Althusser - Quem Tem Medo

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    QUEM TEM MEDO DE LOUIS ALTHUSSER?

    Carlos Henrique Escobar *

    necessrio que se saiba, e mais do que isso que se diga, que a Questo

    Althusser no dominante, entre ns, uma questo terica, mas sobretudo uma

    questo poltica. E poltica no apenas no que concerne s tendncias mais

    conseqentes e menos conseqentes na esquerda, mas tambm no que diz respeito

    ao poder intelectual entre setores da pequena burguesia.

    Chamo a ateno para os comeos dos estudos althusserianos no Brasil e na

    pronta e agressiva repulsa que lideranas intelectuais e universitrias e lideranas

    poltico-reformistas a isso demonstraram.

    A reflexo de Althusser no interior do marxismo, com as delimitaes terico-

    conceituais do Materialismo Histrico e do Materialismo Dialtico, com o

    rastreamento crtico dos desvios humanistas, historicista e economicistas, estava

    destinada a um significativo impacto intelectual e poltico em todo mundo. O ritmo

    impressionante de contraposio e de articulao da biografia intelectual de Marx-

    Engels e a estruturao paulatina da cincia da histria servia nos livros de Althusser

    aos intelectuais e aos militantes polticos como um meio novo e vigoroso de escapar

    aos atravessamentos filosficos reacionrios, que os intelectuais da burguesia

    operavam no interior do marxismo. E foi particularmente por a que ele serviu desde

    os anos 1960 como parte decisiva para que em toda parte o marxismo terico e

    poltico se distinguisse daquilo que procuravam fazer passar como tal com explcitas

    intenes de sabot-lo. No nos cabe aqui, como j fizemos em outros trabalhos1,

    classificar e avaliar as contribuies que os trabalhos de Althusser trouxeram para o

    universo intelectual e poltico de todos os marxistas. Basta lembrar os seus estudos

    de filosofia das cincias, do processo do conhecimento da filosofia espontnea dos

    cientistas, da dialtica materialista, da crtica a Hegel, do conceito de histria, do

    conceito de transio, de determinao em ltima instncia, da ideologia e dos

    aparelhos ideolgicos de Estado e mais recentemente, com Balibar, da defesa do

    leninismo ou, mais precisamente, da Ditadura do Proletariado no corpo dos objetivos

    1 Resposta a Carpeaux: Estruturalismo In Revista Tempo Brasileiro, n15/16, 1969; As cincias e a filosofia, Ed. Imago, 1975; Cincia da histria e ideologia, Ed. Graal, 1979.

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    de um Partido Comunista e da Revoluo, para que se tenha um quadro referencial

    provisrio da sua indiscutvel importncia. Esta obra de certa forma sucinta e at

    mesmo escrita pelo seu lado essencial, e ento enxuta, municiaria em nvel

    planetrio os esforos por defender e fazer avanar o marxismo terico. O que,

    ademais, no impediu que muitas vezes Althusser tenha, ele mesmo, voltado sobre

    os seus textos e armado crticas e autocrticas a certas caractersticas da sua obra,

    da mesma forma como, naturalmente, toda obra filosfica est sujeita a retificaes.

    Crticas e autocrticas que expressam a mobilidade do seu pensamento, que

    inserem em seu centro um militante preocupado com o significado poltico de sua

    obra e que tambm so precisas e significativamente pouco numerosas. Estas

    retificaes tericas que muitas vezes no so seno uma formulao, agora mais

    clara, dos seus pensamentos como no caso do corte2 visam facilitar o

    entendimento, sobretudo em reas tericas-polticas, brutalizadas excessivamente

    pelo reformismo e pela ideologia universitria. Outras vezes so correes radicais e

    significam uma completa e taxativa crtica as posies assumidas anteriormente.

    Refiro-me, por exemplo, Teoria com T maisculo, que recuperava no seio do

    marxismo a fantasia da Filosofia como Cincia das cincias, e que, no corpo destes

    questionamentos (mais recentes), tomou a forma de um posicionamento mais

    leninista e ento poltico, ou seja, da filosofia como a poltica no interior da teoria.

    E Althusser diz se referindo aos seus trabalhos: Eu queria defender o marxismo

    contra as ameaas reais da ideologia burguesa: seria necessrio mostrar sua

    novidade revolucionria; seria, portanto necessrio provar que o marxismo

    antagnico ideologia burguesa, que s pde-se desenvolver em Marx e no

    movimento operrio sob a condio de uma ruptura radical e continuada com a

    ideologia burguesa, e de uma luta incessante contra os assaltos dessa ideologia. Esta

    tese era certa: ela certa3

    O que importante lembrar e at mesmo escandaloso que seus

    detratores tm encaminhado as suas Crticas somente na medida em que Althusser

    lhes indica os pontos questionveis do seu prprio pensamento. A ttica, a meu ver,

    desonesta, de simular uma crtica original nos lugares onde o prprio Althusser

    2 Elementos de autocrtica, 1972, diz Althusser: O corte no uma iluso nem uma inveno pura e simples como afirma John Lewis. Lamento mas no cederei sobre este ponto. J disse que h necessidade de interpretar o corte sem reduzi-lo mas vejamos como as coisas se passam... in Posies I, p. 81. 3 Posies I, pg. 80, Ed. Graal.

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    reviu seu pensamento sem mencionar estes seus prprios textos autocrticos,

    habitual no Brasil, mas tem origem externa. Se Rancire, na Frana, consegue com

    certa inspirao foucaultiana4, levantar algumas questes a respeito de um outro

    ponto das reflexes de Althusser, j Badiou, por sua vez, no vai alm de um certo

    estreitamento do pensamento de Mao, cujo objetivo to somente fazer passar

    como trabalho crtico quilo que no tem outra forma que uma mostragem limite do

    marxismo esquemtico5. No Brasil, esta crtica com um grande atraso no se bastou

    em repetir o que se dizia l fora, na verdade, ela jamais chegou s formas de uma

    anlise crtica respeitvel do texto althusseriano. Em geral, ela en passant e visa

    assegurar um poder intelectual local ou esvaziar preventivamente uma oposio

    poltica que se desenhava e que persiste nas suas formas de aproveitamento

    conseqente dos trabalhos de Althusser.

    Refiro-me aos anos que se seguiram ao golpe de 1964, quando o reformismo

    se tornou tal como no podia deixar de ser - objeto de suspeitas polticas e crticas

    tericas. Sua sustentao filosfica em um marxismo atravessado por

    humanismos de todas as ordens, por Lukcs, por Garaudy, por Goldmann, e sua

    prtica poltica de alianas com o inimigo de classe, de reboqusmos, de

    subservincias, etc., sua liderana, enfim, burgus, pequeno-burguesa, seu

    autoritarismo interno e sua humilhante subordinao a um controle exterior, - ele

    mesmo equvoco e estalinista ademais incapaz de fazer anlises de nossa

    conjuntura, o tornava objeto de preocupaes e investigaes crticas de toda a nova

    esquerda que assumia as lutas contra a Ditadura j em seus comeos.

    Esta luta subterrnea, no seio das esquerdas, ela mesma contempornea com

    as cises no seio do PCB e com as formaes de agrupamentos polticos que iriam

    liderar as lutas de massa de 1967, 1968 e 1969, e depois a luta armada, teve quase

    sempre no althusserianismo filosfico em graus e importncia variadas seu

    esteio terico e seu meio poltico.

    desta poca a traduo e edio do Pour Marx no Brasil6, so desta poca

    tambm meus artigos encaminhando os trabalhos do althusserianismo no marxismo

    Um Marxismo com Marx (Revista Tempo Brasileiro, 1966), Resposta a Carpeaux

    4 Jaques Rancire, La leon dAlthusser, Gallimard, 1974. 5 Alain Badiou, Theorie de la contradiction, Maspero, 1975. 6 Editado pela Zahar.

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    (Revista Tempo Brasileiro, 1968), o nmero coletivo sobre epistemologia,

    encaminhando o corte (editado pela Vozes, 1970) e quase uma dezena de

    tradues feitas, entre outras, para a editora Zahar, Tempo Brasileiro, Vozes,

    publicaes internas de Universidades, etc. Em outro contexto, no seio efetivo da

    luta poltica, numerosos companheiros liam e estudavam Althusser. Ora, tudo isso foi

    permanentemente objeto de uma luta subterrnea, repleta de hostilidades, por parte

    dos donos, como se diz, do saber filosfico no seio do AIE universitrio7 ou ainda do

    reformismo militante interessado em calar com sua mquina um discurso marxista

    conseqente que o punha politicamente a nu.

    Neste empenho crtico oportunista se empenhavam intelectuais dentro e fora

    da Universidade que nuanavam com diferentes tons uma esquerda tradicionalmente

    omissa, j entronada pela burguesia no poder intelectual, todos eles ativos

    contribuintes dessa frente anti-althusseriana que paulatinamente ia se revelando

    uma frente bem menos interessada em filosofar que em defender seus prestgios

    ameaados.

    Mas seria de nossa parte parcialidade, se no lembrssemos na direita (na

    direita poltica) um empenho paralelo em combater, no apenas repressivamente

    mas ideologicamente tambm, o alcance que o pensamento de Althusser ganhava

    politicamente na prtica das novas esquerdas. Fao apenas duas referencias pois

    as fontes crticas a Althusser aqui so numerosas a primeira delas se refere a um

    livro do filsofo catlico Tarcsio Padilha (nos comeos dos anos 1970) que prevenia

    as autoridades a respeito do althusserianismo dos terroristas (expresso sua)8; e,

    7 Aparelho Ideolgico de Estado. 8 Trata-se do livro Filosofia, ideologia e realidade brasileira de 1971. Apesar de Tarcsio Padilha dar destaque ao pensamento de Althusser nesse livro (pp. 114-118), no h uma meno direta sobre a relao da teoria de Althusser com os grupos terroristas como afirma Escobar. Esse equvoco certamente se deveu por ser uma citao de memria. Contudo, isso no invalida a crtica de Escobar ao pensador ultraconservador, visto que em algumas passagens de sua obra, Padilha associa diretamente a influncia dos professores universitrios marxistas nas aes subversivas e na dissoluo da famlia como pode-se perceber nos seguintes trechos desse livro que mostram a sua intolerncia com o marxismo: Diante da ameaa de tal porte, qual a atitude a adotar e quais as reais possibilidades do Poder Nacional? Est o povo brasileiro em condies de enfrentar com xito a agresso totalitria, configurada na vastssima literatura subversiva que domina o nosso parque editorial, na pregao nos meios universitrios, no terrorismo e na aliana do marxismo com o marcusismo para dissolver a famlia? (...) Cuidamos s vezes em demasia de afastar pessoas de certas atividades e deixamos de atentar para o fato de que a literatura que domina nossas livrarias anestesia diariamente a populao contra a divulgao da filosofia democrtica promovendo inversamente um trabalho de flego em favor do totalitarismo comunista. (...) dever do Estado e do cidado prestigiar as instituies permanentes. A ningum deve ocorrer a idia de se lanar contra a Igreja, a Universidade, a Famlia, a Justia, o Parlamento, pois ao proceder deste modo estaremos enfraquecendo a comunidade, retirando-lhe as pilastras de sustentao. nosso dever, isto sim, expurgar das instituies aqueles dentre seus integrantes que conspiram contra as finalidades especficas da instituio. (...) Um professor marcusiano

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    em seguida, relembro um incidente testemunhado por companheiros presos no Doi-

    Codi do Rio de Janeiro. Perguntaram-nos se lamos Althusser e, caso tivssemos lido,

    que livros eram esses. Esses interrogatrios foram feitos em diferentes ocasies e a

    diferentes presos polticos do perodo.

    Nesse trabalho persecutrio do pensamento de Althusser procurou-se

    confundi-lo com o formalismo, com o teoricismo e sobretudo com o estruturalismo.

    Esse foi em parte um equvoco que a Revista Civilizao [Brasileira] dos anos 1960

    procurou criar. Se lembrarmos afinal que nem Foucault, nem Derrida, nem mesmo

    Lvi-Strauss hoje que abandona o modelo lingstico pelo modelo musical podem

    ser chamados de estruturalistas, j nos damos conta do absurdo e da leviandade

    desta crtica a Althusser. No que diz respeito a esse autor, o estruturalismo de que o

    acusavam (e o acusam ainda hoje) parece concernir particularmente temtica da

    causalidade to seguidamente discutida em seus livros.

    Ora, quando Althusser se refere eficcia da causa ausente que ele indica

    ser uma categoria infinitamente mais spinozista que estruturalista, ou o termo de

    causalidade estrutural (tambm spinozista) como a imensa descoberta de Marx,

    ela pode pela falta de avisos lembrar certas nfases daquele perodo nomeado

    filosoficamente de estruturalista. A verdade, porm, que Althusser se esforava

    por liberar a dialtica marxista o fantasma hegeliano e acrescentar a ela sua

    independncia frente idia de Sujeito, de Origem e de Fim. E isso jamais significou

    confundi-la com o achatamento da estrutura pelo estruturalismo e de sua equvoca

    reduo em unidades ltimas. A estrutura a que o marxismo se refere no

    apenas outra coisa que uma estrutura, isto , um processo, mais do que o isso,

    contradies articuladas e desiguais. A filosofia tendencial do estruturalismo nas

    formas racionalistas, mecanicistas e combinatrias (etc.) jamais esteve presente nos

    textos althusserianos, mas para saber disso necessrio como para tudo que diz

    respeito identificao terico-filosfica de um pensamento que saibamos

    est atentando contra o seu munus de educar. Est, ao contrrio, retirando da juventude o seu maior capital o idealismo. Deve por essa razo ser afastado. (...) No de estranhar-se que amanh os jornais se rebelem contra a sociedade, se os seus mentores lhe instilaram na mente a revolta, o dio ou, pelo menos, o desestmulo. Cada jovem terrorista tem em sua biografia professores ou livros subversivos. Autores, editores e professores so a matriz da subverso. a liderana intelectual que enseja a atmosfera subversiva (pp. 125, 126, 127, 203) (Nota de LEM).

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    distinguir, por exemplo, aquilo que Marx quer dizer com combinao (Verbindung)

    e sua diferena com uma filosofia do Combinatrio formal9.

    A tentativa de se fazer um uso crtico destas questes usando a nossa falta de

    informao, procurando confundir-nos, foi a prtica em combinado dos intelectuais

    universitrios e dos reformistas. Mas importante que hoje saibamos situar esse

    procedimento no apenas em cima de intelectuais determinados, mas sim nos

    espaos institucionais onde eles se encontravam. Refiro-me tanto ao aparelho

    escolar (e a Universidade), quanto reforma como um aparelho poltico da burguesia

    internalizado dentro da esquerda. Neste sentido cabia tal como ainda hoje cabe

    esclarecer melhor o que uma Universidade como parte do AIE escolar e qual o seu

    papel efetivo. Cabia e cabe, como j dissemos, precisar a funo de classe deste

    aparelho, no apenas distribuindo os agentes sociais em classe, mas reafirmando a

    separao do trabalho intelectual e do trabalho manual, como parte desta

    distribuio dos agentes e como privilgio oferecido, sob condies burguesia e

    pequeno burguesia escolarizada.

    Os indcios dessa fidelidade, entre ns, desta pequena burguesia

    intelectualizada tm diversas formas. Por exemplo,...