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ALEXANDRE DE GUSMO E O TRATADO DE 1750MIGUEL PARANHOS DE RIO-BRANCO

A TORMENTOSA NOMEAO DO JOVEM RIO BRANCO PARA O ITAMARATYVASCO MARIZ

MINISTRIO DAS RELAES EXTERIORES

Ministro de Estado Secretrio-Geral

Embaixador Celso Amorim Embaixador Antonio de Aguiar Patriota

FUNDAO ALEXANDRE DE GUSMO

Presidente

Embaixador Jeronimo Moscardo

A Fundao Alexandre de Gusmo, instituda em 1971, uma fundao pblica vinculada ao Ministrio das Relaes Exteriores e tem a finalidade de levar sociedade civil informaes sobre a realidade internacional e sobre aspectos da pauta diplomtica brasileira. Sua misso promover a sensibilizao da opinio pblica nacional para os temas de relaes internacionais e para a poltica externa brasileira.

Ministrio das Relaes Exteriores Esplanada dos Ministrios, Bloco H Anexo II, Trreo, Sala 1 70170-900 Braslia, DF Telefones: (61) 3411-6033/6034 Fax: (61) 3411-9125 Site: www.funag.gov.br

Alexandre de Gusmo e o Tratado de 1750Miguel Paranhos de Rio-Branco

A Tormentosa Nomeao do Jovem Rio Branco para o ItamaratyVasco Mariz

Braslia, 2010

Copyright Fundao Alexandre de Gusmo Ministrio das Relaes Exteriores Esplanada dos Ministrios, Bloco H Anexo II, Trreo 70170-900 Braslia DF Telefones: (61) 3411-6033/6034 Fax: (61) 3411-9125 Site: www.funag.gov.br E-mail: funag@itamaraty.gov.br

Capa: Tomie Ohtake, 1972 Litografias - 50 x 50 cm Equipe Tcnica: Maria Marta Cezar Lopes Andr Yuji Pinheiro Uema Cntia Rejane Sousa Arajo Gonalves Erika Silva Nascimento Fernanda Leal Wanderley Henrique da Silveira Sardinha Pinto Filho Juliana Corra de Freitas Programao Visual e Diagramao: Juliana Orem e Maria Loureiro

Impresso no Brasil 2010 R452a Rio-Branco, Miguel Paranhos. Alexandre de Gusmo e o Tratado de 1750 / Miguel Paranhos Rio-Branco; A tormentosa nomeao do jovem Rio Branco para o Itamaraty / Vasco Mariz. Braslia : FUNAG, 2010. 68p. ISBN: 978.85.7631.262-8 1. Tratado de Madri. 2. Fronteiras. I. Ttulo. II. Ttulo: A tormenstosa nomeao do jovem Rio Branco para o Itamaraty. CDU: 341.222

Depsito Legal na Fundao Biblioteca Nacional conforme Lei n 10.994, de 14/12/2004.

Sumrio

1. Alexandre de Gusmo e o Tratado de 1750, 7 1.1 - Antecedentes, 7 1.2 - Alexandre de Gusmo, 14 1.3 - O Tratado de Madri, 21 1.4 - Alexandre de Gusmo e o Tratado de 1750, 26 1.5 - Fronteiras do Sul at a Soluo Final, 32 1.6 - Notas, 38 1.7 - Bibliografia, 40 2. A Tormentosa Nomeao do Jovem Rio Branco para o Itamaraty, 45

1. Alexandre de Gusmo e o Tratado de 1750Miguel Paranhos de Rio-Branco

1.1 - Antecedentes Desde que fora descoberta a Amrica, revelavam-se indefinidos e confusos os limites fixados aos domnios de Portugal e Espanha. A autoridade dos papas, no que se referia repartio de terras descobertas, ou a serem descobertas, era, naquela poca, incontestvel. Isto no somente porque eles representavam, como vigrios de Cristo, a prpria vontade divina; mas, tambm, por causa do edito de Constantino que concedera ao Papa Silvestre a soberania de todas as ilhas do mundo, j que as novas descobertas feitas naquelas pocas passavam por no ser seno ilhas e no continentes1. A impreciso das fronteiras na Amrica existia, assim, desde a bula Inter coetera (I). Outras bulas seguiram; todas elas regidas em termos vagos, tomando por base posies que nem sequer eram seguras; nenhuma delas conseguiu, pois, delimitar as terras descobertas. Essa dvida que pairava originou os repetidos protestos do Rei dom Joo III de Portugal, que considerava a ocupao da Espanha uma verdadeira usurpao, enquanto que, na prpria Espanha, o famoso teologista de1 Alexandre de Gusmo et le sentiment amricain dans la politique internationale. RODRIGO OCTAVIO.

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MIGUEL PARANHOS DE RIO-BRANCO

Salamanca, frei Francisco de Victoria, atacava veementemente a prerrogativa papal. Tais protestos e controvrsias tiveram como resultado a negociao direta realizada no tratado de 7 de junho de 1494 assinado em Tordesilhas (II) Era como uma diviso do mundo entre os dois reis2. Embora repetindo algumas das disposies da bula Inter coetera esse tratado era uma vitria da diplomacia portuguesa, pois que a deslocao do meridiano, de 100 para 370 lguas, vinha aumentar o territrio ocupado por Portugal. Tal tratado, entretanto, tinha a mesma falha que as precedentes bulas: fixavase no plano das fronteiras artificiais numa poca em que no se contava, para a sua demarcao, com os necessrios conhecimentos geogrficos e astronmicos3. Surgiam dvidas a respeito do prprio meridiano fixado; o arreglo foi meramente formal e terico; ningum sabia o que dava ou recebia, e se ganhava ou perderia com ele no ajuste de contas4. J que os signatrios desse tratado discutiam sobre se o meridiano fixado passava pela foz do rio da Prata ou pelo Golfo de So Matias, era natural que aqueles que se encontravam no prprio territrio americano no tomassem o menor conhecimento do novo ato. Portugueses e brasileiros continuavam suas exploraes e transpunham a linha de limites sem sequer saber onde a mesma se encontrava e seguiam, acima de tudo, os seus interesses e as suas ambies. Em 1580, deu-se a dominao de Portugal por Espanha, poca durante a qual o mencionado tratado tornou-se letra morta. Foi ento que se iniciou o alargamento das fronteiras brasileiras com a atividade, cada vez mais crescente, das bandeiras que voltaram os seus olhos para os rebanhos das cochilhas do sul. Nessa poca, as divises penetram-se. Fundem-se. Embaralham-se fantasia das vagas colonizadoras5. Nessa marcha de colonizadores, os portugueses ou brasileiros e os espanhis, ignorando propositadamente tratados obsoletos e vagos em busca de fronteiras mais naturais, encontraram-se afinal nas regies andinas e nas margens do Prata, onde, alis, Martim Afonso de Souza, fundador da Capitania Geral de So Vicente, plantara, em 1531, os padres de posse em nome da Coroa Portuguesa.Rio Branco. ALVARO LINS, pg 270. ALVARO LINS. Obra citada, pg. 271. 4 Captulos da Histria Colonial do Brasil. CAPISTRANO DE ABEREU, pg. 196. 5 Ensaios de Histria e Crtica. A. G. de ARAUJO JORGE, pg. 120.2 3

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ALEXANDRE DE GUSMO E O TRATADO DE 1750

Quando, em 1640, Portugal recobrou a sua independncia, os portugueses j haviam alcanado o Paran entre Paranapanema e o Iguau. volta ao poder da monarquia lusitana, seguiu-se a guerra com a Espanha, at que esta reconhecesse a independncia do seu vizinho. Na Amrica, naturalmente, reiniciam-se tambm as hostilidades, e durante as lutas travadas entre espanhis e portugueses, ao sul e ao oeste, os paulistas expulsam os espanhis, desalojam as suas redues no Alto Paraguai, ao oriente do Paran, e, mais ao sol, ao oriente do Uruguai6. O Tratado de Paz, assinado em Lisboa entre Portugal e Espanha, a 13 de fevereiro de 1668, no tomava nenhuma disposio positiva a respeito de limites na Amrica. O artigo segundo determinou a mtua restituio das praas conquistadas durante a guerra, acrescentando que os limites entre os dois Reinos seriam os j alcanados antes da guerra.Pode afirmar-se que ento se haviam esboado os limites meridionais do pas, em linhas todavia obscuras e incertas7.

Ia, ento, crescer e tomar violncia o problema da fronteira do sul. Desde que Martim Affonso de Souza tomara posse da margem esquerda do Prata, os portugueses pretendiam fixar ali a sua fronteira. Muitos dos colonizadores apontavam para as grandes vantagens daquelas terras, e, entre eles, Salvador Correa de S e Benevides, alcaide-mr da cidade de So Sebastio do Rio de Janeiro, pedira a El-Rei lhe concedesse cem lguas de terras no distrito da Ilha de Santa Catarina. A 15 de maro de 1658, respondia o Conselho Ultramarino afirmativamente8. Em 1675, aquiescendo indiretamente a essa pretenso portuguesa, o Papa Inocncio II tinha criado, na margem do Prata, um bispado submetido jurisdio do Rio de Janeiro. Em fins de 1678, o tenentegeneral Jorge Soares de Macedo dirigiu uma expedio que, de Santa Catarina, seguiu na direo da futura Colnia procura das minas de prata que houver neste serto at Buenos Aires. Para assegurar a posse dos territrios ocupados no sul pelos bandeirantes, D. Pedro II decidiu construir naquela zona um posto capazA. G. DE ARAUJO JORGE. Obra citada, pg. 121. As Nossas Fronteiras. JOO RIBEIRO, pg 13. 8 A Poltica Exterior do Brasil. JOO PANDI CALOGERAS. Tomo I, pg 159.6 7

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MIGUEL PARANHOS DE RIO-BRANCO

de assumir a defesa da regio, e despachou instrues ao Governador do Rio de Janeiro, dom Manuel Lobo, a fim de que seguisse a fundar, margem esquerda do rio da Prata, a colnia do Sacramento, a Colnia tout court, como a chamariam mais tarde, trecho do territrio platino a monopolizar a ateno exclusiva das duas cortes9. Deve salientar-se que a fundao da colnia no era caso de gerao espontnea. Cumprindo as ordens de seu soberano de fundar alguma colnia na ilha de So Gabriel, ou na paragem que tivesse mais a propsito, Manuel Lobo desembarcou, a 1 de janeiro de 1680, junto ilha recomendada e, no continente, lanou as bases da Colnia. Esta cidade, na margem esquerda do Prata, quase em frente a Buenos Aires, achava-se completamente isolada da parte povoada do Brasil, cujo estabelecimento mais meridional se achava ento na Ilha de Santa Catarina. O novo posto no foi inquietado enquanto os espanhis ignoravam a sua existncia; conhecida porm casualmente a fortaleza, o governador de Buenos Aires desejou saber quais as intenes com que se entrava no territrio de Sua Majestade Catlica. Tendo d. Manuel Lobo respondido que aquelas paragens pertenciam jurisdio portuguesa, o espanhol mandou uma intimao formal exigindo a retirada dos portugueses daquela zona e, dando o comando o comando geral de um exrcito ao mestre de campo Antnio de Vera Mojica, desencadeou a primeira de uma longa srie de hostilidades. Na madrugada de 7 de agosto, a praa era tomada de assalto e Manuel Lobo, feito prisioneiro, era en

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