Ainda em cartaz, “Estamira”: A Psicanálise nas telas do ... ?· Quem tem ouvidos, que ouça! No…

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<ul><li><p>Estudos de Psicanlise | Belo Horizonte-MG | n. 36 | p. 157164 | Dezembro/2011 157</p><p>Ainda em cartaz, Estamira: A Psicanlise nas telas do Cinema</p><p>ResumoO presente trabalho tem como objetivo discutir e articular as relaes entre o cinema e a Psica-nlise. Para isto, utilizou-se do documentrio Estamira, de Marcos Prado, 2006. O fi lme retrata a histria de uma mulher que sofre de transtornos mentais e trabalha, h anos, no hoje extinto aterro sanitrio na cidade do Rio de Janeiro. O Cinema, como expresso de arte, se relaciona com a Psicanlise de diversas formas, pois tambm trata da subjetividade dos participantes na produo cinematogrfi ca. O diretor, sem ter a inteno de qualquer expresso psicanal-tica, assume um lugar de objeto que escuta e deseja desvendar o saber da personagem, o que se assemelha funo de um analista. Estamira transmite aos telespectadores sua narrativa da verdade, seu discurso contundente que, na mesma enunciao impacta, confunde e toca. Na psicose, como caso de Estamira, os delrios da personagem tentam responder a eventos traumticos inassimilveis, so respostas a circunstncias compostas de grande sofrimento; a personagem elucida o mecanismo de produo delirante ao mostrar, em sua histria de vida, que a nica resposta possvel encontrada s violncias que vivenciou, foi o delrio.</p><p>Palavras-chave: Psicanlise, Cinema, Psicose, Delrio.</p><p>Apresentaes</p><p>A minha misso, alm de eu ser Estamira, revelar a verdade, somente a verdade. </p><p>Seja mentira, seja capturar a mentira e tacar na cara, ou ento ensinar a mostrar o que eles no sabem, os inocentes </p><p>No tem mais inocente, no tem. Tem esperto ao contrrio, esperto ao contrrio tem, </p><p>mas inocente no tem no. </p><p>O que pensar destas palavras que, ao mes-mo tempo, dizem algo que no tem sentido, mas aparentam ter algum tipo de signifi ca-do? Quem tem ouvidos, que oua! No ano de 2000, Marcos Prado, diretor e fotgrafo, rea-lizava um trabalho fotogrfi co que j durava </p><p>cerca de seis anos no aterro sanitrio de Jar-dim Gramacho, no Rio de Janeiro. Em meio ao ambiente ftido e imundo que o rodeava, ele encontra uma senhora, com roupas e postura peculiares, contemplando a paisa-gem do lixo. Pede a ela autorizao para </p><p>Ainda em cartaz, Estamira: A Psicanlise nas telas do Cinema</p><p>Still in theaters, Estamira: Psychoanalysis in Cinema screens</p><p>Thiago Robles JuhasNiraldo de Oliveira Santos</p></li><li><p>Estudos de Psicanlise | Belo Horizonte-MG | n. 36 | p. 157164 | Dezembro/2011158</p><p>Ainda em cartaz, Estamira: A Psicanlise nas telas do Cinema</p><p>fotograf-la. Esta consente, com a condio de que, depois, ele sentasse para conversar. Na prosa com Marcos, a excntrica senho-ra conta que mora em um castelo, enfeitado com lixo e fala sobre o mundo, as pessoas, e coisas que, s vezes, parecem no fazer muito sentido aos que a ouvem.</p><p>Marcos se encanta com o discurso daque-la senhora, discurso bem diferente e, por ve-zes, confuso. Eles se tornam amigos e, certo dia, ela lhe pergunta qual seria sua misso. Antes que ele pudesse responder, ela diz que a misso dele era a de revelar a verdade dela. Desta forma, Marcos Prado decide fazer um fi lme sobre sua vida e nomeia a produo com o nome da senhora: Estamira. O presen-te trabalho tem como objetivo tecer algumas consideraes sobre Estamira, o cinema e a psicanlise.</p><p>A personagem e a sua histriaEstamira, fi lme de Marcos Prado (2006), con-ta a histria de Estamira, uma mulher que sofre de transtornos mentais, vive e trabalha, h mais de 20 anos, em um aterro sanitrio. Uma pessoa de olhar e expresso de quem j sofreu muito ao longo da vida, uma mulher de vida rdua, que fala sozinha, ouve vozes e, quando se refere a Deus, o faz com catarse, proferindo inmeros palavres. Trata-se de uma fi gura muito carismtica e respeitada no extinto lixo da capital carioca. Sua histria marcada por violncia e rupturas, dentre elas: os estupros, a prostituio, as traies vivenciadas em seus dois casamentos, o dis-tanciamento de sua fi lha mais nova, a depen-dncia alcolica e o fato de ter sido moradora de rua. Ao assistir o documentrio, pode-se acompanhar o seu tratamento psiquitrico na rede pblica: os mdicos a diagnosticam como portadora de quadro psictico de evo-luo crnica, alucinaes auditivas, idias de infl uncia e discurso mtico. As fi lmagens duraram quatro anos, sendo que o incio da produo coincide com o comeo do trata-mento psiquitrico; assim, o fi lme retrata e acompanha as mudanas de comportamen-</p><p>tos e as mudanas do discurso da persona-gem, provavelmente em consequncia dos efeitos (colaterais) dos medicamentos, que toma diariamente. Os fi lhos de Estamira tambm participam do fi lme, contam sobre seu passado trgico e mostram como vi-ver ao lado de algum com esquizofrenia. J a personagem conta pouco de sua histria e fala mais de sua verdade e de sua misso. </p><p>O fi lme sensibiliza quem o assiste, pois as falas e os signifi cantes contundentes dos personagens chocam, sua narrativa parece possuir diversos signifi cados que, s vezes, escapam do espectador. preciso assisti-lo e ouvi-lo, mais de uma vez, porque, s assim, possvel supor uma compreenso acerca da seqncia discursiva da personagem quando esta fala de coisas reais, concretas, sofridas, de traumas que podem ser de difcil com-preenso para quem nunca vivenciou tais sensaes em sua vida. O diretor apresenta, atravs do gnero documentrio, o mundo da personagem como ele realmente . H momentos em que o fi lme mostra apenas lixo, podrido, misria, coisas concretas, que rodeiam o mundo de Estamira: tentativas de metaforizar o real?</p><p>Aproximaes possveis entre cinema e psicanliseO documentrio pode ser caracterizado como uma construo da realidade huma-na (a partir da viso do diretor), que conta com a subjetividade de quem o produz com um objetivo e transmisso de valores. arte como expresso da verdade; a vida como ela , sendo que, por vezes, h intenes polti-co-partidrias o desejo do diretor? De cer-ta forma, o cinema, como fi co ou irreal, representa a realidade transformada em arte, que trabalha, quase sempre, retratando as produes humanas, fato este que chama a ateno de quem estuda e se utiliza da psi-canlise. Segundo Penafria (1999, p.17) um documentrio pauta-se por uma estrutura dramtica e narrativa, que caracteriza o cine-ma narrativo. A estrutura dramtica cons-</p></li><li><p>Estudos de Psicanlise | Belo Horizonte-MG | n. 36 | p. 157164 | Dezembro/2011 159</p><p>Ainda em cartaz, Estamira: A Psicanlise nas telas do Cinema</p><p>tituda por personagens, espao da aco, tempo da aco e confl ito.</p><p>O cinema e a psicanlise tiveram seu nascimento em pocas semelhantes, no fi -nal do sculo XIX, quando o conhecimento cientfi co e as novas formas de tecnologia avanavam de modo exponencial. A psica-nlise v e observa um mundo de represen-tao e memria, toma o homem para alm do corpo e, sem exclu-lo, procura desven-dar os anseios e vicissitude da alma huma-na. Se a psicanlise como cincia e tcnica se aprimorava, o cinema cada ano se utiliza de novas tecnologias pticas para ampliar o olhar, para operar no universo do fantsti-co e construir expresses de realidades de formas jamais vistas. Segundo Froemming (2004), o cinema constri, desmembra e fragmenta o racional e a fantasia e, de ma-neira similar psicanlise, investiga, cons-tri e desconstri a racionalidade, aprende e formaliza um olhar cientfi co ao que no opera logicamente. Ambos, os fi lmes e a te-oria psicanaltica acerca da construo da realidade, so frutos da unio da cincia, razo e irracionalidade, e sem dvida, po-de-se afi rmar que o cinema e a psicanlise contriburam para a construo da subjeti-vidade e seu acesso a ela, ao longo de todo o sculo XX, e at os dias de hoje. </p><p>Segundo Fernandes (Fernandes, 2005, p.69), ambos tratam dos sonhos e expres-sam, por meio de imagens e sons variados, as emoes humanas, O homem busca no escuro do cinema o isolamento do mundo para viver uma experincia imaginria com todas as emoes proibidas e perigosas; sai delas como se despertasse de um sonho </p><p>Os fi lmes podem ser a expresso de uma dimenso onde no h falhas, tudo pode ser bem organizado, mesmo quando se trata de temas complexos e problemticos, onde sempre possvel um ento viveram feli-zes para sempre... Ao lado dessa dimen-so do ideal e fantstico, do integrado e alienante, h, tambm no cinema, imagens que propem questes aos espectadores e </p><p>problematizam a realidade. As produes cinematogrfi cas sempre comunicam algo, uma mensagem por vezes, mais ou menos clara, muito ou pouco poltica e que pos-sui diferentes gneros, como por exemplo, a comdia, o drama, o terror, o suspense e o romntico. A prtica e costume de ir ao cinema ou assistir um fi lme com ou-tra pessoa, j est incorporada em muitas culturas como meio de se fazer lao social, como por exemplo, encontros de amigos, pais separados que levam seus fi lhos ou ca-sais que se enamoram nas salas de cinema. </p><p>Os gneros cinematogrfi cos possuem funes distintas: a comdia para quando se est triste ou para desfrutar o momento com amigos; o drama e o suspense para fazer re-fl etir e questionar-se; o romance para cativar um outro de quem se quer aproximar ou, at mesmo para, sozinho, elaborar os desenla-ces das relaes. Existem, tambm, os gne-ros mais explcitos como o caso dos fi lmes adultos que tem muitos desdobramentos ps-quicos como o fetiche e a compulso sexual.</p><p>A arte, incluindo o cinema, desperta no homem o que nele h de mais importante e problemtico: traz tona seu particular, seu buraco, aquilo que o faz sujeito. A psican-lise tem sua matriz implicada com a arte, na tragdia de dipo, na dvida de ser ou no ser de Hamlet. Mesmo que Freud no tenha escrito nada sobre o cinema, a arte foi tra-balhada e teve importncia ao longo de sua obra. Artistas como Leonardo e Michelange-lo contriburam com a obra psicanaltica. As-sim como a anlise dos textos de Schereber, o legado de Freud sobre a psicose e a obra Gra-diva de Jansen so contribuies literrias e artsticas que formalizam a psicanlise como cincia humana. Segundo Ide (2008), as ima-gens em movimento, os sons, as impresses obtidas a partir da experincia de assistir um fi lme, todos estes elementos absorvidos pelo aparelho psquico, so, sempre, recobertos por sentimentos e afetos que, s vezes, so recalcados, simbolizados, sublimados ou so-matizados.</p></li><li><p>Estudos de Psicanlise | Belo Horizonte-MG | n. 36 | p. 157164 | Dezembro/2011160</p><p>Ainda em cartaz, Estamira: A Psicanlise nas telas do Cinema</p><p>O que to estranho em Estamira?Estamira um documentrio didtico ao mostrar os alcances da relao entre cinema e psicanlise. Talvez um dos aspectos mais importantes do fi lme seja demonstrar a fun-o e a importncia da escuta, pois ouvir o outro nem sempre fcil; escutar do outro sobre o que nos diferente ou muito seme-lhante, escutar sobre a dor ou morte , mui-tas vezes, insuportvel. Entretanto, no isso mesmo que faz a psicanlise? Escutar o sujei-to? At que ponto se escuta os outros fora de um dispositivo analtico, suas fantasias, seus delrios ou pergunta-se: o que se escuta de Estamira? </p><p>H momentos do fi lme em que no se pode discordar do que a protagonista fala; em outros, h um estranhamento profundo, mas, estranho mesmo, que o contedo de sua narrativa, em alguns momentos, tambm nos familiar. O telespectador reconhece, tomado de angstia, o abandono da perso-nagem por parte dos pais, dos cnjuges, da sociedade e de deus. Quem assiste Estamira, certamente, se recorda de que existem pes-soas que vivem no lixo, no refugo, que so tratados como abutres, que vivem borda, sujeitos com famlias sustentadas pelo que se obtm do lixo. Como no estranhar tal situ-ao. Como no se incomodar com as narra-tivas de Estamira?</p><p>Em seu artigo O Estranho, Freud (1919) aborda o fenmeno da estranheza, como aquilo que, um dia, j foi familiar, ou seja, ao se deparar com alguma imagem ou sensao qualquer, ocorre o retorno de uma percep-o que, em um algum momento anterior, era conhecida, e, no estado atual, percebida como estranha. Atravs da sobreposio do percebido da realidade externa e do vivido no mundo interno o elemento chave da situ-ao de estranheza, foi, outrora, esquecido ou reprimido. O conceito freudiano diz respeito ideias que se associam ao retorno de uma cena que foi reprimida, fato que provoca, in-dubitavelmente, uma sensao de desamparo e angstia. Acompanhando a mesma lgica </p><p>da negao, o conceito de estranho em Freud indica o recalque, demonstra situaes em que o que deveria permanecer obscuro tra-zido luz, irrompe na conscincia, ou seja, o que se apresenta como estranho est vincula-do, de alguma forma, com o que familiar. O estranho provem de que algo recalcado pode retornar, no importando se o elemento em questo j era originalmente assustador ou pertencente a qualquer outro tipo de afeto, mas, quando retorna, angustia. </p><p>O fi lme, desde o seu incio, causa estra-nhamento e, quem assiste se pergunta: que realidade essa? As imagens aparecem como se fossem de um mundo diferente, um mun-do fora da realidade. As primeiras impresses so de um lugar sem forma, sem matria, que tem um aspecto sombrio. Os primeiros minutos de fi lme so formados por palavras que, parecem no ter sentido, paisagens sem forma e sem contorno. Reconhece-se a mi-sria. O retorno do recalcado dos telespecta-dores se atualiza nas cenas do lixo, do dejeto, do que pode ser descartado, na solido, na fome, atributos que retornam conscincia, mas, melhor seria se de l no tivessem sado. O que fi ca sob recalque, primordialmente, o fato de que todo o lixo mostrado familiar. conhecido dos telespectadores e de todos os homens, de maneira geral, pois todos so produtores de lixes. Os restos amontoados mostrados por Marcos Prado, que esto em estado de putrefao, j estiveram em nossas mos. Assim vemos os dejetos por ns pro-duzidos e descartados, queremos esquec-los, negamos sermos responsveis pela for-mao de montanhas de lixo, que, inclusive, destroem o meio ambiente. Segundo Rinaldi (2008, p.63) o resto que retorna e que in-comoda.</p><p>Esta que mira o socialO discurso de Estamira problematiza o lixo como uma representao da prpria condi-o do homem, do quanto o homem se ape-ga ao desnecessrio, e como a sensao de prazer trazida por este nos torna escravos do </p></li><li><p>Estudos de Psicanlise | Belo Horizonte-MG | n. 36 | p. 157164 | Dezembro/2011 161</p><p>Ainda em cartaz, Estamira: A Psicanlise nas telas do Cinema</p><p>imediato, da mxima, usou jogou fora. O fi lme e a personagem denunciam o desam-paro humano; no s o biolgico ou familiar, mas, tambm, o social, o econmico e o po-ltico. Estamira, essa que olha, uma idia, um estado de esprito no qual o ser huma-no pode ser mais autntico. uma resposta negligncia social. Sabe-se dessa realidade, pois ela vista todos os dias, mas esqueci-da, recalcada. Mas, no entanto, ela retorna. A narrativa da personagem apresenta uma srie de elementos politicamente corretos, demonstra cdigos sociais estabelecidos, de-fl agra e denuncia alguns comportamentos humanos. </p><p>A denncia alcana muitos nveis, tais como: o uso inadequado dos bens, o des-perdcio, o questionamento da educao do pas conceituando os homens da atualidade como indivduos assujeitados,...</p></li></ul>