ambiente e apropria§£o - valter casseti

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Ambiente e Apropriação do Relevo

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  • VALTER CASSETI

    AMBIENTE E APROPRIAO DO RELEVO

    SUMRIO Introduo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 1. Relaes Homem-Natureza e suas Implicaes . . . . . . . . . 10 Conceito de Natureza . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 10 O Trabalho como Mediador das Relaes Homem-Natureza . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14 Relaes de Produo e Relaes Homem-Natureza . . . . . 17 Relao Homem-Natureza no Sistema de Produo Capitalista . . . . . . . . . . . . . 21 Apropriao Privada da Natureza como Relao de Negatividade . . . . . . . . . . . . . . . . 24 2. O Significado do Relevo no Estudo Ambiental . . . . . . . . . 28 Geossistema como Ponto de Partida 29 O Relevo na Anlise Geogrfico-Ambiental 34 Conceito de Geomorfologia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35 Sntese Evolutiva das Posturas Geomorfolgicas . . . . . . . 38 Geomorfologia Ambiental . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 46 3. Dinmica Processual do Relevo: A Vertente comoCategoria 54 Conceito de Vertente em Geomorfologia . . . . . . . . . . . . . 55 Relaes Processuais das Vertentes (As RelaesExternas) . . . . . . . 63 Fatores que Comandam o Balano Morfogentico daVertente 67 Relao Vertente-Sistema Hidrogrfico . . . . . . . . . . . . . 72 Da Cobertura Vegetal na Estabilidade da Vertente. .. . .. 74 Processos Denudacionas Decorrentes da Apropriao e Transformao da Vertente 79 Ocupao da Categoria Vertente . . . . . . . . . . . . . . . . . . 86 4. Derivaes Geomrfco-Ambientais e suas Implicaes .. 92 Impactos Geomrfco-Ambientais em reas Rurais . . . .. 97 Alteraes Hidrodinmicas das Vertentes em reas Urbanizadas e suas Implicaes 113 Concluses . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 132

    Bibliografia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 137 O Autor no Contexto . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 147

  • INTRODUO O presente trabalho procura chamar ateno para o significado do relevo, sobretudo como suporte

    das derivaes ambientais observadas durante o processo de apropriao e transformao realizado pelo homem. Para entender tal considerao, necessrio se faz partir do princpio de que o relevo se constitui

    em produto do antagonismo das foras endgenas (foras tectogenticas) e exgenas (mecanismos morfodinmicos), registrado ao longo do tempo geolgico, e responsvel pelo equilbrio ecolgico. , portanto, atravs do jogo dos referidos componentes que se estruturam o solo e sua cobertura vegetal, os quais, associados s riquezas minerais, constituem a maior parte dos recursos responsveis pela materializao da produo. evidente que o recurso por si s no poderia ser materializado ou transformado em produo se o homem no estivesse presente na paisagem geogrfica, assim como no seria possvel conceber o prprio conceito de espao.

    Aps apresentar uma rpida evoluo do conceito de natureza (a natureza externa e a unicidade natureza-sociedade), procura-se demonstrar sua relao dialtica com o homem (foras produtivas), evidenciando que essa relao encontra-se vinculada s relaes entre os prprios homens (relaes de produo). Portanto, ao considerar o espao produzido social como resultado das relaes entre o homem e a natureza, procura-se justificar as possveis implicaes ambientais (relao de negatividade) pelas prprias relacoes sociais de produo (Tpico 1). D-se nfase ao modo de produo capitalista (apropriao privada da natureza) como forma de dilapidao da capacidade produtiva da terra.

    Num segundo momento, procura-se evidenciar o relevo como componente do estrato geogrfico que reflete o jogo das interaes naturais e sociais. Demonstra-se a importncia da cincia geogrfica nos estudos ecolgicos, uma vez que se dispe dos mtodos necessrios e informaes cientificas sobre o meio natural e seus re-cursos, bem como o seu aproveitamento econmico pelo homem (relaes com as leis especficas da natureza como forma de servir-se dela e de seus objetivos).

    A geomorfologia, por sua vez, como integrante da anlise geogrfica e responsvel pela compreenso do comportamento do relevo, fundamentando-se na noo de "fisiologia da paisagem", procura evidenciar, de uma forma dinmica, as derivaes ambientais resultantes do processo de apropriao e transformao do relevo ou de suas interfaces (como a cobertura vegetal) pelo homem (Tpico 2). Esse fato oferece um significado social geomorfologia, com consequente interesse para a cincia geogrfica.

    No terceiro tpico, utilizando-se o conceito de vertente (a vertente como categoria central da estrutura do pensamento) e das relaes processuais (processos morfogenticos e pedogenticos), procura-se oferecer algumas noes elementares necessrias compreenso da dinmica do relevo. Procura-se mostrar ainda que, atravs da apropriao e transformao da natureza pelo homem, inicialmente atravs da explorao biolgica,

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  • tem-se a ruptura do equilbrio climxico (relao entre o potencial ecolgico e explorao biolgica), originando implicaes resistsicas.

    Aps consideraes a respeito dos fenmenos externos, procura-se demonstrar o significado das relaes internas, que individualizam a essncia da categoria vertente, que juntos (fenmenos e relaes) representam o contedo da paisagem.

    Finalizando (Tpico 4), so apresentados alguns exemplos de estudos de caso, em que o processo de ocupao das vertentes e demais compartimentos tem produzido impactos ambientais, momento que se aproveita para se considerarem as implicaes polticas e econmicas nos efeitos de degradao registrados (concepo malthusiana dos "azares" da natureza). Ao mesmo tempo em que se propem algumas alternativas, preventivas e corretvas, fundamentadas em uma tcnica natural, chama-se a ateno para a necessidade da organizao da sociedade, sobretudo da classe trabalhadora que sofre os efeitos diretos das contradies prprias do sistema de produo capitalista, em defesa dos valores ambientais, obrigando assim, conforme Cont (1986), "o capitalismo a fazer algo que no pode realizar sem se contradizer ostensivamente".

    Os fundamentos metodolgicos da anlise geomorfolgica foram desenvolvidos com base nos nveis sistematizados por Ab'Sa-ber (1969); procura-se demonstrar o significado do compartimento topomorfolgico e de sua estrutura superficial (ou formao superficial) na forma ou maneira de ocupao, considerando-se sobretudo os efeitos processuais determinantes. Tal anlise tem por objeti-vo alertar para a necessidade de preservao de certos compartimentos, independentemente da "espontaneidade" que caracteriza os anseios do sistema de produo capitalista; ou independentemente de tratamentos tcnicos sofisticados e caros, que muitas vezes tm por objetivo exclusivo fortalecer os interesses do prprio capital em detrimento das necessidades reais da sociedade. Pretende-se, ainda, aleitar para a necessidade de uma preocupao constante com o processo de ocupao de compartimentos considerados "favorveis", observando-se sempre a importncia das relaes processuais.

    RELAES HOMEM-NATUREZA E SUAS IMPLICAES

    Antes de se iniciar uma anlise especfica so indispensveis algumas consideraes. preciso refletir sobre o conceito de "natureza", fundamental ao direcionamento da cincia, que incorpora a teoria integral do espao.

    CONCEITO DE NATUREZA

    Esse conceito tem sido utilizado largamente tanto pela cincia natural como pela social. Contudo, pouca discusso metodolgica tem acontecido nos ltimos anos.

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    EspndolaNotaPAISAGEM COMO ATRIBUTO DE INTERAO !

  • Tal descuido tem sido considerado consistente com a prtica contempornea da cincia e com a sua auto-imagem. Para Smith & O'Keefe (1980), a "cincia natural" uma relquia histrica, que aparece nos sculos XVI e XV, com a necessidade de apropriao da natureza pela indstria, refletindo essa necessidade concretamente por continuar posicionando a natureza como totalmente externa atividade humana. "No preciso momento em que a natureza estava sendo teorizada como externa, contudo, o ltimo vestgio dessa extemalidade estava sendo praticamente destrudo."

    A tradio positivista pressupe que a natureza existe nela e por ela mesma, externa s atividades humanas. Assim, alm de extema, o paradigma positivista revela uma concepo dualstica da natureza.

    Conforme os autores considerados, a concepo positivista de natureza dada dualisticamente, contraditoriamente, por um dos trs principais caminhos:

    a) A "natureza" estudada exclusivamente pela cincia natural, enquanto a cincia social preocupa-se exclusivamente com a sociedade, a qual no tem nada a ver com a natureza;

    b) A "natureza" da cincia natural supostamente independente das atividades humanas, enquanto a "natureza" da cincia social vista como criada socialmente. Portanto, permanece uma contradio da natureza real, que inco