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  • 1

    Ai, se eu te pego:

    Enquadramentos acadmicos da msica sertaneja

    Gustavo Alonso1

    No de hoje que a msica sertaneja faz sucesso no Brasil. Nos anos 70 o xito de

    duplas como Leo Canhoto & Robertinho e Milionrio & Jos Rico foi fundamental para a

    legitimao da modernidade no meio musical de largos setores que habitavam o interior do

    pas e as periferias das capitais especialmente no Centro-sul. Estes artistas foram os

    principais expoentes da mistura de gneros estrangeiros na msica rural brasileira. Leo

    Canhoto & Robertinho foram os pioneiros, seguidos por Jac & Jacozinho, Belmonte &

    Amara, Chitozinho & Xoror, dentre outros, que desde 1969 misturavam as guitarras e a

    instrumentao pop/rock temticas rurais. Milionrio & Jos Rico seguiam a trilha aberta

    por Cascatinha & Inhana e Pedro Bento & Z da Estrada e deram prosseguimento a

    importao de gneros latinos msica brasileira, sobretudo o bolero, o rasqueado e a

    rancheira mexicanos, a guarnia paraguaia e o chamam argentino. O sucesso do repertrio

    destas duplas deve-se em grande parte a boa receptividade destes gneros estrangeiros entre

    os camponeses do interior e proletrios dos subrbios das grandes cidades do pas.2

    No obstante, grande parte da crtica da poca esmerou-se em atacar o considerava esta

    aberrao na msica rural. Foi a partir das primeiras importaes estticas nos anos 50

    que surgiu a ideia de que os sertanejos e seu pblico eram camponeses falsos para grande

    parte da intelectualidade brasileira. Na segunda metade do sculo XX folcloristas,

    nacionalistas, comunistas, marxistas crticos da indstria cultural e tericos do populismo se

    uniram no repdio msica sertaneja por esta ser vista como comercial, banal e

    imperialista e, ainda por cima, ser a msica alienante que o campons migrante e o

    proletariado urbano da poca gostavam, e que os afastava da verdadeira conscincia de

    classe. De forma que, sobretudo nos anos 70, a msica sertaneja foi taxada de falsa msica

    do campo por variadas correntes intelectuais que no compreenderam o significado da

    transio da msica rural brasileira. Houve um frequente desprezo destes artistas e seu

    pblico, o que distanciou grande parte da intelectualidade da compreenso deste chamado

    1 Doutor em Histria pela UFF, Bolsista de fixao de Doutor/UEMA. 2 H de se demarcar, contudo, que nesta poca o sucesso da msica sertaneja concentrava-se no Centro-Sul do pas, e no conseguia, salvo rarssimas excees, chegar ao Norte e Nordeste, assim como tambm tinha dificuldade de tocar nos rdios das classes mdias. A nacionalizao do gnero e a superao das barreiras de classe somente aconteceu nos anos 90.

  • 2

    Brasil profundo. Esta crtica continuou bastante evidente e resqucios dela ainda so

    ouvidas diante do sucesso de artistas do sertanejo universitrio atual, como Michel Tel,

    Victor & Leo e Luan Santana (ALONSO, 2012).

    Paralelo a este processo de distino, criou-se a ideia legitimada por intelectuais de

    diversos matizes, de que haveria uma msica que de fato representava o trabalhador do

    campo: esta seria a msica caipira. Outra, a msica sertaneja seria a falsificao deste

    trabalhador e seus valores, adepta da importao musical e da indstria cultural. Nos anos

    1960, e sobretudo na dcada seguinte, vrios intelectuais paulistas interagiram no debate da

    msica popular, em defesa da msica rural autntica e acusaram os sertanejos de serem

    representantes de uma msica corrupta, porque fruto da indstria cultural e alienante, por

    desviar o campons do seu papel revolucionrio. Se nos anos 60 a academia ajudou a forjar a

    MPB, nos anos 70 este debate se estendeu para a msica rural, na definio distintiva entre

    msica caipira e msica sertaneja.

    Este artigo visa compreender as lgicas que embasaram grande parte da academia

    brasileira em sua crtica aos msicos sertanejos ainda nos anos 70. Grande parte destas

    formulaes surgiu nos trabalhos na USP, em livros de Antonio Candido, Jos Carlos

    Martins, Waldenyr Caldas, Francisco Weffort e Otavio Ianni e foram compartilhadas por

    intelectuais, parte da mdia e pelas classes mdias e altas das grandes cidades. Durante muito

    tempo estes grupos, embasados com ideias condenatrias acerca da indstria cultural,

    recusou-se a ver na msica sertaneja uma tradio popular de fato, sobretudo porque estes

    intelectuais buscavam demarcar uma determinada autenticidade do campons.

    curioso que grande parte dos setores populares do pas tenha caminhado em direo

    diametralmente oposta a determinadas elites intelectuais universitrias que forjaram a MPB e

    o epteto msica caipira. Se desde os anos 1950 houve uma srie de projetos artsticos entre

    as esquerdas que saram a campo em busca do povo brasileiro3, este mesmo povo-alvo

    parecia deslizar, indo na direo contrria s expectativas de intelectualidade, que

    frequentemente usava a crtica indstria cultural como forma de distino e demarcao de

    campos de autenticidade. Para espanto destes intelectuais, ao invs de querer preservar sua

    identidade, setores populares preferiam misturar os sons do campo, desejavam o fim do

    caipira como alegoria do atraso, e consumiam a positividade da modernidade ao invs de

    3 A expresso em busca do povo brasileiro de RIDENTI, 2000.

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    sacralizar o passado. Como tinham dificuldade de aceitar isso, preferiram culpar a

    demonizada indstria cultural, numa simplificao terica debitaria de pensadores da Escola

    de Frankfurt.

    Diante destas questes, importante mapear o nascimento do termo caipira dentro

    do vocabulrio universitrio e responder algumas questes. Quem se sentiu ofendido pela

    modernidade rural? De onde vem a distino de sertanejos e caipiras? Que interesses so

    contemplados nessa diviso? Para responder a estas questes, preciso fazer uma genealogia

    do termo caipira dentro da academia brasileira.

    Cndido caipira

    A primeira vez que o termo caipira foi utilizado sistematicamente por um acadmico

    foi na obra de Antonio Candido em seu livro Os parceiros do Rio Bonito, de 1964.

    Importante intelectual paulista, professor de literatura da USP, Candido j era bastante

    reconhecido na poca em parte devido a publicao de um clssico da teoria literria nacional,

    o livro Formao da Literatura Brasileira, cuja primeira edio de 1959.

    Embora Os parceiros do Rio Bonito seja frequentemente considerado um livro

    menor na trajetria de Antonio Candido, o estudo do mundo rural brasileiro contribuiu para

    sua formao intelectual e formou uma gerao de pesquisadores. Nesta obra Candido deu ao

    termo caipira sentido terico e, pela primeira vez na academia, utilizou-o de forma

    sistemtica, sem mistur-lo com o termo sertanejo. Fruto de um trabalho de campo no

    municpio de Bofete, Estado de So Paulo, entre 1948 e 1954, o livro-tese s foi publicado em

    1964, ano que no pode ser desconsiderado. O autor buscava compreender a decomposio

    da vida caipira e a situao crtica do trabalhador rural. Para melhor demarcar seu objeto,

    chamou-o de caipira (CANDIDO, 1977: 216).

    Como j explicou o socilogo francs Pierre Bourdieu, o poder de nomear um poder

    de atribuir valor (BOURDIEU, 1989). Nomes nunca so escolhidos aleatoriamente e esto

    sempre carregados de valor simblico. Ento cabe pergunta: que valor tinha o caipira de

    Antonio Candido?

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    O termo caipira j existia h quase um sculo.4 Mas era em Antonio Candido que o

    termo ganhava sentido terico: era usado para retratar um estado puro de campons, um

    modo-de-ser quase idlico, como o prprio escreveu em sua tese de doutorado:

    Para designar os aspectos culturais, usa-se aqui caipira, que tem a vantagem de no ser ambguo (exprimindo desde sempre um modo-de-ser, um tipo de vida, nunca um tipo racial), e a vantagem de restringir-se quase apenas, pelo uso inveterado, a rea de influncia histrica paulista (CANDIDO, 1977: 22)

    Antonio Candido encontrou na palavra caipira o termo ideal para dar conta de sua

    problemtica. Ele no se sentia satisfeito com os termos raciais da poca associados ao termo

    na poca, e para isso teve que depurar seu sentido. Seu texto debatia com Emilio Willems, o

    primeiro a utilizar de modo coerente a expresso cultura cabocla, e com Cornlio Pires, que

    em seus textos utilizava variantes como caipira branco, caipira preto, caipira mulato e

    caipira caboclo. O debate de Candido seguia questionando os conceitos de Alberto Rovai,

    que utilizava o termo raa caipira (CANDIDO, 1977: 22). Candido preferiu caipira sem

    adjetivos para no associa-lo a uma raa e sim a um modo de vida que estava sendo destrudo

    pelo progresso do capitalismo.

    Para Candido o caipira era um modo-de-ser nico na histria do Brasil. Tratava-se

    do primeiro campons forado a escolher entre a resistir ao progresso e defender seu modo-

    de-vida, ou emigrar por causa do processo de urbanizao e industrializao do pas. Ou

    seja, o autor, o primeiro a utilizar sistematicamente o termo caipira na academia, s o utilizou

    porque aquela realidade estava se extinguindo frente urbanizao crescente do pas:

    Trata-se de definir um fenmeno da maior importncia (...) que altera a perspectiva segundo a qual estudamos a vida caipira: a sua incorporao progressiva esfera da cultura urbana. A ma

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