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  • 85Revista Luso-Brasileira de Direito do Consumo - Vol. ii | n. 4 | dezembro 2012

    ALTERAES DO CDIGO DE DEFESA DO

    CONSUMIDOR:CRTICA S PROPOSTAS DA

    COMISSO ESPECIAL DO

    SENADO FEDERAL

    JOS GERALDO BRITO FILOMENO*Advogado, consultor jurdico, membro da Academia Paulista de Direito e da Comisso Geral de tica do Governo do Estado de S. Paulo (Brasil)

    Professor especialista, por notrio saber, pela Faculdade de Direito da USP em Direito do Consumidor

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    EXCERTOS

    No que tange tutela coletiva do consumidor, percebe-se que o anteprojeto muito mais direcionado aos magistrados, na medida em que pretende tornar mais explcita e didtica a classe dos chamados interesses e direitos individuais homogneos de origem comum

    Avaliar de forma responsvel e leal as condies do consumidor de pagar a dvida contratada, mediante solicitao da documentao necessria e das informaes disponveis em bancos de dados de proteo ao crdito, observado o disposto neste Cdigo e na legislao sobre proteo de dados

    Como se verifica do caput do art. 39 do CDC, a enumerao relativa s chamadas prticas abusivas meramente exemplificativa, e no taxativa

    Aberta a possibilidade de reviso do CDC, qualquer interessado se arvorar no direito e oportunidade de no apenas no aceitar as supostas inovaes que se lhe querem atribuir, como tambm de retirar-lhe conquistas de h mais de vinte anos

    de se salientar que embora tenhamos j instrumentos adequados, como j visto, para tratamento do propalado superendividamento, economistas esclarecem que o nosso comprometimento de ganhos com relao a obteno de crditos consideravelmente menor do que em outros pases, sobretudo os mais desenvolvidos

  • 87Revista Luso-Brasileira de Direito do Consumo - Vol. ii | n. 4 | dezembro 2012

    Quando vou a um pas, no examino se h boas leis, mas se as que l existem so executadas, pois boas leis h por toda a parte

    (RICHELIEU, 1585-1642, in Memrias)

    A lei tem duas, e s duas bases: a equidade e a utilidade (BURKE, 1729-1797, in Discurso de Bristol)

    1. Introduo

    As consideraes a seguir so decorrentes: a) de reunio cognominada de audincia tcnica proposta e conduzida por comisso especial de juristas designada pela presidncia do Senado Federal1, em 2 de setembro de 2011, nas dependncias da AASP Associao dos Advogados de So Paulo, e qual comparecemos a convite de seu presidente, Arystbulo Freitas, e do presidente da Comisso de Defesa do Consumidor da Ordem dos Advogados do Brasil, Seo de So Paulo, Eduardo Tavolieri; b) da anlise de trs anteprojetos entregues pela Comisso Especial do Senado Federal ao seu presidente, no dia 14 de maro de 2012.

    Os trabalhos finais da referida comisso resultaram em trs projetos de lei, os quais consistem em ANEXOS a estas consideraes (A Comrcio Eletrnico, B Superendividamento, e C Tutela Coletiva).

    A sesso da audincia do dia 2 de setembro de 2011 foi copresidida pelo ministro Hermen Benjamin, do STJ, e pelo presidente da AASP, Arystbulo Freitas, reservando-nos, por razes de ordem lgica e de argumentaes, a sistemtica de nos referirmos a manifestaes exaradas quando de cada apreciao de nossa parte.

    Nossa posio foi mantida a mesma quando nos manifestamos em trabalhos anteriores, e ser sumariada em seguida.

    2. Posicionamento a priori

    Durante o transcorrer do ano de 2010, em que se comemoraram os vinte anos de sano do Cdigo de Defesa do Consumidor, nos quase trinta simpsios de que participamos, ora como palestrante, ora como debatedor, deixamos claro nossa posio no sentido de que o mesmo cdigo no estaria a demandar qualquer tipo de alterao, ainda que a ttulo de melhor-lo ou atualiz-lo. Alis, tal posicionamento j ficara claro em artigo de nossa autoria, publicado na revista da Associao dos Advogados de So Paulo2, em comemorao aos 15 anos do CDC, ocasio em que essas questes j eram ventiladas.

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    Cnscio das limitaes destas apreciaes, at por razes de ordem pragmtica e de clareza, informamos que a primeira verso de nossa apreciao, antes mesmo da designao da referida comisso de juristas revisora do CDC, foi elaborada em maio de 2010, e encaminhada sob forma de artigo a respeito de eventuais alteraes ao Brasilcon Instituto Brasileiro de Poltica e Direito do Consumidor, para ser publicada, comentada e criticada no seu site, o que no ocorreu at o presente momento, nem tendo seus dirigentes sequer a cortesia de informar-nos o porqu da no publicao.

    Para aqueles que pretendam tomar conhecimento do respectivo texto na ntegra, certamente mais alentado e aperfeioado posteriormente, indicamos os sites www.cognitiojuris.com e www.oab.org.br Revista Eletrnica de Atualidades Jurdicas n. 13 CFOAB Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (vide resumo abaixo)3.

    Nossa contrariedade a qualquer alterao no CDC pode ser assim sumariada:

    a) o Cdigo de Defesa do Consumidor, embora concebido h mais de vinte anos, continua to atual quanto quela poca;

    b) cuida-se, com efeito, de uma lei de cunho principiolgico4, de carter multi e interdisciplinar, o que fica claro pelo enunciado de seu art. 7, caput5, na medida em que se relaciona com todos os ramos do direito, e, ao mesmo tempo, contempla em seu bojo institutos que caberiam, como de resto couberam, em outros diplomas legais como, por exemplo, a responsabilidade civil objetiva, hoje constante, tambm, do Cdigo Civil, no pargrafo nico do art. 927, o princpio de boa-f objetiva, bem como a interpretao mais favorvel a um dos contratantes nos contratos de adeso (arts. 113, 421 e 422 do Cdigo Civil, e.g.); isto sem se falar de legislaes relativas qualidade, metrologia e normalizao de produtos e servios, concorrncia, propriedade industrial, atividades bancrias, securitrias, servios pblicos essenciais prestados por empresas permissionrias ou concessionrias, educao e previdncia privadas etc.

    c) sua maior e melhor implementao depende, isto sim, da atuao mais incisiva, mas ponderada e objetiva, dos rgos pblicos e das entidades no governamentais de proteo e defesa do consumidor, bem como, e principalmente, dos operadores do direito, com especial nfase dos rgos do poder judicirio, no ainda, em grande parte, aptos e preparados para cuidarem dos direitos e interesses abrigados pelo referido cdigo;

    d) se a internet, por exemplo, no fora antevista poca da concepo do Cdigo (1988-89), referido instrumento, embora certamente tenha

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    surpreendentes peculiaridades, no mbito das relaes de consumo, no passa de um meio a mais, eletrnico, tanto de veiculao eletrnica de ofertas e mensagens publicitrias, quanto de negociao e contratao; entretanto, o art. 49 do CDC j contempla a hiptese de negociao dita virtual, quando feita fora do estabelecimento comercial do fornecedor de produto ou servio, resguardando o consumidor, inclusive, com o direito de desistncia da compra assim efetuada; entretanto, o chamado marco regulatrio dos mltiplos processos e aplicaes de informtica no se resume, apenas, oferta, publicidade e contratos firmados entre consumidores e fornecedores, mas vai muito alm, no que tange a negcios entre fornecedores, crimes cibernticos, chaves pblicas e privadas, por exemplo, meandros das comunicaes, concesses, permisses etc. E fica a indagao: oportuno e conveniente a regulao parcial numa lei de defesa do consumidor?

    e) por outro lado, e no menos importante: sabendo-se que neste pas, embora bafejado pelo processo legislativo democrtico, h mais de vinte e seis anos, at esta parte, os interesses e lobbies so dos mais variados matizes, nem sempre condizentes com os anseios consumeristas, no se vero tentados, por intermdio de congressistas, a se aproveitarem da ocasio e subtrarem conquistas to dura e custosamente conseguidas? Vide o caso, por exemplo, do Cdigo Florestal que, no enfoque dos ecologistas, estar a implicar perigoso retrocesso ao vigente, ainda que concebido na dcada de 60 do sculo passado.

    Dentro ainda desta ltima perspectiva, ponderamos que, sabendo-se que h em tramitao no Congresso Nacional mais de cinco centenas de projetos de lei modificando aqui e ali o Cdigo de Defesa do Consumidor, aos quais se juntaro as propostas ora analisadas, sem se falar do projeto de Cdigo de Processo Coletivo e estudos visando a incluir novos livros no Cdigo Penal quanto sua parte especial definidora de delitos e penas, tudo aliado circunstncia de que o prprio Cdigo Civil, em matria de responsabilidade civil e tutela contratual, iguala todos os sujeitos de direito, antevemos a pura e simples extino do Cdigo de Defesa do Consumidor.

    Sim, at porque, se suas pedras angulares so a vulnerabilidade de uma das partes das relaes de consumo, encimadas pelo princpio secular da boa-f e a destinao final de produtos e servios, circunstncias essas, bem ou mal,

    O Cdigo de Defesa do Consumidor,

    embora concebido h mais de vinte

    anos, continua to atual quanto

    quela poca

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    j contempladas no Cdigo Civil, pergunta-se: para que um Cdigo do Consumidor, ento, se todos so agora iguais perante a lei?

    f ) Quanto tutela processual coletiva, como se ver no anexo respectivo, alm se haver projeto para a sua disciplina geral para todos os tipos de interesses difusos, coletivo e individuais homogneos de origem comum, as sugestes em pauta somente se aplicariam ao consumidor, e no aos demais interesses coletivos, lato sensu.

    Ainda no que tange tutela coletiva do consumidor, percebe-se que o anteprojeto muito mais direcionado aos