Allan Kolodzieiski - do II Simpsio de Violo da Embap, 2008 203 Os doze estudos para violo de Francisco Mignone1 Allan Kolodzieiski2 Resumo: Os doze estudos para violo de Francisco Mignone fazem parte de uma

Download Allan Kolodzieiski -   do II Simpsio de Violo da Embap, 2008 203 Os doze estudos para violo de Francisco Mignone1 Allan Kolodzieiski2 Resumo: Os doze estudos para violo de Francisco Mignone fazem parte de uma

Post on 11-May-2018

214 views

Category:

Documents

2 download

TRANSCRIPT

  • Anais do II Simpsio de Violo da Embap, 2008

    203

    Os doze estudos para violo de Francisco Mignone1

    Allan Kolodzieiski2

    Resumo: Os doze estudos para violo de Francisco Mignone fazem parte de uma verdadeira e importante parte da histria e desenvolvimento do violo no Brasil. A obra para violo de Francisco Mignone no so apenas os doze estudos, mas ainda foram compostas mais doze valsas para violo solo, um Concerto para violo e orquestra, e diversas peas para duos, trios e tambm como acompanhamento. Este trabalho tem a finalidade de apresentar ao violonista os doze estudos para violo, mostrando uma linguagem clara sem fragmentar as intenes dissertadas.

    Palavras-chave: Francisco Mignone; Msica Brasileira; Violo; Estudos

    Francisco Mignone (1897 1986) foi um dos mais importantes

    compositores brasileiros do sculo XX, juntamente com Heitor Villa-Lobos e

    Camargo Guarnieri formando a gerao nacionalista. Sua importante

    colaborao para o repertrio violonstico se deu graas a seu interesse em

    compor para o instrumento e tambm a grande motivao por parte de

    violonistas para que o mesmo escreve-se para o instrumento. Os doze estudos

    para violo foram compostos em 1970, quando Mignone (re)encontrou-se com

    o violonista Carlos Barbosa-Lima, no II Simpsio Internacional de Violo, em

    Porto Alegre e que mostrou grande interesse e entusiasmo em compor para o

    instrumento. A capacidade de Mignone em escrever para um determinado

    instrumento, sem ao menos conhecer suas limitaes, e ainda assim expressar

    uma linguagem nica de um compositor j amadurecido, da aos seus estudos

    um valor mpar. O que mostra o entusiasmo de Mignone em escrever para o

    violo o fato de o mesmo ter escrito os doze estudos em apenas dois meses,

    e sem ao menos saber tocar o instrumento. Vale ainda citar que as doze valsas

    provavelmente foram compostas em apenas seis dias (Apro, 2004).

    O Estudo n1 de Mignone abre o ciclo dos doze estudos com a forma

    caracterstica do preldio, onde uma melodia aparece ao meio de uma continua

    e quase ininterrupta sesso de arpejos e que segue assim por quase toda obra. 1Trabalho apresentado ao II Simpsio Acadmico de Violo da Embap, de 6 a 11 de outubro de 2008.2GraduandoemViolopelaEmbap,naclassedoProf.MriodaSilva.

  • Anais do II Simpsio de Violo da Embap, 2008

    204

    Ambas as caractersticas foram genialmente mescladas por Mignone, pois

    segundo o violonista Carlos Barbosa-Lima, os arpejos do estudo seria uma

    cpia de outra obra do repertrio violonstico, o Estudo Brilhante em L Maior

    de Francisco Trrega. Juntamente com isso, Mignone intercala em meio aos

    arpejos uma melodia serena, que na verdade uma reminiscncia do tema da

    Sinfonia n4, Op.28 2 movimento de Johannes Brahms (Apro, 2004). Mignone parece fazer do Estudo n1, o estudo dos Estudos (Apro, 2004), pois o experimentalismo de diferentes harmonias (a harmonia tradicional com

    recursos do atonalismo) faz com que o compositor parece-se por a prova o

    violo para descobrir seus recursos e limites.

    O Estudo n2 na sua primeira parte uma extensa melodia de carter

    seresteiro,3 e a segunda parte com caractersticas barrocas, onde talvez a

    utilizao de tal recurso possa no ser intencional (Apro, 2004). Fica clara a grande facilidade de Mignone de colocar em uma nica textura musical, varias

    caractersticas de estilos musicais diferentes sem descaracterizar a pea, fato

    provado desde o Estudo n1 e que ir continuar por todo o ciclo de estudos.

    Tratando de experimentalismo, o Estudo n3 tem a indicao de

    andamento Tempo de chorinho, mas segundo Flvio Apro (2004, p. 95) o Estudo n3 um dos mais experimentais da srie, pois transita de forma

    rapsdica por diferentes estilos da msica brasileira (choro, baio, maxixe,

    moda caipira). Esses traos so vistos desde o incio do estudo onde aparece

    uma linha meldica na regio grave/mdio do violo, caracterstico do baio.

    Outros traos tambm esto presentes no Estudo n3, como a progresso de

    acordes de stima usado por Mignone que mostra o conhecimento da

    linguagem usada por Heitor Villa-Lobos nas suas composies para violo.

    O Estudo n4 possui um ritmo da msica folclrica brasileira chamado

    galope (Apro, 2004). No somente o ritmo, mas outra caracterstica com o j citado compositor Villa-Lobos presente neste estudo. A repetio dos

    compassos no Estudo n3 de Mignone familiar com a repetio de

    compassos que acontece no Estudo n1 de Villa-Lobos (Apro, 2004), a nica peculiaridade que no Estudo n1 de Villa-Lobos aparecem os ritornelos

    3 A expresso de andamento do Estudo n2 Seresteiro

  • Anais do II Simpsio de Violo da Embap, 2008

    205

    indicando a repetio, e no Estudo n4 de Mignone a escrita continua, sem o

    uso de sinais para indicar a repetio. Neste estudo, Mignone recorre

    continuamente s cordas soltas, dando a iluso que o instrumento possui mais

    do que seis cordas (Zanon, 2006).

    O Estudo n5 traz novamente um clima seresteiro com um carter de

    modinha presente. Conforme Flvio Apro (2004, p. 100):

    A fuso entre tradio e modernidade, resultantes dessa alternncia, parece ser uma constante nesse ciclo de Estudos. De toda a srie, este o de maior durao e o que apresenta uma carga emocional mais dramtica, alternando a serenidade e desespero.

    Apro (2004, p.100) ainda comenta que a partir do Estudo n5, Mignone parece sentir-se mais a vontade para expressar seu pensamento musical, fato

    que ser notvel nos prximos estudos.

    O Estudo n6 uma obra que se encaixa muito bem ao violo,

    tecnicamente e musicalmente. Claramente a habilidade de Mignone em

    mesclar estilos aparece de forma magistral, onde as caractersticas tpicas das

    obras de Ernesto Nazareth (maxixes, tangos) aparecem misturadas com traos

    nordestinos. Uma obra que mostra toda a brasilidade de Mignone.

    O Estudo n7 que traz um carter sombrio, com uma densa harmonia,

    possui o subttulo Cantiga de Ninar. intrigante a maneira como Mignone se

    expressa nessa obra, onde Flvio Apro faz um paralelo com as obras de Carlos

    del Nero (1965) e Gilberto Freyre (1996) para dissertar com mais profundidade

    sobre o assunto, onde resumidamente, Flvio Apro (2004, p.103) comenta que a cantiga de ninar brasileira est associada ao antigo hbito educativo dos pais

    e educadores de passar o medo nas crianas com o propsito de proteg-las

    de ms influncias e orient-las na educao e obedincia com os mais velhos

    e as autoridades. Tecnicamente, o Estudo n7 apresenta uma peculiaridade ao

    interprete. Trata-se que a obra inicia-se na tonalidade de F sustenido menor

    que obriga o interprete a usar a pestana4 por maior parte do estudo.

    4 Pestana: Termo que designa a tcnica, na execuo de certos instrumentos trasteados de cordas

    dedilhadas (p. ex. violo, alade, banjo), de prender, todas ou vrias cordas na mesma casa, esticando um dedo (geralmente o indicador) como uma barra sobre elas (Dicionrio Grove, p.715).

  • Anais do II Simpsio de Violo da Embap, 2008

    206

    Juntamente com a pestana, Mignone sugere como andamento a expresso

    Molto lento (semnima 58),5 o que aumenta ainda mais a dificuldade, vendo

    que o interprete precisar de certa resistncia na mo esquerda para sustentar

    os acordes.

    O Estudo n8 provavelmente seja o mais instigante do ciclo, pois as

    dificuldades que se apresentam interpretao da obra so diversas. O mais

    provvel que Mignone tenha-se utilizado de ritmos espanhis, caractersticas

    presentes nas escalas. Outra caracterstica seria o uso do frevo

    pernambucano, devido ao seu rpido andamento e a sua escrita (Apro, 2004).

    O Estudo n9 volta a apresentar caractersticas regionais. A primeira

    parte do estudo escrito todo em semi-colcheias variando algumas poucas

    figuras, mas Mignone deixa claro o gingado nordestino dos repentes em

    escrever na linha do baixo o que seria um ritmo tpico, tambm empregado no

    baio, conhecido como coco. (Apro, 2004) A seqncia intrincada de arpejos e as acentuaes deslocadas empregado por Mignone, torna a pea

    tecnicamente difcil para a mo direita. A segunda parte, tem o andamento

    denominado Bem mais devagar, um trecho mais curto, mas que expressa

    claramente as caractersticas da moda de viola, presente nas notas (melodia

    caminhando em intervalos de teras), e tambm nas expresses escritas

    consecutivamente em determinados trechos (bem depressa, c.86, poo rit.-

    devagar, c.87).

    O Estudo n10 traz um carter expressivo e uma atmosfera seca e

    melanclica deixando ao interprete uma grande dificuldade de prender a

    ateno do ouvinte. Sua longa melodia intercalada por um acompanhamento

    de acordes que parece uma pergunta sem resposta. A seo central tem

    caractersticas do gnero preldio, com uma melodia que emerge de um

    acompanhamento.

    O Estudo n11 vem acompanhado com o subttulo Spleen, que passa a

    idia de melancolia e um carter mrbido (Apro, 2004). Depois de compor dez estudos para violo, Mignone explora o instrumento e consegue expressar todo

    5 A indicao de semnima 58 est presente na edio publicada pela Columbia Music Company, com a

    reviso e digitao de Carlos Barbosa-Lima.

  • Anais do II Simpsio de Violo da Embap, 2008

    207

    o sentimento exigido pela sua composio. O que o compositor tenta expressar

    nesse estudo, fica evidente na suposio particular do violonista Fabio Zanon

    (2006) onde o mesmo diz: Eu tenho a impresso que Mignone depois de fazer

    vrias peas de carter danante e arrojado, tentou dar ao ciclo uma expresso

    de reflexo e seriedade, onde os ltimos estudos so lentos, onde no se

    prev um sorriso.

    O Estudo n12 um verdadeiro teste tcnico ao interprete. possvel

    que para esse estudo Mignone tenha se inspirado no Estudo Op. 10, n2 de

    Frederic Chopin (Apro, 2004). A grande dificuldade se encontra na mo esquerda, pois a velocidade que Mignone sugere6 impossibilita uma clara

    execuo da obra. Seu ininterrupto processo rtmico s interrompido na

    seo intermediaria, de andamento lento com uma melodia em dcimas e

    oitavas, onde a obra retoma ao incio para finalizar com o mesmo virtuosismo.

    Consideraes finais

    Os doze estudos para violo de Francisco Mignone diferem dos famosos

    doze estudos para violo de Heitor Villa-Lobos, que traa uma trajetria de

    progresso de dificuldades nos aspectos tcnicos e musicais do prprio

    instrumento. Mignone, ao contrrio, no traa um programa a ser vencido

    paulatinamente, misturando as dificuldades de maneira aleatria de acordo

    com o desenrolar dos mesmos, onde os estudos aparecem de uma forma mais

    expressiva e discursiva. Fatalmente os doze estudos de Mignone so

    comparados tambm com os doze estudos de Villa-Lobos, e como prova disso

    os estudos de Mignone ainda hoje no alcanaram um verdadeiro mrito pelo

    fato de serem mais desconhecidos que o seu predecessor, mas ainda assim,

    nenhuma de suas obras para violo deixa de perder o seu valor para a

    produo violonstico brasileira.

    6 O manuscrito de Mignone apresenta a expresso de andamento Com velocidade, j a edio da

    Columbia Music Company vem acompanhada da expresso e a indicao de andamento semnima100.

  • Anais do II Simpsio de Violo da Embap, 2008

    208

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS: APRO, Flvio. Os fundamentos da interpretao musical: aplicabilidade nos 12 Estudos para violo de Francisco Mignone. 2004. 197 p. Dissertao (Mestrado em msica) - Instituto de Artes - UNESP, 2004. KIFFER, Bruno. Mignone: vida e obra. Porto Alegre: Movimento, 1983. MARIZ, Vasco (org.). Francisco Mignone: o homem e a obra. Rio de Janeiro: Funarte: Editora da Universidade do Rio de Janeiro, 1997. MIGNONE, Francisco. Twelve etudes. Washington: Columbia Music Company, 1973. 2 v. SADIE, Stanley (ed.). Dicionrio Grove de msica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994. ZANON, Fbio. O violo brasileiro: nossos pioneiros, criadores e intrpretes. Disponvel em: . Acesso em: 19 de setembro de 2008;

Recommended

View more >