aliga dos cabeças vermelhas

Download Aliga dos cabeças vermelhas

Post on 23-Jun-2015

323 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • Sherlock Holmes

    em:

    A liga dos ruivos

    Por Sir Arthur Conan Doyle

    PDF por ZOHAR (zohar@bol.com.br)

    CPTurbo.org

  • Fui visitar meu amigo Sherlock Holmes, num dia de outono do ano passado, e encontrei-o numa sria conversa com um senhor idoso, muito corpulento, de rosto corado e cabelos vermelhos. Pedindo desculpas pela minha intruso, ia retirar-me quando Holmes me puxou abruptamente para dentro da sala e fechou a porta. No podia ter vindo em melhor hora, caro Watson disse-me ele cordialmente. Receei que estivesse ocupado. De fato. E muito. Ento devo esper-lo na outra sala. Nada disso. Este cavalheiro, sr. Wilson, tem sido meu companheiro e auxiliar em muitos dos meus casos mais bem-sucedidos, e no duvido de que venha ainda a ser til no seu tambm. O cavalheiro gordo levantou-se da cadeira e cumprimentou-me com uma expresso interrogativa nos pequenos olhos meio fechados pela gordura. Sente-se no sof disse Holmes, ajeitando-se de novo na poltrona e juntando as pontas dos dedos como era seu costume quando estava pensativo. Eu sei, meu caro Watson, que voc como eu, gosta de tudo o que bizarro e foge rotina montona do convencionalismo da vida cotidiana. Voc j demonstrou esse gosto no entusiasmo com que escreve, e, desculpe-me diz-lo, at no embelezamento de muitas das minhas prprias aventuras. Seus casos tm sido realmente do maior interesse para mim observei. Lembra-se de eu ter dito outro dia, quando comeamos a estudar o problema apresentado pela srta. Mary Sutherland, que, devido a estranhos efeitos e combinaes de circunstncias extraordinrias, precisvamos nos convencer de que a prpria vida tem muito mais ousadia do que se possa imaginar? Uma proposio da qual tomei a liberdade de duvidar. Sim, doutor, mas mesmo assim tem de aceitar meu ponto de vista, ou continuarei a aborrec-lo com uma grande quantidade de fatos at que fique desorientado e admita que tenho razo. O sr. Jabez Wilson fez-me o favor de vir aqui hoje e comeou uma narrativa que promete ser um dos mais singulares casos de que tenho conhecimento desde h muito tempo. Voc j me tem ouvido dizer que as coisas mais estranhas e esquisitas geralmente tm relao no com os maiores crimes, mas com os menores, e, ocasionalmente, h mesmo razo para duvidar se houve crime ou no. Portanto, pelo que ouvi at agora, -me impossvel decidir se o caso atual foi crime perpetrado ou no;

  • todavia, o curso que tomam os acontecimentos certamente dos mais curiosos. Talvez o sr, Wilson queira ter a bondade de recomear sua narrativa. No lhe fao esse pedido apenas porque meu amigo, o dr. Watson, no a ouviu; mas tambm porque a natureza peculiar da histria faz-me ansioso por no perder o mnimo pormenor. Quase sempre, quando ouo as primeiras notcias de um caso, sigo-lhes o fio devido experincia de milhares de outros semelhantes e dos quais vou me lembrando. Mas neste caso, sou obrigado a admitir que os fatos

    so, segundo creio, nicos no gnero. O cliente corpulento aprumou-se com visvel orgulho e tirou do bolso do sobretudo um jornal sujo e amarrotado. Enquanto lia a coluna da primeira pgina, com o jornal estendido sobre o joelho, olhei bem para o homem e esforcei-me, seguindo o hbito do meu companheiro, por ler as indicaes que pudessem estar contidas em seu vesturio e aparncia geral. No lucrei muito, no entanto, com minha inspeo. Nosso visitante tinha apenas as caractersticas de um negociante britnico comum, obeso, pomposo e lento. Vestia calas cinza axadrezadas e largas, como as usadas pelos pastores de ovelhas nos campos; a sobrecasaca estava desabotoada na frente e no muito limpa, e do colete escuro pendia uma pesada corrente de ouro com uma medalha como ornamento. Uma cartola gasta e um sobretudo castanho com uma gola de veludo enrugada jaziam numa cadeira a seu lado. Ao todo, pelo que pude observar, no havia nada de extraordinrio nem de estranho no homem, a no ser a cabea flamejante e uma expresso de extrema mortificao e descontentamento no rosto. O olhar perscrutador de Sherlock Holmes percebeu minha preocupao, e ele sacudiu a cabea, sorrindo perante o meu olhar inquiridor. Alm dos fatos evidentes de que j foi operrio, tomava rap, maom, esteve na China e tem escrito muito ultimamente, no deduzi mais nada O sr. Jabez Wilson pulou da sua cadeira com o dedo indicador sobre o jornal, porm com os olhos fixos no meu amigo. De que modo mgico descobriu tudo isso, sr. Holmes? perguntou ele. Como adivinhou por exemplo que fui operrio? verdade como o Evangelho, e comecei como carpinteiro a bordo de um navio. Suas mos, meu caro senhor. Sua mo direita muito maior do que a esquerda. Usou-a muito, e os msculos esto mais desenvolvidos. Bem, e o rap, e a maonaria? No quero insultar sua inteligncia dizendo-lhe como notei tudo isso, principalmente porque, contra as regras da sua ordem, o senhor usa um arco e um compasso no alfinete da gravata.

  • Ah! certo, esqueci-me disso. Mas, e os inmeros escritos? O que se h de pensar quando se v a manga direita to brilhante e gasta na extenso de umas cinco polegadas, e a manga esquerda puda perto do cotovelo que o senhor apoia na secretria? Bem, e a respeito da China? O peixe que o senhor traz tatuado logo acima do pulso direito s pode ter sido feito na China. Estudei

    um pouco a respeito de tatuagem e at contribu com alguma literatura sobre o assunto. Aquele truque de colorir as escamas de peixe com um delicado cor-de-rosa peculiar da China. Quando, ainda por cima, vejo uma moeda chinesa pendurada na corrente do seu relgio, torna-se fcil descobrir tudo. Jabez Wilson riu-se a bandeiras despregadas. Bem, nunca vi! declarou. Pensei que o senhor tivesse feito uma coisa de muito valor, mas vejo, enfim, que no houve nada de extraordinrio. Estou pensando, Watson disse Holmes , que cometi um erro explicando tudo. Omne ignotum pro magnifico, voc bem sabe, e minha pobre e pequena reputao soobrar se eu continuar a ser to ingnuo. No encontrou o anncio, sr. Wilson? Sim, j o tenho respondeu ele, com o dedo vermelho e grosso colocado no meio da coluna. Aqui est. Foi isto o que deu incio a tudo. Leia-o, senhor. Tirei-lhe o jornal da mo e li o seguinte: "Liga dos Cabeas Vermelhas Devido ao recente falecimento de Ezequias Hopkins, da Pensilvnia, EUA, est aberta uma vaga que d direito a outro membro da liga a receber o salrio de quatro libras semanais por servios puramente nominais. Todos os homens de cabelos vermelhos que estejam em perfeita sade mental e fsica, com mais de vinte e um anos, so elegveis. Tratar pessoalmente na segunda-feira, s onze horas; falar com Duncan Ross, nos escritrios da liga, em Pope's Court, Fleet Street". Que vem a ser isso? exclamei, depois de ler duas vezes o extraordinrio anncio. Holmes riu e mexeu-se na cadeira, como era seu costume quando estava entusiasmado.

  • Nada comum, no verdade? E agora, sr. Wilson, deixe de brincadeiras e conte-nos tudo sobre sua vida, sua famlia, e o efeito deste anncio sobre suas posses. Doutor, tenha a bondade de tomar nota da data do jornal e do nome do mesmo.

    o Morning Chronicle de 27 de abril de 1890, justamente h dois meses passados. Muito bem. E agora, sr. Wilson? Bem, foi como acabei de lhe contar, sr. Sherlock Holmes disse Jabez Wilson, enxugando o suor da testa. Tenho um pequeno negcio de penhores na Saxe-Coburg Square, perto da City. pequeno, e ultimamente mal d para me sustentar. Antigamente podia pagar a dois ajudantes, mas agora tenho um s, e teria dificuldade em pagar mesmo a esse se no aceitasse metade do ordenado, visto a outra metade custear a aprendizagem do negcio. Qual o nome desse jovem to compreensivo? perguntou Holmes.

    Chama-se Vincent Spaulding, e no to jovem como pensa. difcil dizer a idade dele. No podia desejar ajudante mais ativo, sr. Holmes; e eu sei que ele poderia ganhar duas vezes mais do que lhe posso pagar. Mas, em todo caso, se est satisfeito, por que haveria eu de lhe encher a cabea com outras idias? Claro! O senhor parece ter sorte; um empregado que no exige ordenado alm do regulamentar no muito comum nestes tempos. No sei se seu ajudante no ser to estranho como este anncio. Oh, ele tem tambm as suas falhas disse o sr. Wilson. Nunca houve outro igual para bater fotos. Bate fotos quando devia estar trabalhando, e desce logo em seguida para a adega, como um coelho que procura a toca, para revelar os negativos. a principal falha dele, mas em geral trabalha bastante. No tem vcios. Continua em servio, suponho? Sim, senhor. Ele e uma mocinha de treze anos, que cozinha um pouco e faz a limpeza. s o que tenho em casa, porque sou vivo; somos s os trs, e nos arranjamos para pagar o aluguel, sem contrairmos dvidas, mesmo que no faamos mais nada. A primeira coisa que nos chamou realmente a ateno foi este anncio. Spaulding desceu para o escritrio justamente h dois meses com este jornal na mo e disse: "Gostaria que Deus me tivesse dado cabelos vermelhos, sr. Wilson".

  • " Por qu? perguntei-lhe. " Porque h outra vaga na Liga dos Cabeas Vermelhas, e creio que h mais vagas do que homens para ocup-las; por isso os depositrios esto preocupados, sem saber onde encontrar as pessoas que devem receber o dinheiro. Se o meu cabelo fizesse o favor de mudar de cor, aqui estaria um bom negociozinho para mim. " Mas de que se trata? perguntei eu. O senhor compreende, sr. Holmes, sou um homem caseiro, e como o meu negcio vem ter comigo e no necessrio eu procur-lo, passam-se semanas sem que eu saia de casa; e, assim, gosto de ouvir as notcias. " O senhor nunca ouviu falar da Liga dos Cabeas Vermelhas? perguntou ele, abrindo muito os olhos. " Nunca. " Admiro-me, porque o senhor prprio elegvel para uma das vagas. " E quanto valem? perguntei. " Oh, apenas umas duzentas libras por ano, mas o trabalho pequeno, e pouco