, quais os tipos de usos previstos nessa superposio para descobrirse eles eram compatveis, qual era a declividade do terreno, tambm parapoder reordenar se o uso estava compatvel com a topografia existente.

    Aqui em Ouro Preto, ns temos um mapa de rea de risco, temos umaestratificao geolgica extremamente significativa. Ao lado de um lote emque tem rocha, por exemplo, voc encontra outro lote, s vezes a 10, 15metros de distncia, que tem filito. Desculpem, o termo pejorativo, mas o que ns engenheiros chamamos de filito da puta, por ser altamenteinconsistente. Isso revela que no se pode construir sem ter um laudogeolgico porque Ouro Preto um queijo suo. Temos, inclusive, umprofessor da universidade que brinca que Ouro Preto vai descer, isso nssabemos, o que no sabemos quando. Ele sempre fala isso nas suaspalestras, espero que no desa nunca, correr os morros. Ento, em funodisso, chega-se proposio de um novo zoneamento, o qual, embora noseja perfeito, seja menos imperfeito do que aquele feito, tecnicamente, emuma prancheta.

    Um exemplo de resultado desse trabalho so as reas dos campi dasuniversidades UFMG e da UFOP, que se localizam em um permetro detombamento federal, at nisso h um dificultador, porque, em uma parte,as diretrizes esto atreladas normatizao do Iphan, e na outra parte, asdiretrizes so outras. Embora, no seja necessariamente uma comendaporque seria entendvel, se voc tem uma comenda na parte no visvel,pode ter parmetros urbansticos atrelados preservao. Mas, um exemplotpico o que ns chamamos Loteamento da Lagoa, em que no temnenhuma visibilidade do centro histrico e ns enfrentamos problemas.Quem vai aprovar projeto nesse pedao tem um tipo de normatizaoatrelado s normas do Iphan, com alta restrio. J quem constri numoutro trecho no tem essas restries podendo, at, construir prdios. Ento,so situaes as quais temos de ter muita criatividade e harmonia delegislao, coisa que temos conseguido.

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    Eu citei o Art. 58 e vou falar, rapidamente, qual que era o grande desafiodesse artigo. O Plano Diretor, quando ns o aprovamos, para advogados eratimo, mas para engenheiros e arquitetos era terrvel porque no seconseguia resolver alguns problemas que s passaram a ser previstos no Art.58. Ento, falava l: Lei especifica que definir procedimentos para aregularizao de imveis construdos em desconformidade com a normadessa lei. Ou seja, tudo que era problema estava fora, ento criamos umanormatizao. Esse era o grande desafio e tnhamos um prazo de 180 diaspara apresentar isso. Ns cumprimos o prazo, apresentamos depois dediscutir o problema por dois anos e meio ou trs anos.

    O objetivo era ter parmetros mais flexveis, e o que so esses parmetros?Como no perder o controle dos parmetros urbansticos e no serpermissivo demais ou inflexvel, esse era o grande desafio e, por isso, ogrande dilogo. Esse processo envolveu uma srie de discusses analisandoa aprovao dos projetos, a regularizao; exigiu atendimentos aproprietrios, enfim, tivemos de fazer uma poltica de discusses e, por isso,o perodo de dois anos para vivenciarmos os problemas. Afirmo sempre queo Iphan e a Secretaria de Patrimnio tm um objetivo comum, mas tmobjetivos polticos diferentes. Ns temos de tentar atender vida do cidadoe preservar a cidade, o Iphan tem de preservar a cidade, o que exige umaforma mais harmnica para conciliar essas misses.

    O processo, portanto, foi feito atravs de uma srie de situaes, as quaisnos levaram a algumas concluses. Por exemplo, definimos que osproprietrios cujas obras haviam sido concludas at 2008 poderiam sebeneficiar desse Artigo. Seriam passveis, ainda, aquelas que estavamedificadas em logradouro pblico, quer dizer, salvo casos como o daquelapessoa que colocou um bonequinho para demarcar um local de invaso.Esse caso no entraria no Artigo porque no oferecia nenhumainfraestrutura que pudesse concretizar aquela posse e, tambm, no seriampossveis aquelas situadas em reas de risco, sem nenhum laudo geotcnico.

    Estabeleceu-se, porquanto, quais seriam os limites, nem de mais, nem demenos, e, para isso, foi ampla a discusso tanto no Compurb, quanto naCmara Municipal e outros rgos tcnicos. Dilogo atravs do qualpercebemos que poderamos extrapolar at 25% dos limites propostos pela lei.Ento, caso ele tivesse um coeficiente de aproveitamento um, ele poderia ter1,25 e, da mesma forma, a taxa de impermeabilidade, desde que no houvessecomprometimento da volumetria, principalmente no permetro tombado.

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    Enfim, o que a lei permitia era isso, o Artigo 58 possibilitou umacrscimo, um grau de negociao, levando em conta, sempre, a inserodessa construo, at que ponto ela prejudicial ou no paisagemtombada. Tem uma srie de condicionantes determinadas pela Prefeitura,responsvel por exigir adequao, por exemplo, naqueles casos em que oproprietrio teria de demolir parte da construo. Mas, isso foi,amplamente, divulgado e atravs de um processo de cartilha distribudapela Secretaria.

    Estabelecemos, ainda, a questo da iseno e o aspecto do nus nafuno social da propriedade. Aquelas pessoas que no tinham condio dearcar com as alteraes da obra, quais os casos teriam direito ajuda dopoder pblico, bem como os casos contrrios, nos quais os proprietrioseram passveis de multa. A lei determinou que esses recursos seriamdestinados ao Fundo de Preservao do Patrimnio, alm de definir osprazos para a concluso do processo, delimitado em 30 meses. Isso, alis, foia nica coisa que mudou na Cmara Legislativa Municipal, que acabouvotando pelo prazo de 36 meses para a pessoa iniciar o processo. Nsachamos que tinha de ter um prazo, seno voc fica com aquele negcio avida inteira sem possibilidade de detectar o que foi, afinal, construdo emuma poca ou no. Isso era muito importante.

    Finalizando, vou apontar os tombamentos feitos pelo municpio que,nesse perodo, alcanou um total de 26 tombamentos. Temos, ainda,pedidos de mais 26 tombamentos a fazer, inclusive, nos distritos. Conformevocs veem, inventariamos cada um dos distritos, num levantamento detodos os seus bens culturais. E, vlido afirmar, h um belssimo conjuntode bens culturais no entorno de Ouro Preto, nos seus distritos que, ainda,so pouco conhecidos. Nossa ideia mostrar isso, revelar que h umaconcentrao muito grande na sede, e vocs podem ver a beleza dessepatrimnio, mas divulgar tambm que se trata apenas da sede. Tem aquesto at do incndio do Pilo, na praa, que gerou uma grande discussoa respeito e acabou se definindo por aquilo que o povo defendeu. Apopulao queria que a volumetria e o aspecto ficassem como era, ou seja,que a praa fosse mantida na ntegra, ento, optou-se por um projeto quetem, externamente, a aparncia da construo original e, internamente,guarda somente as informaes a respeito do incndio e totalmentemoderna e, hoje, o Centro Cultural e Turstico do Sistema Federao dasIndstrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG).

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    S para mostrar que o trabalho deu resultado, o ICMS cultural deMinas, a chamada Lei Robin Wood, distribui uma parcela de 2% paraaqueles municpios que, atravs do relatrio de aes, demonstramcomprometimento com o patrimnio cultural e sua preservao. A partir daatual administrao, quando foi criada a Secretaria Municipal dePatrimnio, houve uma significativa evoluo, atingindo, nos dois ltimosanos, a maior pontuao j obtida por um municpio na histria do ICMScultural do Estado, pelas aes executadas.

    Somente para mostrar as aes de restauraes que foram feitas, o TeatroMunicipal de Ouro Preto foi totalmente restaurado, atravs do programaMonumenta. O anexo foi comprado e restaurado, fazendo parte do centrohistrico de Ouro Preto que, hoje, tem um mobilirio compatvel entre oantigo e o novo centro, sem causar nenhuma agresso.

    Fizemos ainda uma substituio, Ouro Preto tem muito trilho e aspessoas querem proteger suas residncias, ento, foi desenvolvido obalizador para poder criar essa condio sem nenhuma agresso aopatrimnio. Foi uma grande realizao em toda essa rea apropriada nocorao da cidade que era um grande lixo. Tiramos mais de 300 caminhesde lixo daquele lugar, o qual se transformou, posteriormente, no ParqueHorto do Conto, que se tornou, inclusive, uma referncia.

    E o grande programa do Banco Interamericano de Desenvolvimento BID se configurou no maior sucesso de Ouro Preto que foi a recuperaode imveis privados. J estamos indo para o terceiro edital, contemplando,a Casa do Aleijadinho, a qual, alis, no foi do escultor, mas conhecidaassim. Ento, a chamada Casa do Aleijadinho estava em pssimas condiesde preservao, com impossibilidade de aportar recurso pblico no imvelprivado e, s atravs do BID, ns conseguimos realizar a obra.

    Encerro lembrando uma frase de meu tio, padre Simes, um homemmuito controvertido, mas um grande defensor do patrimnio,principalmente do patrimnio cultural religioso de Ouro Preto. Diante dodesejo de agradar a todos, pintando os imveis de branco, ele sempre mefalava o seguinte: No adianta pintar urubu de branco ele nunca vai seruma gara.

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    O PAPEL CONSTITUCIONAL DOMUNICPIO NA PROTEO DO

    PATRIMNIO CULTURAL

    Joo Henrique Caf de Souza Novais*

    RESUMOO texto aborda o papel da sociedade civil brasileira, na difcil e

    importante misso de agir na defesa e na preservao do patrimniocultural. Evidencia o fato de que o Brasil o nico pas do mundo onde aFederao formada pela unio indissolvel de Estados e municpios,quando a regra clssica que a federao seja formada somente de Estados.Isso revela a situao sui generis do municpio brasileiro, o que explica porque as polticas sociais tm o municpio como estrutura de execuo. Issoganha maior relevncia quando se refere ao patrimnio histrico e cultural,tendo em vista a necessidade de assegurar a memria de um determinadotempo, alm de manter intactas suas manifestaes populares, as quaisacontecem no seio do municpio.

    PALAVRAS-CHAVEConstituio Federal, Patrimnio cultural, Municpios.

    Gostaria de saudar os ilustres componentes da Mesa Diretora dostrabalhos, na pessoa do ilustre procurador-chefe do Iphan, Dr. AntnioFernando. Aproveito, tambm, a oportunidade, para parabenizar oMinistrio da Cultura e todos os organizadores deste I Frum Nacional doPatrimnio Cultural, pela promoo desse magnfico evento, de tantarelevncia para todos ns cidados, por meio do Instituto do PatrimnioHistrico e Artstico Nacional Iphan.

    Devo esclarecer, de incio, que a minha presena aqui se deve,unicamente, impossibilidade do excelentssimo senhor presidente do

    * Conselheiro federalda OAB

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    Conselho Federal da OAB, Cezar Britto, estar presente a este evento, antea existncia de outros compromissos, anteriormente assumidos, que oimpediram de estar entre ns, como era de seu desejo.

    Como conselheiro federal da OAB por Minas Gerais, embora sem obrilho e a autoridade do presidente, ousei aceitar o convite para substitu-lo aqui, certo de que a advocacia deve estar presente nos grandes debatesnacionais de interesse da cidadania, notadamente no que diz respeito defesa e proteo do patrimnio cultural brasileiro. Afinal de contas,quando o 1 do art. no 216 da CF/88 estabelece que:

    O Poder Pblico, com a colaborao da comunidade, promover eproteger o patrimnio cultural brasileiro, por meio de inventrios,registros, vigilncia, tombamento e desapropriao, e de outrasformas de acautelamento e preservao1.

    Todos ns, cidados integrantes da sociedade civil, de forma organizadaou at mesmo de forma individual, temos de cumprir junto com o PoderPblico o papel constitucional que nos foi reservado, na defesa e napreservao do patrimnio artstico, histrico e cultural do nosso pas.

    por isso que, embora me tenha sido proposto dissertar sobre o papelconstitucional do municpio na proteo do patrimnio cultural, pontoque ser enfrentado no decorrer desta manifestao, sinto-me no dever deampliar o foco da discusso para destacar, tambm, o papel da sociedadecivil brasileira na difcil e importante misso de agir na defesa e napreservao do patrimnio cultural brasileiro.

    Nesse contexto, vale lembrar que a Ordem dos Advogados do Brasil no autarquia e nem entidade genuinamente privada, a OAB (e presta)servio pblico independente, seja na organizao da atividade profissional,promovendo, com exclusividade, a representao, a defesa, a seleo e adisciplina dos advogados, seja na valorizao da cidadania, promovendo adefesa da constituio da ordem jurdica do estado democrtico de direito,dos direitos humanos, da justia social, e pugnando pela boa aplicao dasleis, pela rpida administrao da Justia e pelo aperfeioamento da culturae das instituies jurdicas, tal como apregoa o art. 44 da Lei no 8.906/94(EOAB), podendo, no desempenho desse mister, ajuizar Ao Direta deInconstitucionalidade de normas legais e atos normativos, como ao civilpblica, mandado de segurana coletivo, mandado de injuno e demaisaes para as quais esteja legitimada por lei.

    1. ConstituioFederal do Brasil.Art. 216.

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    A OAB, pois, na consecuo de seus objetivos e finalidades institucionaispara com a cidadania, funciona como legtima porta-voz da sociedade civil,na defesa dos bens e valores, que so assegurados a esta, tanto pela lei quantopela Constituio.

    Por isso, quando a CF/88 se refere colaborao da comunidade juntocom o Poder Pblico para promover e proteger o patrimnio cultural, nose pode falar no papel do municpio na defesa e na preservao dopatrimnio cultural, sem mencionar, tambm, o papel, que eu diria,fundamental, da sociedade civil organizada, em geral, e da OAB, emparticular.

    A CF/88, ao estabelecer o rol de competncias reservadas aosmunicpios, foi clara em dispor nos incisos VIII e IX, do art. 30, dentreoutros, a de promover o ordenamento territorial, mediante o planejamentodo uso, do parcelamento e da ocupao do solo e, bem assim, a defesa eproteo ao patrimnio histrico cultural, sem prejuzo da legislao e daao fiscalizadora federal e estadual.

    No obstante a competncia concorrente da Unio e dos Estados,estabelecida no inciso VII do art. 24 da Carta Magna, a nossa Constituio, de fato, municipalista, o que fantstico, porquanto a promoo dosdireitos humanos e a sua efetivao se fazem ou deveriam ser feitas commaior participao direta dos cidados.

    Vejam, minhas senhoras e meus senhores, o Brasil o nico pas domundo onde a Federao formada pela unio indissolvel de Estados emunicpios (a regra clssica que a federao seja formada somente deEstados). Isso serve para demonstrar a situao diferenciada e sui generis domunicpio brasileiro, a qual fica ainda mais evidenciada quando se v quea prpria Carta Magna destaca, junto com as competncias atribudas aomunicpio, a colaborao da sociedade, na consecuo das metas e objetivosdo Poder Pblico, na proteo e conservao do patrimnio cultural.

    Afinal de contas, o cidado no mora na Unio. O cidado no mora noEstado. O cidado, todo cidado, mora na cidade. Assim, o municpio e oprefeito representam a figura poltica mais prxima do povo, mais prximados muncipes. Eis um dos motivos por que as polticas sociais, no Brasil, tmcomo estrutura de execuo o municpio. Vale dizer, que a Unio Federalfaz a macropoltica; os Estados e o Distrito Federal se encarregam daorganizao da poltica regional; e aos municpios cabe a execuo.

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    No que respeita ao patrimnio histrico e cultural, especificamente, temmaior relevo e importncia a participao municipal nessas questes, tendoem vista a necessidade de assegurar, para as futuras geraes, a memria deum determinado tempo, bem como, manter intactas suas manifestaespopulares, as quais acontecem no seio do municpio, cuja comunidade localtem, por bvio, interesse direto e imediato.

    No dizer abalizado de Nelson Nery Costa e Geraldo Magela Alves, emsua obra Constituio Federal anotada e explicada:

    [...] a competncia expressa do Municpio voltada para os assuntosde interesse local, devendo prevalecer sobre as competncias federaise estaduais. O critrio bsico de distino o do interessepredominante, ou seja, frente aos interesses da Unio ou dos Estados,em determinadas matrias o interesse municipal deve ter um graumaior de validade, em situaes peculiares, como o problema doestacionamento nas ruas do centro da cidade, a reforma docemitrio, etc.

    por isso que o art. no 30 da CF/88 pe, de forma clara, as competnciasdos municpios:

    I legislar sobre assuntos de interesse local;

    II suplementar a legislao federal e a estadual, no que couber;

    [...]

    VII promover, no que couber, adequado ordenamento territorial[...];

    VIII promover a proteo do patrimnio histrico-cultural local,observada a legislao e a ao fiscalizadora federal e estadual.

    A competncia municipal, em matria de direito urbanstico, no serestringe organizao definida no art. 30 da Constituio Federal. Suaatuao ampliada por fora do art. 182 da Carta Fundamental, que tratada Poltica Urbana e confere contedo ao princpio da funo social dapropriedade, uma vez que o Plano Diretor, lei municipal, que estabeleceos requisitos e as condies para o cumprimento daquele princpioconstitucional:

    Art. 182. A poltica de desenvolvimento urbano, executada peloPoder Pblico municipal, conforme diretrizes gerais fixadas em lei,

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    tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funes sociaisda cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes.

    1 O plano diretor, aprovado pela Cmara Municipal, obrigatriopara cidades com mais de vinte mil habitantes, o instrumento bsicoda poltica de desenvolvimento e de expanso urbana.

    2 A propriedade urbana cumpre sua funo social, quando atendes exigncias fundamentais de ordenao da cidade expressas no planodiretor.

    Deve, portanto, o municpio atuar na fiscalizao e implementao dosprincpios constitucionais, por meio dos instrumentos definidos peloEstatuto da Cidade (Lei no 10.257/2001), norma federal de carter geral,que confere ao ente local, meios para efetivar a conformidade dapropriedade pblica e privada funo social.

    importante esclarecer que a competncia municipal, na defesa dopatrimnio cultural, decorre da CF/88 e no do Estatuto da Cidade, o qualapenas delineia a configurao de alguns instrumentos de poltica urbana.

    Compete ao municpio, igualmente, definir os passos concretos em queo desenvolvimento urbano se dar, uma vez que cabe, privativamente, aesse ente o tratamento legal de assuntos de interesse local em matria depoltica de desenvolvimento urbano, colocando-se como instrumentobsico dessa poltica o plano diretor urbano, aprovado pela CmaraMunicipal e obrigatrio para cidades com mais de vinte mil habitantes.

    Em excelente artigo intitulado A proteo do patrimnio cultural comouma obrigao de todos, a advogada e professora Nathlia ArrudaGuimares, salienta, com propriedade, que [...] em matria de DireitoUrbanstico, portanto, o Municpio ente de competncia destacada, lhesendo conferido o dever e o direito de interferir na disciplina da propriedadelocal, dando a esta contedo social.

    Nesse aspecto, destaca a professora:

    [...] a Lei Federal n 10.257/2001, o Estatuto da Cidade, dispe quea poltica urbana tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimentodas funes sociais da cidade e da propriedade urbana, observando odever de proteo, preservao e recuperao do meio ambientenatural e construdo, do patrimnio cultural, histrico, artstico,paisagstico e arqueolgico. (inciso XII, art. 2).

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    Ora, sabendo-se que uma das funes do governo local a deimplementar a poltica urbana, atravs do Plano Diretor e de planosespeciais de valorizao e preservao de bens de interesse cultural e natural,um dos objetivos prementes do Plano Diretor Municipal deve ser aconjugao do planejamento do territrio urbano com a proteo dopatrimnio cultural.

    Por isso, entendemos que a elaborao do Plano Diretor deve seracompanhada de perto pela sociedade, sujeitando-se participao efetivados cidados da cidade, a fim de garantir a gesto democrtica do espaourbano, mediante a realizao de audincias, debates, consultas pblicas,conferncias sobre assuntos de interesse urbano, estimulando reflexes sobrecomo queremos viver a cidade de nossos dias, sem perder nossa identidade.

    A democrtica participao da populao, devidamente informada eesclarecida, imprescindvel para garantir um ordenamento urbano quereflita a preocupao cultural, a partir de onde se concretizar uma cidadecomo queremos.

    No obstante isso, fato que administrativistas modernos, comoGerardTimist, tm ido mais alm na identificao do papel dos municpiose dos muncipes. Apregoam a utilizao pela hodierna administraopblica (uma administrao leve, flexvel, fluida), de institutos de delegaode atividades pblicas a particulares, com o fito de aumentar o controleglobal da coletividade sobre essas atividades.

    sobre esse manto de cidadania plena e de valorizao da participaopopular, nos destinos de nossas cidades, que a OAB, na sua misso cidad,quer agir positiva e vigorosamente, atuando com os governados (cidados)e fiscalizando os governantes, garantindo que a participao popular searticule perfeitamente com os elementos do denominado Estado de Direitosubstancial ou material, em favor da efetivao dos direitos fundamentais edo controle dos desvios e abusos cometidos, principalmente, pelaadministrao pblica.

    No Estado de Direito contemporneo, o ordenamento jurdico inspiraa participao dos cidados no exerccio de todas as funes estatais (delegislao, jurisdio e administrao). A administrao pblica brasileira,inclusive e principalmente a municipal, no pode prescindir da efetivaparticipao popular. E nem poderia ser diferente, pois no exame dosinstrumentos de controle e proteo do patrimnio cultural, objeto de nossa

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    anlise, a colaborao da comunidade tem raiz constitucional, tal como sev dos dizeres do art. 216, pargrafo 1, da CF/88:

    O Poder Pblico, com a colaborao da comunidade, promover eproteger o patrimnio cultural brasileiro, por meio de inventrios,registros, vigilncia, tombamento e desapropriao, de outras formasde acautelamento e preservao.

    Ao fazer ressalvas a outras formas de acautelamento e preservao,lembra-nos o jurista Marcos Perez que o legislador constituinte deixou claroque a enumerao do dispositivo meramente exemplificativa e trata apenasde alguns dos principais instrumentos vocacionados tutela do patrimniocultural brasileiro.

    Destaco aqui, por exemplo, um dos instrumentos disponveisconsentidos e largamente praticados pela administrao pblica brasileira,seja ela municipal, estadual ou mesmo federal: os conselhos consultivos oudeliberativos.

    Lamentavelmente, porm, temos de destacar, que no municpio de BeloHorizonte, ao arrepio dos cnones da Carta Maior, a OAB no tem tidoassento no Conselho Municipal do Patrimnio Cultural, o que equivale direta negativa de vigncia ao disposto no 1 do art. 216 da CF/88, queprev a participao e a colaborao da comunidade em conjunto comoPoder Pblico, na defesa do patrimnio cultural.

    Indignaes parte, em compensao, a OAB tem tido assentopermanente no Conselho Estadual do Patrimnio Cultural Conep, cujorepresentante, indicado pelo presidente da seccional mineira da OAB, sendoum experto no tema, tem militncia permanente, seguindo as diretrizestraadas pela prpria Comisso de Direito Ambiental da OAB.

    O destaque ora dado aos Conselhos, notadamente os municipais, apenas ilustrativo dos inmeros instrumentos de controle e proteo dopatrimnio cultural e um demonstrativo do exerccio das funes estatais noEstado Democrtico contemporneo (audincias pblicas, consultas,apresentao e discusso de projetos nas comunidades, etc.).

    A OAB, como entidade civil porta-voz da sociedade, est atenta ao fatode que os instrumentos de participao ativa e direta, na realizao dointeresse pblico, so pouco utilizados e pouco conhecidos pela sociedadecivil, e que h inmeras outras formas de participao da sociedade civil na

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    proteo do patrimnio cultural que devem ser divulgadas e utilizadas.Convencida de que uma administrao pblica, seja ela municipal, estadualou federal, deve ser legitimada pela participao popular, a OAB mostra-sepreocupada e atenta para com a concretizao dos princpios constitucionaisque regem os direitos e interesses coletivos, os quais devem se dar com orespaldo, a participao e o envolvimento da sociedade civil organizada.

    Parafraseando a norma constitucional que emana do 1 do art. 216, aOAB/MG, seja sob a auspiciosa presidncia de Raimundo Cndido Jnior,que ora encerra seu mandato como presidente em 31.12.2009, mas dcontinuidade sua militncia, agora como conselheiro federal (2010/2012),perante o Conselho Federal da OAB, seja sob o comando promissor dopresidente eleito, Lus Cludio da Silva Chaves, continuar presente evigilante, participando desse processo democrtico de colaborao efetiva dasociedade junto com o Poder Pblico, na promoo, na defesa, napreservao e na proteo do patrimnio cultural brasileiro.

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  • * Coordenador daPromotoria

    Estadual de Defesado Patrimnio

    Cultural e Tursticode Minas Gerais

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    ATUAO DO MINISTRIOPBLICO EM DEFESA DOPATRIMNIO CULTURAL

    Marcos Paulo de Souza Miranda*

    RESUMOA partir de uma viso do Ministrio Pblico de Minas Gerais, o autor

    discute, neste artigo, a criao e o funcionamento de um Sistema Nacionalde Patrimnio Cultural. Tendo em vista o Decreto-Lei no 25/37, no artigo23, criado em 1937, que j estabelecia linhas para a delimitao de umsistema como esse, o atual momento se apresenta, ento, como a efetivaode um Sistema Nacional de Proteo ao Patrimnio Cultural, e noverdadeiramente de sua criao. Aponta, ainda, como uma importanteprioridade, para o tratamento do Sistema Nacional, o estabelecimento deprincpios e objetivos. Alm de outros princpios que pretendem o efetivofuncionamento desse Sistema.

    PALAVRAS-CHAVESistema Nacional, Ministrio Pblico, Patrimnio cultural.

    O tema que nos foi colocado para ser abordado foi a participao doMinistrio Pblico nas aes de defesa do patrimnio cultural e, tambm,a viso do Ministrio Pblico do Estado de Minas Gerais a respeito dafalada necessidade de se implantar um Sistema Nacional de PatrimnioCultural, para que nossas polticas de preservao, de proteo e promoosejam mais efetivas. Bem, eu atualmente coordeno a Promotoria Estadualde Defesa do Patrimnio Cultural e Turstico de Minas Gerais, o primeirorgo a ser criado em nosso pas com abrangncia em toda Unidade daFederao com objetivo especifico de cuidar do patrimnio cultural. Ento,em Minas Gerais, ns temos uma Promotoria que tem a misso decoordenar a atuao dos colegas promotores nos 853 municpios queintegram nosso Estado, e que so aambarcados por 294 comarcas. Farei,ento, um pequeno panorama para que possamos compreender as razes

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    pelas quais foi criada essa Promotoria Estadual, que at o presente momento pioneira no Brasil.

    Minas Gerais tem o maior nmero de bens protegidos de todo o pas,estima-se que existam cerca de 35.000 bens culturais protegidos. Ns temostrs bens reconhecidos como Patrimnio Cultural da Humanidade: a cidadede Ouro Preto, o conjunto da Baslica de Bom Jesus do Matozinho deCongonhas e, tambm, o centro histrico de Diamantina. Temos umareserva da biosfera que a Reserva do Espinhao e temos o maior nmerode cidades tursticas reconhecidas pela Embratur no pas, pois so quase200 cidades tursticas reconhecidas como tal e com reflexos jurdicos daadvindos, como, por exemplo, a necessidade de um Plano Diretor,conforme exige o Estatuto das Cidades.

    E ns contamos, tambm, em Minas Gerais, com uma legislaoespecfica que distribui recursos para os municpios que contam com umapoltica municipal de defesa do patrimnio cultural, a chamada Lei RobinHood. Em razo disso tudo, tendo em vista que o Ministrio Pblico oguardio dos direitos da sociedade e dentre esses direitos encontra-se odireito fruio de um patrimnio cultural hgido, o Ministrio Pblico deMinas Gerais se viu na contingncia de ter uma atuao que fossecorrespondente a essa importncia, da a criao dessa Promotoria, que temcomo objetivo combater os maiores problemas que so normalmenteconstatados quando se fala em proteo do patrimnio cultural.

    Que problemas so esses? O primeiro deles o comarquismo. Mas, e oque comarquismo? aquela viso do rgo representante do MinistrioPblico que no vai alm dos limites da prpria comarca, ou seja, ns temosuma atuao fragmentada, uma atuao pontual que no consegue ter aviso do todo, e quando tratamos de patrimnio cultural, que umpatrimnio essencialmente difuso, no faz sentido termos tratamentosdiferenciados, tendo em vista, principalmente, as peculiaridades de MinasGerais, onde h necessidade de uma atuao uniforme, abrangendo o todo.

    E quando eu comecei esse trabalho (h alguns anos), era muito comumouvir falar: Patrimnio cultural em Minas Gerais Ouro Preto, Mariana,Tiradentes, e, no incio, foi muito difcil combatermos essa falsa noo deque patrimnio cultural se confunde com cidades do perodo barroco, eracomo que se as cidades detentoras de valor cultural em Minas Geraisfossem, to somente, as chamadas cidades histricas. Alis, eu tenho umacrtica em relao a essa expresso, pois, para mim, ns temos 853 cidades

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    histricas em Minas Gerais, algumas com passado mais antigo, outras compassado mais recente, algumas com patrimnio construdo mais destacado,outras nem tanto, mas, todas tm sua histria. Ento, o objetivo de rompercom essa concepo equivocada foi um dos fundamentos para a criao daPromotoria especializada.

    Outro grande problema que sempre assolou o Ministrio Pblico aquesto do generalismo. O que isso? O promotor de Justia quandoingressa na instituio um especialista em generalidades, ou seja, ele vainormalmente para uma comarca do interior, onde ele atua como promotorcriminal, promotor cvel, promotor da infncia e da juventude, dos direitosdo consumidor, dos idosos, do meio ambiente, do patrimnio cultural, dourbanismo, e mais algumas dezenas de atribuies. Isso acaba redundandoem uma atuao que no preza exatamente pela tcnica, e acaba por setransformar em um terceiro problema, que o atecnicismo.

    E quando ns tratamos de matrias especializadas, como o direito domeio ambiente natural e do meio ambiente cultural, se no soubermosmanejar com habilidade os instrumentos que temos disposio, pormelhor que seja o direito da sociedade, esse direito corre risco. Ento, h anecessidade de se manejar com tcnica e com habilidade esses direitos,porque seno acabamos por colocar em risco direitos que pertencem ageraes que sequer nasceram. Assim, ante a necessidade de termos umaao coordenada, pronta e eficaz, foi criado no mbito do MinistrioPblico mineiro, primeiramente em 2003, um grupo especial depromotores e, posteriormente, em setembro de 2005, a Coordenadoria daspromotorias de defesa do patrimnio cultural, que essa promotoria deabrangncia estadual da qual falo.

    E quais os objetivos dessa Promotoria? Primeiro, planejar a atuao dasPromotorias de Justia com atribuies na rea, pois quando ns no temosprioridades, tudo se torna importante. Ento, h necessidade de planejamentopara verificar aquilo que demanda uma atuao mais efetiva, maisdirecionada, para que os resultados sejam eficazes, porque seno ficaremosdando tiros para todos os lados e no acertaremos absolutamente nada. Porisso, o Ministrio Pblico do Estado de Minas Gerais, na rea de defesa dopatrimnio cultural, atua objetivando o alcance de metas. A cada incio de anometas so estabelecidas e h um acompanhamento, inclusive estatstico, dessasmetas, e ao final de cada ano fazemos uma anlise para verificar se realmenteforam alcanadas, ou no, e por quais razes isso aconteceu.

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    Prestar apoio tcnico e jurdico s promotorias outro objetivo. Nstemos, no mbito da promotoria estadual, tcnicos na rea de arquiteturae de histria exatamente para dar suporte aos colegas, principalmente, naelaborao de laudos.

    Identificar as prioridades para a atuao ministerial. Como dito, nssempre trabalhamos com prioridades. Este ano, por exemplo, uma dasprioridades foi a proteo do patrimnio ferrovirio e, para isso, nstrabalhamos sempre em conjunto e de maneira integrada com a Secretariade Patrimnio da Unio, com o Ministrio Pblico Federal, com o Iphan,com a Inventariana da RFFSA e, talvez, muito em razo disso, acreditoeu, Minas acabou alcanando uma posio de destaque no que diz respeitoao seu patrimnio ferrovirio, e os primeiros acordos que viabilizaram atransferncia de estaes que estavam abandonadas, para municpiosinteressados e, dentre esses municpios, inclusive, Ouro Preto. Issoaconteceu exatamente aqui, em Minas Gerais.

    Fazer gesto com os demais rgos, objetivando a integrao das aesde defesa do patrimnio cultural. preciso deixar muito claro que umainstituio sozinha, por mais eficiente que seja, no vai conseguir resolveros problemas que nos afligem em relao ao patrimnio cultural. H anecessidade, realmente, de uma integrao de aes, e isso a Promotoriaprocura fazer, principalmente, por meio da celebrao de convnios e derelaes interinstitucionais. Tambm cooperamos com os rgos deexecuo em casos de relevncia e urgncia, ou seja, a Promotoria Estadualde Defesa do Patrimnio Cultural tem atribuio em todo o Estado deMinas Gerais para trabalhar junto com os colegas nos casos em que hajarelevncia ou urgncia. Hoje, por exemplo, quando eu vinha para OuroPreto, antes de me dirigir a este evento, estava juntamente com o dr.Ronaldo Crawford que o promotor de defesa do patrimnio culturaldaqui, fazendo diligncia em um determinado bem cultural que estsofrendo intervenes indevidas. Ento, ns trabalhamos sempre emconjunto com os colegas.

    Quais so os fundamentos bsicos da nossa atuao? Primeiro, a noode que patrimnio cultural nada mais do que um dos aspectos do meioambiente. Ns precisamos ter essa noo de maneira muito clara, algoque j chegou Europa h dcadas e somente h pouco tempo temoscompreendido isso no Brasil. Meio ambiente no se confunde comnatureza. O aspecto naturalstico do meio ambiente to somente um dos

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    aspectos, tanto que na Europa, de forma geral, hoje tem sido prefervel autilizao da expresso meio envolvente, por que tudo aquilo quecontribui para uma condio de bem-estar do ser humano deve serconsiderado integrante desse macro bem.

    A diversificao dos instrumentos de proteo uma viso modernasobre o conceito de patrimnio cultural. Ns temos de deixar de lado essaviso que, infelizmente, perdurou por muito tempo, de que o tombamento o nico instrumento para proteo do patrimnio cultural. A era doImprio do tombamento j se foi h muito tempo, e sobre essa era foilanada uma p de cal com o advento da Constituio Federal de 1988.Pelo seu artigo 216 1 fica absolutamente claro que se tutela o patrimniocultural brasileiro por meio de tombamento, inventrio, registro, vigilncia,desapropriao e outras formas de acautelamento e preservao, ou seja,todo e qualquer instrumento que detenha potencialidade para a proteo dopatrimnio cultural brasileiro vai encontrar uma fundamentaoconstitucional no artigo 216, 1 da nossa Carta Magna. Mas,infelizmente, muitos ainda no compreenderam isso e entendem quesomente integra o patrimnio cultural brasileiro os bens tombados, masisso um grande equvoco.

    Outra questo que fundamental diz respeito adoo de uma posturaresolutiva. O Ministrio Pblico no tem compromisso com o litgio; oMinistrio Pblico no tem compromisso com a judicializao dos conflitos;o Ministrio Pblico tem compromisso, sim, com a resoluo dos conflitos. exatamente por isso que ns temos deixado as aes civis pblicas paraserem propostas somente naqueles casos em que o consenso no se mostrarpossvel, por que sempre que h possibilidade de se construir uma soluoextrajudicial para os conflitos, principalmente pelos chamados termos deajustamento de conduta, essa a soluo sempre preferida pelo MinistrioPblico, em razo de ser mais clere, eficaz e benfico sociedade.

    E, por ltimo, a atuao integrada, aquilo que eu j citei e que repito:uma instituio sozinha, por mais qualificada que seja, vai ser sempre muitopouco para resolver os problemas que ns temos e que nos desafiam.

    H alguns dados estatsticos, eu gosto muito de ter essas referncias,porque como servidores pblicos ns somos servidores da sociedade e nstemos de demonstrar aquilo que a nossa instituio faz. E vejam, senhores,que entre os anos de 1990 at 2005, quando foi criada a Promotoria

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    Estadual de Defesa do Patrimnio Cultural e Turstico de Minas Gerais,ns tnhamos uma instaurao anual de investigaes em todo o Estadoinferior a 20 procedimentos, ou seja, vinte procedimentos instaurados porano no Estado de Minas Gerais. Com a criao da Promotoria Estadual nstivemos, a partir de 2006, aproximadamente 30 procedimentos; em 2007j superamos os 60; em 2009, esse dado aqui de setembro, ns jsuperamos a marca de 140, ou seja, tivemos 700% de aumento em menosde cinco anos. Agora eu fao uma pergunta para os senhores: os problemasenvolvendo os bens culturais em Minas Gerais aumentaram em 700%?

    Claro que no! Na verdade, a percepo do Ministrio Pblico sobre aexistncia desses problemas que aumentou. Ento, o qu existia, narealidade, era um dficit de atuao e agora esse dficit est sendo suprido.Para os senhores terem uma ideia, ns temos, ao todo, 700 procedimentosinvestigatrios em curso no Estado de Minas Gerais. E a questo daefetividade, que o mais importante, pois no basta ter quantidade, tem queter qualidade, mais de 70% das questes relativas ao patrimnio cultural,que so colocadas sob apreciao do Ministrio Pblico mineiro, soresolvidas sem necessidade de acionamento do Poder Judicirio. Isso se dpor meio da realizao de reunies, com a expedio das recomendaes ecom a celebrao dos termos de ajustamento de conduta. O pequenopercentual em que h a necessidade da propositura das aes judiciais, nstemos um ndice de sucesso superior a 75%, ou seja, os ndices deefetividade e de sucesso nas aes, sejam judiciais, sejam extrajudiciais,envolvendo patrimnio cultural, demonstram um resultado bastantesignificativo.

    Os senhores podem estar pensando o que isso tem a ver com o SistemaNacional de Patrimnio Cultural. E aqui vem a resposta: se abrirmos oDicionrio Aurlio verificaremos que a disposio das partes ou doselementos de um todo, coordenados entre si e que funcionam comoestrutura organizada e, tambm, a tcnica ou mtodo empregado parao alcance de um fim, so definies de sistema. O sistema exatamenteisso. Ento, o que eu trouxe para os senhores em termos prticos, na teoriasignifica dizer que no mbito do Ministrio Pblico do Estado de MinasGerais foi criado um sistema ministerial de tutela do patrimnio cultural.Isso foi o que aconteceu, pois agora ns temos coordenao, mtodos,objetivos, agora ns temos quantificao das nossas aes e dos nossosresultados.

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    Bem, a partimos para o que realmente nos interessa a criao oufuncionamento de um Sistema Nacional de Patrimnio Cultural. E, paraisso, faremos uma anlise absolutamente sincera e absolutamente crtica, eeu j peo vnia aos meus amigos do Iphan, mas, uma anlise que eu faoe que absolutamente propositiva, sincera e respeitosa, no que diz respeitoao Iphan, at porque, eu j disse isso publicamente: o Iphan, para mim,teve, alis, ainda tem, as chamadas fases heroicas. Ns tivemos uma faseheroica, que foi a fase inicial, quando o Iphan comeava a dar seus primeirospassos. Eu penso que ns estamos, atualmente, em uma nova fase heroica,que uma fase que objetiva o alcance da efetividade e a implementao, naprtica, daquilo que uma autarquia voltada para a proteo do patrimnionacional precisa realmente fazer. E ns ficamos muito felizes de ver umevento nacional, principalmente sendo sediado aqui, em Vila Rica, a nossaquerida Ouro Preto, exatamente objetivando isso, a discusso aberta com asociedade, a discusso aberta com os diversos atores, procurando aimplementao dessas medidas.

    Ns temos um Sistema Nacional de Meio Ambiente que foi institudoem 1981, h quase 30 anos; ns temos um Sistema Nacional de Unidadesde Conservao que foi institudo no ano 2000; ns temos um SistemaNacional de Turismo que foi criado em 2008; ns temos um SistemaBrasileiro de Museus, que o mais recente de todos, criado agora em 2009,e eu pergunto: onde est o nosso Sistema de Defesa do Patrimnio Cultural?Ele no existe?

    Ser que ns passamos todos esses anos em que o Brasil j tem uma longatradio de defesa do patrimnio cultural e nunca se pensou nisso?

    Eu gostaria de trazer esse tema reflexo e j gostaria de fazer aqui aminha crtica quanto a uma postura que costuma contaminar os brasileirosem geral, e ns, operadores do direito do patrimnio cultural, tambm, que a sndrome do coitadismo e o complexo de Pilatos. Vou me explicar:a sndrome do coitadismo aquele posicionamento segundo o qual tudono Brasil ruim, nada aqui vale nada, sempre o que tem na Frana melhor,sempre o que tem na Europa melhor. O complexo de Pilatos simplesmente falar: olha, o problema est na ausncia de leis, o problemaest na ausncia de verbas, ento, o problema no meu.

    Ento, deixando de lado esses dois males, eu ouso dizer que o SistemaNacional de Defesa do Patrimnio Cultural existe desde 1937 e foi oprimeiro deles, porque no Decreto-Lei no 25/37, o artigo 23

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    absolutamente claro: o poder executivo providenciar a realizao deacordo entre a Unio e os Estados, para melhor coordenao edesenvolvimento das atividades relativas proteo do patrimnio histricoe artstico nacional e para uniformizao da legislao estadualcomplementar sobre o mesmo assunto. Ento o Sistema j estava l em1937. Obviamente que no tem o nome que relativamente moderno,sistema, mas, as bases para um funcionamento de uma estrutura organizadae hierarquizada, normativa, essas bases esto estabelecidas desde 1937.Ento, na verdade, eu gostaria de colocar isso para a reflexo. Eu acho queo momento de efetivao de um Sistema Nacional de Proteo aoPatrimnio Cultural, e no verdadeiramente de sua criao, porque essesistema na verdade j existe.

    E vejam s o artigo 25: O servio do patrimnio histrico e artsticonacional procurar entendimentos com as autoridades eclesisticas,instituies cientficas, histricas ou artsticas e pessoas naturais ou jurdicascom o objetivo de obter a cooperao das mesmas em benefcio dopatrimnio histrico e artstico nacional. Ento, o princpio da cooperao,o princpio da solidariedade na proteo do patrimnio cultural que muitospensam ter surgido com a constituio de 1988, j est previsto desde 1937.Ento, acho que o grande desafio hoje colocarmos em funcionamentoalgo que j estava preconizado desde 1937.

    E, aqui, gostaria de fazer outra afirmao que diz respeito a umaconvico minha: ns temos de ter muito cuidado com a expectativa de seresolver tudo atravs de leis. No raramente, no Brasil, pensa-se quesomente com a criao de leis ns vamos resolver o problema, e eu fao essealerta porque no meu modo de entender ns temos um Congresso Nacionalque absolutamente imprevisvel. Ento, por exemplo, mexer na estruturado instituto do tombamento, para mim, nesse momento, seria umaaventura perigosssima, e eu digo isso porque na rea do meio ambientenatural ns temos experimentado retrocessos histricos em razo detentativas de inovaes legislativas. Por isso, temos que ter muito cuidado.Eu, por exemplo, jamais questionaria alguma alterao no Decreto-Lei no

    25/37, porque, para mim, ele excelente, ele deveria ser tombado.

    A questo de implementao e aqui h outra reflexo que eu gostariade fazer com os senhores: Se pensarmos na letra N da sigla Iphan doInstituto do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional, perceberemos quemuitos confundem nacional com federal, mas so coisas absolutamente

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    distintas. O Iphan a autarquia incumbida da tutela dos bens federais? Sim,, mas ele mais que isso, ele o instituto que tem a designao legal paratutelar o patrimnio em mbito nacional, ento, quando ns temos, porexemplo, a questo da acessibilidade de bens culturais, que a lei prev queas intervenes dos bens de valor cultural devem respeitar as normativas doIphan, ns podemos ter o rgo estadual mais qualificado e mais importantedo pas, ns podemos ter o rgo de tutela do patrimnio cultural maishabilitado e mais qualificado do pas em mbito municipal, mas, se elesdescumprirem a normativa do Iphan, eles esto cometendo um ato ilcito,porque o Iphan dita as normas gerais, nesse caso.

    Infelizmente, o que temos percebido, e aqui eu fao essa anliseabsolutamente sincera, por que eu acho que o objetivo desta Conferncia a reflexo e a evoluo, que, s vezes, o Iphan fica circunscrito somente ssuas atribuies federais, e se esquece das suas atribuies nacionais. Porexemplo, o prprio decreto que regulamenta o funcionamento do Iphandiz que atribuio do rgo coordenar a implementao e a avaliao dapoltica de preservao do patrimnio cultural brasileiro. Patrimniocultural brasileiro no se fala somente em patrimnio cultural protegidoem mbito federal em consonncia com as diretrizes do Ministrio daCultura. E diz que atribuio desse rgo, ainda: desenvolver modelos degesto da poltica de preservao do patrimnio cultural brasileiro de formaarticulada entre os entes pblicos a sociedade civil e os organismosinternacionais.

    Ento, ns j temos aqui, na verdade, as bases para um sistema deproteo do patrimnio cultural e o que precisamos, na verdade, implement-la. Coloc-la para funcionar.

    Acho que a estruturao desse sistema importante, eu penso que h anecessidade inclusive de avanos normativos, mas, que esses avanosnormativos devem ser os estritamente necessrios para fazermos o sistemafuncionar bem. Quanto s grandes conquistas j alcanadas, ns temos deter muito cuidado em mexer com elas, porque ns corremos o risco deperd-las.

    O importante, no meu ponto de vista, para se tratar no sistema nacional,seria, primeiro, o estabelecimento de princpios e objetivos. Isso fundamental, porque as normas que sero traadas como polticas bsicasde tutela do patrimnio cultural iro vincular a atividade legislativa, elas

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    vincularo as atividades administrativas dos Estados e municpios e isso fundamental. No Sistema Nacional do Meio Ambiente Sisnama nstemos isso, no Sistema Nacional de Unidades de Conservao Snuc nstemos isso, na Lei de Bases do patrimnio cultural de Portugal, que eu achoque uma lei fantstica.

    Em Minas Gerais, ns temos uma lei principiolgica muito boa, umapena que no funcione. E no prprio Estatuto da Cidade, o artigo 2 fantstico no que diz respeito a essas normas gerais. Isso aqui para mim fundamental: termos uma instncia privilegiada, normativa e deliberativa.Ns temos de ter o Conselho Nacional do Patrimnio Cultural asemelhana do que existe no mbito do meio ambiente natural com oConselho Nacional do Meio Ambiente Conama, e esse rgo tem queter poder normativo. Ns no podemos ficar dependendo sempre de leispara regular as questes pertinentes ao patrimnio cultural, ento, se nstivermos uma norma, uma resoluo desse Conselho regulamentar, aquesto do trfego de veculos pesados nos ncleos histricos tombados, agente no precisaria judicializar cada uma dessas situaes pelo pas inteiro.

    Se ns tivssemos, como existe na Europa, um limite mximo devibrao, em exploso principalmente, para extrao mineral (e em MinasGerais eu mexo com isso todo dia), o que eu tenho que fazer aqui em MinasGerais? Utilizar normas regulamentares da Europa para defender opatrimnio aqui em Minas, porque ns no temos um rgo normativoque regulamenta qual o limite mximo de ondas vibratrias que podemoster em decorrncia da explorao de minerais, e ns temos dinamitaopara explorao mineral a 100 metros, 200 metros de bens que sotombados em todos os nveis. E o que fundamental nesse rgo: aparticipao da sociedade, dos rgos pblicos e dos Ministrios Pblicos.Eu acho fundamentais as presenas do Ministrio Pblico Federal e doMinistrio Pblico Estadual, pois esses rgos tm a atribuio de velar pelalegalidade e de cuidar da efetivao das normas de defesa do patrimniocultural.

    Ns j temos assento, inclusive, no Conama, rgo que tem funcionadomuito bem. Eu acredito que se ns tivermos uma instncia democrtica,normativa e deliberativa, o patrimnio cultural brasileiro s tem a ganhar.

    Outro ponto importante evidenciar, no Sistema, a diversificao deinstrumentos protetivos, atravs de uma numerao exemplificativa mais

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    extensa. Por exemplo, difcil colocarmos na cabea de quem trabalha commeio ambiente natural, que o licenciamento ambiental um instrumentode defesa do patrimnio cultural e quando ns pegamos os processos delicenciamento ambiental das grandes empresas, normalmente o patrimniocultural considerado um detalhezinho, e a ns no temos as medidascompensatrias em prol do patrimnio cultural. Se ns tivssemos areverso das medidas compensatrias que so fixadas no licenciamentoambiental para aplicao do patrimnio cultural, no teramos de ficar como pires na mo pedindo dinheiro como se fosse um favor e, na maioria dasvezes, os bens que so mais impactados, e eu falo pela experincia de MinasGerais, so os bens paisagsticos e os bens culturais. A concesso deincentivos e benefcios fiscais e financeiros, alm da outorga de chancelas,dentre tantos outros fundamental.

    O Fundo Nacional de Patrimnio Cultural, para onde poderiam sercanalizados recursos das multas, de taxas e de medidas compensatrias, outro ponto que me parece de fundamental importncia. E eu falo sobre aquesto das taxas, porque, infelizmente s vezes, pode at parecer estranhoum membro do MP falar isso , os rgos de defesa do patrimnio culturalno cobram pelo servio que prestam, ento, s vezes, h anlises que soextremamente morosas no Iphan, anlises de impacto ao patrimnioarqueolgico, por exemplo, que os arquelogos tm que se debruar edemoram semanas e semanas para dar uma chancela ou no, e no tempreo por isso. Penso que tem que cobrar sim, e esse recurso tem que serrevertido ao patrimnio cultural.

    Ns temos um CadastroTcnico Nacional em que todos os profissionaisda rea so cadastrados, para que os rgos de defesa tenham um controledisso. Ns temos conhecimento e isso notrio, que os trabalhos dosconservadores, restauradores, arquelogos etc. ainda no so reconhecidoscomo profisses regulamentadas. Ento, esse cadastro no pretenderegulamentar profisso, mas pretende saber quem tem habilitao mnimapara desenvolver aquelas funes. Eu acho isso muito importante. Nombito do meio ambiente natural isso j existe.

    E, a ltima lmina: a normatizao explcita do poder de polcia e apreviso de sanes. Se no houver previso explcita desse poder de polciae das sanes administrativas, fica difcil trabalhar, porque, atualmente,temos de judicializar praticamente todas as ameaas e leses ao patrimniocultural, sendo que se o sistema funcionar bem, o Iphan tendo poder de

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    embargo, tendo o poder de autuao administrativa, de apreenso deinstrumentos, tudo fica mais fcil, tudo fica mais clere. Ns j temos umalarga experincia no que diz respeito ao Ibama, por exemplo. Muitos fazemcrtica: o Iphan no polcia isso coisa para a polcia federal. Espera a!Um rgo que tem atribuio de tutela do patrimnio cultural? Se ele notiver poder de polcia, vai virar ONG, com todo respeito. Ento, nsprecisamos, sim, do exerccio do poder de polcia, porque em todo mundocivilizado acontece dessa forma, ento, a imposio das normas de maneiracogente pelos rgos que tem atribuio de aplicar fundamental, e nstemos que avanar nisso.

    A questo da aplicao das multas do Decreto-Lei no 25/37 me pareceuma perda de energia e capacidade para se investir em outras coisas, porque, primeiro, o Decreto-Lei no 25/37, na maioria das vezes, vincula multaa valor de dano provocado no bem. Agora, se eu destruo esse microfoneaqui que tem valor histrico, quanto ele vale? At eu descobrir o valor dissoaqui j est prescrita a pretenso de se impor a sano administrativa, ento,ns temos que usar o que est previsto na Lei no 9.605/98 e no decreto quea regulamenta, que traz valores fixos para aplicao dessas multas. Parece-me muito mais lgico eu ter valores fixos, que podem ser agravadosconforme o caso concreto, e no multas previstas no valor do dano, pois acoisa mais complexa que existe em direito de patrimnio cultural quantificar o dano. Ento, parece-me que no o melhor caminho, eutrabalharia, realmente, com a aplicao da Lei no 9.605 e diria mais: sehouver a possibilidade em eventual normatizao, principalmente para omeu colega dr. Antnio Fernando, de uma eventual normatizao no quediz respeito ao Sistema Nacional de Patrimnio Cultural, no vamos ficarvinculados Lei no 9.605, porque as ameaas que esto pairando e seefetivando sobre as conquistas envolvendo o meio ambiente natural soenormes, e eu acho que j chegou a hora do patrimnio cultural se descolardo meio ambiente natural e ter seus regulamentos prprios.

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    DESAFIOS DA REGULAO DOPATRIMNIO CULTURAL

    Ana Cristina Bandeira Lins*

    RESUMOO Brasil tem criado diversos instrumentos de tutela dos bens culturais

    por normativa infralegal, na ausncia de atividade legislativa nesta rea. necessria a correta utilizao dos instrumentos previstos na Constituiopela administrao pblica, cuja estrutura atual ainda inadequada ao plenoexerccio de suas atribuies. A organizao da competncia comum dostrs entes federativos ainda pende de disciplina. Urge a efetiva educaopatrimonial da sociedade brasileira, para que os bens culturais contemefetivamente com sua colaborao para sua valorizao e transmisso sfuturas geraes.

    PALAVRAS-CHAVEPatrimnio cultural, Tutela, Competncia.

    A Constituio de 1988 ampliou a tipologia de bens culturais integrantesdo Patrimnio Nacional e expressou, de forma exemplificativa, alguns dosinstrumentos de tutela de tais bens, indicando expressamente ao legisladora necessidade de criao de outros mecanismos de proteo, conformedisposto no pargrafo primeiro do artigo 216. Na ausncia de atividadelegislativa, a Administrao Pblica Federal tem criado novos instrumentosinfralegais para cumprir seu dever constitucional, ainda que com estruturabastante diminuta em face de todas suas atribuies e mais, sem a devidadisciplina sobre a colaborao entre os entes federativos, para o exerccioda competncia comum nessa matria. Assim, surgiram: a chancela dapaisagem cultural; o sistema integrado de conhecimento e gesto, com seusinventrios de conhecimento; e os inventrios e registro de bens imateriais.

    CHANCELA DA PAISAGEM CULTURAL BRASILEIRAA paisagem j era objeto de algumas convenes internacionais, em

    * Procuradora daRepblica e

    coordenadora doGrupo de Trabalho

    Patrimnio Culturaldo Ministrio

    Pblico Federal

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    especial a Conveno dos pases da Amrica, de 1940, para a proteo dasbelezas cnicas naturais e a da Unesco, de 1972, relativa proteo dopatrimnio mundial, cultural e natural, ambas ratificadas pelo Brasil, ouseja, integrantes de nosso ordenamento jurdico. notvel, porm, que,apesar de a primeira estar vigente h quase 70 anos e disciplinar a criaode parques nacionais e monumentos naturais para a proteo da paisagem,com fins expressamente estticos (e hoje absorvida pela Lei do SistemaNacional de Unidades de Conservao), at hoje pequena a simbiose entreos rgos de preservao do patrimnio cultural e os criadores e gestoresde parques e monumentos (hoje sob responsabilidade do Instituto ChicoMendes de Conservao da Biodiversidade ICMBio), e baixa a criaode Unidades de Conservao UC, com tais fins (o Brasil conta apenascom dois monumentos naturais nacionais).

    A paisagem cultural tambm era passvel de salvaguarda por meio dotombamento, conforme previsto no pargrafo 2 do art. 1, do Decreto-Lei n 25, de 1937, cujo livro de tombo tambm foi raramente utilizadopara paisagens naturais.

    O Iphan criou, em 30 de abril de 2009, atravs da Portaria n 127, oinstituto da Chancela da Paisagem Cultural Brasileira. Esse novoinstrumento permite a tutela de forma mais flexvel que o tombamento oua Unidade de Conservao de proteo integral, compatibilizando avalorizao do bem cultural com a dinmica da sociedade.

    Faz-se necessrio, entretanto, um bom julgamento do que deve sertombado ou inserido em UC e do que deve ser apenas chancelado, umavez que tal instrumento no dispe dos mesmos mecanismos que garantama manuteno do bem tutelado. de se registrar que certamente h umaimensido de paisagens que integram a nossa identidade, as quais so,inclusive, reconhecidas e admiradas internacionalmente, mas que aindacarecem de proteo, seja pelo tombamento ou pela criao de UC.Aparentemente, nunca houve grande nfase pelos rgos de preservao natutela do patrimnio natural.

    INVENTRIO DE CONHECIMENTOO inventrio, instrumento expressamente previsto no artigo 216 da

    Constituio Federal, o primeiro instrumento que a administrao deveriautilizar para a proteo dos bens culturais. Isso porque pressuposto datutela o conhecimento dos bens a serem preservados e valorizados.

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    Entretanto, o Iphan ainda no deu a devida ateno a tal instrumento.Durante dcadas, num esforo hercleo, foram feitos inventrios de bensmveis, sobretudo daqueles integrados a bens imveis tombados ou sacros,abrangendo apenas alguns dos Estados federativos. No h, ainda, umsistema nico de inventrio que abranja o conjunto de bens culturais,imveis, mveis e imateriais, o qual permita a insero de informaes pelosdemais entes federativos ou por instituies culturais, como ocorre emoutros pases.

    Recentemente foi elaborado o Sistema Integrado de Conhecimento eGesto SICG, visando construo de inventrios de conhecimentopara a formao de redes de patrimnios. Entretanto, o prprio Iphanresiste em consider-lo como um inventrio em sentido estrito, sob alegaode que preciso haver um julgamento prvio sobre o valor cultural dos bensinventariados. H que se salientar, contudo, que o temor da administraoimprocede. Ainda que um bem cultural no merea a proteo prevista porinstrumentos mais restritos, como o tombamento ou registro, faz-senecessria a distino dos bens culturais em relao aos demais bensexistentes, mesmo que exclusivamente por meio do inventrio. Isso porquea catalogao, por si s, j amplia a divulgao do bem, alm de permitir arealizao de investimento pblico na sua preservao e configurar emimportantes efeitos penais.

    O dano a um bem comum, por exemplo, implica, segundo o CdigoPenal, pena mnima de um ms de recluso (o que pode levar, caso hajacondenao, prescrio em um ano). Por outro lado, tratando-se de bemcultural, a lei de crimes ambientais prev a pena mnima de um ano derecluso (o que leva prescrio, neste caso, em dois anos). E bastaria oinventrio do bem para consider-lo objeto do crime qualificado. O prpriosenso comum j pede uma distino entre a pena imposta pelo dano de umquadro em um museu, cuja coleo no tombada, por exemplo, emrelao pena pelo dano a um objeto industrial qualquer, como umageladeira. Atravs do inventrio seria preenchido o requisito de bemtutelado administrativamente para configurar o crime mais gravoso, no casoda coleo museal.

    Pouco importa se tais inventrios de conhecimento abranjam mais bensque o devido, a priori, como receia o Iphan. sempre possvel realizar, aqualquer tempo, a excluso dos bens sem valor cultural do sistema,permitindo o contnuo exerccio do julgamento de valor cultural, o qual,

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    inclusive, muda no tempo. Antes proteger excessivamente que facilitar adeteriorao de bens constitucionalmente protegidos de impossvelreconstituio.

    REGISTRO E INVENTRIO DE BENS IMATERIAISTambm em relao ao patrimnio imaterial, a administrao pblica se

    adiantou ao legislador. Antes mesmo da concluso e assinatura daConveno para a Salvaguarda do Patrimnio Cultural Imaterial, celebradaem 17 de outubro de 2003, pela Unesco, foi editado no Brasil o Decreton 3.551, de agosto de 2000, o qual dispe sobre Inventrios e Registro dosbens culturais imateriais.

    Mais uma vez, o instrumento utilizado infralegal, ou seja, no criaobrigaes aos particulares, a no ser o fato de tais bens poderem serconsiderados administrativamente protegidos para fins criminais.

    H que atentar, tambm neste caso, para o instrumento escolhido pelaadministrao para a proteo dos bens imateriais. Como o inventrio eregistro permitem uma tutela indireta do bem, qual seja, asseguram amanuteno de sua memria, mas no a sobrevivncia dele em si mesmo, importante que se utilize de outros instrumentos para que se garanta adevida preservao dos bens materiais necessrios realizao damanifestao imaterial.

    Assim, preciso que a administrao coordene o inventrio e o registrocom outros instrumentos, tais como planos diretores, zoneamentoambiental, criao de unidades de conservao, alm de proceder efetivademarcao das terras indgenas e reconhecimento dos territriosremanescentes de quilombos. S assim ser possvel a preservao doprprio substrato das manifestaes imateriais, sem o qual restaremos, embreve, apenas com a memria indireta de tais bens.

    Ademais, necessria a avaliao precisa na escolha do registro, emdetrimento do tombamento, sobretudo no que tange a lugares, para agarantia da perpetuao das manifestaes imateriais a eles ligadas.

    DA RESTRIO EXPORTAONo direito comparado, h quase quatro sculos j existem normativas

    restritivas exportao de bens culturais. Normativas de 1602, de Florena; de1624, de Roma; de 1745, doVeneto criavam rol de obras de exportao vedada.

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    Tal restrio foi incorporada como efeito do tombamento, mas tambm prevista em outros instrumentos legislativos nacionais, como as Leis n4.845/1965 e n 5.471/1968. Por elas, todos os bens artsticos produzidosno perodo monrquico e os bens bibliogrficos produzidos at o sculoXIX, independentemente de qualquer ato declaratrio da administrao,so de exportao vedada.

    Entende-se que certas espcies de bens, somadas a sua idade, jcomportam valor cultural suficiente para merecerem tal tutela peloordenamento jurdico. Na poca de construo dessas normas, considerou-se o prazo aproximado de 70 anos para caracterizar tal limite.

    Entretanto, diversamente das legislaes estrangeiras, a nossa explicitouo perodo histrico fixo da produo do bem, ao invs de simplesmenteimpor a restrio queles com mais de 70 anos. Contudo, meio sculo sepassou sem que tal legislao fosse atualizada. E, assim como nos outroscasos referentes ao patrimnio cultural, o Congresso Nacional continuainerte. Por outro lado, com a lentido do processo de tombamento e a faltade priorizao dos bens mveis, tampouco encontram tais bens proteoadministrativa.

    Isso tem acarretado na exportao de importantes exemplares ou coleesde obras de arte do modernismo, por exemplo, momento artsticofundamental construo da identidade nacional. E a comunidadebrasileira est perdendo seus tesouros para os museus internacionais ou,quando no, pior para colees privadas.

    Impe-se, portanto, a provocao doCongresso para a reviso dessas leis, assimcomo a atuao mais eficiente da administrao, no tocante aos bens mveis.

    SISTEMA NACIONALOutro importante ponto pendente de legislao desde o advento da

    Constituio a disciplina da competncia comum entre Unio, Estados emunicpios, no que tange ao patrimnio cultural.

    Novamente no mbito da administrao pblica, e no no CongressoNacional, que se d a discusso sobre a criao de um Sistema Nacional dePatrimnio Cultural.

    Certamente, tal estrutura colaboraria para que as trs esferas daadministrao pblica, com competncia comum para a tutela dos bens

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    culturais, atuassem de forma coordenada e eficiente. A articulao com osrgos locais de extrema importncia, sobretudo porque so eles que estomais prximos dos bens culturais e melhor podem exercer o poder de polcia.Um bom exemplo de articulao legal atualmente vigente a legislaomunicipal de So Paulo sobre tombamento, a qual prev o tombamento deofcio para todos os bens tombados na esfera estadual ou federal.

    Por outro lado, tombamentos individuais e distintos pelas mltiplasesferas federativas trazem dificuldades extras, como, por exemplo, anecessidade de mltiplas autorizaes para a interveno no bem. Os rgosde tutela tm, por vezes, opinies distintas sobre a melhor forma de faz-lo, causando impasses para o cidado.

    Um Sistema Nacional que disciplinasse tais conflitos permitiria, ademais,vrios outros benefcios. Os atos de declarao do valor cultural poderiamser emitidos por um dos entes com efeitos j previstos aos demais, de formaa criar uma rede, ao invs de uma superposio da proteo. As sanesadministrativas tambm poderiam ser nicas e baseadas na mesma normanacional, evitando tripla sano. O prprio inventrio poderia ser niconacional, com indicao da esfera de proteo. A publicao de talinventrio na internet, por exemplo, permitiria a ampla difuso dos benspara toda a sociedade brasileira, ampliando as fronteiras locais dos bens hojeprotegidos pelos municpios.

    Seria fundamental, portanto, a implementao de um sistema quecoordenasse os diversos entes federativos no exerccio dessa atribuiocomum. Discute-se se tal sistema deveria ser autnomo ou se deveria ser umsubsistema dentro do Sistema Nacional do Meio Ambiente Sisnama oudentro do Sistema Nacional de Cultura SNC, previsto em projeto de leiem trmite no Congresso, por iniciativa do Poder Executivo.

    A ampla maioria da doutrina e jurisprudncia brasileira tende a classificaro patrimnio cultural como integrante do meio ambiente chamado MeioAmbiente Cultural. Do mesmo modo, em termos de legislaoinfraconstitucional, na lei de crimes ambientais que h tipos especficosde dano do patrimnio cultural.

    A tradio jurdica italiana v de forma inversa. Consideram que o meioambiente que faz parte do patrimnio cultural. interessante, nessesentido, o exame do Cdigo Florestal Nacional (Lei n 4.771, de 15 desetembro de 1965), comparado com a Legge Galasso (Lei n 431, de 8 de

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    agosto de 1985, da Itlia). Ambos criam a proteo de certos bensgeogrficos (no Brasil so chamadas de reas de Proteo Permanente APP), como topos de morro, margens de rios e lagos, de forma bastantesemelhante. Mas, enquanto o fundamento da proteo no Brasil se d pelamanuteno dos recursos ambientais, na Itlia o fundamento a proteoda beleza cnica da paisagem apesar de as duas leis protegerempraticamente os mesmos objetos.

    O que parece evidente a extrema relao entre os dois tipos de bens. difcil desassociar um do outro, mas tambm difcil subordinar um aooutro. No nosso sistema normativo, tanto o patrimnio cultural como omeio ambiente tm previso constitucional em captulos prprios, o que, aprincpio, mostraria a equivalncia de status e distino de objetos. Mas hque se salientar que mesmo stios naturais, como os stios paleontolgicose ecolgicos, esto previstos no captulo do Patrimnio Cultural. Issoporque a proteo do meio ambiente pode se dar tanto pelo valor intrnsecoda natureza quanto pelo significado cultural que ela representa.

    E a discusso sobre o paralelismo, subordinao ou interseco dopatrimnio cultural com o ambiental no um problema meramenteacadmico. Um exemplo disso aplicabilidade, ou no, das multas previstaspela Poltica Nacional do Meio Ambiente e a relao dessa normativa comas multas previstas no Decreto-Lei n 25/37. Posicionando-se pela nosubordinao de um bem sobre outro, mas sim por uma intrnseca relaoentre a tutela ambiental e patrimonial, h que se concluir que apenas assanes idnticas poderiam ser consideradas revogadas, sendo ambas asnormas aplicveis. Justifica-se, sob mesmo fundamento, a comunicabilidadedos princpios jurdicos de um ao outro campo, como efetivamente pregadopela doutrina e exercido pela jurisprudncia.

    Se o patrimnio cultural est ligado tanto ao meio ambiente (em especialdoutrinariamente) como cultura, tambm seria juridicamente possvel ainsero de um Sistema Nacional de Patrimnio Cultural tanto no Sisnamacomo no SNC. Trata-se, portanto, de escolha poltica. E nesse sentido, hque se considerar a dificuldade de normatizao dessa matria peloCongresso Nacional, alm da estrutura j existente e em plenofuncionamento h mais de vinte anos do Sisnama, com o ConselhoNacional de Meio Ambiente Conama como rgo regulatrio.

    No se pode ignorar, igualmente, o esforo do governo em reestruturaros rgos do patrimnio. Nos ltimos anos houve um novo impulso, ainda

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    longe, porm, da pujana passada do Iphan. Alm dos novos instrumentosde tutela explicitados aqui, cito tambm a efetivao do cadastro deantiqurios e leiloeiros, j previsto desde 1937, pelo Decreto-Lei n 25 eimplementado recentemente pela instruo normativa n 01, de 11 dejunho de 2007. A prpria administrao comea a se reaparelhar, sejaatravs dos recentes concursos para preenchimento de cargos vagos noIphan, depois de dcadas sem reposio de seus funcionrios; seja atravs decriao de instituto prprio para a administrao dos museus, o Ibram; sejapela disponibilizao de recursos financeiros para bens culturais, como sedeu com o Programa Monumenta e o Pronac. Mas, preciso reconhecerque h muito mais para ser feito.

    Entretanto, a criao de um novo sistema no parece ser prioritria aoCongresso. E, ainda que a eventual lei fosse aprovada, seria necessria umamudana estrutural dos rgos. Por isso, talvez fosse interessante, nopresente momento poltico, a introduo do Iphan no Sisnama, com apreviso de assento no Conama. Integrar um sistema j em plenofuncionamento e com reconhecimento social parece a soluo maisacertada. Ademais, o prprio decreto que regulamenta as atividades doIphan j o coloca como rgo central nacional da Poltica do PatrimnioCultural. Do mesmo modo, o Conama conta com representantes da Unio,Estados e municpios, os quais poderiam propor a melhor forma de integraras aes realizadas pelas trs esferas federativas.

    DA NECESSRIA EDUCAO PATRIMONIALChama ateno que os recentes instrumentos explicitados sejam criados

    por normas infralegais, j que se destinam coletividade e no apenas orientao da administrao especializada. Isso evidencia, por um lado, apreocupao dessa administrao com a tutela do patrimnio cultural, aqual se encontra em descompasso com a atual inrcia do Poder Legislativo.A administrao usa, ento, da normativa de sua atribuio, a qual,entretanto, no tem poder de impor deveres a particulares.

    Tal inrcia legislativa denota que a temtica do patrimnio ainda novoltou cena poltica como mereceria. Tratando-se de bens essenciais manuteno da identidade dos diversos povos do Brasil, direitofundamental do ser humano, ainda estarrecedor assistir ao descaso doPoder Legislativo, o qual apenas reflete, em parte, o sentimento da prpriasociedade brasileira com relao cultura.

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    A ausncia de educao patrimonial nas escolas tampouco ajuda a mudartal situao. Apesar de a Lei de Diretrizes e Bases colocar como um dosobjetivos do ensino fundamental a formao bsica do cidado, incluindonela a compreenso das artes e dos valores em que se fundamenta asociedade, o sistema educacional ainda no incorporou devidamente oestudo do patrimnio cultural nem como matriz de nossos valores, nemcomo o conjunto de nossa autntica expresso artstica.

    preciso integrar o conhecimento do patrimnio formao escolar,para que se formem efetivamente cidados plenos, capazes de seautorreconhecerem e se alimentarem culturalmente. S assim elescolaboraro diretamente para a preservao do patrimnio e exigiro deseus representantes polticos o cumprimento de suas obrigaes, para opleno exerccio dos direitos culturais, fundamentais ao ser humano.

    CONCLUSOApesar dos mais de vinte anos do advento da Constituio Federal, os

    marcos legais existentes sobre o patrimnio cultural ainda no abrangemtodos os mecanismos necessrios efetiva tutela e valorizao dos bens queo integram. Alm de novas leis, fundamental a adequada estruturao dosrgos de preservao da administrao pblica, com a disponibilizao derecursos humanos e financeiros condizentes com suas amplas atribuies.Igualmente, faz-se necessria a implantao de um Sistema Nacional dePatrimnio Cultural, integrante ou no ao Sisnama ou ao SNC, para tornara tutela mais eficaz. Urge a efetiva educao patrimonial da sociedade, pois,sem a valorizao dos bens culturais pelos cidados, no haver governocapaz de assegurar sua preservao e transmisso s futuras geraes.

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    PATRIMNIO NATURAL ECULTURAL, BENS JURDICOS DENATUREZA DISTINTA

    Carlos Magno de Souza Paiva*

    RESUMOEste trabalho pretende apresentar um panorama a respeito das

    peculiaridades brasileiras relacionadas tutela jurdica do patrimniocultural edificado. Desde a forma de ocupao dos povos pr-colombianos,passando pelas caractersticas da urbanizao portuguesa, chegando aosatuais instrumentos de poltica urbana e ambiental. O Brasil no podesimplesmente importar modelos de tutela pensados para realidades todistintas, seja com relao estrutura urbana edificada, seja em razo dasprprias circunstncias culturais e compreenso da ideia de pertencimento.

    PALAVRAS-CHAVEPatrimnio natural, Bens jurdicos, Tutela.

    PATRIMNIO NATURAL E PATRIMNIO CULTURAL, BENSJURDICOS DE NATUREZA DISTINTA

    Desde a criao do Servio do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional Sphan no Brasil, no incio do sculo XX, a questo do patrimnio culturaltem sido consideravelmente estudada e divulgada por especialistas das reasde histria, arquitetura, sociologia, antropologia, arqueologia, entre outrascincias sociais, especialmente. No entanto, apesar da legislao de proteo aosbens culturais ser contempornea criao do prprio Sphan (atual Institutodo Patrimnio Histrico e Artstico Nacional Iphan), os profissionais da reajurdica pouco se debruaram sobre a temtica do patrimnio cultural e osseus instrumentos legais de proteo e valorizao. Particularmente no Brasil,a maioria dos artigos cientficos produzidos refere-se aos bens culturais comoum apndice direto do meio ambiente em seu ncleo prprio, como se aquelesem nada divergissem dos bens naturais, e esse um dos primeiros equvocosapontados no pas quanto ao tratamento jurdico da matria.

    * Professor de direitopblico daUniversidade Federalde Ouro Preto ecoordenador doNcleo de Pesquisaem Direito doPatrimnio Culturaldo Departamento deDireito daUniversidade Federalde Ouro Preto

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    O Brasil, por suas caractersticas, no legou s atuais geraes,edificaes ou mesmo runas anteriores presena europeia em nossasterras. Os povos indgenas pr-colombianos eram, em sua quase totalidade,nmades e coletores, ambientalizados com a densa floresta e sem apreocupao ou necessidade de fixar pontos especficos de ocupao econsequentemente de edificao. A natureza sempre foi mais presentena formao do personagem brasileiro, seja pela sua exuberncia eabundncia tropical, seja pela mstica atribuda s suas formas. O fato quea nomadismo indgena pr-colombiano, a despreocupao portuguesa coma urbanizao das terras alm-mar e a extenso dos recursos naturais emnosso pas, acabou por influenciar e sugar todo o esforo de compreensodo objeto meio ambiente, e nestes termos, de modo secundrio, surge apossibilidade de tutela tambm do meio ambiente cultural, ou seja, demodo apenas residual.

    Somos o pas da dana, o pas do folclore, o pas da msica, masdefinitivamente no somos o pas dos bens culturais edificados, no porno haver o que proteger, mas por no compreendermos a real necessidadede tutela dos bens edificados como elementos indispensveis para acompreenso de ns mesmos como indivduos e como membros de umacoletividade cada vez mais desfocada, em face do rolo compressor daglobalizao em nossos dias. Nos dizeres do poeta argentino ManuelBernardes, que em 1910, constatando o estado de runa e decadncia dacidade de Ouro Preto, que j no era mais a capital de Minas Gerais,sentencia a situao e a relao com os nossos bens culturais ao dizer uma angstia.

    Posto isso, uma primeira peculiaridade brasileira, em face da tutelajurdica dos bens culturais, diz respeito amplitude do objeto de proteodo atual direito ambiental no pas. Poderamos, no leque de bens jurdicosaqui resguardados, alocar tambm os bens construdos ou no? O que sepercebe, de modo geral, considerando a doutrina ptria, salvo rarssimasexcees e para j podemos nos referir aos brilhantes trabalhos dosprofessores Marcos Paulo de Souza Miranda e Maria Coeli Simes Pires , que os bens culturais so tratados de forma indistinta pelos autoresdedicados ao tema, que, em geral, enxertam em suas obras de direitoambiental algum captulo ou tpico dedicado ao patrimnio artificialcomo se a ele fossem prontamente aplicveis todos os institutos de direitoambiental propriamente ditos.

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    Quanto a esse ponto, o tratamento indiferenciado entre os bens naturaise os bens culturais, a prpria Constituio de 1988 relaciona de modoconfuso a matria quando se refere ao conceito de Patrimnio Cultural.Reza o Art. 216, da CF:

    Art. 216. Constitui patrimnio cultural brasileiro os bens de naturezamaterial e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto,portadores de referncia identidade, ao, memria dosdiferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais seincluem:

    [...]

    V - os conjuntos urbanos e stios de valor histrico, paisagstico, artstico,arqueolgico, paleontolgico, ecolgico e cientfico. (grifo nosso)

    Ora, uma coisa a viso ampla que se tem do corpus integrante dopatrimnio cultural e que envolve tanto as concepes de bem naturalcomo de bem cultural; outra pensar que mesmo os elementosecolgicos poderiam integrar o patrimnio cultural brasileiro. Sobre esseaspecto, entendemos que os bens naturais podem, sim, compor o mbitodo patrimnio cultural a partir de trs aspectos distintos: no primeiro delesfala das formaes naturais que tm significado histrico para coletividade.Seria o caso do Monte Pascoal, na Bahia, que foi o primeiro ponto de terraavistado pelos colonizadores portugueses. Trata-se de um elemento natural,o pico, mas com um atributo histrico que o destaca. Um segundo aspectorefere-se s diferentes referncias estticas de apreciao humana, afinal,quando o indivduo classifica determinada paisagem natural como bonita,est atribuindo a ela um juzo de valor cultural individual ou coletivo que,novamente, demonstra essa indissociao entre o bem natural e os aspectosculturais que o cercam. Por fim, podemos falar de um terceiro ponto derelevo e que envolve a compreenso dos bens naturais como componentesdo patrimnio cultural quando aqueles compem, completam, seincorporam ao elemento cultural edificado formando um s objeto detutela. Como exemplo, poderamos nos referir ao cenrio urbano da cidadede Ouro Preto que somente ganha sentido quando observados oselementos naturais: vales, montanhas, picos que o circundam. Posto isso,conclui-se, de fato, que h situaes em que esses dois elementos, naturezae cultura, se fundem de modo a criar, aparentemente, um s objeto detutela jurdica.

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    Ocorre que a Constituio, quando se refere aos elementos ecolgicoscomo componentes do patrimnio cultural, est lidando com um aspectototalmente aliengena a este, mesmo considerando a concepo alargada danoo de patrimnio cultural. Os elementos ecolgicos referem-se srelaes entre o animal e o seu ambiente orgnico e inorgnico, incluindosuas relaes, amistosas ou no, com as plantas e animais que tenham comele contato direto ou indireto. Trata-se de complexas inter-relaes,chamadas por Darwin de condies da luta pela vida. Os elementosecolgicos representam assunto prprio da biologia, das cincias naturaise em nada se assemelham proposta de inteirao cultura-ambientejustificadora da noo ampla de patrimnio cultural. Portanto, a partirdaqui, comeamos a visualizar os riscos de uma compreenso indistinta edemasiadamente ampliada dos bens culturais, confundindo objetos denatureza to distinta.

    A prpria tutela jurdica do patrimnio cultural fica comprometida medida que se desconhece a preciso do objeto de proteo desse ramo dodireito.

    Mesmo nas hipteses relatadas acima, quando possvel pensar a junode natureza e bens culturais, h que se ter a devida cautela quando o assuntoenvolver a proteo jurdica desses bens de maneira unssona. Considerandoo aspecto prtico do tema, como imaginar um bem natural (em seu ncleoprprio), cuja efetiva tutela carece de um conhecimento especfico e tcnicona rea, com a responsabilidade direta de proteo atribuda a um rgo detutela e fomento cultura? No oportuno, e to pouco adequado, pensaro dever pela gesto de uma reserva ecolgica atribudo a um rgo prprioligado cultura, entretanto, mesmo assim, no raras vezes, v-se a realizaodo tombamento, um instituto prprio para a salvaguarda dos bens culturais,cujo procedimento todo coordenado pelo Iphan e pelo Ministrio daCultura, utilizado de modo indiscriminado em favor de reas naturais.

    Isso se deve a um fenmeno que ousamos chamar de prostituio dotombamento. A expresso que, em princpio, se anuncia demasiada forte,na verdade, um alerta para uma prtica que tem se tornado comum emnosso pas.

    O tombamento, apesar de suas deficincias, que sero mais bemexploradas em outra oportunidade, ainda conhecido como o principalinstrumento de tutela do patrimnio cultural, e muito mais forte que seus

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    efeitos jurdicos so os efeitos sociais do instituto. O bem material que passaa ser tombado ganha significativa projeo social. como se ativssemos acuriosidade para um bem que, por alguma razo, mereceu ser declaradocomo de relevncia cultural. O poder de marketing que envolve otombamento, nesses casos, o que o torna um instrumento tanto maiseficaz, at mesmo, que seus resultados jurdicos. No se admite a ofensa aosbens previamente tombados pela autoridade pblica, especialmente emrazo do impacto social que isso poderia causar e menos em razo dasconsequncias jurdicas do feito danoso. Com isso, gestores pblicosaproveitam da situao para promover o tombamento de bens alheios aoelemento cultural que seria prprio de coordenao pelos rgos de tutelaao patrimnio cultural no pas.

    comum haver o tombamento de reas florestais, redutos marinhos eat mesmo de espcies animais, quando, na verdade, existem instrumentosjurdicos prprios e, teoricamente, mais eficazes de tutela desses bens. Alegislao que estabelece a Poltica Nacional de Meio Ambiente elencanumerosas possibilidades e institutos especficos de tutela dos bens naturais,especificando, inclusive, a quem incumbe o nus pblico ou privado pelaconservao e valorizao desses elementos naturais. Apenas a ttulo deexemplo pode-se mencionar o zoneamento ambiental, as unidades deproteo integral ou mesmo as unidades de uso sustentvel.

    No possvel imaginar um modelo eficaz de tutela, tanto dos bensnaturais, como dos bens culturais, partindo-se de pressupostos equivocados,tais como a desvirtuao de um instrumento jurdico, pensado para umdeterminado fim, em razo do seu efeito publicitrio. Ora, promover otombamento de um reduto silvestre, pois isso chama mais a ateno queestabelecer ali uma unidade de conservao, pode at trazer algum efeitoprtico em razo de uma maior visibilidade pblica, mas, por outro lado,se pensarmos bem, estaremos transferindo administrao de um rgo detutela e fomento cultura um bem jurdico, que demandaria outro nvel deconhecimento tcnico e especializado para se estabelecer uma tutela eficaz.Mesmo havendo as possibilidades de cooperao entre os diferentes rgospblicos preocupados em defender os direitos difusos, muito estranhopensar o Instituto do Patrimnio Histrico e Artstico de Minas Gerais Iepha responsvel direto pela proteo de um determinado ecossistema.

    Para sintetizar todo o raciocnio desenvolvido at agora, veja o que sepassa, hoje, no Brasil, com relao Lei de Crimes Ambientais (Lei no

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    Nesse aspecto, acertadamente agiu o legislador federal ao promover talmudana normativa e, desse modo, ao aproximar mais o direito da realidaderural e ambiental brasileira, que ainda no pode se dar ao luxo de adotarmedidas mais radicais, em favor do meio ambiente natural, sem que issoafete, entretanto, o sustento de milhes de brasileiros que dependem desserecurso para a sua sobrevivncia.

    Ocorre que, como dito anteriormente, a lei brasileira de CrimesAmbientais aplicvel tanto aos crimes cometidos contra os bens naturaiscomo aos bens culturais. Nessa lei, a seo IV trata especificamente doscrimes contra o ordenamento urbano e o patrimnio cultural e o art. 62especifica:

    Art. 62. Destruir, inutilizar ou deteriorar;

    I - bem especialmente protegido por lei, ato administrativo ou decisojudicial;

    II - arquivo, registro, museu, biblioteca, pinacoteca, instalaocientfica ou similar protegido por lei, ato administrativo ou decisojudicial:

    Pena - recluso, de um a trs anos, e multa.

    Pargrafo nico. Se o crime for culposo, a pena de seis meses a umano de deteno, sem prejuzo da multa.

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    Repare que a conduta tpica elencada no caput do art. 62 fala emdeteriorar bem especialmente protegido por lei, ato administrativo oudeciso judicial. Ora, deteriorar qualquer ato que cause desgaste, mesmoque um desgaste natural das coisas materiais. No difcil imaginar que osimples uso corrente de um bem cultural, especialmente os bens edificados,cause, evidentemente, a sua deteriorao. Posto isso, camos em umasituao anloga ao do pequeno agricultor que explora o meio ambientepara a sua subsistncia imediata e de sua famlia. No se pode comparar aconduta daquele que reside em um bem cultural e o deteriora pelo simplesfato de ali residir e a conduta de algumas grandes corporaes imobiliriasdispostas a demolir determinado edifcio com valor cultural, conformemelhor convier especulao imobiliria.

    O problema todo que se depara aqui e que acaba por envolver aconfuso de tratamento jurdico, que perpassa os bens naturais e os bensculturais, que a preocupao do legislador federal com a situao doagricultor de subsistncia acabou por motivar a alterao da lei de crimesambientais para excluir a punibilidade daqueles que convivem e dependemdos recursos ambientais para a sua manuteno imediata. No entanto,sendo essa a mesma lei que estabelece as condutas criminosas atentadorasao patrimnio cultural, no se pronunciou o rgo legiferante a despeitodas situaes anlogas daqueles que vivem em bens imveis privados comrelevante valor cultural e que o deterioram pelo seu uso prpriosimplesmente, ou ento por no possurem os recursos suficientes parapromover as obras necessrias de conservao. importante destacar opargrafo nico do art. 62 que estabelece, inclusive, a modalidade culposapara o crime em pauta, ou seja, o excesso de preocupao com os bensnaturais e os agentes a eles envolvidos, bens estes que dividem espao comos bens culturais na mesma legislao penal, acabou por prejudicar acompreenso das hipteses punitivas decorrentes de danos dolosos ouculposos ao Patrimnio Cultural.

    Esse exemplo ilustra bem a necessidade de se pensar distintamente essesdois objetos jurdicos, entretanto, uma das principais distines entre osbens naturais e os bens culturais e que diz respeito impossibilidade doseu tratamento jurdico comum diz respeito ao aspecto axiolgicoatribudo a cada um deles. Os bens naturais, assim considerados aquelesalheios interveno fsica do ser humano, so invalorveis, por no serpossvel atribuir maior ou menor valor a uma espcie animal ou adeterminadas espcies de plantas, quando em seu meio original. Por outro

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    lado, ao nos referirmos aos bens culturais, estes devem, necessariamente,ser valorados. Ora, no so todos os bens culturais que so dignos de seremtutelados; a coletividade precisa valorar quais tm maior relevncia, quaismerecem uma maior ou, mesmo, uma menor tutela. Bom que se diga queno se trata de eleger uma cultura superior em detrimento de outra, implicadizer, isso sim, que somente alguns bens culturais so eleitos como relevantespara determinada cultura, enquanto, em se tratando dos bens naturais, essejuzo de valor no se aplica, razo pela qual os elementos culturais e osnaturais tm natureza absolutamente distintas e precisam ser levadas emconsiderao no momento de se pensarem os respectivos modelos de tutelae valorizao poltico-jurdico.

    Concluindo, aproveita-se esta breve exposio, que ainda merece maiorreflexo e desenvolvimento futuros, para enfatizar a crtica queles quesugerem que o patrimnio cultural compreende e pode ser trabalhado talcomo o patrimnio natural em nosso pas. Talvez essa seja a forma maiscmoda e conveniente de lidar com um assunto, que como dito, nunca foiprioridade entre ns (os bens culturais edificados), mas, com certeza, nose trata da maneira mais eficaz de salvaguard-los. Da decorre o discursodos acomodados: antes de querermos o timo, precisamos querer o bom.No entanto, nos moldes em que se desenha o tratamento jurdico damatria, no estamos sequer prximos do bom e ainda que estivssemos,o patrimnio cultural edificado, por tudo o que deveria representar para opovo brasileiro, merece e precisa ser tutelado ao nvel do excelente.

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    O EXERCCIO DA COMPETNCIACONSTITUCIONAL COMUM E

    CONCORRENTE NA PRESERVAO

    DO PATRIMNIO CULTURAL

    Fabiana Santos Dantas*

    RESUMOO texto abre a discusso em torno da necessidade de tornar eficaz o

    exerccio da competncia, comum e concorrente, de modo a maximizar aproteo do patrimnio cultural. Reflete sobre a legalidade da atuao doEstado na preservao dos bens culturais, j que depende de competnciaslegislativas e administrativas. Aponta como maior desafio a criao de umsistema de preservao que congrega entes autnomos, com legislaodiferenciada e atribuies administrativas comuns. Destaca que muitosmunicpios j tm estruturas de proteo instaladas e mecanismos adotados,como a Lei Robin Wood que, embora no tenha abrangncia nacional, um modelo de instrumento no previsto na legislao federal. E pergunta:como que vamos conseguir conciliar esses institutos to diferentes, tocriativos, to bons e que funcionam?

    PALAVRAS-CHAVECompetncias, Legislao, Preservao.

    Minha tarefa falar sobre competncias comuns e concorrentes, napreservao do patrimnio cultural. O que me parece que se quer refletirnesse momento exatamente a maneira de implementarmos ou tornarmoseficazes essas competncias comuns e concorrentes, de modo queconsigamos juntar esforos e recursos, maximizando a proteo dopatrimnio cultural. Assim, quando comecei a pensar sobre acontextualizao desse assunto, pensei na legalidade da atuao do Estadona preservao dos bens culturais, a qual depende da criao do arcabouolegislativo e da definio das competncias administrativas. Ento, ns

    * ProcuradoraFederal / Iphan

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    estamos falando, basicamente, de competncias legislativas e administrativase nunca podemos esquecer que o que pretendemos aqui criar um sistemaou implementar um sistema que j existe de preservao total dopatrimnio. Por que eu digo isso?

    Porque o conceito jurdico de patrimnio cultural mais restrito que oconceito antropolgico, que o conceito sociolgico; e o conceito jurdico,para fim de proteo estatal, mais restrito ainda, embora o artigo 216 daConstituio Federal tenha uma amplitude que nos permite pensar deforma mais ampla do que o Decreto-Lei no 25/1937 fazia; ns aindaestamos falando de estatal, ento, quando o Estado no reconhecedeterminada manifestao como patrimnio, ela no vai ter a realizaoestatal, vou dar um exemplo: o funk patrimnio cultural?

    Claro que patrimnio cultural, pois uma manifestao culturalcomplexa, que envolve msica, letra, literatura, dana, aspectos cnicos,vestimentas, linguagem; o funk uma manifestao cultural; patrimniocultural do Brasil. Agora, se patrimnio para fins de proteo estatal,nunca vi nenhuma manifestao com o fim de registrar, nem tombar oslocais onde ocorre o funk. Ento, na federao brasileira, no existe umahierarquia jurdica entre os entes da federao.

    A estrutura federativa do nosso pas pressupe uma autonomia legislativaao governo que as compe. Ento, mesmo que tenhamos uma formataode normas gerais, essas normas nunca podero violar a autonomia dosestados-membros, dos municpios e nem ampliar demais a atuao daUnio. O nosso desafio conceber um sistema de preservao quecongregue entes autnomos, com legislao diferenciada e atribuiesadministrativas comuns. A maior parte dos Estados j tem um sistema deproteo cultural, por meio de legislao abrangente que, em muitos casos,envolve outras reas como educao e esportes. Alguns municpios jpossuem esse sistema, e ns, ento, j temos uma estrutura de proteo dopatrimnio instalada, obedecendo a legislaes diferentes, com critriosdiferentes. Ns temos hoje inmeros instrumentos no previstos nalegislao federal, aqui em Minas temos um exemplo com a Lei RobinWood, uma ideia maravilhosa que no de abrangncia nacional. Como que vamos conseguir conciliar esses institutos to diferentes e to criativose to bons e que funcionam?

    A competncia concorrente da constituio legislativa. , assim,basicamente uma competncia para criar leis. Existem matrias que os

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    Estados tm atribuio de formular leis pertinentes ao seu mbito de atuao.

    E h referncias explcitas preservao do patrimnio e matrias quefazem referncia a elas. Observem: a legislao concorrente tem matriasespecficas, mas existem outras reas que, mesmo que no estejam explcitas,demandam uma legislao concorrente. O que a Constituio dizexplicitamente, no artigo 24, inciso sete, proteo do patrimnio histrico,cultural, artstico, paisagstico, objeto de legislao concorrente; inciso oito,quanto responsabilidade por dano, ento essa responsabilidade doconcorrente, no apenas administrativa, porque em matria civil e penal,a legislao privativa da unio. Ou entendemos esse artigo com exceodo artigo 22 da Constituio que trata da competncia privativa, ou entoentendemos que uma responsabilidade s administrativa. Na prtica issofaz muita diferena, imaginem se o entendimento que existe umalegislao concorrente do Estado para fazer norma de responsabilidadepenal, daqui a pouco ns teramos nossos Estados, criando normas penaissobre violao do patrimnio cultural que hoje me parece que no possvel, seria mais adequado, seria a responsabilidade administrativa. Oinciso nove fala da educao, cultura e esporte, ento, ns teramos,tambm, a possibilidade de concorrncia da legislao em termos deeducao e cultura.

    Percebam que temos um problema srio na nossa Constituio o fatode ela no obedecer a uma categorizao suficiente. Veja, por exemplo: oinciso sete fala de patrimnio histrico, cultural, artstico e paisagstico,mas, no oito fala de esttico. Como fica, ento, essa situao: quando vamosfalar sobre dano esttico, a legislao fala em concorrente; essa falta decategorizao correta (at por falta de definio dos prprios conceitos queo patrimnio cultural abrange; na prtica, isso muito complicado) nosdeixa quase sem parmetro para definir as coisas. Cito outro exemplo: apalavra cultura, na Constituio, usada de vrias maneiras diferentes; utilizada como cultura em geral, como conhecemos, e no sentidoantropolgico do termo, mas, utilizada, tambm, como forma de cultivo.

    Lidamos com palavras que so multifocais, que tm mais de umsignificado. Qual o nosso desafio? No existe uma norma federal geralque sistematize os institutos, instrumentos, metodologias, procedimentos,utilizados na preservao. O que falta, na verdade, o delineamento dapoltica nacional de preservao, que exatamente: o que apareceria, ondeapareceriam os princpios, as metas, os objetivos, tal como existe na poltica

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    nacional do meio ambiente. Hoje, os Estados exercem uma competncialegislativa plena ou semiplena, porque no existem normas gerais, e oresultado a existncia de normas diversas e, consequentemente, critriosdiferentes de atuao. s vezes, vemos isso no mbito do prprio municpio,no delineamento de reas que sero tombadas. Em Recife, por exemplo,tem uma praa que ser tombada, e a rea do Iphan bem maior que a reada Prefeitura no polgono do tombamento, e isso causa uma confusotremenda nas cabeas dos contribuintes afetados. Eles no sabem por queo Iphan tem um polgono maior de tombamento e a Prefeitura um menor.

    A competncia comum material; no se trata de fazer lei, mas de cumpri-la, para a realizao de aes em reas prioritrias, que so to importantes epara as quais a Constituio exige uma concentrao de esforos das entidadesda federao. Quando aparece uma competncia comum na Constituio, afinalidade que todos compartilhem e conjuguem esforos para atingir omelhor resultado possvel naquela ao; temos aqui as normas que tratam dacompetncia comum em matria de preservao do patrimnio cultural:conservar um patrimnio pblico, e eu coloco um adendo: porque boa partedos monumentos do pas so bens pblicos.

    Proteger documentos; obras; outros bens de valor artstico, cultural; osmonumentos; as paisagens naturais notveis; os stios arqueolgicos (umaobservao: a competncia para a preservao de stio arqueolgico deve sercomum. Entretanto, a legislao no prev dessa forma; compete somenteao Governo Federal esta proteo). No existe legislao concorrente; esse um caso que demanda do estado-membro a utilizao de uma normafederal para proteger um bem que da Unio. Porque o artigo que trata dacompetncia privativa da Unio fala em jazidas, e jazidas, quaisquer quesejam os tipos, podem ser bens arqueolgicos, ento, nesse caso, existe umacompetncia comum, ou seja, o estado-membro, o Distrito Federal teria,tambm, que preservar o stio arqueolgico, mas ele no tem uma normaprpria para isso, como j disse, ele teria que usar a norma federal. Faoessa observao porque existe uma enorme polmica na doutrina sob apossibilidade de um ente da legislao aplicar a legislao de outro para apreservao. Um exemplo: o estado-membro pode utilizar uma normafederal para a preservao? A federao pode usar uma norma estadual paraa proteo? Eu entendo que sim, se ela for mais benfica, ento podemosutiliz-la, ns poderamos utilizar normas estaduais se elas forem maisbenficas para o patrimnio cultural? No. E por que no? Porque esse seriaum caso de aplicao de norma federal pelo estado-membro.

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    O inciso quatro fala em impedir a invaso, destruio, descaracterizaode obras de arte e de outros bens de valor histrico, artstico e cultural. Ans temos um inciso em que indiretamente h uma preservao, que proporcionar meios de acesso cultura. Porque, evidentemente, franquearou permitir o acesso da populao ao patrimnio cultural propiciar oacesso cultura, proteger o meio ambiente, combater, em qualquer desuas formas, porque o patrimnio cultural concebido como bemambiental, incidindo a legislao protetiva respectiva; claro que o meioambiente cultural meio ambiente, pois o homem vive na cultura, ento,essa a distino que se faz entre natureza e cultura.

    Antes de mais nada, essa uma distino artificial, no existe umadistino estanque entre natureza e cultura, porque elas convivem na nossacidade, por exemplo. imprprio falar em distino; no existe umalegislao que contemple s a natureza, e quando se trata de paisagem issofica muito mais evidente, porque paisagem no uma coisa natural, umavalorao que ns fazemos dos bens naturais. Ento, uma montanha no bonita em si, ela bonita porque ns a valoramos assim.

    Quais so, ento, os desafios quando tratamos de competncias comuns?Primeiro, a regulamentao da cooperao depende de uma leicomplementar que nunca foi editada. Isso o que diz a Constituio. Se,hoje, houvesse uma cooperao entre os Estados, seria com base nasdisposies do Decreto-Lei no 25/1937, que falam em cooperao e quefuncionariam muito bem. Ns podemos ter convnios, acordos decooperao tcnica, no ? Ento poderia ser utilizado.

    E a no regulamentao hoje, quer seja atravs de lei complementar,quer seja atravs de convnios ou apoio de cooperao tcnica, trazproblemas como a superposio de comandos, ou seja, em algumassituaes, sobre o mesmo bem incidem dois ou trs tipos de leis diferentes,no necessariamente conflitantes, mas, na prtica, s vezes fica difcilconciliar a aplicao dessas leis e a superposio de recursos. No que, svezes, sejam mal-empregados, porque gastamos energia utilizando de mododiferente. Existem os conflitos interinstitucionais que poderiam ser evitadosse tivssemos uma maneira de compatibilizar a atuao, a falta deresponsabilizao dos entes estatais que acaba causando a ineficincia dasua atuao.

    s vezes h uma omisso imprpria que algumas entidades fazem:no, isso aqui tal entidade que tem que cuidar, isso papel do Estado, isso

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    papel do municpio, quando, na verdade, papel de todos, como diz oartigo 225 da Constituio.

    E tem outro desafio que o de compatibilizar as normas que existemhoje com o conceito constitucional ampliado de patrimnio cultural, que concebido como meio ambiental. Se tomamos o conceito de patrimniocultural que existe no Decreto-Lei no 25/37 para tombamento, ele maisrestrito do que o artigo 216 da Constituio. H uma deciso do SupremoTribunal Federal que diz: no, o conceito do patrimnio cultural amplo,mas quando se tratar de tombamento voc tem que usar o conceito restritodo patrimnio cultural que tem no Decreto-Lei no 25/37, porque seno agente estaria usando critrios diferentes e impondo nus fora da legislao.

    Assim, quando se trata de legislao concorrente e competncia comum,esses so os principais desafios. Acredito que hoje existam meios paraimplementar essa atuao conjunta muito melhor do que est sendo feito,mas como sou muito otimista, creio que, apesar das nossas dificuldades, huma disposio das instituies de fazer, sejam instituies como oMinistrio Pblico, como o Iphan, como os rgos de cultura, como aacademia... Hoje, parece-me, existe uma preocupao com a defesa dopatrimnio cultural, e essa preocupao est em tornar a defesa dopatrimnio maximamente efetiva. por isso que tendemos sempre ainterpretar a lei de uma maneira que venha contemplar melhor apreservao e nunca restringir o seu potencial de eficcia.

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    SISTEMA NACIONAL DEPATRIMNIO CULTURAL (SNPC)

    REGULAO E MARCOS LEGAISCoordenador: Antnio Fernando A. L. Neri (procurador-chefe/Iphan)

    Relatora: Patrcia Reis da Silva (Unesco)

    COMUNICAESPlanejamento territorial e o patrimnio cultural, Kazuo Nakano(Instituto Plis)

    Os instrumentos urbansticos para a preservao do patrimnio, VanessaBello Figueiredo (USP, ex-subprefeita de Paranapiacaba)

    A experincia de Ouro Preto, Gabriel Simes Gobbi (SecretariaMunicipal de Patrimnio e Desenvolvimento Urbano de Ouro Preto)

    O papel constitucional do municpio na proteo do patrimnio cultural,Joo Henrique Caf de Souza Novais (OAB/MG)

    Atuao do Ministrio Pblico em defesa do patrimnio cultural, MarcosPaulo de Souza Miranda (Promotoria de Defesa do PatrimnioCultural, Histrico e Turstico de Minas Gerais)

    Desafios da regulao do patrimnio cultural, Ana Cristina Bandeira Lins(Ministrio Pblico Federal/SP)

    Necessidades de marcos legais para a tutela de bens culturais,Carlos Magnode Souza Paiva (Ncleo de Pesquisa em Direito do PatrimnioCultural/Universidade Federal de Ouro Preto/MG)

    O exerccio da competncia constitucional comum e concorrente napreservao do patrimnio cultural, Fabiana Santos Dantas(Procuradoria Federal/Iphan)

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    RELATO

    1. DESAFIOS PARA A FORMULAO DA POLTICA NACIONAL

    Instituir a Poltica Nacional de Patrimnio de forma sistmica etransversal;

    Implementar, com base na Constituio Federal, sistema depreservao que congregue entes autnomos, com legislaodiferenciada e atribuies administrativas comuns;

    Reforar o papel da Unio para formular normas gerais, sem invadira esfera de competncia legislativa suplementar dos estados,municpios e do Distrito Federal;

    Sistematizar, em normas gerais, os institutos utilizados napreservao (instrumentos, metodologias e procedimentos);

    Regulamentar a cooperao entre os entes federativos a fim deminimizar a superposio de comandos e recursos, conflitosinterinstitucionais e falta de responsabilizao dos entes;

    Inserir as estratgias de proteo, reabilitao e utilizao dopatrimnio cultural num processo permanente de planejamento egesto territorial voltado para o direito cidade.

    2. DESAFIOS PARA A ESTRUTURAO DO SNPC

    Articular-se com outros sistemas nacionais, a exemplo da Cultura,Meio Ambiente, de Desenvolvimento Urbano, Turismo parapromover a transversalidade no trato da questo;

    Criar instncia colegiada normativa e deliberativa para estabelecerprincpios e diretrizes gerais para a proteo do patrimnio culturalnacional, por meio do Conselho Nacional do Patrimnio Cultural,composto por rgos pblicos, membros da sociedade, MinistriosPblicos, dentre outros;

    Propiciar condies para a formao de arranjos (tcnicos eadministrativos) para a conciliao de princpios e conceitos sobre obem protegido e diretrizes de gesto;

    Articular, permanentemente, e em diferentes escalas, fontes derecursos perenes, instrumentos de planejamento e canais departicipao social efetivos;

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    Contemplar a dinmica da cidade, fomentar o desenvolvimento econtribuir para a inverso dos padres da urbanizao brasileira.

    3. POTENCIALIDADES PARA A FORMULAO DAPOLTICA NACIONAL

    Instituir o Fundo Nacional do Patrimnio Cultural;

    Incentivar o uso de distintos instrumentos, considerando que todoe qualquer instrumento que tenha potencialidade para protegerencontra sustentao na Constituio Federal (usar com criatividadeinstrumentos urbansticos, da rea ambiental e cultural);

    Refletir sobre como reverter a lgica do mercado imobilirio a favorda proteo do patrimnio cultural.

    4. POTENCIALIDADES PARA A ESTRUTURAO DOSISTEMA NACIONAL

    Incentivar o fomento, a estruturao e acompanhamento deconselhos estaduais e municipais;

    Oferecer, permanentemente, sistematizao de instrumentospotenciais de proteo do patrimnio;

    Estabelecer a responsabilidade objetiva como mecanismo deproteo ao patrimnio cultural.

    5. PARCERIAS ESTRATGICAS PARA A FORMULAO DAPOLTICA NACIONAL

    rgos pblicos federais, estaduais, municipais e distrital, sociedadecivil, Ministrio Pblico Federal, Estadual, Advocacia Pblica.

    6. PARCERIAS ESTRATGICAS PARA A ESTRUTURAO DO SNPC

    rgos pblicos federais, estaduais, municipais e distrital, sociedadecivil, Ministrio Pblico Federal, Estadual, Advocacia Pblica.

    7. AES ESTRATGICAS QUE DEVEM SER IMPLEMENTADAS NOSPRXIMOS CINCOS ANOS

    Instituir o Cadastro Tcnico de Agentes do Patrimnio Culturalpara avaliar e acompanhar a qualidade da prestao de servios narea;

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    Avaliar a possibilidade de criao de receita para o Fundo Nacionaldo Patrimnio Cultural oriunda de atividades realizadas pelo Iphan,tais como: aplicao de multas, cobrana por licenciamentosrealizados, taxas, medidas compensatrias, dentre outras.

    8. OBJETIVOS PARA OS PRXIMOS DOIS ANOS (20102011)

    Refletir sobre a necessidade de criao de marco regulatrioespecfico para a implementao do Sistema Nacional de PatrimnioCultural, considerando que o Decreto-Lei no 25/37, em seus artigos23 e 25, estabelece um sistema de proteo;

    Refletir sobre o atual papel do Conselho Consultivo do PatrimnioCultural no sentido de avaliar e ampliar suas atribuies paradisciplinar diretrizes e princpios gerais sobre a proteo dopatrimnio nacional (ex.: norma geral de trfego de veculos pesadospara os Centros Histricos);

    Instituir multa em razo de dano ao patrimnio cultural comparmetros previamente definidos, a qual poder ser agravada adepender da extenso do dano.

    9. AES ESTRATGICAS QUE DEVEM SER IMPLEMENTADAS EM 2010

    Regulamentar o poder de polcia e normatizar as sanes (embargoe suspenso de obras e atividades; apreenso de bens e produtos;multas);

    Tendo em vista que a tutela do patrimnio cultural se insere nodireito do meio ambiente, faz-se necessrio refletir sobre apossibilidade de o Iphan participar do Conselho Nacional de MeioAmbiente (Conama), como um subsistema, antes de criar um sistemaprprio.

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  • * Assessor daPresidnciado Iphan

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    SISTEMA NACIONAL DEPATRIMNIO CULTURAL SNPC

    ESTRUTURA E FORMAS DE FUNCIONAMENTO

    Weber Sutti*

    Quero fazer apenas uma rpida abertura para mais uma sesso dediscusses em torno do Sistema Nacional de Patrimnio Cultural.Gostaria de dizer que quando falamos em instrumentos e formas defuncionamento estamos propondo uma discusso sobre a forma com aqual devemos nos organizar, quais elementos devemos ter e de que formadevemos trabalhar os nossos recursos. E, nesse caso, estamos nos referindotanto aos recursos humanos, quanto aos recursos financeiros. Definircomo conseguiremos estruturar uma operacio-nalizao, institucionalizarespaos e mecanismos que deem conta, democrtica e permanentemente,de nossas aes.

    Acredito que o mais importante, quando pensamos em sistema, tentargarantir uma relao entre os entes federativos e a sociedade, estabelecendouma prtica democrtica, contnua, alm de ter perenidade,independentemente dos governos. O que nos leva a pensar, portanto, emuma poltica de aes que no dependa, exclusivamente, de um agentegovernamental. Uma poltica estruturada a partir da demanda de todos osagentes que consiga, dessa forma, garantir uma continuidade.

    Creio que esse o teor da discusso a que estamos nos propondo. Umdilogo capaz de elucidar essas questes e esclarecer as eventuais dvidas.

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    A EXPERINCIA DO SISTEMANICO DE SADE E OS DESAFIOSPARA O SISTEMA NACIONAL DEPATRIMNIO CULTURAL

    Adson Frana*

    RESUMOTrata-se de um relato sobre a experincia do Sistema nico de Sade

    SUS e dos desafios enfrentados para gerir a poltica de sade pblica noBrasil. O texto aborda, de forma questionadora, todos os impassesenfrentados pelo Ministrio da Sade, alm dos mecanismos de regulaoe fiscalizao para garantir o funcionamento dos programas do SUS. Revelaque o maior desafio do sistema desenvolver uma poltica de sade marcadapela universalizao, equidade e integridade num pas de dimensescontinentais. Para isso, criou o Conselho Nacional e os ConselhosMunicipais de Sade, para garantir a participao social em um Brasilformado por cerca de 5.500 municpios com at 100 mil habitantes e queficam com apenas 10% do PIB nacional, diante dos 91% destinados aos 50municpios acima de 500 mil habitantes.

    PALAVRAS-CHAVESUS, Controle social, Equidade.

    Em nome do ministro Jos Gomes Temporo, quero agradecer ao Iphane ao Ministrio da Cultura e cumpriment-los por este esforo, pelo desafiode realizar este frum, com o objetivo maior de promover reflexes econtribuir para o Sistema Nacional de Patrimnio Cultural. Gostaria dedizer ainda que vejo como uma conspirao positiva, uma conspirao douniverso e acredito que esta vinda ao Frum, tambm, est ligada a essaconspirao. O ministro Temporo tem refletido muito sobre vrios temas,juntamente com o ministro Juca Ferreira e, s vezes, nos encontramos com

    * Assessor especialdo ministro da

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    vocs, do Iphan, do Ministrio da Cultura; vamos, ento, adiante nessedesafio que tentar, de forma objetiva, fazer essa reflexo sobre a experinciado SUS e sobre os desafios para o sistema nacional.

    Nesses desafios, a gente precisa, primeiramente, relatar que experincia essa. claro que, para a sociedade como um todo, o SUS tem 250limitaes, tem problemas, filas, ainda no tem a qualificao que desejamose, talvez, tenha perdido a batalha miditica. Nesse sentido, bom ter umapessoa da comunicao, como Mara Rgia di Perna, do Sistema Brasil deComunicao, na Mesa, para defender o Sistema nico de Sade. Talvez,tenhamos perdido essa batalha, mas nunca tarde para recuperar. E isso seconfigura, a meu ver, numa grande contradio. Talvez a gente tenhaperdido a batalha de defender, na mdia, a principal poltica de inclusosocial do Brasil e, pior, de ter trabalhadores e trabalhadoras defendendo eassumindo essa bandeira. Por incrvel que parea, ns comeamos essaexperincia no Brasil, digo ns, a sociedade brasileira, a partir deexperincias ricas da Inglaterra, Canad, Frana e, tambm, de Cuba e, hoje,estamos, provavelmente, exportando experincias.

    Para vocs terem uma ideia, o ministro ingls da Sade pediu ao ministroTemporo para discutir uma srie de questes e que ele apresentasse, naInglaterra, a experincia do Centro de Informaes Estratgicas emVigilncia em Sade Cieves, o centro que cuida das emergnciasepidemiolgicas. J estamos com 52 desses centros funcionando no Brasile vamos chegar a 56, at o final da gesto do presidente Lula. Foi esse centroque cuidou do enfrentamento do vrus H1N1, tambm conhecido como agripe Influenza A. Enquanto alguns pases no conseguem nem dar os dadosreais sobre a epidemia, ns conseguimos desenvolver um sistema de controleestatstico e, por isso, somos o stimo pas em nmero de bitos.

    Vocs acreditam que possvel que, na frica, quase todos os pasestenham 20, 15, 30 bitos, apenas, provocados pelo H1N1? Vocs acreditamque possvel, que o Uruguai tenha perdido, apenas, 15 mulheres gestantes,vtimas de H1N1? Ser que possvel na Bolvia, Colmbia, Venezuela osbitos no passarem de 300? Mas o Brasil parece que tem um sistema toqualificado que acaba pagando o preo por isso. E eu digo parece por umaquesto de gentileza, uma vez que estou no Ministrio h sete anos e sei dacapacidade do sistema. Quem tem um sistema de informao qualificadoregistra tudo, e ns somos o stimo pas no nmero de bitos provocadospela Influenza A, em nvel mundial. Mas prefervel assim, tirar de baixo

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    do tapete aquilo que precisa ser publicado, simplesmente, porque ningumfaz definio e elabora estratgias sem conhecer a realidade.

    O filsofo alemo Hegel j dizia que era quase redundante conhecer arealidade concreta de forma objetiva. No, voc tem de conhecer arealidade, mesmo que os dados no sejam agradveis. Um pas srio ou pelomenos governantes srios tm que expor os dados. Uma sociedade comvocao para querer se afirmar com exerccio de cidadania tem que fazerisso. Ento, diante disso, ns temos a seguinte situao: pases como aFrana e a Inglaterra esto querendo conhecer a experincia brasileira dosCieves, muitos querem a experincia brasileira do SadeToda Hora, muitosquerem a experincia brasileira do Programa Sade da Famlia que, hoje,no mais uma coisa de estratgia, avanou para uma poltica nacional deateno primria.

    E ns, sociedade brasileira ou, pelo menos, uma boa parte dela nosabemos o que o SUS. Grande parte acha que as polticas so do prefeitoe uma boa parte diz que o SUS no vale nada, sinnimo de corrupo. Evrios polticos, parlamentares que no so srios ou so pouco informadosou, ainda, alguns, com concepo reacionria porque o reacionrio temconcepo ideolgica, com formao cultural e intelectual para isso intensificam essa imagem No toa, falo isso de forma muito humilde,sou antroplogo e no filsofo, mas o fato que muitos jogam pedra noSUS. E pergunto: ser que conhecem o Sistema?

    A organizao do servio pautada na universalizao, equidade eintegridade, controle social e responsabilidade comum nos trs nveis. Eessa experincia vocs j esto adotando, a responsabilidade comum.Estamos, enfim, na seguinte situao para destacar para vocs: o sistemademanda participao por meio do controle social. uma palavraquestionada por alguns tericos, se no deveria ser participao social, maso fato que controle social est consolidado, est na Constituio, est naLei 8.080 de 1990, do SUS.

    REGULAOComo que a gente faz a regulao e avaliao do Sistema nico de

    Sade? Temos dois mecanismos: um departamento de avaliao, regulaoe controle que da Secretaria de Ateno Sade, responsvel, hoje, pelaateno ao setor, como um todo, e detentora de 82% do oramento pblicopara a Sade; e o Departamento Nacional de Auditoria do SUS, o Denasus.

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    Essas duas instituies no tm como principal objetivo penalizar; naverdade, so estruturas criadas para evitar o problema de recursos noaplicados corretamente e evitar o problema de recursos desviados de forma,vamos dizer, proposital. Ou seja, para coibir o desvio proposital para outrasreas ou para o enriquecimento ilcito de gestores. Essas duas instncias sode grande importncia e vocs tero de pensar nisso, em um processo dereflexo sobre o Sistema Nacional de Patrimnio Cultural.

    Outra reflexo sobre o chamado controle social. Falar sobre qual foi anossa experincia, como estamos funcionando, o que deu certo o que queno deu e, para isso, farei algumas afirmaes para ajudar no debate, atporque me foi pedido que fizesse algo mais provocativo para a discusso doque uma exposio clssica. Acredito que as senhoras e os senhores tm umnvel, uma formao intelectual, de vanguardistas e que no esto a fim, eeu tambm no teria essa presuno, de apenas, ouvir palestrantes.

    O Brasil formado por 5.565 municpios e ns temos ConselhosMunicipais de Sade. Eu no sei qual o caminho que vocs vo seguir, maspercebam a importncia de levarem esse fator em conta, para refletir sobreisso. Hoje, acho que o descaso com essa caracterstica acabou humilhandoo meu pas. E isso, porque, estando h sete anos no Ministrio da Sade eviajando muito, me dei conta de que o Brasil tem 2.500 municpios commenos de 10 mil habitantes e, se voc legisla no Ministrio da Cultura semlevar em conta isso, comeou errado. Se voc prope poltica pblica semlevar em conta isso, comeou errado. O Brasil tem 2.500 municpios abaixode 10 mil habitantes; o Brasil tem mais, chegando at 3.600 municpiosabaixo de 30 mil habitantes; 216 municpios acima de 200 mil habitantese 275, acima de 100 mil habitantes. E o fato que s existe nesse continentechamado Brasil, porque isso no um pas um continente, 50 municpiosacima de 500 mil habitantes que, por sua vez, ficam com 91% do ProdutoInterno Bruto PIB.

    Ou se entende isso ou difcil fazer alguma coisa de poltica nesse pas.Sem levar em conta a heterogeneidade, a equidade, impossvel proporuma poltica pblica. E, no nosso caso, as entidades mdicas deenfermagem, no geral, no entendem isso, saem com resolues fantsticas,achando que possvel coloc-las em prtica em Chique-Chique, emChorroch, em Cod ou, ainda, em Timum, em Guanambi. Se eu tenhomenos de 2.000 mil, ou 2.500 municpios abaixo de 10 mil habitantes, eutenho de entender essa complexidade.

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    Ns temos Conselhos Estaduais de Sade, temos um Conselho Nacionale, caso vocs resolvam ir por esse caminho, vejam a composio: so 48membros, sendo seis prestadores de servios; seis gestores, que somos ns dogoverno; temos seis membros titulares; 12 trabalhadores representados noConselho, alm de instituies das mais variadas, agora, mesmo, tem aCNBB, a Pastoral da Criana, a Federao Esprita e, como o Estado laico,eu sou membro titular do Conselho. Vocs no imaginam como so difceisas reunies de dois dias nesse contexto. Tem, ainda, a Federao dosOstomizados, a Federao Nacional de Usurios de Medicamentos deHipertenso e Diabetes, a Central nica dos Trabalhadores CUT.Temos,nesse conselho, as 24 vagas de usurios, num total de 48 vagas. Umaprovocao para vocs: a presidncia deve ser exercida pelo ministro oueleita pelo plenrio? Na Esplanada dos Ministrios, 80% dos conselhos sodirigidos pelos ministros. O Conselho Nacional de Sade, no entanto, fezuma reflexo e passou a escolha para o plenrio. H controvrsias, existeuma polmica no Governo sobre isso.

    Aparentemente, para o exerccio da cidadania, foi melhor. O ConselhoNacional de Sade presidido, hoje, por Jnior Batista, um trabalhador,uma pessoa muito bem formada. Por outro lado, existe uma controvrsia noSupremo Tribunal de Justia STJ sobre o significado de um conselho, se um rgo deliberativo, ou consultivo. Para o STJ, todo conselho consultivo e, ao mesmo tempo, todo conselho delibera porque ele sai coma resoluo. Que confuso, no mesmo? Mas, no do STJ, me perdoem,porque o Supremo Tribunal Federal STF que tem outra posio. NoSTF alguns ministros pensam de uma forma, enquanto outros ministrospensam de outra forma. Quando que isso vai ser resolver, no sabemos.Ento, alguns dizem que preciso o ato composto. Trata-se do ato de oConselho ter uma posio referendada pelo ministro. Se o ministro noquiser homologar uma deciso do conselho no h o ato composto. Essa a opinio do ministro Csar Belluzzo, bem como do ministro MarcoAurlio Mello, ambos do STF.

    E, a, cria-se um problema porque o Conselho Nacional de Sade, hoje,tem algumas resolues que o ministro Jos Gomes Temporo nohomologou e o CNS j pensou, inclusive, em colocar o ministro Temporona Justia, mas recuou em considerao densidade terica e histrica doministro da Sade. Ento, h uma complexidade e no estou aquidefendendo nada, estou apenas fazendo uma reflexo sobre o fato de queexistem dvidas no Governo e a presidncia dos conselhos uma delas.

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    Hoje, assim: quem tiver a maioria leva. Nos ltimos quatro anos, o Batistafoi reeleito. o seu terceiro mandato, ento, nesse perodo, o Conselho deSade est sendo presidido por um trabalhador. Diferentemente doConselho da Educao e de outros que so presididos por ministros.

    A COMISSO INTERGESTORES TRIPARTITE E COMISSOINTERGESTORES BIPARTITEGostaria de lembrar que ns estamos na 13 Conferncia Nacional de

    Sade, um processo feito de baixo para cima, extremamente rico, sobre oqual, tambm, temos de refletir: a primeira conferncia, a segunda, a oitavaque foi a grande que chegou Constituio, ns chegamos a 48 resolues.A 13 Conferncia Nacional de Sade chegou a quase 1.600 resolues,portanto, fica com os senhores e as senhoras a necessidade de refletir sobreesse processo de construo. Vejam, uma conferncia que sai com 1.600resolues, porque todo mundo quer se pronunciar, por exemplo: eu soudiabtico e quero falar da minha resoluo; sou hipertenso, quero incluir aminha; sou ostomizado; sou trabalhador rural; mulher, e tem a questo doaborto; do negro, enfim, todos tm direito. Mas, a reflexo deve girar emtorno de que tipo de construo ser mais eficiente. Hoje, estamosquestionando um pouco: ser que 1.600 resolues, quando umaconferncia ser realizada dois anos depois, demora seis meses para serpublicada e, talvez, para ser implantada. A, o universo e Deus que vaicuidar no ? Ou os orixs, porque, dificilmente, entre uma conferncia eoutra, voc vai conseguir implantar 1.600 resolues.

    PLANO PLURIANUAL, O PPAQuanto elaborao do Plano Plurianual, o PPA, que todos vocs

    conhecem, tambm h pontos de esquizofrenia, por exemplo, ele s reflete40% do Plano Nacional de Sade, quando deveria refletir, pelo menos,90% do Plano Nacional. Ento, ns estamos buscando corrigir essadistoro. Esse dado fica como uma reflexo para vocs, como um errobsico que no devem cometer.

    RESPONSABILIDADE COMUM DOS TRS NVEIS:CONSTITUIO DE 1988 E EMENDA CONSTITUCIONALEm relao esquizofrenia, ns aprovamos, em 2000, a Emenda

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    Constitucional e, ainda, no conseguimos regulamentar, porque umaemenda, depois de aprovada, tem de ser regulamentada. Por isso, corremoso risco de sair desse governo sem regulament-la e, ao no faz-lo, ficamoscom aquela situao, aquela reflexo da Organizao Mundial de Sade OMS, de que Sade o completo bem-estar. Isso o genrico do maisgenrico e, a, ns temos os exemplos, e a Controladoria Geral da Unio jteve, o Denasus tambm, nos quais prefeitos pegaram recursos da Sade ecolocaram em restaurantes para refeies a um ou dois reais. Bem, precisoalimentar melhor o povo, sem dvida, para a melhoria da sade. Ento, emtese, caberia, mas, na prtica, no tem sentido. Prefeitos pegam recursos ecolocam em saneamento, mas ns temos recursos especficos parasaneamento, temos o Ministrio das Cidades e temos uma FundaoNacional de Sade Funasa que tem quatro bilhes de recursos destinadospara esse setor, ento, no se aplica.

    Temos, ainda, coisas piores, como prefeitos que colocaram os recursos daSade para asfaltar estradas e ruas dentro da cidade, e com que argumento? preciso evitar os acidentes de trnsito porque geram politraumatizados e,ao gerar politraumatizados, encheriam as urgncias e emergncias. A, euno vou dizer qual a palavra, mas no faria mal para um prefeito dessespassar 30 dias privado de liberdade. Ento, ns temos de resolver o que gasto em Sade porque, se for nessa linha, ns vamos jogar os recursos parao Meio Ambiente. Afinal, cada grau que se aumenta na temperatura global,significa aumento nos ndices de malria, de leishmaniose, na Amaznia...Pelo menos essas duas. Sem contar que eu aumento caldo de cultura paratodos os fungos e protozorios e, consequentemente, a dengue, e j no temmais essa histria de achar que s no clima quente no, frio e quente e,por a, vamos.

    Estamos fazendo um estudo da Amaznia, alm da fauna, flora e dosprejuzos, mas, do ponto de vista de Sade direta, eu passo a ter essascomplicaes. A dengue voltou aos Estados Unidos, depois de ter sado del h 80 anos. Ou seja, a dengue voltou ao chamado principal pas domundo.

    Temos outras limitaes que tem a ver com a macroeconomia. O fato que, na Esplanada dos Ministrios, voc tem uma turma de ministros maissensveis s questes da Sade e outros, ainda, no. O ex-ministro da Sade,Adib Jatene, costumava afirmar: Parece que a macroeconomia s vaiinvestir em Sade na hora em que os ministros da rea econmica visitarem

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    o setor de Ateno Primria, ou conhecerem a Amaznia, o Nordeste e oshospitais. Enquanto os ministros s conhecerem a avenida Paulista no temjeito. E o ministro Jatene falou isso no Palcio do Planalto e comeou achorar. Na ocasio, estavam presentes, o ministro da Fazenda, GuidoMantega, que eu respeito muito; o ministro do Planejamento, PauloBernardo Silva, que todos ns respeitamos, mas o ministro Jatene teve acoragem de dizer isso: Enquanto os senhores e as senhoras no visitaremum servio de sade, s forem avenida Paulista para fazer as articulaescom o capital financeiro, essa coisa no melhora.

    Temos, portanto, desafios; se voc trabalha com 1.500 consultores,organismos internacionais; no sei, exatamente, quantos vocs da rea dopatrimnio tm, porque existem lugares com trs, quatro, cinco ou seisconsultores para cuidar de uma srie de coisas. Ns temos 1.500, soprofessores, mestres, doutores, mas no nos alegra, com esse mecanismoprecrio de organismo, falta plano de carreira, salrio, concursos, nsprecisamos de uma carreira do SUS. Porque um juiz pode comear comR$ 12 mil e chegar a R$ 24 mil em trs anos, indo para uma cidadepequena e no se pode ter um plano de carreira como esse em outras reas? um debate.

    SERVIO CIVIL OBRIGATRIOPor que algum que faz medicina ou enfermagem e passa seis anos na

    universidade, custeado pelo dinheiro pblico, no pode ter um servio civilobrigatrio para passar dois anos, pelo menos, trabalhando de graa, paraque possamos desenvolver um trabalho em Tabatinga na Amaznia, porexemplo? Ou possamos trabalhar em Timom, ou em Cod? O dinheiro pblico e as pessoas saem e vo para onde querem, mas eu tenho que tercarreira para fixar. Isso poderia valer tambm para a rea do patrimniocultural.

    Esto a as provocaes para o final do debate: o SUS cuida de 75% dapopulao, 100% ou tem outra abordagem? Vocs respondem. A SadePblica, no Brasil, no recebe financiamento adequado, por qu? Qual omelhor caminho para o Sistema de Sade no Brasil fortalecer a SadePblica ou a Suplementar? Fortalecer a Ateno Primria ou a construode hospitais de pequeno porte, fortalecendo a viso hospitalocntrica, oubuscar implementao de redes? Quais as possveis razes para existiremfilas para cirurgias eletivas no Brasil, se no Reino Unido, no Canad, Itlia,

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    nos Estados Unidos no existem filas para essas cirurgias? Por que uma partesubstancial do movimento sindical e das centrais sindicais defende, nosmovimentos reivindicatrios ou greves, em primeiro lugar, aumento desalrio e, em segundo lugar, um plano privado de sade, se as centraissindicais esto no Conselho Nacional de Sade para defender o SUS? No contraditrio que, na hora da greve, essas entidades representantes dasclasses trabalhadoras, reivindiquem o plano da Amil, Unimed, Sul Amrica,Sade Bradesco? No podemos aprofundar, mas qual a explicao possvelpara a maior parte da sociedade; qual a razo para a sociedade noconsiderar que o combate ao H1N1 no coisa do SUS, mas do alm, deDeus ou do prefeito, porque as polticas destacadas ou programas so vistoscomo Servio de Atendimento Mvel de Urgncia Samu?

    H uma pesquisa que revela que Salvador, Recife, Rio de Janeiroatribuem os servios do Samu Prefeitura Municipal, o que umabarbaridade porque todo o Samu do Governo Federal. Mas, nesse pontoda divulgao ns falhamos e, para ilustrar, vejamos, rapidamente, onmero de pessoas beneficiadas, seja na reduo da mortalidade infantil,seja na realizao de transplantes, no atendimento a pacientes com terapiaretroviral, no fornecimento de medicamentos essenciais, enfim, pelaevoluo promovida pelo SUS.

    Foram 64 mil estabelecimentos, 2,3 bilhes de procedimentos, 11,3milhes de internaes, 254 milhes de consultas, 2.300 partos gratuitos,completamente gratuitos. O Programa Sade da Famlia teve um aumentode 73% no governo Lula, o que gerou consequente reduo de 20% damortalidade infantil nos municpios atendidos pelo programa. O Sade daFamlia o programa que teve a maior divulgao de seus resultados pelamdia, com reconhecimento pela sociedade. Graas a ele, inclusive, umrepresentativo nmero de mes passaram a fazer o pr-natal, chegando a umaumento de 10% nos exames. Foram evitadas 126 mil internaes, comimpactos, inclusive, econmicos, uma vez que melhora a situao da pessoa,a qualidade de vida. Houve um acrscimo, ainda, na oferta de medicamentospara o cncer de clon, alm da farmcia popular, atravs da qual, ummilhode pessoas retira remdios, hoje, quase que gratuitamente, no Brasil. Aqui,por exemplo, tem farmcia popular, aquela forma de comprar mais baratosmedicamentos para problemas como hipertenso, diabetes, etc.

    Quanto mortalidade infantil, os avanos na poltica de combate foramtamanhos que vamos cumprir o objetivo do milnio, previsto para

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    alcanarmos em 2015, no ano de 2012. E no se diminui mortalidadeinfantil sem escolaridade, saneamento e sade da famlia. E o mesmo valepara a desnutrio infantil. Hoje, estamos com o problema inverso, estamosenfrentando a questo da obesidade, com crianas nascendo obesas de mestambm obesas. E isso, num pas onde, no passado, as doenas eramparasitrias e ligadas pobreza.

    BRASIL SORRIDENTENs samos de um ndice de cobertura no patamar dos 35,8 para 87,7

    em milhes de habitantes e diminumos qualquer coisa em torno de quatromilhes e 300 mil extraes de dentes. O servio de especialidadeodontolgica, atravs da frente Brasil Sorridente, tem destinado uma maiorateno ao atendimento Amaznia e ao Nordeste, seguindo a linha daequidade, para fortalecer essas regies brasileiras.

    CONTROLE DE EPIDEMIASA dengue teve uma reduo de 80%, em 2008. Quanto ao controle da

    rubola, temos a expectativa de que fiquemos livres dessa doena em 2010.E a hansenase, ser que o SUS no est cuidando? Pois a reduo chegoua 23%. No que diz respeito tuberculose, infelizmente, em alguns Estadosbrasileiros, essa doena, ainda, diagnosticada dentro do hospital, quandodeveria acontecer ainda na Ateno Primria. Outra doena que sofreu umareduo no nmero de casos foi a malria, que apresentou uma quedasignificativa no nmero de internaes. Mas, um dos setores que teve umaevoluo que pode ser considerada fantstica foi no nmero de doadores damedula ssea que passou de 40 mil, em 2003, para um milho e 200, deacordo com pesquisa feita pelo Ibope. bom lembrar que nossa populaoachava que doar medula era tirar a coluna. Como que vou tirar minhacoluna e dar para algum? Vejam em que ponto estvamos ento,avanamos muito.

    DESAFIOS

    COMBATE RELAO LCOOL E DIREO

    A famlia brasileira gasta R$1.428,00 em planos de sade, enquanto, noSUS so R$665,00 per capita por ano, o que d menos de dois reais por dia. possvel manter um sistema assim?

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    PARTOS

    No SUS a gente paga R$350,00 para a equipe toda, e R$750,00 naSade Suplementar e no atendimento noturno. Vocs sabem que a cesreano Brasil s ocorre depois das 19 horas? Deve ter algum motivoepidemiolgico ou, quem sabe, alguma coisa mais espiritual, o fato que,no Brasil, a cesrea s ocorre depois das 19 horas, depois explico para vocsuma das hipteses.

    CONSULTA ESPECIALIZADA

    O gasto em Luxemburgo, Estados Unidos, Inglaterra, Canad muitopequeno, enquanto o dispndio com sade, no Brasil, de bilhes. Ento,so vocs que vo precisar resolver esse problema do financiamento, estouprovocando para o debate. Infelizmente, o financiamento para o serviopblico de 38%, enquanto a famlia coloca 100% do recurso da famlia.

    Existem, portanto, inmeros desafios que o Sistema nico de Sadetem a enfrentar, tais como a mudana do perfil epidemiolgico, ampliaoda rede, melhora na qualidade do atendimento de urgncia, reduzir a espera,reduzir a iniquidade e buscar solues para deficincia de gesto. Ento,esta a realidade do Sistema nico de Sade, que eu trago como parte dareflexo para o debate.

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    MOBILIZAO SOCIAL PARA OSISTEMA NACIONAL DEPATRIMNIO CULTURAL

    Mara Rgia Di Perna*

    RESUMOTrata-se de um relato sobre a importncia do rdio para a populao

    amaznica que tem nesse veculo uma de suas principais fontes decomunicao e interao. Ilustra o poder da comunicao numa regioainda marcada pela ausncia de recursos primrios como a energia eltrica,uma conquista recente em grande parte da regio. O texto revela aimportncia da Rdio Nacional da Amaznia que no s garante acesso ainformaes, como d voz aos seringueiros e s mulheres que passaram autilizar as ondas do rdio como veculo de reivindicaes, de preservao dacultura local e para a defesa dos direitos de suas comunidades. Odepoimento um testemunho sobre a comunicao como um dos meios depromover a identificao e o registro do patrimnio imaterial que a culturado povo brasileiro.

    PALAVRAS-CHAVEComunicao, Rdio Nacional da Amaznia, Patrimnio imaterial.

    Antes de iniciar, gostaria de afirmar que, hoje, 14 de dezembro, um diahistrico, porque, s 19 horas, o presidente Lula vai abrir, oficialmente, aPrimeira Conferncia Nacional de Comunicao. Ento, acredito queprecisamos lembrar o Abelardo Barbosa: Teresinha!!!

    Hoje vamos comear a nos debruar sobre esse tema porque, enquantoa Sade est na 13 Conferncia Nacional, estamos engatinhando, chegando primeira conferncia. No sei se as 3.600 propostas apresentadas setornaro resolues. De qualquer forma, uma coisa fato e Chacrinha j

    * Representante doSistema Brasil deComunicao ecomunicadora daRdio Nacional daAmaznia

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    dizia: Quem no se comunica se trumbica, e eu no sei como que vocsesto se comunicando no Sistema de Patrimnio Cultural.

    Eu queria muito... j que o meu tema mobilizao social, e vocs nose impressionem por eu ter colocado esse malo em cima da cadeira. No a caixa de Pandora, mas trouxe alguns mimos para vocs. Acima de tudoeu tenho o meu instrumento de comunicao que tambm trouxe para lhesapresentar. Trata-se do projeto de um cientista ingls que fez este rdio paraas tribos africanas. Ele tem uma placa solar, sendo, por isso, um rdioecolgico que, com 30 maniveladas, conseguimos fazer funcionar. Isso, paraseringueiro, a melhor coisa do mundo porque o terceiro item daeconomia dos povos da floresta. Deixa ver se funciona, quantas emissorasde rdio tem aqui na cidade, no sei se FM, se AM, eu no cheguei atestar, mas aqui tem uma estao que est pegando. Bem, na floresta elepega muito bem, eu garanto para vocs, aqui eu no sei como que est asintonia das emissoras, mas eu queria, realmente, que funcionasse, a pobreda antena, at entortou. Deixa-me coloc-lo ali, pois ele est estranhandoo ambiente, esse rdio est acostumado com floresta.

    Estou trazendo, justamente, o rdio porque eu navego nessas ondash 30 anos; comecei pelos microfones da Rdio Nacional da Amaznia, emuma poca em que era preciso integrar o Brasil e havia, por parte dosmilitares, um pavor de que a populao amaznica, ou seja, os povos dafloresta estivessem merc das comunicaes das rdios cubanas. E, nessecontexto, nasce a Rdio Nacional da Amaznia para tentar falar com aquelaspopulaes. Eu estava finalizando meu curso na universidade e comecei anavegar nessas ondas, uma histria bastante acidentada. Ao longo dessesanos, ns fizemos, concretamente, do rdio, em muitos momentos, uminstrumento de mobilizao. Houve um perodo em que sa das ondastropicais, das ondas curtas da Rdio Nacional da Amaznia, para fazer umaRdio Mulher, em Braslia. O rdio no s o principal meio decomunicao comunitrio, mas continua sendo uma das maiores e nicasfontes de informao para a maioria dos brasileiros.

    Eu participei, recentemente, de um encontro e fiquei impressionada comalguns dados que foram alvos de uma reflexo no painel da cultura. Apenas13% dos brasileiros vo ao cinema; 92% dos brasileiros nunca foram amuseus; 93,4% dos brasileiros jamais estiveram em uma exposio de arte;78% dos brasileiros nunca assistiram a um espetculo de dana e mais de90% dos municpios brasileiros no tm sala de cinema, teatro, museu e

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    outros espaos culturais. Ento, a mdia brasileira de despesa mensal comcultura, por famlia, de 4,4%. Fiquei abismada com esses dados e, nocontraponto com essa relao de comunicao, vemos que o rdio,realmente, universaliza. Da mesma forma que, antigamente, faziamprogramas de rdios especiais, inclusive, fazendo o personagem doPapanicolaou, o amigo nmero um das mulheres, que era distribudo emfita k7, para universalizar.

    Ento, s vezes, a gente pensa em comunicao com as novas tecnologiase todo o sistema digital. Para vocs terem uma ideia, no que pese a Inglaterraque tem at 2012 para acabar com o sistema analgico, at agora, apenasum por cento da populao amaznica comprou o rdio digital. O fato devoc apostar uma grana violenta para comprar um aparelho que s vai terum letreiro, com uma comunicao a mais sobre o que voc est ouvindo,no chega a ser um apelo significativo. Eu tenho minhas dvidas quanto aosistema digital, inclusive, no Brasil, at porque, para a gente que navegapelos rios da Amaznia nas ondas do rdio, o problema ainda a luz.

    Eu tenho, aqui, usando o que estou aprendendo nessa conferncia devocs, um tesouro imaterial que so as cartas de pessoas que me escrevemperiodicamente. Esta carta, eu recebi esta semana e cada carta dessas vem,por exemplo, de municpios que esto l em Riozinho do Anfrsio, que ficana terra do meio, onde, desde o boom da borracha, no existe uma escolasequer. Toda a populao se diz cega porque ningum sabe ler, e se a gentechega l de culos as pessoas acham que chegou a professora. Existe umacarncia enorme de assistncia, principalmente, nessa poca do ano em queas cachoeiras esto muito volumosas, nem a Funasa chega l. E eu j recebimuitas denncias de pessoas que no conseguiram vacinar os filhos. Agora,com esse programa Luz para Todos, recebo, tambm, o relato de populaescom problemas at com os bichos, porque antes, a populao estava namaior escurido e, de repente, abre uma clareira, surge luz na floresta e osbichos vo chegando. O resultado que as pessoas no esto conseguindodesligar a luz nem durante o dia porque muito mosquito, se desligar elepica a famlia. Ento, ns temos outro problema para resolver, alm da luz.

    Mas vamos seguindo com a apresentao, s como uma reflexo de atonde a gente vai com esse rdio. Como ele trabalha o sentido mais profundoque o ouvido, porque o olho terrvel, o olho julga, preconceituoso,avalia se feio, bonito, gordo, magro... Eu, ento, sempre causo a maiordecepo quando chego s comunidades, l na floresta. Geralmente, o

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    pessoal diz: Ah! Mara Rgia, voc no loura, que decepo! Ento, achoque eles ainda pensam, Mas tu baixinha e gorducha...

    E, realmente, se para a gente imaginar, eu acho que essa a maravilhamesma do rdio. Ele trabalha esse sentido do corao porque dirigido aoouvido somente, como aquela msica que faz parte da sua vida, comoo nome daquela pessoa que voc ama; que aquilo mel para voc, porquevai direto ao seu corao, no tem olho, que bom! Sou somente eu comigomesma, criando. Quantas vezes a gente j viu uma adaptao de filme eficou decepcionado porque comparado ao livro que voc ajudou a escrever,no nada, zero.

    Nesses 30 anos de trabalho desenvolvi uma metodologia e fao oficinascommulheres, homens e com os extrativistas que ficammuito l no seringalCachoeira, no Acre. Dos Estados da Amaznia, o Acre o que mais amo,talvez, pela fora da histria de Chico Mendes e pelas experinciasapaixonantes. H um encantamento, principalmente nas mulheres. L eutenho uma rede de reprteres maritacas, que so mulheres muito falantes.Na verdade, tenho uma rede de mulheres-tronco, pois tm muita fora.Depois que comearam a dominar o microfone, essas elas esto fazendo eacontecendo porque comunicao poder. No toa que, hoje, a gentetem a I Conferncia de Comunicao, em Braslia.

    As pessoas tm paixo pelo rdio; com ele os ouvintes interagem, ligam,escrevem, falam. Ontem mesmo ouvimos o Ulpiano Bezerra de Menesesfalar sobre a interatividade, sobre a questo da construo coletiva e vejo queessa interao, essa dinmica, o rdio possibilita como nenhum outro canal.Eu j tive a oportunidade de estar no ar com um programa e, de repente,receber uma mulher da zona rural que estava h trs dias na cidade deBraslia tentando enterrar sua filha, de trs meses, vtima de desidratao.Ela no conseguia a liberao do hospital porque a criana no tinha acertido de nascimento. Ento, na frieza da lei se voc no nasceu no podemorrer. H trs dias aquela me tentava enterrar a criana, sem queningum resolvesse seu problema. No momento em que voc divulga o fatono ar impressionante como as pessoas todas se mobilizam. Houve at umdeputado que estava ouvindo, fez um pronunciamento e ns conseguimosfalar com o diretor do hospital. No dia seguinte, estvamos cobrindo,jornalisticamente, o enterro daquela criana.

    Existem coisas que o rdio consegue fazer de uma forma imediata; possoligar o rdio agora e falar diretamente para toda Amaznia. Direto de Ouro

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    Preto, instantaneamente, no precisa cmara, no precisa do aparato que aTV, que tambm prope essa interatividade, exige. Eu j consegui falar comeste rdio, a manivela, para as crianas todas l na ilha de So Miguel, que a mais linda do nosso Par. Fica na Amaznia que minha vida e o lugarmais lindo que Deus criou. assim que elas cantam, l no Par, vestidas depirarucu. Botam aquelas escamas do peixe, fazem roupas no tom dopirarucu e danam. E, como falei, estou nesse projeto, com essas mulheres,falando ao vivo, porque havia uma antena de celular que estava sendoinstalada. Subi numa rvore e consegui pegar o sinal, falando longe dasterras civilizadas. Isso uma maravilha! Por isso, o rdio tem protagonizadoos grandes momentos da comunicao no Brasil.

    Tive o privilgio de morar na Inglaterra e de participar das primeirasmanifestaes das mulheres que lutavam contra a alterao da lei do abortono Parlamento. Eu trabalhava na biblioteca da Embaixada do Brasil, emLondres, num dos perodos em que tinha de ceder um espao para GilbertoFreire, que vivia l tentando conseguir recursos para a Fundao JoaquimNabuco. E eu fazia militncia no terreno do feminismo. Quando voltei, nadcada de 1970, criei a Rdio Mulher e o programa Viva Maria, queatravessou os anos definitivos para a cidadania brasileira porque, no fossea mobilizao das mulheres, nem mesmo os homens teriam o direito licena paternidade de cinco dias. Naquela poca, ramos tachadas deloucas, alucinadas, diziam: Que isso, licena para homem tomarcachaa? Ns queramos, por meio da licena paternidade, mostrar quefilho no s da me.

    Enfim, tive o privilgio de passar os anos de ouro da cidadania brasileirapilotando os microfones, chamando as mulheres do Distrito Federal, nosmomentos decisivos do lobby, para dar o nosso recado. Gostaria de contarum fato engraado vivido por mim. Na poca em que ainda se podia fumarem empresas pblicas, havia na Rdio um operador fumante inveterado.Ele fazia o seguinte: tinha um listo de msica e, nos intervalos, ele corriapara dar uma fumadinha e numa daquelas corridas estava tocando umamsica da Sandra de S. Ele parou a msica para entrar um flash em queeu estava conversando com uma reprter e ela diz: Nesse momentoJaqueline Pitangui entrega a carta das mulheres aos constituintes. Emseguida, entra o dr. Ulisses Guimares dizendo: Eu prometo fazer eacontecer... o operador retorna no instante em que eu afirmava: Esperoque as mulheres do Brasil tenham o destino proposto por esta carta entregueaos constituintes. Dei o sinal para o operador colocar uma msica; imaginei

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    algo como Maria Maria que era o tema do programa, como at hoje.Sabem o que msica ele colocou no ar? Vou jogar fora no lixo. Foi umhorror! Enfim, desse trabalho com as mulheres nasceu um livro intituladoComo trabalhar com mulheres.

    E foi assim que fui trabalhar no Rdio da Floresta. Trago comigo umCD de Sebastio Tapajs que uma preciosidade, com os cantos e lendasda Amaznia. Tem a histria de Iara: Iara eu vim para te ouvir cantar Iara,e Erivone Laranjeira, outra artista l da Foz do Tapajs que diz: Eu sou agrande floresta, eu vim me apresentar, s vezes fico to triste com adevastao do lugar... Ento, s com esse programa Natureza Viva daRdio da Floresta, eu venho falando h 17 anos com essas populaesribeirinhas, com essas populaes extrativistas. Falo de Braslia nesse alcancede raio que vocs esto vendo, simultaneamente, para os nove Estados daAmaznia Legal.

    O programa uma revista radiofnica; nele eu vou para as comunidadesouvir a voz das mulheres e seu protagonismo. Por causa desse trabalhodesenvolvi um projeto com o apoio da Fundao MacArthur, chamadoMulher nas Ondas do Rdio, Corpo e Alma Rompem o Silncio. Asmulheres escreviam cartas, falando de direitos reprodutivos e de sade, massempre com pseudnimo. Ento, a proposta do projeto para a fundao foitransformar essas cartas em um caminho para se buscar a interlocuo comessas mulheres da floresta que queriam falar desse universo. Criamos umarede de reprteres maritacas formada por criaturas lindas treinadas parausar os meios de comunicao e dar o seu recado. Uma delas mandou umacarta dizendo: Mara Rgia, depois que minha voz comeou a correr mundopor essa Amaznia elas falam comigo do orelho eu estou toimportante aqui na comunidade que at meu marido est falando maisbaixo. Isso uma maravilha no ? Esse projeto foi muito interessante.

    Venho, portanto, desde esse perodo, capacitando mulheres, j fiz maisde 300 oficinas e tem muita carta de ouvinte que eu selecionei, depois sevocs tiverem interesse, inclusive, um poema de uma trabalhadora rural queconseguimos que ilustrasse o calendrio da Embrapa. Ele diz: Eu sou umaMaria quarqu... Uma dessas mulheres que vai a p, que vive de carroa...Enfim, incrvel, outras cantam, essas mulheres tm um vigor...

    Estamos s vsperas do dia de nascimento de Chico Mendes, o ms dedezembro o ms de seu nascimento e da sua morte e impossvel a gente

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    deixar de lembrar a presena, a fora do nosso heri e contar para vocs umcaso que eu ouvi l na Cachoeira, que o seringal. O Sebastio que sobrinho do Chico Mendes estava l, fazendo um talho na seringueira efalei: como quando os gringos vm aqui agora tem uma pousada emCachoeira, dentro do seringal , eles ficam encantados? Ele me respondeu:Mara Rgia, eles acham que a borracha tem que ficar branca para sempre,no entendem porque as rvores escurecem. Agora o pior no isso, elesvm aqui querendo achar a cachoeira e, quando ns contamos que aquino tem cachoeira nenhuma, ns s butemo esse nome porque ns gosta,ns acha bonito esse nome de Cachoeira. Ento, imaginem a decepo dosfranceses, ingleses que vo para ver uma cachoeira no seringal e noencontram cachoeira nenhuma.

    Outro trabalho que estou desenvolvendo uma radionovela feita combase nas cartas que as mulheres escrevem. Por exemplo, tinha uma CPI damortalidade materna cujo roteiro foi encaminhado para os canaisresponsveis. Das oficinas, fazemos os livros, a partir dos relatos dasmulheres, e so coisas muito lindas. Tambm traduzo publicaes comoessas, sobre as quais, ao longo de dez anos, os pesquisadores do CentroInternacional de Pesquisa Florestal Cifor e da Embrapa se debruaram. Apopulao narra histrias em torno de cips, palmeiras e tudo o mais, s quea populao, no tem acesso porque um livro caro e raro. Alm do mais,houve apenas uma tiragem. Eles adoram quando falam de plantas e ervas-medicinais da Amaznia.

    A abertura deste CD que trago comigo feito na voz do seu Brs quesoube guardar o Piqui na mata, como herana para os seus filhos e netos.No momento em que eu estava entrevistando o seu Brs, ele,simplesmente, comeou a cantar aqueles pontos do caboclo, do indgena emeu pai era ndio, meu av era ndio, indgena do p duro. E no brincadeira no, ele foi, apagou os olhinhos, assim, e caiu do lado e eu falei:seu Brs, seu Brs, ele morreu durante a entrevista. Ento, este CD umahomenagem a ele e espero que vocs honrem essa brava gente brasileira,gente que genuna, matria-prima mesmo. Pessoas que no foramcontaminadas por uma mdia perversa, gente que tem contato com essamaravilha. Ento, acho que essa regio do Brasil tem a riqueza que nos falta,no no bolso, mas na alma, no entendimento do que a nossa brasilidade,que nosso patrimnio imaterial.

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    DESAFIOS PARA O SISTEMANACIONAL DE CULTURA

    Frederico Barbosa*

    RESUMOO texto busca traar as perspectivas para o setor cultural, a partir dos

    cenrios nos quais a poltica de cultura se insere, hoje. A perspectiva queo Sistema Nacional de Cultura seja consolidado, com capacidade paraarticular atores pblicos e privados. Para que isso acontea, no entanto, sernecessrio criar mecanismos de coordenao, de planos, sejam eles geraisou localizados, alm de ter a capacidade de articulao de um arco de atoresem instituies participativas estveis e promover a discusso participativadesses elementos todos. Alm desses pontos, o trabalho aponta ainda aimportncia de estabelecer com um S s, mecanismos estveis depactuao entre os gestores pblicos, nos trs nveis de governo. Esses soalguns dos principais pilares para que o Sistema Nacional de Cultura seconsolide.

    PALAVRAS-CHAVESistema Nacional de Cultura, Recursos financeiros, Articulao.

    INTRODUOEste trabalho apresenta uma reflexo sobre as perspectivas para a rea

    cultural at o ano de 2022. A estratgia analtica central a elaborao decenrios que permitam explorar possibilidades para o futuro e ao mesmotempo organizar a reflexo a respeito de desafios do presente. Em geral, atcnica de elaborao de cenrios deve lidar com simplificaes, em contextosde incerteza e complexidade. Em muitos casos, o processo de reflexo eorganizao de hipteses mais importante do que os cenrios gerados.

    Nesse esprito, foram elaborados quatro cenrios possveis para a reacultural em 2022, tendo como varivel central comum os recursosfinanceiros, ou mais precisamente, o sistema de financiamento subjacente.Os cenrios tm significados em termos de prospeco do futuro, mas

    * Pesquisador doInstituto de PesquisaEconmica Aplicada

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    tambm permitem problematizar as linhas de fora da organizao e dasestratgias de construo do Sistema Nacional de Cultura (SNC).1 Ento,foi possvel usar os cenrios para uma reflexo sobre necessidade polticas demais curto prazo, que permitiriam ordenar, hierarquizar e priorizar aes.

    Como se disse, a questo do financiamento ser aqui tratada com certamincia, pois central no Cenrio Normativo (CN),2 expresso do cenriodesejado. Existe uma proposta de Emenda Constitucional voltada para esseassunto, a PEC 150/2003, que atribuiria ao setor cultural, caso aprovada,um sistema de financiamento com base fiscal-oramentria de carternacional e pblico. O problema do financiamento, na verdade, o pontoforte e ao mesmo tempo o problema nuclear nas estratgias de consolidaodo Sistema Nacional de Cultura (SNC). Ento, deve ser consideradoquando da reforma e da construo das instncias organizativas, nasestratgias de ampliao da infraestrutura e no desenvolvimento daproduo cultural.

    A reflexo sobre os quatro cenrios vai procurar responder pelascondies de consolidao de um SNC. Parte das premissas de que aConstituio Federal de 1988 estabeleceu a ideia de um federalismo culturalcooperativo, que o Estado e a sociedade brasileira no garantiram efetiva esubstancialmente sua realizao e que a PEC 150 oferece os recursos para arealizao do programa constitucional. Assume-se que, como os diretosculturais so direitos de cidados, as instituies bsicas que os realizamdevem ser universais e os recursos devem atender a todos segundo princpiosde igualdade e equidade.

    Em primeiro lugar, o texto estabelece que o problema central da reacultural a sua dificuldade de estabelecer uma poltica nacional abrangente.Mostra a fragmentao e a desarticulao das instituies da rea aoapresentar o padro de distribuio e as carncias dos municpios brasileirosem termos de instituies culturais. Depois apresenta os pressupostosconceituais para delimitar uma das estratgias que viria responder aoproblema selecionado. O SNC organizaria e criaria capacidades estatais paraenfrentar a fragmentao e a escassez de recursos na rea, otimizando-os eracionalizando os usos dos recursos disponveis. Ento, nessa parte a anlisetenta responder provisoriamente a algumas questes. O que o SNC?Como pode ser interpretado luz do arcabouo jurdico-constitucional nosentido de consolidar o federalismo cooperativo? Qual o papel dofinanciamento, quais os desafios da PEC 150 e como se integram aos

    1. A definio doSNC encontra-se emvrios documentosda SAI/MinC,dentre eles oCultura, cidade edesenvolvimentolocal, que odescreve como umprocesso dearticulao, gesto epromoo conjuntae coordenada deiniciativas, na reacultural, entregovernos federal,estaduais emunicipais e destescom a sociedadecivil, com o objetivode implementar umapoltica pblica decultura democrticae permanente,visando aodesenvolvimento dosetor, com plenoexerccio dos direitose acesso s fontes dacultura nacional.Esse documentotambm aponta osacordos decooperaofederativa como umdos instrumentosbsicos para aimplantao doSNC.

    2. Os conceitos aquiutilizados foram emgrande parteaproveitados deBuarque, S. C.Metodologia etcnicas deconstruo decenrios globais eregionais. TD n939. Braslia,fevereiro de 2003.

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    princpios do federalismo cooperativo? No mesmo movimento, j se comeaa delimitar o Cenrio Normativo ou desejado.

    Esse quadro permite delimitar os potenciais de um SNC e seus desafios,que convergem em torno da necessidade de encontrar frmulas para agarantia de equipamentos urbanos culturais em quantidade suficiente emespecial para aqueles municpios com maiores dificuldades fiscais eeconmicas. Embora seja possvel estabelecer estratgias diferenciais para aadeso dos municpios aos mecanismos de um SNC, no razovel e nem compatvel com as premissas constitucionais exclu-los do sistema, sequerprovisoriamente, com o argumento da estratgia poltica ou de processogradualista.

    Alm disso, ao refletirmos sobre perspectivas futuras, lanaremostambm um breve olhar sobre o passado e sobre o padro dedesenvolvimento da infraestrutura cultural dos municpios. O olhar para opassado tem uma funo analtica e metodolgica especfica, a de permitirque se levante a hiptese de que essa infraestrutura deve ser objeto dereflexo especfica e deve ser pensada politicamente como parte do pactofederativo. Tambm nos permite assentar outra premissa, qual seja anecessidade de fortalecimento dessa mesma infraestrutura.

    Por exemplo, sabe-se que os usos e a frequncia aos equipamentosculturais dependem de variantes socioculturais locais especficas e que no razovel esperar que cada municpio brasileiro tenha o mesmo rol deequipamentos com as mesmas funes. O desafio aqui repensar o papel efunes dos equipamentos e da infraestrutura cultural, dadas aspeculiaridades de cada localidade, mas, sobretudo, o desafio pensar empolticas que permitam potencializar e de fato articular essas instituiesem quadro global de aes.

    Para construir os cenrios, partimos da ideia de um SNC descentralizadoe participativo, portanto a partir da ideia de espaos pblicos institucionaisarticulados em nvel nacional. Numa hiptese inicial, esse Sistema pode serestruturado com significativo aporte de recursos fiscais das trs instncias degoverno ou no. Outra hiptese ergue-se sobre a existncia de um eficazarranjo de interlocuo entre atores. Como terceira hiptese, considera-sea possibilidade da criao de fortes incentivos para o fortalecimento dainfraestrutura institucional dos municpios. Nesse caso, tanto o espao deatuao pode ser o prprio municpio quanto pode vir a ser agrupamentosdeles, ou territrios mais ou menos abrangentes.

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    O uso de recursos analticos variados para o estabelecimento dashipteses de base no deve confundir o leitor. Ao se pensarem os desafiosda consolidao de um sistema de financiamento a partir da anlise deprobabilidades feitas segundo premissas polticas no realizadas como aaprovao de vinculao de recursos proposta na emenda constitucional(PEC 150/2003) , o que se faz estabelecer como premissa que os recursosfinanceiros tm centralidade na discusso de federalismo cultural, sejameles os previstos na PEC ou em outro arranjo de financiamento,simplificando em grande parte a discusso a respeito de capacidades estatais.

    Por fim, o estabelecimento de cenrio permite que se organizemdiscusses mais substantivas a respeito do federalismo cooperativo,especificamente no que diz respeito ao desenho das atribuies, ou seja,quais so ou devem ser as responsabilidades e as competncias de cadaesfera de governo no processo de garantia dos direitos culturais.

    PROBLEMA: A FRAGMENTAO E DESARTICULAO DASINSTITUIES CULTURAIS

    Os municpios brasileiros em geral tm grandes carncias no que se referes instituies que garantem os direitos culturais. As redes de orquestras,museus, bibliotecas, livrarias, as emissoras de rdio e televiso, arquivos,equipamentos culturais de Estados e municpios integram o SNC. Por isso,a reflexo sobre as condies de existncia da cultura como objeto dapoltica de Estado (o Estado supe o territrio nacional) no prescinde dodimensionamento constante da presena e importncia da ofertaterritorializada de equipamentos culturais, por mais controvertidos quesejam os seus papis nas polticas culturais.

    Dos 5.556 municpios brasileiros, 152 no tm nenhum equipamentocultural e apenas 53 possuem todos eles. Para efetuar a anlise da densidadeda oferta de equipamentos nos municpios criaram-se alguns agrupamentos,a partir de 15 tipos de equipamentos culturais.

    Foram considerados de alta densidade de oferta os municpios onde seencontram pelo menos 12 equipamentos (80%); mdia densidade de oferta pelo menos 6 (40%) dos equipamentos; baixa menos de 6equipamentos com presena superior a 50%.

    De acordo com essa categorizao, 82% dos municpios apresentambaixa densidade de oferta de equipamentos culturais, sendo que a regio

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    Norte apresenta 85% de municpios nessa categoria, dos quais 16,6% sesituam como municpios com mdia densidade de oferta de equipamentos.Com alta densidade apenas 1% das municipalidades brasileiras.

    Alguns Estados esto um pouco melhor relativamente mdia: Rio deJaneiro, So Paulo, Esprito Santo, no Sudeste; Santa Catarina, Rio Grandedo Sul e Paran, na regio Sul; os Estados do Centro-Oeste, Cear na regioNordeste, e Acre, Amazonas, Amap e Rondnia na regio Norte tmpercentual de municpios com equipamentos acima do percentual nacional.

    importante destacar que cada grupo de municpios por densidade deoferta de equipamentos apresenta heterogeneidades, mas pode-secaracteriz-los como conjuntos relativa e comparativamente homogneos.Os municpios de alta densidade de oferta detm 38% do Produto InternoBruto (PIB) e 26% da populao. Seu PIB per capita 43% superior ao doBrasil. O PIB mdio dos 53 municpios da categoria alta densidade muitosuperior ao do Brasil. Aqui est 1% dos municpios brasileiros, ou seja,apenas 53 municpios tm alta densidade de oferta de equipamentos.

    Os municpios de mdia densidade de oferta representam 42% do PIBe 41% da populao. Seu PIB per capita pouco superior ao nacional (3%).A mesma distribuio do PIB pela categoria indicaria que os municpiosde mdia densidade tm um PIB mdio quase 260 vezes o do Brasil. Nestacategoria esto 83% dos municpios brasileiros.

    Os municpios de baixa densidade de equipamentos detm 20% do PIBe 30% da populao. Seu PIB per capita 61% do Brasil. O PIB mdio dosmunicpios de baixa densidade de oferta apenas 24% do nacional. Estacategoria tem 83% dos municpios brasileiros.

    Essas breves consideraes apresentam tentativas que, embora parciais,j permitem pr ordem s informaes sobre os municpios e seusequipamentos culturais. Esse quadro convoca a enunciao de duasquestes. A primeira a necessidade de estabelecer polticas territoriaisdiferenciais, pois os municpios, muitos diminutos e sem recursos, devemser objeto e sujeito de polticas especficas e prprias para cada tipo denecessidade local. A segunda que, sozinhos, os municpios dificilmenteconseguiro articular capacidades para implementao de polticas culturaisabrangentes. Dessa maneira, necessrio se pensar em articulaes entremunicpios a partir de uma agenda de problemas construda entre eles.

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    A oferta de equipamentos culturais obedece s motivaes locais, semesforos significativos dos governos federal, estaduais e municipais, noestabelecimento de polticas para a criao e aproveitamento racional deequipamentos culturais. Estes foram distribudos de forma aleatria (semcoordenao ou planejamento mnimo) seguindo razes locais e nopolticas nacionais, estaduais ou municipais.

    De modo geral, a densidade da oferta de equipamentos culturais nosmunicpios brasileiros baixa. Esse constitui um dos problemas do SNC:a insuficincia da oferta institucional de espaos de produo, fruio eacesso a bens culturais e, por decorrncia, da democratizao da cultura.

    Diante dessa situao, algumas indagaes precisam ser feitas. Nasconcepes de cultura vigentes, estritamente necessria e desejvel apresena de todos os tipos de equipamentos culturais no espao local? Napresena de equipamentos, quais as funes que cada um deles podeadquirir? Como conect-los entre si e qual o melhor caminho para isso?Qual o custo financeiro das opes? A mesma questo aparece no que serefere interconexo entre instituies culturais.

    Portanto, estamos diante de questes relativas s concepes e ao lugarque deve ser assumido pelos equipamentos culturais e, por outro lado, questo das prioridades alocativas, tanto referente ao objeto (tipo deequipamento ou ao), ao lugar de investimento (regies de excluso outerritrios culturais diferenciados) e ainda das competncias relativas aosentes federados.

    Em resumo, a iniciativa de criar o SNC j avana em termos polticoscom uma extensa e interessante rede de interlocuo entre atores, masdever enfrentar indagaes operacionais, ou seja, que tratamento dar auma possvel rede de informaes e sua rede fsica de maneira ainterconect-los na forma sinrgica de um sistema? Como fazer para que asdecises sejam subsidiadas por informaes oportunas? Quais os critrios dealocao de recursos? Quais os mecanismos institucionais que permitamaes coordenadas e a negociao de conflitos?

    Diante do exposto, possvel afirmar que o panorama atual e seus desafiosapontam para a existncia dos seguintes problemas: a) insuficincia derecursos locais, sejam financeiros ou de gesto; b) vigncia de mecanismo definanciamento que no tem referncia com as diretrizes polticas; e c) ausnciade instituies federais, regionais e locais capazes de organizar a demanda.

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    Ensejam-se assim os delineamentos de quatro cenrios para a rea dacultura, no ano de 2022 quais sejam: Cenrio de Crise; CenrioExtrapolativo, Cenrio de Referncia ou o mais provvel; Cenrio

    Normativo ou Alternativo (o desejvel) , que sero considerados adiante.

    O FEDERALISMO COOPERATIVO E OSISTEMA NACIONAL DE CULTURA

    CENRIO DESEJADO

    A Constituio Federal de 1988 estabeleceu os direitos culturais e aparticipao como bens primrios. So direitos para os quais a prpria CF indicaresponsveis pela sua garantia. No caso da cultura, dever do Estado constituiras condies institucionais para o exerccio dos direitos pelos cidados.

    No entanto, alm do poder pblico e das suas trs instnciasorganizadoras, ou seja, Unio, Estados e DF e municpios, cabe tambm aosmercados e sociedade, ainda interpretando a CF 1988, a ao contnua naproteo, dinamizao e valorizao do patrimnio cultural, tanto material,quanto imaterial.

    A forma mais frequentemente discutida para a potencializao eracionalizao das aes do poder pblico na garantia dos direitos consisteno Plano Nacional de Cultura (PNC) e no Sistema Nacional de Cultura(SNC). O elemento mais central embora sempre acompanhado derecursos humanos, de gesto e tecnolgicos o financiamento. O Planofoi inserido na CF pela Emenda Bene, o Sistema tem a PEC 416 e ofinanciamento, a PEC 150. Com a aprovao dessas propostas, a rea teriaum conjunto de elementos jurdicos capaz de delinear o Sistema Nacionalde Cultura de forma clara e explcita.

    AConstituio de 1988 institui, em seu artigo 23, o federalismo cooperativo,elencando matrias de competncia comum entre os entes federados. Ressalvaainda que lei complementar fixe normas para essa cooperao.

    O artigo 24 define competncias concorrentes entre a Unio, Estados eDF, ressalvando aqui a limitao da unio em estabelecer normas gerais, econferindo aos Estados e municpios a prerrogativa de adapt-las s suasespecificidades, desde que no contrariem as leis federais. Os municpios noesto situados na rea de competncias concorrentes, mas tm competnciapara suplementar as legislaes federais e estaduais quando lhes couber.

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    ORGANIZAO DO FEDERALISMO COOPERATIVOCULTURAL NOS ARTIGOS DA CF/1988

    Elaborao dos autores

    Art. 22Competncia daUnio

    - Explorar, diretamente ou medianteautorizao, concesso ou permisso,os servios de radiodifuso sonora, ede sons e imagens;- Exercer a classificao, para efeitoindicativo, de diverses pblicas e deprogramas de rdio e televiso;- Legislar sobre populaes indgenas;- Legislar diretrizes e bases daeducao nacional;

    Lei complementar podeautorizar os Estados a legislarsobre questes especficas dasmatrias relacionadas nesteartigo

    Art. 23Competnciascomuns

    - Proteger os documentos, as obras eoutros bens de valor histrico, artsticoe cultural, os monumentos, aspaisagens naturais notveis e os stiosarqueolgicos;- Impedir a evaso, a destruio e adescaracterizao de obras de arte e deoutros bens de valor histrico, artsticoou cultural;- Proporcionar os meios de acesso cultura, educao e cincia;

    Leis complementares fixaronormas para a cooperaoentre a Unio e os Estados, oDistrito Federal e osmunicpios, tendo em vista oequilbrio do desenvolvimentoe do bem-estar em mbitonacional

    Art. 24Competnciasconcorrentes(Unio, Estado eDF)

    - Proteger o patrimnio histrico,cultural, artstico, turstico epaisagstico;- Legislar sobre responsabilidade pordano ao meio ambiente, aoconsumidor, a bens e direitos de valorartstico, esttico, histrico, turstico epaisagstico; educao, cultura, ensinoe desporto;

    - No mbito da legislaoconcorrente, a competncia daUnio limitar-se- aestabelecer normas gerais;- A competncia da Uniopara legislar sobre normasgerais no exclui acompetncia suplementar dosEstados;- Inexistindo lei federal sobrenormas gerais, os Estadosexercero a competncialegislativa plena, para atendera suas peculiaridades;- A supervenincia de lei federalsobre normas gerais suspende aeficcia da lei estadual, no quelhe for contrrio.

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    O desenho de federalismo cooperativo justificvel no apenas noquadro de enormes heterogeneidades dos territrios, populaes eeconomias, mas tambm pelas necessidades de tratamento adequado a cadauma das realidades locais, pelas suas diferentes capacidades institucionais efinanceiras. um instrumento de atuao pragmtica para soluo deproblemas concretos, de maneira a racionalizar a atuao dos entesfederativos e dos recursos disponveis. De certa maneira, esse formatoimplica unidade e complementaridade na atuao das esferas de governo.

    O objetivo desse tipo de federalismo exatamente a cooperao para aqual so necessrios mecanismos operacionais de coordenao das aes ena definio de objetivos. Sendo assim, os processos de deciso, em geral,so conjuntos, embora a execuo possa ser realizada de forma separada.No h modelo padro aqui.

    O que h de elemento comum a cooperao e a possibilidade doplanejamento compartilhado. Entretanto, as leis complementares quedariam vigncia a um sistema com competncias definidas para Unio,Estados, municpios e DF jamais foram discutidas.

    Dessa forma, pode-se afirmar que o que h de caracterstico aofederalismo cultural brasileiro, tanto em termos jurdico-constitucionaisquanto na atualidade poltica, a presena, por um lado, de um sentidogeral e potencial de cooperao; por outro, na realidade poltica, por umafalta de iniciativas polticas suficientes para dar-lhes um carter substantivoe operacional.

    Assim sendo, a CF/1988 trouxe, no seu desenho, a possibilidade dofederalismo cooperativo no mbito cultural. As PECs ora em trmite noCongresso Nacional apenas explicitam certo esprito de sistema, j presenteno conjunto do texto constitucional. verdade que a PEC/150 traz umanovidade, que a vinculao de recursos para a rea cultural, mas deve-sedizer que, em caso de aprovao, tal qual expressam os artigos 22, 23 e 24,a consecuo disso depender da discusso e aprovao de leiscomplementares.

    Muito provavelmente, ser no espao poltico de discusso das leiscomplementares que o SNC ganhar contornos mais concretos econsistentes. Sem descuido dos processos polticos e sociais postos emmarcha nos anos 2000 para a construo do SNC sejam eles traduzidos emseminrios, fruns, conferncias, convnios, criao de fundos, conselhos

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    estaduais e municipais, subsistemas setoriais ou movimentos sociais , pareceque a prova dos nove da institucionalizao a inscrio, na Constituio,de dispositivos que expressem definies mais substantivas e politicamentemais consistentes com o esprito j presente no constituinte de 1988.

    O SISTEMA NACIONAL DE CULTURA:QUATRO COMPONENTES

    O Sistema Nacional de Cultura, na sua engenharia e desenho, degrande complexidade. E o que significa isso? Primeiro, que esse sistema,como um todo integrado, vai ter capacidade de articular atores pblicos eprivados em um conjunto de relaes de interdependncia e coordenao. Osistema, na verdade, visa a potencializar capacidades e a otimizar a ao dosatores. A melhor forma de fazer isso atravs de mecanismos decoordenao, seja atravs de planos, seja atravs de normas gerais, de seuajustamento a planos localizados, com vrios nveis territoriais, e assim pordiante. A ideia bsica que deve haver uma articulao e uma coordenaoentre os atores que esto presentes no sistema em torno de estratgias,diretrizes e prioridades polticas.

    Segundo ponto: que o sistema ter capacidade de articulao de um arcode atores em instituies participativas estveis. O sistema tem um conjuntode mecanismos gerais de articulao. So vrias as formas de articular umsistema. Ele pode ser articulado atravs de incentivos fiscais, linhas decrditos, repasses oramentrios, organizao de espaos e estruturas quepermitam e signifiquem o exerccio efetivo da cultura; ou seja, a articulaopode se relacionar com um sistema de incentivos financeiros a projetos, aplanos, a comportamentos institucionais e assim por diante. Mas h outroelemento tambm presente que existncia de rgo de participao epactuao. Ento, esse ser o segundo mecanismo, ou seja, um sistema deinterlocuo entre os atores. Em suma, tm-se dois componentes,diferenciados analiticamente, mas podem na prtica estar articulados:conjunto de operaes de coordenao e conjunto de mecanismos de participao.

    Terceiro ponto: nesse contexto participativo abrangente, onde seencontram atores da sociedade civil e pblicos, podem-se destacar espaosespecficos de discusso de temas relacionados gesto do sistema. Isso noimplica impermeabilidade da gesto participao ampliada e nem a suareduo a um tecnicismo. A nfase dada aqui aos mecanismos estveis de

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    pactuao entre os gestores pblicos nos trs nveis de governo. Ento, j estaqui um terceiro elemento: mecanismo de pactuao intergestores. Tambmaqui a separao tem finalidade analtica, no sendo de todo impossvel queparticipao ampliada reforce a pactuao intergestores e vice-versa.

    Recapitulando. O primeiro elemento relaciona-se com o exerccio dosistema, analiticamente falando, separado do elemento participativo eseparado do terceiro elemento que a pactuao de diretrizes, linhas,objetivos pelos gestores. Aqui se enfatiza e se separa analiticamente aparticipao social ampliada dos elementos propriamente tcnicos, polticosque envolvem as atribuies administrativas dos gestores.

    O quarto ponto ser abordado com mais calma mais adiante e centralna conformao do SNC, ou seja, trata-se dos recursos ou do sistema definanciamento que d materialidade e amplitude ao conjunto de elementosdescritos at aqui. O financiamento deve ser separado em dois tipos:oramentrio e via incentivos fiscais gasto tributrio indireto. Quanto aofinanciamento via gasto tributrio indireto e discusso das leis deincentivo, considerou-se que os marcos legais no seriam alterados. Essaaposta decorre da anlise das amplas divergncias que cercam a novaproposta do Procultura, que substituiria a Lei Rouanet. Se ajustes houver,sero ajustes laterais e no estruturais que recairiam, sobretudo, na polticade alquotas, o que manteria os montantes, no alteraria os mecanismosbsicos de deciso, mas provavelmente mudariam as propores entrerecursos prprios das empresas e os da renncia fiscal; ento, a mudana daLei Rouanet um elemento fixo nos trs cenrios.

    Portanto, o sistema ganha quatro dimenses:

    a) sistema como conjunto de relaes e operaes institucionais;

    b) sistema como conjunto de mecanismos de participao e comunicaoampliada entre atores;

    c) sistema como conjunto de comunicaes e decises entre os gestores;

    d) sistema de financiamento.

    Assim, o sistema nacional composto por quatro elementos que sofundamentais, separados analiticamente e que, no seu efetivo funcio-namento, devem ter relaes bastante densas.

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    A TRS INSTNCIAS REGULADORASAinda ser abordado outro ponto, mas que deve ser aqui adiantado. A

    cultura pode ser organizada em trs grandes instncias. E deve-se dizer queno se d nfase aqui ao elemento ideolgico e discursivo associado a essasinstncias, mas ao fato histrico e sociolgico de que a cultura tem nelasreferncia normativa e elas oferecem elementos reguladores. Ou seja, as prticasno campo cultural so referenciadas a essas trs instncias e o entendimento dequalquer padro de funcionamento do sistema tem que consider-las.

    A primeira instncia omercado. A predominncia da instncia mercadosignificaria ou significa, para alguns analistas, neoliberalismo ou liberalismo.Ao contrrio dessa posio, ao se associar aqui cultura e mercado no se fazum julgamento moral ou poltico, mas se descreve um fenmeno.Efetivamente o mundo da cultura tem uma regulao e dinamismoimportantes, ligados aos mercados.

    Grande parte da atividade cultural, na indstria cultural, no audiovisual,nas comunicaes, uma parte das artes, consideradas belas-artes ou belas-letras tm um elemento de mercado e encontram no mercado (comosistema de produo e demanda por bens simblicos) uma instnciaorganizacional importante.

    A segunda instncia o prprio Estado. O papel do Estado consideradocentral ao se narrarem estrias sobre a poltica pblica. O Estado, com suascapacidades organizativas, com capacidades de articulao, de induo, deincentivo e assim por diante, tal qual preconizado na Constituio, refletepossibilidades de conferir cultura uma densidade normativa e de recursos.Ao alocar e direcionar recursos financeiros, humanos e de gesto, alm decriar normas, o Estado prov a sociedade de elementos prprios ao exercciodos direitos culturais.

    A terceira instncia constituda pelas comunidades e pela sociedade civilpropriamente, que cuidam ou desenvolvem atividades culturais que nodependem nem do Estado e nem dos mercados. Hoje possvel exemplificaraes nesse sentido com o Programa Arte Cultura e Cidadania, o famosoPontos de Cultura, e o Programa Mais Cultura como programas quecaptam e estimulam essas formas de organizao comunitria e locais, quese associam com a induo do Governo Federal, depois dos Estados emunicpios, tendo na instncia comunitria e local, os elementos maispresentes na dinamizao dos processos culturais.

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    Ento, tm-se trs instncias que devem ser pensadas sem preconceitos:mercado, Estado e comunidade ou a sociedade. A partir desses elementos,e considerando-se as dimenses constituintes de um Sistema Nacional deCultura relaes e operaes institucionais; mecanismos de participaoe comunicao ampliada entre atores; comunicaes e decises entre osgestores; financiamento , elaboraram-se quatro cenrios diferenciados,como apresentados da seo seguinte.

    OS QUATRO CENRIOSO quadro a seguir apresenta os cenrios construdos para a rea cultural

    em 2022.

    CENRIOS PARA A REA CULTURAL EM 2022

    CENRIO INSTNCIAORGANIZADORA

    DOMINANTE

    SISTEMANACIONAL DECULTURA

    ELEMENTOS

    Cenrio de crise Mercado Recessivo a) No aprovao da PEC 150;b) No considerao de planosnacionais e locais para aarticulao de diretrizes, objetivose metas polticas;c) No operacionalizao desistemas de participao;d) No participao de sistemasde pactuao intergestores;e) Manuteno dos incentivosfiscais com mesmo desenho atual.

    CenrioExtrapolativo

    Sociedade-Estado

    Fragmentado a) No aprovao da PEC 150 eaumento natural dos recursosoramentrios;b) Articulao de planos nacionaise locais;c) Operacionalizao de sistemasde participao;d) Operacionalizao de sistemade pactuao intergestores;e) Manuteno dos incentivosfiscais com mesmo desenho atual.

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    Cenrio de crise: se o problema a construo do SNC, este o pior doscenrios. Ento, o que acontece neste cenrio? Aqui, delineia-se adesarticulao do sistema de financiamento pblico oramentrio e no se criamcondies para um amplo leque de relaes federativas cooperativas. Algoanlogo ao que ocorreu na dcada de 1990. O incio dessa dcada no foirealmente de desarticulao do sistema de financiamento oramentrio,nem de supresso do papel do Estado, embora, de fato, tenha mantidomuito de suas fragilidades.

    A rea encontrou um primeiro momento no incio da dcada de 1990de grande desorganizao, mas depois ocorreu uma estabilidade dessesrecursos oramentrios. Mesmo que continuassem pequenos e insuficientes,esses recursos no deixaram de crescer. No foi, portanto, um momento dedesarticulao completa. At se pode dizer o contrrio, o esforo de gastofoi em termos de participao nos oramentos, similar ao da dcada de2000.3

    Cenrio deReferncia ou omais provvel

    Estado-sociedade

    Integrado-focalizado

    a) No aprovao da PEC 150 eaumentos significativos derecursos (1% dos trs nveis degoverno);b) Articulao de planos nacionaise locais;c) Operacionalizao de sistemasde participao;d) Operacionalizao de sistemade pactuao intergestores;e) Manuteno dos incentivosfiscais com mesmo desenho atual.

    CenrioAlternativo ounormativo

    Estado-sociedade

    Integrado a) Aprovao da PEC 150;b) Articulao de planos nacionaise locais;c) Operacionalizao de sistemasde participao;d) Operacionalizao de sistemade pactuao intergestores;e) Manuteno dos incentivosfiscais com mesmo desenho atual.

    3. Algo em torno0,14% e 0,17% daexecuooramentria.

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    O terceiro elemento do cenrio se refere mitigao das iniciativas decapacitao do Governo Federal para realizao de polticas federativas.Atualmente acontecem diversas iniciativas de aproximao do GovernoFederal com governos estaduais e municipais e vice-versa. J estavampresentes no perodo discusses a respeito de polticas nacionais e sobrepossibilidades de um sistema, mas nenhuma iniciativa contundente se deunesta direo.

    Atualmente, h um processo de interlocuo cada vez mais intenso, oque significa capacitao gradual para se consolidar o sistema. Para oprimeiro cenrio, essa premissa vista de forma pessimista. Com adesarticulao de recursos financeiros, essa aproximao acaba sendoproblemtica, o que potencializado por lgicas polticas relacionadas aoscenrios regionais e municipais. Se estas forem contraditrias, podem gerardificuldades e mitigao das iniciativas de aproximao entre os nveis locaisde Governo e Governo Federal. Apenas um nvel de recursos ponderveis capaz de estabelecer incentivos e condicionar a aproximao entre atorescom recursos to desiguais.

    Cenrio extrapolativo: no segundo cenrio, a hiptese a manutenodas coisas como esto, em especial em termos de capacidades estatais. Oprimeiro item espelho daquele primeiro cenrio, ou seja, se l se tinha adesorganizao do financiamento, aqui a hiptese a manuteno dosistema de financiamento pblico oramentrio com suas tendncias atuais.

    Nos ltimos anos, houve uma tendncia de aumento dos recursosoramentrios; aumentos bem significativos na dcada de 2000, mas nalgica oramentria que oferece acrscimos conforme parmetros fiscais ecapacidades de execuo dos rgos setoriais. Essa lgica responde acondies macroeconmicas e s polticas fiscais. Seguiu-se uma lgicaoramentria que tem um componente poltico, mas tambm umcomponente tcnico-oramentrio muito forte.

    Ento, como se disse, a premissa aqui a manuteno das tendnciasatuais: manuteno dos incentivos fiscais e das capacidades vigentes doEstado para realizao das polticas federativas, que so ainda bastantepequenas. Mas nesse segundo cenrio se mantm a mesma trajetria dearticulao e de tentativas de capacitao. Ento, ele positivo, mas bastanteconservador, seria como se coisas continuassem mais ou menos como esto.

    Cenrio de referncia ou o mais provvel: este mostra uma ruptura nas

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    tendncias atuais, sobretudo com o aumento dos recursos, sem a aprovaoda PEC 150 e com aumentos de recursos fiscais significativos. Ento, comesse aumento dos recursos, presume-se que aumentaro todas as outrascapacidades de articulao, de pactuao, de interlocuo entre atores etambm de articulao entre os gestores. Dadas as movimentaes em tornodo sistema, com a destinao de recursos para projetos locais, interlocuoentre agentes pblicos e atores sociais, esse cenrio torna-se o mais provvel.Obviamente, apresenta riscos significativos de no implementao, masdadas as tendncias e as foras sociais presentes pode ser qualificado comocenrio de referncia.

    Cenrio normativo ou alternativo: j extensamente abordado neste texto,este seria o ideal. Plasmaria, na realidade brasileira, as prescries daConstituio Federal de 1988, que preconiza a vigncia de um federalismocooperativo cultural no pas. Em geral o cenrio normativo tambm odesejado. Aqui, no entanto, optou-se por aproxim-lo do cenrioalternativo, pois esse expressa o compromisso com uma hiptese altamenterestritiva e improvvel, que em caso de realizao transformaria todo o jogopoltico da rea cultural. No entanto, mesmo com todo o apoio social jregistrado nas duas Conferncias Nacionais de Cultura realizadas na dcadade 2000, a aprovao improvvel, dadas as resistncias da rea econmicas vinculaes de recursos oramentrios, aos montantes que entraro emdisputa com outras polticas e tambm em razo da presena de elementosde impreciso e generalidade da proposta.

    PROBABILIDADE DE REALIZAO DOS CENRIOSO primeiro cenrio pouco provvel de se desenhar no horizonte

    histrico atual. A rea cultural formou uma ampla coalizo de defesa, e aforma como vem se articulando torna pouco provvel o recuo para formasde regulao apenas mantidas pelo mercado. As duas ConfernciasNacionais e a mobilizao para a discusso de temas da rea comprovamo amplo espectro do arco de alianas da rea. Alis, nem na dcada queusualmente se chama de neoliberal, conseguiu-se pulverizar a presena dainstncia estatal como fonte normativa, de regulao e incentivo cultura.Desde ento, muita capacidade de resistncia e de recriao de instituiestem sido demonstrada na rea cultural. Parece pouco provvel, dado ocenrio de composio de fora, de articulao e que o primeiro cenriose cristalize.

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    O segundo cenrio, pelo seu carter inercial, pareceria o mais verossmil.O aumento do nmero de operaes polticas de cooperao e dedirecionamento das aes dos nveis de governo para fortalecimento depolticas culturais um dos elementos que parece guardar forte dinamismo.No entanto, parece evidente pelo comportamento das trs esferas de governo,que a inrcia no aumento de recursos pode ser transposta. Dessa forma, apactuao de aumento de recursos at 1% dos recursos prprios pode serconsiderada de alta probabilidade, desde que os problemas de processamentotcnico e poltico, que esto sob certa governabilidade dos atores, sejamtrabalhados com a maior celeridade e responsabilidade. Nesse caso, pode-seconsiderar que o limite entre o cenrio extrapolativo, que apenas realizamudanas conservadoras ou cannicas, e o cenrio de referncia a intenopoltica de cada nvel de governo em aumentar seus recursos para a cultura.O terceiro cenrio seria assim o mais provvel dado o potencial demobilizao e apoio. Tambm h que se considerar que o cenrio 2 no alocarecursos em nvel suficiente para a construo de um sistema, mas mantmum alto nvel de fragmentariedade. As condies para um sistema nacionalesto presentes apenas no cenrio de referncia e no normativo.

    Com relao ao quarto cenrio, intuitivo que, dificilmente, a PEC 150venha a ser aprovada. Isso torna esse cenrio pouco provvel em suarealizao. Mudanas no sistema de financiamento, mediante a aprovaode vinculao de recursos, que o cerne desse cenrio, tm aparentementepouca probabilidade de confirmao, dados os conflitos alocativos comoutras polticas e dados os problemas operacionais, que logo de incio teroque ser enfrentados. No entanto, nada impede que sejam feitos esforos deaumentos de gastos tributrios oramentrios nos trs nveis de governo.Dado o amplo leque da coalizo poltica e social na rea, o principal bice a disputa por recursos e as necessidades experimentadas por outraspolticas pblicas. Diante desses fatores, esse cenrio torna-se poucoverossmil.

    De qualquer maneira, vale voltar a ateno brevemente para questesque envolvem a PEC 150 e a fragilizam para uma aplicao em curto espaode tempo. Ainda mais porque a PEC 150 permite interpretaesdivergentes, pois apenas trata da vinculao de impostos e nada diz sobretransferncias constitucionais. Ao contrrio, por exemplo, da EmendaConstitucional n 14 de 1996, que instituiu o Fundo de Manuteno eDesenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorizao do Magistrio

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    Fundef e definiu critrios operacionais, objetivos e a forma dofinanciamento. Ali tudo muito mais claro, em termos da destinao,competncias, quem faz o qu e assim por diante.

    A EMENDA CONSTITUCIONAL N 150/2003E O FEDERALISMO COOPERATIVO

    A PEC 150 garante a vinculao de receitas de impostos para a Cultura:determina que anualmente a Unio aplique 2%; os Estados, 1,5% e osmunicpios, 1% das receitas resultantes de impostos diretamente emCultura. O aumento de recursos para o setor um dos elementosnecessrios para a estruturao do SNC.

    Em qualquer das opes, o aporte de recursos ser bastante significativoe fundamental para a construo do Sistema Nacional de Cultura (SNC).A definio dos mecanismos operacionais e dos critrios de repasse dosrecursos dever ter um papel central na conformao do Sistema. Dessamaneira, provveis conflitos de interpretaes devem ser considerados partede cenrios que dificultem a aprovao ou aplicao da Emenda.

    Portanto, cabem consideraes a respeito da interpretao e aplicaoda PEC n 150 e sobre o aporte de recursos que ela significar. A tabela 1resume o problema. Apresenta duas interpretaes possveis para a Emenda.A primeira considera que os percentuais se aplicam arrecadao deimpostos (o que exclui taxas e contribuies) antes da deduo detransferncias constitucionais. A segunda considera impostos depois dededuzidas aquelas transferncias e a ltima considera uma posio defensivade cada nvel de governo que procura o menor nvel de alocao de recursos.

    A expectativa de que essas interpretaes se tornem objeto de conflito plausvel, dado o fato de que a vinculao implicar presses maiores oumenores nos recursos de outras reas tais quais, educao e sade. Osgestores dos nveis de governo trataro de oferecer interpretaes segundoseus interesses como visvel na discusso da Emenda 29/2000 na rea dasade, controvertida na definio de seus critrios de aplicao.

    A PEC n 150/2003 no se define, por exemplo, se a gesto dedocumentos e os recursos destinados ao patrimnio e cultura quilombola,que so parte da rea cultural na CF/1988, devero ser considerados paraefeito de aplicao das alquotas, ou se bibliotecas de rgos pblicos e deuniversidades, claramente parte de polticas culturais, embora no

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    vinculadas ao MINC, tambm o sero. Alm disso, a emenda de vinculaode recursos para a cultura bastante genrica com respeito s transfernciasde recursos da Unio para Estados e Municpios.

    A tabela abstrai essas questes simulando diferentes interpretaes paraa aplicao de PEC 150.

    TABELA SIMULAO DA APLICAO DA PEC N 150/2003

    Elaborao: Ipea/Disoc.

    Observa-se que as opes 1, 2 e 3 resultam de diferentes interpretaesda PEC 150. No primeiro caso, a aplicao da EC resultaria em R$ 9bilhes e se refere aos percentuais da emenda aplicados aos recursos antesdas transferncias constitucionais. Nesse caso a participao da Unio nosrecursos seria de 54%, enquanto os Estados teriam 40% e os municpios,4,6%.

    A segunda opo considera a aplicao dos percentuais depois dastransferncias e significa um aporte menor de recursos, em torno de 10%inferiores aos da primeira opo. A participao da Unio cai para 27% (R$2,2 milhes), a participao dos Estados e municpios sobe para 54,3% (R$4,4 bilhes) e R$ 18,5% (R$ 1,5 milhes), respectivamente.

    Na ltima alternativa os governos interpretam a PEC de forma defensivaou conservadora, destinando o menor nvel de recursos, os recursos sonessa estimativa, 30% inferiores primeira opo. A participao dosEstados passa a ser de 58%; a da Unio, 35% e dos municpios, de 6,8%.

    No se deve descuidar do forte potencial conflitivo da Proposta deEmenda Constitucional, pois implica presses sobre os recursos destinadosa outras polticas, sendo que os recursos financeiros das polticas federais setornam objeto de muita sensibilidade, pois, a depender da opo,

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    significariam, aproximadamente, mais ou menos trs bilhes de reais nooramento da Unio. Mas, problemas alocativos e polticos similaresenvolveriam Estados e municpios. Outro ponto o da equidade regional,ou seja, as opes implicariam diferentes resultados distributivos.

    EQUIDADE REGIONAL E ATRIBUIES DAS ESFERAS DEGOVERNO

    No custa bater na mesma tecla: o financiamento das polticas culturaisgovernamentais insuficiente e penaliza os diferentes segmentos culturaise a populao que se v diante da deteriorao do patrimnio cultural e dainfraestrutura cultural bsica. Os efeitos so obviamente perversos, no quese refere promoo dos direitos culturais. Em que pesem os problemasanteriormente apresentados, clara a necessidade de dar tratamentoadequado questo do financiamento cultural e desejvel o aumento derecursos.

    Ao mesmo tempo necessria uma distribuio de encargos entre asesferas de governo. Atualmente as competncias so concorrentes, ou seja,no so claras as responsabilidades especficas de cada uma das esferasgovernamentais. Dados os montantes de recursos, certamente seronecessrias definies pactuadas sobre as responsabilidades respectivas, quepermitam a aes coordenadas entre nveis de governo para a reduo dasdesigualdades e desenvolvimento da institucionalidade da cultura.

    O grande desafio, parece-nos, ser o de conciliar descentralizao comcapacidade de reduo de desigualdades regionais. Esse desafio apresenta-se na forma da necessria conciliao da centralidade do papel dosmunicpios na execuo de polticas culturais e o papel da Unio e dosEstados na articulao de interesses federativos.

    Dada a escala diminuta dos municpios, imprescindvel a articulaoem nveis territoriais e em escala ampliada. Os consrcios constituemcomponente de uma alternativa interessante, pois partem da ao e deiniciativas das prprias municipalidades. H outras possibilidades, aexemplo de redesenho de territrios culturais, de uso de microrregies emesorregies como espaos de representao de interesse e planejamentode aes.

    Embora o conceito de descentralizao comporte mltiplos significados,importa aqui um, em especial: o de que a descentralizao significa

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    redistribuio de recursos, espaos de deciso e responsabilidades. Amontagem do SNC implica, ento, a busca de um equilbrio entre essasdimenses.

    Entretanto, dada a reconhecida heterogeneidade dos municpios e a suabaixa densidade econmica, social e cultural, seguida das suas carncias emtermos de infraestrutura cultural bsica e capacidades financeiras, razovelpostular que a atuao administrativa e poltica na rea cultural tenha departir de unidades territoriais maiores do que a do prprio Municpio. No razovel esperar, por exemplo, que todos os municpios menores de 50mil habitantes tenham todos os equipamentos culturais, mas possvel umaadministrao pactuada por parte de aglomerados de municpios detamanhos diversos.

    Apesar desses desafios, de qualquer ngulo que nos situarmos, a PEC150, se aprovada, aportar recursos significativos para a cultura, mas, emtermos de equidade regional, depender das atribuies da Unio e dosEstados. A compensao pelas desigualdades poder estar alicerada, no quese refere ao papel da Unio, na parte dos repasses obrigatrios para osEstados e municpios.

    H ainda a questo nada trivial que diz respeito definio do que seconstitui desenvolvimento cultural ou mais precisamente o que ou comose define dispndio cultural. Qual o objeto do financiamento cultural?Essa questo ganha relevncia, dadas as esperadas resistncias stransferncias vinculadas para a cultura, resistncias que so naturais, dadosos impactos sobre os recursos de outras polticas. Mas as resistncias podemser minimizadas com definies abrangentes para essa questo, com aesestruturantes sobre a qualidade de vida, educao, gerao de empregos eaes transversais com outras reas (polticas urbanas, de segurana,transportes, etc.).

    ALGUNS DESAFIOS E UM DESAFIO ESTRUTURALOs municpios e Estados brasileiros so, em graus variados, dependentes

    de recursos de outros nveis de governo. Um complexo sistema de repassesfinanceiros da Unio para Estados e municpios e de Estados paramunicpios foi criado para compensar algumas das assimetrias presentesentre os nveis de governo e garantir que eles pudessem exercer suasprerrogativas constitucionais.

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    Na verdade, a estrutura tributria, com repasses constitucionaisobrigatrios, com a diviso de recursos tributrios, que compensam asdificuldades de Estados e municpios. A grande parte dos municpios e boaparte dos Estados dependem de recursos recolhidos pela Unio pararealizao de polticas. Essa a estrutura federativa brasileira.

    As assimetrias na distribuio de capacidades, de articulao de realizaode polticas e de recursos humanos seguem a mesma lgica aqui dos recursosfinanceiros. Onde se tem mais recursos financeiros, provavelmenteencontram-se maiores capacidades institucionais, de recursos humanos etambm de gesto.

    A cooperao de nveis mltiplos. Pode estar presente na formatao edesenho das polticas, na estruturao de capacidades estatais de diferentestipos e modalidades, a exemplo das capacidades de planejamento, gesto,formao de recursos humanos, conhecimentos tcnicos, procedimentais,jurdicos, financeiros, entre outros.

    A fixao de focos e objetivos precisos para realizao das polticas eampliao de capacidades necessria. Complementarmente, devem serdesenvolvidas vises de conjuntos dos problemas a serem enfrentados.

    O que se afirma aqui que, no processo de construo de um SistemaNacional de Cultura, ainda se est na fase de articulao e que, para suaconsolidao, ser essencial uma produo normativa muito forte, comoaconteceu no SUS, com as diversas normas operacionais.

    Portanto, h uma necessidade de criao de normas. No caso do SUS,so normas gerais, que atingem nveis operacionais muito especficos, tantona transferncia de recursos, quanto nas atribuies de Estados, municpiose da prpria Unio em um sistema integrado. Portanto, no parece suficientesimplesmente postular um sistema de articulao, mas h necessidade deuma produo normativa muito complexa para que essa articulao sejaeficaz em termo de polticas.

    Em resumo, se a prtica mostra desde j que o SNC avana em funode capacidades institucionais subjetivas, isto , de informao tcnica e deformao de pessoal qualificado, dotado de grande plasticidade potencialde adaptao criativa aos contextos , tambmmostra a carncia de recursospara a ampliao e qualificao intensiva desse capital humano e para apactuao de linhas de ao e estratgias de mdio e longo prazos.

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    Por outro lado, as capacidades dobram-se em capacidades objetivas, isto, recursos financeiros e de gesto. No se quer dizer aqui nada prximo aodiscurso da gesto flexvel. Mas como a rea cultural muito complexa,deve-se falar o tempo todo da questo da transversalidade de suas atividades.

    A rea exige transversalidade e os recursos tm de ser muito qualificadospara aplicar esse princpio ou critrio. Um tcnico formado em umadeterminada rea que s domina a sua especialidade discute e dialoga malcom as outras reas. Ento, a formao de capacidades de dilogoqualificado aqui muito importante: dilogo tcnico e dilogo referente programao oramentria, dilogo referente s operaes necessrias, porexemplo, a uma licitao; tudo isso muito importante na rea, alm dasensibilidade e a capacidade de estabelecer articulaes e aes qualificadascom agentes culturais propriamente.

    Outro ponto o da unidade territorial da poltica. Provavelmente, osmunicpios no tm escala suficiente para gerenciamento de uma srie derecursos se no tm nem na rea de sade, que em alguns casos maispadronizada, muito menos teriam na cultura. Nesse caso, as escalas degesto territorial talvez devam ser objeto de reflexo poltica diferenciada.Os consrcios municipais, as associaes de municpios, etc. resolvem emparte essa questo.

    O consorciamento de municpios significa que eles podem discutir adistribuio de equipamentos, de atividades, de atribuies relativas capacitao, entre outras. Ento, isso uma possibilidade a ser tentada deuma forma mais radical na rea de cultura.

    Existem algumas iniciativas, mas a ampliao das experincias talvez sejaum elemento importante de simplificao desse sistema, que tem que lidarcom um grau de heterogeneidade muito grande, que no s financeira; tambm de capacidades. Ento, repensar a unidade territorial de gestotalvez seja um elemento importante para rea, ao mesmo tempo em que sefaz necessrio estabelecer e consolidar instrumentos de interlocuo eplanejamento conjunto.

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    PROJETO BARCOS DO BRASIL

    Luiz Phelipe Andrs*

    RESUMOO Projeto Barcos do Brasil foi criado no mbito da Diretoria do

    Patrimnio Material e Fiscalizao do Iphan com o propsito de estabelecerum sistema integrado de salvaguarda do patrimnio naval brasileiro. Opresente trabalho se inicia com breve histrico, evidenciando o papelpreponderante das embarcaes artesanais de pequeno porte na saga deconquista e ocupao do territrio brasileiro e sua funo como principalmeio de transporte at o perodo do primeiro quartel do sculo XX. Enfatizao valor e a riqueza da diversidade de modelos navais e as implicaes denatureza econmica na vida das populaes que habitam cidades quenasceram das navegaes. Mostra os riscos de desaparecimento de sculosde conhecimentos acumulados na cabea de alguns mestres carpinteirosnavais e ressalta as dificuldades que ocorrem na luta para preservar estesvalores ameaados.

    PALAVRAS-CHAVEBarcos, Patrimnio, Salvaguarda.

    Foi com muita satisfao que aceitei o honroso convite para apresentareste valioso projeto denominado Barcos do Brasil que vem sendoimplementado pelo Departamento do Patrimnio Material e Fiscalizaodo Iphan, por iniciativa do arquiteto Dalmo Vieira Filho e sua equipe.

    Considero que se trata de uma excelente oportunidade de abordagemde um tema em que a instituio, mais uma vez, cumpre suas atribuies.E o faz de forma exemplar, como vem sendo conduzido o projeto Barcos doBrasil, em que testemunhamos a criao de um sistema de proteo parauma parcela significativa da cultura do pas, que o patrimnio nutico.

    gratificante, para quem conhece as imensas dificuldades que existemnesse setor, poder acompanhar a evoluo desse processo e tambm

    * Diretor do CentroVocacionalTecnolgicoEstaleiro-Escola

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    demonstrar como o sistema de defesa e conservao de embarcaestradicionais e suas tcnicas construtivas j comeam a funcionar. Atravsde iniciativas como essas o Iphan vem contribuindo para a ampliao dosconceitos de patrimnio cultural. E quando menciono esse fato achoimportante fazer justia e reconhecer os mritos dos que nos antecederamem momentos mais difceis, dispondo de menos recursos.

    De fato, s agora estamos tendo a oportunidade de realizar aspectos maisabrangentes da misso para a qual a instituio foi originalmente criada,no sentido de que no presente somos favorecidos com os meios que nospermitem concretizar antigas intenes e consolidar polticas que de longadata faziam parte do iderio do Iphan. E o grande mrito dessa gerao decorrente da capacidade de elaborar bons projetos e, mesmo comdificuldades, ampliar os recursos tcnicos, humanos e financeiros; articularas parcerias e criar as mnimas condies para, finalmente, realizar aspiraesque j estavam na cabea dos fundadores do Iphan, desde Mrio deAndrade, que percorreu o pas nos anos 30 e 40, em longas e difceisjornadas pelo Norte e Nordeste, em busca de manifestaes genunas debrasilidade, as quais, reconhecemos hoje, compem o panorama do que seconvencionou denominar patrimnio imaterial.

    O assunto do patrimnio nutico de que trata o Projeto Barcos do Brasilse localiza bem na fronteira entre os conceitos de patrimnio material eimaterial. Temos, de imediato, a materialidade das embarcaes, massempre presente a imaterialidade dos conhecimentos tradicionais, domodo de fazer, que esto ameaados de desaparecimento emmuitas regies.

    Est na memria de velhos mestres carpinteiros navais e artesos,construtores de embarcaes, que guardam segredos seculares,transmitindo-os de pai para filho no anonimato de seus estaleiros artesanais,muitas vezes perdidos em longnquas praias desertas ou margens e curvas derios e lagos navegveis.

    E nele est presente uma forte caracterstica de nosso patrimniocultural, que a riqueza oriunda da diversidade. A tambm est acomplementaridade nas interfaces com outras formas de patrimnio, o queimpede que esse tema seja tratado de forma isolada.

    E como todo patrimnio cultural, para alm de seu valor histrico eartstico seu estudo tambm nos propicia maior clareza e compreenso degrandes problemas do pas contemporneo. Nesse caso, evidenciando as

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    consequncias do abandono do transporte hidrovirio, pelo exageradoprivilgio concedido ao transporte rodovirio.

    O tema das embarcaes e das navegaes est ligado origem de grandeparte das nossas cidades que hoje so consideradas patrimnio nacional.Gravuras de poca nos revelam que as cidades porturias tm, incorporadas sua paisagem, a figura majestosa de grandes veleiros ocenicos ancorados,cercados por pequenas embarcaes ou batis, catraios e canoas, que tinhamo papel vicinal de transferir cargas e passageiros, e procederem s operaesde embarque e desembarque.

    At hoje muitas cidades do nosso extenso litoral (8 mil km) tm, napresena das embarcaes, um trao marcante de sua paisagem. Paisagemque se modifica de acordo com a presena ou ausncia delas com suas velascoloridas. E sempre em funo de um relgio diferente, que o relgio dotempo regido pelas mars.

    Em algumas cidades martimas os barcos costumam figurar mesmocomo um alter ego dos conjuntos urbanos, diante dos quais eles ancoramcomo protagonistas que so de um peculiar modo de vida que o daspessoas que trabalham nas atividades dos portos.

    Em So Lus do Maranho, por exemplo, uma das cidades brasileirasque nasceram do mar e tm esse carter marcante de cidade porturia, eonde tenho o privilgio de viver e de trabalhar h mais de trs dcadas coma questo do centro histrico, a presena cambiante dessas velas coloridassoa como uma espcie de alma daqueles sobrades presentes na paisagemurbana.

    Talvez o mais importante dos traos de carter, que so reveladores daalma do nosso povo, so os hbitos da gente que lida no dia a dia naquelasatividades. No s os que constroem embarcaes, mas tambm os quedelas se utilizam. So personagens fascinantes que revelam sabedoria econhecimento ntimo e profundo da natureza, o que, alis, imposio deseu ofcio, como uma verdadeira estratgia de sobrevivncia.

    Aqui, como no caso dos acervos arquitetnicos, o Iphan ter de enfrentaros obstculos para a preservao, dentre os quais podemos tomar umexemplo: O lobby das embarcaes de fibra de vidro ou de alumnioapresenta argumentos fortes para tentar convencer a sociedadecontempornea de que barcos de madeira no prestam, so perigosos,ultrapassados e que devem ser substitudos por novos de material sinttico.

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    Sempre ser necessrio evitar armadilhas como essas, como se existisselugar para esse tipo de maniquesmo, da mesma forma como no se podeaceitar um confronto entre o tradicional e o moderno na arquitetura, e oIphan trabalha no sentido de impedir o abandono e a destruio de nossoscentros histricos sob o pretexto de substitu-los por uma arquiteturacontempornea. Porque essas so falsas polmicas, uma coisa no estnecessariamente em confronto com a outra.

    Como ponto de partida para as suas aes, o projeto Barcos do Brasilvem concatenar uma srie de iniciativas que surgiram de norte a sul do pas,multiplicando-as e aplicando metodologia j consagrada em outras reasdo Iphan, mas que exige criatividade, devido peculiaridade desse acervo.E o faz consoante com a abordagem sistmica do patrimnio e com a visointegrada s atividades da vida das populaes, das quais no se desvincula.

    A preservao desses acervos mais um desafio para a instituio. Umbelo desafio, porque lida com uma parcela do que h de mais expressivonas atividades humanas. Um desafio que exige esforo de concertao comoutros ministrios e reas vizinhas, como meio ambiente, tecnologia,aquicultura e pesca, turismo, educao, trabalho, etc.

    E pode-se recorrer ao tema da transversalidade, nesse caso. O princpioda transversalidade, que perpassa esse assunto, estabelece obrigatriasligaes nos domnios da gesto pblica, exigindo novos pactos cominstituies diversas e entidades de classe e do terceiro setor, e tambm acriao de novos marcos regulatrios.

    O tema se manifesta tambm diverso em suas condies localizadas. Emalgumas regies os barcos tradicionais j se encontram praticamentedesaparecidos ou em processo de extino, em outras, como no LitoralNorte do pas, e margem de grandes rios navegveis, como os riosamaznicos, so atividades vivas e de subsistncia de milhares de famlias,que no tm outras formas de transporte e comunicao.

    Nesses casos temos um vis que estabelece uma interface com o temada economia da cultura, uma vez que sua salvaguarda est associada ao diaa dia das comunidades que delas dependem.

    Assim, torna-se importante, neste momento, realizar um brevssimohistrico capaz de ressaltar o papel importante da navegao e dasembarcaes na trajetria de ocupao do territrio brasileiro, desde osculo XVI, como nico meio de transporte e de comunicao, no sentido

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    do litoral para o interior, realizada a partir dos portos martimos e de ondese fez a penetrao pelos rios navegveis.

    Aos hbitos e costumes, j praticados pelos ndios, somaram-se osconhecimentos nuticos de marinharia e engenharia naval, trazidos peloseuropeus. Portanto, do perodo do descobrimento at o sculo XIX, otransporte hidrovirio martimo e fluvial exerceu um papel preponderanteno desenvolvimento do pas.

    Estaleiros funcionavam em toda extenso da costa do Brasil, fabricandoembarcaes. H notcias deles no litoral de So Paulo, do Rio de Janeiro,da Bahia, de Pernambuco, do Cear, do Amazonas, do Par e doMaranho.Ali funcionava, tambm, empresa de navegao fluvial ou de cabotagemcom navios a vapor de norte a sul, para transporte de passageiros e de cargas.

    Grandes rios navegveis, em todo territrio, eram servidos por essamodalidade de transporte, como o Amazonas, o So Francisco, ou o Ribeirado Iguape, s para lembrar alguns exemplos. Lagoas e lagunas eram,igualmente, cenrios da faina das embarcaes.

    Essa modalidade de transporte perdurou at as primeiras dcadas dosculo XX. E ainda tivemos navegao de cabotagem, atravs de companhiasatuantes que ofereciam servios de transporte mais barato de norte a sul dopas. Havia empresas bastante ativas, como o ITA, e a Companhia deNavegao do Norte Conam.

    Mas, na segunda metade do sculo XX, alguns episdios histricoslanaram uma p de cal nas alternativas remanescentes de transportehidrovirio. Vale registrar aqui, guisa de depoimento, algo que no est naspublicaes e na mdia, mas que tive o privilgio de conhecer, quando fuiincumbido, como membro do Conselho Consultivo do Iphan, de elaboraro parecer de tombamento da ferrovia Madeira-Mamor.

    Para cumprir minha tarefa viajei a Porto Velho, onde fiquei por umasemana, em misso de reconhecimento do parque ferrovirio remanescentee avaliei um dossi de quase mil pginas e encontrei um decreto de 1966,assinado pelo presidente Marechal Castelo Branco, e pelo ministro OtvioGouveia de Bulhes, que determinava a extino e a erradicao daferrovia. Pginas adiante, no mesmo processo, encontrei outro decreto,determinando o sucateamento do parque ferrovirio da Madeira-Mamor.

    A ferrovia havia sido construda ainda no sculo XIX, custa de milhares

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    de vidas, para servir de acesso navegao do rio Amazonas para asmercadorias que viessem da Bolvia. Era, portanto, parte de um sistemaimportantssimo de transporte intermodal que conjugava transportehidrovirio e ferrovirio, servindo a um imenso territrio da regioamaznica.

    Tempos depois, fui tambm encarregado de elaborar o parecer para oprocesso de tombamento da cidade histrica de Piranhas, que tambmnasceu de uma ferrovia que, por sua vez, fora construda para vencer ogrande desnvel da cachoeira do Xing e estabelecer a ligao entre o baixoe o alto So Francisco, de forma a viabilizar o transporte fluvial em toda aextenso do rio.

    Nesse processo pude ler a cpia de um decreto muito similar, igualmentedatado de 1966 e assinado pelas mesmas autoridades nacionais,determinando a extino e a erradicao da ferrovia, dessa forma recriandoo hiato para o transporte hidrovirio da regio.

    Ao observar a coincidncia das datas no pude deixar de me lembrar deminha cidade natal, Juiz de Fora, onde, na infncia, me utilizava de bondesque percorriam toda a cidade. L, tambm em 1966, assistimos Prefeiturada cidade retirar os bondes da cidade com o pretexto de que os bondesatrapalhavam o trnsito.

    Tempos depois, quando fui trabalhar no Maranho, encontrei umaplanta do centro histrico, datada de 1959, que mostrava que a cidade todaera servida de bondes. E tambm os documentos mostrando que em 1966retiraram esse agradvel, barato e no poluente meio transporte de So Lus.

    Nessa mesma dcada deixaram de operar, por vrios motivos, ascompanhias de navegao de cabotagem e, antes ainda, as de navegaofluvial. So ocorrncias que, vistas de per si, de forma isolada, no chamamtanta ateno, mas que quando cotejadas lado a lado, pela coincidncia dedatas, nos permitem fazer uma leitura e demonstram que, de fato, houveuma poltica federal direcionada e uma determinao muito forte nosentido de extinguir alternativas de transportes que no fosse o rodovirio.

    Em recente debate, que participei, no Congresso Nacional, sobre oabandono do transporte hidrovirio no pas, o representante do Ministriodos Transportes nos informou, em sua explanao, que o transporterodovirio, que hoje reina absoluto em todo territrio nacional, 12 vezesmais caro que o hidrovirio e 10 vezes mais caro que o ferrovirio. Podemos

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    intuir por que o patrimnio nutico foi to relegado, to abandonado equase riscado do mapa do Brasil.

    E cabe a ns nos questionarmos: quem de ns, de nossos pais e avsparticipou ou, pelo menos, tomou cincia dessas decises de acabar comimportantes alternativas de transporte mais baratos e vantajosos num pascom dimenses continentais.

    Chico Buarque tem uma letra de msica que pondera assim:

    Num tempo, pgina infeliz da nossa histria, passagem desbotada namemria das nossas novas geraes. Dormia a nossa ptria me todistrada, sem perceber que era subtrada em tenebrosas transaes.

    Achei que isso cabia muito bem nesse episdio de sucateamento, pordecreto, das alternativas de transportes. Ento, hoje ns temos o problemada perda da cultura nutica pela destruio e abandono sistemtico edeliberado da pouca infraestrutura que o pas chegou a ter. A perda doconhecimento, do modo de fazer embarcaes, a ameaa, seno a extino,de muitos modelos navais e as atividades decorrentes de sua fabricao, queso potencialmente capazes de gerar milhares de empregos. Por detrs detodo fenmeno cultural sempre tem a influncia da modalidade daeconomia de cada regio.

    Temos contabilizado um sculo de polticas pblicas que s favorecemo transporte rodovirio e toda vez que se constri uma estrada desapareceum centro de construo naval; isso multiplica o desemprego e estimula oxodo das regies onde a navegao poderia oferecer alternativas de vida etrabalho.

    De fato, a retrao do uso de embarcaes (de madeira) est ligada auma esmagadora poltica de transportes que abandonou, deliberadamente,qualquer outra modalidade que no o meio rodovirio. O que significa umdesastre para a economia e para a cultura.

    O resultado disso o abandono da profisso. Uma pesquisa feita pelaequipe do Projeto Embarcaes do Maranho nos informa que os jovensno tm interesse em abraar uma profisso na qual eles assistem o mestredo ofcio terminar a vida na misria.

    O aprendizado atual nos estaleiros artesanais escasso e precrio, e adificuldade de obteno de matrias-primas contribui para ampliar asdificuldades. Esta se constitui em outro bice, pois os rgos de proteo

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    ambiental, no exerccio de suas atribuies, fiscalizam com o mesmo rigorum carpinteiro naval perdido na curva do rio, fabricando uma pequenacanoa para a prpria subsistncia, ou as grandes madeireiras, que cortammilhares de rvores para contrabando de madeira.

    Sem dvida, ser preciso negociar com os rgos de proteo ambientale lembrar que no a madeira usada na construo naval que destri asflorestas, mas sim a devastao de extensas reas que determinam aextirpao de milhes de rvores de uma s vez para a monoculturaintensiva e mecanizada, que, por seu turno, gera escassos empregos e exaurea camada frtil do solo, que demanda centenas de milhares de anos para serecompor. Ou, ainda, para a pecuria e ampliao de rebanhos de gado,contados aos milhes de cabeas. Considerar, ainda, que essas atividades,alm de polurem os rios com a aplicao macia de agrotxicos, aumentamo seu assoreamento, reduzindo, em muito, as chances de tornarem a sernavegveis. Um desastre de mltiplas consequncias.

    Por outro lado, a madeira retirada para construo de embarcaes feita de uma forma pontual. como naquele caso em que a autoridadechega a prender uma velhinha que tem um papagaio h 40 anos dentro decasa, enquanto contrabandistas de animais carregam milhares de filhotesde papagaio dentro de tubos de PVC.

    Situaes que, s vezes, acontecem pela necessidade de aplicao dosrigores da lei, mas que devem ser negociados para evitar distores, j vmsendo tratadas de forma competente pelo Departamento de PatrimnioMaterial e Fiscalizao Depam/Iphan, atravs do projeto Barcos do Brasil.

    No obstante os obstculos j mencionados, os barcos tradicionais, porsua fora imanente, que certamente encontra respaldo no fato de que vemdas origens e da gnese do nosso pas, mantm, ainda, fortes ligaes como peculiar modo de vida das populaes litorneas e ribeirinhas, nas cidadesporturias do Brasil que nasceram da navegao.

    Nas interfaces, o assunto ainda enriquecido por muitas ligaes comhbitos e costumes, com a culinria, com as festas populares. A arte popular,como prematuramente j havia evidenciado por Clarival do PradoValladares no seu estudo sobre as carrancas do rio So Francisco, tem muitaligao com essa atividade.

    A questo emergente do novo conceito de paisagem cultural esttambm fortemente relacionada ao tema dos barcos do Brasil. J no captulo

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    da histria das tcnicas, que to caro ao patrimnio cultural, evidenciam-se as ligaes com a construo das igrejas, em que as abbodas de bero socomo cascos de navios emborcados, e utilizam os mesmos detalhesconstrutivos na montagem de suas estruturas. A tal ponto que, narestaurao dos telhados das igrejas, se utiliza a mo de obra do carpinteironaval.

    Encontramos, ainda, similaridade com estruturas de teatros, onde asarmaes de palco, varas de iluminao ou cenrios so erguidos comsistemas de cabos que passam por roldanas, cadernais e moites. Em tudoiguais ao aparelho vlico das embarcaes, inclusive nas denominaes.

    E nesse cenrio onde contrastam valores excepcionais a serempreservados e grandes obstculos preservao que o projeto Barcos doBrasil se anuncia como alternativa consistente de salvaguarda. E serimportante citar aqui os principais estudos realizados anteriormente e quetem se constitudo em fonte de inspirao e referncia obrigatria a tudo oque se faz atualmente.

    Retrocedendo no tempo, podemos iniciar com a obra de AlexandreRodrigues Ferreira, considerado um dos maiores naturalistas brasileiros que,no final do sculo XVIII, entre 1783 e 1792, empreendeu uma expediocientfica percorrendo grandes extenses dos rios amaznicos e publicouum compndio Viagem philosphica pelas capitanias do Gro-Par, RioNegro, Mato Grosso e Cuyab , registrando suas observaes, e no qualdedica vrias pginas e ilustraes sobre as embarcaes que avistou nos riosda regio.

    Em seguida, e obedecendo cronologia, vem a pesquisa do almiranteAntnio lvares Cmara, e que chegou aos nossos dias graas a umapublicao datada de 1888, denominada Ensaio sobre as construes navaesindgenas do Brasil.

    Cmara Cascudo lana, em 1957, dois livros sobre as jangadas e osjangadeiros, resultantes de suas pesquisas etnogrficas.

    Pedro Agostinho, em 1973, publica a obra denominada Embarcaes doRecncavo um estudo de origens sobre as embarcaes artesanais da Bahia.

    Em 1981, Clarival do Prado Valladares e Paulo Pardal lanam o livrodenominado Carrancas do rio So Francisco. A vida de Francisco Biquiba dyLafuente Guarany, mestre carranqueiro, uma personagem extraordinria.

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    O arquiteto, artista plstico, desenhista e professor da UFC, NearcoArajo, fez a pesquisa sobre as jangadas do Cear e a transformou emprimorosa publicao ricamente ilustrada com desenhos de sua autoria.

    notvel o trabalho de Lev Smarcevski, russo radicado na Bahia e quedesvendou o mistrio do graminho, uma espcie de baco contido emuma nica pea de madeira que cabe na palma da mo e que, para osmestres carpinteiros, traduz todas as propores necessrias para aconstruo de um saveiro. O resultado de suas pesquisas est materializadona publicao de seu livro denominado O graminho.

    No podemos deixar de fora deste relato outras iniciativas mais recentesespalhadas pelo Brasil. A comear pela criao do Museu Nacional do Mar,em So Francisco do Sul, em Santa Catarina, pelo arquiteto Dalmo VieiraFilho, atualmente diretor do Depam/Iphan que rene a maior e maiscompleta coleo brasileira de barcos tradicionais em escala natural,expostos em dioramas e um precioso acervo de modelos navais. Esse museuse tornou uma referncia no pas e tem uma rica biblioteca que hoje abrigae conserva o acervo da coleo Kelvin de Palmer Rothier Duarte.

    Pesquisa sobre as embarcaes do Maranho, realizada em 1986/87, emconvnio com a Financiadora de Estudos e Projetos Finep/MCT e que em1996 recebeu o Prmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, gerou apublicao de um livro com o mesmo nome, em 1998, e finalmentesuscitou a criao do primeiro estaleiro-escola do Maranho, em convniocom oMinistrio da Cincia e Tecnologia, como alternativa de salvaguardados conhecimentos tradicionais.

    Ali estamos tratando velhos mestres artesos do ofcio como professoresdoutores e juntando aos conhecimentos que eles transmitem aqueles quea academia universitria pode propiciar, no sentido de formar uma geraode construtores navais preparada para os desafios do mercado de trabalhodo mundo de hoje.

    No estaleiro-escola ensinamos informtica, muito desenho tcnico,aquilo que se convenciona chamar hoje de empreendedorismo, seguranano trabalho e tocamos fortemente na questo ambiental. Essa escola estfuncionando desde 2007.

    O trabalho realizado pelo projetista naval Carlos Eduardo Ribeiro comsua estoica empreitada de resgatar e restaurar, com recursos muito parcos,em um esforo admirvel e de sacrifcio pessoal, a Luzitnia, evitando que

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    se perdesse o ltimo exemplar da legtima canoa de tolda do rio SoFrancisco.

    Para tanto, criou uma organizao sem fins lucrativos denominadaSociedade Canoa deTolda, que mantm, ainda, ummovimento popular emdefesa do rio So Francisco e publica periodicamente outra pequena obrade arte que o boletim A Margem, que faz chegar a todas as comunidadesdo velho So Chico.

    Lembramos o que realiza o oceangrafo e muselogo Lauro Barcellos,diretor do Complexo de Museus da Fundao Universidade Federal do RioGrande do Sul, trabalhando a cultura nutica do Rio Grande, seu resgate esua preservao, especialmente atravs do Museu Oceanogrfico do RioGrande, que tem uma escola de marinharia.

    A obra do arquiteto Edson Fogaa, da Unesco, ex-integrante da equipede pesquisas, autor das ilustraes e do projeto grfico do livro Embarcaesdo Maranho e que est, hoje, envolvido com projeto denominadoEmbarcaes do Brasil, que realiza uma srie de documentrios em vdeocomo Mestres carpinteiros navais tradicionais do Maranho; As jangadas deraiz de Timbaba do Cear e Terra com gua a terra do mar, o mais recente,que registra a vida no entorno das embarcaes dos pescadores deCamocim, o maior centro vivo de barcos vela do pas.

    O economista e pesquisador das embarcaes tradicionais da Bahia, JosRaimundo Zacarias, estuda os ltimos saveiros, avaliando as condies quedeterminaram sua decadncia e as possibilidades de resgate.

    O trabalho exemplar e abnegado, realizado pelos modelistas navais LauroPereira Lima e Carlos Heitor Chaves, que hoje esto assegurando areproduo ampliada de toda a Coleo Alves Cmara como alternativasegura de perpetuar sua preservao para as futuras geraes. Lauro PereiraLima, inclusive, vem realizando uma srie de cadernos tcnicos com oinventrio completo de cada um dos modelos da nova coleo.

    O fotgrafo Edgar Rocha, radicado no Maranho, fez a pesquisa queresultou no livro Embarcaes de sentimentos, com depoimentos tocantes demestres marinheiros e, em especial, do Mestre Alvino, que sabe reconhecera profundidade da gua pelo barulho que ela faz no encontro com o cascoda embarcao, como se tivesse um sonar na cabea.

    O arquelogo Ulisses Pernambucano de Mello Neto, diretor da Clula

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    de Arqueologia da Fundarpe, que, com toda sua rica experincia e vivnciade arquelogo submarino e conhecimento dos naufrgios, estuda, hoje, osbarcos de areia da Paraba.

    A arquiteta Carmen Lcia Muraro, do Iphan de Pernambuco, diretorado Parque Histrico Nacional dos Guararapes, realiza um projeto demonitoramento dos barcos de Pernambuco.

    O projeto Mar sem Fim do jornalista Joo Lara Mesquita, que durantedois anos navegou de norte a sul da costa brasileira, produziu uma srie dedocumentrios que foram veiculados em todo o pas atravs daTV Cultura-Fundao Padre Anchieta, transformando seu contedo em publicaocomposta de trs volumes e acaba de lanar outro importante documentriofotogrfico sobre as embarcaes tradicionais.

    O movimento preservacionista de Pedro Bocca e sua equipe decolaboradores voluntrios na Associao Viva o Saveiro, na Bahia, estoconseguindo viabilizar recursos no governamentais para restaurar edevolver atividade os ltimos exemplares de legtimos saveiros da Bahiaameaados de extino. Alm de realizar bem-sucedidas atividades de regatase divulgao na mdia, como estratgia de valorizao e reconhecimento daarte dos velhos mestres carpinteiros navais.

    Christiane Rothier Duarte, que d continuidade ao trabalho iniciadopelo pai Kelvin de Palmer Rothier Duarte hoje responsvel peloProjeto Aviso aos Pequenos Navegantes!, no Espao Cultural da Marinha,no Rio de Janeiro, e pela criao do site do Pequeno Navegante, registrandoa importncia do trabalho educativo na contribuio para a preservao donosso patrimnio naval;

    O trabalho quase annimo do construtor naval Rimandas JonasKriscinas h mais de 30 anos difunde no sul do pas a tcnica dos mestrescarpinteiros navais do Maranho, atraindo encomendas de embarcaesque ajudam a conseguir mais trabalho para manter os estaleiros artesanaisda regio de Cururupu no litoral maranhense.

    So expresses dessa escola de construtores de Cururupu, a escunaTravessia, que foi escolhida recentemente como um dos 20 barcos maisbonitos do pas por uma comisso de especialistas, e publicada pela revistaNutica, ou as recentemente fabricadas escunas Folia de Reis e Yamandu.

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    So trabalhos realizados pontualmente em vrias partes do Brasil. Enfim,uma srie de iniciativas importantes que aconteciam de forma isolada, euma das misses do projeto Barcos do Brasil, atravs do Iphan, estabeleceruma coordenao entre eles e fomentar parcerias que possam permitir atroca de experincias e potencializar seus resultados, padronizando, masrespeitando diversidades e estabelecendo procedimentos, pactos e uma sriede aes integradas que permitam que esse patrimnio naval ou nutico dopas seja doravante preservado.

    Por oportuno, apresentamos aqui uma smula das aes j previstas noescopo do projeto Barcos do Brasil:

    Aplicar o instrumento Paisagem cultural do Brasil para valorizaro contexto socioambiental de pescadores artesanais;

    Estimular a construo de barcos tradicionais em espaos pblicos,em diversas regies do Brasil;

    Buscar parceria e/ou patrocnio dos iates clubes, e associaes ligadasao mar, para o apadrinhamento de barcos tradicionais em todos osestados brasileiros;

    Realizar ou fomentar o estudo de madeiras e materiais alternativospara a aplicao no restauro e na construo de barcos tradicionais;

    Realizar reunio tcnica sobre Conservao de madeiras;

    Participar da reedio de livros sob a temtica do patrimnio naval iniciando por Jangadas, do professor Nearco Arajo, e Velas doRecncavo, de Pedro Agostinho da Silva;

    Investir em educao patrimonial na vertente sobre o patrimnionaval brasileiro;

    Estimular, por todos os meios possveis, o artesanato naval e acapacitao de artesos, mestres e carpinteiros (incluindomonitoramento e incentivo aos modelistas formados pelos doisLiceus de Modelismo Naval, promovidos pelo Museu Nacional doMar);

    Estimular a confeco de barcos de brinquedos flutuantes,reforando o imaginrio ligado aos barcos e ao seu universo;

    Dar continuidade sequncia de Seminrios do Patrimnio NavalBrasileiro.

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    H uma interdisciplinaridade muito grande, que dever ser utilizadanesse processo. Finalizando, vamos citar o que j foi iniciado concretamente:

    Protocolo de intenes assinado com oMinistrio do Meio Ambiente,com o Instituto Chico Mendes, no sentido de se equacionar a questoambiental, do problema da falta de matria-prima;

    O projeto de conservao de barcos ameaados de extino, que oIphan j est financiando, em situao de quase desaparecimento naBahia, no Maranho e em Santa Catarina. De tal forma que, aps arestaurao, o projeto permitir que o barco seja devolvido quelehomem que trabalha com ele. No para ser colocado no museu;

    O inventrio de varredura que o arquiteto Dalmo Vieira realizoupessoalmente, percorrendo todo esse litoral, identificando novosexemplares raros e colhendo manifestaes e diagnsticos quantitativos.

    E, tambm, justo que se revele aqui os investimentos ainda modestos,mas so importantes, pois j servem de modelos para outras aes. ForamR$511.000,00 em 2008 e mais R$673.000,00 em 2009.

    Enfim, j so aes concretas, porque elas so didticas e estimulam aadeso ao processo de recuperao dessa memria, alm dos acordosbilaterais que o Ministrio da Cultura vem costurando com o recm-criadoMinistrio de Aquicultura e Pesca ou com o Instituto Chico Mendes,neste ltimo caso para equacionar a questo das matrias-primas.

    E a esto postos os desafios de incentivar a participao local da qual nose pode prescindir. Os municpios, rgos estaduais, iniciativa privada,organizaes do terceiro setor, buscando sempre a compatibilizao entre osministrios que tm essas interfaces, criando linhas de investimentos parabeneficiar o pescador, que usurio direto das embarcaes de madeira.

    E mais, quase como consequncia, poder-se-ia contar tambm com avocao turstica dos barcos, como alternativa de agregar valor aopatrimnio naval, fomentando aes de gerao de renda, aplicando essaviso sistmica que hoje o Iphan tem com tanta clareza, embalado por umanova gerao de profissionais que chegam com vontade, mas sem esqueceras lies do passado, como procurei demonstrar nesta breve apresentao.

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    PLANOS DE AO PARA CIDADESHISTRICAS

    Yole Milani Medeiros*

    RESUMOO texto fala sobre os Planos de Ao e aponta suas potencialidades para

    a estruturao do Sistema Nacional de Patrimnio Cultural e para aformao da Poltica Nacional. Para que isso, efetivamente, acontea aautora entende como fundamental a consolidao dos Planos de Ao comoinstrumentos compartilhados nas trs esferas, funcionando comoplanejamentos voltados para a preservao do patrimnio cultural. Outrameta o reforo do carter dos Planos de Ao como ferramentas para odesenvolvimento social das cidades histricas. Esses planos foram elaboradosa partir da identificao de 173 cidades que seriam de interesse departicipao no processo, todas com bens tombados, registrados ou emprocesso de tombamento e registro. Os Planos de Ao tiveram xito,sobretudo nas pequenas cidades.

    PALAVRAS-CHAVEPlanos de Ao, Cidades histricas, Potencialidades.

    Houve um trabalho intenso, muito importante para a elaborao doPlanos de Ao nas cidades histricas nesse curtssimo prazo de trs a quatromeses. E foi um trabalho de articulao que, seguramente, ser fundamentalpara a etapa de implantao e gesto desses planos num futuro breve. Aminha apresentao seguir a estrutura de relato, mas no vou descrever aexperincia e sim um trabalho de dois a quatro meses atrs. Tentarei falarsobre o que entendi como principais potencialidades, desafios eparticipaes estratgicas para a formao da poltica nacional e para aestruturao do Sistema Nacional de Patrimnio Cultural, alm de algumasaes em curto prazo para o ano que vem e, at, no prazo de cinco anos.Encerrarei, falando sobre os objetivos para os prximos dois anos. WeberSutti falou com um pouco mais de profundidade sobre os Planos de Ao

    * Coordenadorageral de CidadesHistricas doDepartamento dePatrimnio Materiale Fiscalizao/Iphan

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    na conferncia de introduo, mas achei importante falar de algunsconceitos e objetivos.

    O planos so instrumentos estratgicos integrados das cidades histricas,o que significa que eles tm caractersticas muito peculiares em umhorizonte relativamente curto de quatro anos. Tm esse enfoque doterritrio do qual falamos muito pela capacidade de integrar aes e nodividi-las em setores habitao, sade, etc. , como o planejamentotradicional faz. O que, de sada, j vejo como uma potencialidade. Outracaracterstica foi a dificuldade na elaborao, mas entendo que obtivemosrelativo sucesso no processo de selecionar as aes transformadoras paraaquele territrio e no um rol de aes ideais que passaremos o resto davida tentando implantar sem ter a oportunidade de avaliar sua efetividade.Alm disso, so aes que orientam atuao do poder pblico nas trs esferasdo governo, que considero fundamental para a priorizao do sistema. Semcontar que buscam contribuir para a estruturao das cidades histricas etm como objetivo macro, o desenvolvimento social, atravs daspotencialidades do patrimnio cultural.

    Uma considerao importante a destacar: o Plano um instrumento deplanejamento em construo. Sem entrar em grandes teorias doplanejamento, mas importante lembrar que o planejamento estratgico,nessa ltima verso, tem origem na iniciativa privada, mais precisamente,na escola de economia de Harvard. Precisa sofrer algumas readequaesquando transportado para a esfera pblica. Parte do trabalho executadopelo poder pblico, pelo ambiente pblico, que tem mais chance de exporconflitos, de trazer tona diversos interesses diferentes do ambiente privadoque tem um objetivo nico. Os Planos de Ao como instrumento deplanejamento estratgico tm de se adequar nossa obrigao como entespblicos e dar transparncia a nossas aes. Isso quer dizer que no somentena elaborao, mas na execuo, acompanhamento e reviso.

    Falarei brevemente sobre o processo de elaborao. Houve a identificaode 173 cidades de interesse para o processo, e o critrio especificado noedital de chamada pblica foi que essas cidades deveriam apresentar benstombados, registrados ou em processo de tombamento e registro. importante dizer que, hoje, temos 82 cidades histricas tombadas. Ento,de sada, j estamos trabalhando com o dobro do universo hoje tratado peloIphan. A adeso inicial dessas 173 foi de pouco mais de 90%. Quase dois

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    teros concluram a parte documental do processo. Foi um processo rpidoque aconteceu entre agosto e dezembro deste ano.

    Quanto distribuio de bens que temos hoje, a participao dosmunicpios por regio de 35% do Sudeste, 16% do Sul, 28% do Nordeste,15% do Norte, e 6% do Centro-Oeste. a distribuio das cidadesparticipantes desse curto processo de elaborao, somados ao trabalhomuito maior que o anterior de articulao.

    O que conseguimos enxergar como potencialidades para formao daPoltica Nacional e estruturao do Sistema Nacional que os Planos deAo so instrumentos de monitorao e de avaliao das polticasfundamentais, porque eles conseguem se adaptar aos programas das cidades.O planejamento estratgico muito querido pelos planejadores urbanos,justamente por que ele consegue se adaptar.

    Outra potencialidade o horizonte de execues que, normalmente, muito curto e vivel na esfera pblica porque chama os agentes, a sociedadecivil, a iniciativa privada e outras organizaes pblicas para participar daimplantao e reviso do processo. O acompanhamento e o monitoramentoso prioritrios para a avaliao em si. No quero desanimar ningum quese apressou para concluir o trabalho nesses trs, quatro meses. Mas creioque a fala da representante da cidade de Havana Velha foi muito felizquando esse assunto veio tona. Ela comentou que o projeto de reabilitaode Havana Velha nunca foi entregue populao, obviamente, no por faltade respeito aos moradores, mas porque sempre houve uma poro demudanas, muitas vezes estruturantes, polticas, econmicas, enfim, queobrigaram a reviso do plano, no necessariamente das suas metas, mas daforma de alcanar essas metas, ou seja, nas aes especficas.

    Podemos, ainda, falar do Plano de Ao, sem dvida alguma, comopotencial de trabalho por meio da articulao realizada at agora, entre assuperintendncias estaduais do Iphan e os governos estaduais. Efetivamente,trata-se de um processo dinmico e efetivo a aproximao das nossassuperintendncias com os municpios brasileiros. Isso nos leva a crer que asparcerias so estratgicas para alcanarmos as prioridades. Essa formacoordenada de trabalho adotada pelo Iphan e por suas superintendnciasestaduais dever se consolidar at mesmo naqueles Estados onde tal prticaainda no to disseminada.

    Isso muito varivel, pois os governos estaduais tm uma capacidade de

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    estrutura instalada que, por vezes, o municpio no tem, ou o prprioIphan, quando se trata de escritrios tcnicos que tambm no dispem daestrutura de recursos humanos necessria. E, especificamente, foi possvelperceber que o centro da articulao a Superintendncia do Iphan e nosua rea central que tem, a meu ver, um papel preponderante na consertaodas polticas de desenvolvimento hoje em processo.

    Ao vislumbrar o desenvolvimento social e econmico das cidadeshistricas como objetivo maior dos Planos de Ao percebe-se ainternalizao de algumas propostas hoje em curso no Iphan,principalmente no Depam. Assim, coloca-se como desafio a necessidade deintegrao entre a fase de elaborao e a de execuo dos Planos de Ao.Isso ainda no foi possvel ser realizado, mas tenho certeza que vivel. Eeu vejo isso na proposta das redes de patrimnio, porque elas so um critriopara a insero de novas cidades no Sistema Nacional.

    Os Planos de Ao conseguem traduzir a leitura da cultura no territrionacional na proposta que est sendo elaborada atravs de abordagenstemticas e processos econmicos como os da borracha, do caf, etc. Sotemas que o brasileiro consegue perceber e seria muito importanteprotegermos no espao, enfim, no patrimnio material nacional. O queacontece que nem todas as cidades identificadas nesse estudo soprotegidas ou apresentaram interesse pelo tema. Ento, h um esforo deaproximao com essas cidades, da mesma forma que a internalizao dasredes de patrimnio pode promover outras polticas de desenvolvimento. Oprprio Ministrio da Integrao Nacional, que convidamos para participardeste Frum, e outros rgos federais no tm essa atuao regionalizada emgrande escala, que transcende os limites de Estado muitas vezes, e tambmtm esse mesmo entendimento da leitura conjunta do territrio,caractersticas culturais, sociais, econmicas, fator importante para essedilogo poltico.

    Obviamente, minimizar redundncias, sobreposies, aes einvestimentos de recursos humanos e materiais que o poder pblico vemfazendo com o desenvolvimento. Tambm vejo como um desafio e tenhode admitir que a anlise no foi feita com a profundidade merecida, mas possvel ampliar a participao pblica no processo. Houve muitaaproximao entre o Iphan e os governos estaduais e municpios, mas aindah um passo adiante.

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    Ns, do Desenvolvimento Urbano e do Patrimnio Cultural,seguramente, temos de trabalhar com o ente privado. Porque ele altera todaa configurao, especialmente, em se tratando de cidades histricas.Acredito que nem preciso dar grandes justificativas. um agente presenteque precisamos convidar discusso e execuo de aes da mesma maneira.Principalmente pela necessidade da transparncia de nossas aes, fundamental que chamemos a sociedade civil em todas as etapas doprocesso.

    Um desafio que julgo importante avaliar o Plano de Ao na suacapacidade para buscar o desenvolvimento social. Ele um instrumentopossvel de ser aprimorado na busca desse objetivo maior. Acredito que nopodemos perder de vista a efetividade dessa inteno maior que odesenvolvimento das cidades. No processo, acho que, especificamente, necessrio para a consolidao dessas parcerias e para o desenvolvimento.Isso est relacionado com as polticas regionais, que eu j havia comentado,de alguns parceiros em nvel federal e estadual. E eu acho possvel quereforcemos essa parceria, ainda para as aes futuras.

    Concluindo, como a proposta era trabalhar num horizonte curto paraestabelecimento de objetivos, selecionei apenas dois, sou favorvel a poucase boas atividades, em detrimento de uma relao extensa, impossvel de serconcretizada. Considero importantssimo que consolidemos os Planos deAo como instrumentos compartilhados nas trs esferas, planejamento essevoltado para a preservao do patrimnio cultural e que precisa serinternalizado em cada um dos agentes. No um trabalho fcil, no s parao Iphan, mas seguramente para os municpios e Estados, alm da iniciativaprivada e sociedade civil, e emergencial. O segundo objetivo diz respeitoao reforo do carter dos Planos de Ao como instrumentos para odesenvolvimento social das cidades histricas.

    A partir das potencialidades do patrimnio cultural possvel ter umacompanhamento para verificar se estamos efetivamente avanando ou no.Entretanto, necessrio que se consiga vencer o desafio de indicadoresapropriados e ter clareza do alcance desse objetivo de desenvolvimentosocial, que no se d em dois anos. Ou, se teremos de escolher outrasestratgias ou at mesmo para elaborao dos Planos. Entendo comoimportante fazer uma anlise desses indicadores das aes levantadas, epossibilitar adequaes, se for o caso, no perdendo de vista o objetivomaior de todo o trabalho.

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    PLANOS DE AO E OS DESAFIOSDOS MUNICPIOS

    Alexandra Moreira Carvalho Gomes*

    RESUMOA autora fala sobre os Planos de Ao dos municpios e os define como

    um instrumento que identifica problemas e potencialidades para definirobjetivos e prioridades comuns. Por isso v extrema importncia naintegrao entre os entes da federao, a sociedade civil organizada e ainiciativa privada para propor e implementar aes que visem revitalizaoe proteo do patrimnio histrico. Chama ateno para a necessidade dedespertar os municpios para a participao efetiva nesses planos e defendeuma campanha de conscientizao e mobilizao das cidades, alm dacapacitao tcnica.

    PALAVRAS-CHAVEPlanos de ao, Integrao, Gestores de cultura.

    Tenho formao na rea jurdica; no municpio sou funcionria pblicaconcursada e estou frente da Fundao Cultural de Quissam h mais oumenos dois anos. Gostaria de destacar a importncia deste I FrumNacional do Patrimnio Cultural. Nunca antes na histria do nosso pas sefalou e se cuidou tanto dessas questes. Tnhamos o Iphan como um rgotombado, com aquele h no meio, como algo inacessvel e, hoje, temosuma realidade muito diferente. Gostaria, portanto, de parabenizar opresidente, Luiz Fernando de Almeida, atravs de Weber Sutti.

    Quando fui convidada para falar sobre os Planos de Ao, e vou me aterao tema, achei por bem fazer um relato pessoal do quanto importanteassumir o nosso papel nesse processo. Porque, nos vrios encontros que vou,ou que estou com gestores de cultura, vejo a ausncia de representantes dosmunicpios, dos Estados, e tambm da iniciativa privada, enfim, dasociedade civil organizada questionando o que o Governo Federal faz, oque o governo pode fazer e o que ele fez at ento. Acredito, no entanto,

    * Presidente daFundao Culturalde Quissam (RJ)

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    que a responsabilidade maior nossa, dos gestores de cultura. Quantosgestores de cultura tm aqui, hoje? Encaramos o Plano de Ao, como uminstrumento que identifica problemas e potencialidades para definirobjetivos e prioridades. Para tanto, integra entes da federao, a sociedadecivil organizada e a iniciativa privada com o objetivo de propor eimplementar aes que visem revitalizao e a proteo do patrimniohistrico. O desafio a palavra-chave, estar neste frum discutindoestratgias e experincias de uma nova gesto. importante despertar osmunicpios, porque cabe a eles a realizao dos planos e o desenvolvimentode aes conjuntas em cada governo, diretamente, envolvidas com as aespropostas no Plano. Da, a nossa atuao na mobilizao das nossas cidades,dos conselhos municipais de cultura, da sociedade civil organizada, dosvrios segmentos e associaes de moradores.

    Para a implementao dos Planos de Ao, ns vamos, necessariamente,precisar desses parceiros, precisamos da chancela dos conselhos constitudos,dos conselhos de patrimnio histrico, dos conselhos comunitrios e dosconselhos representativos. Em Quissam, a partir de todo esse fomento, detodo esse trabalho em prol do patrimnio foi criado o Fundo doPatrimnio. A prpria Fundao de Cultura com certa autonomia cuidoudessa questo, como disse o prefeito da cidade. Essa no a realidade detodos os municpios deste pas. E eu aqui no estou para fazer choror, atvivemos uma realidade diferenciada em Quissam que beneficiada pelosroyalties do petrleo, muitos de vocs sabem disso, mas existem gestores decultura que, s vezes, esto ligados a uma Secretaria de Educao, nodispem de carro, e quando o prefeito resolve contingenciar uma secretaria,escolhe a Secretaria de Cultura e desfalca todas as verbas.

    Ento, preciso fazer essa mobilizao. Primeiramente, conseguirconscientizar o gestor, o prefeito, da importncia de investir em patrimniocultural j uma tarefa rdua. E, depois, mobilizar toda a sociedade, todosos conselhos para que haja uma participao efetiva algo mais complicadoainda, mas necessrio porque essa a proposta do Sistema Brasileiro dePreservao: mapear todas as cidades, as suas potencialidades, enfim, acontrapartida que ns temos de dar.

    Falando das etapas, uma delas a realizao de um diagnstico dasituao local, pois a partir dele possvel definir os objetivos das aes, aslinhas de aes elegveis e quais as suas proposies. E, finalizar, com aconsolidao dos acordos de preservao que a pactuao desse projeto.

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    Priorizar as linhas de aes elegveis foi a maior dificuldade encontradapelos responsveis pela elaborao dos Planos de Ao, pois cada qual vivee elege suas prioridades, e querem sempre que as suas aes sejamencampadas pelo Instituto. E, eleger prioridades complicado. O que prioridade? preciso conversar com a sociedade civil e com os conselhos.Por exemplo, a banda vai dizer que a sua prioridade que o Iphan areconhea; espera que o municpio lhe passe a subveno, ento, difcil opapel do gestor nesse momento.

    A etapa mais importante e mais difcil a arregimentao dos tcnicos,tambm, em nvel governamental. Ns sabemos que todos os entes dafederao tm dificuldades, seja com pessoal e sua movimentao por causada prpria geografia do Estado do Rio de Janeiro. A cidade de Quissam ficaao norte do Estado, na divisa com Campos. A distncia entre Quissam eo Rio de Janeiro de 400 km. Para ns, estar na Secretaria Estadual deCultura muito difcil. Enfrentamos dificuldade semelhante para nosreunirmos com os tcnicos do Iphan, pois sua unidade mais prxima estsituada em Cabo Frio. Em situaes assim, vale a capacidade tcnica daequipe e do gestor, de articulao que esses rgos tm. E, em particular, nocaso do nosso entrosamento com o Instituto Estadual de PatrimnioCultural Inepac e com o Iphan. Na cidade, existem cinco bens tombadospelo Inepac e nenhum pelo Iphan. Por isso, estou muito feliz por estar aquifalando sobre o Plano de Ao. Eu falo a respeito de uma cidade sempatrimnio tombado pelo Iphan, onde existe a estao Conde de Araruamacuja cesso pela Secretaria de Patrimnio da Unio SPU s ocorreu graasao esforo e intervenincia do Iphan. A tramitao do processo para seconseguir a posse da estao demorou um ano.

    E, agora, o Iphan sinaliza com a possibilidade de fazer a interveno na estaode Conde de Araruama. E, tambm, com a possibilidade do tombamento daUsina de Quissam, primeiro engenho central de acar da Amrica Latina,inaugurado em 1877. Enfim, importante dizer para os gestores que se trata deuma atitude maravilhosa e eficiente direcionar essas aes para integrarmunicpios que no abrigam patrimnio tombado pelo Iphan.

    Muito se fala que o turismo no tudo. Mas, em Quissam o turismo muita importante. A cidade no recebia visitantes; toda a visibilidade doEstado do Rio de Janeiro se concentra na sua capital e, principalmente, osmunicpios do norte e noroeste do Estado, por anos, foram relegados aoesquecimento.

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    A partir da implementao de todo esse projeto a cidade mudou. E oturista para ns representa desenvolvimento econmico e gerao deemprego e renda; significa a autoestima da comunidade quilombola quehabita o municpio de Quissam e que vivia nas antigas senzalas, quase emrunas, da Fazenda Machadinha. Na dcada passada as instalaes dafazenda passaram por uma ampla reforma e foram transformadas emComplexo Cultural. Os descendentes de escravos ainda moram nas senzalasonde mostram a fora viva da sua herana cultural, atravs de suas festas,arte e tradies. Vocs no tm ideia do quanto isso representa para acomunidade quilombola de Machadinha. Estar ali, ser fotografado, serretratado, contar a sua histria, e a de seus antepassados. Isso muitoimportante para ns gestores de cultura. O turismo, em alguns lugares vital.

    Somente atravs da cultura e do trabalho de educao patrimonial quepodemos chegar a resultados como este. Em relao aos Planos de Ao,gostaria de dizer que tivemos sim, dificuldades no preenchimento dasplanilhas. Na verdade, um trabalho exaustivo, mas que no vai se exaurirnesse primeiro momento. Tem um segundo momento que a identificaoe a implementao. Enfim, colocar em prtica tudo que foi idealizado, masesse momento foi um grande passo para a histria do nosso pas, do nossoestado.

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    SISTEMA NACIONAL DEPATRIMNIO CULTURAL (SNPC)

    ESTRUTURA E FORMAS DE FUNCIONAMENTOCoordenador:Weber Sutti (Iphan)

    Relatora: Otilie Macedo Pinheiro (consultora Iphan)

    COMUNICAESA experincia do SUS e os desafios para o SNPC, Adson Frana(Ministrio da Sade)

    Mobilizao social para o SNPC,Mara Rgia Di Perna (Empresa Brasilde Comunicao)

    Desafios para o SNPC, Frederico Barbosa (Instituto de PesquisaEconmica Aplicada - Ipea)

    Projeto Barcos do Brasil, Luiz Phelipe Andrs (Estaleiro Escola/CentroVocacional Tecnolgico - CVT)

    Planos de ao para Cidades Histricas, Yole Milani Medeiros (Iphan)

    Planos de ao e os desafios dos municpios, Alexandra Moreira CarvalhoGomes (Fundao Cultural de Quissam/RJ)

    RELATO

    DESAFIOS PARA A FORMULAO DA POLTICA NACIONAL

    Elaborar, aprovar e regulamentar lei que estabelea a poltica(objetivos e diretrizes) e o sistema (estrutura, mecanismos dearticulao dos atores, competncias e responsabilidades,instrumentos, mecanismos de controle e auditoria, fontes de fomentoe formas de repasse de recursos, penalidades pelo no cumprimento);

    Ampliar o conceito de patrimnio (abarcar aspectos quecontemplem diversidade, territrio, redes);

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    Considerar os diferentes portes de populao e de capacidade dosmunicpios e as diversidades regionais e locais;

    Despertar no gestor municipal o interesse pelo patrimnio, e aprtica da ao integrada e participativa.

    DESAFIOS PARA A ESTRUTURAO DO SNPC

    Superar a fragmentao/segmentao das redes de patrimnio (rededispersa, muitos agentes, interesses corporativos);

    Estabelecer mecanismos estveis de interdependncia, pactuao ecoordenao entre gestores pblicos dos trs nveis de governo;

    Conciliar descentralizao com capacidade de reduo de desi-gualdades regionais;

    Instituir indicadores e instrumentos de monitoramento e avaliaoque se adaptem dinmica das cidades.

    POTENCIALIDADES PARA A FORMULAO DA POLTICA EESTRUTURAO DO SNPC

    A existncia das 27 superintendncias estaduais;

    A existncia de instituies de gestores (Frum de SecretriosEstaduais de Cultura, Associao de Cidades Histricas, etc.) e canaisde integrao de atores (redes do patrimnio cultural, conselhosmunicipais de cultura, fruns regionalizados);

    A experincia do PAC Cidades Histricas: a concepo do Plano deAo; 162 municpios e vrios Estados envolvidos; Planos de Aopactuados e que integram os diversos temas no territrio.

    PARCERIAS ESTRATGICAS PARA A FORMULAO DA POLTICA E DOSISTEMA NACIONAL

    Os fruns de gestores (ABCH, FNSEC);

    Conselhos Municipais e Estaduais de Cultura e/ou PatrimnioCultural;

    Entidades associativas municipais e regionais;

    Canais de comunicao (rdios);

    Universidades e Centros de pesquisa.

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    AES ESTRATGICAS QUE DEVEM SER IMPLEMENTADAS NOSPRXIMOS CINCO ANOS (2010-2014)

    Fortalecer a prtica de ao integrada no territrio;

    Aprovar e regulamentar a Proposta de Emenda Constituio(PEC) 150 definindo objetivos, critrios operacionais e de alocaodos recursos;

    Estabelecer uma Agenda Nacional (nos moldes do pacto da vida SUS);

    Estabelecer um Pacto de Gesto indicadores e metas a cada doisanos em todas as reas;

    Ampliar a capacidade do Estado para realizao de polticasfederativas: fortalecer a prtica do planejamento compartilhado emcada uma das esferas de governo e entre elas;

    Definir espaos territoriais de identidade cultural que englobamdiversos municpios por meio consrcios pblicos;

    Estabelecer mecanismos estveis de pactuao (interdependncia ecoordenao) entre gestores pblicos dos trs nveis de governo:reunies anuais com a Associao das Cidades Histricas, fruns doSNPC a cada dois anos;

    Consolidar e articular as redes e atores que atuam no patrimniopor meio de canais de participao estveis (ex. fruns estaduais,Cmaras Setoriais e/ou Regionais para subsidiar e monitorar aimplantao das polticas temticas);

    Articular e implementar de um plano de comunicao para o setorcom destaque para as cidades histricas;

    Estruturao de um sistema de informaes que favorea aintegrao e o acesso presencial e remoto s fontes de informao deinteresse do patrimnio cultural;

    Estabelecer programas de qualificao e capacitao: tcnicos egestores pblicos dos trs nveis de governo; setor empresarial;diversos atores que atuam na rea do patrimnio (investir naqualificao distancia para cobrir o territrio nacional);

    Implantao de um programa de educao patrimonial direcionado sociedade e s escolas.

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    AES ESTRATGICAS QUE DEVEM SER IMPLEMENTADAS EM 2010

    Elaborao e aprovao da Lei da Poltica e do Sistema Nacionaldo Patrimnio Cultural;

    Definir normas operativas para ajustar comportamento dos agentespara atender as diretrizes da Poltica;

    Elaborar cadastro nacional de entidades e atores que atuam nopatrimnio cultural.

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  • I Frum Nacional do Patrimnio CulturalSISTEMA NACIONAL DE PATRIMNIO CULTURAL:

    DESAFIOS, ESTRATGIAS E EXPERINCIAS PARA

    UMA NOVA GESTO - OURO PRETO - MG | 2009

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    VOLUME 1

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