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Apesar dos índices de derrubada dafloresta Amazônica continuaremaumentando e o mundo todo estarcada vez mais preocupado com os impactosdessa devastação sobre as mudançasno clima, o atual governo insiste naconcretização de um modelo de desenvolvimentobaseado em mega-projetos deinfra-estrutura que pretende, dentre outrasações, represar os mais importantesrios da Amazônia.Ao contrário do que se divulga, as hidrelétricasnão são fontes de energia limpa.Além de contribuírem para o aumento dadevastação, através de sua própria construção,do alagamento de grandes áreas eda conseqüente migração, estudos comprovamque as usinas hidrelétricas são grandesemissoras de CO2 na atmosfera.

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  • Glenn Switkes, organizador

    Patrcia Bonilha, editora

    ALERTAS SOBRE AS CONSEQNCIAS DE BARRAR

    O MAIOR AFLUENTE DO AMAZONAS

    guas Turvas

  • Projeto Grfico: Guilherme ResendeAssistente de Arte: Paula Chiuratto

    Switkes, Glenn guas Turvas: Alertas sobre as conseqncias de barrar o maior afluente do Amazonas/Glenn Switkes, organizador; Patrcia Bonilha, editora So Paulo: International Rivers, 2008

    1. Usinas hidreltricas Rio Madeira, RO. 2. Usinas hidreltricas Impacto ambiental. 3. Usinas hidreltricas Conflito social. I. Switkes, Glenn. II. Bonilha, Patrcia

    Foto capa: Tiago Iatesta/Projeto Brasil das guasFoto contracapa: NASA

  • 1a Edio So Paulo, 2008

    Glenn Switkes, organizador

    Patrcia Bonilha, editora

    ALERTAS SOBRE AS CONSEQNCIAS DE BARRAR O MAIOR AFLUENTE DO AMAZONAS

    guas Turvas

  • ALEX

    IS B

    ASTO

    S/RI

    OTE

    RRA

  • s artigos que compem guas Turvas pretendem servir de instrumento para aqueles que buscam compreender melhor o Complexo Hidreltrico e Hidrovirio do Rio Madeira, sua histria e

    implicaes para a regio Amaznica. A iniciativa de publicar este livro da Organizao No Governamen-tal (ONG) Bank Information Center (BIC), como parte de uma srie de estudos do seu programa BICECA (sigla em ingls de Construindo Incidncia Cvica Informada para a Conservao da Amaznia Andina). Com o principal objetivo de proteger a diversidade biolgica e cultural dessa regio, o BICECA oferece apoio s organizaes da sociedade civil para que elas possam incidir sobre os mais impactantes projetos das Instituies Financei-ras Multilaterais, especialmente os da Iniciativa para a Integrao da Infra-estrutura Regional Sul-Americana (IIRSA). O apoio financeiro para a publicao foi propor-cionado pela Fundao Gordon e Betty Moore, Fundao Kendeda, Fundo Blue Moon e Fundao Ford.

    A International Rivers, uma ONG baseada nos Estados Unidos e com escritrio no Brasil, coordenou a produo dos estudos de caso. A International Rivers sinceramente agradece aos especialistas que produziram os artigos pa-ra este livro. Cada um deles compartilha a nossa propos-ta de um desenvolvimento ambientalmente equilibrado e com justia social para a Amaznia.

    O

    PREFCIO

    CANOAS UTILIZADAS PARA A PESCA

  • WIL

    SON

    DIA

    S, A

    BR

  • 7INTRODUO

    m agosto de 2003, a companhia eltrica estatal brasileira Furnas e o conglomerado privado da construo Odebrecht apresentaram, em um se-

    minrio no Rio de Janeiro organizado pelo Banco Na-cional de Desenvolvimento Econmico e Social (BN-DES), um projeto para um complexo hidreltrico e uma hidrovia industrial no Rio Madeira, o principal afluente do Rio Amazonas.

    O projeto foi apresentado como um componente funda-mental para a integrao continental proposta pela IIRSA, uma iniciativa promovida pelos governos da Amrica do Sul e coordenada por Instituies Financeiras Multilate-rais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Banco Mundial, e agncias de financiamento, como o prprio BNDES.

    Quase imediatamente, o Complexo Madeira foi pro-movido como o nico projeto energtico considerado essencial para evitar racionamentos de eletricidade no Brasil durante os prximos dez anos - assumindo, portanto, o papel que, at ento, havia sido desti-nado represa de Belo Monte, no Rio Xingu. Por mais de uma dcada, a Eletronorte, companhia es-tatal de eletricidade, tentou forar a construo de Belo Monte driblando as disputas tcnicas e legais e a forte oposio dos grupos ambientalistas e de direi-tos humanos. Para justificar a opo por essas mega-hidreltricas, o governo e o setor privado utilizam a estratgia da ameaa do retorno do apago, ocorrido nos anos 2001 e 2002.

    Pelo fato de a Odebrecht ter sido uma das principais fi-nanciadoras da campanha presidencial de Lula e Furnas estar se beneficiando do compromisso assumido por ele de reintegrar o planejamento energtico burocracia eltrica estatal, o projeto Madeira foi revigorado pelo esforo, sem precedentes, do atual governo para forar o seu processo de licenciamento ambiental a qualquer custo.

    Apesar de adotar um discurso de sustentabilidade ambiental, com especial destaque a novos esforos para limitar o desma-tamento da Amaznia, o governo Lula insistiu na constru-o das represas do Madeira, o que acabou por transformar a anlise dos impactos do projeto em uma farsa absurda.

    O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renovveis (Ibama) foi at mesmo desmembrado para assegurar a rpida aprovao de um projeto de duvi-dosa viabilidade ambiental, social e econmica.

    Com a emisso da licena ambiental provisria para as re-presas de Santo Antnio e Jirau, concedida em 9 de julho de 2007, uma outra pgina foi virada na histria da Amaznia. Uma histria que sempre foi marcada por ambio, gann-cia, conflitos e trgicos erros cometidos por aqueles que ocupam o poder. Nos prximos anos, novas informaes revelaro os interesses por trs do projeto e as manipula-es para tentar justific-lo. No entanto, neste momento, j se especula que, se o Complexo Hidreltrico do Rio Ma-deira realmente for construdo, ele poder, no futuro, ser considerado um dos mais devastadores e irreversveis erros cometidos pela administrao do governo Lula.

    E

  • SUMRIO

    W

    ILSO

    N D

    IAS,

    ABR

    RESUMO EXECUTIVO

    A PEDRA FUNDAMENTAL DA IIRSA

    HIDROLOGIA E SEDIMENTOS

    PERGUNTAS NUNCA RESPONDIDASSEDIMENTOS

    PESCA E ICTIOFAUNA NO RIO MADEIRA

    VALORES DE MERCADO DA PESCA COMERCIAL

    PERGUNTAS NUNCA RESPONDIDASICTIOFAUNA

    TRANSFORMAES ECONMICAS E SOCIAIS

    AcumulAo de mercrio em peixes

    PERGUNTAS NUNCA RESPONDIDASGERAL E RELAO DE IMPACTOS

    PERGUNTAS NUNCA RESPONDIDASACAREAO TCNICA

    COM VONTADE POLTICA, PODE SE FAZER DIFERENTE

    CONCLUSO

    ANEXOS

    16

    10

    50

    90

    94

    206

    120

    138

    140

    160

    186

    196

    198

    203

    VISTA AREA DO RIO MADEIRA

  • 10

    RESUMO EXECUTIVOpor Glenn Switkes

    O

    BrasilMADEIRA

    XINGU

    NEGRO

    AMAZONAS

    Colmbia

    Peru

    Bolvia

    projeto Complexo Rio Madeira um plano para construir quatro grandes hidreltricas na Bacia do Rio Madeira, o principal tributrio do Rio Ama-

    zonas, permitindo a navegao por via fluvial desde os rios Madre de Dios (Peru) e Beni (Bolvia) at o Oceano Atlntico. O Complexo faz parte do conjunto de projetos propostos dentro da Iniciativa para a Integrao da Infra-estrutura Regional Sul-Americana, ou IIRSA, que prev tambm conexes terrestres dele com o Oceano Pacifico.

    As primeiras duas barragens, denominadas Santo Antnio (capacidade instalada de 3.150 MW) e Jirau (3.300 MW), tiveram a emisso de suas licenas prvias concedidas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renovveis (Ibama) em julho de 2007. O leilo de energia para investidores da hidreltrica Santo Ant-nio foi realizado no dia 10 de dezembro de 2007, e o da hidreltrica Jirau dever acontecer em maio de 2008. Est prevista ainda a instalao de 2.450 km de linhas de trans-

    misso para conduzir a energia gerada pelas hidreltricas de Porto Velho, Rondnia, at a rede nacional integrada, em Araraquara, So Paulo.

    O elevado custo das hidreltricas foi bastante questionado. Em abril de 2007, a Agncia Nacional de Energia Eltri-ca (Aneel) estimou que Santo Antnio e Jirau custaro R$ 25,72 bilhes, alm do custo adicional estimado en-tre R$10 e R$ 15 bilhes para as linhas de transmisso. Contratos de exclusividade entre um dos proponentes do projeto, a empreiteira privada Odebrecht, com empresas fornecedoras de equipamentos foram vistos como um constrangimento concorrncia livre no leilo.

    Todo o processo de licenciamento das hidreltricas foi con-troverso e polmico. Por um lado, houve muita presso do go-verno brasileiro para que as licensas fossem concedidas. Por outro, especialistas independentes expressaram contunden-tes avaliaes e anlises sobre os graves impactos do projeto.

    SOLIMES

    MAMORbENI

    MADRE DE DIOS

    GUAPOR

    AbUN

    MARAON

    UCAyALI

    TOCANTINSTAPAjS

    ARAGUAIA

  • 11

    A prpria equipe tcnica do Ibama se posicionou contra o licenciamento, recomendando a realizao de novos estudos com maior abrangncia. No entanto, os gerentes deste Instituto acabaram por ceder s presses e conce-deram a licena.

    Os Termos de Referncia para os Estudos de Impacto Am-biental (EIA) foram restritos ao territrio brasileiro. Ape-sar das evidncias sobre a probabilidade da represa Jirau inundar florestas da Bolvia, o Ibama e as empresas pro-ponentes negaram-se a considerar esse fato. A diplomacia boliviana chegou a registrar protestos contra o governo brasileiro e iniciou um processo de anlises tcnicas para para averiguar essa possibilidade.

    O projeto de barrar o Rio Madeira despertou uma forte oposio por parte de entidades ambientalistas brasileiras, bolivianas e de vrios outros pases, j que o Complexo considerado um projeto emblemtico da poltica brasileira de explorao dos recursos hdricos da Amaznia a qual-quer custo. Os movimentos sociais, tanto do Brasil como da Bolvia, se organizaram para resistir imposio de um modelo de desenvolvimento na regio que despreza o modo de vida das populaes tradicionais.

    Neste livro, o estudo do hidrlogo boliviano Jorge Molina Carpio analisa dados oficiais dos Estudos de Viabilidade e de Impacto Ambiental das hidreltricas Santo Antnio e Jirau sobre a hidrologia do Rio Madeira. O autor nota que este rio, de origem andina, carrega a maior carga de sedimentos ao baixo Amazonas, um dos maiores do mun-do em termos de descarga slida, e que o seu volume de sedimentos est aumentando, provavelmente devido ao desmatamento na parte alta