Althusser - Quem Tem Medo

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    QUEM TEM MEDO DE LOUIS ALTHUSSER?

    Carlos Henrique Escobar *

    necessrio que se saiba, e mais do que isso que se diga, que a Questo

    Althusser no dominante, entre ns, uma questo terica, mas sobretudo uma

    questo poltica. E poltica no apenas no que concerne s tendncias mais

    conseqentes e menos conseqentes na esquerda, mas tambm no que diz respeito

    ao poder intelectual entre setores da pequena burguesia.

    Chamo a ateno para os comeos dos estudos althusserianos no Brasil e na

    pronta e agressiva repulsa que lideranas intelectuais e universitrias e lideranas

    poltico-reformistas a isso demonstraram.

    A reflexo de Althusser no interior do marxismo, com as delimitaes terico-

    conceituais do Materialismo Histrico e do Materialismo Dialtico, com o

    rastreamento crtico dos desvios humanistas, historicista e economicistas, estava

    destinada a um significativo impacto intelectual e poltico em todo mundo. O ritmo

    impressionante de contraposio e de articulao da biografia intelectual de Marx-

    Engels e a estruturao paulatina da cincia da histria servia nos livros de Althusser

    aos intelectuais e aos militantes polticos como um meio novo e vigoroso de escapar

    aos atravessamentos filosficos reacionrios, que os intelectuais da burguesia

    operavam no interior do marxismo. E foi particularmente por a que ele serviu desde

    os anos 1960 como parte decisiva para que em toda parte o marxismo terico e

    poltico se distinguisse daquilo que procuravam fazer passar como tal com explcitas

    intenes de sabot-lo. No nos cabe aqui, como j fizemos em outros trabalhos1,

    classificar e avaliar as contribuies que os trabalhos de Althusser trouxeram para o

    universo intelectual e poltico de todos os marxistas. Basta lembrar os seus estudos

    de filosofia das cincias, do processo do conhecimento da filosofia espontnea dos

    cientistas, da dialtica materialista, da crtica a Hegel, do conceito de histria, do

    conceito de transio, de determinao em ltima instncia, da ideologia e dos

    aparelhos ideolgicos de Estado e mais recentemente, com Balibar, da defesa do

    leninismo ou, mais precisamente, da Ditadura do Proletariado no corpo dos objetivos

    1 Resposta a Carpeaux: Estruturalismo In Revista Tempo Brasileiro, n15/16, 1969; As cincias e a filosofia, Ed. Imago, 1975; Cincia da histria e ideologia, Ed. Graal, 1979.

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    de um Partido Comunista e da Revoluo, para que se tenha um quadro referencial

    provisrio da sua indiscutvel importncia. Esta obra de certa forma sucinta e at

    mesmo escrita pelo seu lado essencial, e ento enxuta, municiaria em nvel

    planetrio os esforos por defender e fazer avanar o marxismo terico. O que,

    ademais, no impediu que muitas vezes Althusser tenha, ele mesmo, voltado sobre

    os seus textos e armado crticas e autocrticas a certas caractersticas da sua obra,

    da mesma forma como, naturalmente, toda obra filosfica est sujeita a retificaes.

    Crticas e autocrticas que expressam a mobilidade do seu pensamento, que

    inserem em seu centro um militante preocupado com o significado poltico de sua

    obra e que tambm so precisas e significativamente pouco numerosas. Estas

    retificaes tericas que muitas vezes no so seno uma formulao, agora mais

    clara, dos seus pensamentos como no caso do corte2 visam facilitar o

    entendimento, sobretudo em reas tericas-polticas, brutalizadas excessivamente

    pelo reformismo e pela ideologia universitria. Outras vezes so correes radicais e

    significam uma completa e taxativa crtica as posies assumidas anteriormente.

    Refiro-me, por exemplo, Teoria com T maisculo, que recuperava no seio do

    marxismo a fantasia da Filosofia como Cincia das cincias, e que, no corpo destes

    questionamentos (mais recentes), tomou a forma de um posicionamento mais

    leninista e ento poltico, ou seja, da filosofia como a poltica no interior da teoria.

    E Althusser diz se referindo aos seus trabalhos: Eu queria defender o marxismo

    contra as ameaas reais da ideologia burguesa: seria necessrio mostrar sua

    novidade revolucionria; seria, portanto necessrio provar que o marxismo

    antagnico ideologia burguesa, que s pde-se desenvolver em Marx e no

    movimento operrio sob a condio de uma ruptura radical e continuada com a

    ideologia burguesa, e de uma luta incessante contra os assaltos dessa ideologia. Esta

    tese era certa: ela certa3

    O que importante lembrar e at mesmo escandaloso que seus

    detratores tm encaminhado as suas Crticas somente na medida em que Althusser

    lhes indica os pontos questionveis do seu prprio pensamento. A ttica, a meu ver,

    desonesta, de simular uma crtica original nos lugares onde o prprio Althusser

    2 Elementos de autocrtica, 1972, diz Althusser: O corte no uma iluso nem uma inveno pura e simples como afirma John Lewis. Lamento mas no cederei sobre este ponto. J disse que h necessidade de interpretar o corte sem reduzi-lo mas vejamos como as coisas se passam... in Posies I, p. 81. 3 Posies I, pg. 80, Ed. Graal.

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    reviu seu pensamento sem mencionar estes seus prprios textos autocrticos,

    habitual no Brasil, mas tem origem externa. Se Rancire, na Frana, consegue com

    certa inspirao foucaultiana4, levantar algumas questes a respeito de um outro

    ponto das reflexes de Althusser, j Badiou, por sua vez, no vai alm de um certo

    estreitamento do pensamento de Mao, cujo objetivo to somente fazer passar

    como trabalho crtico quilo que no tem outra forma que uma mostragem limite do

    marxismo esquemtico5. No Brasil, esta crtica com um grande atraso no se bastou

    em repetir o que se dizia l fora, na verdade, ela jamais chegou s formas de uma

    anlise crtica respeitvel do texto althusseriano. Em geral, ela en passant e visa

    assegurar um poder intelectual local ou esvaziar preventivamente uma oposio

    poltica que se desenhava e que persiste nas suas formas de aproveitamento

    conseqente dos trabalhos de Althusser.

    Refiro-me aos anos que se seguiram ao golpe de 1964, quando o reformismo

    se tornou tal como no podia deixar de ser - objeto de suspeitas polticas e crticas

    tericas. Sua sustentao filosfica em um marxismo atravessado por

    humanismos de todas as ordens, por Lukcs, por Garaudy, por Goldmann, e sua

    prtica poltica de alianas com o inimigo de classe, de reboqusmos, de

    subservincias, etc., sua liderana, enfim, burgus, pequeno-burguesa, seu

    autoritarismo interno e sua humilhante subordinao a um controle exterior, - ele

    mesmo equvoco e estalinista ademais incapaz de fazer anlises de nossa

    conjuntura, o tornava objeto de preocupaes e investigaes crticas de toda a nova

    esquerda que assumia as lutas contra a Ditadura j em seus comeos.

    Esta luta subterrnea, no seio das esquerdas, ela mesma contempornea com

    as cises no seio do PCB e com as formaes de agrupamentos polticos que iriam

    liderar as lutas de massa de 1967, 1968 e 1969, e depois a luta armada, teve quase

    sempre no althusserianismo filosfico em graus e importncia variadas seu

    esteio terico e seu meio poltico.

    desta poca a traduo e edio do Pour Marx no Brasil6, so desta poca

    tambm meus artigos encaminhando os trabalhos do althusserianismo no marxismo

    Um Marxismo com Marx (Revista Tempo Brasileiro, 1966), Resposta a Carpeaux

    4 Jaques Rancire, La leon dAlthusser, Gallimard, 1974. 5 Alain Badiou, Theorie de la contradiction, Maspero, 1975. 6 Editado pela Zahar.

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    (Revista Tempo Brasileiro, 1968), o nmero coletivo sobre epistemologia,

    encaminhando o corte (editado pela Vozes, 1970) e quase uma dezena de

    tradues feitas, entre outras, para a editora Zahar, Tempo Brasileiro, Vozes,

    publicaes internas de Universidades, etc. Em outro contexto, no seio efetivo da

    luta poltica, numerosos companheiros liam e estudavam Althusser. Ora, tudo isso foi

    permanentemente objeto de uma luta subterrnea, repleta de hostilidades, por parte

    dos donos, como se diz, do saber filosfico no seio do AIE universitrio7 ou ainda do

    reformismo militante interessado em calar com sua mquina um discurso marxista

    conseqente que o punha politicamente a nu.

    Neste empenho crtico oportunista se empenhavam intelectuais dentro e fora

    da Universidade que nuanavam com diferentes tons uma esquerda tradicionalmente

    omissa, j entronada pela burguesia no poder intelectual, todos eles ativos

    contribuintes dessa frente anti-althusseriana que paulatinamente ia se revelando

    uma frente bem menos interessada em filosofar que em defender seus prestgios

    ameaados.

    Mas seria de nossa parte parcialidade, se no lembrssemos na direita (na

    direita poltica) um empenho paralelo em combater, no apenas repressivamente

    mas ideologicamente tambm, o alcance que o pensamento de Althusser ganhava

    politicamente na prtica das novas esquerdas. Fao apenas duas referencias pois

    as fontes crticas a Althusser aqui so numerosas a primeira delas se refere a um

    livro do filsofo catlico Tarcsio Padilha (nos comeos dos anos 1970) que prevenia

    as autoridades a respeito do althusserianismo dos terroristas (expresso sua)8; e,

    7 Aparelho Ideolgico de Estado. 8 Trata-se do livro Filosofia, ideologia e realidade brasileira de 1971. Apesar de Tarcsio Padilha dar destaque ao pensamento de Althusser nesse livro (pp. 114-118), no h uma meno direta sobre a relao da teoria de Althusser com os grupos terroristas como afirma Escobar. Esse equvoco certamente se deveu por ser uma citao de memria. Contudo, isso no invalida a crtica de Escobar ao pensador ultraconservador, visto que em algumas passagens de sua obra, Padilha associa diretamente a influncia dos professores universitrios marxistas nas aes subversivas e na dissoluo da famlia como pode-se perceber nos seguintes trechos desse livro que mostram a sua intolerncia com o marxismo: Diante da ameaa de tal porte, qual a atitude a adotar e quais as reais possibilidades do Poder Nacional? Est o povo brasileiro em condies de enfrentar com xito a agresso totalitria, configurada na vastssima literatura subversiva que domina o nosso parque editorial, na pregao nos meios universitrios, no terrorismo e na aliana do marxismo com o marcusismo para dissolver a famlia? (...) Cuidamos s vezes em demasia de afastar pessoas de certas atividades e deixamos de atentar para o fato de que a literatura que domina nossas livrarias anestesia diariamente a populao contra a divulgao da filosofia democrtica promovendo inversamente um trabalho de flego em favor do totalitarismo comunista. (...) dever do Estado e do cidado prestigiar as instituies permanentes. A ningum deve ocorrer a idia de se lanar contra a Igreja, a Universidade, a Famlia, a Justia, o Parlamento, pois ao proceder deste modo estaremos enfraquecendo a comunidade, retirando-lhe as pilastras de sustentao. nosso dever, isto sim, expurgar das instituies aqueles dentre seus integrantes que conspiram contra as finalidades especficas da instituio. (...) Um professor marcusiano

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    em seguida, relembro um incidente testemunhado por companheiros presos no Doi-

    Codi do Rio de Janeiro. Perguntaram-nos se lamos Althusser e, caso tivssemos lido,

    que livros eram esses. Esses interrogatrios foram feitos em diferentes ocasies e a

    diferentes presos polticos do perodo.

    Nesse trabalho persecutrio do pensamento de Althusser procurou-se

    confundi-lo com o formalismo, com o teoricismo e sobretudo com o estruturalismo.

    Esse foi em parte um equvoco que a Revista Civilizao [Brasileira] dos anos 1960

    procurou criar. Se lembrarmos afinal que nem Foucault, nem Derrida, nem mesmo

    Lvi-Strauss hoje que abandona o modelo lingstico pelo modelo musical podem

    ser chamados de estruturalistas, j nos damos conta do absurdo e da leviandade

    desta crtica a Althusser. No que diz respeito a esse autor, o estruturalismo de que o

    acusavam (e o acusam ainda hoje) parece concernir particularmente temtica da

    causalidade to seguidamente discutida em seus livros.

    Ora, quando Althusser se refere eficcia da causa ausente que ele indica

    ser uma categoria infinitamente mais spinozista que estruturalista, ou o termo de

    causalidade estrutural (tambm spinozista) como a imensa descoberta de Marx,

    ela pode pela falta de avisos lembrar certas nfases daquele perodo nomeado

    filosoficamente de estruturalista. A verdade, porm, que Althusser se esforava

    por liberar a dialtica marxista o fantasma hegeliano e acrescentar a ela sua

    independncia frente idia de Sujeito, de Origem e de Fim. E isso jamais significou

    confundi-la com o achatamento da estrutura pelo estruturalismo e de sua equvoca

    reduo em unidades ltimas. A estrutura a que o marxismo se refere no

    apenas outra coisa que uma estrutura, isto , um processo, mais do que o isso,

    contradies articuladas e desiguais. A filosofia tendencial do estruturalismo nas

    formas racionalistas, mecanicistas e combinatrias (etc.) jamais esteve presente nos

    textos althusserianos, mas para saber disso necessrio como para tudo que diz

    respeito identificao terico-filosfica de um pensamento que saibamos

    est atentando contra o seu munus de educar. Est, ao contrrio, retirando da juventude o seu maior capital o idealismo. Deve por essa razo ser afastado. (...) No de estranhar-se que amanh os jornais se rebelem contra a sociedade, se os seus mentores lhe instilaram na mente a revolta, o dio ou, pelo menos, o desestmulo. Cada jovem terrorista tem em sua biografia professores ou livros subversivos. Autores, editores e professores so a matriz da subverso. a liderana intelectual que enseja a atmosfera subversiva (pp. 125, 126, 127, 203) (Nota de LEM).

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    distinguir, por exemplo, aquilo que Marx quer dizer com combinao (Verbindung)

    e sua diferena com uma filosofia do Combinatrio formal9.

    A tentativa de se fazer um uso crtico destas questes usando a nossa falta de

    informao, procurando confundir-nos, foi a prtica em combinado dos intelectuais

    universitrios e dos reformistas. Mas importante que hoje saibamos situar esse

    procedimento no apenas em cima de intelectuais determinados, mas sim nos

    espaos institucionais onde eles se encontravam. Refiro-me tanto ao aparelho

    escolar (e a Universidade), quanto reforma como um aparelho poltico da burguesia

    internalizado dentro da esquerda. Neste sentido cabia tal como ainda hoje cabe

    esclarecer melhor o que uma Universidade como parte do AIE escolar e qual o seu

    papel efetivo. Cabia e cabe, como j dissemos, precisar a funo de classe deste

    aparelho, no apenas distribuindo os agentes sociais em classe, mas reafirmando a

    separao do trabalho intelectual e do trabalho manual, como parte desta

    distribuio dos agentes e como privilgio oferecido, sob condies burguesia e

    pequeno burguesia escolarizada.

    Os indcios dessa fidelidade, entre ns, desta pequena burguesia

    intelectualizada tm diversas formas. Por exemplo, j em 1968 quando as

    manifestaes de massa ganhavam as praas no Brasil e a universidade ao nvel dos

    estudantes se achava marcadamente engajada neste movimento, muitos dos

    professores intelectualizados vacilavam. Alis, aqueles professores e entre eles

    exatamente alguns que se apresentavam como marxistas, agora se posicionavam

    pela defesa intransigente da universidade como uma instituio vivida por eles

    misteriosamente como neutra e ento acima das classes. A fidelidade destes

    intelectuais instrumentalizada pelas obrigaes que o sistema espera do AIE escolar

    deve, no entanto, ganhar outras sofisticaes tais como aquelas de estabelecer

    intelectualmente e sob tticas diversas a luta ideolgica em nome das classes

    dominantes. Seja assumindo as chamadas cincias sociais frente ao materialismo

    histrico, seja atravessando este ltimo com Max Weber, ou ento associando Marx

    com os funcionalistas ou qualquer outra escola do pensamento social burgus que,

    de uma maneira ou outra, signifique a despotencializao do marxismo.

    9 Vide Etienne Balibar, in Sur la dialectique historique in Cinq tudes du materialisme historique, 1974, p. 204.

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    Se rastrearmos as universidades europias desde o comeo do sculo, e em

    particular quando a luta de classe se intensifica, veremos a universidade em ao,

    isto , veremos atuante um certo marxismo universitrio, seja ele na forma de uma

    composio Marx e Kant, Marx e Hegel, seja na forma de um marxismo que se

    centra nas anlises da superestrutura em separado (Adorno e seus companheiros)

    ou, pouco importa como, desde que seja e prove ser uma forma auxiliar da luta que

    o sistema eventualmente trave com as posies polticas e as organizaes polticas

    das classes dominadas. Alemanha, Frana e Itlia e, porque no, a Amrica Latina,

    possuem seus expoentes deste marxismo da traio; ele mesmo parte de um jogo

    sujo da universidade, que a sua vez parte fundamental do sistema contra o

    materialismo histrico e as formas ideolgicas da luta dos trabalhadores.

    No caso especfico do Brasil e sobretudo nestes ltimos anos - quando da

    abertura autorizada de cima para baixo o marxismo universitrio paulista com

    suas figuras notrias foi investido pelo sistema de tarefas bastante especficas. Isto

    , ocupar o espao ideolgico e se tornar fonte das explicaes e solues polticas

    eventuais fazendo uso de seu prestgio e da posio favorvel em que se encontrava

    por respeito aos estudantes e trabalhadores. Beneficiados pela grande imprensa

    inclusive editoriais, onde estes mesmos intelectuais eram nomeados juntamente com

    as suas expresses habituais como sociedade civil, nao, estado e indivduo,

    participao, liberdade democrtico-burguesas, etc. eles puderam imprimir,

    favoravelmente ao sistema, certa direo dentro das esquerdas, que significou

    transform-las em um cabo eleitoral gigantesco de candidatos emedebistas10 ao

    mesmo tempo que influenciavam no campo da luta sindical com os temas da

    unidade e da moderao, favorecendo e promovendo a ascenso, a postos de

    comando do peleguismo reformista.

    Este movimento de alguma forma tambm uma luta acirrada contra o

    pensamento de Althusser e, sobretudo, contra a forma conseqente de sua insero

    entre ns. nesse sentido, alis, que as questes por um ngulo fundamental do

    idealismo, do continusmo epistemolgico, do empirismo, das deformaes

    humanistas, historicistas e economicistas do marxismo se secundarizam ainda que

    de alguma forma articuladas com o significado poltico dessa viscosa oposio

    queles que entre ns fazem algum uso do pensamento de Althusser, isto , queles

    10 Escobar refere-se ao MDB (Movimento Democrtico Brasileiro) partido de oposio legitimado e reconhecido pela ditadura e extinto em 1979, tornando-se o PMDB.

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    entre ns que combatem as formas polticas e tericas desviantes do marxismo-

    leninismo usando e tambm intervindo, se for o caso, criticamente nos materiais

    althusserianos.

    Nesse sentido, um posicionamento militante aos textos, declaraes e

    polticas de um Fernando Henrique Cardoso e de um [Jos] Arthur Giannotti so

    conjunturalmente importantes, para no lembrar aqui a legio de discpulos tericos

    e polticos que estas duas figuras do oportunismo universitrio granjearam. Os

    pecados do senhor A. Giannotti ultrapassam aquilo que chamaramos os termos

    particulares de sua qumica terica ler Marx em Hegel e finalmente decretar a

    falncia do marxismo para se tornarem toda uma escola filosfico-epistemolgica,

    onde o CEBRAP inteiro e departamentos inteiros da USP se inspiram. Recentemente

    digo em meados de 1978 Giannotti fez uma conferncia na PUC do Rio de

    Janeiro, onde ele dizia que O Capital de Marx j no serve para nada, sobretudo no

    serve para a anlise do capitalismo atual, visto que o mercado deixou de existir. No

    necessrio entrar em consideraes em torno das iluses em que as novas formas

    de acumulao capitalista fizeram chegar Giannotti; o que nos interessa aqui

    detectar a pressa com que ele e centena de outros vivem decretando a falncia

    da anlise marxista e a eternidade do capital. Ao lado disso, bom que se diga que -

    conforme, ademais, foi dito ento ao prprio Giannotti - sua exposio de Marx

    feita, paradoxalmente, em termos de essncia e fenmeno o que por um certo

    ngulo substancializa suas posies polticas notoriamente bolorentas e liberais.

    Todos ns sabemos da histria e da estruturao da Universidade do Brasil.

    No nos cabe agora relembrar sua articulao com as providncias que o Estado em

    estruturao (conforme a importncia mesma da burguesia industrial na composio

    das burguesias que perfaziam o novo bloco no poder a partir de 30), significou e

    continua a significar como parte nos aparelhos escolares e culturais em formao.

    No apenas So Paulo o deslocamento de capitais do campo para as tarefas

    concernentes industrializao, ou sua especificidade frente aos outros estados na

    histria econmica e poltica da dcada de 1930, mas o lugar da Universidade na

    sucesso de dispositivos encarregados de pensar por ela e de oferecer modelos

    econmicos e polticos, tais como o foram o ISEB, a Escola Superior de Guerra e

    tantos outros dispositivos historicamente identificados com as ideologias

    nacionalistas, populistas, desenvolvimentistas, etc. A converso recente da

  • 34

    universidade brasileira - conforme sua verdade social burguesa de meio de

    reproduo de classes e de eficcias tcnico-ideolgicas para ser hoje instrumento

    ainda mais precisado e inequvoco de reinventar formas conjunturais de

    reproduo poltico-ideolgicas se depreende de numerosos testemunhos. O que no

    quer dizer que a Universidade seja, como dispositivo da burguesia, apenas o espao

    fsico universitrio e no todas as formas de servio universitrios, ou que a eles

    dizem respeito como so numerosas entidades de prestao de servios

    concernentes facilitao e intensificao da explorao do trabalho. Neste trabalho

    universitrio esto engajados os intelectuais; neste trabalho eles esto ainda mais

    empenhados quando a instituio que os emprega tem explicitamente, a forma

    combinada de pensar por ela o mercado aquele mesmo mercado que Giannotti

    afirma como do passado e de acelerar as reflexes sobre as crises e as dificuldades

    por que passa a burguesia. No nos interessa discorrer sobre os capitais que

    municiam estas reflexes, que reproduzem esses quadros intelectuais

    universitrios e para-universitrios. Interessa-nos isso sim sublinhar que so

    particularmente esses os intelectuais os do CEBRAP, p. ex., que mais furiosamente

    se opem a que nossa juventude leia e discuta os textos de Althusser. Interessa-nos,

    verdade, articular a tradio acadmica destes intelectuais mesmo, se, como o

    caso, alguns deles tenham sido excludos da Universidade na fase mais sombria da

    Ditadura com a forma de suas posies e o significado dos seus papis nestes

    momentos de certa reorganizao do sistema.

    Trata-se de algo que vai alm das funes mais gerais da Universidade para

    se tornar a moeda mais recente e mais atual do sistema, seja no corpo dos trabalhos

    que figuram a luta ideolgica e antimarxista seja no empenho de certo

    pragmatismo das reflexes que concernem sociedade e isso j no esprito de um

    marcado taylorismo das anlises do social, no corpo das preocupaes e dos

    objetivos da explorao do trabalho e de reproduo das classes sociais.

    Esta tarefa inseparvel dos efeitos de prestgio que a escolarizao significa

    na pequena burguesia e uma prova humilhante disso se encontra nas pavonices, por

    exemplo, do senhor Fernando Henrique Cardoso, quando da entrevista Revista

    Status11 (S para homens, diz a revista). Nesta entrevista, o entrevistador chama

    11 A Revista Status foi uma revista masculina editada na dcada de 1970, sendo lanada em agosto de 1974 pela Editora Trs de Domingo Alzugaray, e dirigida pelo jornalista Mcio Borges da Fonseca, entre outros. A revista trazia alm dos ensaios fotogrficos com as grandes estrelas e atrizes da poca, um

  • 35

    F.H.C. de prncipe dos socilogos, designao imediatamente aceita pelo mesmo

    com o mesmo e incrvel despudor com que seu patrono epistemolgico (A. Giannotti)

    se autonomeou o mandarim da filosofia no Brasil. Trata-se enfim, com tudo isso,

    de se manter o controle das anlises de conjuntura, de engajar os intelectuais nestas

    tarefas, de ser para as esquerdas forjadas e burguesas e para aquelas sem

    condio de a isso se oporem o produtor destes conhecimentos e o inspirador de

    estratgias polticas. A fbrica da social-democracia, as palavras de ordem

    economicistas, as convocaes e mobilizaes funcionais, globais, no polticas, para

    as quais nada mais hostil que as questes concernentes luta de classe, s podem

    ver na penetrao dos trabalhos de Althusser entre ns um perigo radical que cabe

    evitar at mesmo com mentira, o silncio e a perseguio. Mentira quando se

    procura dizer e se diz que Althusser estruturalista, teoricista ou deletrio;

    silncio quando no se informa a fonte deste ou daquele conceito althusseriano de

    que nossos intelectuais se apropriam e no sem deixarem, de eles mesmos,

    criticarem em seguida Althusser. perseguio enfim, j que as tradues de

    Althusser e os trabalhos nele inspirados nem sempre usufruem do reconhecimento

    que academicamente pretendem seus autores (quando universitrios) ou se fazem e

    se realizam, vencendo obstculos materiais e ideolgicos que a eles se opem. Mas

    de tudo isso a fora e a significao do pensamento althusseriano vai se imprimindo

    entre ns e j tem como confirmada em todo mundo seu impacto indiscutvel e sua

    penetrao irrecusvel.

    A revista trimestral francesa Dialectique (n.s 15-16) dedica-se a coletar

    informaes em todo mundo do impacto dos trabalhos, por exemplo, de Lus Crespo,

    que nos fala de Louis Althusser na Espanha. Grahame Lock escreve a respeito da

    penetrao e do significado dos textos de Althusser na Inglaterra. A revista traz

    dezenas de outros testemunhos com autores do calibre de Christine Buci-

    Glucksmann, Regine Robin, Pierre Raymond, etc., todos explicitando a significao

    de seus trabalhos e a importncia que tm tido para se combater os desvios tericos

    e as equivocaes polticas que procuraram ter lhe impor as posies social-

    democrticas, economicistas, espontanestas, estalinistas, etc.

    elenco de colaboradores fixos entre os quais Paulo Francis, Daniel Ms e Igncio Loyla Brando. Um de seus maiores furos jornalsticos da revista foi a publicao da entrevista do lder montonero Mrio Eduardo Firminich concedida na clandestinidade ao jornalista Fernando Morais em janeiro de 1981, n78 (Nota de LEM).

  • 36

    Porm, bom que se diga, que no se trata aqui de dizer ou encaminhar que

    Althusser em seus estudos diz a verdade sobre Marx e o marxismo. Isto , no se

    trata de fazer dos seus textos e cursos um painel de verdades indiscutveis, mas de

    permitir que seus textos sejam lidos e discutidos, e que a fora de suas reflexes

    atue entre ns de forma crtica e combativa frente o marxismo universitrio e o

    reformismo poltico. Ademais, ele o primeiro a se voltar contra um uso dogmtico

    dos seus escritos, e como j dissemos, so suas crticas e autocrticas que

    atravessam os seus textos recentes complexificando e clarificando seu pensamento.

    Na Resposta a John Lewis, Althusser ironiza: Agradeo a Marxism Today por

    ter publicado o artigo de John Lewis sobre meus ensaios de filosofia marxista, Pour

    Marx e Lire Le Capital (1965).

    Diante de todos os membros da famlia imobilizados e de seus confrades

    silenciosos, o doutor John Lewis inclinou-se sobre o caso Althusser. Longamente. E

    apresentou o seu diagnstico: o doente sofre de dogmatismo agudo uma

    variedade medieval . O prognstico sombrio: o doente no ir longe.12

    Evidentemente, Althusser se diverte, o que em nada diminui o doutor John

    notrio a partir deste texto de Althusser o que o torna objeto de uma cuidadosa

    explicao dos seus pressupostos tericos.

    Continua Althusser: uma honra para mim, mas tambm a ocasio de me

    explicar, 12 anos depois. Meu primeiro artigo, que falava do Jovem Marx, data com

    efeito de 1960. Estamos agora em 1972.13 poca ento da publicao de Resposta a

    John Lewis, porm estamos em 1979, isto , 19 anos depois da publicao daquele

    seu primeiro artigo, e entre ns brasileiros a oposio a Althusser tem um sentido

    que ultrapassa estritamente a crtica terica e ganha um significado de luta polticas

    de tendncias. esse, enfim, o propsito mesmo de Althusser, isto , de ganhar um

    sentido poltico e militante antes que uma acepo intelectual da discusso dos seus

    trabalhos e do desdobramento mesmo do marxismo.

    12 Posies I, p. 15. 13 Idem, ibidem.

  • 37

    Alis, a reedio do Pour Marx pela Editora Zahar (agora com o ttulo A Favor

    de Marx)14 volta a nos mostrar as razes dominantes do trabalho terico de

    Althusser. Refiro-me particularmente ao Prefcio, onde excepcionalmente e num

    tom bem mais pessoal que sua autocrtica posterior Althusser fala de seus motivos

    polticos para ele interferir como terico no pensamento marxista em crise. Althusser

    deixa bem claro a como seu posicionamento de terico e pensador marxista resulta

    de uma situao poltica precisa e nela se justifica. E, achamos ns, isso bem mais

    que a eventualidade de uma interveno intelectual tpica para ser um trabalho

    politicamente calculado que cabe a ns, conforme a tradio e a correo leninista,

    ampliar e radicalizar.

    Observaes:

    1. O texto de Carlos Henrique Escobar est aqui reproduzido como foi publicado

    originalmente.

    2. As notas so de Luiz Eduardo Motta (LEM), elaboradas especialmente para a

    presente edio.

    * O autor do texto Doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

    14 O ttulo da primeira edio traduzida de Pour Marx foi Anlise crtica da teoria marxista, um ttulo de carter dbio aos olhos da censura da poca (Nota de LEM).