Ambrose Bierce - Visões da Noite

Download Ambrose Bierce - Visões da Noite

Post on 31-Dec-2015

63 views

Category:

Documents

0 download

TRANSCRIPT

  • Ambrose Bierce

    Vises da noitehistrias de terror sarcsticoOrganizao e traduo

    Helosa Seixas

    1999/2011

  • 3/476

  • CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editoresde Livros, RJ.

    Bierce, Ambrose, 1842-1914?

    B487v Vises da noite / Ambrose Bierce; organizao

    e traduo Helosa Seixas; ilustraes Mozart

    Couto. - Rio de Janeiro: Record, 1999.

    ISBN 85-01-05524-7

    1. Conto norte-americano. I. Seixas, Helosa,

    1952- . II. Ttulo.

    99-0196 CDD-813 99-0196

    CDU - 820{73)-3

    Copyright 1999 by Helosa Seixas

  • 5/476

  • Sumrio

    Personagem de si mesmo: O MISTERIO DEAMBROSE BIERCE

    Um incidente na ponte de Owl Creek

    Naufrgio virtual

    Luar sobre a estrada

    Aparies

    O que era?

    Testemunha de um enforcamento

    Mensagem sem fio

    Priso

  • A alucinao de Staley Fleming

    Diagnstico da morte

    O ambiente adequado

    Um dos gmeos

    No limiar do irreal

    Casas espectrais

    A janela fechada

    A Ilha dos Pinheiros

    Misso no cumprida

    A videira

    Na casa do velho Eckert

    Os outros hspedes

    7/476

  • A casa assombrada

    Os olhos da pantera

    O segredo da Ravina Macarger

    O homem saindo do nariz

    A morte de Halpin Frayser

    Cruzando o umbral

    Um habitante de Carcosa

    A dificuldade de atravessar um campo

    Corrida inacabada

    O rastro de Charles Ashmore

    A cincia frente

    Vises da noite

    8/476

  • 9/476

  • Personagem de si mesmo:O MISTERIO DEAMBROSE BIERCE

    Heloisa Seixas

    Ele era louro, alto, bonito e as mulheresconsideravam-no irresistvel. Dizem at que tinhasido to bem-dotado pela natureza que jamais sedesnudava diante de uma mulher para noassust-la. Era agnstico, ateu, herege, ou comovoc queira chamar aqueles que descrem detudo. Sarcstico ao extremo, dedicou boa parte davida a cultivar inimizades graas a sua atividadede jornalista, profisso que exercia despejandoveneno a granel. Era um crtico feroz, inteligentee incansvel e por isso intensamente odiadopor muitos. "Minha independncia meu

  • patrimnio. minha literatura", dizia. "Escrevopara agradar a mim mesmo, no importandoquem saia ferido.

    Quem diria que uma pessoa assim descrente, mordaz e extremamente envolvidapelos prazeres da carne fosse dedicar-se a es-crever histrias assombradas? Pois foi o queaconteceu. Embora tenha ficado famoso por seustextos jornalsticos e pelo humor sardnicopresente em obras como o Dicionrio do diabo,Ambrose Bierce hoje considerado um dosmestres da literatura de horror americana, juntocom H. P. Lovecraft e, claro, Edgar Allan Poe.

    Mas a verdade que Ambrose GwinettBierce j nasceu cercado pelo mistrio. E pelohumor negro. Sua famlia era um tanto excntricae a casa onde veio ao mundo em Ohio,

    11/476

  • Estados Unidos, em 24 de julho de 1842 tinha,dizem, uma atmosfera macabra. Seu pai, MarcusAurelius Bierce, j era um sujeito estranho. Dom-inado pela mulher, fantico religioso e apaixon-ado por poesia, deu a todos os filhos (Bierce erao dcimo) nomes que comeassem com a letra'A'. No caso de Bierce, o nome do meio, Gwinett,teria sido acrescentado em referncia a AmbroseGwinett, personagem de uma pea de teatromuito popular no incio do sculo XIX e que erauma histria de crime (tendo seu nome ligado auma histria assim, no seria esse o crime ances-tral de que como veremos adiante nos falaBierce em seus pesadelos?). Mas as excentricid-ades da famlia Bierce no param por a.

    Os trs irmos que nasceram depois deBierce morreram e ele ficou sendo o caula.

    12/476

  • Quando cresceram, seus nove irmos mais velhosse dividiram em grupos antagnicos, que seodiavam, e o ambiente em casa era de guerraaberta e permanente. A certa altura, um dosirmos se rebelou contra o fanatismo religioso dafamlia e fugiu para ser artista de circo. Uma dasirms, ao contrrio, assumiu tanto esse fanatismoque foi ser missionria na frica, onde teria sidocomida por canibais. Por pouco no aconteceu omesmo com um tio de Bierce, Lucius Verus, quefoi em expedio ao Canad para libertar os ndi-os do jugo britnico e, depois de tomar a cidadede Windsor, viu acontecer o que menos esperava:os ndios se voltaram contra ele e Lucius Verusprecisou sair corrido dela.

    Esse tio aventureiro, apesar de meiodoido, foi uma das figuras que mais

    13/476

  • influenciaram Bierce em sua infncia e juven-tude. Lucius Verus percebeu que o jovem Am-brose, alm de bonito e charmoso, com seus ol-hos azuis e o cabelo louro-avermelhado, era tam-bm dono de uma inteligncia excepcional. Porisso, desde muito cedo tomou conta do rapaz,dando-lhe conselhos e livros. Quando ele tinha15 anos, Lucius Verus, talvez prevendo a eclosode uma guerra nos Estados Unidos, mandou-opara o Instituto Militar de Kentucky. L, Biercemostrou grande interesse pelo treinamento milit-ar, mas descobriu tambm seu talento como car-tunista. E o fato que, ao deixar Kentucky, emvez de voltar para a casa dos pais, foi trabalharno jornal de uma cidadezinha de Indiana.

    Em 1861, quando tinha 18 anos, Bierceatendeu ao primeiro chamado do Presidente

    14/476

  • Abraham Lincoln e alistou-se no 9o Regimentode Indiana. Logo estouraria a Guerra Civil. Foiquando ele teve a chance de se transformar numheri e o fez. Sua passagem pela vida militarfoi algo sensacional. Corajoso, os perigos dasbatalhas nada significavam para ele. E, como to-mava decises rpidas, com seriedade econscincia, destacava-se dos demais soldados,inseguros e indecisos. Durante uma batalha naVirgnia, salvou um companheiro ferido em meioao fogo cruzado, o que lhe valeu, apenas trsmeses depois de alistar-se como voluntrio, a pat-ente de sargento. Seguiram-se trs anos debatalha durante os quais Bierce se destacou devrias maneiras, at chamar a ateno do generalWilliam Hazen, que se transformaria numafigura-chave em sua vida. Hazen, percebendo ovalor de Bierce (que ento j era segundo-

    15/476

  • tenente), promoveu-o a primeiro-tenente enomeou-o para uma das misses mais perigosasda guerra: fazer reconhecimento de campo antesdas batalhas. Bierce ainda no completara 21anos.

    A nova funo agradou ao rapaz porvrias razes: primeiro, era um trabalho solitrio.Segundo, inclua a feitura de mapas e a redaode relatrios, tudo com rapidez e exatido, j queeram vidas que estavam em jogo. E foi assim queBierce trabalhou em perigosas misses de recon-hecimento nas campanhas do Tennessee, deChattanooga e de Atlanta, at o dia 23 de junhode 1864 (ia fazer 22 anos dali a um ms) quando,na batalha da montanha de Kenesaw, recebeuuma bala na cabea.

    16/476

  • "A bala rachou meu crnio como sefosse uma casca de noz", diria ele mais tarde,com seu habitual humor. Por sorte, Bierce foi res-gatado com vida e conseguiu sobreviver ao feri-mento. Convalescente, foi mandado para juntodos pais, Mas, assim que se recuperou depoisde meses tendo "brancos" e sentindo tonteiras ,voltou ativa, servindo na Gergia at que aguerra terminou, em abril de 1865. E dessa vezno voltou para casa. Seus pais nunca mais torn-ariam a v-lo.

    Depois de trabalhar durante um ano nareconstruo do Sul, foi novamente chamadopelo general Hazen que, em tempos de paz, tinhasido incumbido de explorar e mapear o Oeste e oqueria como seu assistente tcnico. Feliz da vida,Bierce aceitou.

    17/476

  • E, assim, embrenharam-se pelo VelhoOeste, atravessando o territrio dos ndios Sioux.Na mesma poca, o general Hazen fez uma re-comendao formal para que Bierce, at entoapenas um oficial voluntrio fosse aceito comooficial do Exrcito Regular americano. Mas, de-pois de muitas aventuras, quando finalmentechegaram a So Francisco, no fim de 1866,descobriram que Bierce havia sido aceito noExrcito Regular, s que com a patente reduzidapara segundo-tenente. E sem perspectiva de umapromoo to cedo. Embora adorasse o trabalho,era uma situao humilhante. Bierce fez cara oucoroa para decidir se aceitaria ou no. Jogou amoeda para cima para ver se ficaria com a pat-ente inferior ou se iria para a vida civil, a fim deexercer a nica profisso sobre a qual tinha ummnimo de conhecimento o jornalismo. A

    18/476

  • moeda decidiu jornalismo e Bierce aceitou overedicto. Quarenta anos depois, ele diria: "Amoeda estava certa.

    "Escrevo para as almas iluminadas quepreferem os vinhos secos aos doces, a razo aossentimentos, a sagacidade ao humor e o inglspuro s grias." Essa uma frase tpica do jor-nalista Bierce, que comeou trabalhando para umsemanrio, o San Francisco News Letter andCommercial Advertiser. Em pouco tempo,tornou-se editor e titular de uma coluna, na qual,desde o incio, j exercitava o sarcasmo e a crt-ica, que seriam suas marcas.

    Com os donos de jornais a favor da teor-ia de que violncia aumentava as vendas, muitosarticulistas atrevidos eram perseguidos e espan-cados pelo que escreviam, sendo s vezes

    19/476

  • obrigados a deixar a cidade. Bierce, nesse inciode carreira, escrevia com veneno e brutalidaderaramente superados na histria do jornalismoamericano (embora muito imitados). Havia quemapostasse sobre sua longevidade. Mas o fato que, de novo, ele sobreviveu.

    Independente e dizendo o que queria,mantinha com o dono do jornal, Fred Marriott,uma relao de respeito mtuo e este ltimo ja-mais lhe dava ordens, apenas sugestes. A par-ceria deu certo, o jornal vendeu mais e Biercecomeou a ganhar dinheiro a ponto de reuniras condies para se casar. Em 1871, casou-secom Molly Day, uma jovem da sociedade de SoFrancisco, cujo pai, rico, financiou a ida dojovem casal para Londres, onde passariam umalonga temporada. A inteno de Bierce era ser

    20/476

  • escritor, mas as dificuldades eram muitas e, em1875, ele acabou voltando para So Francisco,trazendo na bagagem muita experincia e umaforte reputao, mas sem emprego vista.

    Nos anos que se seguiram, chegou apensar em largar o jornalismo e trabalhou comogerente de uma mina de ouro, aderindo febre dabusca fortuna fcil, mas sua participao naCorrida do Ouro deu em nada e, depois disso,nunca mais ousou desobedecer moeda de seudestino. Acabou tornando-se editor-chefe daWasp, uma revista de poltica e humor, ondeficou de 1881 a 1886, desenhando charges polt-icas, escrevendo editoriais arrasadores e atirando,em todas as direes, seu sarcasmo impiedoso.Foi um perodo produtivo e brilhante, mas, emsua vida particular, as coisas no andavam muito

    21/476

  • boas. J era, ento, pai de trs filhos, dois meni-nos e uma menina, mas estava mal de finanas(seu sogro tinha falido), bebia muito e brigavacada vez mais com a mulher, de quem acabaria seseparando.

    Foi por essa poca, j com mais de 40anos, que Bierce comeou a escrever fico.Escreveu principalmente contos de horror, dehumor, de guerra , reiterando na prtica aquiloque afirmava em suas crticas literrias: que umromance apenas uma maneira mais fcil de es-crever um conto. Mantendo uma pitada de de-boche mesmo nas histrias mais aterrorizantes(quase podemos ouvir sua risada por trs dasfrases), escreveu tambm poemas e fbulas,tendo comeado, em 1881, a preparar o Di-cionrio do diabo, em que demolia conceitos, de

    22/476

  • A a Z, com sua viso cnica e debochada domundo.

    Um dia, em 1887, como ele contaria de-pois, um jovem bateu sua porta: era WilliamRandolph Hearst, na poca com 24 anos, queacabara de receber das mos do pai o jornal Ex-aminer e vinha convidar Bierce para trabalharcom ele. Era o incio da uma parceria que durariavinte anos e marcaria de forma definitiva ahistria do jornalismo americano Hearst,como se sabe, seria o modelo usado por OrsonWelles em seu filme Cidado Kane. Duranteaquelas duas dcadas, Bierce e Hearst chegarama se odiar, mas de alguma forma continuaram tra-balhando juntos, pois a virulncia do primeiroservia aos interesses do segundo. Bierce nopoupava ningum: polticos, prostitutas,

    23/476

  • feministas, escritores que considerava medocres,fazendeiros, sindicalistas, jornalistas opositores eamigos com quem tivesse brigado. Quando deix-ou So Francisco e foi trabalhar em Washington,houve quem dissesse que se mudara para fugirdos inimigos.

    Apesar do olhar intenso, Bierce era umhomem de fala mansa, que se tornava cada vezmais suave medida que ia ficando furioso.Aqueles que o conheciam apenas pelo que liamno jornal, ficavam muitas vezes surpresos comsuas maneiras gentis e chegavam a encantar-secom ele, embora, claro, passassem a odi-lo as-sim que o contato pessoal se aprofundava umpouco. Trs homens que conviveram com Biercee escreveram perfis dele Adolphe de Castro,George Sterling e Walter Neale traaram

    24/476

  • retratos to diversos que difcil acreditar que es-tivessem falando do mesmo homem. Bierce eraum solitrio. Capaz de chutar um cachorro queaparecesse na sua frente porque odiava seuslatidos, seu cheiro e sua vulgaridade , podiapor outro lado comover-se com pequenas cri-aturas indefesas, acolhendo filhotes de pssarosque no conseguissem voar e at ratinhosdoentes.

    No jornal, mantinha sobre sua escrivan-inha um crnio humano e uma caixa de charutos.Quando perguntado sobre aqueles objetos, diziaque o crnio era o que restara de um velhoamigo, enquanto a caixa guardava as cinzas deum crtico rival. E falava isso sem rir. Era con-hecido em So Francisco como "the bitterBierce" (o amargo Bierce) e entre seus desafetos

    25/476

  • para citar apenas os da rea literria es-tavam figuras como Henry James e Jack London.

    Mesmo na vida pessoal, era capaz daspiores vilanias quando queria atingir seus objet-ivos, embora fosse corretssimo em questesfinanceiras. Conta-se que, ao saber que seu filhomais novo pretendia casar-se com uma moa quedesaprovava, Bierce teria acabado com os planosdo rapaz inventando que a moa era sua irmilegtima. Com tudo isso, evidente que era cadavez mais odiado. E comeou a receber o troco.Houve quem o acusasse de ter sido o principalculpado pelas tragdias que abateram sua famlia.E no foram poucas. Seu filho mais velho morreuassassinado. Alguns anos depois, o mais jovemmorreu de alcoolismo. A mulher o largou e, porcausa da separao, Bierce nunca mais viu a

    26/476

  • filha. Albert, nico irmo com quem continuavase relacionando, morreu pouco depois de receberuma carta em que Bierce o desancava, pro-vocando comentrios de que as palavras rudes otinham matado de desgosto. Bierce era cruel atconsigo mesmo. Sofria de asma e mergulhavacada vez mais fundo no alcoolismo, tendo sofridopelo menos um ataque de delirium tremem.J no escrevia fico (seus ltimos contos datamde 1896) e fechava-se cada vez mais em simesmo, com seu temperamento irascveltornando-se intolervel at para os amigos maischegados e mais pacientes.

    At que, no vero de 1913, aos 71 anos,velho, amargo e doente, mas ainda uma lendaviva, Ambrose Gwinnett Bierce armou a cena fi-nal em que escaparia da civilizao que tanto

    27/476

  • detratara. E, em algum lugar do Mxico nin-gum sabe exatamente onde, nem quando, nemcomo , viu-se frente a frente com a person-agem que era uma de suas obsesses: a morte.

    Em muitas de suas histrias, Bierce jparecia farejar essa morte. Em seus contos dehorror, ele tem alguns temas recorrentes: umhomem caminha sozinho, geralmente noite,num descampado ou numa floresta, sem saberbem se est desperto ou se tudo um sonho.Sente uma certa inquietao, talvez a conscinciade um crime cometido, embora desconhea osdetalhes de sua tragdia. Em muitos de seus con-tos, algum desaparece sem deixar trao ou, oque talvez seja ainda mais horripilante, deixandopara trs indcios de sua presena assombrada.

    28/476

  • Bierce parecia fixar-se em alguns assun-tos, escrevendo por vezes histrias parecidassobre um mesmo tema, donde a idia de juntar,nesta antologia, vrios contos semelhantes sobum mesmo ttulo, como acontece em"Aparies", "Casas espectrais" e "Cruzando oumbral". Mas nos casos de desaparecimentosque ele se fixou mais. Sua obsesso sobre o as-sunto chegou a tal ponto que, nos ltimos anos devida, colecionava relatos de sumios misteriosos.Costumava tambm abrir seus contos com ep-grafes contendo reflexes sobre a morte. Numadelas, que abre o conto "Um habitante de Car-cosa" (includo em "Cruzando o umbral"), Bierceescolheu como epgrafe um texto que diz oseguinte:

    29/476

  • Pois h diversos tipos de morte. Em al-gumas (...) o corpo desaparece junto com o es-prito. Geralmente isso ocorre quando o indiv-duo est s (...) e, como no nos dado conhecero fim, dizemos que o homem desapareceu, ou quese foi numa longa jornada o que verdade.

    Ao escrevei essas linhas, estaria Bierce,conscientemente, preparando o caminho daquiloque ele prprio um dia, talvez de forma delib-erada, iria fazer? Seria uma premonio, ou umafantstica coincidncia, essa sua obsesso pelosdesaparecimentos? Ou apenas sua ltima emais terrvel piada de humor negro?

    Ningum jamais pde responder a essasperguntas. As especulaes foram muitas, masnunca se soube ao certo o que aconteceu comAmbrose Bierce. Sabe-se apenas que um dia ele

    30/476

  • anunciou que iria para o Mxico de Pancho Villa,mergulhado numa sangrenta guerra civil. Aosamigos, pessoalmente ou por carta, fez refern-cias vagas sobre quais seriam suas intenes,comentando, com seu habitual deboche, que "oparedo era uma boa maneira de partir destavida" e que, pisar em solo mexicano naquelestempos, era "uma espcie de eutansia". Edesapareceu.

    Alguns disseram que Bierce, mal desade, tendo recebido a notcia de que lhe restavapouco tempo de vida, suicidara-se. Houve quemgarantisse mesmo que ele se teria atirado doGrand Canyon. Outra histria surgida, ainda maisengenhosa, assegurava que Bierce havia es-capado para a Inglaterra, onde se tornara assessorde um certo Lorde Kitchener, morrendo l em

    31/476

  • segredo anos depois. Outros afirmavam que elefora de fato para o Mxico, onde desafiara amorte, nas batalhas. A verso que parece maisrazovel a de que Bierce queria cobrir a re-voluo de Pancho Villa como correspondente deguerra e realmente foi para l, onde morreu demorte natural, acidentalmente (numa batalha) outalvez executado por insultar Villa.

    Seja como for, fica-nos a sensao deque Bierce ele, que tinha nos sonhos outra desuas obsesses rompeu as fronteiras entrerealidade e fantasia, subvertendo a ordem do uni-verso, esse universo que sua alma rebelde re-jeitava e desprezava. O mundo onrico , alis, otema do texto que deu origem ao ttulo desta ant-ologia, "Vises da noite", no qual Bierce nosconta trs de seus pesadelos recorrentes, alm de

    32/476

  • analisar a prpria matria de que so feitos ossonhos. Neles, l est o mesmo homem que cam-inha solitrio, como em seus contos de terror, omesmo homem que, na vida real, escrevia histri-as nas quais o aparato gtico parecia ser apenasum smbolo da decadncia humana. Sim, porque,para Bierce, a fonte principal do horror semdvida a mente do homem.

    Sua descrena na humanidade presente em tudo o que fez se reflete na im-ponderabilidade de muitas de suas histrias, as-sim como no alto teor de ironia que pressentimosnas entrelinhas. Essa ironia chega s vezes a in-terferir no prprio clima de terror que Bierce,como autor, est tentando criar no leitor. Numaespcie de auto-sabotagem literria, ele inter-rompe uma narrativa arrepiante para fazer uma

    33/476

  • brincadeira. E como se, com uma expresso di-ablica, nos dissesse, a ns, leitores: "Vamos verse, mesmo depois dessa piada, voc continuaacreditando." Temos por vezes a sensao de queBierce brinca de gato e rato conosco, lanandopistas falsas, dando-nos excessivos detalhes de nomes, acontecimentos e situaes geo-grficas que depois no tero muita importn-cia na histria, apenas para testar nossa pacin-cia, ou, quem sabe, para nos deixar na boca, ter-minada a leitura, um travo de inquietao.

    Esse jogo de pistas falsas talvez ex-plique por que Bierce nem sempre includopelos crticos entre os maiores autores amer-icanos de todos os tempos embora muitos re-conheam que ele um dos mais originais e ou-sados, pertencendo quela (rara) classe de

    34/476

  • escritores pelos quais nunca passamos impune-mente. Bierce podia ser cnico, idealista, amargo,frustrado, genial, sdico, pervertido, brilhante,brutal, satirista, poeta, misantropo e at mesmocharlato foi chamado de tudo isto. Mas foium homem e escritor fascinante, que um diacruzou a fronteira do Desconhecido e talvezcom uma terrvel gargalhada final tornou-sepersonagem de si mesmo, saindo da vida para en-trar em suas prprias histrias.

    35/476

  • Um incidente na ponte deOwl Creek 1

    I

    Um homem estava de p sobre umaponte frrea no Norte do Alabama, olhando paraas guas que corriam ligeiras seis metros abaixo.Tinha as mos s costas, os pulsos atados poruma corda. Outra corda fora enrolada em seupescoo. Esta ltima estava amarrada a uma es-taca slida acima de sua cabea e a ponta caa-lheat a altura dos joelhos. Algumas tbuas soltas,colocadas sobre os dormentes que suportavam ostrilhos da via frrea, sustentavam os ps dohomem, assim como os de seus executores dois paramilitares do Exrcito Confederado, lid-erados por um sargento que na vida civil talvez

  • tivesse sido um subxerife. Sobre a mesma plata-forma provisria, mas a uma certa distncia, es-tava um oficial armado, com seu uniforme degraduado. Era um capito. Em cada extremidadeda ponte havia um sentinela segurando seu rifleem posio de "apoio", o que significa na vertical frente do ombro esquerdo e com o co apoiadoao antebrao atravessando o peito em diagonal uma posio rgida e pouco natural, obrigando ossoldados a permanecer numa postura muito ereta.Aparentemente, os dois no tinham obrigao desaber o que se passava no meio da ponte. Eles selimitavam a bloquear a passagem nas duas ex-tremidades do caminho de pedestres que ladeavao pontilho.

    Para alm de um dos sentinelas, nohavia ningum vista. A linha frrea cruzava a

    37/476

  • floresta numa reta por quase cem metros, para emseguida desaparecer, numa curva. Com certezahavia um posto avanado mais adiante. A outramargem do rio era um campo aberto uma co-lina suave, no alto da qual havia uma barricadafeita com troncos de rvores, com seteiras para osrifles e um nico canhoneiro do qual surgia a ex-tremidade de um canho de bronze, apontadopara a ponte. Na metade da colina, entre a ponte ea fortaleza, estavam os espectadores uma n-ica companhia de infantaria perfilada, em posiode "descansar", a base dos rifles tocando o cho,os canos levemente inclinados para trs e apoia-dos ao ombro direito, as mos cruzadas frentedas coronhas. Um tenente encontrava-se de p direita da fila, com a ponta de sua espada no choe a mo esquerda repousando sobre a direita.Com exceo do grupo de quatro pessoas no

    38/476

  • centro do pontilho, ningum se movia. A com-panhia estava de frente para a ponte, observando-a na mais absoluta imobilidade. Os sentinelas,voltados para as margens do rio, poderiam serconfundidos com esttuas que adornassem olugar. O capito estava de braos cruzados, emsilncio, observando o trabalho de seus dois sub-ordinados, mas sem fazer qualquer sinal. A morte um dignitrio que, ao ser anunciado, deve serrecebido com manifestaes formais de respeito,mesmo entre aqueles que lhe so mais familiares.No cdigo da etiqueta militar, o silncio e aimobilidade eram formas de deferncia.

    O homem que estava para ser enforcadoaparentava cerca de 35 anos. Era um civil, a jul-gar por suas roupas, que pareciam as de umfazendeiro. Tinha boa aparncia o nariz reto, a

    39/476

  • boca firme e uma testa larga de onde surgia o ca-belo comprido e escuro, penteado para trs, pas-sando por trs das orelhas e indo at o colarinhodo casaco de trabalho, que lhe caa bem. Usavabigode e uma barba pontuda, mas sem costeletas.Os olhos eram grandes, cinza-escuros, com umaexpresso gentil que dificilmente se poderia es-perar de um homem cujo pescoo estivesse nolao de uma corda. Com toda certeza no era umassassino vulgar. O cdigo militar, liberal,permite o enforcamento de toda sorte de indiv-duos, e os cavalheiros no esto excludos.

    Assim que tudo estava pronto, os doisparamilitares, dando um passo para o lado, tir-aram a tbua sobre a qual caminhavam. Osargento virou-se para o capito, fez continnciae colocou-se imediatamente atrs do oficial, que

    40/476

  • por sua vez afastou-se um passo. Tais movimen-tos deixaram o condenado e o sargento sozinhosde p sobre as duas extremidades da mesmatbua, que se estendia por cima de trs dosdormentes da linha frrea. A extremidade sobre aqual se encontrava o civil quase alcanava, masno chegava a faz-lo, um quarto dormente. Essatbua estivera sendo mantida ali pelo peso docapito. Agora, o que a mantinha ali era o pesodo sargento. A um sinal do primeiro, este ltimodaria um passo para o lado, a tbua daria umsalto e o condenado despencaria pelo espaoentre os dormentes. O arranjo, por simples e efet-ivo, parecia confivel. O rosto do homem no es-tava encoberto, nem seus olhos vendados. Por uminstante, ele olhou para o cho instvel onde pis-ava e em seguida deixou que o olhar se perdessena corrente d'gua que passava l embaixo, a toda

    41/476

  • velocidade. Uma tora de madeira boiandochamou sua ateno e seus olhos seguiram-na, rioabaixo. Parecia mover-se to devagar, como selevada por guas indolentes...

    Fechou os olhos tentando fixar os lti-mos pensamentos na mulher e nos filhos. A gua,tingida de ouro pelos primeiros raios de sol, abruma melanclica que recobria as margens rioabaixo, a fortaleza, os soldados, a tora de madeira tudo distraa sua ateno. E agora ele se davaconta de alguma coisa nova, que surgia paraperturb-lo. Chocando-se com o pensamento deseus entes queridos, vinha um som que ele noconseguia nem identificar nem ignorar, um rudoagudo, ntido, metlico, como o som do martelodo ferreiro contra a bigorna. A ressonncia era amesma. O homem se perguntou o que seria

    42/476

  • aquilo e de onde vinha tal som, se de longe ou deperto pois parecia as duas coisas ao mesmotempo. Batia a intervalos regulares, mas numritmo lento, como o dobrar dos sinos de Finados.Ele aguardava cada batida com impacincia e sem que soubesse por qu com apreenso. Osintervalos de silncio pareciam cada vez maiores.E esses momentos de suspenso comeavam aenlouquec-lo. Embora cada vez mais espaados,os sons cresciam em fora e agudez. Feriam-lheos ouvidos como a estocada de um punhal.Estava a ponto de gritar. O que ele ouvia era otique-taque de seu relgio.

    Abriu os olhos e viu novamente a gua aseus ps. "Se eu pudesse soltar as mos", pensou,"poderia afrouxar o lao e pular na gua.Afundando, fugiria das balas e, nadando a toda

    43/476

  • velocidade, conseguiria chegar margem,embrenhar-me na floresta e fugir para casa.Minha casa, graas a Deus, fica para alm daslinhas deles. Minha mulher e meus filhos estona regio que ainda no foi tomada pelosinvasores.

    Enquanto esses pensamentos, aquidescritos em palavras, passavam pela cabea docondenado, e mal acabavam de ser formulados, ocapito fez um sinal para o sargento. E o sargentodeu um passo para o lado.

    II

    Peyton Farquhar era um prsperofazendeiro, de uma famlia antiga e altamente re-speitada no Alabama. Sendo dono de escravos e,como todo dono de escravos, um poltico, era

    44/476

  • naturalmente a favor da Guerra Civil e ar-dorosamente devotado causa do Sul. Pormotivos de fora maior, que no cabe aqui re-latar, no pudera servir ao galante exrcito quelutaria nas desastrosas campanhas culminandocom a queda de Corinto, e se irritava com isso,ansiando por externar suas energias, por viver avida mais expansiva dos soldados, pela opor-tunidade de se destacar. Essa oportunidade, sen-tia, acabaria chegando, porque chega para todosdurante a guerra. Enquanto isso, ia fazendo o quepodia. No se importava de desempenhar a maishumilde tarefa, desde que fosse para ajudar acausa dos sulistas, nem de se meter na mais peri-gosa das aventuras, desde que fosse coerente como papel de um civil cujo corao era de soldado eque, de boa-f, mesmo no sendo muito qualific-ado, concordava, ao menos em parte, com o

    45/476

  • ditado sabidamente infame segundo o qual naguerra e no amor tudo vale.

    Certa noite, quando Farquhar e sua mul-her estavam sentados no banco rstico junto en-trada do jardim, surgiu no porto um soldado deuniforme cinza que pediu um copo d'gua. Foicom satisfao que a Sra. Farquhar foi busc-locom suas prprias mos, muito brancas. O mar-ido se aproximou do cavaleiro empoeirado e, an-sioso, pediu notcias do front.

    "Os ianques esto consertando as estra-das", respondeu o homem," e esto prontos paraum novo avano. J chegaram ponte de OwlCreek, fizeram reparos e construram uma barri-cada na margem norte. O comandante mandouespalhar cartazes dizendo que qualquer civil que

    46/476

  • bloquear estradas, pontes, tneis ou trens sersumariamente enforcado. Eu vi a ordem.

    "A ponte de Owl Creek muito longe?",quis saber Farquhar.

    "Uns cinquenta quilmetros.

    "E h soldados deste lado do rio?

    "S um posto avanado menos de umquilmetro frente, na estrada, alm de um sen-tinela na ponta de c da ponte.

    "E se um homem um civil, espe-cialista em enforcamentos conseguisse passarpelo posto avanado e enganar o sentinela", disseFarquhar, rindo, "o que ser que ele conseguiria?

    47/476

  • O soldado parou para pensar.

    "H um ms eu estava l", respondeu."E notei que a correnteza do ltimo inverno tinhadeixado muitas toras encalhadas no per demadeira, na extremidade da ponte. Agora f esttudo seco e poderia queimar como uma tocha.

    A mulher j se encaminhava com agua, que o soldado bebeu. Em seguida agrade-ceu, cerimonioso, fez uma mesura para o maridoe se foi. Uma hora depois, quando a noite jhavia cado, ele voltou a cruzar a fazenda emdireo ao Norte, de onde viera. Era um espiodos Confederados.

    III

    48/476

  • Assim que despencou da ponte, PeytonFarquhar perdeu os sentidos, como se j estivessemorto. Mas foi despertado desse estado aps oque lhe pareceu um tempo enorme por umador fina na garganta, seguida de uma sensao desufocamento. Uma agonia aguda, mortal, pareciaespraiar-se do pescoo, tocando cada fibra de seucorpo e membros, Tais dores aparentemente cor-riam por linhas de ramificaes bem definidas,martelando a uma velocidade inconcebvel. Eramcomo rios de fogo pulsante que o queimassem in-teiro. Quanto cabea, parecia-lhe completa-mente tomada por uma congesto. Essassensaes no vinham acompanhadas depensamentos. A parte intelectual de sua naturezase esvanecera. Tinha poder apenas para sentir, e oque sentia era tormento. Percebia um movimento.Envolto por uma nuvem luminosa, da qual ele

    49/476

  • agora era apenas o ncleo em brasa, oscilavasobre um arco impondervel, como se fosseimenso pndulo. E ento, de repente, de formaterrivelmente sbita, a luz que o cercava disparoupara cima, com um gigantesco estrondo d'gua.Um troar ameaador atingiu-lhe os ouvidos etudo foi escurido e gelo. O poder do pensamentofoi restaurado. Agora ele sabia que a corda serompera e que ele cara na correnteza. Mas nosufocava mais do que antes. A corda em torno deseu pescoo j o estrangulava, mantendo agua fora de seus pulmes. Morrer enforcado nofundo de um rio! A idia lhe parecia ridcula.Abriu os olhos na escurido e viu acima uma lu-minosidade, embora muito longe, inacessvel.Continuava afundando, pois a luz tornava-semais e mais fraca, at virar apenas um lampejo.Mas logo comeou a crescer e a tornar-se mais

    50/476

  • brilhante, at que ele percebeu que retornava superfcie e relutava em admitir isso, pois jsentia um certo conforto em estar no fundo. "Serenforcado e afogado", pensou, "no to mau as-sim. Mas no quero levar um tiro. No quero eno vou. No justo.

    No tinha conscincia do esforo quefazia, mas uma dor fina no pulso lhe dizia que es-tava tentando soltar as mos. Concentrou-senaquela luta, como um errante admirando aproeza de um malabarista, sem muito interesse noresultado. Que esforo sensacional! Que foramagnfica, sobre-humana! O empenho era im-pressionante. Muito bem! A corda soltou-se. Seusbraos separaram-se, flutuando em direo tona, as mos como sombras de um lado e outro,que mal podia enxergar na luminosidade

    51/476

  • crescente. Ele as olhou com interesse renovado medida que, primeiro uma, depois a outra, elasbuscaram o n que apertava seu pescoo.Afrouxaram-no, abrindo-o, as ondulaes dacorda lembrando as de uma cobra d'gua."Ponham-na de volta!", gritou para as mos empensamento, pois assim que o n se desfez ele foiassaltado pela dor mais cruciante que jamais ex-perimentara. O pescoo lhe doa horrivelmente.Seu crebro estava em fogo. E o corao queantes batia manso de repente deu um salto, pare-cendo a ponto de sair-lhe pela boca. Todo seucorpo foi varrido e sacudido por uma angstia in-suportvel. Mas as mos desobedientes noatenderam a seu comando. Batiam na gua comvigor, em movimentos rpidos, para baixo,forando-o rumo superfcie. At que sentiu acabea emergir. A luz do sol cegou-o. Sentiu o

    52/476

  • peito expandir-se em convulses e, em supremaagonia, seus pulmes sorveram uma enorme gol-fada de ar, que ele expeliu no mesmo instante,com um grito agudo.

    Agora tinha total controle dos sentidosfsicos. Na verdade, eles estavam extraordinaria-mente aguados e em alerta. Diante da brutalagresso ao organismo, algo acentuara e refinaraseus sentidos a ponto de eles lhe mostraremcoisas que antes no era capaz de perceber. Ob-servava as ondas do rio junto a seu rosto, ouvindoo bater de cada uma delas. Olhava para a florestaalm da margem e via rvore por rvore comsuas folhas, assim como os veios em cada umadessas folhas, Via at mesmo os insetos sobreelas: as cigarras, as moscas com seus corpos bril-hantes, as aranhas cinzentas espalhando suas

    53/476

  • teias de um ramo a outro. Notava o prisma dascores nas gotas de orvalho sobre um milho delminas de relva. E o zumbido dos mosquitos quedanavam sobre a tona, o bater das asas dasliblulas, o choque das patas das aranhas-d'gua,como remos que impulsionassem seus barcos e tudo isso lhe soava claro como msica. L se iaum peixe deslizando no fundo e ele podia ouvir orudo de seu corpo fendendo as guas.

    Chegara superfcie de frente para acorrenteza. Por um instante, o mundo visvelparecera girar a uma velocidade muito lenta,sendo ele seu ponto central. E ele via a ponte, afortaleza, os soldados sobre a ponte, o capito, osargento, os dois paramilitares, seus executores.Via apenas suas silhuetas contra o cu. Gritavame gesticulavam, apontando para ele. O capito

    54/476

  • tinha empunhado a pistola, mas no atirara. Osoutros estavam desarmados. Seus movimentoseram grotescos, terrveis, suas formasgigantescas.

    De repente, ouviu um estampido agudoe um projtil atingiu a gua a poucos centmetrosde sua cabea, borrifando-lhe o rosto. Veio umsegundo estampido e ele viu um dos sentinelascom o rifle ao ombro, enquanto uma nuvem defumaa azulada subia do cano da arma. Da gua,pde ver os olhos do homem na ponte encarando-o, por trs da mira. Notou que ele tinha olhos cin-zentos e lembrou-se de j ter ouvido falar que ol-hos assim so os mais espertos e que homens degrande pontaria costumam ter olhos dessa cor. E,no entanto, aquele acabara de errar.

    55/476

  • Um rodamoinho envolvera Farquhar eele agora estava de lado para a ponte. De frentepara a floresta que ficava na margem oposta fortaleza. E o som claro, alto, de uma vozentoando uma melodia monocrdia, chegava aseus ouvidos vindo de trs, cruzando a gua comtanta nitidez que sobrepujava todos os outrossons, at mesmo a batida das ondas em seu rosto.Embora no fosse soldado, ele j freqentara osacampamentos e conhecia o terrvel significadodaquele canto arrastado, entoado com fora e de-liberao. O tenente, na margem, fazia sua parteno trabalho da manh. Ditas com toda a frieza,sem piedade com uma entonao que eracalma, serena, agourenta, mas que infundia tran-quilidade na tropa , a intervalos bem medidos,ele ouviu aquelas palavras cruis:

    56/476

  • "Ateno, companhia!... Preparar!...Apontar!... Fogo!

    E Farquhar mergulhou. Mergulhou omais fundo que pde. A gua borbulhava em seusouvidos como as vozes do Nigara e ainda assimele ouvia o rudo surdo das rajadas. Ao retornar superfcie, pde ver as cpsulas de metal, signi-ficativamente achatadas, que, brilhantes, desciamcorrenteza abaixo. Algumas chegaram a tocar-lheo rosto e as mos, depois se foram, seguindo seucurso. Uma delas alojou-se entre seu pescoo e agola da camisa. Sentindo, com um arrepio, queainda estava quente, atirou-a longe.

    No instante em que chegou tona, embusca de ar, notou que ficara muito tempo de-baixo d'gua. Encontrava-se muito longe rioabaixo onde era mais seguro. Os soldados

    57/476

  • estavam quase acabando de recarregar as armas.Viu as varetas todas brilhando ao sol medidaque eram retiradas dos barris, viradas no ar e in-troduzidas nos soquetes. Os dois sentinelas dis-pararam de novo, por conta prpria, mas semsucesso.

    O homem caado observava tudo issopor cima do ombro. Nadava agora com todo ovigor, correnteza abaixo. Seu crebro estava toaguado quanto seus braos e pernas. Ra-ciocinava na velocidade da luz.

    "O oficial", pensou, "no vai cometerum erro outra vez por excesso de zelo. D namesma esquivar-se de uma rajada de tiros ou deum tiro s. Com certeza ele j deu ordens paraque cada um atire vontade. Deus me ajude, poisno vou conseguir escapar de todos eles!

    58/476

  • Foi sacudido por um choque na gua amenos de dois metros de onde estava, seguido deum estrondo violento, que foi decrescendo comose ricocheteasse e cruzasse o ar de volta emdireo fortaleza, at morrer com uma explosoque fez todo o rio estremecer. Uma coluna d'guaergueu-se, encobrindo-o, e depois despencousobre ele, cegando-o, sufocando-o. O canho en-trara no jogo. Ao sacudir a gua que lhe enchar-cava a cabea ouviu o zumbido da bala rompendoo ar acima dele, e em seguida seu impacto contraos galhos da floresta mais alm, que sedespedaaram.

    "No vo fazer isso de novo", pensou."Da prxima vez vo usar uma carga de balim.Preciso ficar de olho nesse canho. A fumaa vaime alertar porque o estampido chega tarde

    59/476

  • demais. posterior ao projtil. uma arma etanto.

    De repente, sentiu-se envolver por umrodamoinho, todo ele rodando e rodando comoum pio. A gua, as margens, a floresta, a ponteagora distante, a fortaleza e os soldados tudose confundia, num borro. Os objetos eram per-ceptveis apenas por sua cor. Traos circulares ehorizontais de cor era tudo o que via. Foraapanhado num turbilho, girando e rodopiando auma velocidade cada vez maior, que o deixavatonto, enjoado. Em instantes, foi atirado contra ocascalho ao p da margem esquerda do rio nolado sul e atrs de uma ponta que o abrigavados inimigos. A sbita parada e a aspereza docascalho na palma da mo de repente o fizeramdespertar, e ele chorou de alegria. Enterrou os

    60/476

  • dedos na areia, atirando-a sobre o prprio corpoenquanto agradecia em voz alta. Aquela areia erapara ele como se feita de diamantes, rubis, esmer-aldas. Tudo o que era belo parecia-se com ela. Asrvores sobre a margem eram um gigantescojardim. E ele notou que as plantas ali estavamcompostas como se num arranjo, ao mesmotempo que inalava seu perfume. Uma luz es-tranha, rosada, brilhava no espao entre os tron-cos e o vento, em seus galhos, produzia amelodia de uma harpa. J no queria fugir es-taria satisfeito em ficar naquele lugar encantadorat ser recapturado.

    Um zumbido e um martelar por entre osgalhos, acima de sua cabea, despertaram-no deseu sonho. O artilheiro frustrado fazia novo dis-paro a esmo. Farquhar ps-se de p e saiu

    61/476

  • correndo em direo margem escarpada, pen-etrando na floresta.

    Durante todo o dia caminhou, guiando-se pelo sol. A floresta parecia interminvel. Emnenhum ponto encontrou uma s clareira, uma strilha de lenhadores. No sabia que vivia numaregio de mata to fechada. E havia nessa rev-elao qualquer coisa de sobrenatural.

    Quando a noite caiu, estava exausto,faminto, com os ps feridos. Mas quandopensava na mulher e nos filhos, sentia-se encora-jado a prosseguir. Finalmente deu numa estradaque o levou na direo que ele sabia ser a certa.Era larga e reta como a rua de uma cidade e con-tudo parecia no ter sido jamais trilhada. Nohavia fazendas em suas margens, nem sinal dequalquer atividade. Nem mesmo o latido de um

    62/476

  • co sugerindo que o lugar era habitado por hu-manos. Apenas o corpo negro das rvores form-ando uma muralha, de ambos os lados, desapare-cendo em algum ponto no horizonte, como odesenho de uma lio de perspectiva. No alto,quando ele olhava atravs das copas das rvores,via o brilho de gigantescas estrelas cor de ouro,que lhe pareciam estranhas e agrupadas em con-stelaes desconhecidas. Tinha certeza de queformavam um padro cujo significado era secretoe maligno. E a floresta, de um lado e outro,emitia rudos singulares, entre os quais uma,duas, vrias vezes pde distinguir sussurrosnuma lngua que jamais ouvira.

    Seu pescoo doa e ao passar a mo neleviu que estava horrivelmente inchado. Sabia quetinha um crculo escuro no lugar onde a corda o

    63/476

  • ferira. Seus olhos estavam congestionados. J noconseguia fech-los. A lngua inchara de tantasede. Procurou aliviar a febre botando a lnguapara fora por entre os dentes e buscando o con-tato com o ar frio. A relva macia cobrira de talforma a estrada deserta que ele j no sentia ocho sob seus ps.

    Com certeza, apesar de todo o sofri-mento, adormeceu enquanto caminhava, poisagora via outro cenrio ou talvez tivesseacordado de um delrio. Est de p diante doporto de sua prpria casa. Tudo continua comoele deixou, brilhando com beleza luz do sol damanh. Deve ter caminhado durante toda a noite.Assim que empurra o porto e atravessa a caladalarga e branca, percebe um ondear de saias fem-ininas. sua esposa, parecendo to fresca, to

    64/476

  • calma e to doce que desce os degraus davaranda para encontr-lo. Ao p do degraus elapra, esperando, com um sorriso de imensaalegria, com graa e dignidade incomparveis.Ah, como bela E ele corre, com os braos es-tendidos. Quando est a ponto de abra-la senteuma violenta pancada na nuca. Uma luz branca,capaz de cegar, explode sua volta com um somque se assemelha ao tiro de um canho e de-pois tudo escurido e silncio.

    Peyton Farquhar estava morto. Seucorpo, com o pescoo quebrado, balanava lenta-mente de um lado para outro por entre osdormentes da ponte de Owl Creek.

    65/476

  • Naufrgio virtual

    No vero de 1874 eu estava em Liver-pool, para onde fora em misso de negcios daempresa mercantil Bronson & Jarrett, de NovaYork. Eu sou William Jarrett. Meu scio era Zen-as Bronson. A firma faliu no ano passado, e ele,incapaz de suportar a transio da riqueza para apobreza, faleceu.

    Tendo concludo os negcios que fazia,e sentindo a lassitude e o cansao provocadospelo despacho das mercadorias, senti que umaviagem mais prolongada seria agradvel ebenfica. Assim sendo, em vez de embarcar devolta num dos muitos e elegantes vapores de pas-sageiros, fiz reserva para Nova York no veleiroMorrow, no qual embarcara boa e valiosa parte

  • das mercadorias que comprara. O Morrow era umnavio ingls com, claro, poucas acomodaespara passageiros, que em verdade ramos apenastrs: eu, uma jovem e sua criada, uma negra demeia-idade. Achei estranho que uma moainglesa tivesse uma criadagem daquele tipo, masela prpria me explicaria depois que a mulherhavia sido deixada em sua famlia por um homeme uma mulher da Carolina do Sul, que tinhammorrido, ambos e no mesmo dia, na casa do paidela, em Devonshire circunstncia que por sis j era suficientemente estranha para ficarretida em minha mente, tanto mais porque emconversas posteriores fiquei sabendo, pela jovem,que o tal senhor chamava-se William Jarrett,tendo o mesmo nome que eu. Eu sabia que umramo de minha famlia se fixara na Carolina do

    67/476

  • Sul, mas no conhecia nada sobre eles ou sobresua histria.

    O Morrow deixou a foz do Mersey nodia 15 de junho e navegou por muitas semanascom brisa suave e cu sem nuvens. O capito,que era um admirvel homem do mar mas nadamais do que isso, nos fazia pouca companhia,apenas nas refeies. E a jovem, Srta. JanetteHarford, e eu nos tornamos amigos. Estvamos,na verdade, quase todo o tempo juntos e, sendomuito introspectivo, eu me perguntava que novosentimento era aquele que ela me inspirava uma atrao secreta, sutil mas poderosa, que mefazia a todo instante procurar saber onde Janetteestava. Mas no conseguia entender o quepudesse ser. S sabia que no era amor. Comessa certeza, e percebendo que a jovem era to

    68/476

  • sincera quanto eu, certa noite arrisquei-me aperguntar-lhe (lembro-me que a data era 3 de ju-lho), rindo, enquanto estvamos sentados nodeque, se ela poderia me ajudar a resolver aquelacharada.

    Por um instante, ela ficou em silncio,com o rosto virado para o outro lado, e cheguei atemer que tivesse sido rude e indelicado. Maslogo, muito sria, fixou os olhos em mim. Numsegundo, fui invadido pela mais estranha fantasiaque j pode ter passado pela mente humana. Eracomo se ela estivesse olhando-me no comaqueles olhos, mas atravs deles desde umadistncia imensurvel e como se muitas outraspessoas, homens, mulheres e crianas, em cujosrostos eu captava expresses vaga e estran-hamente familiares, a cercassem, lutando na nsia

    69/476

  • de tambm enxergar atravs daquelas rbitas. Onavio, o mar, o cu tudo desaparecera. Eu jno tinha conscincia de nada exceto daquelasfiguras, daquele cenrio extraordinrio efantstico. E ento, de repente, tudo foi escur-ido, e logo, fui saindo aos poucos do negror paraa luz, como se me acostumasse s diferentesgradaes de luminosidade, at que tudo o queantes me cercava, o deque, o mastro, a cordo-agem do navio, lentamente, voltou a foco. A Srta.Harford fechara os olhos e se recostara na ca-deira, aparentemente adormecida, com o livroque estivera lendo aberto no colo. Impelido porno sei que motivo, dei uma espiada no alto dapgina. Era um exemplar de um livro raro ecurioso, as Meditaes, de Denneker. E o dedoindicador da moa estava pousado sobre aseguinte passagem:

    70/476

  • A todos dado ser tragado para longe epermanecer fora do corpo por um tempo. Pois,assim como acontece com os rios cujas guas seencontram, fazendo com que o mais fraco sejatragado pelo mais forte, tambm ocorre um tipode relao na qual os caminhos se interceptam eas almas se fazem companhia, enquanto os cor-pos vo em direes opostas, sem nada saber.

    A Srta. Harford levantou-se, es-tremecendo. O sol se pusera no horizonte, masno fazia frio. No havia uma brisa sequer. Nemnuvens no cu. E contudo tampouco havia es-trelas visveis. Ouvimos uma correria pelotombadilho. O capito subiu e dirigiu-se aoprimeiro-oficial, que, de p, observava obarmetro.

    "Meu Deus!", ouvi-o exclamar.

    71/476

  • Uma hora depois, Janette Harford, queeu mal enxergava em meio escurido e aos ja-tos d'gua, foi-me arrancada dos braos pelorodamoinho cruel do navio que afundava. E eudesmaiei embrenhado nas cordas do mastro queflutuava e ao qual me atara.

    Acordei sob a luz de uma lmpada.Estava deitado num beliche em meio ao ambientefamiliar de um camarote de navio a vapor. Numsof, junto cama, estava sentado um homem,com roupas de dormir, lendo um livro. Reconhecio rosto de meu amigo Gordon Doyle, o qual con-hecera em Liverpool no dia de meu embarque,quando ele prprio se preparava para embarcarno City of Prague, tendo insistido para que eu oacompanhasse.

    72/476

  • Alguns minutos depois, falei seu nome.E ele disse apenas "Sim?" e virou mais uma p-gina do livro sem tirar os olhos dele.

    "Doyle", repeti, "eles conseguiramsalv-la?

    Ele agora se dignava a me olhar e sorria,divertido. Evidentemente pensava que eu aindaestava meio adormecido. "Salvar quem? O quevoc est dizendo?

    "Janette Harford.

    Seu ar divertido transfigurou-se em es-tranheza. Ele agora me olhava fixamente, semnada dizer.

    "Voc vai acabar me contando", contin-uei, "vai acabar me contando.

    73/476

  • Pouco depois, perguntei:

    "Que navio este?

    Doyle voltou a olhar-me.

    " o vapor City of Prague, que est indode Liverpool para Nova York. Trs semanas nomar e um mastro quebrado. Passageiro daprimeira, Sr. Gordon Doyle; idem, s que lun-tico, Sr. William Jarrett. Os dois distintosviajantes embarcaram juntos, mas deveroseparar-se a qualquer momento em razo da in-teno do primeiro de atirar o ltimo ao mar.

    Num impulso, sentei-me.

    "Voc quer dizer que h trs semanassou passageiro deste vapor?

    74/476

  • ", mais ou menos isso. Hoje dia 3 dejulho.

    "Eu estive doente?

    "Voc nunca esteve to bem. E com ex-celente apetite.

    "Deus do cu! Doyle, isso um mis-trio. Pelo amor de Deus, fale srio. Ento eu nofui resgatado dos escombros do naufrgio doveleiro Morrow?

    Doyle empalideceu e, aproximando-se,segurou-me pelo pulso. Um segundo depois, per-guntou, falando devagar:

    "O que voc sabe sobre JanetteHarford?

    75/476

  • "Primeiro diga-me o que voc sabesobre ela.

    Doyle olhou-me por um instante comose pensasse no que ia fazer. Em seguida,sentando-se outra vez no sof, disse:

    "E por que no? Estou noivo de JanetteHarford, que conheci em Londres h um ano, ecom ela vou-me casar. A famlia dela, uma dasmais ricas de Devonshire, contra o casamento ens decidimos fugir juntos j estamos fugindo,para dizer a verdade, porque no dia em que eu evoc atravessamos a rampa para subir a bordodeste vapor, ela e sua fiel criada, uma negra, pas-saram por ns, para tomar o veleiro Morrow. Elano concordou em viajar no mesmo navio que eue achamos melhor que tomasse um veleiro decarga, evitando assim que fosse notada ou at

    76/476

  • mesmo detida. Agora estou alarmado porque se omaldito defeito no for consertado logo e nos at-rasarmos muito, o Morrow vai chegar a NovaYork antes de ns e a pobrezinha no ter paraonde ir.

    Eu continuava deitado, imvel toimvel que mal respirava. Mas o assunto evid-entemente empolgara Doyle, que depois de umapausa continuou:

    "Por falar nisso, ela filha adotiva dosHarfords. A me dela morreu onde moravam, aocair de um cavalo durante uma caada, e o pai,louco de dor, matou-se no mesmo dia. Nenhumparente apareceu para reclamar a criana e assim,depois de um perodo razovel os Harfords a ad-otaram. Ela cresceu acreditando que era filhadeles.

    77/476

  • "Doyle, que livro esse que voc estlendo?

    "Ah, so as Meditaes, de Denneker. um negcio esquisito que Janette deu para mim.Por acaso ela possua dois exemplares. Quer daruma olhada?

    Atirou-me o volume, que se abriu aocair. Numa das pginas abertas, um trecho estavasublinhado:

    A todos dado ser tragado para longe epermanecer fora do corpo por um tempo. Pois,assim como acontece com os rios cujas guas seencontram, fazendo com que o mais fraco sejatragado pelo mais forte, tambm ocorre um tipode relao na qual os caminhos se interceptam e

    78/476

  • as almas se fazem companhia, enquanto os cor-pos vo em direes opostas, sem nada saber.

    "Janette tinha... tem... um gosto curiosopara leitura", consegui balbuciar, dominandominha agitao.

    ". E agora voc vai me fazer o favor deexplicar como foi que descobriu o nome dela edo navio em que est.

    "Voc falou durante o sono", respondi.

    Uma semana depois, atracvamos noporto de Nova York. Mas do Morrow, nuncamais se teve notcia.

    79/476

  • Luar sobre a estrada

    I

    Depoimento de Joel Hetman Jr.

    Sou o mais infeliz dos homens. Rico, re-speitado, razoavelmente culto, de boa sade ecom muitas outras vantagens dessas que geral-mente so valorizadas por quem as tem e dissim-uladas pelos que delas so carentes , chego apensar que talvez pudesse ser menos infeliz setais vantagens me tivessem sido negadas, porquedessa forma o contraste entre minhas vidas exter-ior e interior no me chamaria ateno todo otempo de forma to dolorosa. Ante a presso deprivaes ou sendo obrigado a algum esforo,talvez eu pudesse s vezes esquecer o segredo

  • sombrio que acaba frustrando as conjecturas squais me obriga.

    Sou o nico filho de Joel e Jlia Het-man. Ele era um abastado cavalheiro rural, elauma mulher bonita e realizada, pela qual ele nu-tria uma paixo que hoje sei era permeada porcimes e devoo absoluta. A casa da famliaficava a uns poucos quilmetros de Nashvule,noTennessee, e era uma construo grande, feitade forma irregular, sem nenhum valor ar-quitetnico especial, que ficava a uma certa dis-tncia da estrada, em meio a um parque dervores e arbustos.

    Na poca que agora descrevo, eu tinhadezenove anos e estudava em Yale. Certo dia, re-cebi um telegrama de meu pai, num tom detamanha urgncia que, atendendo a seu pedido

    81/476

  • inexplicado, voltei imediatamente para casa. Naestao de trem em Nashville, fui esperado porum parente distante, que me explicou a razopela qual fora chamado: minha me tinha sidobarbaramente assassinada por que e por quem,ningum podia imaginar. Mas as circunstnciaseram as seguintes:

    Meu pai tinha ido a Nashville, pensandoem retornar na tarde seguinte. Algo o impedira defechar o negcio pretendido e ele decidira ante-cipar a volta para aquela mesma noite, chegandopouco antes do amanhecer. Em seu depoimentoao juiz, ele contou que, estando sem chave e semquerer acordar os criados, decidiu, sem saberbem por qu, dar a volta at a porta dos fundos.Ao virar uma das esquinas da casa, ouviu o rudode uma porta sendo fechada devagar e, no escuro,

    82/476

  • viu distintamente a figura de um homem, que emseguida desapareceu por entre as rvores do p-tio. Uma rpida perseguio e uma breve buscapelo terreno, na crena de que se tratasse de umvisitante de alguma das criadas, provou-se in-frutfera. E, assim, ele entrou pela porta destran-cada e subiu as escadas rumo ao quarto de minhame. A porta estava aberta e, caminhando noescuro, meu pai tropeou e caiu sobre um objetoque estava largado no cho. Vou poupar-me dosdetalhes: era o corpo de minha pobre me, mortapor estrangulamento, cometido por moshumanas!

    Nada fora roubado da casa, os criadosno tinham escutado nada e, no fosse pelas terr-veis marcas de dedos na garganta da morta

    83/476

  • Deus do cu! como poderia esquec-las? , nohavia qualquer outra evidncia do assassino.

    Abandonei os estudos e fiquei ao ladode meu pai que, naturalmente, se transformara.Calmo e calado por natureza, estava agora mer-gulhado em um estado de tamanho desnimo quenada era capaz de prender sua ateno, embora,ao mesmo tempo, qualquer coisa um rudo depassos, uma porta que se fechasse de repente fosse capaz de deix-lo em imediato alerta. Oupoderamos dizer apreensivo. Diante de qualquerpequena surpresa dos sentidos, ele se erguia deum salto, muitas vezes plido, para em seguidamergulhar numa apatia melanclica ainda maisprofunda do que antes. Imagino que estivessevivendo o que se chama de "colapso nervoso".Quanto a mim, eu era mais novo do que sou hoje

    84/476

  • e isso fazia toda a diferena do mundo. A ju-ventude um blsamo para qualquer ferida. Ah,como me readaptei a viver naqueles campos en-cantadores! Desacostumado ao luto, no podiaavaliar a dimenso de minha perda. No tinhacomo medir a fora daquele golpe.

    Certa noite, poucos meses depois dohorrvel acontecimento, meu pai e eu vnhamosda cidade a p. A lua cheia surgira do horizonte,a leste, trs horas antes. Os campos exibiam aimobilidade solene de uma noite de vero. Nos-sos passos e o rudo incessante dos grilos, aolonge, eram os nicos sons. As sombras negrasdas rvores de um lado e outro derramavam-se naestrada e esta, onde no havia sombra, brilhavaem seu branco fantasmagrico. Quando nosaproximvamos do porto de casa, cuja frente

    85/476

  • estava imersa em penumbra, e na qual no haviaqualquer luz acesa, meu pai parou de repente,apertando meu brao e exclamando, com a respir-ao entrecortada:

    "Deus! O que isso?

    "No ouvi nada", respondi.

    "Mas, olhe! Veja!", disse ele, com odedo altura do rosto apontando a estrada nossa frente.

    E eu falei:

    "No h nada ali. Vamos, pai, vamos en-trar. Voc no est bem.

    Ele soltara meu brao e estava de p, r-gido e imvel no meio da estrada iluminada, com

    86/476

  • um olhar insano. Sob o luar, seu rosto exibia umapalidez e uma fixidez inexpressiva, que me afli-giram. Toquei devagar em seu brao, mas eleparecia ter esquecido que eu existia. E logocomeou a recuar, passo a passo, sem por um in-stante tirar os olhos daquilo que via, ou pensavaver. Virei-me, pronto para segui-lo, mas parei, in-certo. No me lembro de ter sentido medo, excetopor um sbito arrepio que me pareceu puramentefsico. Foi como se um vento gelado houvesse to-cado meu rosto, envolvendo-me o corpo dacabea aos ps. Podia senti-lo eriando meuscabelos.

    Naquele instante, minha ateno foi des-viada para uma luz que se acendeu de repentenuma das janelas do andar superior da casa: umadas criadas, acordada sabe-se l por que

    87/476

  • premonio misteriosa e maligna, obedecendo aum impulso que ela prpria depois no saberiaexplicar, acabara de acender uma lmpada.Quando me voltei para olhar meu pai, ele tinhadesaparecido. E, ao longo de todos os anos que sepassaram desde ento, nenhum sinal de seu des-tino tocou o mundo real, vindo das profundezasdo desconhecido.

    II

    Depoimento de Caspar Grattan

    Hoje, diz-se que estou vivo. Amanh,restar aqui nesta sala o invlucro de barro mortodo que um dia fui. Se algum porventura erguer opano e descobrir a face dessa desagradvel car-caa, ir faz-lo por mera curiosidade mrbida.Alguns, sem dvida, iro mais longe e

    88/476

  • perguntaro: "Quem foi ele?" Neste relato, dareia nica resposta que sou capaz de dar: CasparGrattan. Claro que isso dever ser suficiente. Talnome serviu a minhas mnimas necessidades pormais de vinte anos desta vida cuja duraodesconheo. Na verdade, fui eu mesmo que medei este nome, mas, na falta de outro, tinha odireito de faz-lo. Neste mundo, todos precisamde um nome. Isso evita confuses, mesmo queno estabelea uma identidade. Alguns, contudo,so conhecidos apenas por nmeros, que tambmme parecem distines inadequadas.

    Certo dia, por exemplo, eu caminhavapela rua de uma cidade muito longe daqui,quando encontrei dois homens de uniforme, umdos quais, vacilando e olhando para meu rosto deforma curiosa, disse ao companheiro: "Aquele

    89/476

  • homem se parece com o 767." Algo naquelenmero soou-me familiar e terrvel. Movido porum impulso incontrolvel atravessei a rua e sacorrendo, s parando quando, completamente ex-austo, cheguei a uma trilha no campo.

    Nunca mais esqueci aquele nmero e elesempre volta minha mente em meio a uma al-garavia de obscenidades, a exploses de risocruel, ao som surdo de portas de ferro sefechando. E por isso digo que um nome, mesmoque dado por ns mesmos, ainda melhor do queum nmero. Nos registros do cemitrio, embreve, eu terei os dois. Quanta opulncia!

    quele que encontrar estes escritos, pe-direi um pouco de considerao. No a histriade minha vida. O conhecimento para escrev-lame foi negado. apenas um registro de

    90/476

  • lembranas fragmentadas e aparentementesecretas, algumas claras e vvidas como contasbrilhantes de um colar, outras remotas e estran-has, recobertas pelo vu de carmim dos sonhos,intercaladas por espaos em branco, vazios fogueiras de bruxas brilhando ainda, vermelhas,em grande desolao.

    Estando no limiar da eternidade, volto-me para um ltimo olhar sobre o caminho quetrilhei. Vejo vinte anos de pegadas bem delinea-das, as impresses de ps sujos de sangue.Atravessam um caminho de pobreza e dor, desolido e incertezas, como o de algumtropeando ante um imenso fardo...

    Remoto, inspito, melanclico, lento.

    91/476

  • Ah, a profecia do poeta era Eu queadmirvel, o quo terrivelmente admirvel!

    Voltando ao incio dessa via dolorosa esse pico do sofrimento, com episdios depecado j no vejo nada com clareza. Tudo es-t envolto em nvoa. S sei que a trilha se es-tende apenas por vinte anos, e contudo sou umhomem velho.

    Ningum se lembra do prprio nasci-mento. preciso que algum nos conte sobre ele.Mas comigo foi diferente. A vida se fez para mimquando eu j era um homem adulto, ofertando-me todas as minhas faculdades e poderes. Deuma existncia prvia nada sei, havendo em tudovagas sugestes de que tanto pode ser memriaquanto sonho. Sei apenas que minha primeiraconscincia foi a de maturidade, em corpo e em

    92/476

  • esprito conscincia esta que foi aceita semsurpresa ou conjecturas. Simples-mente dei pormim caminhando numa floresta, maltrapilho, de-scalo, horrivelmente cansado e faminto. Vendouma casa de fazenda, aproximei-me e pedi com-ida, que me foi dada por algum que perguntoumeu nome. Eu no o sabia, embora soubesse quetodos tm nome. Sem saber o que fazer, retirei-me e, como a noite caa, deitei-me na floresta eadormeci.

    No dia seguinte cheguei a uma cidadegrande, cujo nome omitirei. Tampouco relatareios outros acontecimentos desta vida que agoraest por acabar-se. Uma vida errante, sempre eem toda parte assombrada pela sensao arrasad-ora de um crime provocado por um erro e de um

    93/476

  • terror provocado por um crime. Vejamos se con-sigo reduzir tudo a esta narrativa.

    Parece que um dia vivi perto de umagrande cidade, onde fui um prspero fazendeiro,casado com uma mulher que amava, mas na qualno confiava. Tnhamos, s vezes me parece, umfilho, um jovem brilhante e promissor. Ele quase sempre uma lembrana vaga, nunca bemdelineada, quase todo o tempo fora do quadro.

    Numa noite infeliz, decidi testar a fidel-idade de minha mulher de uma maneira vulgar,um lugar-comum, conhecido de todos que estoacostumados literatura de fatos e fico Fuipara a cidade e disse a ela que s voltaria no diaseguinte de tarde. Mas voltei noite, antes doamanhecer, e fui para os fundos da casa com a in-teno de entrar por uma porta que eu mesmo

    94/476

  • preparara de forma a que parecesse estar trancadasem o estar. Quando me aproximava, ouvi orudo leve de uma porta abrindo-se e fechando-se, e em seguida vi um homem esgueirar-se e de-saparecer na escurido. Cheio de dio no cor-ao, corri atrs dele, mas ele esvaneceu-se semque eu pudesse saber quem era. Hoje no consigosequer ter certeza de que era de fato um serhumano.

    Louco de raiva e cime, cego, bestial,movido pelas paixes mais baixas de um homeminsultado, entrei na casa e disparei escada acimapara o quarto de minha mulher. Estava fechado,mas como eu tambm adulterara aquela tranca,entrei com facilidade e, apesar da escurido total,logo cheguei cabeceira dela. Apalpando a cama

    95/476

  • com as mos, vi que, embora em desalinho, es-tava vazia.

    "Ela est l embaixo", pensei, "e, apa-vorada com minha chegada, escapou de mim pelocorredor escuro.

    Disposto a segui-la, virei-me para sairdo quarto, mas acabei saindo na direo errada ou na direo certa! E meu p esbarrou nela,agachada num canto da parede. No mesmo in-stante, minhas mos apertavam sua garganta, deonde saiu um grito abafado, e meus joelhosprensavam-lhe o corpo, que se debatia. E ali, noescuro, sem uma palavra de acusao, eu a matei,estrangulando-a!

    Aqui termina o sonho. Relatei-o notempo passado, mas o presente teria sido mais

    96/476

  • apropriado, porque sempre e sempre essa trag-dia sombria reencenada em minha mente.Sempre e sempre, eu trao o plano, sofro com aconfirmao, corrijo o erro. E ento tudo vazio.E depois a chuva batendo contra as vidraassombrias, ou a neve caindo sobre minhas poucasroupas, as rodas chocando-se contra as pedras dasruas esqulidas onde jaz minha vida, na pobrezae na misria. Se em algum momento h sol, noconsigo lembrar-me. E se h pssaros, no osouo cantar.

    Mas h um outro sonho, outra viso danoite. Estou por entre as sombras de uma estradailuminada pela luz do luar. Tenho a conscinciade uma outra presena, mas no sei ao certoquem . Na sombra de uma imensa casa, vejo obrilho de uma veste branca. Em seguida a figura

    97/476

  • de uma mulher, que surge minha frente na es-trada. minha esposa, que matei! Vejo a morteem seu rosto. H marcas em sua garganta. Os ol-hos esto fixos nos meus com infinita gravidade,mas no h reprovao, nem dio ou ameaa,nem nada to medonho quanto o simples recon-hecimento. Diante dessa horrvel apario, eufujo, aterrorizado um terror que sinto at hoje,ao escrever estas linhas. J no posso encontraras palavras certas. Vejam! Elas...

    Agora estou calmo, mas na verdade nadamais tenho a dizer. O incidente acaba ondecomeou na escurido e na incerteza.

    Sim, recuperei meu autocontrole, sounovamente "senhor de meu esprito". Mas issono uma trgua. apenas outro estgio, outrafase de minha expiao. Minha pena, constante

    98/476

  • em quantidade, mutvel em qualidade. E umade suas variantes quando me sinto tranqilo.Afinal de contas, uma condenao perptua."Inferno em vida" uma pena tola. O ru quem escolhe a durao de sua pena. A minha seencerra hoje.

    A todos vocs, desejo a paz que nuncative.

    III

    Depoimento da finada Jlia Hetman,atravs do mdium Bayrolles

    Eu me deitara cedo, mergulhando imedi-atamente num sono tranqilo, do qual fui desper-tada por uma sensao indefinvel de perigo, aqual, creio, uma experincia comum naquela

    99/476

  • outra vida, a anterior. Tinha certeza de queaquele medo era sem motivo, mas ainda assimcontinuava sentindo-o. Meu marido, Joel Het-man, estava fora. Os criados dormiam em outraparte da casa. Mas tudo isso era costumeiro. Enunca me afligira. Contudo aquele estranho terrorfoi crescendo dentro de mim de forma to in-suportvel que acabei vencendo a relutncia emme mover e afinal levantei-me, acendendo a lm-pada na cabeceira da cama. Mas, ao contrrio doque esperava, no senti qualquer alvio. A luzpareceu na verdade aumentar o perigo, pois con-clu que ela brilharia atravs da fresta da porta,denunciando-me para qualquer presena malignaque estivesse escondida do lado de fora. Vocsque ainda so carne e esto sujeitos aos horroresda imaginao, pensem que medo monstruosono era aquele, que buscava na escurido um

    100/476

  • pouco de segurana contra os seres malvolos danoite. como se trancar em algum lugar com uminimigo invisvel a estratgia do desespero.

    Apagando a lmpada, cobri-me at acabea com as cobertas e ali fiquei, tremendo eem silncio, incapaz de gritar, sem ao menoslembrar-me de rezar. Nesse estado lamentvel,devo ter permanecido por aquilo que vocschamam horas. Para ns, as horas no existem. Otempo no existe.

    Finalmente, l estava o som leve, ir-regular, de passos nas escadas! Eram passos len-tos, hesitantes, incertos, como o de algo que noconhecesse o caminho. Para minha mente ator-mentada, isso foi ainda mais aterrorizante, comoa aproximao de um ser maligno, cego e irra-cional, diante do qual no haveria apelao.

    101/476

  • Cheguei a pensar que deveria ter deixado a lm-pada do corredor acesa. Aqueles passos titu-beantes provavam que a criatura era um monstroda noite. Era um pensamento to tolo e incoer-ente quanto o pavor que antes a prpria luz meinfundira, mas o que fazer? O medo no ra-ciocina. O medo insano. A prova funesta queele carrega e os conselhos covardes que sussurraso inenarrveis. Sabemos bem tudo isso, nsque j atravessamos o Umbral do Terror, quevagamos nas sombras eternas em meio s cenasde nossas vidas prvias, invisveis at para nsmesmos, invisveis uns para os outros,escondendo-nos em lugares solitrios, desam-parados, tentando falar com nossos entesqueridos, porm mudos, e sentindo diante deles omesmo pavor que eles diante de ns. s vezes,esse impedimento afastado, a lei suspensa: e,

    102/476

  • atravs do poder imortal do amor ou do dio, nsquebramos o encanto. Somos ento vistos poraqueles que gostaramos de alertar, consolar oupunir. Que aparncia temos para eles, nosabemos. Sabemos apenas que aterrorizamosmesmo aqueles que mais queremos confortar, e aquem mais rogamos por ternura e compaixo.

    Perdoem-me, eu lhes peo, essa di-gresso inconseqente de algum que um dia foimulher. Vocs, que nos consultam atravs dessesmeios imperfeitos, no podem compreender.Fazem perguntas tolas sobre coisas desconheci-das, esquecidas. Quase tudo que sabemos e quepoderamos dividir com vocs no significa nadaem seu mundo. Devemos comunicar-nos pormeio de uma inteligncia gaguejante, dentro dapequena frao de nossa linguagem que vocs

    103/476

  • so capazes de falar. Vocs pensam que somosde outro mundo. No. No conhecemos qualqueroutro mundo que no o seu, embora para ns jno haja sol, nem calor, nem msica, nem riso,nem canto de pssaros, nem qualquer forma decompanhia. Deus! O que ser um espectro, ras-tejando e tremendo num mundo distorcido, umapresa do medo e do desespero!

    No, no foi de medo que morri: fosse oque fosse, aquilo foi embora. Ouvi quando des-ceu as escadas correndo, pelo que me pareceu,como se ele prprio tambm estivesse com medo,E ento levantei-me para pedir ajuda. Mal al-canara, com as mos trmulas, a maaneta daporta quando Deus do cu! percebi que elevoltava. Agora, seus passos subindo as escadaseram rpidos, pesados, seguros. Faziam toda a

    104/476

  • casa estremecer. Corri para um canto da parede eagachei-me no cho. Tentei rezar. Tentei gritar onome de meu querido marido. E ento ouvi aporta se abrir com estrondo. Houve um intervalode inconscincia e, quando voltei a mim, senti apresso que se fechava sobre minha garganta,estrangulando-me. Senti meus braos lutando emvo contra alguma coisa que me sobrepujava.Senti minha lngua esgueirando-se por entre osdentes! E ento fiz a travessia rumo a esta vida.

    No, no tenho conhecimento do que eraaquilo. A soma do que sabamos no momento damorte a medida do que saberemos depois, a re-speito de tudo o que aconteceu antes. Desta ex-istncia sabemos muitas coisas, mas poucas luzesrecaem sobre as pginas daquela outra vida. namemria que est escrito tudo aquilo que

    105/476

  • seremos capazes de ler. No h aqui colinas daverdade debruando-se sobre os domnios ondereina a dvida. Continuamos lutando no Vale dasSombras, escondidos em suas paragens desola-das, perscrutando atravs dos espinheiros e damata seus loucos, malignos habitantes. Comopoderamos saber mais sobre aquele passado quese esbate?

    O que relatarei agora aconteceu certanoite. Sabemos quando noite, porque quandovocs voltam para suas casas e ns podemos sairde nossos esconderijos, vagando sem medo porcenrios onde um dia vivemos. Ah, espiamos at-ravs das janelas e chegamos mesmo a entrarpara olh-los enquanto vocs dormem. Por muitotempo, vaguei em torno da casa onde um dia fuicruelmente transformada nisto que sou hoje. o

    106/476

  • que fazemos com os lugares onde permanecemaqueles que amamos ou odiamos. Em vo, bus-cava uma forma de manifestao, uma maneirade fazer com que meu marido e meu filho com-preendessem que eu continuava a existir, a sentirum amor imenso e tambm um enorme pesar.Mas sempre, se estavam dormindo, acordavam,ou, se em meu desespero eu ousava aproximar-me deles quando despertos, tornavam para mimos olhos terrveis dos vivos, assustando-me comaqueles olhares e desviando-me de meuspropsitos.

    Naquela noite, eu os procurara em vo,ao mesmo tempo temendo encontr-los. No es-tavam em parte alguma da casa, nem no ptio ilu-minado pela luz da lua. Porque, embora o solpara ns esteja para sempre perdido, a lua, cheia

    107/476

  • ou tnue, nos visvel. s vezes brilha noite, svezes de dia, mas sempre surge e se pe, comonaquela outra vida.

    Sa do ptio e, sob a luz esbranquiada,segui pela estrada silenciosa, sentindo-me triste ecansada. De repente, ouvi a voz de meu pobremarido em exclamaes de espanto, junto com ade meu filho, tentando acalm-lo ou dissuadi-lo.E l, em meio s sombras das rvores, l estavameles prximos, to prximos! Seus rostosvoltados em minha direo, os olhos do pai fixosnos meus. Ele me via finalmente, ele podiaver-me! Consciente disso, meu terror desapare-ceu como um sonho cruel. O encanto mortal es-tava quebrado: o Amor vencera a Lei. Louca dealegria, gritei devo ter gritado: "Ele me v! Eele vai compreender!" E ento, tentando

    108/476

  • controlar-me, sa em sua direo, sorrindo, con-sciente de minha prpria beleza, oferecendo-me aseus braos, a fim de confort-lo com meucarinho, de segurar a mo de meu filho e dizer aspalavras que restabeleceriam os velhos laos,entre vivos e mortos.

    Mas, ai de mim! O rosto de meu maridoempalideceu de medo e seus olhos pareciam osde um animal acuado. Virou-me as costas en-quanto eu corria e acabou desaparecendo nafloresta. Que destino tomou, no me foi revelado.

    Quanto a meu pobre filho, duplamentedesolado, nunca pude fazer com que sentisseminha presena. Em breve, ele tambm deveratravessar a fronteira rumo a esta Vida Invisvel eento eu o terei perdido para sempre.

    109/476

  • Aparies

  • O que era?

    Ao sul do ponto em que a estrada entreLeesville e Hardy, no estado do Missouri, corta abifurcao leste do rio May, existe uma casaabandonada. Ningum vive l desde o vero de1879 e ela est caindo aos pedaos. Por cerca detrs anos antes da data que acabo de mencionar, acasa foi ocupada pela famlia de Charles May,cujos ancestrais tinham dado nome ao rio quepassa ali perto. A famlia do Sr. May consistiaem sua mulher, um filho adulto e duas moas. Onome do filho era John os nomes das filhas, oredator destas linhas desconhece.

    John May era rude, soturno e, emborano explodisse facilmente, era dono de um tem-peramento to rancoroso e mal-humorado que

  • raramente se v. Seu pai era o inverso. Sendo detemperamento solar e jovial, tinha pavio curto,sujeito a exploses momentneas, que logo eramesquecidas. No guardava ressentimentos e, as-sim que a raiva passava, em pouco tempo estavadisposto s reconciliaes. Tinha um irmo quevivia nas redondezas e que dele diferia em tudo.Os vizinhos comentavam, maldosos, que Johnherdara o temperamento do tio.

    Certo dia houve um desentendimentoentre pai e filho, palavras duras foram ditas e opai acabou dando um soco no rosto do rapaz.Calmamente, John limpou o sangue do rosto e,com os olhos fixos em seu agressor, esteja arre-pendido, disse com toda a frieza: "O senhor vaimorrer por causa disso.

    112/476

  • Suas palavras foram ouvidas por doisirmos, de sobrenome Jackson, que estavam porperto no momento da briga. Mas, vendo que pai efilho estavam discutindo, eles se afastaram, apar-entemente sem ser vistos. Charles May depois re-latou o acontecido mulher, explicando quehavia pedido perdo ao filho pelo soco, mas emvo. O jovem no apenas rejeitara suas desculpascomo tambm se recusara a retirar a ameaa.Apesar disso, no houve um rompimento expl-cito nas relaes familiares: John continuouvivendo com os pais e a vida seguiu seu curso.

    Numa manh ensolarada de junho, em1879, cerca de duas semanas depois da briga,May, o pai, saiu de casa depois de tomar caf, le-vando consigo uma p. Disse que ia cavar junto auma fonte, num bosque a pouco mais de um

    113/476

  • quilmetro da casa, a fim de que o gado tivessegua para beber. John ficou em casa por algumashoras, onde se barbeou, escreveu cartas e leu ojornal. Agia da forma costumeira. Ou, talvez,mostrando-se um pouco mais taciturno e rspido.

    s duas da tarde ele saiu de casa. scinco, voltou. Por algum motivo sem qualquerligao com o interesse em seus movimentos, edo qual no me lembro, tanto a me como asirms notaram a hora em que ele saiu e a hora emque voltou, como seria dito mais tarde duranteseu julgamento por assassinato. Notaram tambmque a roupa dele estava molhada em alguns pon-tos, como se (destacaria mais tarde a promotoria)ele tivesse lavado manchas de sangue. Suamaneira de agir era estranha e sua aparncia, de

    114/476

  • desvario. Disse que se sentia mal e foi para oquarto se deitar.

    May, o pai, nunca voltou. Mais tarde,naquela mesma noite, os vizinhos mais prximosforam chamados e durante toda a madrugada etodo o dia seguinte empreenderam buscas nafloresta onde ficava a fonte. Nada encontraram,exceto as pegadas dos dois homens no barro emtorno da nascente. Enquanto isso, John May pi-orava cada vez mais, com os sintomas de umadoena que o mdico local chamou de febrecerebral. E em seus delrios falava de assassinato,embora no explicasse quem teria sido assas-sinado, nem quem imaginava ser o culpado. Masa ameaa que fizera foi lembrada pelos irmosJackson e, como suspeito, ele foi preso, ficandoem priso domiciliar sob a custdia de um

    115/476

  • subxerife. A opinio pblica estava contra ele e,se no estivesse doente, provavelmente teria sidoenforcado pela turba. E, assim, os vizinhos se re-uniram na tera-feira, tendo sido criado umcomit para acompanhar o caso e tomar todas asprovidncias que se fizessem necessrias.

    Na quarta, tudo mudou. Da cidadezinhade Nolan, a mais de doze quilmetros de distn-cia, chegaram notcias que deram nova luz aocaso. Nolan era composta de uma escola, umaferraria, um armazm e meia dzia de casas. Oarmazm era de um tal Henry Odell, primo deCharles May. Na tarde do domingo em que Mayhavia desaparecido, o Sr. Odell e quatro de seusvizinhos, todos homens de credibilidade, estavamsentados diante do armazm fumando e convers-ando. Fazia calor. E tanto a porta da frente

    116/476

  • quanto a de trs estavam abertas. L pelas trs datarde, Charles May, que era conhecido de trs doscinco homens, entrou pela porta da frente e saiupela de trs. No usava chapu ou casaco. Noolhou para os homens, nem respondeu aoscumprimentos, gesto que no causou espanto,uma vez que ele estava seriamente ferido. Tinhaum ferimento acima da sobrancelha esquerda um corte profundo, de onde o sangue vertia,cobrindo todo o lado esquerdo do rosto e dopescoo e empapando a camisa cinza clara,Estranhamente, a concluso da maioria dos ho-mens foi a de que ele se metera em alguma brigae que se dirigia direto para o riacho nos fundosdo armazm, para se lavar.

    Talvez tenham ficado constrangidos movidos por um cdigo rural que os impediu de

    117/476

  • segui-lo e oferecer ajuda. Os autos, dos quais estanarrativa foi em grande parte extrada,restringem-se aos fatos. Eles esperaram que eleretornasse, mas ele no retornou.

    Em volta do riacho que passa nos fundosdo armazm h uma floresta, que se estende porquase dez quilmetros at as colinas de MedicineLodge. Assim que chegou vizinhana dohomem desaparecido a notcia de que ele haviasido visto em Nolan, houve uma mudana imedi-ata nos sentimentos da populao. O comit devigilncia foi dissolvido sem sequer a formalid-ade de uma resoluo. As buscas nas profundezasda floresta junto ao rio May foram suspensas equase todos os homens da regio se puseram avasculhar os arredores de Nolan e as colinas de

    118/476

  • Medicine Lodge. Mas do homem desaparecidono se achou trao.

    Uma das coisas mais estranhas desse es-tranho caso o indiciamento formal e o julga-mento de um homem sob a acusao de assas-sinato de outro homem, cujo corpo jamais foivisto por quem quer que fosse de um homem,inclusive, que no se sabia ao certo se estavamorto. Todos ns j ouvimos falar dos caprichose excentricidades das leis da fronteira, mas essecaso, acredita-se, nico. Seja como for, constados autos que, assim que se recuperou, John Mayfoi acusado pelo assassinato do pai desaparecido.O Conselho de defesa parece que no perdeutempo e o caso foi julgado por seus mritos. Apromotoria foi tbia e negligente. E a defesa rapi-damente estabeleceu levando em conta a

    119/476

  • vtima um libi. Se no momento em que JohnMay matou Charles May, na suposio de que otivesse matado, Charles May estava a quilmet-ros de distncia de onde John May devia estar,est claro que a vtima s poderia ter morridopelas mos de outra pessoa.

    John May foi absolvido e deixou a re-gio, sem que, desde ento, jamais algumouvisse falar dele. Pouco depois, sua me e suasirms mudaram-se para St. Louis. A fazenda pas-sou para as mos de um homem que possua oterreno adjacente, onde tinha seu prprio rancho,e a casa dos May ficou abandonada, tendo ad-quirido a sombria fama de mal-assombrada.

    Certo dia, depois que a famlia May jhavia deixado a regio, uns garotos, que brin-cavam no bosque junto ao rio May, encontraram

    120/476

  • encoberta sob um monte de folhas mortas, masparcialmente desenterrada pelos porcos, uma p,quase nova e ainda brilhante, exceto por umponto num dos cantos em que estava enferrujadae manchada de sangue. A ferramenta tinha as ini-ciais C. M. marcadas no cabo.

    A descoberta renovou, at certo ponto, aexcitao popular dos meses anteriores. O terrenoperto do local onde a p tinha sido encontrada foicuidadosamente escavado e o resultado foi que seencontrou o corpo de um homem. Havia sido en-terrado a uma profundidade de menos de ummetro e o local fora coberto por uma camada defolhas mortas e gravetos. Quase no estava de-composto, fato atribudo a alguma propriedadepreservativa do solo rico em minerais.

    121/476

  • Acima da sobrancelha esquerda haviaum ferimento um corte profundo de onde osangue vertera, cobrindo todo o lado esquerdo dorosto e do pescoo e empapando a camisa cinzaclara. O crnio fora rachado com o golpe. Ocorpo era de Charles May.

    Mas o que era aquilo que atravessou aloja do Sr. Odell em Nolan?

    122/476

  • Testemunha de um enforcamento

    Um velho de nome Daniel Baker, quevivia em Lebanon, Iowa, era suspeito, segundo osvizinhos, de ter assassinado um mascate que obt-ivera permisso para pernoitar em sua casa. Issoaconteceu em 1853, quando vendedores ambu-lantes eram coisa mais comum no Oeste do queso hoje, e quando os perigos eram maiores. Omascate, com sua maleta, atravessava os campospor todo tipo de estrada deserta e tinha de contarcom a hospitalidade dos camponeses. Issocolocava-o em contato com tipos estranhos, al-guns no muito escrupulosos em seus mtodos deganhar a vida, sendo o assassinato um meioaceitvel para alcanar tal objetivo. s vezesacontecia de um mascate, com a maleta j vazia ea bolsa de dinheiro cheia, ir at a moradia

  • solitria de algum mau-carter e depois nuncamais se ter notcias dele. Foi assim o caso en-volvendo o "velho Baker", que era como ochamavam. (Nos povoados do Oeste, esse tipo deapelido s dado a pessoas que no so muitobenquistas; quele que malvisto pela sociedadeaplica-se a referncia reprovadora idade.) Ummascate apareceu na casa dele e nunca mais foivisto era s o que se sabia.

    Sete anos depois, o reverendo Cum-mings, pastor batista muito conhecido naquela re-gio, ia passando certa noite perto da fazenda deBaker. No estava muito escuro: havia um ped-ao de lua em algum lugar acima da bruma leveque encobria os campos. O Sr. Cummings,sempre bem-humorado, assobiava uma cano,que interrompia de vez em quando para dizer

    124/476

  • uma palavra de encorajamento a seu cavalo. Aose aproximar de uma pequena ponte que cruzavauma ravina seca, viu a figura de um homem dep, claramente delineado sobre o fundo cinza eenevoado da floresta. O homem trazia algumacoisa atada s costas e levava um grosso cajado obviamente, um vendedor ambulante. Haviaem suas maneiras um certo alheamento, comonos sonmbulos. O Sr. Cummings puxou asrdeas do cavalo quando chegou diante dele esaudou-o com simpatia, convidando-o a subir nacarroa "se estiver indo na minha direo",acrescentou. O homem ergueu o rosto, encarou-o,mas nem respondeu nem saiu do lugar. O pastor,com seu persistente bom humor, repetiu o con-vite. Ento o homem esticou a mo direita eapontou para baixo, enquanto continuava de pna beirada da ponte. O Sr. Cummings olhou para

    125/476

  • onde ele apontava, em direo ravina, mas, novendo nada demais, virou-se para olhar de novopara o homem. Ele havia desaparecido. O cavalo,que durante todo o tempo estivera estranhamenteinquieto, soltou no mesmo instante um relinchode terror e disparou. Quando conseguiu recuperaro controle do animal, o pastor j estava no alto damontanha, centenas de metros adiante. Olhoupara trs e viu a figura do homem outra vez, nomesmo lugar e com a mesma atitude que obser-vara. E ento, pela primeira vez, foi invadidopela sensao do sobrenatural e partiu para casa atoda velocidade, como o cavalo queria.

    Em casa, contou sua aventura famliae, no dia seguinte cedo, acompanhado por doisvizinhos, John White Corwell e Abner Raiser,voltou ao tal lugar. L encontraram o corpo do

    126/476

  • velho Baker pendurado pelo pescoo numa dasvigas da ponte, bem embaixo do lugar onde aapario estivera de p. Uma fina camada depoeira, levemente umedecida pela bruma, cobriao cho da ponte, mas apenas as pegadas docavalo do Sr. Cummings eram visveis.

    Ao retirar o corpo, os homens re-volveram o cho de terra fofa, esboroada, da en-costa, acabando por desenterrar ossos humanosque estavam quase descobertos graas ao dagua e das geadas. Os ossos foram identificadoscomo sendo do mascate desaparecido. No duploinqurito aberto pelo jri local, ficou com-provado que Daniel Baker havia sido morto pelasprprias mos, num momento de temporria in-sanidade, e que Samuel Morritz fora assassinado por quem, o jri no sabia.

    127/476

  • Mensagem sem fio

    No vero de 1896, o Sr. William Holt,um empresrio bem-sucedido de Chicago, estavavivendo temporariamente numa cidadezinha nocentro do estado de Nova York, de cujo nomeeste escritor no se lembra. O Sr. Holt tinha "tidoproblemas com a mulher", de quem se separarano ano anterior. Se fora alguma coisa mais gravedo que "incompatibilidade de gnios", ele talvez a nica pessoa que poderia dizer, j queno cultivava o hbito de fazer confidncias.Mesmo assim, contou os incidentes que relatareiaqui a pelo menos uma pessoa, sem que pedissesegredo. Hoje ele vive na Europa.

    Certa noite, Holt havia sado da casa doirmo, que acabara de visitar, para um passeio

  • pelos campos. Pode-se supor seja qual for ovalor dessa suposio, diante do que se diz teracontecido que ele tivesse a mente ocupadapor reflexes sobre sua infelicidade domstica esobre as mudanas ocorridas em sua vida.Fossem quais fossem seus pensamentos, o fato que o absorveram de tal forma que ele no sentiunem a passagem do tempo nem para onde seusps o levavam. Sabia apenas que ultrapassara emmuito os limites urbanos e que agora atravessavauma regio deserta, por uma estrada que no separecia em nada com a que tinha trilhado aodeixar a cidade. Em resumo, estava perdido.

    Percebendo a m sorte, sorriu. A regiocentral do estado de Nova York no era perigosa,nem ningum capaz de ficar perdido ali pormuito tempo. Virou-se e recomeou a andar pelo

    129/476

  • mesmo caminho por onde viera. Antes que fossemuito longe, notou que a regio em torno ficavacada vez mais estranha e clara. Tudo estavaenvolto num halo de luz suave e avermelhada, naqual via sua prpria sombra projetar-se sobre aestrada. "Alua est nascendo", disse a si mesmo.Mas em seguida lembrou-se que era tempo de luanova e que, mesmo se o astro enganoso estivessenum de seus estgios visveis, com certeza j ter-ia desaparecido no horizonte. Parou e olhou emvolta, procurando a fonte daquela luminosidade,que se espalhava rapidamente. Ao faz-lo, viu aprpria sombra projetar-se sua frente na es-trada, da mesma forma como quando estiveravirado para o outro lado. A luz continuava vindode trs dele. Era surpreendente. No podiacompreender. Voltou-se outra vez, e mais outra,virando-se para todos os pontos do horizonte. A

    130/476

  • sombra continuava sua frente e a luz atrs,"aquela vermelhido estranha, quieta".

    Holt ficou assombrado "bestificado" a palavra que usaria depois, ao relatar o caso, mas ainda assim manteve uma certa curiosid-ade racional. Para testar a intensidade daquelaluz, cuja causa e natureza no podia determinar,tirou o relgio para ver se conseguia enxergar-lheos ponteiros. Estavam perfeitamente visveis,mostrando que eram 11 horas e 25 minutos.Naquele instante, a misteriosa luminosidade derepente explodiu num esplendor intenso, quasecapaz de cegar, tomando todo o cu e fazendo de-saparecerem as estrelas, enquanto projetava paraa frente a sombra agora descomunal de Holt. Foisob aquela luz assombrada que ele viu, a poucadistncia mas a uma certa altura, como se

    131/476

  • flutuasse, a figura de sua mulher, vestida comroupas de dormir e segurando junto ao seio ofilho deles. Os olhos dela encaravam-no comuma expresso que Holt mais tarde se diria in-capaz de definir ou descrever, embora ressaltasseque "no era deste mundo".

    A luz intensa foi momentnea e logotudo escureceu, embora a apario ainda per-manecesse visvel, plida e imvel. Em seguida,foi aos poucos morrendo at desaparecer de todo,como a imagem de uma luz forte que fica na ret-ina depois que fechamos os olhos. Uma peculiar-idade daquela apario, a princpio no notada,mas que ele mais tarde recordaria, que ele viraapenas a parte superior da figura da mulher: nadahavia da cintura para baixo.

    132/476

  • A escurido repentina no foi absoluta elogo ele pde discernir tudo sua volta.

    Na penumbra da manh, deu por si en-trando na cidade, pelo lado oposto ao qual haviasado. Pouco depois chegou casa do irmo, quemal o reconheceu. Tinha os olhos injetados e,desvairado, estava da cor do plo de um rato. Deforma quase incoerente, Holt relatou o que sepassara.

    "V para a cama, meu rapaz", disse-lheo irmo, "e espere. Vamos acabar descobrindomais sobre isso.

    Horas depois, chegava o telegrama pre-destinado. A casa de Holt, num dos subrbios deChicago, fora destruda pelo fogo. Acuada pelaschamas, sua mulher aparecera na janela, com o

    133/476

  • filho nos braos. Ali ficara, imvel, aparente-mente em choque. No momento exato em que osbombeiros chegavam com uma escada, o chodesabara, e ela no fora mais vista. O momentoculminante do horror fora s 11 horas e 25minutos.

    134/476

  • Priso

    Tendo assassinado o cunhado, OrrinBrower, de Kentucky, era um foragido da justia.Escapara da priso local, onde aguardava julga-mento, batendo no vigia com uma barra de ferroe roubando-lhe as chaves, com as quais abrira aporta externa, desaparecendo na noite. Como ovigia estivesse desarmado, Brower fugira semqualquer arma com a qual pudesse defender arecm-recuperada liberdade. Assim que se viulonge da cidade, cometeu a asneira deembrenhar-se por uma floresta. Isso aconteceu hmuitos anos, quando aquela regio era bem maisdespovoada do que hoje.

    A noite estava muito escura, no hav-endo lua ou estrelas, e como Brower nunca

  • andara por aquelas redondezas, desconhecendo aregio, claro que logo estava perdido. J no con-seguiria dizer se estava caminhando para longeda cidade ou se retornava o que era de sumaimportncia para Orrin Brower. Sabia que, emqualquer uma das circunstncias, um bando dehomens com seus ces de caa logo estaria emseu encalo e suas chances de escapar seriampequenas. Mas no ia facilitar as coisas. Por umahora de liberdade que fosse, valeria a pena lutar.

    De repente, saiu da floresta e deu numavelha estrada, na qual viu, indistintamente, a sil-hueta de um homem, imvel na penumbra. Eratarde para tentar fugir. O fugitivo sabia que, aoprimeiro movimento que fizesse tentandoembrenhar-se de novo na floresta, seria, como di-ria depois, "crivado de balas". E assim os dois

    136/476

  • permaneceram ali parados como se fossemrvores, Brower quase sentindo-se sufocar comas batidas do prprio corao. O outro bem,nada se sabe sobre as emoes do outro.

    Um segundo depois ou talvez tenhasido uma hora a lua surgiu por entre as nuvense o homem caado viu nitidamente quando opolicial ergueu o brao, apontando de forma sig-nificativa numa determinada direo. Com-preendeu. Virando as costas para seu captor,caminhou submisso na direo indicada, sem ol-har para os lados, mal ousando respirar, a cabeae as costas j sofrendo com a profecia de umabala.

    Brower era o mais corajoso dos ban-didos que sobreviveram para ser enforcados. Issoficara patente pela maneira com que se expusera

    137/476

  • ao perigo ao assassinar friamente o cunhado. Novamos relat-la aqui. Tudo isso veio tona emseu julgamento e a revelao de sua calma dianteda situao quase salvou-lhe o pescoo. Mas oque vocs querem? Quando um bravo vencido,ele se submete.

    E, assim, eles seguiram em direo priso pela velha estrada, atravs da floresta. So-mente uma vez Brower teve coragem de olharpara trs. S uma vez, quando estava imerso nasombra e sabia que o outro estava sob a luz doluar, virou-se e espiou. Seu captor era BurtonDuff, o vigia, plido como a morte, trazendoainda na fronte a marca vvida da barra de ferro.Orrin Brower no quis saber de mais nada.

    Afinal, chegaram cidade, onde tudo es-tava iluminado, embora deserto. Apenas

    138/476

  • mulheres e crianas tinham ficado na cidade, masno estavam nas ruas. E o criminoso seguiu emfrente, direto para a priso. Dirigiu-se entradaprincipal, tocou a maaneta da pesada porta deferro, empurrou-a sem que ningum lhe man-dasse, entrou e se viu na presena de meia dziade homens armados. S ento se virou. Ningummais entrou.

    Sobre a mesa, no corredor, jazia o corpomorto de Burton Duff.

    139/476

  • A alucinao de Staley Fleming

    De dois homens que conversavam, umera mdico.

    "Mandei busc-lo, doutor", disse ooutro, "mas no acredito que possa ajudar-me.Talvez o senhor pudesse recomendar um espe-cialista em problemas mentais. Acho que estouperdendo a razo.

    "Voc parece to bem", retrucou omdico.

    "O senhor que vai julgar. Estou tendoalucinaes. Acordo todas as noites e vejo emmeu quarto, olhando-me intensamente, umimenso co terra-nova negro, com as patas dafrente brancas.

  • "Voc diz que acorda. Tem certeza? svezes, aquilo que chamamos 'alucinaes' nopassa de sonhos.

    "Acordo, sim. s vezes fico parado, pormuito tempo, olhando para aquele cachorro, como mesmo olhar intenso com que o animal me fita.E a luz est sempre acesa. Quando j no possosuportar, sento-me na cama... e ento vejo queno h nada ali!

    "Hum... qual a expresso do co?

    "Parece sinistra. Eu sei que, excetoquando se trata de arte, a face de um animal emrepouso tem sempre a mesma expresso. Masesse no um animal de verdade. Os terra-novastm um olhar manso, o senhor sabe. O que serque h com esse?

    141/476

  • "Bem, quanto a isso, meu diagnsticono teria importncia. No do cachorro que voutratar.

    O mdico riu do prprio gracejo, mas aomesmo tempo observava o paciente com o cantodo olho. At que falou:

    "Fleming, a descrio desse animal com-bina com a do cachorro do falecido AtwellBarton.

    Fleming ameaou levantar-se da cadeira,sentou-se de novo e, querendo mostrar indifer-ena, falou:

    "Eu me lembro do Barton. Acho queele... dizem que... no houve alguma coisa desuspeito em torno de sua morte?

    142/476

  • Olhando diretamente nos olhos do pa-ciente, o mdico disse:

    "H trs anos o corpo de Atwell Barton,seu velho inimigo, foi encontrado na floresta,perto da casa dele e da sua. Ele fora esfaqueado emorto. Mas ningum foi preso. No havia provas.Algumas pessoas tinham 'teorias'. Eu tinha uma.E voc?

    "Eu? Bem, eu... Deus do cu, o que eupoderia saber do assunto? O senhor sabe muitobem que viajei para a Europa logo depois... querdizer, algum tempo depois. Nas poucas semanasdesde que voltei, no seria capaz de construiruma 'teoria', o senhor no acha? Na verdade, nopensei no assunto. Mas o que tem o cachorrodele?

    143/476

  • "Foi quem encontrou o corpo. E depoisficou montando guarda no tmulo, at morrer defome.

    Nada sabemos sobre as leis inexorveisdas coincidncias. Pelo menos Staley Flemingnada sabia, caso contrrio no se teria erguido deum salto quando, atravs da janela, o vento danoite trouxe consigo o longo ganido de um co, adistncia. Andou de um lado para o outro na sala,sob o olhar fixo do mdico. At que, abrupta-mente e quase gritando, dirigiu-se a este:

    "E o que tudo isso tem a ver com meuproblema, Dr. Halderman? O senhor esqueceu arazo pela qual foi chamado?

    Levantando-se, o mdico segurou obrao do paciente e, delicadamente, falou:

    144/476

  • "Perdo. No posso diagnosticar seuproblema de antemo. Amanh, talvez. Por favor,v deitar-se e deixe porta do quarto destran-cada. Vou passar a noite aqui com seus livros.Pode me chamar sem levantar-se?" "Posso.Tenho uma campainha.

    "timo. Se vir alguma coisa, aperte oboto sem se sentar. Boa noite.

    Confortavelmente instalado numa pol-trona, o mdico ficou olhando as brasas brilhar-em enquanto se deixava levar por pensamentosprofundos, mas aparentemente sem importncia,j que por vezes levantava-se, abria a porta quedava para as escadas e ficava escutando atenta-mente. E em seguida voltava a sentar-se. At queacabou adormecendo e quando acordou j pas-sava da meia-noite. Remexeu o fogo, apanhou

    145/476

  • um livro que estava na mesinha a seu lado e leu ottulo. Eram as Meditaes, de Denneker. Abriu-o ao acaso e comeou a ler:

    Porque embora tenha sido determinadopor Deus que toda carne tenha esprito e, con-seqentemente, poderes espirituais, assim tam-bm o esprito tem o poder da carne, mesmoquando dela se desprendeu e vive como algo parte, como muitas violncias perpetradas porfantasmas e espectros tm comprovado. E hquem diga que isso no ocorre somente com ohomem, mas que tambm os animais so movidospor tais propsitos malficos, e que...

    A leitura foi interrompida por um es-trondo que sacudiu a casa, como a queda de umobjeto muito pesado. O mdico fechou o livro esaiu correndo, subindo as escadas em direo ao

    146/476

  • quarto de Fleming. Tentou abrir a porta, mas es-ta, contrariando suas instrues, estava trancada.Bateu-lhe com o ombro com tal fora que a portacedeu. No cho, junto cama em desalinho,vestido com a roupa de dormir, jazia Fleming, morte.

    O mdico ergueu do cho a cabea domoribundo, observando o ferimento em suagarganta.

    "Devia ter previsto isto", disse,acreditando tratar-se de suicdio.

    Quando o homem, depois de morto, foiexaminado, notou-se que havia marcas visveisdas presas de um animal que se tinham cravadofundo na veia jugular.

    147/476

  • S que no havia animal algum.148/476

  • Diagnstico da morte

    "Sou menos supersticioso do que algunsde vocs, mdicos homens da cincia, comogostam de ser chamados", disse Hawver, re-spondendo a uma acusao que sequer fora for-mulada. "Alguns de vocs poucos, verdade acreditam na imortalidade da alma e em apar-ies que no tm a honestidade de chamar defantasmas. Eu tenho apenas a convico de queos seres vivos s vezes so vistos onde no esto,mas onde j estiveram em lugares ondeviveram por muito tempo, ou talvez to in-tensamente, que deixaram sua marca no ambi-ente. Sei, na verdade, que o ambiente onde umapessoa vive pode ser afetado por sua personalid-ade, a ponto de emitir, muito tempo depois, a im-agem dessa pessoa ante os olhos dos outros. Sem

  • dvida, no qualquer personalidade que assimto marcante, assim como os olhos que percebemtambm tm de ser de um tipo especial comoos meus, por exemplo.

    "Sim, o tipo certo de olhos, mas envi-ando sensaes para o tipo errado de crebro",disse o Dr. Frayley, sorrindo.

    "Obrigado. bom quando nossas ex-pectativas so atendidas. exatamente essa a res-posta que se espera ouvir em nome dacivilidade.

    "Perdoe-me. Mas voc diz que sabe. Isso muita coisa, no acha? Talvez no se inco-modasse em me contar como foi que aprendeutudo isso.

    150/476

  • "Voc vai dizer que alucinao", re-spondeu Hawver, "mas no me importo.

    E foi assim que ele contou a histria.

    "No vero passado, eu fui, como vocsabe, passar a temporada quente na cidade deMeridian. O parente em cuja casa pretendiahospedar-me ficou doente, por isso procureioutro local para ficar. Com muita dificuldade,consegui alugar uma casa que estava vazia, tendosido antes ocupada por um mdico excntrico denome Mannering, que se fora muitos anos antes.Para onde, ningum sabia, nem mesmo seuagente. Ele prprio construra a casa e nela viveracom uma velha criada durante cerca de dez anos.Aps algum tempo, renunciara prtica da medi-cina, qual j pouco se dedicava. No apenasisso: na verdade, tornara-se um recluso, abrindo

    151/476

  • mo de qualquer tipo de vida social. O mdicolocal, nica pessoa com a qual mantinha algumcontato, contou-me que durante o perodo de re-cluso ele se dedicara inteiramente a uma de-terminada pesquisa, cujo resultado expusera emum livro. Este fora desaprovado por seus pares,que na verdade consideravam-no meio louco.No tive oportunidade de ler o livro, de cujottulo sequer me recordo, mas sei que abordavauma teoria muito surpreendente. Ele asseguravaser possvel a qualquer pessoa, desfrutando deboas condies de sade, prever a prpria mortecom toda a preciso, com muitos meses deantecedncia. O limite, creio, era de dezoitomeses. Corriam histrias de que o mdico exer-cera essa sua capacidade de fazer prognsticos ou diagnsticos, como voc chamaria. E dizemtambm que em todos os casos a pessoa, cujos

    152/476

  • amigos haviam sido avisados, morrera de repentena hora exata apontada por ele, sem qualquerrazo aparente. Nada disso, porm, tem a vercom o que quero contar. S achei que um mdicose divertiria ouvindo isso, "A casa era mobili-ada, com os mesmos mveis do tempo em queele l vivera. Era na verdade uma casa sombriapara algum como eu, que no era nem reclusonem pesquisador, e acho que talvez me tenhatransmitido um pouco dessa sua caracterstica ou talvez um pouco do carter de seu ocupanteanterior. Porque eu sentia nela uma constantemelancolia que no fazia parte do meu tempera-mento, nem mesmo como consequncia dasolido. Nenhum criado dormia na casa, mas eusempre me senti muito bem em minha prpriacompanhia, como voc sabe, gostando muito deler, embora no de estudar. Fosse qual fosse a

    153/476

  • causa, o efeito era de desalento, como se algumacoisa malfica pairasse no ar. A sensao era es-pecialmente forte no gabinete do Dr. Mannering,embora o aposento fosse o mais claro e arejadoda casa. O retrato a leo do mdico, em tamanhonatural, ficava pendurado na parede, parecendodominar toda a sala. No havia nada de estranhona pintura. O homem tinha bom aspecto, apar-entava cerca de cinquenta anos, cabelos grisal-hos, rosto bem escanhoadoe olhos graves eescuros. Mas algo naquele quadrosempre chamava e prendia minha ateno. Aaparncia do homem tornou-se familiar para mime era quase como se me assombrasse.

    "Certa noite atravessei a sala em direoa meu quarto, levando nas mos uma lamparina no h gs em Meridian. Como sempre fazia,

    154/476

  • parei diante do retrato que, luz da lamparina,parecia ganhar uma expresso nova, de difcildefinio, mas sem dvida alguma sobrenatural.Fiquei interessado, mas no perturbado. Movi alamparina de um lado para o outro, observandoos efeitos provocados pelas nuances de luz.Quando o fazia, tive um impulso de virar-me. E,ao faz-lo, vi que um homem atravessava a salaem minha direo! Assim que chegou perto o su-ficiente para que a luz lhe iluminasse o rosto, vique era o Dr. Mannering. Era como se o retratoestivesse vivo.

    "'Perdo', falei, com certa frieza, 'mas seo senhor bateu, eu no ouvi.' "Ele passou pormim, a um metro de distncia, ergueu o dedo in-dicador da mo direita, como se quisesse fazer-me uma advertncia, e sem dizer palavra saiu da

    155/476

  • sala, embora eu no o visse sair da mesmaforma como no o vira entrar.

    "Claro, nem preciso dizer-lhe que aquiloera o que voc chamaria de alucinao e eu deapario. Aquela sala tinha apenas duas portas,sendo que uma estava trancada. A outra davapara um quarto de dormir, que no tinha outrasada. O que eu senti ao dar-me conta disso notem real importncia para o meu relato.

    "Para voc, sem dvida, tudo isso deveser uma 'histria de assombrao' das maiscomuns construda com os elementos regu-lares usados pelos velhos mestres da arte. Se as-sim fosse, no a teria contado, mesmo sendo ver-dadeira. O homem no estava morto. Eu o en-contrei hoje na Union Street. Passou por mim emmeio multido.

    156/476

  • Hawver tinha terminado sua histria e osdois estavam em silncio. O Dr. Frayley tambori-lava os dedos sobre a mesa, com ar ausente.

    "E hoje ele falou alguma coisa?", per-guntou. "Alguma coisa que o levasse a crer queno est morto?

    Hawver olhou-o sem responder.

    "Talvez", continuou o Dr. Frayley,"tenha feito um sinal um gesto. Erguido o dedo,como se em advertncia. um tique que ele tinha um hbito, sempre que dizia alguma coisasria quando anunciava o resultado de um dia-gnstico, por exemplo.

    157/476

  • "De fato, ele fez isso, sim exatamentecomo a apario havia feito. Mas... Deus do cu!Voc o conhecia?

    Hawver parecia cada vez mais nervoso.

    "Conhecia, sim. Li seus livros, como to-dos os mdicos acabam fazendo um dia. umadas contribuies mais importantes e fundamen-tais para a cincia mdica deste sculo. Sim, eu oconhecia. E o atendi quando estava doente, htrs anos. Ele est morto.

    Hawver ergueu-se da poltrona, visivel-mente perturbado. Comeou a andar de um ladopara o outro da sala. Depois aproximou-se doamigo e, com a voz trmula, disse:

    158/476

  • "Doutor, o senhor tem alguma coisa ame dizer... como mdico?

    "No, Hawver. Voc a pessoa maissaudvel que conheo. Como amigo, aconselho-oa ir para seu quarto. Voc toca violino como umanjo. Toque. Toque alguma coisa leve e alegre. Etire essa maldita histria da cabea.

    No dia seguinte, Hawver foi encontradomorto em seu quarto, com o violino em posio,o arco sobre as cordas partitura, sua frente,aberta na marcha fnebre de Chopin.

    159/476

  • O ambiente adequado

    I

    A noite

    Numa noite de pleno vero, o filho deum fazendeiro que vivia a cerca de quinze quil-metros de Cincinnati seguia por uma trilha decavalos em meio a uma floresta densa e escura. Orapaz se perdera quando procurava por algumasvacas desgarradas e por volta da meia-noite j es-tava a uma enorme distncia de casa, numa re-gio que lhe era desconhecida. Mas tratava-se deum rapaz corajoso e, sabendo vagamente qual eraa direo de casa, seguira floresta adentro semhesitar, guiando-se pelas estrelas. Ao dar com a

  • trilha de cavalos, e notando que ela rumava ex-atamente na direo certa, decidiu segui-la.

    A noite estava clara, mas dentro dafloresta a escurido envolvia tudo. Era mais pelotato do que pela viso que ele seguia caminho.Na verdade, seria difcil sair da trilha. De ambosos lados a vegetao, de to fechada, era quaseimpenetrvel. J caminhara floresta adentro pordois ou trs quilmetros quando se surpreendeuao ver uma fraca luminosidade brilhando atravsda folhagem na beira do caminho, sua esquerda.Aquela viso deixou-o atnito e seu coraocomeou a bater com toda fora.

    "A velha casa Breede fica perto daqui",disse para si mesmo. "Devo estar na outra ex-tremidade do caminho que vai dar l, saindo de

    161/476

  • nossa casa. Mas... por que ser que h uma luzali?

    De qualquer forma, seguiu em frente.Pouco depois, emergia da floresta, indo dar numpequeno espao aberto, recoberto de espinheiros.Havia resqucios de uma cerca, semidestruda. Apoucos metros da trilha, no meio da clareira, lestava a casa de onde emanava a luz, atravs deuma janela sem vidros. A janela um dia tiverauma vidraa, mas esta, assim como a esquadria,tinha sido h muito destruda pelos projteis ar-remessados por meninos aventureiros, dispostos aprovar, a um s tempo, sua coragem e sua hostil-idade s foras sobrenaturais. Sim, porque a casaBreede tinha a reputao maldita de ser uma casamal-assombrada. Talvez no o fosse, mas nemmesmo o mais ctico poderia negar que estava

    162/476

  • abandonada o que, em zonas rurais, significapraticamente a mesma coisa.

    Olhando para a luz misteriosa que eman-ava atravs da janela quebrada, o garoto lembrou-se, com certa apreenso, que sua prpria mocontribura para aquela destruio. Claro que suapenitncia, por tardia e intil, seria terrvel. Decerta forma ele esperava ser punido por todos osespritos malficos e inominveis que desafiara,ao ajudar a arrebentar-lhes as janelas e a paz.Mas nem assim o rapaz obstinado, que tremia dacabea aos ps, fugiu. O sangue em suas veiasera forte e rico em ferro, como o dos homens dafronteira. Pertencia segunda gerao daquelesque haviam dominado os ndios. E seguiu emfrente, pronto para passar em frente casa.

    163/476

  • No momento em que passava, olhandoatravs do vo da janela, deu com um cenrio es-tranho e aterrador a figura de um homem sen-tado no meio da sala, diante de uma mesa ondehavia algumas folhas de papel. Os cotovelos es-tavam sobre a mesa e as mos sustentavam acabea, sem chapu. De ambos os lados, os dedosestavam enfiados nos cabelos. luz da nicavela que brilhava a seu lado, o rosto do homemera de uma palidez cadavrica. A chama ilu-minava s um lado do rosto e o outro estava en-volto pela escurido. Seus olhos estavam fixos novo da janela, com um olhar que um observadormais frio e mais experiente descreveria como demedo, mas que para o rapaz pareceu um olharvazio, sem alma. Ele achou que o homem estavamorto.

    164/476

  • A situao era horrvel, mas carregavaalgum fascnio. E o rapaz parou para olharmelhor. Sentia-se fraco, tremia, parecia a pontode desmaiar. Podia sentir o sangue fugir-lhe dorosto. E contudo, trincando os dentes, avanouem direo casa. No sabia ao certo o que iriafazer era a mera coragem provocada pelo ter-ror. Enfiou o rosto plido pelo vo iluminado dajanela. Naquele instante, um grito agudo e es-tranho cortou o silncio da noite era o piadode uma coruja. O homem ps-se de p num pulo,derrubando a mesa e apagando a vela. E o rapazsaiu em disparada.

    II

    O dia anterior

    165/476

  • "Bom dia, Colston. Parece que estoudando sorte. Voc j cansou de dizer que meuselogios a seu trabalho literrio eram por puraeducao e agora me encontra aqui absorto naverdade completamente envolvido , com sualtima histria no Messenger. S mesmo seutoque no meu ombro me fez recobrar aconscincia.

    "A prova mais forte do que imagina",respondeu o outro. "Voc est to ansioso porconhecer a histria que capaz de renunciar sprprias consideraes e estragar todo o prazerque poderia obter com ela.

    "No estou entendendo", disse o leitor,dobrando o jornal e guardando-o no bolso."Vocs, escritores, so muito esquisitos. Vamosl. Conte-me o que foi que eu fiz ou deixei de

    166/476

  • fazer, Em que sentido o prazer que tiro, ou possotirar, de seu trabalho depende de mim?

    "Em vrios sentidos. Voc gostaria detomar seu caf da manh aqui neste bonde? Esuponha que houvesse um fongrafo to perfeitoque fosse capaz de reproduzir uma pera inteira o canto, a orquestrao, tudo , voc achaque a ouviria com prazer em pleno escritrio,durante o trabalho? Voc seria capaz de apreciaruma serenata de Schubert tocada ao violino porum italiano inoportuno, no ferryboat matinal?Voc est sempre disposto a se divertir? Estsempre atento, pronto para apreciar tudo?Permita-me lembrar-lhe, meu caro, que a histriaque acabou de me dar a honra de comear a lei,apenas como um artifcio para esquecer o

    167/476

  • desconforto deste bonde, uma histria deassombrao!

    "E da?

    "E da? Ser que o leitor no tem tam-bm deveres, correspondentes a seus privilgios?Voc pagou cinco centavos por esse jornal. seu. Tem o direito de l-lo quando e onde quiser.A maior parte do que est escrito nele no serafetada, para melhor ou para pior, pelo momento,local ou clima da leitura. Algumas notcias de-vem mesmo ser lidas de imediato enquantoainda tm gs. Mas minha histria no dessetipo, No faz parte da lista de 'ltimas novidades'da Terra Assombrada. Voc no tem obrigaode estar atualizado acerca de tudo o que acontecenas regies do alm. Essa histria se manter atque voc possa conceder sua mente um

    168/476

  • momento de relaxamento, apropriado paraapreender seu significado e, com todo re-speito, devo dizer-lhe que isto no pode ser feitodentro de um bonde, mesmo que voc seja onico passageiro. Porque, ainda assim, a solidoser uma solido inadequada. Um escritor temdireitos que o leitor deve respeitar.

    "D um exemplo especfico.

    "O direito a ter uma ateno exclusivapor parte do leitor, neg-lo, seria imoral. Faz-lodividir a ateno com o barulho de um bonde,com as imagens corridas dos transeuntes nascaladas, com os prdios passando com mil-hares de outras distraes que compem nossoambiente habitual amea-lo com uma in-justia grosseira. Por Deus, infame!

    169/476

  • O escritor se pusera de p, segurando-seem um dos apoios pendurados no teto do bonde.O outro olhava-o espantado, perguntando-secomo uma ofensa to banal podia justificar lin-guagem to dura. Notou que o rosto do escritorestava extraordinariamente plido, enquanto seusolhos brilhavam como carves em brasa.

    "Sabe bem o que quero dizer", continu-ou ele, atropelando as palavras, "sabe o quequero dizer, Marsh. O que escrevo nessematutino traz o subttulo 'Uma histria assom-brada'. Est mais do que claro. Qualquer um dosmeus honrados leitores entender que com issoesto subentendidas as condies sob as quais otexto deve ser lido.

    O homem chamado Marsh estremeceulevemente e depois perguntou com um sorriso:

    170/476

  • "Que condies? Voc sabe muito bemque sou apenas um homem de negcios, do qualno se espera que entenda de determinados as-suntos. Como, quando e onde devo ler suahistria de assombrao?

    "Em total solido noite sob a luzde uma vela. H certas emoes que um escritorpode provocar com facilidade - como diverti-mento ou compaixo. Posso lev-lo s lgrimasou a uma gargalhada em praticamente qualquercircunstncia. Mas para que minha histria de as-sombrao tenha efeito, voc precisa sentir medo ou pelo menos uma forte sensao de sobren-atural, e a est algo difcil. Tenho o direito deesperar que, j que me l, voc deva me dar umachance. E se disponha a sentir a emoo que es-tou tentando inspirar.

    171/476

  • O bonde acabara de chegar ao terminal eparara. A viagem recm-terminada era a primeirado dia e a conversa dos dois passageiros mad-rugadores no fora interrompida. As ruas aindaestavam vazias, silenciosas. Os telhados das cas-as apenas comeavam a receber a luz do sol.Assim que saltaram e comearam a caminharjuntos, Marsh observou seu companheiro, do qualse dizia, como alis da maioria dos homens comrara habilidade literria, ser chegado a vrios v-cios destrutivos. essa a vingana das mentessimples contra aquelas mais brilhantes, por seressentirem de sua superioridade. O Sr. Colstonera conhecido como um homem de gnio. H al-mas honestas que acreditam serem os gnios umaespcie de excesso. Sabia-se que Colston no erade beber, mas muitos comentavam que ele usavapio. Alguma coisa em sua aparncia naquela

    172/476

  • manh um certo olhar selvagem, a estranhapalidez, a maneira de falar, rpida e rouca parecia ao Sr. Marsh confirmar tais comentrios.Mas ele no abandonaria um assunto que achavainteressante, por mais que isso deixasse seuamigo agitado.

    "Voc quer dizer", falou, "que se eu medesse ao trabalho de seguir seus conselhos cri-ando as condies pedidas: solido, noite, umtoco de vela , voc e sua histria assombradaseriam capazes de provocar em mim a sensaodesconfortvel do sobrenatural, como vocchama? Voc acha que seria capaz de acelerarmeu pulso, de me fazer levantar de um pulo aoouvir um rudo, de sentir um arrepio nervoso per-correr minha espinha, fazendo meu cabeloarrepiar-se?

    173/476

  • Colston virou-se de repente, encarando ooutro, medida que andavam.

    "Voc no ousaria. No teria coragem",disse. Enfatizou a frase com um gesto de desdm."Voc corajoso o suficiente para me ler numbonde, mas numa casa abandonada, sozinho, nomeio da floresta, e noite? Ah! Tenho aqui nobolso um manuscrito que seria capaz de mat-lo!

    Marsh zangou-se. Considerava-se cora-joso e aquelas palavras mexeram com ele.

    "Se voc conhece um lugar assim",disse, "leve-me at l hoje noite e deixe-mecom sua histria e um toco de vela. V me pro-curar quando achar que j deu tempo de ler o

    174/476

  • texto, que vou lhe contar o enredo todo e botarvoc para correr!

    E foi assim que o jovem fazendeiro, ol-hando atravs do vo da janela da casa Breede,viu um homem sentado sob a luz de uma vela.

    III

    O dia seguinte

    Na tarde seguinte, trs homens e umrapaz se aproximaram da casa Breede pelomesmo local de onde, na noite anterior, viera ojovem fazendeiro. Os homens estavam alegres.Falavam alto e riam. Faziam piadas e comentri-os irnicos sobre a histria que o rapaz contara,na qual evidentemente no acreditavam. O garotoaceitava a provocao srio, sem responder.

    175/476

  • Tinha uma noo apropriada das coisas e sabiamuito bem que quando algum conta que viu umhomem morto levantar-se de sua cadeira e apagaruma vela ningum acredita nele.

    Ao chegaria, e encontrando a portadestrancada, os investigadores entraram semqualquer cerimnia. No corredor junto entradahavia duas outras portas, uma direita e uma esquerda. Penetraram no aposento da esquerda aquele que tinha a janela dando para a frente. Eencontraram o cadver de um homem.

    Estava cado meio de lado, com o braoesticado sob o corpo e o rosto contra o cho. Osolhos estavam arregalados. E o olhar que tinhano era um espetculo agradvel. Com amandbula cada, escorria de sua boca um fio desaliva, formando uma pequena poa. Uma mesa

    176/476

  • derrubada, um toco de vela, uma cadeira e algu-mas folhas de papel manuscritas eram os nicosoutros objetos do aposento. Os homens obser-varam o corpo, tocando-lhe o rosto. O rapaz ol-hava tudo com gravidade, quase com um olhar deposse. Nunca na vida se sentira to orgulhoso.Um dos homens virou-se para ele. "Voc dosbons" comentrio que foi recebido pelos out-ros dois com sinais de concordncia. Era o Ceti-cismo pedindo desculpas Verdade. Em seguida,um dos homens apanhou do cho os papismanuscritos e encaminhou-se at a janela, porqueas sombras da noite j comeavam a descer sobrea floresta. O som do bacurau j se fazia ouvir adistncia e um besouro gigantesco voejou junto janela com suas asas ruidosas, desaparecendo emseguida. E o homem leu.

    177/476

  • IV

    O manuscrito

    "Antes de cometer o ato sobre o qual,certo ou errado, estou decidido, e de apresentar-me diante de meu Criador para julgamento, eu,James R. Colston, na qualidade de jornalista,sinto-me no dever de dar um testemunho a meupblico. Meu nome , ao que sei, razoavelmenteconhecido como escritor de contos trgicos, masnem a imaginao mais sombria seria capaz deconceber algo mais terrvel do que a histria deminha prpria vida. No pelo que tenha aconte-cido: minha vida tem sido destituda de aventurasou ao. Mas minha carreira mental tem sido en-sombrecida por assassinatos e maldies. Novou cont-los aqui alguns deles j esto escri-tos e prontos para publicao em outro lugar. O

    178/476

  • objetivo destas linhas explicar a quem in-teressar possa que minha morte voluntria resultado de minha prpria vontade. Devereimorrer meia-noite do dia 15 de julho umadata significativa para mim, j que foi nesse dia,e nessa hora, que meu amigo, no tempo e naeternidade, Charles Breede, fez a mim seu jura-mento, cometendo o mesmo ato ao qual, por suafidelidade a nosso pacto, sinto-me agora obri-gado. Ele se matou em 85 sua casa na floresta deCopeton. Houve o veredicto de sempre atestando'insanidade temporria'. Tivesse eu testemunhadonaquele inqurito tivesse eu contado tudo oque sabia, e eles me teriam classificado delouco.

    179/476

  • Seguia-se uma passagem evidentementelonga que o homem com o manuscrito leu para si.O restante, leu em voz alta:

    "Ainda tenho uma semana de vida paratomar todas as providncias e preparar-me para agrande transformao. o bastante, pois tenhopoucos negcios e j faz quatro anos que a mortese tornou para mim uma obrigao imperativa.

    Deixarei este manuscrito ao lado de meucorpo. Quem o encontrar, por favor, leve-o aojuiz.

    James R. Colston.

    "P. S.Willard Marsh: neste dia fatal dejulho, passo a suas mos o manuscrito, para seraberto e lido nas condies acordadas, bem como

    180/476

  • no local por mim designado. Desisto de deixareste manuscrito junto a meu corpo para explicaras circunstncias de minha morte, j que isso notem importncia. Ele servir para explicar as cir-cunstncias da sua. Vou ter com voc durante anoite para me assegurar de que leu o texto. Vocme conhece bem e sabe que o farei. Mas, meucaro amigo, eu o farei depois da meia-noite. QueDeus tenha piedade de nossas almas!

    J. R. C.

    Enquanto o homem lia o manuscrito, avela havia sido apanhada do cho e acesa.Quando a leitura terminou, ele calmamente levouo papel em direo chama e, apesar dosprotestos dos outros, manteve-o ali at que setransformasse em cinzas. O homem que fez isso,e que mais tarde receberia sem reagir uma severa

    181/476

  • reprimenda do juiz, era genro do finado CharlesBreede. Durante o inqurito, no foi possvel es-clarecer o que havia escrito naquele papel.

    V

    Do Times

    "Ontem, a Delegacia de Insanidade re-colheu ao asilo o Sr. James R. Colston, um con-hecido escritor local que colaborava com o Mes-senger. Deve ser lembrado que na noite do dia 15passado, o Sr. Colston foi entregue polcia porum de seus companheiros de quarto na PensoBaine, segundo o qual ele agia de forma muitosuspeita, desnudando o pescoo e molhando umalmina depois de testar se estava afiada ,passando-a na pele do brao etc. Ao ser entregue polcia, o infeliz ops forte resistncia e desde

    182/476

  • ento tem estado to violento que foi precisoencerr-lo numa camisa-de-fora. Nossos outrosestimados escritores da atualidade continuam, namaioria, solta.

    183/476

  • Um dos gmeos

    Carta encontrada entre os papis do fa-lecido Mortimer Barr

    Voc me pergunta se em minha exper-incia como gmeo observei alguma coisa noprevista nas leis da natureza como as con-hecemos. Deixo a seu critrio julgar. Talvez notenhamos conhecimento das mesmas leis nat-urais. Talvez voc conhea alguma que eudesconhea e o que seja imprevisvel para mimtalvez esteja claro para voc.

    Voc conheceu meu irmo, John. Querdizer, conheceu-o quando sabia que eu no estavapresente. Mas nem voc nem qualquer ser hu-mano, acho, seria capaz de distinguir entre mim e

  • ele se decidssemos parecer idnticos. Nossospais no conseguiam. No conheo qualqueroutro caso de semelhana to absoluta quanto onosso. Falo de meu irmo John, mas no estoubem certo se o nome dele no era Henry e o meuJohn. Fomos batizados, como de costume, masem seguida, ao ser tatuados com pequenas mar-cas de diferenciao, o tatuador se confundiu. Eainda que eu tenha no brao um pequeno "H" emeu irmo um "J", no nada impossvel que asletras tenham sido trocadas. Quando ramosmeninos, nossos pais tentavam diferenciar-nos daforma mais bvia, atravs de nossas roupas ou deoutros artifcios simples, mas era to comum nstrocarmos de roupa e assim enganarmos o in-imigo que eles acabaram abandonando tais es-tratagemas ineficientes. E assim, por todos osanos em que vivemos juntos em casa, todos

    185/476

  • reconheciam a dificuldade da situao e faziam omelhor que podiam, chamando-nos, aos dois, de"Jehnry". Fico pensando na pacincia de meu paiem no nos mandar logo ferrar em local visvel,embaixo das indignas sobrancelhas, mas, comoramos rapazes razoavelmente bons e comousvamos nosso poder para confundir e aborreceros outros com certa moderao, escapamos dosferros. Meu pai era, na verdade, um homem detemperamento especialmente bom e acho at queno fundo se divertia com aquela brincadeira danatureza.

    Pouco depois de chegarmos Califrniae de nos estabelecermos em San Jos (onde a n-ica coisa boa que nos esperava era o encontrocom esse bom amigo que voc ), a famlia,como voc bem sabe, foi desestruturada pela

    186/476

  • morte, na mesma semana, de meu pai e minhame. Meu pai estava falido ao morrer e a casateve de ser vendida para pagar suas dvidas. Min-has irms voltaram para o Leste para viver comparentes, mas, graas a sua bondade, John e eu,na poca com 22 anos, conseguimos emprego emSo Francisco, em regies diferentes da cidade.As circunstncias nos impediram de morar juntose no era sempre que nos vamos, geralmente nomais do que uma vez por semana. Como no tn-hamos muitos amigos em comum, pouco se sabiasobre nossa semelhana. E agora vamos questo referente sua pergunta.

    Certo dia, pouco tempo depois de nossamudana para esta cidade, eu caminhava pelaMarket Street num fim de tarde quando fui abor-dado por um homem de meia-idade, bem-vestido,

    187/476

  • que, depois de me cumprimentar cordialmente,disse:

    "Stevens, eu sei muito bem que voc nosai muito, mas falei sobre voc minha esposa eela adoraria receb-lo em nossa casa. Acho, tam-bm, que voc iria gostar de conhecer minhasfilhas. Por que no vem amanh s 6h e jantaconosco, en famille? E depois, se as senhoras noconseguirem distra-lo, podemos jogar um poucode bilhar.

    A frase foi dita com um sorriso to lu-minoso e um jeito to envolvente que no tivecoragem de recusar e, embora nunca tivesse vistoo homem na vida, respondi:

    " muita bondade sua, senhor, e me darenorme prazer aceitar o convite. Por favor,

    188/476

  • apresente meus cumprimentos Sra. Margovan ediga-lhe que irei.

    Com um aperto de mo e simpticas pa-lavras de despedida, o homem se afastou. Nohavia dvida de que ele me confundira com meuirmo. Era um engano ao qual j me acostumarae que no tinha o hbito de retificar, a no ser queo assunto fosse importante. Mas como eu poderiasaber que o sobrenome daquele homem era Mar-govan? Com toda a certeza, no um daquelesnomes que se aplica ao acaso, com uma boachance de acertar. Para dizer a verdade, o nomeera para mim to estranho quanto o prpriohomem.

    Na manh seguinte, fui at o emprego demeu irmo e encontrei-o na sada do escritriocom umas contas na mo, de cobranas que ia

    189/476

  • fazer. Contei-lhe do encontro que marcara porele, dizendo-lhe que, caso ele no quisesse ir, euteria prazer em fazer seu papel.

    "Que curioso", disse ele, pensativo."Margovan a nica pessoa aqui do escritriocom a qual me dou e de quem gosto. Quando eleentrou hoje de manh e nos cumprimentamos,como de hbito, eu tive um estranho impulso edisse: 'Ah, Sr. Margovan, desculpe-me, mas es-queci de lhe pedir o endereo.' Peguei o en-dereo, mas no tinha a menor idia do que fazercom ele, at um minuto atrs. Acho timo quevoc se oferea para assumir as consequncias desua desfaatez, mas, se no se importa, quem vaia esse jantar sou eu.

    John foi a vrios jantares l mais doque lhe faria bem, eu diria, sem desmerecer da

    190/476

  • qualidade da comida. Porque ele se apaixonoupela Srta..Margovan, props-lhe casamento e foiaceito, sem muito entusiasmo.

    Algumas semanas depois de ser inform-ado do noivado, mas antes que tivesse oportunid-ade de conhecer a jovem e sua famlia, encontreicerto dia na Kearney Street um homem que,embora bem-apessoado, tinha em sua aparnciaum qu de decadncia. Sem saber por qu, pus-me a segui-lo e a vigi-lo, o que fiz sem qualquerescrpulo. Ele virou na Geary Street, seguindopor essa rua at a Union Square. L chegando, ol-hou o relgio e em seguida entrou na praa.Vagou pelas alias por algum tempo, evidente-mente espera de algum. At que chegou umajovem bonita, vestida com roupas da moda, e osdois subiram cela Stockton Street, comigo em seu

    191/476

  • encalo. Agora eu sentia que precisava tomarmuito cuidado, pois, embora a garota fosse umaestranha para mim, sabia que ela seria capaz deme reconhecer com um nico olhar. Eles viraramde uma rua para outra at que finalmente, dandoambos uma olhada rpida em torno da qual es-capei por pouco, ocultando-me atrs de um portal, entraram numa casa cuja localizao omitirei.Sua localizao era melhor do que sua espcie.

    Discordo de que minha ao de espion-agem junto queles dois estranhos tenha sido semmotivo. Posso envergonhar-me ou no dela, deacordo com minha estima pelo carter da pessoaque a descobrir. Mas, sendo parte essencial danarrativa feita em resposta sua pergunta, relato-a aqui sem hesitao ou vergonha.

    192/476

  • Uma semana depois, John levou-me casa de seu futuro sogro, e na Srta. Margovan,como voc j deve ter deduzido, mas para minhaprofunda surpresa, reconheci a herona daquelaaventura desabonadora. A belssima heronadaquela aventura desabonadora, devo acres-centar, para fazer justia, Mas tal fato era import-ante apenas pelo seguinte: a beleza dela me sur-preendeu de tal forma que cheguei a duvidar seera mesmo a jovem que vira antes. Como erapossvel que o maravilhoso fascnio daquele rostome tivesse escapado da primeira vez? Mas no...no havia possibilidade de erro. A diferena es-tava na roupa, na luz, no ambiente em geral.

    John e eu ficamos na casa deles attarde, ouvindo, com a tenacidade obtida pelalonga experincia, os gentis gracejos que nossa

    193/476

  • semelhana sempre suscita. Num momento emque eu e a jovem ficamos sozinhos, olhei-adiretamente no rosto e disse, com sbitagravidade:

    "Voc tambm, Srta. Margovan, temuma ssia. Eu a vi na tera-feira tarde, naUnion Square.

    Por um instante, ela fixou em mim osgrandes olhos cinzentos, mas seu olhar estava li-geiramente menos firme do que o meu e elaacabou baixando-o, passando a mirar a ponta doprprio sapato.

    "Ela era mesmo muito parecidacomigo?", perguntou, com uma indiferena queme pareceu exagerada.

    194/476

  • "To parecida", respondi, "que eu a ad-mirei muito e, sem poder tirar os olhos dela, con-fesso que a segui at... Srta. Margovan, tem cer-teza de que est me ouvindo?

    Ela agora estava plida, embora perfeita-mente calma. Voltou a erguer os olhos para mim,com um olhar que no vacilava.

    "O que voc quer que eu faa?", pergun-tou. "No precisa ter medo de dizer quais sosuas condies. Eu aceito.

    Estava claro, mesmo naqueles poucossegundos que tive para refletir, que com aquelamoa de nada adiantaria adotar mtodos comunsou tentar fazer exigncias banais.

    195/476

  • "Srta. Margovan", disse, exibindo navoz um pouco da compaixo que sentia, " im-possvel no pensar em voc como vtima de umahorrvel compulso. Em vez de lhe impingir nov-os constrangimentos, prefiro ajud-la a recobrarsua liberdade.

    Ela balanou a cabea, triste e desesper-anada, enquanto eu continuava, agitado:

    "Sua beleza me perturba. Estou desar-mado diante de sua franqueza e de seu sofri-mento. Se estiver livre para agir segundo suaconscincia, poder, acredito, fazer o que acharmelhor. Se no estiver... bem, ento, que Deusnos ajude! De mim voc nada tem a temer, a noser minha oposio a esse casamento, a qualposso tentar justificar sob... sob outrasalegaes.

    196/476

  • No foram exatamente essas as palavras,mas era esse o sentido, o mais aproximado quepude conseguir para express-lo, estando diantede emoes to repentinas e conflitantes. Ergui-me e sa sem mais um olhar, encontrando os de-mais que reentravam na sala e dizendo, com todaa calma possvel:

    "Estava dando boa noite Srta. Margov-an. mais tarde do que eu pensava.

    John decidiu acompanhar-me. Na rua,perguntou-me se eu notara alguma coisa estranhanos modos de Jlia.

    "Acho que est indisposta", respondi."Foi por isso que decidi ir embora." E nada maisfoi dito.

    197/476

  • Na noite seguinte cheguei tarde em casa.Os acontecimentos do dia anterior me tinhamdeixado nervoso, adoentado. Para ver se me sen-tia melhor, e tambm para clarear as idias, sarapara uma caminhada ao ar livre, mas sentira-meoprimido por uma horrvel sensao de malefcio um pressentimento que no conseguia definir.Era uma noite fria, envolta em nvoa. Minhasroupas e meus cabelos estavam midos e eutremia de frio. J com a roupa de dormir e oschinelos, sentado diante da lareira, senti-me aindamais desconfortvel. J no tinha tremores e simcalafrios. diferente. O pavor de uma calamid-ade iminente era algo to forte, to desalentador,que tentei afast-lo pensando numa perda real.Tentei desfazer a concepo de um futuro terrvelsubstituindo-a pela memria de um passado dol-oroso. Relembrei a morte de meus pais,

    198/476

  • procurando fixar meu pensamento nas ltimascenas de tristeza, junto ao leito deles, junto a seustmulos. Tudo parecia vago, irreal, como setivesse acontecido sculos antes, com outra pess-oa. De repente, atingindo meu pensamento epartindo-o da mesma forma que uma corda es-ticada cortada pelo golpe do ao a nicacomparao que me ocorre , ouvi um gritoagudo, como o de algum em agonia mortal! Avoz era de meu irmo e parecia vir da rua, l em-baixo. Corri at a janela, abrindo-a. A lmpadade um poste em frente lanava uma luz mortia eplida sobre o calamento umedecido e sobre asfachadas das casas. Apenas um policial, com agola levantada, fumava um charuto em silncio,encostado num portal. No havia ningum mais vista. Fechei a janela e baixei a cortina, sentando-me diante da lareira e tentando fixar o

    199/476

  • pensamento no que estava minha volta. Paraajudar nessa tarefa, e por mero hbito, dei umaolhada em meu relgio. Eram onze e meia danoite. E de novo ouvi o grito terrvel! Agoraparecia ser dentro do quarto a meu lado.Fiquei apavorado e por alguns instantes no tivecoragem de mover-me. Minutos depois notenho lembrana do que aconteceu nesse meio-tempo , dei por mim correndo por uma ruadesconhecida, o mais rpido que podia. No seionde estava, nem para onde ia, mas acabei su-bindo os degraus de uma casa diante da qual es-tavam paradas duas ou trs carruagens e onde seviam luzes e se ouvia uma confuso de vozes.Era a casa do Sr. Margovan.

    Voc sabe, meu bom amigo, o que tinhaacontecido l. Em um dos quartos, jazia Jlia

    200/476

  • Margovan, morta h vrias horas, por envenena-mento. No outro, John Stevens sangrava de umferimento de pistola no peito, infligido por suasprprias mos. Assim que entrei no quarto e, em-purrando os mdicos, coloquei a mo em suatesta, ele abriu os olhos, com um olhar vazio,para em seguida fech-los devagar, morrendosem um gemido.

    Nada mais vi at seis semanas depois,quando por fim recobrei as foras, escapando damorte graas aos cuidados de sua santa mulher,em sua bela casa. Tudo isso voc sabe. Mas o quevoc no sabe o seguinte que, por sinal, nadatem a ver com suas pesquisas psicolgicas (pelomenos no com o ramo da psicologia dentro doqual voc, com a delicadeza e a considerao

    201/476

  • habituais, me pediu menos informaes do queacabei por lhe dar):

    Numa noite de lua cheia, muitos anosdepois, eu ia passando pela Union Square. Eratarde e a praa estava deserta. As memrias dopassado voltaram naturalmente, assim quecheguei ao lugar onde um dia testemunhara o en-contro maldito. E, com a incrvel perversidadeque nos faz pensar naquilo que para ns maisdoloroso, sentei-me em um dos bancos,entregando-me a tais pensamentos. Um homementrou na praa e veio por uma das alias emminha direo. Trazia as mos cruzadas s cost-as, os olhos no cho. Parecia alheio a tudo. Assimque se aproximou do ponto sombrio onde eu mesentava, eu o reconheci: era o homem que se en-contrara com Jlia Margovan, anos antes,

    202/476

  • naquele mesmo lugar. Mas estava completamentemudado grisalho, abatido, descarnado. A dis-sipao e o vcio transpareciam em todo ele. Adoena no era menos aparente. Suas roupas es-tavam em desalinho, o cabelo cado na testa, re-volto, de uma forma que era a um s tempo pitor-esca e assustadora. Ele parecia pronto para serencarcerado encarcerado em um hospital.

    Sem saber bem por qu, levantei-me,confrontando-o. Ele ergueu o rosto e me encarou.No tenho palavras para descrever sua medonhatransformao. Lanou-me um olhar de terror in-ominvel porque pensou estar frente a frentecom um fantasma. Mas era um homem decoragem.

    "Maldito seja, John Stevens!", gritou e,erguendo o brao trmulo, tentou dar-me um

    203/476

  • soco no rosto, caindo de cara no cho enquantoeu me afastava.

    E ali foi encontrado, morto como umapedra. Nada mais se sabe dele, nem mesmo seunome. Sobre um homem, saber que est morto o suficiente.

    204/476

  • No limiar do irreal

    I

    Ao longo de certo trecho entre Aubum eNewcastle, a estrada primeiro de um lado dorio e depois do outro ocupa todo o fundo deuma ravina, sendo parcialmente cortada na es-carpa ngreme e parcialmente formada pelaspedras removidas do leito do rio pelos min-eradores. As escarpas so cobertas de vegetao eo curso da ravina sinuoso. Nas noites escuras, preciso andar com cuidado para no se cair den-tro d'gua. A noite que tenho na memria era es-cura e o rio, uma torrente, engrossada por um re-cente temporal. Eu viera de Newscastle e estava acaminho, a menos de dois quilmetros deAuburn, cruzando o trecho mais escuro e mais

  • estreito da ravina, olhando com toda a ateno aestrada frente de meu cavalo. De repente, vi umhomem quase embaixo do focinho do animal.Puxei a rdea com tanta fora que o cavalo porpouco no empinou.

    "Perdo", disse. "Mas no o vi.

    "Voc dificilmente poderia esperar ver-me", respondeu o homem, com civilidade, vindopara a lateral da carruagem. "E o barulho do rioimpediu que eu o ouvisse.

    Reconheci a voz imediatamente, emboracinco anos se tivessem passado desde que aouvira pela ltima vez. E no estava particular-mente feliz em ouvi-la.

    "Voc o Dr. Dorrimore, no ?

    206/476

  • "Sou. E voc meu bom amigo Sr.Manrich. Estou mais do que feliz em v-lo... de-mais", acrescentou com um sorriso, "at porqueestou indo na sua direo e, claro, espero receberuma oferta de carona.

    "Que eu fao, com muito prazer.

    O que no era exatamente verdade.

    O Dr. Dorrimore agradeceu ao sentar-sea meu lado e eu segui em frente, com a mesmacautela de antes. Deve ser fantasia, mas hojetenho a impresso de que, durante o resto daviagem, fomos envolvidos por uma neblina ge-lada. E que eu estava morrendo de frio. Que ocaminho parecia mais longo do que antes, e que acidade, quando l chegamos, parecia triste, in-spita e desolada. Devia ser cedo ainda, mas no

    207/476

  • me lembro de ter visto uma luz sequer nas casas,nem vivalma nas ruas. Num dado momento,Dorrimore explicara-me por que estava ali, eonde estivera durante todos os anos em que desa-parecera desde nosso ltimo encontro. Lembro-me que ele fez essa narrativa, mas no me re-cordo dos fatos narrados. Ele estivera em pasesestranhos e voltara tudo o que minhamemria retm, mas isso eu j sabia antes.Quanto a mim, no me recordo de ter dito uma spalavra, embora com certeza o tenha feito. Masde uma coisa tenho perfeita conscincia: apresena daquele homem a meu lado era estran-hamente inquietante, desagradvel. A ponto de,ao chegarmos entrada iluminada da Penso Put-nam, eu ter tido a ntida sensao de haver es-capado de um perigo espiritual, de natureza pecu-liar e assustadora. Mas a sensao se transformou

    208/476

  • assim que fiquei sabendo que o Dr. Dorrimoretambm se hospedaria l.

    II

    Para explicar, pelo menos em parte,meus sentimentos em relao ao Dr. Dorrimore,vou falar das circunstncias nas quais o conhe-cera, alguns anos antes. Certa noite, meia dziade homens, entre os quais eu, encontrava-se nabiblioteca do Clube Bomio de So Francisco. Aconversa era acerca de prestidigitao e as faan-has dos prestidigitadores, um dos quais se ap-resentava naquela ocasio no teatro local.

    "Esses sujeitos so farsantes no duplosentido", disse um dos amigos. "So incapazes defazer alguma coisa pela qual valha a pena passarpor bobo. O mais humilde dos saltimbancos da

    209/476

  • ndia seria capaz de engan-los a ponto depensarem que esto loucos.

    "Mas como?", perguntou outro, acend-endo um charuto.

    "Como? Com qualquer uma de suas per-formances mais simples, mais comuns. Lanandopara o ar objetos que nunca vo cair. Fazendoplantas brotarem, crescerem e se abrirem em flor,isso em qualquer superfcie nua, escolhida peloespectador. Colocando um homem dentro de umacesta de vime, espetando-o por todos os ladoscom uma espada enquanto ele grita e sangra, paradepois abrir a cesta e mostrar que est vazia. Ouento jogando para o alto a ponta de um fio deseda e subindo por ele at desaparecer.

    210/476

  • "Bobagem!", retruquei, temo que comcerta indelicadeza. "No v me dizer que vocacredita nessas coisas.

    "Claro que no. J as presenciei vezesdemais para acreditar nelas.

    "Mas eu acredito", disse um jornalistalocal muito conhecido por suas matrias pitores-cas. "J relatei esse tipo de coisa tantas vezes quenada, a no ser a observao, seria capaz de abal-ar minha convico. Cavalheiros, vocs tmminha palavra.

    Mas ningum riu todos estavam comos olhos fixos em alguma coisa atrs dele.Virando-me na cadeira, vi um homem com roupade gala, que acabara de entrar na sala. Era depele muito escura, quase trigueiro, com um rosto

    211/476

  • fino, barba negra que lhe ia at junto da boca,uma vasta cabeleira preta, spera e em desalinho,nariz adunco e olhos que brilhavam com uma ex-presso cruel, como os de uma cobra. Um dos in-tegrantes do grupo levantou-se e apresentou-ocomo sendo o Dr. Dorrimore, de Calcut. A cadaum que era apresentado ele cumprimentava comuma profunda reverncia maneira oriental, em-bora sem a gravidade comum no Oriente. Seusorriso pareceu-me cnico e levemente insolente.Todo seu comportamento s pode ser descritocomo desagradavelmente sedutor.

    Sua presena conduziu a conversa paraoutros assuntos, Ele falou pouco no consigolembrar-me de nada do que chegou a dizer. Noteique sua voz era particularmente rica e melodiosa,embora tenha produzido em mim um efeito

    212/476

  • semelhante ao provocado pelo olhar e pelo sor-riso. Logo, eu me levantava para ir embora. Masele tambm ergueu-se, comeando a vestir osobretudo.

    "Manrich", disse, "estou indo na mesmadireo que voc.

    Est droga nenhuma!, pensei. E como que voc sabe em que direo vou? Mas limitei-me a dizer: "Ficarei encantado com suacompanhia.

    Samos do prdio juntos. No havia tx-is vista, os bondes j tinham sido recolhidos e alua cheia, na noite fresca, estava uma beleza.Subimos a ladeira da Califrnia Street, Pegueiaquela direo pensando que ele naturalmenteoptaria por outra, para o lado dos hotis.

    213/476

  • "Voc no acredita no que se fala a re-speito dos prestidigitadores indianos", afirmouele, de repente.

    "E como que o senhor sabe?",perguntei.

    Sem me responder, ele ps de leve amo em meu brao e com a outra apontou para acalada nossa frente. Ali, quase a nossos ps,jazia o corpo de um homem morto, com o rostovoltado para cima, plido luz da lua! Uma es-pada, cujo cabo cintilava com pedrarias, estavaenfiada em seu peito. Uma poa de sangue seformara nas pedras da calada.

    Fiquei espantado e aterrorizado. Noapenas com o que via, mas pelas circunstnciasem que o fazia. Diversas vezes, enquanto

    214/476

  • subamos a ladeira, meus olhos tinham obser-vado, eu podia jurar, toda a extenso daquelacalada, de uma transversal outra. Como po-diam ter deixado de ver aquela cena horrvel,agora to nitidamente visvel sob a luz da lua?

    Enquanto recuperava-me do choque, ob-servei que o corpo vestia traje de gala. O sobre-tudo, aberto, revelava a casaca, a gravata branca,a parte da frente da camisa trespassada pela es-pada. E ento terrvel revelao! vi que orosto, exceto pela palidez, era o de meu compan-heiro! Em cada detalhe, das roupas aparnciafsica, era o prprio Dr. Dorrimore. Como quehipnotizado pelo horror, virei-me para olhar ohomem vivo a meu lado. Ele desaparecera. E as-sim, ante mais esse terror, sa dali, descendo aladeira pelo mesmo caminho de onde viera.

    215/476

  • Tinha dado poucos passos quando senti um fortepuxo no ombro, que me fez parar. Quase griteide pavor: o homem morto, com a espada aindaenfiada no peito, estava de p a meu lado! Agar-rando a espada com a mo livre, ele arrancou-a,enquanto o luar banhava as pedrarias do cabo e aprpria lmina de ao, imaculadamente limpa. Aespada caiu na calada diante de mim e... desa-pareceu. O homem, a pele novamente escura,afrouxou a mo que me apertava o ombro,voltando a olhar-me com o mesmo olhar cnicoque eu vira em nosso primeiro encontro. Os mor-tos no tm um olhar assim. Recobrando parcial-mente o controle, virei-me para trs e vi a sombrabranca da calada, limpa de uma transversal outra. "O que significa isso, seu demnio?", per-guntei, enftico, embora me sentisse fraco etremesse da cabea aos ps.

    216/476

  • "Foi aquilo que alguns se divertemchamando de prestidigitao", respondeu ele,com um rpido porm incisivo sorriso.

    Em seguida virou na Dupont Street e eujamais voltei a v-lo, at o dia de nosso encontrona ravina de Auburn.

    III

    No dia seguinte ao meu segundo encon-tro com o Dr. Dorrimore, no voltei a v-lo. O re-cepcionista da Penso Putnam explicou-me queestava trancado no quarto, adoentado. Naquelatarde, na estao de trem, tive uma agradvel sur-presa com a chegada inesperada da Srta. Mar-garet Corray, juntamente com sua me, pro-cedentes de Oakland.

    217/476

  • Esta no uma histria de amor. Tam-pouco sou um contador de histrias, e o amor, dojeito que , no pode ser descrito numa literaturadominada e circunscrita tirania aviltante queobriga a escrever bonito em nome das adolescen-tes. Sob o jugo doentio das adolescentes ou,por outra, sob o mando dos falsos censores que seinvestiram do direito de cuidar do bem-estardelas

    o amor apaga sua sagrada pira,

    E, sem que o saiba, a Moralidade expira

    morreu de fome ante a comida insossa ea gua destilada fornecidas pelos puritanos.

    O que quero dizer que a Srta. Corray eeu estvamos noivos. Ela e a me foram para o

    218/476

  • hotel onde eu me hospedava e, ao longo de duassemanas, vi-a diariamente. Desnecessrio dizerque eu estava feliz. O nico obstculo minhafelicidade plena naqueles dias maravilhosos era apresena do Dr. Dorrimore, o qual eu me sentirana obrigao de apresentar s senhoras.

    A essa altura, eleja cara no agradodelas. E o que eu podia dizer? No sabia de nadaque o desmerecesse. Seu comportamento era o deum cavalheiro bem-educado e gentil. E, para asmulheres, o comportamento o que faz ohomem. Em uma ou duas ocasies, ao ver a Srta.Corray caminhando lado a lado com ele, fiqueifurioso, e uma vez cheguei mesmo indiscriode protestar. Indagado sobre minhas razes, notive o que dizer e pensei ter visto na expressodela uma sombra de desprezo diante das tolices

    219/476

  • de uma mente ciumenta. Com o tempo, fui fic-ando cada vez mais taciturno e irritadio, at que,num gesto intempestivo, decidi voltar a So Fran-cisco no dia seguinte. Mas nada comentei sobreisso.

    IV

    Havia em Auburn um velho cemitrio,abandonado. Era quase no corao da cidade,mas, mesmo assim, noite era um lugar to som-brio quanto poderia desejar um ser humano emseu momento mais lgubre. As grades das sepul-turas estavam cadas, arrebentadas e muitas jno existiam. De vrios tmulos s restavamrunas e de alguns haviam brotado imensos pin-heiros, cujas razes tinham cometido um pecadoinominvel. As lpides estavam cadas ou racha-das ao meio e o terreno coberto de espinheiros. O

    220/476

  • muro fora quase todo desfeito e vacas e porcosandavam por ali. O lugar era uma desonra para osvivos, uma ofensa para os mortos, uma blasfmiacontra Deus.

    Na noite daquele dia em que eu tomara aestouvada deciso de ir embora, furioso, paralonge daquilo que mais amava, fui dar naquelelocal, bem a propsito. A luz de uma meia-luafiltrada atravs das folhagens formava desenhos endoas que deixavam entrever o invisvel. E assombras escuras pareciam conspirar para, no mo-mento exato, revelar negrores ainda mais terr-veis. Passando junto do que fora a calada de umtmulo, vi emergir das sombras a figura do Dr.Dorrimore. Eu prprio, estando encoberto pelapenumbra, fiquei imvel, com as mos crispadase os dentes trincados, tentando controlar o

    221/476

  • impulso de atirar-me sobre ele e estrangul-lo.Um momento depois, uma segunda figura juntou-se a ele, segurando-o pelo brao. Era MargaretCorray!

    No sei bem contar o que aconteceu. Ssei que pulei para a frente, com pensamentos demorte. Sei que fui encontrado na manh cinzenta,ferido e sangrando, com marcas de dedos na gar-ganta. Fui levado Penso Putnam, onde, porvrios dias, delirei. Tudo isso s sei porque mefoi contado. E de minha parte lembro apenas que,ao recobrar a conscincia, j convalescente,mandei chamar imediatamente o recepcionista dohotel.

    "A Sra. Corray e a filha dela ainda estohospedadas aqui?", perguntei.

    222/476

  • "Qual foi o nome que o senhor disse?

    "Corray.

    "No tivemos ningum com esse nomeaqui, senhor.

    "No zombe de mim, eu lhe peo", disseeu, altivo. "Voc est vendo que j estou melhor.Diga-me a verdade.

    "Dou-lhe minha palavra, senhor", insis-tiu ele com evidente sinceridade. "No tivemosnenhum hspede aqui com esse sobrenome.

    Suas palavras me deixaram estupefato.Permaneci em silncio por um instante. Emseguida, perguntei:

    "E onde est o Dr. Dorrimore?

    223/476

  • "Ele foi embora na manh seguinte briga e, desde ento, no ouvimos mais falardele. Foi um trabalho e tanto que ele deu aosenhor.

    V

    Tais so os fatos neste caso. MargaretCorray hoje minha esposa. Ela jamais esteveem Auburn e durante as semanas em que toda ahistria que acabei de contar se formou em minhamente ela estava em casa, em Oakland,perguntando-se onde eu estaria e por que no lheescrevia. Outro dia, li no jornal Sun, de Bal-timore, a seguinte nota:

    "O professor Valentine Dorrimore,hipnotizador, teve enorme audincia ontem noite. O palestrante, que viveu a maior parte de

    224/476

  • sua vida na ndia, fez uma fantstica exibio deseus poderes, hipnotizando, com um simples ol-har, qualquer um que concordasse em submeter-se experincia. Na verdade, hipnotizou a platiainteira por duas vezes (s os reprteres forampoupados), fazendo com que todos tivessem asmais extraordinrias iluses. A melhor coisa dapalestra foi a exposio sobre os mtodos dosprestidigitadores indianos em suas famosas per-formances, relatadas por muitos viajantes. O pro-fessor declara que esses taumaturgos chegaram atal refinamento na arte que aprendeu com elesque so capazes de fazer milagres, apenas mer-gulhando os 'espectadores' num estado dehipnose e dizendo-lhes o que devem ver e ouvir.E chega a ser inquietante sua afirmao de quealgumas pessoas, especialmente suscetveis, po-dem ser mantidas no limiar do irreal durante

    225/476

  • semanas, meses e at mesmo anos, dominadaspor qualquer iluso ou alucinao que o prestidi-gitador queira eventualmente sugerir.

    226/476

  • Casas espectrais

  • A janela fechada

    Em 1830, a poucos quilmetros de onde hoje a grande cidade de Cincinnati, havia umafloresta imensa, de mata fechada. A regio era es-parsamente habitada por gente da fronteira al-mas inquietas que tinham construdo boas casasjunto floresta, com um grau de prosperidadeque hoje classificaramos de indigente. Maistarde, impelidas por algum misterioso impulso desua natureza, essas pessoas abandonariam tudo eiriam ainda mais longe rumo a oeste, em busca denovos perigos e privaes, tudo apenas para obterde volta um mnimo de conforto ao qual elasmesmas, voluntariamente, haviam renunciado.Muitas j tinham deixado a regio em busca deparagens mais remotas, mas entre as que per-maneciam havia uma que estivera entre os

  • pioneiros do lugar. Vivia sozinho em uma casade toras de madeira, cercada por todos lados pelaimensa floresta, de cujo silncio e penumbra eleparecia fazer parte j que ningum jamais ovira sorrir ou dar uma palavra v. Suas necessid-ades eram supridas pela venda ou troca de courode animais selvagens, o que fazia na cidaderibeirinha, pois no plantava nada em sua terra,sobre a qual, se preciso, poderia reivindicar pro-priedade por usucapio. Havia alguns sinais de"melhoramentos" o terreno em volta da casafora limpo e desbastado um dia e os restos detroncos jaziam meio encobertos pela nova veget-ao que crescia aps os danos provocados pelomachado. Aparentemente, o interesse daquelehomem pela agricultura queimara numa chamafraca, apagando-se em meio s cinzas penitentes.

    229/476

  • A casa de madeira, com sua chaminfeita de tocos, seu telhado de ripas mal postas, at-ravessadas por caibros, e seu barro esburacado,tinha apenas uma porta e, bem em frente, umajanela. Esta ltima, porm, estava pregada comtbuas e ningum se lembrava de jamais t-lavisto aberta. No se sabia por que estava semprefechada. Com certeza no era porque seu ocu-pante no gostasse de luz e ar, j que nas rarasocasies em que um caador passava por aquelelocal solitrio sempre via seu dono tomando solna soleira da porta, quando sol havia. Acho quepoucas pessoas conhecem o segredo daquelajanela e eu sou uma delas, como vocs vero.

    O nome do homem, dizia-se, era Mur-lock. Aparentava uns setenta anos, mas na ver-dade mal passava dos cinqenta. Alguma coisa

    230/476

  • alm do tempo o fizera envelhecer. O cabelo e abarba, esta comprida e cheia, eram brancos. Osolhos, cinzentos e opacos, muito fundos. E orosto estranhamente riscado pelas rugas, quepareciam pertencer a dois sistemas entrecruzados.De corpo era alto e magro, com os ombrosdescados como se carregasse um fardo. Eu ja-mais o vi. Esses detalhes ouvi de meu av, at-ravs do qual, quando era rapaz, fiquei sabendotambm a histria do homem. Meu av o conhe-cera, pois fora vizinho dele nos velhos tempos.

    Certo dia, Murlock foi encontrado emsua cabana, morto. Naquele tempo, ainda nohavia polcia e jornais, e acho que chegaram concluso de que ele morrera de causas naturais,caso contrrio me teriam contado, e eu me lem-braria. S sei que, exatamente como adequado,

    231/476

  • ele foi enterrado perto da cabana, junto ao tmuloda mulher, morta tantos anos antes e a comunid-ade local mal se lembrava de sua existncia. Aquise encerra o captulo final desta histria ver-dadeira isto, sem falar na circunstncia de que,muitos anos depois, ao lado de outro esprito in-trpido, eu iria at l e teria coragem de chegarperto da cabana abandonada o suficiente paraatirar-lhe uma pedra, fugindo em seguida commedo do fantasma que todos os garotos bem-in-formados das redondezas sabiam existir ali. Mash um captulo antes deste e esse narradopor meu av.

    Quando Murlock construiu sua cabana ecomeou a descer o machado nas redondezaspara construir uma fazenda valendo-se do riflecomo instrumento de apoio , ele era jovem,

    232/476

  • forte e cheio de esperana. L pelas terras doLeste, de onde viera, ele se casara, como eraprprio da poca, com uma jovem de todas asformas dignas de sua devoo, pronta a dividircom ele, com esprito esperanoso e coraoleve, todos os perigos e privaes reservados pelodestino. Ningum se lembra seu nome. Sobreseus encantos, de corpo e de esprito, a tradiose cala. E, embora aquele que duvida esteja livrepara divertir-se com sua prpria dvida, Deus meprobe de faz-lo com vocs. Mas da afeio e dafelicidade entre os dois h muita certeza, certezaconfirmada por cada dia da posterior viuvez dohomem. Pois o que mais, seno o magnetismo delembranas maravilhosas, seria capaz de manterum esprito to aventureiro acorrentado queledestino?

    233/476

  • Um dia, ao voltar de uma caada nomeio da floresta, Murlock encontrou a mulherprostrada de febre, delirando. No havia ummdico num raio de muitos quilmetros, e nemvizinhos. Tampouco a mulher estava em con-dies de ser deixada ali sozinha, enquanto elebuscasse socorro. Sendo assim, Murlock decidiucuidar dela, na esperana de que se recuperasse,mas ao fim do terceiro dia ela entrou em coma emorreu, ao que parece, sem jamais ter recobradoa conscincia.

    Pelo que sabemos de naturezas como adele, podemos tentar recompor os detalhes dacena a partir do que foi contado por meu av.Convencido de que ela estava morta,Murlock lembrou-se que os mortos devem serpreparados para o sepultamento. Imbudo desse

    234/476

  • dever sacro, ele andejou de um lado para outro,cometeu alguns erros e outros acertos, que repe-tiu, uma vez aps a outra. Suas falhas ocasionaisna tentativa de cumprir algumas tarefas simples ecomuns deixaram-no atordoado, como umbbado que se intrigasse com a dificuldade emfazer as coisas mais naturais. Surpreendeu-se,tambm, por no ter chorado e, alm de sur-preso, ficou envergonhado. Claro que descortsno chorar pelos mortos. "Amanh", disse emvoz alta, "terei de construir o caixo e cavar acova. E ento deverei sentir sua falta, quando elaj no estiver por perto. Mas agora ela estmorta, verdade, mas est tudo bem, de algummodo, tem de estar tudo bem. As coisas no po-dem ser to ruins quanto parecem.

    235/476

  • E ali ficou, junto ao corpo, sob a luz quemorria, ajeitando o cabelo da mulher e dando osltimos retoques na arrumao do cadver, tudofazendo de forma mecnica, sem sentimento. E,contudo, passava por sua cabea a certeza de quetudo estava bem de que ele voltaria a t-lacomo antes, de que tudo seria explicado. Notinha experincia de luto. Sua capacidade para talno fora exercitada. Seu corao no podia contertudo aquilo, nem sua imaginao fora talhadapara conceb-lo. No tinha idia do quo forte-mente fora atingido. Essa constatao s viria de-pois, e jamais o abandonaria.

    O luto um artista de poderes to vriosquanto os instrumentos em que toca o rquiempara os mortos, em alguns evocando as notasmais agudas, mais estridentes, em outros os tons

    236/476

  • mais baixos, graves, recorrentes como o lentosoar de um tambor distante. A alguns o luto es-panta. A outros imobiliza. A uns chega como ocravar de uma seta, aguilhoando os sentidos parauma percepo mais aguda. A outros, como umgolpe surdo, que atordoa. Talvez tenha sido as-sim que Murlock foi afetado, porque (e aquipalmilhamos campo mais firme que o da simplesconjectura), assim que terminou seu trabalho pio,sentou-se numa cadeira junto mesa onde jazia ocorpo e, observando a palidez do perfil que mer-gulhava na penumbra, cruzou os braos sobre ocanto da mesa e neles afundou o rosto sem lgri-mas, extenuado. Naquele instante, entrou pelajanela um som como um longo gemido, semel-hante ao choro de uma criana perdida nas pro-fundezas escuras da floresta. Mas o homem nose moveu. Outra vez, e agora mais perto, o

    237/476

  • gemido sobrenatural se repetiu, ante seus sen-tidos amortecidos. Talvez fosse um animalselvagem. Talvez fosse um sonho. Porque Mur-lock adormecera.

    Muitas horas depois, como mais tardesaberamos, esse vigia incru acordou e,erguendo a cabea de entre os braos, ficou es-cuta embora no soubesse por qu. Ali, na es-curido absoluta, junto ao cadver, lembrando-sede tudo sem estremecer, arregalou os olhos paraver mas tampouco sabia o qu. Todos os seussentidos estavam alerta, a respirao suspensa, osangue parecendo ter sustado a corrente para noferir o silncio. Quem ou o que o acordara, eonde estava?

    De repente a mesa tremeu sob seusbraos e no mesmo segundo ele ouviu, ou pensou

    238/476

  • ter ouvido, o som de uma passada leve, mansa e depois mais outra , como o de ps descaloscaminhando.

    Paralisado pelo terror, no foi capaz degritar ou mover-se. E assim esperou esperouna escurido por um tempo que foi como muitossculos, vivendo o pior dos pavores que pos-svel conhecer, e ainda assim viver para cont-lo.Em vo tentou pronunciar o nome da mulhermorta, em vo quis estender a mo sobre a mesapara ver se ela ainda estava l. Sua garganta es-tava fechada, seus braos e mos como se feitosde chumbo. E ento aconteceu algo ainda maispavoroso. Um corpo pesado atirou-se contra amesa com tal mpeto que, empurrando-a contra opeito do homem, quase o derrubou, ao mesmotempo que ele ouvia alguma coisa cair no cho

    239/476

  • to pesadamente que toda a casa estremeceu como impacto. Seguiu-se um rumor de luta, uma con-fuso de sons impossvel de ser descrita. Murlockestava de p. O medo que sentia era tamanho queperdera inteiramente o controle. Deslizou asmos sobre a mesa. Estava vazia!

    H um momento em que o terror podetransformar-se em loucura. E a loucura nos leva ao. Sem saber bem por que o fazia, semqualquer motivo a no ser o que impulsiona osinsanos, Murlock atirou-se contra a parede e,tateando, buscou o rifle carregado, que disparousem vacilar. Na luz vvida que iluminou a sala nomomento do disparo, viu uma enorme pantera le-vando a mulher morta na direo da janela, comos dentes cravados em sua garganta. Em seguidaa escurido voltou a engolir tudo, ainda mais

    240/476

  • fechada do que antes, junto com o silncio. Equando Murlock voltou a si o sol j estava alto ea floresta cantava com o som dos pssaros.

    O corpo jazia junto janela, onde a ferao deixara ao fugir da chispa e do disparo provo-cados pelo rifle. A roupa estava em desalinho, olongo cabelo despenteado, as pernas largadas. Dagarganta, horrivelmente lacerada, escorrera umapoa de sangue, que ainda no coagulara de todo.A faixa com que ele atara os pulsos da mulher es-tava partida. As mos, fortemente crispadas. E,entre os dentes, ela trazia um fragmento da orelhado animal.

    241/476

  • A Ilha dos Pinheiros

    Por muitos anos, viveu perto da cidadede Gallipolis, em Ohio, um velho chamado Her-man Deluse. Pouco se sabia de sua vida porque,alm de no falar de si prprio, no permitia queos outros o fizessem. Havia entre a vizinhana acrena de que fora um pirata crena que, aoque se sabe, baseava-se apenas em sua coleo delanas de abordagem, espadas e velhas pistolasde pederneira. Vivia completamente s numapequena casa de quatro aposentos, caindo aospedaos e que nunca recebia reparos, a no serquando as intempries o exigiam. Ficava numapequena elevao, no meio de um campo imensoe pedregoso onde cresciam espinheiros, com al-guns canteiros cultivados, mas de forma bemprimitiva. Aparentemente, era sua nica

  • propriedade, mas dificilmente poderia dar-lhesustento, por mais simples e poucos que fossemseus desejos. Ele parecia sempre ter dinheiro mo, pagando vista pelo que obtinha nas lojasdas redondezas e raramente comprando mais deduas ou trs vezes no mesmo lugar, a no seraps um intervalo considervel de tempo. Masno recebia elogios por essa distribuio igual-itria de sua freguesia. As pessoas estavam maispropensas a encarar aquilo como uma tentativainfrutfera de esconder que possua muito din-heiro. Nenhuma alma honesta, ciente dos fatos datradio local e possuindo um mnimo de bomsenso, seria capaz de duvidar que ele tinhamontanhas de ouro roubado enterrado em algumponto de sua propriedade decadente.

    243/476

  • No dia 9 de novembro de 1867, o velhomorreu. Ou pelo menos seu corpo foi encontradono dia 10, tendo os mdicos atestado que a morteocorrera cerca de 24 horas antes. Como ocorreu,no souberam dizer. Porque os exames post-mortem mostraram que todos os rgos estavamperfeitamente saudveis, sem qualquer indcio dedoena ou violncia. Segundo eles, a morte teriaocorrido por volta do meio-dia, embora o corpotivesse sido encontrado na cama. O veredicto dojri foi o de que "ele morreu pela vontade deDeus". O corpo foi enterrado e a administraopblica assumiu a propriedade.

    Uma investigao minuciosa nodescobriu nada que j no se soubesse a respeitodo morto e as pacientes escavaes feitas emvrios pontos da casa por vizinhos sonhadores e

    244/476

  • parcimoniosos resultaram infrutferas. Os admin-istradores trancaram a casa a fim de evitar que fi-casse exposta ao tempo, enquanto a propriedade,imvel e bens, era posta legalmente venda paracobrir, ao menos em parte, as despesas datransao.

    A noite de 20 de novembro foi de tem-pestade. Ventos furiosos varreram os campos,aoitando-os com pancadas de chuva de granizo.rvores imensas foram arrancadas do cho, inter-rompendo estradas. Nunca se vira na regio umanoite to terrvel quanto aquela, mas na manhseguinte a tempestade perdera o flego e o dianasceu claro e limpo. s oito da manh, o rever-endo Henry Galbraith, pastor luterano muito con-hecido e estimado, chegou a p sua casa, queficava a pouco mais de dois quilmetros da

    245/476

  • propriedade de Deluse. O Sr. Galbraith estiverafora, em Cincinnati, por um ms. Subira o rionum barco a vapor e, ao chegar em Gallipolis nanoite anterior, arranjara um cavalo e uma carroa,tomando o caminho de casa. Mas a violncia datormenta retivera-o durante a noite e, j de man-h, com tantas rvores cadas, acabara por aban-donar cavalo e carroa, continuando a jornada ap.

    "Mas onde voc passou a noite?", per-guntou a mulher, assim que ele acabou de contarsua aventura.

    "Com o velho Deluse na Ilha dos Pin-heiros"*, respondeu rindo. "Mas passei um maupedao. Ele no se importou de me deixar ficarl, mas sequer me dirigiu a palavra.

    246/476

  • Felizmente, no interesse da verdade, es-tava presente a essa conversa o Sr. RobertMosely Maren, advogado e literato de Columbus,o mesmo que escreveu os deliciosos Documentosda arte do humor. Percebendo, embora aparente-mente sem compartilh-la, a surpresa causadapela resposta do Sr. Galbraith, o sarcstico Sr.Maren sustou com um gesto as exclamaes deespanto que naturalmente se seguiriam e, comtoda tranquilidade, perguntou:

    "E como foi que o senhor conseguiu en-trar l?

    Esta a verso do Sr. Maren para a res-posta do Sr. Galbraith:

    "Vi uma luz se movendo dentro da casae, completamente cego pela tormenta, alm de

    247/476

  • estar quase congelando, entrei pelo porto e am-arrei o cavalo na cerca do velho estbulo, ondeele est at agora. Em seguida bati na porta.Como ningum atendeu, resolvi entrar. A sala es-tava escura, mas eu tinha fsforos e acabeiachando uma vela, que acendi. Tentei entrar noaposento ao lado, s que a porta estava trancadae, embora ouvisse os passos pesados do velho ldentro, ele no responddeu a meu chamado.Como no havia lareira acesa, fiz um fogo e medeitei [sic] diante dele, fazendo do casaco traves-seiro e preparando-me para dormir. Mas logo aporta que eu forara abriu-se silenciosamente e ovelho entrou, carregando uma vela. Dirigi-me aele com toda a gentileza, pedindo perdo pela in-vaso, mas ele no pareceu notar-me. Dava a im-presso de procurar algo, embora seus olhos est-ivessem fixos nas rbitas. Acho que ele

    248/476

  • sonmbulo. Deu uma meia-volta pela sala e saiupela mesma porta por onde entrara. Ainda voltouduas vezes antes que eu adormecesse, agindo ex-atamente da mesma forma e desaparecendo comoantes. Nos intervalos, eu o ouvia perambulandopela casa, seus passos perfeitamente audveis naspausas da tormenta. E, quando acordei na manhseguinte, ele j havia sado.

    O Sr. Maren ainda tentou fazer mais per-guntas, mas foi contido pelas exclamaes dafamlia. A histria da morte e do enterro de De-luse veio

    *A "Ilha dos Pinheiros" um conhecido local de en-

    contro de piratas. (N. do A.)

    tona, para grande espanto do bompastor.

    249/476

  • "A explicao para a aventura do senhor muito simples", disse o Sr. Maren. "Noacredito que o Sr. Deluse possa caminhar duranteo sono no nesse em que est mergulhadoagora. Mas o senhor, com toda certeza, tem umsono cheio de sonhos." E, diante dessa versopara os fatos, o Sr. Galbraith foi obrigado aaceit-la, embora relutante. Porm, tarde danoite do dia seguinte, l estavam os dois caval-heiros, acompanhados pelo filho do pastor, na es-trada diante da casa do velho Deluse. Havia luz ldentro. s vezes numa janela, s vezes noutra. Eos trs homens avanaram at junto porta.Assim que l chegaram, veio do interior da casauma profuso de sons estarrecedores rudo deespadas, ao chocando-se contra ao, explosesviolentas como se armas de fogo, gritos de mul-heres, grunhidos e imprecaes de homens em

    250/476

  • combate! Os trs ficaram ali por um instante,amedrontados, sem saber o que fazer. E ento oSr. Galbraith tentou abrir a porta. Estavatrancada. Mas o pastor era um homem de cor-agem e, acima de tudo, um homem de fora her-clea. Deu um ou dois passos para trs e atiroucontra a porta o ombro direito, arrancando-a dasdobradias com um estrondo. No segundoseguinte os trs estavam l dentro. Tudo era es-curido e silncio! O nico som era a batida deseus coraes.

    O Sr. Maren trouxera consigo fsforos euma vela. Com dificuldade, devido agitao emque se encontrava, conseguiu acend-la, e os trshomens comearam a explorar a casa, passandode um a outro aposento. Tudo estava em perfeitaordem, como fora deixado pelo xerife. Nada fora

    251/476

  • remexido. Uma fina camada de poeira recobriatudo. Uma porta, nos fundos, encontrava-se en-treaberta, como se por descuido, e a primeiracoisa que passou pela cabea deles foi que osautores da gritaria talvez tivessem escapado. Es-cancararam a porta e iluminaram o cho com avela. Com os ltimos sopros da tormenta noturnacara um pouco de neve. Mas no havia pegadas.A superfcie branca estava intacta. Eles fecharama porta e entraram no ltimo dos quatro aposen-tos da casa o que ficava mais distante da en-trada, num canto da construo. Foi l que a velado Sr. Maren se apagou de repente, como se at-ingida por uma lufada de ar. No instante seguinte,ouviram um baque pesado. E quando reacend-eram a vela s pressas encontraram o jovem Gal-braith, filho do pastor, cado no cho a pouca dis-tncia dos dois. Estava morto. Uma das mos

    252/476

  • crispara-se em torno de um pesado saco demoedas, que exames posteriores provariam servelhos dobres espanhis. Bem junto ao lugaronde jazia o corpo uma ripa de madeira tinhasido arrancada da parede e, pela abertura queficara, via-se que fora de l que o saco foraretirado.

    Outra investigao foi realizada. Outroexame post-mortem feito sem que se conseguissedescobrir a causa da morte. Mais um veredicto deque ela se dera "pela vontade de Deus" deixou atodos a liberdade de tirar suas prprias con-cluses. O Sr. Maren chegou concluso de queo jovem morrera de pura excitao.

    253/476

  • Misso no cumprida

    Henry Saylor, que foi morto em Coving-ton, numa briga com Antnio Finch, era reprterdo jornal Commercial, de Cincinnati. No ano de1859, uma casa vazia da rua Vine, em Cincinnati,tomou-se o centro das atenes por causa deaparies e sons estranhos que ali eram observa-dos noite. Segundo testemunho de inmerosmoradores da vizinhana, gente consideradasria, no havia outra explicao possvel para ofenmeno a no ser a de que a casa era mal-as-sombrada. Figuras de aspecto misterioso eramvistas entrando e saindo da casa por verdadeirasmultides que se aglomeravam na calada. Nin-gum sabia dizer em que ponto do ptio elasapareciam antes de se dirigir porta da frente,por onde entravam, nem exatamente em que

  • ponto desapareciam, assim que saam l de den-tro. Ou melhor, embora cada espectador tivesseuma resposta exata para essas questes, no haviasequer dois deles que concordassem entre si.Tampouco havia consenso na hora de descreveras figuras. Alguns dos curiosos mais intrpidoschegavam, em determinadas noites, a ficar de pjunto aos degraus para intercept-las ou, caso noo conseguissem, para tentar chegar perto e olh-las melhor. Esses homens corajosos, dizia-se, noconseguiam abrir a porta da casa nem quando otentavam em bando e acabavam sempre sendoatirados degraus abaixo por uma fora invisvel,ficando seriamente machucados. Em seguida, aporta se abria como se por vontade prpria, paraque entrasse ou sasse um de seus visitantes es-pectrais. O lugar era conhecido como a casa Ros-coe, nome da famlia que l vivera por muitos

    255/476

  • anos, tendo seus membros desaparecido um aum, sendo que o ltimo a morar ali fora umavelha. Histrias de traies e sucessivos assassin-atos eram contadas, mas nada jamais foraprovado. Certo dia, quando era grande a agitao,Saylor se apresentou no escritrio do Commer-cial espera de ordens. Recebeu um bilhete doeditor local que dizia o seguinte: "V at a casamal-assombrada da rua Vine e passe a noite lsozinho. Se acontecer alguma coisa interessante,escreva duas colunas." Saylor obedeceu a seu su-perior. No podia arriscar-se a perder o empregono jornal.

    Depois de avisar a polcia do que preten-dia fazer, entrou por uma janela dos fundos dacasa antes do anoitecer, atravessou as salas vazi-as, sem moblia, desoladas e empoeiradas e,

    256/476

  • sentado afinal na sala de visitas, num velho sofque empurrara at l, passou a observar a penum-bra que se fechava, medida que a noite iacaindo. Antes mesmo que escurecesse completa-mente, j havia uma aglomerao de curiosos narua. A multido estava silenciosa, como sempre,mas expectante, com um zombeteiro exibindo devez em quando sua coragem e incredulidade, combravatas ou gritos de deboche. Ningum sabiaque, dentro da casa, algum vigiava, ansioso.Saylor temia acender alguma luz. As janelas, semcortinas, trairiam sua presena e ele poderia serinsultado, talvez at agredido. Alm disso, porser consciencioso demais, no queria que nada at-rapalhasse suas impresses e precisava evitar quese alterassem as condies normais em que ofenmeno parecia ocorrer.

    257/476

  • Agora j estava escuro l fora, mas a luzplida da rua iluminava o pedao de sala onde elese encontrava. Saylor havia aberto todas as portasdo interior da casa, nos andares de cima e debaixo, mas as portas externas estavam todastrancadas, com o ferrolho passado. Sbito, ex-clamaes da multido fizeram com que ele se le-vantasse e fosse at a janela, olhando para fora.Foi quando viu a figura de um homem atravess-ando o ptio com passos rpidos e dirigindo-se casa. Viu-o subir as escadas. Uma parede do hallo encobriu. Ouviu ento o barulho da porta dafrente se abrindo e em seguida se fechando. Es-cutou suas passadas rpidas e pesadas atravess-ando o vestbulo. Ouviu-o subindo as escadas.Depois pisando o cho nu do quarto que ficavabem em cima de sua cabea.

    258/476

  • Imediatamente, Saylor empunhou a pis-tola e, galgando as escadas, entrou no quarto,fracamente iluminado pela luz que vinha da rua.No havia ningum. Ouviu passos no quarto aolado e foi at l. Estava escuro e silencioso. Foiquando chutou alguma coisa no cho e,ajoelhando-se, examinou o objeto com a mo.Era uma cabea humana a cabea de umamulher. Erguendo-a pelos cabelos, esse homemde nervos de ao voltou sala do andar de baixo,onde havia um pouco mais de luz, e foi at junto janela examin-la. Ao faz-lo, teve a impressode ouvir a porta da frente abrir-se e fechar-seoutra vez, rapidamente, enquanto era envolvidopelo som de passos. Ergueu os olhos do objetohorrendo que tinha nas mos e percebeu que es-tava cercado por um aglomerado de homens emulheres, que mal podia enxergar. A sala estava

    259/476

  • repleta deles. Pensou que a multido tivesse inva-dido a casa.

    "Senhoras e senhores", falou, com toda acalma, "sei que esto me vendo em circunstn-cias suspeitas, mas..." e sua voz foi abafada pelaexploso de gargalhadas gargalhadas como asque se ouvem em asilos de loucos. As pessoasque o cercavam apontavam o objeto que ele tinhanas mos. E as risadas redobraram quando, es-capando das mos de Saylor, a cabea rolou porentre os ps da multido. Danaram em tornodela com gestos grotescos e atitudes obscenas,indescritveis. Chutavam-na, arremessando-a deum canto a outro da sala. Empurravam-se edigladiavam-se pelo privilgio de chut-la.Xingavam e gritavam, cantando trechos de can-es rudes, enquanto a cabea rolava de um lado

    260/476

  • para o outro, como se aterrorizada, como se tent-ando escapar. At que foi arremessada atravs daporta na direo do vestbulo, sendo seguida portodos, que abandonaram a sala em tumulto. E nosegundo em que a porta se fechou com estrondo,Saylor se viu novamente s, em meio a um siln-cio de morte.

    Guardando com cuidado a pistola, queestivera segurando todo o tempo, foi at a janelae espiou l fora. A rua estava vazia e silenciosa.As lmpadas apagadas. Telhados e chamins jse delineavam contra a luz do alvorecer, a leste.E Saylor saiu da casa, a porta abrindo-se facil-mente ante o toque de sua mo. Caminhou at oescritrio do Commercial. O editor ainda estaval, dormindo em sua sala. Saylor o acordou,dizendo:

    261/476

  • "Eu estive na casa mal-assombrada.

    O editor olhou-o surpreso, como se noestivesse totalmente desperto.

    "Deus do cu!", exclamou. " voc,Saylor?

    "Sou... porqu?

    O editor nada respondeu, mas continuouolhando para ele.

    "Eu passei a noite na casa... parece",disse Saylor.

    "Disseram que as coisas estavam estran-hamente calmas l", disse o editor, brincandocom um peso de papel no qual pousara os olhos."Aconteceu alguma coisa?

    262/476

  • "No. No aconteceu nada.263/476

  • A videira

    A cerca de cinco quilmetros da cidadede Norton, no Missouri, junto estrada que levaa Maysville, fica uma velha casa cujos ltimosocupantes foram uma famlia de nome Harding.Desde 1886 a casa est abandonada e dificil-mente voltar a ser ocupada por quem quer queseja. O tempo e a cisma das pessoas que vivemnas redondezas a esto transformando em ummonte de runas pitorescas. Um observador queignorasse sua histria dificilmente a classificariade "casa mal-assombrada", mas exatamenteessa sua reputao naquelas vizinhanas. Asjanelas no tm vidraas, os portais j no con-tm portas. H grandes fendas no telhado de ar-dsia e, por falta de tinta, seu revestimento demadeira de um castanho-acinzentado. Mas

  • esses sinais inequvocos do sobrenatural so par-cialmente ou mesmo fortemente suavizados pelafolhagem abundante de uma imensa videira quese debrua sobre a casa. Essa videira de umaespcie que nenhum botnico foi jamais capaz declassificar tem um papel importante nahistria da casa. A famlia Harding consistia emRobert Harding, sua mulher, Matilda, a Srta.Jlia Went, irm dela, e dois filhos pequenos.Robert Harding era um homem calado e frio, queno possua amigos na vizinhana e nem pareciainteressado em faz-los. Tinha cerca de quarentaanos e, frugal e laborioso, trabalhava no pequenorancho hoje tomado pelos espinheiros e pelomatagal. Ele e a cunhada eram malvistos pelavizinhana, segundo a qual os dois andavam de-mais juntos o que no era exatamente culpadeles, j que na poca no assumiam uma atitude

    265/476

  • de desafio. Mas o cdigo moral do interior doMissouri muito severo e exigente.

    A Sra. Harding era uma mulher gentil,de olhar triste, que no tinha o p esquerdo.

    Em algum momento do ano de 1884espalhou-se a notcia de que ela fora visitar a meem Iowa. Foi o que o marido disse em resposta sperguntas, e sua maneira de responder no en-corajava maiores questionamentos. A Sra. Hard-ing jamais voltou e, dois anos depois, sem vendera fazenda ou qualquer um de seus pertences, semsequer designar um procurador para cuidar deseus interesses, sem nem mesmo tirar os bens queestavam na casa, Harding e o restante da famliadeixaram o lugar. Ningum sabia para onde tin-ham ido. Mas na poca tampouco se importavam.Naturalmente, tudo o que podia ser retirado do

    266/476

  • lugar logo desapareceu e a casa abandonada gan-hou a pecha de "assombrada", como costumaacontecer em casos assim.

    Certa tarde de vero, quatro ou cincoanos mais tarde, o reverendo J. Gruber, de Nor-ton, e um procurador de Maysville, de nomeHyatt, encontraram-se, ambos a cavalo, quandopassavam diante da casa dos Hardings. Como tin-ham negcios a discutir, amarraram os cavalos eforam at a casa, sentando-se na varanda paraconversar. Referncias bem-humoradas reputao do lugar foram feitas e logo emseguida esquecidas, quando os dois passaram afalar de negcios, conversa que se estendeu atcomear a escurecer. O calor da noite era opress-ivo, o ar estagnado.

    267/476

  • De repente, os dois homens se ergueram,surpresos: a imensa videira que cobria metade dafrente da casa, e cujos galhos se espraiavam deum dos cantos da varanda, comeou a agitar-seviolentamente, tronco e folhas sacudindo-se anteos olhos e ouvidos deles.

    "Vem a um temporal", disse Hyatt.Gruber no respondeu, mas em silncio mostrouao outro a folhagem das rvores vizinhas, queno se moviam. At os mais delicados galhos noalto dos arbustos, recortados contra o cu, es-tavam imveis. Os dois desceram os degraus emdireo ao que um dia fora o ptio e olharam paracima, observando a videira, que viam agora emtoda sua extenso. Continuava agitando-se comviolncia, sem que eles fossem capazes de precis-ar o que causava aquilo.

    268/476

  • "Vamos embora", disse o reverendo. Eforam. Esquecendo-se de que viajavam emdirees opostas, saram juntos. Foram para Nor-ton, onde contaram sua estranha experincia paravrios amigos discretos. Na noite seguinte, namesma hora, acompanhados por mais dois com-panheiros cujos nomes no se sabe, voltaram varanda da casa dos Hardings e o fenmeno serepetiu: a videira comeou a sacudir-se com viol-ncia enquanto eles a examinavam cuida-dosamente da raiz ao topo e nem mesmo a forade todos juntos abraados ao tronco foi capaz defaz-la parar. Aps uma hora de observao elesse foram, no menos sbios, acredita-se, do quetinham ali chegado.

    Em pouco tempo, os estranhos aconteci-mentos despertaram a curiosidade de toda a

    269/476

  • vizinhana. De dia ou de noite, as pessoas seaglomeravam no porto da casa dos Hardingstentando "ver algum sinal". No h notcia de queo tenham conseguido, mas as testemunhas erampessoas to confiveis que ningum ousavaduvidar da veracidade daquelas "manifestaes"por eles observadas.

    At que, fruto de uma inspirao feliz oude um desejo destrutivo, foi certo dia proposto ningum sabia dizer de quem partira a idia que se cavasse o cho sob a videira. E, apsmuita discusso, isso foi feito. A nica coisa queencontraram foi a raiz da rvore e contudonada poderia ser mais estranho!

    Por quase dois metros abaixo do tronco,que na superfcie tinha um dimetro de muitoscentmetros, uma s raiz descia em linha reta,

    270/476

  • penetrando na terra fofa, esboroada. Ali, dividia-se e subdividia-se em radculas, fibras e filamen-tos, entrelaados da maneira mais curiosa.Quando arrancados do solo, exibiram uma form-ao singular. Suas ramificaes e redobras te-ciam uma rede compacta que em tamanho eformato assemelhavam-se incrivelmente figurahumana. Cabea, tronco e membros, l estavam.At mesmo dedos, distintamente definidos. Muitagente chegou a afirmar ter visto no arranjo form-ado pelas fibras, dentro da massa arredondadaque representava a cabea, a fisionomia grotescade um rosto. A figura era horizontal. As razesmenores tinham comeado a entrelaar-se a partirdo peito.

    Mas em termos de semelhana com afigura humana a imagem era imperfeita. Porque

    271/476

  • cerca de trinta centmetros abaixo de um dos joel-hos, as razes que formavam a perna dobravam-seabruptamente para dentro e para trs, inter-rompendo seu crescimento. A figura no tinha op esquerdo.

    A concluso s podia ser uma a b-via. Mas, na excitao que se seguiu descoberta, as aes propostas foram tantasquanto o nmero de advogados incapazes deempreend-las. O caso foi encerrado pelo xerifedo condado, que, sendo legalmente responsvelpela propriedade abandonada, mandou recolocara raiz no lugar e tapar o buraco.

    Investigaes posteriores mostraramapenas um fato relevante e significativo: a Sra.Harding jamais chegara a visitar os pais em Iowa,

    272/476

  • nem eles tinham qualquer conhecimento de queela pretendesse faz-lo.

    De Robert Harding e do restante dafamlia nada se sabe. A casa mantm sua fama deassombrada, mas a videira replantada umarvore to comum e inofensiva que qualquerpessoa nervosa poderia sentar-se ao p dela numanoite agradvel, com os grilos cantando suasrevelaes imemoriais e o rodamoinho ao longesignificando exatamente o que se deve fazernesses casos.

    273/476

  • Na casa do velho Eckert

    Philip Eckert viveu durante muitos anosnuma velha casa de madeira, desgastada pelotempo, a cerca de cinco quilmetros da cidadez-inha de Marion, em Vermont. Acho que ainda de-vem existir pessoas que se lembrem dele, talvezat de maneira simptica, e que conheam al-guma coisa da histria que vou contar.

    "O velho Eckert", como sempre foi con-hecido, no era muito socivel e vivia sozinho.Como nunca se ouviu dizer que falasse de siprprio, ningum nas redondezas jamais soube deseu passado, nem de seus parentes, se que tinhaalgum. Embora no fosse especialmente de-sagradvel ou repulsivo na maneira de agir oufalar, conseguia de alguma forma proteger-se da

  • curiosidade alheia, e ainda assim isentar-se dafama de maldito que geralmente a vinganadessa curiosidade frustrada. Que eu saiba, suafama de assassino arrependido ou de pirataaposentado do alto-mar jamais chegou a Marion.Tirava o sustento do cultivo da terra no muitofrtil de uma pequena fazenda.

    Certo dia ele desapareceu, e a buscacuidadosa empreendida pelos vizinhos no foicapaz de localiz-lo, nem de determinar paraonde fora ou por qu. Nada indicava que tivesseplanejado ir embora: tudo estava como se eletivesse sado para pegar gua na fonte. Por algu-mas semanas, no se falou em outra coisa na re-gio. At que "o velho Eckert" transformou-se nalenda da cidade para todos os forasteiros. No seio foi feito de sua propriedade duvido que

    275/476

  • tenham sido tomadas as providncias legais cab-veis. Na ltima vez em que tive notcias dela,passados vinte anos, a casa continuava de p,ainda vazia e visivelmente decadente.

    Claro que ganhou fama de "assombrada"e que surgiram as costumeiras histrias de luzesque se movem, de gemidos e aparies assusta-doras. A certa altura, cerca de cinco anos aps odesaparecimento, as histrias sobrenaturais setinham tornado to comuns, ou to importantes,em razo de circunstncias que as autenticavam,que um grupo de cidados srios de Mariondecidiu investig-las, combinando assim passaruma noite na casa. Os participantes de tal inici-ativa eram John Holcomb, boticrio; WilsonMerle, advogado; e Andrus C. Palmer, professorda escola pblica, todos eles homens ponderados

    276/476

  • e de boa reputao. Ficaram de encontrar-se nacasa de Holcomb s oito da noite, na data acer-tada, de onde iriam juntos ao local da viglia,para o qual j tinham providenciado, visando seuprprio conforto, provises de combustvel ecoisas do gnero, j que estavam no inverno.

    Palmer faltou ao encontro e, depois deesper-lo por cerca de meia hora, os outros forampara a casa de Eckert sem ele. Acomodaram-seno principal aposento, diante do fogo e, semqualquer outra iluminao, esperaram pelosacontecimentos. Tinham combinado que falariamo mnimo possvel: nem sequer voltaram acomentar entre si a defeco de Palmer, assuntoque ocupara suas mentes durante todo o caminho.

    Uma hora, talvez, tinha-se passado semqualquer incidente, quando eles ouviram (no

    277/476

  • sem emoo, claro) o rudo de uma porta se ab-rindo nos fundos da casa, seguido do som de pas-sos no aposento ao lado daquele em que seencontravam. Ergueram-se, mas ficaram firmes,preparados para o que quer que fosse. Seguiu-seum longo silncio o quo longo, nenhum dosdois seria depois capaz de dizer. E ento a portaentre os dois aposentos se abriu e um homementrou.

    Era Palmer. Estava plido, como se as-sustado to plido quanto os outros doissabiam que estavam. E tinha um jeito estranho,distrado: no respondeu ao cumprimento dosdois, limitando-se a fit-los e a atravessar devag-ar a sala iluminada pela luz do fogo que morria,abrindo em seguida a porta da frente para desa-parecer na escurido.

    278/476

  • Ao que parece, ocorreu a ambos quetalvez Palmer estivesse sob o impacto do medo talvez tivesse visto, ouvido ou imaginado al-guma coisa na sala dos fundos que o tivesse deix-ado atordoado. Levados pelo mesmo impulso deajudar o amigo, os dois correram atrs dele at-ravs da porta aberta. Mas nem eles nem nin-gum jamais voltou a ver ou a ouvir falar deAndrus Palmer!

    E isso foi apurado na manh seguinte.Durante a permanncia de Holcomb e Merle na"casa assombrada", vrios centmetros de nevefresca se tinham acumulado sobre a que j re-cobria o cho. Na neve nova, as pegadas dePalmer em seu caminho da estalagem na cidadeat a porta dos fundos da casa de Eckert eramclaramente visveis. Mas terminavam ali: diante

    279/476

  • da porta da frente, s havia as pegadas dos doishomens que juravam t-lo visto sair por l.Palmer desapareceu de modo to completoquanto o prprio "velho Eckert" o qual foiacusado com todas as letras pelo editor do jornallocal de ter "surgido e agarrado Palmer, levando-o consigo".

    280/476

  • Os outros hspedes

    "Para pegar o trem", disse o coronelLevering, sentado no Hotel Waldorf-Astoria,"voc ter de passar a noite quase toda em At-lanta. uma cidade interessante, mas eu o acon-selho a no ir at a Casa Breathitt, um dos prin-cipais hotis de l. uma velha construo demadeira, precisando urgentemente de reparos. Asparedes tm rachaduras to grandes que voc ser-ia capaz de enfiar um gato atravs delas. Os quar-tos no tm tranca nas portas nem mveis, apenasuma cadeira cada e um lastro com colcho, massem roupa de cama. E mesmo sobre essas aco-modaes to simples voc talvez no tenha ex-clusividade: correr o risco de ter de dividir oquarto com outros hspedes. Meu caro, umhotel abominvel.

  • "A noite em que passei l foi extrema-mente desconfortvel. Cheguei tarde ao hotel efui levado at o quarto, no trreo, pelo porteiro danoite, que me pediu muitas desculpas. Levavanas mos uma vela de sebo, que deixou comigo.Eu estava exausto, depois de dois dias e umanoite viajando de trem, e ainda no completa-mente recuperado de um tiro que levara nacabea, durante uma briga. Em vez de procurarum lugar melhor para ficar, deitei-me no colchosem nem mesmo tirar a roupa e ca no sono.

    "De madrugada, acordei. A lua estavaalta no cu e brilhava atravs da janela sem corti-nas, banhando o quarto com uma luz suave e azu-lada, com um certo toque fantasmagrico, em-bora eu deva dizer que nada tivesse de incomum.O luar sempre assim, se voc observar bem.

    282/476

  • Imagine qual no foi minha surpresa e indig-nao ao ver que pelo menos uma dzia de outroshspedes se espalhava pelo cho do quarto!Ergui-me, maldizendo a gerncia daquele hotelimpensvel e j estava a ponto de sair da cama eprocurar encrenca com o porteiro da noite aquele das desculpas e da vela de sebo quandoalguma coisa no ambiente me deixou indisposto afazer qualquer movimento. Acho que o que umficcionista chamaria de 'ficar paralisado demedo'. Porque, obviamente, todos aqueles ho-mens estavam mortos.

    "Jaziam de costas, dispostos em ordemao longo de trs das quatro paredes do quarto,com os ps junto ao rodap na quarta parede,a mais distante da porta, estava encostada minhacama, assim como a cadeira. Todos tinham os

    283/476

  • rostos cobertos, mas, de dois dos corpos, que es-tavam no quadrado de cho iluminado pelo luar,junto janela, via-se perfeitamente o perfil, como nariz e o queixo bem marcados sob os panosbrancos.

    "Pensei que fosse um pesadelo e tenteigritar, como se faz nesses casos, mas no con-segui emitir qualquer som. Finalmente, aps umesforo desesperado, pousei os ps no cho e,passando entre as duas fileiras de rostos recober-tos e entre os dois corpos que jaziam mais pertoda porta, escapei daquele lugar infernal, correndoat a portaria. O porteiro da noite estava l, atrsdo balco, sentado em meio luz mortiade outra vela de sebo sentado, apenas, de ol-hos abertos. No se levantou: minha entrada re-pentina no teve sobre ele qualquer efeito,

    284/476

  • embora eu prprio devesse estar com a aparnciade um cadver. E s ento ocorreu-me que eu nochegara a observ-lo bem. Era um rapaz franzino,de rosto plido, com os olhos mais vazios, maisbrancos, que eu jamais vira. No tinha qualquerexpresso. Suas roupas eram de um cinza sujo.

    "'Raios!', gritei. 'O que isso?' "En-quanto falava, eu tremia como uma folha aovento, no sendo capaz sequer de reconhecerminha prpria voz.

    "O porteiro da noite se levantou, fezuma reverncia (como se procurasse desculpar-se) e bem, no instante seguinte j no estavamais l. E nesse mesmo segundo senti uma mopousar sobre meu ombro. Imagine o que senti!Aterrorizado, virei-me e dei com um cavalheirocorpulento, de expresso gentil, que perguntou:

    285/476

  • "'O que h, meu amigo?' "No demoreia contar-lhe, mas antes que terminasse era elequem estava plido.

    "'Diga-me uma coisa', falou, 'o senhorest me contando a verdade?' "Eu j estava maiscontrolado e agora o terror dava lugarindignao.

    "'Se duvida do que digo', falei, 'soucapaz de acabar com voc!' "'No', respondeu,'no faa isso. Sente-se que vou explicar-lhetudo. Isto no um hotel. J foi, um dia. Depois,foi transformado num hospital. Agora est vazio, espera de ser reocupado. E o quarto que o sen-hor mencionou era o necrotrio estava semprecheio de cadveres. O rapaz a quem o senhorchama de porteiro da noite costumava s-lo, defato, porm mais tarde passou a controlar o

    286/476

  • registro dos pacientes que eram trazidos para ohospital. No entendo como pudesse estar aqui.Ele morreu h poucas semanas.' '"E quem vo-c?', perguntei.

    '"Bem, sou eu que cuido do prdio.Aconteceu de eu estar passando e, vendo uma luzaqui dentro, entrei para investigar. Vamos at lolhar o tal quarto', acrescentou, apanhando a velaque crepitava sobre o balco.

    '"Prefiro encontrar com voc no in-ferno!', retruquei, disparando porta afora.

    "Meu caro, a tal de Casa Breathitt, emAtlanta, que lugar terrvel! No v nunca l.

    "Deus me livre! Pelo que o senhor con-tou, no parece nada confortvel... Por falar

    287/476

  • nisso, coronel, quando foi que tudo issoaconteceu?

    "Em setembro de 1864 logo depoisdo cerco.

    288/476

  • A casa assombrada

    Na estrada em direo ao norte, que levade Manchester, na regio leste de Kentucky, aBooneville, cerca de trinta quilmetros adiante,existia, no ano de 1862, uma casa de fazenda,feita de madeira, cuja qualidade era bem superior maioria das moradias daquela regio. Ela seriadestruda no ano seguinte por um incndio provavelmente provocado por soldados desgarra-dos da coluna do general George W. Morgan, quebatia em retirada da Falha de Cumberland emdireo ao rio Ohio, depois de ser vencida pelogeneral Kirby Smith. Quando foi destruda, acasa j estava abandonada h quatro ou cincoanos. Os campos sua volta estavam cobertospelo matagal, as cercas tinham sido derrubadas emesmo as poucas casas de escravos, bem como

  • outras construes externas, tudo estava emrunas, fosse por descuido ou por pilhagem. Issoporque tanto os negros como os brancos pobresdos arredores costumavam usar a madeira da casae das cercas para fazer fogo, lanando modesses recursos sem hesitar, abertamente e luzdo dia. Alis, somente luz do dia. Pois, assimque caa a noite, nenhum ser humano, excetoforasteiros que por ali passassem, jamais seaproximava do lugar.

    Era conhecida como a "Casa Assom-brada". Que ela era habitada por espritos malfi-cos, visveis, audveis e ativos, todos naquela re-gio acreditavam, da mesma forma que acred-itavam no que ouviam do pastor itinerante emseus sermes de domingo. A opinio do dono dacasa sobre o assunto ningum sabia. Ele e sua

    290/476

  • famlia tinham desaparecido certa noite sem deix-ar rastros. Largaram tudo para trs os bens queestavam na casa, roupas, provises, os cavalosnos estbulos, as vacas no campo e os escravosem suas casas tudo intocado. No faltava nada apenas um homem, uma mulher, trs meninas,um menino e um beb! E no era de admirar quenuma fazenda onde sete seres humanos haviamdesaparecido ao mesmo tempo, ningum ficassesob suspeita.

    Certa noite, em junho de 1859, dois cid-ados de Frankfort, o coronel J. C. McArdle, ad-vogado, e o juiz Myron Veigh, da MilciaEstadual, dirigiam-se de Booneville aManchester. Tinham negcios to importantesque decidiram seguir viagem apesar da escuridoque caa e dos rumores de uma tempestade que se

    291/476

  • aproximava, findando por desabar justamentequando eles se aproximavam da "Casa Assom-brada". Eram tantos os relmpagos que os doisconseguiram enxergar o caminho atravs daporteira at um alpendre, onde amarraram oscavalos, tirando-lhes os arreios. Em seguida fo-ram at a casa, debaixo de chuva, batendo em to-das as portas sem obter resposta. Atribuindo ofato ao barulho constante dos troves, empur-raram uma das portas, que cedeu. Entraram semcerimnia, fechando-a. E, nesse instante, viram-se mergulhados na escurido e no silncio. Nemuma rstia de luz dos relmpagos incessantespenetrava atravs das janelas ou das fendas. Nemum murmrio do tremendo rugir dos troves al-canava o interior da casa. Era como se tivessemficado instantaneamente cegos e surdos. Maistarde, McArdle contaria ter chegado a pensar que

    292/476

  • estivesse morto, atingido por um raio no mo-mento em que cruzava a soleira da porta. O rest-ante da aventura pode ser relatado por suas pr-prias palavras, que ele publicou no Advocate, deFrankfort, na edio de 6 de agosto de 1876:

    "Assim que consegui me recuperar dotorpor provocado pela transio entre o barulho eo silncio, meu primeiro impulso foi reabrir aporta que acabara de fechar, e de cuja maaneta,pelo que podia lembrar, eu no chegara a retirar amo. Podia senti-la, ainda, sob meus dedos fecha-dos. Minha idia era voltar para baixo da tor-menta a fim de descobrir se havia mesmo perdidoa viso e a audio. Virei a maaneta e abri aporta. E vi que ela dava para um outro aposento!

    "Esse aposento estava tomado por umaluz tnue, esverdeada, cuja fonte no pude

    293/476

  • determinar e que tornava tudo perfeitamentevisvel, embora no bem delineado. Eu digo'tudo', mas na verdade os nicos objetos entre asparedes de pedra nua eram corpos humanos.Eram talvez oito ou dez preciso deixar claroque no os contei. Tinham diferentes idades, outamanhos, havendo de crianas a adultos, e deambos os sexos. Todos jaziam no cho, excetoum, aparentemente uma jovem que, recostada,tinha as costas coladas a um dos cantos daparede. Um beb jazia nos braos de outra mulh-er, esta mais velha. Um rapazinho estava cado debruos, atravessado sobre as pernas de umhomem de barba cerrada. Um ou dois estavamquase nus e uma das meninas trazia na mo ofragmento de uma roupa de dormir, que elarasgara na altura do peito. Os corpos ap-resentavam diferentes estgios de decomposio,

    294/476

  • mas todos tinham face e corpo enrugados. Algunseram pouco mais do que esqueletos.

    "Enquanto, de p, eu olhava estupefatoaquele espetculo terrvel, ainda segurando aporta aberta, minha ateno, por um caprichoinexplicvel, prendeu-se em alguns detalhes in-significantes. Talvez minha mente, com um in-stinto de autopreservao, buscasse alvio emcoisas que lhe pudessem amenizar a tenso. Entreoutros detalhes, notei que a porta que seguravaera feita de pesadas chapas de ferro, pregadas.Equidistantes, de alto a baixo, trs grandes par-afusos brotavam dos cantos chanfrados. Eumovia a maaneta e eles se retraam. Soltava-a eeles pulavam para fora. Era uma trancade mola.Do lado de dentro no havia maaneta, nem

    295/476

  • qualquer protuberncia a superfcie de ferroera lisa.

    "Enquanto observava esses detalhes comum interesse e uma ateno que hoje me deixamadmirado, senti que era empurrado para o ladopelo juiz Veigh, do qual, ante a intensidade e asvicissitudes de minhas emoes, eu havia esque-cido completamente. 'Pelo amor de Deus', gritei,'no entre a! Vamos sair deste lugar horrendo!'"Mas ele no deu ateno s minhas splicas e(com a coragem tpica dos cavalheiros do Sul)encaminhou-se at o centro da sala, ajoelhando-se ao lado de um dos corpos para examin-lomelhor e segurando entre as mos, com cuidado,sua cabea enegrecida e decomposta. Um odorestranho e desagradvel veio atravs da porta,atingindo-me de chofre. Senti tudo rodar.

    296/476

  • Percebendo que ia cair, tentei amparar-me naquina da porta e acabei por fech-la com um es-talo metlico!

    "No me lembro de mais nada: seis sem-anas depois recobrei a conscincia em um hotelde Manchester, para onde fora levado por estran-hos no dia seguinte. Durante todas aquelas sem-anas sofrera de uma febre nervosa, com con-stantes delrios. Fora encontrado jogado na es-trada a vrios quilmetros de distncia da casa.Mas como consegui escapar de l e chegar es-trada, jamais soube. Assim que me recuperei, ouassim que meus mdicos me permitiram falar,perguntei pelo juiz Veigh e eles me disseram(para me acalmar, como ficaria sabendo depois)que ele estava bem e em casa.

    297/476

  • "Ningum acreditou em uma s palavrade minha histria e isso no me surpreende. Equem pode imaginar meu desespero quando, aochegar minha casa em Frankfort, dois mesesdepois, fiquei sabendo que nunca mais depoisdaquela noite se tinha tido qualquer notcia dojuiz Veigh? Foi ento que me arrependi amarga-mente do orgulho que, nos primeiros dias de re-cuperao, me impedira de repetir minha histriaabsurda, de insistir que ela era verdadeira.

    "Tudo o que aconteceu depois as in-vestigaes feitas na casa, sem que fosse encon-trado qualquer aposento semelhante ao que euhavia descrito; as tentativas de me tachar de lou-co e a maneira como superei tais acusaes ,tudo bem conhecido pelos leitores do Advocate.Depois de todos esses anos, continuo certo de

    298/476

  • que as escavaes que no tenho nem permissolegal nem dinheiro para fazer iriam desvendar osegredo do desaparecimento de meu infelizamigo e talvez tambm dos donos da casa, hojeabandonada e destruda. Ainda no perdi com-pletamente as esperanas de vir a realizar talbusca e sinto imensamente que ela venha sendoprotelada pela hostilidade injusta e pela incredul-idade ignorante de familiares e amigos do juizVeigh.

    O coronel McArdle morreu em Frank-fort, no dia 13 de dezembro do ano de 1879.

    299/476

  • Os olhos da pantera

    I

    Nem sempre nos casamos quando es-tamos loucos

    Um homem e uma mulher reunidospela natureza estavam sentados num bancorstico, num fim de tarde. O homem era de meia-idade, magro e moreno, com uma expresso depoeta e aparncia de pirata um homem capazde chamar ateno. A mulher era jovem, loura,de maneiras graciosas, com algo em seu aspectoe em seus movimentos que fazia pensar na palav-ra "gil". Vestia uma roupa cinzenta cuja super-fcie era desenhada por estranhas figuras de cormarrom. Talvez fosse bonita. Era difcil dizer,

  • porque seus olhos prendiam a ateno mais doque tudo. Cinza-esverdeados, longos e estreitos,tinham uma expresso misteriosa. Mas de umacoisa se podia ter certeza: eram perturbadores.Clepatra talvez tivesse tido olhos assim.

    O homem e a mulher conversavam.

    "Sim", disse a mulher, "Deus sabe queeu amo voc! Mas no quero me casar. Noposso. E no vou.

    "Irene, voc j disse isso muitas vezes,mas nunca me deu uma razo. Tenho o direito desaber, de entender, quero pr prova minha cor-agem, se que a tenho. D-me uma razo.

    "Para amar voc?

    301/476

  • A mulher sorria por entre as lgrimas,lvida. Mas o homem no recebeu a frase comhumor.

    "No. Para isso, no h razo alguma.Uma razo para no se casar comigo. Tenho odireito de saber. Preciso saber. E vou saber!

    Ele se levantara e estava de p diantedela, com as mos crispadas, o cenho franzido semelhante a uma carranca. Por seu aspecto,parecia prestes a ameaar estrangul-la para queela falasse. Ela parou de sorrir. Simplesmenteencarou-o com um olhar fixo, imvel, desprovidode emoo ou sentimento. Mas havia nele algumacoisa que domou a raiva do homem, fazendo-oestremecer.

    302/476

  • "Voc quer mesmo saber minha razo?",perguntou ela num tom de voz mecnico, um tomque parecia seu olhar transformado em som.

    "Por favor... se no for pedir demais.

    Aparentemente, a principal criatura deDeus estava cedendo terreno para a companheira.

    "Muito bem. Pois voc vai saber: eu soulouca.

    O homem se levantou, depois olhou-aincrdulo, tendo conscincia de que deveria estarachando graa. No entanto, mais uma vez, osenso de humor lhe faltava e, apesar de noacreditar, ficou profundamente perturbado poraquilo em que descria. Nem sempre nossas con-vices e nossos sentimentos esto afinados.

    303/476

  • " o que os mdicos diriam", continuoua mulher, "se soubessem. Eu mesma prefiro clas-sificar como um caso de 'possesso'. Sente-se quevou lhe contar tudo.

    Sem dizer palavra, o homem voltou asentar-se ao lado dela no banco rstico, junto aocaminho. Bem em frente a eles, na parte leste dovale, as montanhas j estavam incendiadas pelopr-do-sol e a quietude parecia anunciar o anoite-cer. Aquela solenidade misteriosa e significativatinha penetrado a alma do homem. No mundo es-piritual, assim como no material, surgem sinais,pressgios da noite. Evitando olh-la e, sempreque o fazia, consciente do terror indefinvel queaquele olhar, apesar de sua beleza felina, pro-vocava, Jenner Brading ouviu em silncio ahistria contada por Irene Marlowe. Em

    304/476

  • deferncia ao leitor, que pode ver com precon-ceito a falta de arte de um narrador inexperiente,o autor destas linhas substitui sua prpria versopelas palavras dela.

    II

    Um quarto pode ser pequeno demaispara trs, mesmo que um esteja do lado defora

    Num casebre de madeira, com apenasum quarto e rudemente mobiliado, estava umamulher agachada de encontro parede, apertandocontra o seio uma criana. Do lado de fora, umafloresta fechada estendia-se por muitos quilmet-ros, em todas as direes. Era noite e o quarto es-tava envolto no mais absoluto negror: nenhumolho humano teria sido capaz de discernir a

    305/476

  • mulher e a criana. E, no entanto, elas estavamsendo observadas. De perto, estreitamente, semque, nem por um segundo sequer, houvesse umdesvio da ateno. E esse o fato crucial de ondeparte toda nossa narrativa.

    Charles Marlowe pertencia quela classede homens, hoje desaparecidos, que eram pi-oneiros das florestas. Homens cujos ambientesnaturais eram a solido das matas que se esten-diam ao longo da encosta oriental do Vale doMississippi, dos Grandes Lagos ao Golfo doMxico. Por mais de cem anos esses pioneiros seembrenharam cada vez mais em direo a oeste,gerao aps gerao, com seus rifles e macha-dos, exigindo da natureza e de seus filhosselvagens um pedao de terra aqui e ali paraplantao, que logo seria reclamado e

    306/476

  • finalmente arrancado por seus sucessores, menosaventureiros, mas sem dvida mais prsperos.At que chegaram ao fim da floresta e deramcom o campo aberto, desaparecendo como setivessem despencado num precipcio. O pioneirodas florestas j no existe. O pioneiro das plan-cies, aquele cujo objetivo fcil foi ocupar e dom-inar dois teros do pas no espao de apenas umagerao, uma criao diversa e, sem dvida, in-ferior. Juntamente com Charles Marlowe, emmeio quelas paragens selvagens, dividindo comele os perigos, a dureza e as privaes de umavida estranha e estril, estavam sua mulher e umacriana, com as quais Marlowe numa atitudetpica dos homens de sua estirpe, para os quais asvirtudes domsticas eram uma religio tinhaprofunda ligao. A mulher ainda era jovem e,portanto, bonita, mas era tambm nova demais

    307/476

  • para se sentir bem diante do terrvel isolamentoda vida que levava. Mas, mesmo negando-lhe oimenso potencial de felicidade que as satisfaessimples da floresta no eram capazes de prover,Deus havia sido generoso com ela. E ela encon-trava em seus afazeres domsticos, no beb, nomarido e em poucos livros fteis uma abundanteproviso para suas necessidades.

    Certa manh de vero, Marlowe tirou orifle do gancho de madeira na parede, demon-strando que estava disposto a ir caa.

    "Temos carne bastante", disse a mulher."Por favor, no saia hoje. Ontem noite sonhei,ah, um sonho terrvel! No consigo lembrar-me,mas tenho quase certeza de que ele vai se realizarse voc sair.

    308/476

  • duro admitir, mas o fato que Mar-lowe recebeu essa frase to solene com menosgravidade do que se poderia esperar diante danatureza misteriosa da calamidade anunciada.Para dizer a verdade, caiu na risada.

    "Tente se lembrar", falou. "Talvez voctenha sonhado que o beb tinha perdido o dom defalar.

    Ele obviamente se referia ao fato de quea nenm, agarrada barra de seu casaco de caacom os dez dedinhos rechonchudos, emitianaquele preciso instante um parecer sobre a situ-ao, atravs de uma srie de exultantes gu-gusinspirados pela viso da capa de pele de guaxin-im usada pelo pai.

    309/476

  • A mulher desistiu. O humor no era seuforte e ela no tinha como enfrentar as pro-vocaes do marido. E, assim, com um beijo name e outro na criana, Marlowe saiu de casa,fechando a porta e deixando para trs, parasempre, sua felicidade.

    tardinha, ainda no voltara. A mulherpreparou o jantar e esperou. Depois botou a men-ina na cama e cantou baixinho para ela, at que acriana dormiu. Nessa altura, o fogo no qualhavia cozinhado o jantar j se extinguira e oquarto estava iluminado apenas pela luz de umavela. Mais tarde, ela colocaria a vela na janelaaberta, como sinal de boas-vindas ao caador,caso ele chegasse por aquele lado. Cuida-dosamente, fechara a porta com uma barra trans-versal para evitar os animais selvagens que

    310/476

  • preferissem entrar por ali, em vez de faz-lo pelajanela aberta. Dos hbitos das feras predadoras,de entrar em casas sem ser convidadas, ela poucosabia, embora, com sua intuio feminina, talveztivesse pensado na possibilidade de isso aconte-cer atravs da chamin. medida que a noiteavanava, ela ficava mais ansiosa, mas tambmia sendo vencida pelo sono. At que finalmenteestendeu os braos sobre a cama do beb e repou-sou a cabea sobre eles. A vela na janelaqueimou at o bocal, bruxuleou e brilhou aindapor um instante antes de apagar-se, sem que elase desse conta. Porque agora a mulher dormia. Esonhava.

    Em seu sonho, jazia sentada junto aobero de um segundo beb. O primeiro estavamorto. O pai tambm. A casa na floresta j no

    311/476

  • existia e o local onde se encontrava era para eladesconhecido. Havia pesadas portas de carvalho,sempre fechadas e, do lado de fora das janelas,presas s grossas paredes de pedra, havia barrasde ferro, obviamente (assim pensou ela) uma me-dida para se defender dos ndios. Tudoisso observou sentindo infinita autocomiserao,embora sem qualquer surpresa sentimentodesconhecido nos sonhos. O beb no bero estavaescondido pela coberta que, por alguma razo,ela vacilava em retirar. Mas afinal o fez, e se viudiante da face de um animal selvagem! Diante dochoque daquela horrvel revelao, a mulheracordou, tremendo em meio escurido de suacabana na floresta.

    Enquanto a conscincia de onde se en-contrava ia voltando aos poucos, ela temeu, pela

    312/476

  • criana, que talvez no fosse um sonho. Ecertificou-se de que estava tudo bem, sentindo arespirao do beb. No pde deixar de passar amo de leve em seu rosto. Em seguida, movidapor um impulso do qual provavelmente nem sedera conta, ergueu-se, tomando o beb adorme-cido nos braos e apertando-o contra o peito. Acabeceira do bero ficava encostada parede,para a qual a mulher agora dava as costas.Erguendo os olhos, viu dois objetos faiscantes,encarando-a da escurido com seu brilho verde-avermelhado. Pensou que fossem duas brasas nalareira, mas assim que recobrou o senso dedireo teve a inquietante certeza de que no bril-havam no ponto do quarto onde a lareira deviaestar e, mais do que isso, que estavam muitoacima, quase na altura dos olhos de seus

    313/476

  • prprios olhos. Porque eram os olhos de umapantera.

    A fera estava na janela aberta, bem emfrente a ela e a menos de cinco passos. No vianada exceto aqueles olhos terrveis, mas, no hor-ror que a sacudia medida que tomava conscin-cia da situao, de alguma forma sabia que o an-imal estava de p sobre as patas traseiras, apoi-ando as dianteiras no peitoril da janela. Isso sig-nificava um interesse maligno e no a simplessatisfao de uma curiosidade indolente. A cer-teza daquela atitude era um terror a mais, acentu-ando a ameaa dos olhos monstruosos, em cujofulgor toda sua fora e coragem consumiam-se.Ante aquele olhar silencioso e inquiridor, sentiutodo seu corpo estremecer, nauseado. Os joelhosfalharam e, pouco a pouco, instintivamente

    314/476

  • apoiando-se para evitar que um movimento maisbrusco fizesse a fera atirar-se sobre ela, a mulherafundou no cho, agachando-se contra a parede,tentando proteger o beb com o corpo que tremia,sem tirar por um segundo os olhos das rbitas lu-minosas que a matavam aos poucos. No pensouno marido naquele momento de agonia. Nem teveesperana ou imaginou uma forma de ser salvaou escapar. Sua capacidade para pensar e sentiragora se restringia a uma nica emoo: o medodo pulo do animal, do impacto de seu corpo, dapancada de suas imensas patas, dos dentescravando-se em sua garganta, de seu bebdestroado. Imvel, agora, e no mais absolutosilncio, ela esperou na escurido, enquanto osmomentos avolumavam-se como se fossem hor-as, anos, eras. E os olhos demonacos con-tinuavam l.

    315/476

  • De volta cabana, tarde da noite, comum veado jogado nos ombros, Charles Marlowetentou abrir a porta. Mas esta no cedeu. Bateu.No teve resposta. Arriou o animal no cho e deua volta at a janela. Assim que virou a quina dacasa, teve a impresso de ouvir passadas furtivase um rudo na vegetao rasteira da floresta, masfora algo muito sutil para que tivesse certeza,mesmo com seus ouvidos treinados.Aproximando-se da janela e vendo, com sur-presa, que estava aberta, jogou a perna por cimado peitoril e entrou. Tudo era silncio e escur-ido. Tateou at a lareira, riscou um fsforo eacendeu uma vela. Em seguida olhou em torno.Agachada no cho, contra a parede, viu a mulher,agarrada ao beb. Quando correu em sua direoela se levantou e soltou uma gargalhada. Umagargalhada interminvel, alta, mecnica,

    316/476

  • desprovida de alegria e de sentido o riso quese assemelha ao arrastar de correntes. Sem saberao certo o que fazia, ele estendeu os braos. E amulher colocou neles o beb. Estava morto. Forasufocado pela presso do abrao da me.

    III

    A teoria da defesa

    Isso foi o que aconteceu durante umacerta noite na floresta, mas nem tudo Irene Mar-lowe relatou a Jenner Brading. Pois ela prpriano sabia tudo. Quando terminou sua histria, osol j estava baixo no horizonte e o longo creps-culo de vero comeava a mergulhar nos desvosda terra. Por um instante, Brading permaneceuem silncio, esperando que a narrativa continu-asse at chegar a uma ligao com a conversa

    317/476

  • que a provocara. Mas a narradora estava to si-lenciosa quanto ele e olhava para o outro lado,apertando e desapertando as mos sobre o colo,como se aquele movimento fosse independentede sua vontade.

    " uma histria triste e terrvel", disseBrading, afinal. "Mas no entendo. Voc diz queCharles Marlowe o nome de seu pai. Isso eusei. Pelo que vejo, ou imagino, ele envelheceuprecocemente por causa de um grande sofri-mento. Mas, perdo, voc disse que... quevoc...

    "Que sou louca", disse a moa, semfazer qualquer movimento.

    318/476

  • "Mas, Irene, voc disse... por favor,querida, no desvie os olhos de mim. Voc disseque a criana estava morta, no demente.

    "Sim. Aquela. Eu sou a segunda. Nascitrs meses depois daquela noite, e minha meteve a bno de morrer ao me dar luz.

    Brading ficou em silncio de novo.Sentia-se um pouco tonto e no conseguia pensarno que dizer. Irene continuava olhando em outradireo. Sem graa, com um gesto impulsivo,Brading tentou segurar as mos que a moa aper-tava e desapertava sobre o colo, mas algo eleno saberia dizer o qu o fez parar. E entolembrou-se, vagamente, que nunca chegara a to-mar nas suas as mos de Irene.

    319/476

  • "Voc acha possvel", recomeou amoa, "que uma pessoa nascida nessas circun-stncias possa ser igual s outras? a isso quevoc chama uma pessoa s?

    Brading no respondeu. Estava preocu-pado com um novo pensamento que se formavaem sua mente. Aquilo que um cientista chamariade hiptese. E um detetive, de teoria. Poderiatalvez lanar alguma luz, embora uma luzlgubre, sobre as dvidas acerca da sanidade deIrene que seu prprio relato no dissipara.

    Os campos eram ainda virgens e, aoredor das cidades, escassamente habitados. Ocaador profissional era uma figura familiar naregio, tendo sempre entre seus trofus cabeas epeles de animais de grande porte. Havia histrias,nem sempre crveis, de encontros noturnos com

    320/476

  • animais selvagens em trilhas isoladas, mas assimcomo surgiam desapareciam, acabando esqueci-das. A mais recente contribuio para essashistrias apcrifas, que pareciam surgir por ger-ao espontnea em diversas casas, era a de queuma pantera vinha assustando as pessoas,espiando-as atravs das janelas, noite. Ahistria causara sua pequena dose de sensao ej chegara mesmo a ser narrada no jornal local.Mas Brading no lhe dera muita ateno. Agora,sua semelhana com a histria que acabara deouvir o impressionava, parecendo ser mais doque simples coincidncia. Talvez uma histriativesse feito surgir a outra encontrando con-dies adequadas numa mente mrbida, de ima-ginao frtil, talvez tivesse crescido e se trans-formado no conto trgico que acabara de ouvir.

    321/476

  • Brading lembrou-se de certos detalhesda histria e da prpria maneira de ser da moa,nos quais, movido pela falta de curiosidade doamor, at ento no prestara ateno. Detalhescomo a vida solitria dela ao lado do pai, numacasa onde, ao que parece, jamais entravam es-tranhos, ou o curioso pavor que sentia da noite,com muita gente conhecida comentando queIrene jamais era vista depois do escurecer. Claroque numa mente assim a imaginao, uma vezatiada, ir incendiar-se num fogo incontrolvel,tomando toda a estrutura. E, embora isso lhe pro-vocasse imensa dor, j no tinha dvidas de queela era insana. Apenas confundira um efeito daprpria desordem mental com sua causa, es-tabelecendo uma relao imaginria entre suapersonalidade e as excentricidades contadas pelosboateiros da regio. Com a vaga inteno de

    322/476

  • testar sua nova teoria, e sem uma clara noo doque fazer com ela, Brading disse, com gravidade,embora hesitante:

    "Irene, querida, diga-me uma coisa. Eimploro-lhe que no tome isso como uma ofensa,mas diga-me...

    "J lhe disse", interrompeu a moa,falando com um fervor apaixonado que ele no selembrava de ter percebido nela antes, "j lhedisse que no podemos casar-nos. Ser que vale apena dizer mais alguma coisa?

    E, antes que ele pudesse det-la, Ireneergueu-se e, sem dizer mais nada nem voltar aolh-lo, desapareceu por entre as rvores emdireo casa do pai. Brading se levantara paratentar evitar que ela partisse. De p, ficou

    323/476

  • olhando em silncio enquanto ela desaparecia napenumbra. De repente, deu um salto, como setivesse sido atingido. Seu rosto assumiu uma ex-presso de estranheza, de alarme: por entre assombras negras que a tragavam, pensou ter vistoum rpido, um breve cintilar de olhos! Sentiu-setonto por um segundo, sem saber o que fazer. De-pois saiu correndo pela floresta atrs dela,gritando:

    "Irene, cuidado! A pantera! A pantera!

    Logo vencera a densido da floresta esaa num espao aberto. Ainda a tempo de ver asaia cinza da moa desaparecendo por trs daporta da casa do pai. No havia qualquer pantera vista.

    IV

    324/476

  • Um apelo conscincia de Deus

    Jenner Brading, advogado, vivia numchal nos arredores da cidade. Bem atrs de suacasa ficava a floresta. Sendo solteiro e seguindo ocdigo moral draconiano daquela poca e lugar,segundo o qual no poderia usufruir do nico tipode servio domstico disponvel o da diarista, fazia as refeies no hotel da cidade, ondetambm tinha seu escritrio. O chal junto mataera apenas um local que mantinha sem grandecusto, verdade como forma de mostrarprosperidade e respeitabilidade. Para algum quefora orgulhosamente apontado pelo jornal localcomo "o maior jurista de seu tempo", no seriaadequado ser tomado por um "sem teto", emboraele s vezes desconfiasse que ter um "teto" e uma"casa" no significava exatamente a mesma

    325/476

  • coisa. Na verdade, sua conscincia dessa dispar-idade, bem como sua vontade de harmonizar osdois conceitos, era uma questo de pura deduo,j que se dizia que, pouco depois de construir ochal, seu dono comeara a pensar emcasamento. A idia fora longe a ponto de ele serrejeitado pela bela porm excntrica filha doVelho Marlowe, o recluso. Todos acreditavamnisso porque fora ele prprio quem o dissera eno a moa uma inverso da ordem naturaldas coisas, o que provava a veracidade da verso.

    O quarto de Brading ficava nos fundosda casa e tinha uma nica janela, que dava para afloresta. Certa noite, ele foi acordado por umbarulho na janela. No saberia dizer com que separecia. Sentindo uma leve tenso nos nervos,sentou-se na cama e apanhou o revlver, que,

    326/476

  • com a precauo de quem tem o hbito de dormirno trreo com a janela aberta, ele pusera sob otravesseiro. O quarto estava envolto na mais ab-soluta escurido, mas, no estando aterrorizado,ele sabia bem para onde dirigir a vista e foi l quea fixou, esperando em silncio pelo que pudesseocorrer. J podia agora discernir vagamente o voda janela um quadrado um pouco menosescuro. Logo, na parte de baixo do vo, surgiramdois olhos incandescentes, que brilhavam comum cintilar maligno e sem expresso! O coraode Brading deu um salto, depois pareceu parar.Um arrepio percorreu-lhe a espinha at os ca-belos. E ele sentiu o sangue fugir-lhe das faces.No poderia gritar, nem mesmo para salvar aprpria vida. Mas, sendo um homem de coragem,no o teria feito, mesmo que pudesse. Seu corpocovarde podia estar tremendo, mas seu esprito

    327/476

  • era feito de matria mais dura. Devagar, os olhoscintilantes moveram-se para cima, no que lhepareceu um movimento de aproximao. E, tam-bm devagar, Brading ergueu a mo direita, se-gurando a pistola. E atirou.

    Embora cego pela fasca da arma e tontopelo estampido, Brading ainda ouviu, ou pensouter ouvido, o grito poderoso e selvagem dapantera, de som to humano e de sugesto to de-monaca. Saltando da cama vestiu-se s pressas e,de arma na mo, correu para a porta, onde encon-trou dois ou trs homens que tinham vindo cor-rendo da estrada. Aps breve explicao, seguiu-se uma busca cuidadosa pela casa. Do lado defora da janela, havia um grande espao onde agrama, mida de orvalho, estava amassada e re-volvida. Dali, surgia uma trilha sinuosa, visvel

    328/476

  • luz da lanterna, que desaparecia entre os arbus-tos. Um dos homens escorregou e caiu com asmos no cho, esfregando-as ao levantar-se esentindo-as pegajosas. Ao examin-las, viu queestavam vermelhas de sangue.

    Estando desarmados, um encontro comuma pantera ferida era a ltima coisa que queri-am. Todos desistiram. Menos Brading. De lan-terna e pistola na mo, embrenhou-se cora-josamente pela floresta. Vencendo com di-ficuldade a vegetao mais baixa, chegou a umaclareira e l viu que sua coragem fora recom-pensada. Pois ali encontrou o corpo de sua v-tima. Mas no era uma pantera. O que era est es-crito, at hoje, na lpide gasta de um cemitrio dacidade. L, no tmulo junto ao qual por muitosanos seria vista a figura encurvada do Velho

    329/476

  • Marlowe, com seu rosto marcado pelo sofri-mento. Que sua alma e a de sua estranha e infelizfilha encontrem paz. Paz e reparao.

    330/476

  • O segredo da RavinaMacarger

    A noroeste da colina Indian, a uns trezequilmetros alm, onde o vento faz a curva, ficaa Ravina Macarger. No exatamente uma rav-ina mas apenas uma depresso entre doisparedes de pequena altura, recobertos pela mata.Da boca cabea porque as ravinas, assimcomo os rios, tm uma anatomia que s delas a distncia de no mximo trs quilmetros eno fundo a largura s chega a ultrapassar os dezmetros em um determinado ponto. E, de um ladoe outro do riacho, cujas guas so drenadas no in-verno e chegam a secar no incio da primavera, asmargens praticamente inexistem. As escarpas n-gremes dos paredes, recobertas por uma veget-ao quase impenetrvel de manzanita e chamiso,

  • so divididas apenas pelo leito do rio. Ningum,a no ser um ou outro caador profissional dasvizinhanas, vai at a Ravina Macarger, e amenos de dez quilmetros dali ningum a con-hece, nem mesmo de nome. Naquela regio, emqualquer direo, existem muitos acidentes topo-grficos mais conhecidos que no tm nome al-gum. E ningum sabe dizer por que razo a Rav-ina Macarger se chama assim.

    A meio caminho entre a cabea e a bocada Ravina Macarger, o paredo da direita, se es-calado, mostrar que fendido por uma outraravina, pequena e seca, sendo que na juno entreas duas h um espao plano de dois ou trs hec-tares. Ali, alguns anos atrs, havia uma velhacasa de madeira, de apenas um cmodo. De quemaneira o material para fazer a casa, por mais

    332/476

  • simples e pouco que fosse, foi levado at localto inacessvel um problema cuja soluo trariamais satisfao do que vantagem. Talvez o leitodo riacho tenha sido uma estrada. O que se sabe que, em certa poca, a ravina foi muito exploradapor mineradores, que com certeza tinham osmeios para ir at l pelo menos com alguns ani-mais, carregados de ferramentas e suprimentos.Mas os lucros obtidos, aparentemente, no tin-ham sido suficientes para justificar gastos con-siderveis, capazes de ligar a Ravina Macarger aalgum centro de civilizao equipado com umaserraria. Apesar disso, a casa continuava l, ouparte dela. Faltava-lhe uma porta e a moldura dajanela. A chamin, feita de pedra e barro, estavainclinada num ngulo deselegante e recoberta porervas daninhas, A moblia humilde que um diadeve ter havido ali, assim como parte da madeira

    333/476

  • das paredes, havia sido transformada em com-bustvel nas fogueiras dos acampamentos doscaadores. O mesmo, provavelmente, aconteceracom as bordas de um velho poo que, na pocasobre a qual meu relato, se transformara apenasnum buraco largo mas no muito fundo, ali perto.

    Certa tarde, no vero de 1874, eu at-ravessei a Ravina Macarger vindo do vale es-treito onde ela vai dar, seguindo pelo leito secodo rio. Estava caando codornas e carregava umsaco com uma dzia delas quando cheguei casadescrita, cuja existncia at ento desconhecia.Depois de inspecionar as runas sem muito in-teresse, recomecei a caar e, tendo bastante su-cesso, prolonguei a atividade at quase o pr-do-sol, quando me dei conta de que estava longe dequalquer abrigo longe demais para chegar at

    334/476

  • ele antes do anoitecer. Mas levava comigo al-guma comida e achei que a velha casa poderiame abrigar, se que era necessrio abrigo numanoite quente e seca no sop das colinas de SierraNevada, onde se pode perfeitamente dormir aorelento, sobre as palhas dos pinheiros. Gosto dasolido e da noite e, por isso, logo me decidi poracampar ali, "ao ar livre". Quando escureceu, jhavia feito minha cama com ramos e capim numdos cantos da casa e assava uma codorna nafogueira que acendera dentro do cmodo. A fu-maa saa pela chamin em runas e a fogueirailuminava a sala com uma luz suave. Enquantocomia minha refeio simples codorna assadaacompanhada do resto de uma garrafa de vinhotinto que me servira por toda a tarde naquela re-gio onde no havia gua , tive uma sensao

    335/476

  • de conforto que melhores acomodaes e passad-io nem sempre proporcionam.

    Contudo senti que faltava algo. Tinhauma sensao de conforto, mas no de segurana.Flagrei-me olhando para os vos abertos da portae da janela mais vezes do que seria justificvel.Do lado de fora, tudo era negror e eu mal podiareprimir uma sensao de apreenso medidaque minha fantasia preenchia a escurido comentidades hostis, naturais e sobrenaturais. Prin-cipalmente em suas respectivas categorias o urso pardo, que eu sabia que ainda era vistonaquela regio, e o fantasma, que eu tinha razespara acreditar que no o era. Infelizmente, nossossentimentos nem sempre respeitam a lei dasprobabilidades e para mim, naquela noite, o

    336/476

  • possvel e o impossvel eram igualmenteinquietantes.

    Qualquer pessoa que j tenha tido umaexperincia desse tipo sabe que costumamos en-frentar os perigos da noite, reais e imaginrios,com muito menos apreenso num espao abertodo que se estivermos dentro de uma casa, pormsem porta. Era exatamente o que eu sentia, en-quanto, deitado em meu colcho de capim numcanto da sala peito da chamin, via o fogo ir mor-rendo aos poucos. To forte tornou-se a sensaode que havia ali uma presena maligna eameaadora, que logo eu j no conseguia tirar osolhos do vo da porta, embora ele fosse cada vezmenos visvel na escurido que se adensava.Quando a ltima chama bruxuleou, apagando-se,agarrei a espingarda que deixara a meu lado e

    337/476

  • apontei-a na direo do vo agora invisvel, como dedo no gatilho, pronto para atingir o alvo, arespirao suspensa, os msculos rgidos, tensos.Mas acabei por deixar de lado a arma, invadidopor uma sensao de vergonha e mortificao. Oque temia, afinal, e por qu? Eu, para quem anoite sempre fora

    Um rosto mais familiar Do que o doprprio homem...

    Eu, para quem o elemento hereditrio dasuperstio do qual nenhum de ns est com-pletamente livre s fazia dar solido, aoescuro e ao silncio ainda mais charme e um in-teresse ainda mais sedutor. No podia com-preender minha prpria tolice e assim, perdendo,nessa conjectura, aquilo sobre o que conjec-turava, acabei adormecendo. E ento sonhei.

    338/476

  • Estava numa cidade grande de um pasestranho uma cidade na qual as pessoas eramde minha prpria raa, com mnimas diferenasde linguagem e costumes. E, contudo, que lin-guagem e costumes eram esses eu no saberiadizer. Eu os apreendia de forma indistinta. A cid-ade era dominada por um imenso castelo, no altode uma colina cujo nome eu conhecia mas nopoderia dizer. Atravessei vrias ruas, algumaslargas e retas, com prdios altos e modernos, out-ras estreitas, sombrias, tortuosas, por entre asfachadas de casas velhas e estranhas, cujos an-dares superiores, ricamente ornamentados comtrabalhos em madeira e pedra, quase se tocavamacima de minha cabea.

    Eu estava procura de algum quenunca havia visto, mas que sabia ser capaz de

    339/476

  • reconhecer assim que encontrasse. Minha buscano era sem sentido nem fortuita. Seguia ummtodo bem definido. Eu passava de uma rua outra sem hesitao, percorrendo uma srie de in-trincadas passagens, sem qualquer medo de meperder.

    Logo, parei diante de uma porta baixa,numa casa toda de pedra que parecia a moradiade um arteso de alto nvel. E, sem me anunciar,entrei. Apenas duas pessoas estavam na sala, es-parsamente mobiliada, e onde entrava a luz deuma nica janela, com vidros facetados comodiamantes: um homem e uma mulher. No pare-ceram notar minha intruso, circunstncia que, maneira dos sonhos, pareceu-me perfeitamentenatural. No conversavam. Estavam sentadosseparados, taciturnos e imveis.

    340/476

  • A mulher era jovem e resoluta, com ol-hos grandes e uma beleza grave. A lembranaque tenho de sua expresso facial extrema-mente vvida, embora nos sonhos no se observeos detalhes de um rosto. Sobre os ombros, levavaum xale axadrezado. O homem era mais velho,de pele escura, com um rosto malfico tornadoainda mais horrendo por uma imensa cicatriz, quese estendia em diagonal desde perto da tmporaesquerda at o bigode preto. Em meu sonho, a ci-catriz parecia assombrar aquele rosto como sefosse algo parte no saberia como explic-lode outra forma , como se no pertencesse a ele.No instante em que me vi diante daquele homeme daquela mulher, soube que eram casados.

    Do que se seguiu, lembro-me apenas in-distintamente. Tudo parecia confuso,

    341/476

  • inconsistente, como se composto, acho, por mer-os clares de conscincia. Era como se duas cen-as, o cenrio do sonho e a casa onde me abrigara,se tivessem fundido, interpenetrando-se, at que aprimeira foi esmaecendo e desapareceu. E me vicompletamente desperto na cabana abandonada,inteira e tranqilamente consciente de minhasituao.

    Meus tolos temores haviam desapare-cido e, ao abrir os olhos, notei que o fogo, notendo apagado de todo, fora reavivado pela quedade uma tora e voltara a iluminar a sala. Tinha aimpresso de s ter dormido alguns minutos, masmeu sonho, embora comum, por alguma razome impressionara de tal forma que eu perdera osono. Assim, logo levantei-me e, remexendo nastoras da fogueira e acendendo o cachimbo,

    342/476

  • dediquei-me a meditar metodicamente sobre aviso que tivera.

    Eu teria ficado confuso na ocasio seprecisasse explicar por que a viso mereciatamanha ateno de minha parte. Num primeiromomento de reflexo sria, reconheci a cidade dosonho como sendo Edimburgo, onde jamais est-ivera. Assim, se o sonho era memria, era amemria de retratos e descries. Por issomesmo, aquele reconhecimento me impressionoumuito. Era como se algo em minha mente se re-belasse contra a razo e a vontade, a respeito daimportncia de tudo aquilo. E tal faculdade, fosseo que fosse, tambm parecia ter obtido controlesobre minha fala.

    343/476

  • "Claro", disse eu em voz alta, quase semquerer. "Os MacGregors com certeza vieram parac partindo de Edimburgo.

    Naquela hora, nem o significado dessafrase nem o fato de eu a ter pronunciadosurpreenderam-me, minimamente que fosse.Pareceu-me natural que eu soubesse o nome demeus companheiros de sonho e um pouco de suahistria. Mas o absurdo de tudo aquilo de repentedesabou sobre mim: ca na gargalhada e, batendoas cinzas do cachimbo, voltei a deitar-me no col-cho de ramos e capim. Fiquei olhando, distrado,para o fogo que morria, sem pensar mais nem nosonho nem no lugar onde estava. De repente, altima chama estremeceu por um instante eento, espichando-se e libertando-se das brasas,expirou no ar. A escurido era agora absoluta.

    344/476

  • Naquele instante antes mesmo,talvez, que a ltima chama desaparecesse antemeus olhos ouvi um baque surdo, grave, comoo de um corpo pesado caindo ao cho, que es-tremeceu embaixo de mim. Num segundo, sentei-me e procurei pela espingarda. Pensei que al-guma fera tivesse entrado pela janela aberta. En-quanto a estrutura frgil da cabana ainda es-tremecia com o impacto, ouvi o som de pancadas,o arrastar de passos no cho e ento parecendovir de to perto que era como se estivesse ao al-cance de minha mo explodiu o grito deses-perado de uma mulher em agonia mortal. Foi umgrito to terrvel que jamais ouvi ou imagineialgo igual. Aquele grito me destroou os nervos.Por um instante, no tive conscincia de maisnada, exceto de meu mais absoluto terror!

    345/476

  • Felizmente minha mo acabara de achara arma que buscava e aquele toque familiar mefez voltar a mim. De um pulo, fiquei de p, es-treitando os olhos para tentar vencer a escurido.Os sons violentos tinham cessado, mas, pior doque isso, eu ouvia, a intervalos que me pareceramlongos, o sussurrar entrecortado e dbil de al-gum ou alguma coisa que morria!

    Assim que meus olhos se acostumaram luz mnima que emanava das brasas na fogueira,vi primeiro as silhuetas da porta e da janela, maisescuras do que as escuras paredes. Em seguida,pude distinguir a juno entre as paredes e o choe finalmente percebi o assoalho em toda sua ex-tenso, de um lado a outro. No havia nada ali. Eo silncio era completo.

    346/476

  • Com a mo trmula, enquanto a outracontinuava segurando a arma, reavivei o fogo,fazendo em seguida uma cuidadosa inspeo dolugar. No havia qualquer sinal de que algum oualgo tivesse entrado na cabana. Apenas minhasprprias pegadas eram visveis na poeira do cho,mais nada. Reacendi o cachimbo, alimentei ofogo arrancando uma ou duas ripas de madeira dointerior da casa no podia pensar em sair dacabana naquele escuro e passei o restante danoite pensando e fumando, alm de alimentar ofogo. Nem em troca de anos de vida teria eudeixado aquela pequena chama morrer outra vez.

    Anos depois, conheci em Sacramentoum homem de nome Morgan, para quem levarauma carta de apresentao enviada por um amigode So Francisco. Jantando na casa dele certa

    347/476

  • noite, notei que havia vrios "trofus" na parede,dando a entender que ele era um caador. Eramesmo e, ao relatar algumas de suas faanhas,ele me contou que j andara caando na regio deminha aventura.

    "Sr. Morgan", comecei, de repente, "osenhor conhece um lugar daquela regio cha-mado Ravina Macarger?

    "Claro. E tenho boas razes para isso",respondeu ele. "Fui eu quem passou para os jor-nais, no ano passado, as informaes sobre os es-queletos encontrados l.

    Eu no ouvira falar do assunto. Ahistria tinha sido publicada, ao que parece,quando eu estava viajando pelo Leste.

    348/476

  • "Por falar nisso", continuou Morgan, "onome da ravina uma corruptela. Ela deveriachamar-se 'MacGregor'. Querida", disse ele,virando-se para a mulher, "o Sr. Eldersonderramou vinho.

    Fora bem mais do que isso. Eu acabarade derrubar a taa, o vinho, tudo.

    "Havia antigamente uma velha cabanana ravina", recomeou Morgan, quando os cacosdo meu descuido tinham sido retirados, "maspouco antes de eu passar por l ela tinha de-sabado, ou melhor, parecia ter explodido, poisseus destroos estavam espalhados por todos oslados, e at mesmo o cho fora partido, tbua portbua. Entre uma e outra trave do assoalho querestava, eu e meu amigo encontramos os restosde um xale axadrezado e, examinando-o, vimos

    349/476

  • que estava envolvendo os ombros de um corpo demulher, do qual pouco restava alm dos ossos,parcialmente cobertos por fragmentos de roupas epela pele seca e escurecida. Mas vamos poupar aSra. Morgan", acrescentou, com um sorriso.

    A mulher na verdade exibia mais sinaisde nojo do que de compaixo.

    " preciso dizer, porm", continuou,"que o esqueleto tinha vrias fraturas, como setivesse recebido pancadas de um instrumentorombudo. E o instrumento em si, o cabo de umapicareta, ainda manchado de sangue, foi encon-trado sob as tbuas, ali perto." O Sr. Morganvirou-se para a mulher. "Perdo, querida", disse,com uma solenidade afetada, "perdoe-me pormencionar esses detalhes desagradveis, con-seqncias naturais, embora lamentveis, de uma

    350/476

  • briga conjugal. Resultado, com certeza, da insub-ordinao da infeliz mulher,

    "Devo conseguir superar isso", re-spondeu a mulher, com compostura. "Voc j mepediu muitas vezes que o fizesse, com essas mes-mas palavras.

    Achei que ele parecia feliz em podercontinuar sua histria.

    Diante dessa e de outras circunstncias",disse, "os jurados concluram que a mulhermorta, Janet MacGregor, tinha sido assassinada agolpes por alguma pessoa desconhecida. Mas foiacrescentado que as evidncias apontavam paraseu marido, Thomas MacGregor, como oculpado. S que Thomas MacGregor nunca foiencontrado, nem se ouviu mais falar dele. Soube-

    351/476

  • se que o casal tinha vindo de Edimburgo, masno... querida, voc no notou que o pratinho deossos do Sr. Elderson est cheio d'gua?

    Eu acabara de enfiar um osso de galinhadentro da lavanda.

    "Num armrio, encontramos uma foto-grafia de MacGregor, mas nem assim foi possvelcaptur-lo.

    "O senhor me deixaria v-la?",perguntei.

    A fotografia mostrava um homem depele escura, com um rosto maligno e uma longacicatriz que ia de perto da tmpora at junto dobigode preto.

    352/476

  • "Por falar nisso, Sr. Elderson", dissemeu simptico anfitrio, "posso saber o porqude seu interesse pela Ravina Macarger?

    "Certa vez, perdi uma mula naquela re-gio", respondi, "e isso me deixou... me deixoumuito chateado.

    "Querida", disse o Sr. Morgan, com aentonao mecnica de um intrprete traduzindo,"a perda da mula fez com que o Sr. Morgan bo-tasse pimenta no caf.

    353/476

  • O homem saindo do nariz

    Na interseo de duas ruas da regio deSo Francisco que vagamente conhecida pelonome de North Beach, existe um terreno baldio,um pouco mais plano do que costumam ser osterrenos, baldios ou no, naquelas redondezas.Mas logo atrs, na direo sul, o terreno sofreuma sbita inclinao e esse aclive compostode trs plats cortados na rocha porosa. umlugar para cabras e pessoas pobres, sendo quevrias famlias de cada uma dessas categoriastm dividido amistosamente a rea "desde afundao da cidade". Uma das casas pobres doterrao inferior chama ateno pela semelhanagrotesca que tem com um rosto humano, ou, mel-hor dizendo, com um simulacro dele, como, porexemplo, o rosto esculpido por um garoto numa

  • abbora oca, sem querer ser ofensivo para comos garotos. Os olhos so duas janelas circulares, onariz a porta e a boca uma abertura logo abaixo,no local de onde foi retirada uma tbua demadeira. No h degraus. A casa larga demaispara um rosto. E pequena demais para uma habit-ao. O olhar vazio, sem qualquer sentido,daqueles olhos sem plpebras ou sobrancelhas, sobrenatural.

    De vez em quando um homem saidaquele nariz, vira, passa diante do lugar ondedeveria estar a orelha direita e, caminhando porentre a multido de crianas e cabras que ob-struem o passeio estreito entre as casas dos vizin-hos e o limite do plat, ganha a rua, descendo poruma escada bamba. Ali, pra e consulta o relgio.Um estranho que passar por ali naquele instante

    355/476

  • h de se perguntar por que um homem comoaquele se importa em saber as horas. Mas umaobservao mais acurada mostrar que a hora dodia um elemento importante para os movimen-tos desse homem, porque precisamente s duasda tarde que ele aparece, 365 vezes, todos osanos.

    Assim que se certifica de que no se en-ganou quanto ao horrio, ele volta a guardar orelgio e caminha apressado na direo sul, su-bindo a rua por duas quadras e virando direitaat que, aproximando-se da esquina seguinte, fixaos olhos na janela mais alta de uma construo detrs andares do outro lado da rua. uma estruturaencardida, feita originalmente de tijolos vermel-hos e que agora se tornou cinzenta. Traz a marcado tempo e da poeira. Construda para ser uma

    356/476

  • casa, hoje abriga uma fbrica. No sei o que fabricado l. As coisas que geralmente so feitasem fbricas, pelo que imagino. S sei que s duashoras em ponto, todas as tardes, exceto aosdomingos, o lugar est agitado e barulhento. Oprdio sacudido por pulsaes de algum motorgigantesco e ouvem-se os gritos constantes damadeira sendo ferida pelas serras. Na janela ondeo homem fixa seu olhar expectante, nada se v,jamais. O vidro, na verdade, est recoberto poruma tal camada de poeira que h muito deixou deser transparente. O homem olha sem cessar paraaquele ponto. E continua virando-se para olhar,cada vez mais para trs, medida que se afastado prdio. Passando pela prxima esquina, vira esquerda, d a volta no quarteiro e retorna atchegar ao ponto diagonalmente oposto fbrica o ponto por onde passou anteriormente, e que

    357/476

  • voltar a trilhar, olhando sem parar por cima doombro direito para a mesma janela, at que ela seperca de vista. Por muitos anos, nunca se soubeque ele mudasse de rota, nem que introduzissequalquer novidade em suas aes. Em um quartode hora ele est de volta diante da boca de suacasa. E uma mulher, que h algum tempo aguardade p diante do nariz, ajuda-o a entrar. Ele noser visto outra vez at as duas horas da tardeseguinte.

    A mulher sua esposa. Ela se sustenta eao marido lavando roupa para as pessoas pobresda vizinhana, cobrando preos que acabam coma concorrncia chinesa e domstica.

    Esse homem tem 57 anos de idade, em-bora parea muito mais velho. O cabelo com-pletamente branco. Ele no usa barba e est

    358/476

  • sempre bem escanhoado. Suas mos so limpas,as unhas bem-cuidadas. Em matria de roupas, muito mais bem-vestido do que faria supor suaposio social, a julgar pela vizinhana e pelaprofisso da mulher. Chega, na verdade, a vestir-se bem, at mesmo com apuro. Seu chapu deseda no tem mais do que dois anos e suas botas,escrupulosamente engraxadas, no apresentamqualquer remendo. Disseram-me que as roupasque usa em suas excurses dirias de quinzeminutos no so as mesmas que usa em casa.Como tudo o mais que ele tem, as roupas socuidadas pela mulher, sendo renovadas sempreque o magro oramento o permite.

    H trinta anos, John Hardshaw e suamulher viviam em Rincon Hill, em uma das maisluxuosas casas desse que um dia foi um bairro

    359/476

  • aristocrtico. Ele fora mdico, mas, tendo her-dado muitas propriedades do pai, decidiu nomais preocupar-se com os achaques de seussemelhantes, dedicando-se a cuidar apenas deseus prprios negcios. Tanto ele quanto a mulh-er eram pessoas de alto nvel, cuja casa era fre-qentada por um seleto grupo de homens e mul-heres que gente de sua estirpe considera dignosde sua convivncia. Para o grupo, o Sr. e a Sra.Hardshaw eram muito felizes juntos. Ao que tudoindicava, a esposa era devotada ao marido, char-moso e bem-sucedido, alm de se sentir extrema-mente orgulhosa dele.

    Faziam pane do grupo os Barwells marido, mulher e duas crianas de Sacra-mento. O Sr. Barwell era engenheiro civil e deminerao, que por razes profissionais vivia

    360/476

  • viajando, principalmente para So Francisco.Nessas ocasies, a mulher costumava ir com ele,passando boa parte do tempo na casa de sua boaamiga, a Sra. Hardshaw, sempre com as duas cri-anas, das quais a Sra. Hardshaw, que no tinhafilhos, gostava muito. Infelizmente, seu marido, oSr. Hardshaw, tambm passou a gostar muito dame das crianas muito mesmo. E, mais infel-izmente ainda, a atraente Sra. Barwell era maisfraca do que sbia.

    L pelas trs da madrugada de uma noitede outono, o agente nmero 13 da polcia de Sac-ramento viu um homem esgueirando-se pelaporta dos fundos de uma residncia eimediatamente prendeu-o. O homem queusava um chapu desabado e o sobretudo em de-salinho ofereceu ao policial cem dlares, em

    361/476

  • seguida quinhentos e finalmente mil dlares paraque o soltasse. Mas, como tinha em mos menosdo que a primeira soma mencionada, o policialdesdenhou da proposta. Antes de chegarem del-egacia, o prisioneiro props dar ao policial umcheque no valor de dez mil dlares e aguardaralgemado aos salgueiros junto margem do rioenquanto ele fosse descont-lo. Mas, como o res-ultado foi mais zombaria, ficou quieto e no dissemais nada, limitando-se a fornecer um nome queera obviamente falso. Quando foi revistado nadelegacia, nada de valor foi encontrado em seupoder, exceto um retrato em miniatura da Sra.Barwell a mulher em cuja casa ele fora flag-rado. A acusao foi feita e lhe custou caro. E al-guma coisa na qualidade das roupas do pri-sioneiro fez uma onda de arrependimento percor-rer o mago incorruptvel do agente nmero 13.

    362/476

  • Nada havia, nas roupas ou na pessoa, quepudesse identific-lo e, assim, o prisioneiro foifichado como ladro sob o nome que fornecera, ohonrado nome de John K. Smith. Aquele "K"fora uma inspirao de momento, que o deixaraorgulhoso de si prprio.

    Enquanto isso, o desaparecimento mis-terioso de John Hardshaw agitava as fofocas deRincon Hill, em So Francisco, tendo sido atmesmo noticiado em um dos jornais. A mulherque o jornal classificava respeitosamente de"viva no teve a idia de procur-lo na prisode Sacramento cidade que, pelo que sabia, elenunca visitara. E, na pele de John K. Smith, elefoi indiciado e, dispensadas as investigaes,mandado a julgamento.

    363/476

  • Cerca de duas semanas antes do julga-mento, a Sra. Hardshaw ficou sabendo por acasoque seu marido estava preso em Sacramento comum nome falso, sob acusao de roubo. Correupara l, sem ousar comentar o assunto com quemquer que fosse, e apresentou-se na priso,pedindo para falar com o marido, John K. Smith.Plida e louca de ansiedade, usando um agasalhoque a cobria do pescoo aos ps, e com o qualpassara a noite no barco a vapor, angustiada de-mais para conseguir dormir, a Sra. Hardshaw noaparentava o que realmente era. Mas seu aspectoera mais eloqente do que qualquer palavra quepudesse dizer pedindo para entrar. E assimconseguiu v-lo, a ss.

    O que aconteceu durante a desagradvelentrevista, nunca se soube. Mas acontecimentos

    364/476

  • posteriores provaram que Hardshaw conseguiradobrar-lhe a vontade. Ela saiu da cadeia com ocorao despedaado, sem responder a uma spergunta e, voltando para o lar infeliz, reiniciou,sem muita convico, as buscas ao marido. Umasemana depois, ela prpria desapareceria: tinha"ido embora para o interior", era tudo o que sesabia.

    No julgamento, o prisioneiro admitiu aculpa "a conselho do advogado", segundoeste. Contudo, o juiz, em cuja mente circunstn-cias estranhas haviam feito surgir vrias dvidas,insistiu junto ao promotor para que o policialnmero 13 sentasse no banco das testemunhas. Odepoimento da Sra. Barwell que, adoentada, nopde comparecer, foi lido para os jurados. Foibreve: ela nada sabia do assunto, exceto que o

    365/476

  • retrato era sua propriedade e que tinha sido, aoque sabia, deixado sobre a penteadeira quandoela fora se deitar, na noite do roubo. Elamandara-o fazer para dar de presente ao marido,na poca e at ento ausente em viagem de neg-cios Europa para uma companhia de minerao.

    A atitude dessa testemunha ao dar seudepoimento em casa seria depois descrita pelopromotor como muito estranha. Por duas vezesela se recusara a testemunhar e, em outra ocasio,quando faltava apenas sua assinatura no depoi-mento, ela o tomara das mos do escrivo,rasgando-o em pedacinhos. Tambm chamara ascrianas para junto do leito e abraara-as com osolhos cheios d'gua. Em seguida, mandando-asembora do quarto, verificara o depoimento feitosob juramento, assim como a assinatura, e cara

    366/476

  • desmaiada ou "deslizara", segundo o promo-tor. Nessa hora, o mdico dela, entrando noquarto e inteirando-se da situao, agarrara o rep-resentante da lei pelo colarinho e atirara-o portaafora, com o assistente atrs. Sua majestade orepresentante da lei no seria vingado. A vtimade tal indignidade no mencionou sequer uma pa-lavra do ocorrido diante da Corte. Queria muitoganhar a causa e as circunstncias em que se deraaquele depoimento no teriam importncia se re-latadas. Afinal, o homem que estava sendo jul-gado cometera uma ofensa lei um pouco menosabominvel do que a cometida pelo mdicoirascvel.

    Por sugesto do juiz, o jri considerou oprisioneiro culpado. Nada mais havia a fazer eele recebeu uma sentena de trs anos de priso.

    367/476

  • O advogado, que nada objetara nem fizeraqualquer pedido de clemncia na verdade, malabrira a boca , apertou a mo do cliente e saiudo recinto. Ficara bvio para todo o tribunal queele aceitara o caso apenas para evitar que a Corteapontasse outro advogado, e este insistisse emfazer a defesa.

    John Hardshaw cumpriu sua sentenaem San Quentin e, quando libertado, encontrou sua espera na porta da cadeia a mulher, que viera"do interior" para encontr-lo. Parece que forampara a Europa. Seja como for, um advogado, queainda est vivo e que me relatou boa parte dosfatos desta histria recebeu uma procuraoem Paris. Esse advogado vendeu tudo o queHardshaw possua na Califrnia e por muitosanos nada mais se soube do infeliz casal. Apesar

    368/476

  • disso, muitos dos que os conheceram, tendoouvido ecos imprecisos de sua estranha histria,relembravam-nos com carinho e lamentavam porseu infortnio.

    Alguns anos depois, eles voltaram.Alquebrados, em fortuna e em esprito no casodele, tambm na sade. A razo dessa volta nome foi possvel determinar. Por algum tempoviveram, usando o sobrenome Johnson, numbairro razoavelmente respeitvel ao sul da Mar-ket Street, bem afastado. Nunca eram vistos foradas vizinhanas de casa. Com certeza restava-lhes algum dinheiro, pois ao que parece o homemno tinha qualquer ocupao, provavelmente pormotivos de sade. A devoo da mulher ao mar-ido invlido chamava a ateno dos vizinhos.Nunca se afastava dele e estava sempre

    369/476

  • ajudando-o ou encorajando-o. Sentavam-se pormuitas horas num dos bancos de um pequenoparque pblico, onde ela lia para ele, segurando-lhe a mo, por vezes tocando-lhe de leve a faceplida, ou erguendo os olhos ainda belos paraolh-lo e fazer algum comentrio sobre o texto,ou ainda fechando o livro e, para afastar suatristeza, dizendo alguma coisa... O qu? Nuncaningum ouviu o que falavam. O leitor que teveat agora a pacincia de ouvir a histria podefazer suas conjecturas: talvez houvesse algum as-sunto a ser evitado. O fardo daquele homem erade um desalento profundo. Na verdade, os jovensda vizinhana, nada solidrios, com aquelacrueldade que caracteriza os machos de nossa es-pcie, costumavam referir-se a ele como o Fant-asma Babo.

    370/476

  • Mas um dia aconteceu de John Hard-shaw ser tomado pelo esprito da inquietao. SDeus sabe o que o fez ir at onde foi mas o fato que atravessou a Market Street e seguiu em frenterumo ao norte, colinas acima, descendo emseguida em direo regio conhecida comoNorth Beach. Virando esquerda ao acaso,seguiu os prprios ps por uma rua desconhecidaat estar diante do que era ainda naquela pocauma casa enorme, e onde hoje funciona umafbrica medocre. Erguendo os olhos quase semquerer, viu, numa janela aberta, aquilo que talveztivesse sido melhor no ter visto o rosto e afigura de Elvira Barwell. Seus olhos se encon-traram. Com um grito agudo, como o de um ps-saro assustado, a mulher ps-se de p,debruando-se na janela, ambas as mos crispa-das sobre a balaustrada. Com o grito, as pessoas

    371/476

  • que passavam por ali olharam para cima. Hard-shaw estava paralisado, mudo, os olhos comoduas chamas. "Cuidado!", gritou algum da rua,enquanto a mulher pendia mais e mais para afrente, desafiando a implacvel e silenciosa lei dagravidade, da mesma forma como um dia desafi-ara as leis que Deus vociferara do Sinai. O movi-mento brusco fez seus cabelos negros carem om-bro abaixo numa torrente e eles agorachicoteavam-lhe o rosto, quase ocultando-o. Umsegundo se passou e... um grito de medo varreu arua, no instante em que a mulher, perdendo oequilbrio, despencou da janela, rodopiando,numa confusa massa de saias, pernas, cabelos,face plida, que se estatelou no cho com umbarulho horrvel, um impacto ouvido a centenasde metros dali. Por um instante, todos os olhos serecusaram a cumprir seu ofcio e evitaram o

    372/476

  • espetculo terrvel sobre a calada. E, quandopara l afinal se voltaram, o que viram foi um ter-ror ainda maior. Um homem, sem chapu, sen-tado sobre as pedras do pavimento, apertava con-tra o peito o corpo desfeito e sangrento, beijando-lhe por entre os cabelos midos as faces e os l-bios destroados, ele prprio uma s ndoa ver-melha, do sangue que quase o sufocava, escor-rendo como um rio da barba encharcada.

    O trabalho do reprter est quase ter-minado. Os Barwells tinham voltado, naquelamesma manh, de uma temporada de dois anosno Peru. Uma semana depois, o vivo, dupla-mente enlutado, j que a horrvel cena de Hard-shaw no deixara margem a qualquer dvida, via-jou para algum porto distante. No sei qual, ssei que ele nunca mais voltou. Hardshaw no

    373/476

  • mais sob o nome de Johnson passou um anono asilo de loucos de Stockton, para onde, graas influncia de amigos piedosos, sua mulher tam-bm foi, a fim de cuidar dele. Quando ele saiu del, no curado, mas inofensivo, o casal voltou cidade, que parecia exercer sobre eles umfascnio sobrenatural. Por um tempo, viveramperto de Mission Dolores, em pobreza abjeta,embora menor do que a do lugar onde vivemagora. Mas l era longe demais do ponto paraonde o homem seguia todos os dias em peregrin-ao. E eles no tinham dinheiro para a con-duo. Sendo assim, aquele infeliz anjo doParaso a mulher do luntico condenado conseguiu, por um preo razovel, alugar a casade olhar vazio no terrao inferior de Goat Hill.Dali, at o prdio que um dia foi uma casa e hojeabriga uma fbrica, a distncia no muito

    374/476

  • grande. na verdade um passeio agradvel, a jul-gar pelo olhar ansioso e feliz do homem enquantocaminha. A jornada de volta parece um poucomais cansativa.

    375/476

  • A morte de Halpin Frayser

    I

    Porque atravs da morte forja-se umatransformao muito maior do que foi mostrada.Se em geral o esprito desaparecido volta numdeterminado momento, sendo s vezes visto emcarne e osso (com a aparncia do corpo que teveem vida), j ocorreu tambm de surgir o ver-dadeiro corpo sem o esprito. E, segundo os quecom isso se defrontaram e que sobreviverampara fazer seu relato, tal fantasma no possuiafeio ou memria, mas apenas dio. Sabe-se,tambm, que alguns espritos que em vida forambenignos tornam-se, atravs da morte, totalmentemalficos. Hali.

  • Numa noite escura de vero, um homemnuma floresta, acordando de um sono sem son-hos, ergueu a cabea da terra e, depois de mirar aescurido por um instante, disse: "CatherineLarue." Nada mais falou e desconhecia a razopela qual havia dito aquilo.

    Esse homem era Halpin Frayser. Viviaem Santa Helena, mas no se sabe onde viveagora, pois est morto. Quem cultiva o hbito dedormir no meio da floresta, deitado apenas sobreas folhas mortas e a terra mida, tendo por tetosomente os galhos de onde caram as folhas e ocu de onde caiu a terra, no pode esperar teruma vida longa, e Frayser j completara 32 anos.H pessoas neste mundo, milhes delas, esemdvida as melhores, para as quais essa j umaidade muito avanada. Falo das crianas. Para

    377/476

  • aqueles que encaram a viagem da vida desde oporto de partida, o barco que alcanou uma dis-tncia considervel parece j aproximar-se damargem mais distante. Contudo no se sabe aocerto se a morte de Halpin Frayser foi provocadapor exposio.

    Ele passara o dia todo nas montanhas aoeste de Napa Valley, caando pombos e des-frutando de outros pequenos prazeres tpicos datemporada. No fim da tarde o cu ficara nubladoe ele se desorientara. Embora tivesse apenas quedescer a montanha sempre o caminho seguropara quem esta perdido , a falta de trilhas o at-rapalhara de tal forma que a noite findara porsurpreend-lo em plena floresta. Vendo que eraimpossvel, no escuro, vencer as densas manzan-itas e outras formas de vegetao rasteira,

    378/476

  • Frayser, completamente atordoado e vencido pelocansao, tinha acabado por deitar-se junto raizde um enorme madroo e mergulhado num sonoprofundo. Horas depois, no meio da noit, umdos estranhos mensageiros de Deus, deslizando frente de seus inmerc companheiros que desa-pareciam rumo a oeste na linha do horizonte, pro-nunciara no ouvido do homem adormecido as pa-lavras que iriam acord-lo, fazendo com que sesentassee dissesse, sem entender por qu, umnome, sem saber a quem pertencia.

    Halpin Frayser no era exatamente umfilsofo, nem um cientista. O fato de, acordandode um sono pesado, no meio de uma floresta noite, ter dito em voz alta um nome do qual nose lembrava, e que talvez nem conhecesse, nochegara a despertar sua curiosidade a ponto de

    379/476

  • querer investigar o fenmeno. Achou aquilo es-tranho, mas, sacudindo os ombros com desdm,quase como em deferncia crena de que,naquela poca, as noites eram frias, deitou-seoutra vez e voltou a dormir. S que dessa vez seusono no foi sem sonhos.

    Pensou estar caminhando ao longo deuma estrada poeirenta, trilha esbranquiada emmeio densa escurido da noite estival. De ondevinha e aonde ia dar a estrada no saberia dizer,nem por que motivo a trilhava, embora tudo pare-cesse simples e natural, como acontece nos son-hos. Porque na Terra Onrica as surpresas j nonos assustam e todo tipo de julgamento desa-parece. Logo chegou a uma bifurcao. Partindoda estrada, havia um caminho menos utilizado,com a aparncia de estar abandonado h muitos

    380/476

  • anos talvez, pensou ele, porque levasse a al-guma coisa malfica. E, mesmo assim, foi esse ocaminho que escolheu sem hesitar, levado poruma necessidade imperiosa.

    medida que se embrenhava pelo cam-inho, percebeu que a trilha era assombrada porseres invisveis, os quais Frayser era incapaz devisualizar mentalmente. Por entre as rvores, deum lado e outro, ouvia sussurros incoerentesnuma lngua estranha, que compreendia apenasem parte. Mas que lhe pareciam os fragmentos deuma conspirao monstruosa contra seu corpo esua alma.

    Era noite fechada, mas a floresta inter-minvel que atravessava era iluminada por umaluz difusa, de fonte indefinida, uma iluminaoestranha que no produzia sombras. Seu olhar se

    381/476

  • fixou numa poa rasa, formada por entre os sul-cos de velhas rodas, como se produzida por umachuva recente, e que exibia um brilho avermel-hado. Parou e nela molhou a mo. As pontas deseus dedos ficaram escuras. Era sangue! Esangue, agora percebia, era o que havia por todaparte sua volta. As ervas daninhas que cresciam beira do caminho tinham as folhas, largas egradas, manchadas e respingadas. A poeira as-sentada entre as marcas de rodas estava enchar-cada como se banhada por uma chuva vermelha.E os troncos das rvores traziam imensas marcascor de carmim, enquanto das folhas o sanguepingava como se fosse orvalho.

    A tudo observou com um terror que lhepareceu compatvel com o que seria natural.Parecia-lhe que tudo ali era em expiao a um

    382/476

  • crime que cometera e do qual, embora conscientede ser o culpado, no podia lembrar-se. E essaconscincia era um horror a mais, que se somavas ameaas e aos mistrios que o circundavam.Em vo tentou vasculhar o passado na memria,buscando reproduzir o momento de seu pecado.Cenas e incidentes se misturavam de forma cat-ica em sua mente, apagando-se umas s outras oumesclando-se em confuso e obscuridade, masem nenhum ponto pde Frayser vislumbrar o queprocurava. Isso aumentou seu terror. Sentia comose tivesse cometido um assassinato no escuro,sem saber quem matara nem por qu. Tudo eraapavorante a luz misteriosa que emanavacomo uma ameaa silenciosa e terrvel; a veget-ao daninha, as rvores que, de comum acordo,pareciam investidas de um carter melanclico emalfazejo, conspirando abertamente com o fito

    383/476

  • de perturb-lo; os sussurros que o cercavam, tontidos, aterradores, e a viso de criaturas quecom certeza no eram deste mundo a tal pontoque ele j no pde suportar e, num esforo su-premo para quebrar o encanto maligno que omantinha imvel e silente, gritou com toda afora de seus pulmes! Sua voz lhe pareceupartida em uma infinitude de sons irreconhecveise ecoou pela floresta afora, morrendo no silncio,at que tudo voltou a ser como antes. Mas aquilofora um comeo e ele se sentia encorajado. Disse:

    "No vou me submeter sem gritar.Talvez haja poderes no malignos caminhandopor esta trilha maldita. Para eles deixarei um re-gistro e um apelo. Relatarei meus erros, asperseguies que enfrento eu, um simplesmortal, um penitente, um poeta inofensivo!"

    384/476

  • Halpin Frayser era um poeta tanto quanto era umpenitente: apenas em sonho.

    Tirando do bolso um pequeno livro decouro vermelho, metade do qual reservava parasuas anotaes, descobriu que no tinha lpis.Quebrou um graveto de um arbusto, mergulhou-ona poa de sangue e, depressa, ps-se a escrever.Mal acabara de tocar o papel com a ponta dograveto quando ouviu, a distncia, uma gar-galhada surda, que ecoou furiosa, em seguidacrescendo como se chegasse cada vez mais perto.Era uma risada fria, desalmada, desprovida dealegria, como o riso de um vagabundo solitrio beira de um lago, em meio noite. E a gar-galhada culminou com um grito sobrenatural,agora bem prximo, que foi morrendo aos poucosem lentas gradaes, como se o ser maldito que o

    385/476

  • houvesse proferido tivesse retornado ao fim domundo de onde proviera. E, no entanto, o homemsabia que no era assim sentia como se apresena continuasse ali.

    Uma estranha sensao foi aos poucostomando conta de seu corpo e de sua mente. Nosaberia dizer qual, se algum, de seus sentidos eraafetado por ela. Era mais como se tomasse con-scincia, como se sua mente se certificassedaquela presena avassaladora, algo maligno,sobrenatural diverso das existncias invisveisque o circundavam, e superior a elas em poder.Sabia que fora ela quem soltara a gargalhadamedonha. E agora parecia aproximar-se. Nosabia de que direo vinha nem ousavaimagin-lo. Todos os seus medos passados es-tavam esquecidos, fundidos no terror gigantesco

    386/476

  • que o mantinha paralisado. Afora isso, tinhaapenas um pensamento: completar o apelo quefaria por escrito, dirigido aos poderes benignosque, acaso atravessando a floresta mal-assom-brada, poderiam um dia resgat-lo, se a ele fossenegada a bno do aniquilamento. Escreveu omais depressa que pde, o graveto em suas mosvertendo sangue sem que precisasse voltar amolh-lo. Mas no meio de uma frase as mos serecusaram a continuar, seus braos caram aolongo do corpo e o livro foi ao cho. Foi quando,incapaz de mover-se ou gritar, viu-se diante dorosto severo, dos olhos mortos e vazios de suaprpria me, ali de p, plida e silenciosa, tra-jando as roupas do tmulo!

    II

    387/476

  • Quando jovem, Halpin Frayser viviacom os pais em Nashville, no Tennessee. OsFraysers eram ricos, com uma boa posio na so-ciedade, ou no que restara desta aps a GuerraCivil. Seus filhos tiveram as oportunidades soci-ais e de educao comuns sua regio e suapoca, tendo retribudo com maneiras agradveise mentes cultas. Halpin era o caula e, por noser muito forte, talvez fosse um pouco mimado.Tinha a dupla desvantagem de contar com apresena excessiva da me e a negligncia do pai.O pai era aquilo que, no Sul, nenhum homem deposses : um poltico. Seu pas, ou melhor, suaregio e seu estado exigiam dele tempo eateno, de forma que para a famlia ele reser-vava apenas um ouvido parcialmente surdo pelobarulho dos lderes polticos e pela gritaria geral,inclusive a sua prpria.

    388/476

  • O jovem Halpin era sonhador, indolentee meio romntico, mais afeito literatura do queao Direito, profisso para a qual fora criado.Entre aqueles de suas relaes que professavam af moderna na hereditariedade, era largamente re-conhecido que, em Halpin, o carter do falecidoMyron Bayne, seu bisav materno, reencontraraos vislumbres do luar os mesmos que em vidatinham afetado Bayne o suficiente para que ele setornasse um poeta colonial de grande reputao.Era raro o Frayser que no possusse uma cpiasuntuosa das "obras poticas" de seu ancestral(impressas com dinheiro da famlia e h muito re-tiradas do mercado inspito). Por isso, eranotvel, embora no fosse notado, que ningumparecesse disposto a honrar o falecido na pessoade seu sucessor espiritual. Na verdade, ele era emgeral visto como a ovelha negra intelectual, capaz

    389/476

  • de a qualquer momento desgraar o rebanho aobalir em versos. Os Fraysers do Tennessee eramgente muito prtica no no sentido popular dedevoo a propsitos srdidos, mas no sentido dedesprezar rotundamente qualquer qualidadecapaz de inadequar um homem para a saudvelvocao poltica.

    Para fazer justia ao jovem Halpin, preciso dizer que embora reproduzisse fielmentea maioria das caractersticas mentais e morais at-ribudas pela histria e pela tradio familiar aofamoso bardo do perodo colonial, sua herana dotalento e da faculdade divina era apenas deduz-ida. No s jamais se ouvira falar que ele tivessecortejado as musas, como na verdade teria sidoincapaz de escrever corretamente um nico versopara se salvar do Assassino dos Sbios. Contudo,

    390/476

  • ningum sabia se algum dia o dom adormecidono acordaria e tomaria a lira nas mos.

    Enquanto isso no acontecia, o jovemvivia como um peixe solto. Entre ele e sua me aharmonia era perfeita, porque secretamente elaprpria era uma discpula devota do grande fale-cido Myron Bayne, embora, com o tato to justa-mente admirado em seu sexo (apesar dos duroscaluniadores para os quais isso nada mais queum ardil), ela escondesse essa sua fraqueza dosolhos de todos, exceto dele, que compartilhavasua admirao. A culpa comum em relao a issoera um fator a mais de unio entre eles. Se, dur-ante a juventude de Halpin, sua me o estragara,ele tambm fizera sua parte para ser estragado. medida que crescia e se tornava um homem, se-gundo os padres de um sulista que no d a

    391/476

  • mnima para o resultado das eleies, os laosentre ele e sua bela me a qual desde crianase acostumou a chamar de Katy tornaram-se acada ano mais fortes e mais ternos.

    Nessas duas naturezas romnticas estavaclaro, embora apenas sinalizado, o domnio doelemento sexual em todas as relaes da vida,fortalecendo, suavizando e embelezando mesmoas de consanginidade. Os dois eram quase in-separveis e, se observados por estranhos, muitasvezes eram tomados por dois amantes.

    Um dia, entrando no quarto da me,Halpin Frayser beijou-a na testa, brincou por uminstante com um cacho de cabelos negros que lheescapava dos grampos repressores, e disse, tent-ando a todo custo soar natural:

    392/476

  • "Voc se importaria, Katy, se eu fossechamado Califrnia por algumas semanas?

    Dificilmente Katy precisaria respondercom palavras pergunta para a qual a cor de suasfaces j era uma resposta instantnea. Evidente-mente que ela se importaria, e muito; e as lgrim-as, tambm, encheram seus grandes olhos castan-hos como um testemunho que isso confirmava.

    "Ah, meu filho", disse, olhando-o nosolhos com infinita ternura, "eu deveria ter ima-ginado que isso aconteceria. Passei metade danoite acordada chorando porque o av Bayneveio at mim em sonho e, de p, junto ao prprioretrato jovem, tambm, e to atraente ,apontou para o seu retrato na mesma parede. E,quando olhei, no pude distinguir os traos. Voctinha sido pintado com um pano sobre o rosto,

    393/476

  • como se usa nos mortos. Seu pai riu de mim, masns dois, eu e voc, querido, sabemos que essascoisas no acontecem em vo. E, sob o pano querecobria seu rosto, eu vi marcas de mos em suagarganta perdoe-me, mas no costumamosesconder essas coisas um do outro. Talvez vocpossa fazer outra interpretao. Talvez no signi-fique que voc v para a Califrnia. Ou quemsabe no poderia me levar junto?

    preciso dizer que essa interpretaoengenhosa do sonho luz da evidncia queacabara de ser descoberta no teve muito eco namente mais lgica do filho. Halpin tinha, pelomenos naquele momento, a convico de que elaprenunciava um desastre mais simples e maisimediato, embora menos trgico, que uma visita Costa do Pacfico. Halpin Frayser tinha a

    394/476

  • sensao de que se ficasse ali que acabariaestrangulado.

    "No existem guas medicinais na Cali-frnia?", recomeou a Sra. Frayser assim queHalpin teve tempo de lhe fazer a verdadeira inter-pretao do sonho. "Lugares onde as pessoas securam de reumatismos e neuralgias? Olhe meus dedos esto to enrijecidos; e estou quasecerta de que eles estavam doendo muito enquantoeu dormia.

    Estendeu as mos para que ele as exam-inasse. Que diagnstico o jovem achou adequadoconciliar com um sorriso, este narrador nosaberia dizer, mas, por sua prpria conta, ele sesente inclinado a comentar que dificilmente de-dos menos rgidos e com menos sinais de dor, pormnimos que fossem, teriam sido expostos a um

    395/476

  • exame mdico, nem mesmo pelo paciente maishonesto que desejasse uma prescrio de novosares.

    O resultado foi que dessas duas pessoasestranhas, tendo igualmente estranhas noes dedever, uma foi para a Califrnia, como era do in-teresse de seu cliente, e a outra ficou em casa,para atender ao desejo que o marido mal tinhaconscincia de alimentar.

    Quando estava em So Francisco, numanoite escura, Halpin Frayser caminhava ao longoda orla da cidade quando, de forma to repentinaque o surpreendeu e desconcertou, tornou-semarinheiro. Na verdade, foi embarcado foranum esplndido navio, zarpando rumo a um pasdistante. Mas seu infortnio no se resumiu viagem; porque o navio foi atirado costa de

    396/476

  • uma ilha do Pacfico Sul e seis anos se passaramantes que os sobreviventes fossem recolhidos poruma arrojada escuna comercial e levados de voltaa So Francisco.

    Embora sem um tosto, Frayser con-tinuava com o mesmo esprito orgulhoso daqueletempo que agora lhe parecia to distante. Noaceitaria ajuda de estranhos. E foi justamentequando aguardava notcias e dinheiro de casa,morando com outro sobrevivente perto da cidadede Santa Helena, que decidira sair para caar esonhar.

    III

    Na floresta assombrada, a apario di-ante do homem que sonhava to parecida econtudo to diversa de sua me era horrenda!

    397/476

  • De seu corao no emanava nem amor nemdesejo; parecia insatisfeita com as memrias fel-izes de doces tempos e incapaz de inspirarsentimentos de qualquer espcie. Algumaemoo mais nobre fora engolfada pelo medo.Frayser tentou virar-se e correr para longe dali,mas suas pernas pareciam feitas de chumbo. Nopodia sequer erguer os ps do cho. Os braoscontinuavam inertes, largados ao longo do corpo.Tinha controle apenas dos olhos, os quais noousava desviar das rbitas opacas da aparioque, ele sabia, no era uma alma sem corpo, masa mais terrvel de todas as existncias que infest-avam a floresta assombrada um corpo semalma! Em seu olhar vazio no havia nem amor,nem piedade, nem compreenso nada a queFrayser pudesse apelar por clemncia. "No hmentira numa apelao", pensou ele, numa

    398/476

  • absurda referncia ao jargo profissional e pior-ando ainda mais a situao, j que o fogo de umcharuto incapaz de iluminar um tmulo.

    Por um tempo, que pareceu to longo aponto de tornar o mundo cinza de velhice epecado e em que a floresta assombrada, tendocumprido seu propsito com o clmax monstru-oso de seus terrores, desapareceu de sua con-scincia com todos os cenrios e sons , a apar-io continuou frente de Frayser, olhando-ocom a malignidade inconsciente de um serselvagem. E ento estendeu as mos e lanou-ascontra ele com uma ferocidade espantosa. A aoliberou a energia fsica de Frayser, embora suavontade continuasse algemada; a mente estavaenfeitiada, mas o corpo poderoso e os membrosgeis, como se movidos por uma fora cega e

    399/476

  • insensata, resistiram com firmeza e bravura. Porum instante, ele pareceu ver essa luta bizarraentre uma inteligncia morta e um corpomecnico apenas como se fosse um espectador essas coisas estranhas que acontecem nos son-hos. Mas logo retomou sua identidade como seseu corpo tivesse sido golpeado, e o autmato emluta voltou a ter vontade, to alerta e firmequanto sua hedionda antagonista.

    Mas que mortal pode enfrentar uma cri-atura de seus sonhos? A imaginao que cria oinimigo j est vencida. O resultado do combate a causa do combate. Apesar de sua luta apesar de todo movimento e toda fora, quepareciam perder-se no vazio , Frayser sentiu osdedos gelados se fecharem em torno de sua gar-ganta. Lanado ao cho de costas, viu diante de si

    400/476

  • o rosto morto e anguloso, a um palmo do seu, eento foi tudo escurido. Um som como oretumbar distante de tambores um murmriode vozes emaranhadas, um grito agudo, longn-quo, que fez tudo o mais se calar, e HalpinFrayser sonhou que estava morto.

    IV

    noite clara e morna seguiu-se umamanh de nvoa mida. Na tarde do dia anterioruma leve concentrao de vapor um meroadensar-se da atmosfera, como o fantasma deuma nuvem fora vista sobre o lado oeste doMonte Santa Helena, l no alto, perto do cume.Era to tnue, to difana, to semelhante a umafantasia tornada visvel, que se podia dizer:"Olhe, rpido, pois num segundo vaidesaparecer.

    401/476

  • Mas num segundo j estava visivel-mente maior e mais densa. Enquanto uma de suasextremidades se colava montanha, a outra se es-tendia mais e mais pelo ar afora, acima dos picosmais baixos. Ao mesmo tempo, estendia-se paranorte e sul, fundindo-se a pequenos fios de brumaque pareciam surgir da encosta exatamente namesma altura, como se quisessem, deliberada-mente, ser absorvidos. E assim foi crescendo ecrescendo at que o cume estava encoberto e jno se podia v-lo do vale, e sobre o prprio valese criava um dossel, cinza e opaco, estendendo-se, interminvel. Em Calistoga, que fica na pontado vale e no sop da montanha, a noite foi semestrelas e a manh seguinte sem sol. A nvoa,descendo sobre o vale, chegara ao sul, engolindorancho aps rancho, at apagar completamente acidade de Santa Helena, a quase quinze

    402/476

  • quilmetros de distncia. A poeira nas estradasestava assentada; as rvores transpiravam umid-ade; os pssaros jaziam silenciosos em seusesconderijos; a luz da manh era fraca e emba-ciada, sem cor ou fulgor.

    Dois homens saram de Santa Helena aoamanhecer e caminharam rumo ao norte pela es-trada que cortava o vale em direo a Calistoga.Levavam armas aos ombros, mas ningum comum mnimo conhecimento das coisas poderiaconfundi-los com caadores de pssaros ou feras.Eram o subxerife de Napa e um detetive de SoFrancisco Holker e Jaralson, respectivamente.E o que eles caavam era um homem.

    " muito longe?", perguntou Holker, en-quanto caminhavam, seus ps revolvendo a

    403/476

  • poeira clara do cho, assentada sob a superfciemida da estrada.

    "A Igreja Branca? Falta menos de umquilmetro", respondeu o outro. "Por falar nisso",acrescentou, "ela no branca nem igreja; uma escola abandonada, que ficou cinzenta develhice e descaso. Houve tempo em que serezava l no tempo em que ela era branca,com um pequeno cemitrio que encantaria umpoeta. Agora entendeu por que mandei chamarvoc e pedi que viesse armado?

    "Ah, eu nunca o aborreci com essascoisas. Sempre achei que voc dizia as coisas nashoras certas. Mas, por falar nisso, afinal voc mechamou para qu, foi para prender um dosdefuntos?

    404/476

  • "Voc se lembra do Branscom?", disseJaralson, sem ligar para o tom debochado docompanheiro.

    "O cara que cortou a garganta da mulh-er? Claro. Perdi uma semana de trabalho com elee ainda paguei as despesas. Tem uma recompensade quinhentos dlares, mas at agora ningumconseguiu descobrir onde est. No v me dizerque...

    "Vou. Ele estava debaixo do nariz de vo-cs o tempo todo. noite, aparece no velhocemitrio da Igreja Branca.

    "Que bandido! Foi l que ele enterrou amulher.

    405/476

  • "Bem, vocs deveriam ter imaginadoque ele acabaria voltando ao cemitrio em algummomento.

    " o ltimo lugar do mundo para ondese podia imaginar que voltaria.

    "Mas vocs procuraram por todos osoutros lugares. Sabendo do insucesso de vocs,fui procur-lo l.

    "E encontrou?

    "O cretino! Ele que me encontrou. Obandido me pegou para dizer a verdade, melevantou e me jogou longe. Foi mesmo pela graadivina que no me matou. , ele um daqueles, eacho que me satisfao com a metade da recom-pensa se voc estiver precisando de dinheiro.

    406/476

  • Holker riu, bem-humorado, dizendo queseus credores nunca o tinham perseguido tanto.

    "S queria mostrar a voc o lugar, paratraarmos um plano", explicou o detetive. "Masachei que era bom vir armado, mesmo de dia.

    "Ele deve ser louco", disse o subxerife."A recompensa pela captura e condenao. Masse ele louco no pode ser condenado.

    Holker sentiu-se to profundamenteafetado pela possibilidade de no se fazer justiaque estancou no meio da estrada sem querer, re-comeando depois a caminhar com menosentusiasmo.

    "Bem, ele parece mesmo maluco", con-cordou Jaralson. "Tenho de admitir que nunca vi

    407/476

  • um sujeito to desgrenhado, malcuidado, mal-barbeado, mal tudo, fora da velha e honorvel or-dem dos vagabundos. Mas estou atrs dele e novou deix-lo escapar. De qualquer forma, umaglria para ns. Ningum mais sabe que ele estdeste lado das Montanhas da Lua.

    "Est certo", concordou Holker, "vamosat l dar uma olhada no lugar", e acrescentou,usando as palavras que costumam ser inscritasnos tmulos: "'onde em breve descansars' quero dizer, se o velho Branscom se cansar devoc e de sua intruso impertinente. Por falarnisso, ouvi falar outro dia que 'Branscom' no onome verdadeiro dele.

    "E qual ?

    408/476

  • "No lembro. No estava muito ligadono assunto e acabei no gravando mas achoque alguma coisa como Pardee. A mulher cujagarganta ele teve o mau gosto de cortar era vivaquando o conheceu. Tinha vindo para a Califr-nia atrs de uns parentes tem gente que fazisso s vezes. Mas essa parte voc sabe.

    "Claro.

    "Mas, se voc no sabia o nome ver-dadeiro, como foi que encontrou o tmulo certo?O homem que me contou sobre o nome ver-dadeiro disse que ele tinha sido cortado nalpide.

    "Eu no sei qual o tmulo." Jaralsonparecia um pouco relutante em admitir sua ig-norncia de uma parte to importante do plano.

    409/476

  • "Tenho vigiado o lugar de maneira geral. Uma denossas tarefas esta manh tentar descobrir otmulo certo. L est a Igreja Branca.

    Por um longo trecho a estrada vinhasendo ladeada por campos, mas agora, es-querda, havia uma floresta de carvalhos, mad-roos e abetos gigantescos, cuja parte de baixomal podia ser divisada, apagada e fantasmagricaem meio nvoa. A vegetao rasteira era, emalguns pontos, fechada, mas no impenetrvel.Por um instante, Holker no conseguiu enxergara construo, mas assim que entraram no bosqueela surgiu, sua silhueta apagada e cinzenta emmeio bruma, parecendo gigantesca e longnqua.Mais uns passos c ela estava a pouca distncia,bem definida, escura de umidade, e de tamanhoinsignificante. Tinha o formato tpico dos

    410/476

  • colgios rurais pertencendo escola ar-quitetnica da "caixa-de-sapato". Tinha a base depedra, um telhado coberto de musgo e espaosvazios no lugar das janelas, onde j no haviavidros ou caixilhos. Estava decadente, mas noem runas uma tpica representante na Califr-nia do que os guias tursticos impressos definemcomo "monumentos ao passado". Depois de umaolhada desinteressada na construo, Jaralsonembrenhou-se na vegetao mida e seguiu emfrente.

    "Vou lhe mostrar onde foi que ele mepegou", disse. " aqui o cemitrio.

    Por entre os arbustos havia pequenos es-paos contendo tmulos, s vezes apenas um.Dava para perceber que eram tmulos por causadas pedras descoradas ou lpides desfeitas,

    411/476

  • colocadas aos ps ou na cabeceira das covas, in-clinadas nos mais diversos ngulos, algumas ca-das. Ou por causa das cercas de estacas em tornodeles. Ou, mais raramente, por causa do prpriomonte de terra, exibindo suas pedras em meio sfolhas secas. Em vrios casos, nada havia quemarcasse o local onde jaziam os vestgios de al-gum pobre mortal aquele que, tendo deixado"inmeros amigos sensibilizados", em troca foralargado por eles a no ser por uma depressona terra, mais duradoura que aquela deixada noesprito dos enlutados. As alias, se alias havia,estavam todas tomadas. rvores de grande portetinham podido crescer sobre os tmulos, empur-rando as cercas com seus galhos e razes. Portoda parte pairava um ar de abandono e decom-posio, que em nenhum lugar mais apropriado

    412/476

  • e significativo do que num reduto onde os mortosforam esquecidos.

    Quando os dois homens abriam caminhoatravs das rvores menores, Jaralson de guia,este parou de repente e ergueu a arma, soltandoum rudo de alerta e ficando imvel, os olhosfixos frente. Na medida do possvel, com aviso obstruda pelos arbustos, seu companheiro,embora nada visse, fez o mesmo e ali ficou, pre-parado para o que pudesse acontecer. LogoJaralson recomeava a andar, cauteloso, e o outroseguiu-o.

    Sob os galhos de um imenso abeto jaziao corpo de um homem. De p, diante dele, osdois observaram os detalhes que primeirochamam a ateno o rosto, a posio, a roupa.Fossem quais fossem as respostas imediatas e

    413/476

  • completas, ali estava a pergunta no formuladade uma curiosidade solidria.

    O corpo jazia de costas, com as pernasafastadas. Um brao jogado para cima, o outroaberto para o lado; mas este ltimo se mostravadobrado num ngulo agudo e a mo estava pertoda garganta. Ambas as mos estavam crispadas.Toda a atitude denunciava uma resistncia deses-perada, embora intil, contra o qu?

    Junto ao corpo havia uma espingarda eum saco de caa cuja trama deixava entrever aplumagem de pssaros mortos. Tudo em voltaevidenciava uma luta feroz. Brotos decarvalho venenoso estavam quebrados, semcasca ou folhas. Folhas secas e rasgadas tinhamsido empurradas formando montes do lado decada uma das pernas pela ao de outros ps que

    414/476

  • no os dele. E junto aos quadris havia visveismarcas de joelhos humanos.

    A natureza da luta tornava-se evidentecom um nico olhar ao rosto e garganta dohomem morto. Peito e mos estavam brancos,mas aqueles eram de cor prpura quasenegros. Os ombros jaziam sobre um monte deterra, e a cabea estava virada para trs num n-gulo de outra forma impossvel, os olhos ar-regalados mirando o vazio na direo oposta dos ps. Da boca aberta e espumosa saa a lngua,inchada e escura. A garganta exibia contuseshorrveis; no simples marcas de dedos, mas feri-das e laceraes provocadas por duas mos fortesque pareciam ter-se enfiado na carne que gritava,mantendo-se ali at muito depois da morte. Peito,garganta, rosto estavam molhados. A roupa

    415/476

  • encharcada. Gotas de gua, condensada da nvoa,saturavam o cabelo e o bigode.

    Tudo isso os dois homens observaramsem nada dizer quase que num nico olhar. Eento Holker falou:

    "Pobre-diabo! A coisa foi dura.

    Jaralson examinava cuidadosamente afloresta em torno, segurando a arma engatilhadacom as duas mos e com o dedo no gatilho.

    "Isso coisa de um manaco", disse, semtirar os olhos da floresta. "Foi obra do Branscom-Pardee.

    Alguma coisa oculta em meio s folhasrevolvidas prendeu a ateno de Holker. Era umcaderno de bolso, de couro vermelho. Holker

    416/476

  • pegou-o e abriu-o. Tinha vrias pginas embranco para anotaes e, na primeira folha, umnome, "Halpin Frayser". Escritas em tinta ver-melha, ocupando vrias folhas como se rabis-cadas s pressas e quase ilegveis estavam asseguintes linhas, que Holker leu em voz alta, en-quanto seu companheiro continuava a perscrutaros confins cinzentos do mundo estreito que oscercava, sobressaltando-se com cada gota d'guaque caa dos galhos encharcados:

    Nas garras de estranho fascnio, lestava

    Em meio penumbra de uma florestaassombrada.

    Ali, mirta e ciprestes de galhosentrelaados

    417/476

  • Eram o smbolo de uma malignairmandade.

    Soturnos salgueiros sussurravam aosteixos;

    E, alm, s pesar e a noite profunda,

    Onde os ramos das perptuas ganhavam

    Formas funreas, em meio s ervasdaninhas.

    Nem canto nem pssaro nem o zoar dasabelhas,

    Nem folha pela doce brisa carregada:

    No ar estagnado, o Silncio era um serVivo,

    418/476

  • cujo hlito as rvores bafejava.

    Espritos conspiradores moviam-se napenumbra,

    Sussurrando uns aos outros os segredosda tumba.

    Nas rvores encharcadas de sangue, asfolhas

    Cintilavam vermelhas, sob a luzassombrada.

    Gritei! mas o encanto sobre mim semanteve

    Dono de meu esprito e de minhavontade

    419/476

  • Sem alma ou alento, desesperanado,

    Eu seguia lutando, com os piorespressgios.

    At que o invisvel...

    Holker parou; nada mais havia para ler.O manuscrito acabava assim, no meio de umalinha.

    "Parece o estilo de Bayne", disseJaralson, que era um erudito, sua maneira.Tinha baixado a guarda e estava agora observ-ando o corpo.

    "Quem Bayne?", perguntou Holker,sem muito interesse.

    420/476

  • "Myron Bayne, um camarada que surgiunos primrdios do pas mais de um sculo at-rs. Escrevia umas coisas lgubres. Tenho asobras completas dele. Mas esse poema no estincludo, deve ter sido omitido por engano.

    "Est frio", disse Holker, "vamos dar ofora daqui. Precisamos falar com o coronel emNapa.

    Jaralson no respondeu, mas concordouem silncio. Passando pelo extremo da pequenaelevao sobre a qual jaziam a cabea e os om-bros do morto, seu p bateu em alguma coisadura em meio s folhas decompostas da floresta,e ele se deu ao trabalho de mexer com o p paraver o que era. Era uma lpide cada, onde, pinta-das, mal se viam as seguintes palavras: "Cather-ine Larue".

    421/476

  • "Larue, Larue!", disse Holker, subita-mente animado. "Mas, esse o nome verdadeirode Branscom, e no Pardee. E... Deus do cu!Agora me lembro a mulher assassinada tinhaantes o sobrenome de Frayser!

    "Tem algum mistrio horrendo nessahistria", disse o detetive Jaralson. "Detesto essetipo de coisa.

    Nesse instante, chegou at eles atravess-ando a bruma como se viesse de uma distnciaimensa o som de uma gargalhada. Um risoabafado, deliberado e cruel, que de alegria tinhato pouco quanto o riso da hiena cortando a noiteno deserto. Uma gargalhada que foi crescendoem lenta gradao, tomando-se mais e mais alta,mais e mais ntida e terrvel, at que parecia estarimediatamente alm do pequeno crculo de viso

    422/476

  • dos dois. Um riso to desumano, to sobrenatur-al, to demonaco, que encheu aqueles embrute-cidos caadores de homens com uma sensao deterror inominvel! Eles no engatilharam asarmas, nem pensaram nelas; a ameaa daquelesom horrvel no era do tipo que pudesse ser en-frentada com armas de fogo. E, assim como sur-gira do silncio, a gargalhada foi aos poucosmorrendo a distncia. Depois do grito culminanteque parecera explodir quase em seus ouvidos, elase foi afastando, at que as ltimas notas, tristes erepetitivas at o fim, mergulharam no silnciomuito longe dali.

    423/476

  • Cruzando o umbral

  • Um habitante de Carcosa

    Pois h diversos tipos de morte. Em al-gumas, o corpo preservado; em outras desa-parece, junto com o esprito. Geralmente issoocorre quando o indivduo est s (esta a vont-ade de Deus) e, como no nos dado conhecer ofim, dizemos que o homem desapareceu, ou quese foi numa longa jornada o que verdade.Mas, s vezes, o fato ocorre diante da vista demuitos, como provam vrios testemunhos. Numdeterminado tipo de morte o esprito tambmmorre e sabe-se de casos em que isso aconteceuquando o corpo ainda continuaria vivo por mui-tos anos. Em outras vezes, como tem sidoprovado, o esprito morre com o corpo, mas al-gum tempo depois volta a erguer-se, naquelemesmo lugar onde o corpo se decomps.

  • Refletindo a respeito dessas palavras deHali (que descanse em paz) e perguntando-mesobre seu verdadeiro significado como o fariaalgum que, tendo recebido um sinal, aindativesse dvidas e pressentisse algo por trs da-quilo que compreendera , eu seguia sem pre-star ateno no caminho, at que um vento ge-lado no rosto reavivou meus sentidos para o quehavia em torno. Surpreso, observei que tudo alime era estranho. De um lado e outro, estendia-seuma vasta plancie, descampada e desolada, re-coberta por um capim alto e seco, que assobiavae gemia ao vento de outono, provocandosensaes misteriosas e inquietantes cujo signi-ficado s Deus poderia saber. Acima da veget-ao, a grandes intervalos, despontavam pedrasde formatos estranhos e cor escura, que pareciamter entre si um mudo entendimento, como se

    426/476

  • trocassem olhares de significado assustador, oucomo se houvessem erguido as cabeas para espi-ar alguma coisa que estivesse por acontecer. Aquie ali, surgiam umas poucas rvores, batidas pelovento, parecendo ser as lderes dessa conspiraomaligna de silenciosa expectativa.

    O dia j ia alto, imaginei, embora nopudesse ver o sol. E apesar de perceber o ar frio emido, minha conscincia de tal fato era maismental do que fsica no tinha qualquersensao de desconforto. Acima daquela terralgubre, nuvens baixas, cor de chumbo, form-avam uma cobertura, como se fosse umamaldio visvel. Em tudo havia ameaa e press-gio um toque maligno, o sinal do juzo final.Pssaro, animal, inseto nada disso existia. Ovento suspirava nos galhos nus das rvores

    427/476

  • mortas e o capim cinzento curvava-se para sus-surrar terra seus segredos terrveis. Mas nen-hum outro som ou movimento quebrava a imobil-idade daquele lugar sombrio.

    Notei que havia, por entre o capim, algu-mas pedras gastas pelo tempo, parecendo ter sidomoldadas por mos humanas. Estavam partidas,recobertas de limo e meio enterradas no cho. Al-gumas cadas, outras inclinadas em vrios ngu-los. Nenhuma estava de p. Com toda a certeza,eram lpides de sepulturas, embora as sepulturasem si j no existissem, nem em forma demontculos nem como depresses na terra. O pas-sar dos anos nivelara tudo. Espalhados aqui e ali,blocos maiores de pedra apontavam o local ondealguma sepultura suntuosa ou monumento ambi-cioso lanara um dia seu dbil desafio contra o

    428/476

  • esquecimento. To antigas pareciamaquelas relquias, aqueles vestgios da vaidade eda memria de afeies e piedades, to batidos,gastos, manchados e to abandonado, desertoe esquecido aquele lugar que no pude deixarde pensar que acabara de descobrir o cemitrio dealguma raa pr-histrica, de homens dos quaisat mesmo o nome estava h muito extinto.

    Caminhava to impregnado dessespensamentos, que por algum tempo vaguei semprestar muita ateno no que fazia, at pensar:"Como vim parar aqui?" Um momento de re-flexo pareceu tornar tudo muito claro e aomesmo tempo explicar embora de forma in-quietante o car ter estranho com que minhaimaginao revestira tudo o que via e ouvia. Euestava doente. Agora lembrava-me de que

    429/476

  • estivera prostrado com uma febre repentina.Minha famlia me dissera que, em meus delrios,vrias vezes eu gritara, pedindo ar e liberdade,tendo sido amarrado cama para no fugir. Nacerta eu vencera a vigilncia de quem tomavaconta de mim e sara para para onde? No po-dia sequer imaginar. Claramente estava a umaimensa distncia da cidade onde vivia a antigae famosa cidade de Carcosa.

    Em parte alguma havia sinais audveisou visveis da existncia humana. Nenhum rolode fumaa, nenhum co latindo ou gado mu-gindo, nenhum barulho de crianas brincando.Nada. Apenas aquele cemitrio sombrio, com seuar de mistrio e terror, conseqncias de meucrebro comprometido. No estaria eu tendo umnovo delrio, ali, onde no havia ningum para

    430/476

  • me ajudar? No seria tudo, afinal, uma ilusoprovocada por minha loucura? Gritei os nomesde minhas mulheres e filhos, estendendo osbraos sua procura enquanto caminhava porentre as pedras destroadas, sobre o capim seco.

    Um rudo atrs de mim fez com que eume virasse. Um animal selvagem um lince se aproximava. E, de imediato, pensei: se eu des-maiar aqui, neste lugar deserto, se a febre voltar eeu perder os sentidos, esse animal voar emminha garganta. E corri na direo dele, gritando.Ele continuou seu caminho tranqilamente, pas-sando quase ao alcance de minha mo e desa-parecendo por trs de uma pedra.

    Logo depois, a cabea de um homempareceu surgir do cho, a poucos metros de mim.Ele subia um aclive a uma certa distncia, numa

    431/476

  • colina baixa cujo topo mal se podia distinguir doresto do terreno. Logo, todo ele ficou visvel, suafigura recortada contra o cu cinzento. Estavameio nu, meio vestido, em farrapos. Seu cabelodesalinhado, a barba imensa e embaraada. Emuma das mos, levava um arco e uma flecha. Naoutra, uma tocha acesa, de onde se desprendia umlongo fio de fumaa negra. Caminhava devagar,com cuidado, como se temesse cair num tmuloaberto que o capim alto escondesse. Essa es-tranha apario me deixou surpreso, mas nocom medo. E comecei a caminhar em sua direoat que nos vimos frente a frente. Cumprimentei-o com a saudao usual:

    "Que Deus esteja com voc.

    Mas ele no me deu ateno, nem paroude caminhar.

    432/476

  • "Meu bom amigo", continuei, "estoudoente e perdido. Poderia me orientar, por favor?Preciso voltar para Carcosa.

    O homem comeou a entoar um cantobrbaro, numa lngua desconhecida, e seguiu emfrente.

    No galho de uma rvore morta, uma cor-uja soltou seu pio lgubre, sendo respondida, adistncia, por outra coruja. Erguendo a vista, at-ravs de um claro que subitamente se formaraentre as nuvens, enxerguei as estrelas Aldebarane Hyades. Tudo fazia crer que era noite olince, o homem com a tocha, a coruja. E contudoeu enxergava via at as estrelas, mesmo nohavendo escurido. Via, mas aparentemente noera visto, nem ouvido. Sob aquele estranho en-cantamento, ser que eu existia?

    433/476

  • Sentei-me na raiz de uma imensa rvore,tentando pensar no que fazer. J no duvidavaque estivesse louco, porm reconhecia um resqu-cio de dvida naquela minha certeza. No sentiafebre. Alm disso, tinha uma sensao de euforiae vigor que me eram desconhecidos uma ex-citao fsica e mental. Todos os meus sentidosestavam alerta. Podia perceber o ar como se fosseuma substncia palpvel. Era capaz de ouvir osilncio.

    Uma imensa raiz da gigantesca rvoreem cujo tronco me apoiara estava enrolada emuma laje de pedra, parte da qual surgia por entreo vo formado por outra raiz. A pedra ficara as-sim parcialmente protegida das intempries, em-bora bastante gasta. Seus cantos estavam arre-dondados, comidos pelo tempo, e a superfcie

    434/476

  • muito sulcada e descamada. Partculas faiscantesde mica eram visveis na terra sob a pedra vestgios de decomposio. A pedra parecia termarcado o tmulo do qual a rvore brotara,muitas eras antes. Suas razes possessivas tinhamtomado a sepultura, transformando a pedra emprisioneira.

    Uma sbita lufada de vento varreu opunhado de folhas secas e gravetos que recobri-am a lpide. E, vendo as letras em baixo-relevode uma inscrio, curvei-me para l-la. Deus! Erameu nome. A data de meu nascimento... e a datade minha morte!

    Um raio de luz oblqua iluminou todo olado da rvore no mesmo instante em que me pusde p, aterrorizado. O sol nascia a leste, no cucor-de-rosa. Eu estava de p entre a rvore e seu

    435/476

  • disco de fogo no horizonte mas no haviaqualquer sombra no tronco!

    Um coro de lobos uivando saudou oamanhecer. Podia v-los, sentados nas patas tra-seiras, solitrios ou em grupos, nos topos dosmontculos e dos tmulos, preenchendo em partea viso desrtica que se estendia at o horizonte.E s ento compreendi que estava nas runas daantiga e famosa cidade de Carcosa.

    Tais fatos foram relatados ao mdiumBayrolles pelo esprito de Hoseib Alar Robardin.

    436/476

  • A dificuldade de atravessar umcampo

    Numa certa manh de julho, em 1854,um fazendeiro de nome Williamson, que vivia apouco menos de dez quilmetros de Selma, noAlabama, estava sentado com a mulher e o filhona varanda de casa. Bem em frente havia um p-tio, com quase cinqenta metros de comprimento,separando a casa da estrada, conhecida como a"via principal". Para alm da estrada havia umpasto de vegetao rasteira, com aproximada-mente dez hectares, plano e sem rvores, pedrasou qualquer outro objeto natural ou artificial emsua superfcie. Naquela hora, no havia sequerum animal domstico no campo. Em outrocampo, atrs do pasto, uma dzia de escravos tra-balhava sob as ordens de um feitor.

  • Jogando fora o toco de um charuto, ofazendeiro levantou-se, dizendo:

    "Esqueci de falar ao Andrew sobreaqueles cavalos." Andrew era o feitor.

    Williamson percorreu devagar o cho decascalho, arrancou uma flor no caminho, atraves-sou a estrada e entrou no pasto, parando um in-stante, enquanto fechava o porto de entrada,para cumprimentar um vizinho, Armour Wren,que vivia numa fazenda das redondezas. O Sr.Wren estava em uma carruagem aberta com ofilho, James, um rapaz de treze anos. Quando jse tinham afastado cerca de duzentos metros, oSr. Wren disse ao filho:

    "Esqueci de falar ao Sr. Williamsonsobre aqueles cavalos.

    438/476

  • O Sr. Wren tinha vendido algunscavalos ao Sr. Williamson, e eles deveriam tersido mandados naquele dia, mas por uma razoqualquer s seriam enviados no dia seguinte. Ococheiro recebeu instrues de voltar e, enquantoa carruagem fazia a volta, Williamson foi vistopor todos os trs, atravessando calmamente opasto. Nesse exato instante, um dos cavalos quepuxavam a carruagem tropeou e quase caiu. Malele se aprumara quando James Wren gritou:

    "U, papai, o que aconteceu com o Sr.Williamson?

    No o objetivo desta narrativa respon-der a tal pergunta.

    O estranho relato do Sr. Wren, feito sobjuramento durante os procedimentos legais

    439/476

  • relacionados s propriedades do Sr. Williamson,foi o seguinte:

    "A exclamao de meu filho fez comque eu olhasse para o ponto em que vira o finado(sic) apenas um instante antes, mas ele j no es-tava l, nem em qualquer outro lugar visvel. Noposso dizer que, naquele momento, tenha ficadoespantadssimo, nem que me tenha dado conta dagravidade do ocorrido, mas achei estranho. Meufilho, porm, ficou muito assustado e no paravade repetir sua pergunta, de diversas maneiras, atchegarmos ao porto. Meu jovem escravo Samtambm estava impressionado, mais at do quemeu filho, mas eu me baseio mais nas maneirasde meu filho do que em alguma coisa que eletivesse falado. (Esta frase foi riscada do depoi-mento.) Assim que saltamos da carruagem junto

    440/476

  • ao porto que dava para o campo, e enquantoSam pendurava (sic) os cavalos na cerca, a Sra.Williamson, com o filho no colo e seguida devrios empregados, atravessou o ptio correndo,muito alvoroada e gritando: 'Ele sumiu, sumiu!Deus do cu, que horror!' e outras exclamaesdo gnero das quais no me recordo. Deram-me aimpresso de estar relacionadas com algumacoisa mais do que o simples desaparecimento deseu marido, mesmo este tendo ocorrido diante deseus olhos. Ela estava fora de si, ainda mais doque seria de se esperar numa situao daquelas.Nada me leva a crer que tivesse enlouquecidonaquele instante. Nunca mais vi nem ouvi falarda Sra. Williamson.

    Esse depoimento, como seria de se es-perar, foi reforado em quase todos os detalhes

    441/476

  • pela nica testemunha ocular (se este o termocerto) o jovem James. A Sra. Williamson en-louquecera e os empregados no tinham con-dies, claro, de dar seu testemunho. No incio,o jovem James Wren declarara ter visto o desa-parecimento, mas isso no consta de seu depoi-mento Justia. Nenhum dos trabalhadores docampo para o qual o Sr. Williamson se dirigiavira o patro. E uma busca cuidadosa em toda afazenda e nos terrenos vizinhos mostrou-se in-frutfera. Histrias monstruosas e grotescas, in-ventadas pelos negros, seriam contadas durantemuitos anos na regio, e talvez continuem a serat hoje. Mas o que foi relatado aqui tudo o quese sabe ao certo sobre o caso. A Justia decidiuque o Sr. Williamson estava morto e suas pro-priedades foram distribudas segundo a lei.

    442/476

  • Corrida inacabada

    James Burne Worson era um sapateiroque vivia em Leamington, Warwickshire, naInglaterra. Tinha uma pequena loja numa estrad-inha secundria que levava estrada de Warwick.Dentro de seu meio humilde ele era consideradoum homem honesto, embora, como muitos de suaclasse na Inglaterra, fosse de certa forma um al-colatra. Quando estava bbado, costumava fazerapostas malucas. Numa das muitas ocasies emque isso aconteceu, ele estava se gabando de suasfaanhas como andarilho e atleta, e o resultadofoi uma aposta contra a natureza. Para ganharuma libra, Worson apostou que conseguiria cor-rer at Coventry e voltar, uma distncia de maisde sessenta quilmetros. Isso foi no dia 3 desetembro de 1873, Ele saiu em seguida e o

  • homem com quem fizera a aposta de cujonome no me lembro , acompanhado por umtal Barham Wise, vendedor de tecidos, e deHamerson Burns, fotgrafo, acho, seguiu-o numapequena carroa, ou carro.

    Por muitos quilmetros, Worson foibem, em bom ritmo, sem parecer cansado, porquede fato tinha grande resistncia e ainda no se in-toxicara o suficiente para debilit-la. Os trs ho-mens no carro mantinham-se a uma pequena dis-tncia na retaguarda, soltando de vez em quandouma piada para encoraj-lo, medida que se iamanimando. De repente no meio da estrada, adez metros de onde os trs estavam, com os ol-hos grudados no corredor este pareceutropear e, precipitando-se para a frente, soltouum horrvel grito e desapareceu! No caiu por

    444/476

  • terra simplesmente desapareceu antes de tocaro cho. Dele, jamais se encontrou trao.

    Depois de ficar no local por algumtempo, sem nimo e sem saber o que fazer, ostrs homens voltaram para Leamington, contaramsua impressionante histria e acabaram presos.Mas eram homens bem estabelecidos, consid-erados confiveis, estavam sbrios no momentodo ocorrido e nada jamais transpareceu queviesse desmentir a extraordinria aventura queeles juravam ter vivido. Aventura sobre cuja ver-dade a opinio pblica se dividiu, por todo oReino Unido. Se eles tinham algo a esconder,certamente optaram por uma histria que dasmais estranhas j relatadas por pessoas ss.

    445/476

  • O rastro de Charles Ashmore

    A famlia de Christian Ashmore consis-tia em sua mulher, sua me, duas filhas crescidase um filho de dezesseis anos. Moravam todos emTroy, Nova York, eram pessoas de bom nvel, re-speitadas, e tinham muitos amigos, alguns dosquais, lendo estas linhas, ouviro falar pelaprimeira vez da histria extraordinria ocorridacom o rapaz. Os Ashmores se mudaram de Troypara Richmond, Indiana, em 1871 ou 1872,seguindo, um ou dois anos depois, para os arre-dores de Quincy, Illinois, onde o Sr. Ashmorecomprou uma fazenda e se instalou. A pouca dis-tncia da sede da fazenda havia uma fonte degua limpa e fresca, que a famlia usava parasuprir suas necessidades durante o ano inteiro.

  • Na noite de 9 de novembro de 1878, lpelas nove horas, o jovem Charles Ashmore deix-ou a famlia reunida em casa e, levando umapequena jarra, saiu em direo fonte. Como de-morava a voltar, a famlia ficou inquieta, e o pai,indo at a porta por onde o rapaz sara, chamoupor ele sem obter resposta. Acendeu ento umalanterna e, junto com a filha mais velha, Martha,que insistiu em acompanh-lo, saiu procura.Naquela noite havia cado um pouco de neve, quecobria o caminho mas deixava evidente a trilhafeita pelo rapaz. Cada pegada era perfeitamentevisvel. Quando eles j haviam percorrido poucomais do que a metade do caminho cerca desessenta metros , o pai, que ia na frente, esta-cou e, erguendo a lanterna, ficou espiando a es-curido sua frente.

    447/476

  • "O que houve, pai?", perguntou a moa.

    O que havia era o seguinte: a trilha dojovem terminava de repente e dali para a frente aneve fofa estava intocada. As ltimas pegadaseram to visveis quanto as anteriores, sendo pos-svel mesmo distinguir a marca da ponta dos de-dos. O Sr. Ashmore olhou para cima, usando ochapu de anteparo para que a luz da lanterna noo ofuscasse. As estrelas brilhavam. Ficou assimafastada a hiptese que chegara a lhe ocorrer, pormais improvvel que fosse, de que houvessecado neve outra vez, e s dentro de um limite tobem definido. Seguindo um caminho maior erodeando o local onde estavam as ltimas pega-das, de forma a deix-las intocadas para voltar aexamin-las mais tarde, ele foi at a fonte, en-quanto a moa seguia atrs, sentindo-se fraca e

    448/476

  • apavorada. Nenhum dos dois disse uma s palav-ra sobre o que tinham visto. A fonte estavacoberta de gelo, obviamente endurecido haviamuitas horas.

    Voltando para casa, observaram a nevede ambos os lados, ao longo de todo o caminho.No havia qualquer marca de pegadas afastando-se da trilha.

    A luz do dia no trouxe qualquer novaevidncia. Por toda parte havia neve, no muitoprofunda. E sempre macia, sem marcas, intocada.

    Quatro dias depois, a me, arrasada, foiat a fonte em busca de gua. Ao voltar, contouque, quando passava pelo local onde tinham sidovistas as ltimas pegadas, ouvira a voz do filho esara, desesperada, chamando por ele, andando a

    449/476

  • esmo pelo lugar, j que a cada momento tinha aimpresso de ouvir a voz vindo de uma diferentedireo. At que no agentara mais, vencidapelo cansao e pela emoo. Quando lhe pergun-taram o que a voz falava, no conseguiu dizer,embora asseverasse que as palavras eram perfeit-amente audveis. Imediatamente, toda a famliafoi at o local, mas ningum ouviu nada e a con-cluso foi a de que tudo no passara de uma alu-cinao causada pela ansiedade da me e por seusnervos destroados. Acontece que nos mesesseguintes, com intervalos irregulares de algunsdias, a voz foi ouvida por todos os membros dafamlia, e tambm por outras pessoas. Todos de-clararam estar absolutamente certos de que era avoz de Charles Ashmore, e todos concordaramque o som parecia vir de muito longe, fraco, masarticulado de forma perfeitamente audvel. E,

    450/476

  • contudo, ningum foi capaz de precisar de quedireo vinha o som ou de repetir as palavrasditas. Os intervalos de silncio foram aos poucostornando-se mais longos, e a voz ficando maisfraca e distante, at que, no vero, parou de serouvida.

    Se algum conhece o destino de CharlesAshmore, esse algum provavelmente sua me.Ela est morta.

    451/476

  • A cincia frente

    Ainda a respeito dessa questo dos "de-saparecimentos misteriosos" sobre os quais to-dos tm sempre na memria muitos exemplos , pertinente mencionar o que pensa disso o Dr.Hern, de Leipzig. No como explicao, a noser que o leitor assim o encare, mas devido a seuinteresse intrnseco, na qualidade de especulaointeressante. Esse renomado cientista exps suasteorias num livro intitulado Verschwinden undSeine Theorie, que chamou muita ateno. Se-gundo um determinado escritor, isso ocorreu par-ticularmente "entre os seguidores de Hegel eentre os matemticos que acreditam na existnciado chamado espao no-euclidiano isto , umespao que, alm de comprimento, largura e pro-fundidade, tem outras dimenses , um espao

  • dentro do qual seria possvel dar um lao numacorda sem fim e virar uma bola de borracha peloavesso sem provocar uma 'soluo de continuid-ade', ou seja, sem quebr-la ou rasg-la".

    O Dr. Hern acredita que no mundovisvel existem espaos vazios vcuos, e algomais , buracos atravs dos quais objetos anim-ados ou inanimados podem cair, penetrando ummundo invisvel, sem que jamais se volte a v-losou ter notcias deles. A teoria mais ou menos aseguinte: o espao est impregnado pelo ter lu-minoso, que algo material uma substnciacomo o ar ou a gua, embora infinitamente maisdiluda. Todas as foras, todas as formas de ener-gia devem ser propagadas por ele. Todos os pro-cessos que ocorrem devem faz-lo nele. Massuponhamos que existam cavidades nesse meio

    453/476

  • que do contrrio seria universal, cavidadessemelhantes s cavernas que existem na Terra, ouaos buracos de um queijo suo. Nessas cavid-ades no haveria nada. Seria um tal vcuo queno poderia ser produzido artificialmente.Porque, se bombearmos o ar para fora de um re-cipiente, ainda restar dentro dele o ter lu-minoso. Atravs de uma dessas cavidades a luzno poderia passar, pois nada haveria parasustent-la. Dela no poderia ser emitidoqualquer som. Dentro dela, nada poderia ser sen-tido. Tal cavidade no teria sequer uma das con-dies necessrias ao de qualquer um de nos-sos sentidos. Em um vcuo como esse, resum-indo, nada poderia jamais ocorrer. Reproduzoagora as palavras do escritor citado j quenem o prprio mdico conseguiu uma explicaoto concisa: "Um homem preso dentro de tal

    454/476

  • cavidade no poderia ver nem ser visto. Nemouvir ou ser ouvido. Ou sentir e ser sentido. Nemsequer viver ou morrer, porque tanto a vidaquanto a morte so processos que tm lugar apen-as onde existe uma fora motriz, e no espaovazio tal fora no tem como existir." Sero essasas terrveis condies (alguns se perguntaro) nasquais os amigos dos desaparecidos devem acred-itar que eles se encontram, e onde estariam con-denados a permanecer pela eternidade?

    Tendo sido descrita aqui de forma im-perfeita e superficial a teoria do Dr. Hern, se con-siderada como explicao adequada para os "de-saparecimentos misteriosos", est aberta a ob-jees bvias. Por parte de um nmero menor depessoas do que ele prprio admite na "espaosavolubilidade" de seu livro. Mas, mesmo da

    455/476

  • maneira como foi exposta por seu autor, a teoriano explica e em alguns casos chega a ser in-compatvel com determinados incidentes asocorrncias relatadas neste memorando. Por ex-emplo: o som da voz de Charles Ashmore. Masno cabe a mim gostar ou no de fatos e teorias.

    A.B.

    456/476

  • Vises da noite

    I

    Acredito que o Dom dos Sonhos temgrande valor literrio e que se, por algummtodo ainda no conhecido, fosse possvelapreender, fixar e por fim utilizar a fantasia im-palpvel neles contida, teramos uma literatura deenorme qualidade. Uma vez em cativeiro, do-mesticado, esse dom poderia sem dvida sermuito aperfeioado, assim como os animais que,a servio do homem, adquirem novos poderes ecapacidades. Domesticando os sonhos, poder-amos dobrar nossas horas de trabalho e as tarefasmais frutferas seriam feitas enquanto dormsse-mos. Mesmo as coisas sendo como so, a Terra

  • dos Sonhos uma provncia que paga tributos,como demonstra o "Kubla Khan".

    O que um sonho? Um conjunto dememrias, solta e sem lei a sucesso de-sordenada de fatos que um dia fizeram parte daconscincia desperta. Uma ressurreio de mor-tos, misturados novos e velhos, o justo e o in-justo , saltando de seus tmulos desfeitos, cadaum "com as roupas que usou em vida", pression-ando, de forma catica, tentando obter umaaudincia com o Mestre do Festim, agarrando-seuns aos outros na confuso da corrida. Mestre?No. Ele abdicou de sua autoridade e so eles queo dominam. Sua vontade est morta e no seergue como os demais. Sua capacidade de julgartambm se foi e, com ela, o dom de surpreender-se. Talvez sinta dor e prazer, terror e

    458/476

  • encantamento, mas assombro no sentir. O mon-struoso, o grotesco, o inslito tudo simples,certo e razovel. O que cmico no diverte, oque impossvel no espanta. Aquele que sonha seu nico e verdadeiro poeta; ele simaginao.

    E imaginao no mais do quememria. Tente imaginar algo que jamais viu,experimentou, ouviu ou sobre o qual leu. Tenteconceber um animal, por exemplo, sem corpo,cabea, membros ou rabo uma casa semparedes ou telhado. Acordados, com a ajuda doarbtrio e da capacidade de julgamento, aindapoderemos controlar e dirigir as coisas; podere-mos selecionar e escolher do estoque damemria, pegando aquilo que nos convm, ex-cluindo, embora s vezes com dificuldade, o que

    459/476

  • no nos interessa. Mas dormindo nossas fantasias"nos herdaro". Elas surgem to amalgamadas,to mescladas e coesas, de tal maneira forjadascom os elementos umas das outras que o todo nosparece novo; mas as velhas e familiares partes daconcepo esto l, e nada foi posto de lado. Dor-mindo ou despertos, nada recebemos de novo daimaginao, a no ser novos ajustes: "a matriada qual so feitos os sonhos" foi composta pelossentidos fsicos e pela memria estocada, comoesquilos que juntam suas nozes. Mas pelo menosum sentido no contribui em nada para a fbricado sonho: ningum jamais sonhou com umcheiro. Viso, audio, sentimento, talvez gosto,so todos operrios que trabalham para nossa di-verso noturna; mas o Sono no tem nariz. sur-preendente que os poetas antigos, velhos obser-vadores, no tenham descrito assim esse deus

    460/476

  • sonolento e que seus servos obedientes, os es-cultores da Antiguidade, no o tenham repres-entado dessa forma. Talvez esses ltimos not-veis, trabalhando para a posteridade, tenham con-cludo que o tempo e o desgaste acabariam porfazer sua parte, adaptando suas obras aos fatos danatureza.

    E, sendo assim, quem consegue descre-ver um sonho de forma que continue parecendoum sonho? Nenhum poeta capaz de tal leveza. como tentar descrever a msica de uma harpaelia. H uma determinada espcie da famlia dosChatos (Penetrator intolerabilis) que, ao ler umconto ou romance escrito, talvez, por algummestre do estilo , faz um esforo descomunalpara descrever o enredo para voc, para sua edi-ficao e entretenimento. Com isso, acredita, boa

    461/476

  • alma que , que voc j no precisar l-lo. "Sobcircunstncias e condies substancialmente sim-ilares" (como reza a lei do comrcio entre os es-tados), no devo ser acusado de semelhanteofensa; mas quero descrever aqui alguns sonhosque tive, sendo "as circunstncias e as con-dies", na minha opinio, diferentes neste caso,j que os sonhos no esto acessveis ao leitor.Ao tentar registrar aqui a parte mais pobre dessessonhos no sucesso que procuro. Falta-me salpara temperar o rabo impalpvel do esprito dossonhos.

    II

    Na penumbra, eu caminhava em meio auma floresta de rvores estranhas. No sabia deonde vinha nem para onde ia. Percebia a imen-sido da floresta e tinha a conscincia de ser o

    462/476

  • nico ser vivo ah. Pelo que pude vagamente ima-ginar, enquanto caminhava contra o sol quecomeava a nascer, estava atormentado por umfeitio terrvel, em expiao por um crime hmuito cometido. Mecanicamente,desesperanado, movia-me sob os galhos dasrvores gigantescas atravs de uma trilha estreita,que se perdia na solido assombrada da floresta.De repente, dei com um riacho, que flua, vag-aroso e escuro, minha frente, e vi que era umrio de sangue. Virando direita, segui-o durantealgum tempo, at chegar a um lugar onde afloresta se abria numa clareira circular, em cujocentro, sob a luz tnue e irreal, havia um tanquede mrmore branco. Estava cheio de sangue e eradali que flua o riacho que eu acabara de seguir.Em torno do tanque, entre ele e a floresta que ocircundava um espao de talvez trs metros de

    463/476

  • largura, todo pavimentado com imensos blocosde mrmore , havia corpos de homens. Erammuitos e, embora no os tivesse contado, sabiaque seu nmero tinha uma forte e significativa re-lao com o crime por mim cometido. Talvezmarcassem o tempo, em sculos, desde que eu ocometera. Mas reconheci o nmero e sabia queestava certo, mesmo sem ter feito a conta. Oscorpos estavam nus e arrumados de formasimtrica em torno do tanque, dele irradiandocomo se fossem os raios de uma roda. Os ps es-tavam para fora, as cabeas dependuradas sobre aborda do tanque. Todos deitados de costas, comas gargantas cortadas, o sangue correndo lenta-mente da ferida aberta. Olhei para tudo aquilosem qualquer emoo. Era o resultado natural enecessrio de meu crime, e portanto no meafetava. Mas havia algo que me enchia de

    464/476

  • apreenso e terror uma pulsao monstruosa,batendo e batendo, lenta e inexoravelmente. Nosei atravs de que sentido a apreendia ou se elame alcanava a mente por algum caminhodesconhecido para a cincia e os homens. Masseu ritmo imenso, que batia a intervalos regularese sem piedade, era capaz de enlouquecer. Eusabia que o som atravessava a floresta inteira, eque era manifestao de uma malignidade gi-gantesca e implacvel.

    tudo de que me lembro. Sufocado peloterror que sem dvida se origina no desconfortode alguma dificuldade circulatria, provavel-mente soltei um grito e fui acordado pelo som deminha prpria voz.

    III

    465/476

  • O sonho cujo arcabouo vou agora re-latar aconteceu quando eu era muito jovem. Noteria mais do que dezesseis anos. J tenho bemmais do que isso agora e contudo me recordo doque aconteceu de forma to vvida que como sea viso tivesse ocorrido h apenas uma hora e euestivesse, ainda, encolhido sob as cobertas, tre-mendo de terror diante de sua lembrana.

    Eu estava s, num plano infinito, e eranoite em meus pesadelos, estou sempre soz-inho e geralmente noite. No havia uma srvore vista, nem casas, nem rios ou montan-has. A terra parecia coberta por uma vegetaorasteira, spera, que era escura e cheia de grave-tos, como se a plancie tivesse sido varrida pelofogo. medida que andava, meu caminhar erainterrompido, no sei bem por qu, por pequenas

    466/476

  • poas d'gua que ocupavam as depresses dosolo, dando a impresso de que, depois do fogo,havia chovido. As poas estavam por toda parte,desaparecendo e reaparecendo assim que asnuvens, pesadas, empurravam de travs o pedaode cu que elas refletiam e, ao desaparecer,voltavam a revelar o brilho das estrelas, cuja luzfria as guas mostravam em seu cintilar escuro.Eu caminhava na direo oeste, onde junto linha do horizonte cintilava o fogo de uma luzavermelhada em meio a farrapos de nuvens,dando o efeito de uma distncia imensurvelcomo aquela que desde ento aprendi a ver nosdesenhos de Dor, cuja mo, a cada pincelada,lana um pressgio e uma maldio. medidaque caminhava, vi, recortada contra essa pais-agem sobrenatural, a silhueta de edificaes etorres que, aumentando a cada quilmetro

    467/476

  • percorrido, cresceram at alcanar altura e lar-gura inimaginveis a construo finalmentetomando um imenso ngulo de viso, embora noparecesse estar mais perto do que antes. Em de-salento e desespero, eu seguia em frente pelaplancie deserta e proibida, enquanto a con-struo continuava crescendo, at alcanar di-menses tais que eu j no podia envolv-la comum nico olhar, e suas torres desapareciam nasnuvens, acima de minha cabea. Ento penetreiatravs de um portal aberto, por entre colunas deestrutura to absolutamente gigantesca que cadapedra era maior do que a casa de meu pai. Ldentro, tudo era vazio; tudo recoberto pela poeirado abandono. Uma luz tnue a luz sem sentidoque existe nos sonhos e que se alimenta de simesma permitia-me passar de um a outrocorredor, de um a outro quarto, as portas cedendo

    468/476

  • ao toque de minhas mos. Em cada quarto, eragrande a caminhada entre uma parede e outra; ejamais pude chegar ao fim de qualquer um doscorredores. Meus passos provocavam o som ocoe estranho que s ouvido nas casas abandon-adas ou dentro dos tmulos. Durante muitas hor-as vaguei por aquela estranha solido, conscientede que tinha um propsito, embora no soubesseo que procurava. At que, no lugar que imagineiser um dos cantos extremos da construo, entreinum aposento de dimenses normais, com umanica janela. Atravs dela vi a luz vermelha aindacolada ao horizonte na distncia imensurvel doOeste, como a viso do juzo final, que eu recon-hecia por causa do fogo persistente da eternidade.Olhando para a ameaa rubra daquele cintilar sin-istro e soturno, senti-me invadir por uma verdade

    469/476

  • que, anos depois, por uma fantasia extravagante,tive a coragem de expressar em versos:

    Por toda parte, o homem est morto, hmuitas eras,

    Os anjos se foram rumo a tmulosdesconhecidos;

    Os demnios, tambm, por fimtornaram-se frios,

    E Deus jaz morto ante o imenso tronobranco!

    A luz no conseguia sobrepujar a escur-ido do quarto e foi s depois de algum tempoque descobri, no canto mais afastado, a silhuetade uma cama, dela me aproximando com opressgio de um infortnio. De alguma forma

    470/476

  • sentia que ali o malefcio de minha jornada ter-minaria nalgum clmax terrvel, e contudo nopodia resistir ao chamado que me fazia querer irat o fim. Sobre a cama, parcialmente vestido,jazia o corpo morto de um ser humano. Estavadeitado de costas, com os braos esticados.Inclinando-me sobre ele, o que fiz com nojo masno com medo, vi que estava horrivelmente de-composto. As costelas emergiam da carne enrije-cida; atravs da pele do ventre encovado, viam-seas marcas da espinha. A face estava enegrecida eseca, e a boca, desfeita sobre os dentes amarelos,exibia um sorriso medonho, como uma maldio.Protuberncias sob as plpebras pareciam indicarque os olhos tinham sobrevivido decomposiogeral; e tinham mesmo, pois, assim que me in-clinei sobre o rosto, eles se abriram e me en-cararam com um olhar tranqilo e firme.

    471/476

  • Imaginem, se puderem, qual foi meu horror enenhuma palavra minha poder ajudar; porque osolhos eram os meus! Aquele fragmento querestava de uma raa extinta aquela coisa inom-invel que nem o tempo nem a eternidade tinhamsido capazes de apagar aquele detestvel e re-pugnante pedao de mortalidade, capaz ainda desentir, embora o Deus e os anjos j estivessemmortos, era eu!

    IV

    H sonhos recorrentes. Pertence a essaclasse um sonho que tenho e que me parece sufi-cientemente singular para justificar que o relate,embora tema que o leitor v pensar que osdomnios do sono so tudo menos um felizcampo de caa para esta minha alma que vagueia noite. No verdade; na maioria, minhas

    472/476

  • incurses pelo mundo dos sonhos, o que imaginoacontea com quase todo mundo, so pautadaspor resultados mais felizes. Minha imaginaovolta ao corpo assim como uma abelha colmia,repleta de provises que, com a ajuda da razo,transmuta-se em mel e estocada nas clulas damemria para felicidade eterna. Mas o sonho quevou contar agora tem um carter duplo; a exper-incia em si estranha e apavorante, mas o hor-ror por ela inspirado to ridiculamente despro-porcional ao incidente que o produz que, em ret-rospectiva, sua fantasia capaz de divertir.

    Estou atravessando uma clareira, numbosque de vegetao esparsa. Atravs das rvoresnuas que circundam o espao irregular, vejo cam-pos cultivados e as moradas de seres estranhos. Oamanhecer parece estar prximo, pois a lua,

    473/476

  • quase cheia, vai baixa no cu, a oeste, vermelhacomo sangue por entre a bruma fantasmagricaque recobre o lugar. A relva sob meus ps estpesada de orvalho e todo o cenrio parece o deuma manh de incio de vero, brilhando ante aluz incomum da lua cheia que se pe. Junto aocaminho h um cavalo que, posso nitidamentever e ouvir, est pastando na relva. Ele ergue acabea ante minha passagem, olha-me por um in-stante sem se mover, depois comea a andar emminha direo. branco como leite, defisionomia suave e aspecto amistoso. Digo a mimmesmo: "Este cavalo uma alma mansa" e vouacarici-lo. Mantendo os olhos fixos em mim, elese aproxima e fala comigo com uma voz humana.No surpresa que sinto, mas terror. E, imediata-mente, estou de volta a este nosso mundo.

    474/476

  • O cavalo sempre fala minha lngua, masnunca sei o que diz. Acho que fujo da terra dossonhos antes que ele acabe de expressar o quetem em mente, deixando-o, com certeza, to as-sustado com meu sbito desaparecimento quantoeu com a forma como ele se dirige a mim.Gostaria muito de saber o que ele quer dizer.

    Talvez, numa manh, eu possacompreend-lo e ento nunca mais voltarei aeste nosso mundo.

    475/476

  • 1 Owl Creek rio da Coruja. (N. do T.)

    SumrioPersonagem de si mesmo: O MISTERIO DE AMBROSE BIERCEUm incidente na ponte de Owl Creek1Naufrgio virtualLuar sobre a estradaApariesO que era?Testemunha de um enforcamentoMensagem sem fioPrisoA alucinao de Staley FlemingDiagnstico da morte

    O ambiente adequadoUm dos gmeosNo limiar do irrealCasas espectraisA janela fechadaA Ilha dos PinheirosMisso no cumpridaA videiraNa casa do velho EckertOs outros hspedesA casa assombrada

    Os olhos da panteraO segredo da Ravina MacargerO homem saindo do narizA morte de Halpin FrayserCruzando o umbralUm habitante de CarcosaA dificuldade de atravessar um campoCorrida inacabadaO rastro de Charles AshmoreA cincia frente

    Vises da noite