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  • IV ENECULT - Encontro de Estudos Multidisciplinares em Cultura

    28 a 30 de maio de 2008 Faculdade de Comunicao/UFBa, Salvador-Bahia-Brasil.

    ALGUNS ASPECTOS DO PROCESSO DE CONSTITUIO DO CAMPO DE ESTUDOS EM ECONOMIA DA CULTURA

    Paulo Miguez*

    Resumo: Com seus mltiplos enlaces e sua transversalidade face a outras dimenses societrias, a cultura tem vindo a ocupar uma posio de indiscutvel centralidade no mundo contemporneo. Todavia, por conta das muitas e complexas questes sugeridas pela relao que tem estabelecido com o campo da economia, em especial face escala do mercado global de bens e servios simblico-culturais dominado pelos gigantescos conglomerados de produo e distribuio de contedos culturais, que a centralidade da cultura adquire ainda mais visibilidade, desperta a ateno de instituies internacionais, dos formuladores de polticas pblicas e de estudiosos das vrias reas cientfico-acadmicas e constitui um campo particular de estudos ao qual chamamos de economia da cultura. Palavras-chave: cultura, economia da cultura, indstrias criativas, economia criativa, estudos scio-econmicos da cultura.

    1. A cultura na agenda contempornea

    A cultura , certamente, um dos mais relevantes dentre os eixos que organizam a

    agenda contempornea. Seus mltiplos enlaces e sua transversalidade face a outras

    dimenses societrias tm lhe reservado uma posio de indiscutvel centralidade no

    mundo, hoje. E no so poucos os sinais que atestam a presena significativa da cultura nos

    debates e embates que conformam a contemporaneidade.

    Na academia, por exemplo, territrio que historicamente monopolizou o debate

    sobre a cultura e seus fenmenos, mudanas de peso tm vindo a ocorrer. A, a cultura

    invadiu campos do conhecimento que at muito recentemente mantinham-se distantes e,

    no raro, hostis quanto s questes culturais. Transps os limites da antropologia e da

    sociologia, cincias sociais que classicamente, e em regime de quase exclusivismo, dela se

    tm ocupado, e passou a marcar presena nos estudos e pesquisas em disciplinas cientficas

    to distintas quanto a histria, a geografia, a cincia poltica, a demografia, a comunicao,

    a psicologia, as cincias ambientais, o direito, a economia, a gesto. At mesmo no campo

    dos estudos tecnolgicos, a exemplo das engenharias e, muito particularmente, dos sistemas

    de computao, a cultura tem alimentado o interesse de pesquisadores.

    * Professor da Universidade Federal do Recncavo da Bahia; paulomiguez@uol.com.br

  • Fora do universo estritamente acadmico, a cultura, por conta do tema da

    diversidade cultural, tem inscrio nas agendas nacionais e nos principais foros

    internacionais, fruto, com certeza, da aprovao, pela 33 Conferncia Geral da UNESCO,

    em outubro de 2005, da Conveno sobre a Proteo e Promoo da Diversidade das

    Expresses Culturais, instrumento normativo de fundamental importncia para a cultura

    que tem como premissa bsica a compreenso da diversidade cultural como patrimnio

    comum da humanidade (UNITED NATIONS..., 2006).

    Todavia, no se restringe temtica da diversidade cultural a presena da cultura

    nos foros internacionais. Muito ao contrrio, e extrapolando o campo cultural propriamente

    dito, a cultura alcana, em fora, por exemplo, os debates da comunidade internacional

    sobre desenvolvimento, comrcio internacional e propriedade intelectual.

    Nessa medida, no pode passar deixar de ser registrado o fato de que organizaes

    internacionais multilaterais do porte das agncias que compem o Sistema das Naes

    Unidas a OIT, Organizao Internacional do Trabalho, a UNCTAD, Conferncia das

    Naes Unidas sobre o Comrcio e Desenvolvimento, o PNUD, Programa das Naes

    Unidas para o Desenvolvimento, e a prpria UNESCO, que at muito recentemente tinha

    suas atividades concentradas na rea de patrimnio e memria tm elaborado

    documentos, acionados programas, reunido estatsticas e organizado eventos que apontam

    para a incorporao s suas estratgias poltico-institucionais das imbricaes entre cultura

    e desenvolvimento.

    Tambm no seleto e poderoso grupo de bancos multilaterais de desenvolvimento a

    cultura tem presena garantida. George Ydice registra, por exemplo, que James D.

    Wolfensohn, presidente do Banco Mundial, liderou a tendncia dos bancos multilaterais de

    desenvolvimento de incluir a cultura como catalisadora do desenvolvimento (YDICE,

    2004, p. 30).

    Na arena de negociaes sobre o comrcio internacional, a cultura, pela via da

    temtica da diversidade cultural, j ponto importante de agenda h algum tempo. Bem

    antes da aprovao da Conveno, em 1993, o GATT - General Agreement on Trade and

    Tarriffs1, nas negociaes multilaterais da Rodada Uruguai sobre a liberalizao do

    1 O GATT, que forneceu as bases para a criao da OMC- Organizao Mundial do Comrcio em 1995, um Acordo estabelecido no Ps-II Guerra Mundial que prev rodadas de negociaes sobre a retirada de barreiras

  • comrcio internacional, teve que debater a questo da exceo cultural posta pela Unio

    Europia, fortemente impulsionada pela Frana e com o apoio do Canad2. Contudo, longe

    de estar esgotado e agora informado pelas disposies da Conveno da diversidade

    cultural, que elege como um de seus pilares bsicos o reconhecimento da natureza

    especfica das atividades, bens e servios culturais ainda que considere a importncia da

    dimenso econmica da cultura (UNITED NATIONS..., 2006) , o debate sobre a liberao

    dos servios audiovisuais continua, j agora, tambm, no mbito da OMC - Organizao

    Mundial do Comrcio.

    Quanto propriedade intelectual, e especificamente no que concerne aos direitos do

    autor, tema imensamente caro ao campo da criao cultural e intensamente vinculado s

    questes do comrcio internacional e da diversidade cultural, o debate no menos

    importante. Em tela, a flexibilizao dos marcos regulatrios que regem internacionalmente

    o regime de propriedade intelectual, questo que vem sendo potencializada com a

    emergncia de conceitos e prticas tais como creative commons, copyleft e open source os

    quais, possibilitados pelos avanos da tecnologia digital, interessam sobremaneira ao

    campo da cultura pelo que significam em termos de democratizao do acesso aos bens e

    servios culturais e ao ferramental informacional (sistemas operacionais, softwares, etc.).

    Registre-se, sob esta importante questo, as reflexes de David Harvey quando analisa a

    importncia das singularidades culturais na formao do que chama de rendimento

    monoplico (HARVEY, 2005). Segundo este estudioso, a globalizao reduziu

    drasticamente ou mesmo eliminou boa parte das formas histricas de proteo de

    monoplios como, por exemplo, aquelas referidas ao espao, localizao e s barreiras

    alfandegrias nacionais. No entanto, como da natureza da dinmica capitalista a

    existncia (e a necessidade) dos monoplios em que pesem o discurso ideolgico, que faz

    profisso de f na livre concorrncia, e as leis anti-trust que nos EUA e na Europa tentam

    enfrentar a tendncia monopolizao do mercado , sempre que uma fonte de privilgios

    garantidores da situao de monoplio eliminada, novas formas de assegurar tal condio

    so reunidas. o caso, por exemplo, da rigidez com que tratada, hoje, a questo da

    alfandegrias de bens e servios e, que, na chamada Rodada Uruguai introduziu na pauta destas discusses os servios (que inclui o setor da produo audiovisual) e a propriedade intelectual. 2 Divina Frau-Meigs considera este embate como la primera conflagracin de tamao natural entre la idea de mundializacin y la de americanizacin (FRAU-MEIGS, 2006, p.4).

  • proteo da propriedade intelectual, portanto, uma forma contempornea de rendimento

    monoplico a que recorrem, por exemplo, as indstrias culturais (audiovisual, fonogrfica,

    editorial, etc.) e de desenvolvimento e produo de software alm, claro, de indstrias

    tradicionais como a farmacutica. Da que, o combate pirataria, que vem sendo

    capitaneado pelas grandes corporaes que controlam as indstrias fonogrfica, do

    audiovisual e do software e que conta com o apoio institucional de vrios governos,

    objetiva menos a proteo dos direitos do autor figura, o autor, que se encontra reduzida

    condio de mero provedor de contedo, nas palavras de Ydice (2004) que, como

    bvio, no podem ser negligenciados, do que a proteo dos oligoplios que caracterizam o

    mercado mundial de imagem e som, cada vez mais concentrado na mo dos grandes

    conglomerados de mdia e entretenimento.

    Sinais externos e, tambm, fortes sinais internos. No Brasil, a gesto de Gilberto Gil

    frente do Ministrio da Cultura tem dado grande ateno ao papel da cultura na sua

    relao estratgica com o desenvolvimento, especificamente no que toca s questes da

    economia da cultura. Por exemplo, na seqncia da XI UNCTAD o Governo Brasileiro

    chegou a acionar mltiplos e importantes esforos e a assumir compromissos oficiais junto

    comunidade internacional na direo da criao de um Centro Internacional de Economia

    Criativa em Salvador, na Bahia. Neste processo, de destacar o importante seminrio

    internacional organizado pelo MinC em conjunto com a UNCTAD, em abril de 2005, na

    Salvador (PROMOVENDO..., 2007).

    Outro bom exemplo a participao ativa do Brasil no tocante questo da

    propriedade intelectual. Aqui, digno de nota, o firme posicionamento do Governo

    Brasileiro no mbito da OMPI, Organizao Mundial da Propriedade Intelectual, expresso

    pela submisso Assemblia Geral desta organizao, em outubro de 2004, em conjunto

    com outros pases, da Agenda para o Desenvolvimento, documento que advoga mudanas

    nos marcos regulatrios da propriedade intelectual na direo dos interesses dos pases em

    desenvolvimento (WORLD INTELLECTUAL ..., 2007).

    Outros exemplos, inclusive na direo de reas como a poltica, poderiam ser

    elencados com o intuito de confirmar a idia da centralidade da cultura ou, como refere

    Albino Rubim, a compreenso de que Na contemporaneidade, a cultura comparece como

  • um campo social singular e, de modo simultneo, perpassa transversalmente todas as outras

    esferas societrias, como figura quase onipresente (RUBIM, 2007, 148).

    Contentemo-nos, todavia, com estes aqui mencionados, at porque, ainda que

    comparea de forma relevante em vrias esferas da vida social contempornea, nas suas

    interfaces com o campo da economia que de forma mais acentuada a cultura tem vindo a

    demandar a ateno do mundo cientfico-acadmico, de instituies governamentais, de

    agncias multilaterais, de bancos de desenvolvimento e de organizaes no-

    governamentais.

    E no so poucas, muito menos simples, as questes sugeridas pela relao que

    contemporaneamente tm estabelecido, entre si, os campos da cultura e da economia. Nesta

    linha, basta que se considere a escala e amplitude do mercado global de bens e servios

    simblico-culturais; que se tenha em conta o poder econmico e, to importante quanto, o

    poder poltico-ideolgico dos gigantescos conglomerados de produo e distribuio de

    contedos culturais que alimentam este mercado; ou que se contabilize alguns nmeros (por

    exemplo, as estimativas do Banco Mundial segundo as quais o setor da produo

    simblico-cultural a que o Banco comea a nomear como economia criativa j contribui

    com aproximadamente 7% do PIB mundial e dever crescer, nos prximos anos, a uma taxa

    mdia de 10% (PROMOVENDO..., 2007); os dados que indicam para os Estados Unidos e

    Inglaterra, respectivamente, uma participao deste setor de 6% e 8,2% do Produto

    Nacional Bruto (COPYRIGHTS..., 2004; BRITISH COUNCIL, 2005) e o fato de alguns

    pases em desenvolvimento terem conseguido estabelecer potentes mercados internos para

    seus produtos simblico-culturais, a exemplo da ndia com sua indstria cinematogrfica e

    do Brasil com sua produo televisiva, e operarem, como no caso da Jamaica e da

    Colmbia no campo musical, significativos nichos globais do mercado de bens e servios

    simblico-culturais), para que no soe estranha a compreenso expressa por Antonio Negri

    e Giuseppe Cuoco segundo a qual, hoje, a cultura no tem s um expressivo peso

    econmico. a prpria economia como um todo [que] depende cada vez mais, em seu

    conjunto, das dimenses culturais. (NEGRI; CUOCCO, 2006).

    Exemplos assim, mancheia, pela magnitude que encerram e pela expressividade

    dos atores e processos envolvidos, confirmam, sem mais, um protagonismo que a esfera

  • cultural jamais desfrutou na histria da modernidade e justificam e explicam, com sobras,

    as transformaes prtico-conceituais que alcanam a compreenso do que cultura.

    Alguns autores, como Jameson (1997), por exemplo, chegam a afirmar que a cultura

    se transformou na prpria lgica do capitalismo contemporneo. Negri e Cuocco, em linha

    semelhante, consideram que

    O que cultural no capitalismo globalizado das redes o trabalho em geral. Ou seja, um trabalho que se torna intelectual, criativo, comunicativo em uma palavra, imaterial. A cultura gera valor (como diz o management) porque o que incorporado aos produtos so formas de vida: estilos, preferncias, status, subjetividades, informaes, normas de consumo e at a produo de opinio pblica. A mercadoria precisa ser dotada de valor cultural. O trabalho se torna, assim, ao cultural. O trabalho da cultura e na cultura se torna cada vez mais o paradigma da produo em seu conjunto. (NEGRI; CUOCCO, 2006).

    George Ydice, considerando a expanso da cultura para outras esferas da vida

    social, como a poltica e a economia, e o concomitante esvaziamento das noes que

    convencionalmente davam conta dos seus significados, sugere uma abordagem da questo

    da cultura de nosso tempo, caracterizada como uma cultura de globalizao acelerada,

    como um recurso, recurso no sentido de reserva disponvel, especifica ainda o autor

    (YDICE, 2004, p.25, grifos do autor). E justifica:

    ... hoje em dia quase impossvel encontrar declaraes pblicas que no arregimentem a instrumentalizao da arte e da cultura, ora para melhorar as condies sociais, como criao de tolerncia multicultural e participao cvica atravs de defesas como as da UNESCO pela cidadania cultural e por direitos culturais, ora para estimular o crescimento econmico atravs de projetos de desenvolvimento cultural urbano... (YDICE, 2004, p.27)

    Da compreenso da cultura como recurso emerge o que George Ydice denomina

    de convenincia da cultura, uma caracterstica bvia da vida contempornea e que,

    menos que censura, demanda mais investimento terico, mais pesquisas e mais debates no

    sentido do estabelecimento de uma genealogia que d conta da transformao da cultura

    em recurso (YDICE, 2004, p.47).

    2. Sobre os estudos em economia da cultura

    As relaes entre o campo da cultura e outras esferas societrias, como bvio, no

    so novas. No caso especfico das relaes com a esfera econmica, por exemplo, a

    inscrio mais remota pode ser localizada na Europa do sculo XIX, momento em que a

    submisso do artista e do escritor aos ditames da...

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