Ambrose Bierce - Visões da Noite

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  • Ambrose Bierce

    Vises da noitehistrias de terror sarcsticoOrganizao e traduo

    Helosa Seixas

    1999/2011

  • 3/476

  • CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte Sindicato Nacional dos Editoresde Livros, RJ.

    Bierce, Ambrose, 1842-1914?

    B487v Vises da noite / Ambrose Bierce; organizao

    e traduo Helosa Seixas; ilustraes Mozart

    Couto. - Rio de Janeiro: Record, 1999.

    ISBN 85-01-05524-7

    1. Conto norte-americano. I. Seixas, Helosa,

    1952- . II. Ttulo.

    99-0196 CDD-813 99-0196

    CDU - 820{73)-3

    Copyright 1999 by Helosa Seixas

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  • Sumrio

    Personagem de si mesmo: O MISTERIO DEAMBROSE BIERCE

    Um incidente na ponte de Owl Creek

    Naufrgio virtual

    Luar sobre a estrada

    Aparies

    O que era?

    Testemunha de um enforcamento

    Mensagem sem fio

    Priso

  • A alucinao de Staley Fleming

    Diagnstico da morte

    O ambiente adequado

    Um dos gmeos

    No limiar do irreal

    Casas espectrais

    A janela fechada

    A Ilha dos Pinheiros

    Misso no cumprida

    A videira

    Na casa do velho Eckert

    Os outros hspedes

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  • A casa assombrada

    Os olhos da pantera

    O segredo da Ravina Macarger

    O homem saindo do nariz

    A morte de Halpin Frayser

    Cruzando o umbral

    Um habitante de Carcosa

    A dificuldade de atravessar um campo

    Corrida inacabada

    O rastro de Charles Ashmore

    A cincia frente

    Vises da noite

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  • Personagem de si mesmo:O MISTERIO DEAMBROSE BIERCE

    Heloisa Seixas

    Ele era louro, alto, bonito e as mulheresconsideravam-no irresistvel. Dizem at que tinhasido to bem-dotado pela natureza que jamais sedesnudava diante de uma mulher para noassust-la. Era agnstico, ateu, herege, ou comovoc queira chamar aqueles que descrem detudo. Sarcstico ao extremo, dedicou boa parte davida a cultivar inimizades graas a sua atividadede jornalista, profisso que exercia despejandoveneno a granel. Era um crtico feroz, inteligentee incansvel e por isso intensamente odiadopor muitos. "Minha independncia meu

  • patrimnio. minha literatura", dizia. "Escrevopara agradar a mim mesmo, no importandoquem saia ferido.

    Quem diria que uma pessoa assim descrente, mordaz e extremamente envolvidapelos prazeres da carne fosse dedicar-se a es-crever histrias assombradas? Pois foi o queaconteceu. Embora tenha ficado famoso por seustextos jornalsticos e pelo humor sardnicopresente em obras como o Dicionrio do diabo,Ambrose Bierce hoje considerado um dosmestres da literatura de horror americana, juntocom H. P. Lovecraft e, claro, Edgar Allan Poe.

    Mas a verdade que Ambrose GwinettBierce j nasceu cercado pelo mistrio. E pelohumor negro. Sua famlia era um tanto excntricae a casa onde veio ao mundo em Ohio,

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  • Estados Unidos, em 24 de julho de 1842 tinha,dizem, uma atmosfera macabra. Seu pai, MarcusAurelius Bierce, j era um sujeito estranho. Dom-inado pela mulher, fantico religioso e apaixon-ado por poesia, deu a todos os filhos (Bierce erao dcimo) nomes que comeassem com a letra'A'. No caso de Bierce, o nome do meio, Gwinett,teria sido acrescentado em referncia a AmbroseGwinett, personagem de uma pea de teatromuito popular no incio do sculo XIX e que erauma histria de crime (tendo seu nome ligado auma histria assim, no seria esse o crime ances-tral de que como veremos adiante nos falaBierce em seus pesadelos?). Mas as excentricid-ades da famlia Bierce no param por a.

    Os trs irmos que nasceram depois deBierce morreram e ele ficou sendo o caula.

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  • Quando cresceram, seus nove irmos mais velhosse dividiram em grupos antagnicos, que seodiavam, e o ambiente em casa era de guerraaberta e permanente. A certa altura, um dosirmos se rebelou contra o fanatismo religioso dafamlia e fugiu para ser artista de circo. Uma dasirms, ao contrrio, assumiu tanto esse fanatismoque foi ser missionria na frica, onde teria sidocomida por canibais. Por pouco no aconteceu omesmo com um tio de Bierce, Lucius Verus, quefoi em expedio ao Canad para libertar os ndi-os do jugo britnico e, depois de tomar a cidadede Windsor, viu acontecer o que menos esperava:os ndios se voltaram contra ele e Lucius Verusprecisou sair corrido dela.

    Esse tio aventureiro, apesar de meiodoido, foi uma das figuras que mais

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  • influenciaram Bierce em sua infncia e juven-tude. Lucius Verus percebeu que o jovem Am-brose, alm de bonito e charmoso, com seus ol-hos azuis e o cabelo louro-avermelhado, era tam-bm dono de uma inteligncia excepcional. Porisso, desde muito cedo tomou conta do rapaz,dando-lhe conselhos e livros. Quando ele tinha15 anos, Lucius Verus, talvez prevendo a eclosode uma guerra nos Estados Unidos, mandou-opara o Instituto Militar de Kentucky. L, Biercemostrou grande interesse pelo treinamento milit-ar, mas descobriu tambm seu talento como car-tunista. E o fato que, ao deixar Kentucky, emvez de voltar para a casa dos pais, foi trabalharno jornal de uma cidadezinha de Indiana.

    Em 1861, quando tinha 18 anos, Bierceatendeu ao primeiro chamado do Presidente

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  • Abraham Lincoln e alistou-se no 9o Regimentode Indiana. Logo estouraria a Guerra Civil. Foiquando ele teve a chance de se transformar numheri e o fez. Sua passagem pela vida militarfoi algo sensacional. Corajoso, os perigos dasbatalhas nada significavam para ele. E, como to-mava decises rpidas, com seriedade econscincia, destacava-se dos demais soldados,inseguros e indecisos. Durante uma batalha naVirgnia, salvou um companheiro ferido em meioao fogo cruzado, o que lhe valeu, apenas trsmeses depois de alistar-se como voluntrio, a pat-ente de sargento. Seguiram-se trs anos debatalha durante os quais Bierce se destacou devrias maneiras, at chamar a ateno do generalWilliam Hazen, que se transformaria numafigura-chave em sua vida. Hazen, percebendo ovalor de Bierce (que ento j era segundo-

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  • tenente), promoveu-o a primeiro-tenente enomeou-o para uma das misses mais perigosasda guerra: fazer reconhecimento de campo antesdas batalhas. Bierce ainda no completara 21anos.

    A nova funo agradou ao rapaz porvrias razes: primeiro, era um trabalho solitrio.Segundo, inclua a feitura de mapas e a redaode relatrios, tudo com rapidez e exatido, j queeram vidas que estavam em jogo. E foi assim queBierce trabalhou em perigosas misses de recon-hecimento nas campanhas do Tennessee, deChattanooga e de Atlanta, at o dia 23 de junhode 1864 (ia fazer 22 anos dali a um ms) quando,na batalha da montanha de Kenesaw, recebeuuma bala na cabea.

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  • "A bala rachou meu crnio como sefosse uma casca de noz", diria ele mais tarde,com seu habitual humor. Por sorte, Bierce foi res-gatado com vida e conseguiu sobreviver ao feri-mento. Convalescente, foi mandado para juntodos pais, Mas, assim que se recuperou depoisde meses tendo "brancos" e sentindo tonteiras ,voltou ativa, servindo na Gergia at que aguerra terminou, em abril de 1865. E dessa vezno voltou para casa. Seus pais nunca mais torn-ariam a v-lo.

    Depois de trabalhar durante um ano nareconstruo do Sul, foi novamente chamadopelo general Hazen que, em tempos de paz, tinhasido incumbido de explorar e mapear o Oeste e oqueria como seu assistente tcnico. Feliz da vida,Bierce aceitou.

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  • E, assim, embrenharam-se pelo VelhoOeste, atravessando o territrio dos ndios Sioux.Na mesma poca, o general Hazen fez uma re-comendao formal para que Bierce, at entoapenas um oficial voluntrio fosse aceito comooficial do Exrcito Regular americano. Mas, de-pois de muitas aventuras, quando finalmentechegaram a So Francisco, no fim de 1866,descobriram que Bierce havia sido aceito noExrcito Regular, s que com a patente reduzidapara segundo-tenente. E sem perspectiva de umapromoo to cedo. Embora adorasse o trabalho,era uma situao humilhante. Bierce fez cara oucoroa para decidir se aceitaria ou no. Jogou amoeda para cima para ver se ficaria com a pat-ente inferior ou se iria para a vida civil, a fim deexercer a nica profisso sobre a qual tinha ummnimo de conhecimento o jornalismo. A

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  • moeda decidiu jornalismo e Bierce aceitou overedicto. Quarenta anos depois, ele diria: "Amoeda estava certa.

    "Escrevo para as almas iluminadas quepreferem os vinhos secos aos doces, a razo aossentimentos, a sagacidade ao humor e o inglspuro s grias." Essa uma frase tpica do jor-nalista Bierce, que comeou trabalhando para umsemanrio, o San Francisco News Letter andCommercial Advertiser. Em pouco tempo,tornou-se editor e titular de uma coluna, na qual,desde o incio, j exercitava o sarcasmo e a crt-ica, que seriam suas marcas.

    Com os donos de jornais a favor da teor-ia de que violncia aumentava as vendas, muitosarticulistas atrevidos eram perseguidos e espan-cados pelo que escreviam, sendo s vezes

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  • obrigados a deixar a cidade. Bierce, nesse inciode carreira, escrevia com veneno e brutalidaderaramente superados na histria do jornalismoamericano (embora muito imitados). Havia quemapostasse sobre sua longevidade. Mas o fato que, de novo, ele sobreviveu.

    Independente e dizendo o que queria,mantinha com o dono do jornal, Fred Marriott,uma relao de respeito mtuo e este ltimo ja-mais lhe dava ordens, apenas sugestes. A par-ceria deu certo, o jornal vendeu mais e Biercecomeou a ganhar dinheiro a ponto de reuniras condies para se casar. Em 1871, casou-secom Molly Day, uma jovem da sociedade de SoFrancisco, cujo pai, rico, financiou a ida dojovem casal para Londres, onde passariam umalonga temporada. A inteno de Bierce era ser

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  • escritor, mas as dificuldades eram muitas e, em1875, ele acabou voltando para So Francisco,trazendo na bagagem muita experincia e umaforte reputao, mas sem emprego vista.

    Nos anos que se seguiram, chegou apensar em largar o jornalismo e trabalhou comogerente de uma mina de ouro, aderindo febre dabusca fortuna fcil, mas sua participao naCorrida do Ouro deu em nada e, depois disso,nunca mais ousou desobedecer moeda de seudestino. Acabou tornando-se editor-chefe daWasp, uma revista de poltica e humor, ondeficou de 1881 a 1886, desenhando charges polt-icas, escrevendo editoriais arrasadores e atirando,em todas as direes, seu sarcasmo impiedoso.Foi um perodo produtivo e brilhante, mas, emsua vida particular, as coisas no andavam muito

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  • boas. J era, ento, pai de trs filhos, dois meni-nos e uma menina, mas estava mal de finanas(seu sogro tinha falido), bebia muito e brigavacada vez mais com a mulher, de quem acabaria seseparando.

    Foi por essa poca, j com mais de 40anos, que Bierce comeou a escrever fico.Escreveu principalmente contos de horror, dehumor, de guerra , reiterando na prtica aquiloque afirmava em suas crticas literrias: que umromance apenas uma maneira mais fcil de es-crever um conto. Mantendo uma pitada de de-boche mesmo nas histrias mais aterrorizantes(quase podemos ouvir sua risada por trs dasfrases), escreveu tambm poemas e fbulas,tendo comeado, em 1881, a preparar o Di-cionrio do diabo, em que demolia conceitos, de

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  • A a Z, com sua viso cnica e debochada domundo.

    Um dia, em 1887, como ele contaria de-pois, um jovem bateu sua porta: era WilliamRandolph Hearst, na poca com 24 anos, queacabara de receber das mos do pai o jornal Ex-aminer e vinha convidar Bierce para trabalharcom ele. Era o incio da uma parceria que durariavinte anos e marcaria de forma definitiva ahistria do jornalismo americano Hearst,como se sabe, seria o modelo usado por OrsonWelles em seu filme Cidado Kane. Duranteaquelas duas dcadas, Bierce e Hearst chegarama se odiar, mas de alguma forma continuaram tra-balhando juntos, pois a virulncia do primeiroservia aos interesses do segundo. Bierce nopoupava ningum: polticos, prostitutas,

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  • feministas, escritores que considerava medocres,fazendeiros, sindicalistas, jornalistas opositores eamigos com quem tivesse brigado. Quando deix-ou So Francisco e foi trabalhar em Washington,houve quem dissesse que se mudara para fugirdos inimigos.

    Apesar do olhar intenso, Bierce era umhomem de fala mansa, que se tornava cada vezmais suave medida que ia ficando furioso.Aqueles que o conheciam apenas pelo que liamno jornal, ficavam muitas vezes surpresos comsuas maneiras gentis e chegavam a encantar-secom ele, embora, claro, passassem a odi-lo as-sim que o contato pessoal se aprofundava umpouco. Trs homens que conviveram com Biercee escreveram perfis dele Adolphe de Castro,George Sterling e Walter Neale traaram

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  • retratos to diversos que difcil acreditar que es-tivessem falando do mesmo homem. Bierce eraum solitrio. Capaz de chutar um cachorro queaparecesse na sua frente porque odiava seuslatidos, seu cheiro e sua vulgaridade , podiapor outro lado comover-se com pequenas cri-aturas indefesas, acolhendo filhotes de pssarosque no conseguissem voar e at ratinhosdoentes.

    No jornal, mantinha sobre sua escrivan-inha um crnio humano e uma caixa de charutos.Quando perguntado sobre aqueles objetos, diziaque o crnio era o que restara de um velhoamigo, enquanto a caixa guardava as cinzas deum crtico rival. E falava isso sem rir. Era con-hecido em So Francisco como "the bitterBierce" (o amargo Bierce) e entre seus desafetos

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  • para citar apenas os da rea literria es-tavam figuras como Henry James e Jack London.

    Mesmo na vida pessoal, era capaz daspiores vilanias quando queria atingir seus objet-ivos, embora fosse corretssimo em questesfinanceiras. Conta-se que, ao saber que seu filhomais novo pretendia casar-se com uma moa quedesaprovava, Bierce teria acabado com os planosdo rapaz inventando que a moa era sua irmilegtima. Com tudo isso, evidente que era cadavez mais odiado. E comeou a receber o troco.Houve quem o acusasse de ter sido o principalculpado pelas tragdias que abateram sua famlia.E no foram poucas. Seu filho mais velho morreuassassinado. Alguns anos depois, o mais jovemmorreu de alcoolismo. A mulher o largou e, porcausa da separao, Bierce nunca mais viu a

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  • filha. Albert, nico irmo com quem continuavase relacionando, morreu pouco depois de receberuma carta em que Bierce o desancava, pro-vocando comentrios de que as palavras rudes otinham matado de desgosto. Bierce era cruel atconsigo mesmo. Sofria de asma e mergulhavacada vez mais fundo no alcoolismo, tendo sofridopelo menos um ataque de delirium tremem.J no escrevia fico (seus ltimos contos datamde 1896) e fechava-se cada vez mais em simesmo, com seu temperamento irascveltornando-se intolervel at para os amigos maischegados e mais pacientes.

    At que, no vero de 1913, aos 71 anos,velho, amargo e doente, mas ainda uma lendaviva, Ambrose Gwinnett Bierce armou a cena fi-nal em que escaparia da civilizao que tanto

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  • detratara. E, em algum lugar do Mxico nin-gum sabe exatamente onde, nem quando, nemcomo , viu-se frente a frente com a person-agem que era uma de suas obsesses: a morte.

    Em muitas de suas histrias, Bierce jparecia farejar essa morte. Em seus contos dehorror, ele tem alguns temas recorrentes: umhomem caminha sozinho, geralmente noite,num descampado ou numa floresta, sem saberbem se est desperto ou se tudo um sonho.Sente uma certa inquietao, talvez a conscinciade um crime cometido, embora desconhea osdetalhes de sua tragdia. Em muitos de seus con-tos, algum desaparece sem deixar trao ou, oque talvez seja ainda mais horripilante, deixandopara trs indcios de sua presena assombrada.

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  • Bi...