Agroecologia controle de pragas e doenças

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<ul><li> 1. AgriculturaFamiliar,AgroecologiaeMercado No 6 2010 </li></ul><p> 2. EXPEDIENTE Projeto Agricultura Familiar, Agroecologia e Mercado Desenvolvimento Sustentvel da Agricultura Familiar no Nordeste Representante da Fundao Konrad Adenauer Fortaleza: Anja Czymmeck Coordenadora Geral: Angela Kster Coordenador tcnico: Jaime Ferr Mart Coordenadora administrativa: Pollyana Vieira Equipe tcnica: Narciso Ferreira Mota e Pollyanna Quemel Elaborao de textos: Jaime Ferr Mart, Angela Kster e Pollyanna Quemel Reviso e edio de texto: Maristela Crispim Reviso Tcnica: Jaime Ferr Mart Projeto grfico, capa e ilustraes: Fernando Lima Fotos: Arquivo Fundao Konrad Adenauer (exceto quando disposto em contrrio) Jornalista responsvel: Maristela Crispim (CE0095JP) Todos os direitos para a utilizao desta cartilha so livres. Qualquer parte poder ser utilizada ou reprodu- zida, desde que se mantenham todos os crditos e seu uso seja exclusivamente sem fins lucrativos. Disponvel para download em www.agroecologia.inf.br Esta publicao foi realizada com apoio da Unio Europia(UE). O seu contedo no expressa necessariamente a opinio da UE ou da Fundao Konrad Adenauer. 3. O Brasil ganhou uma posio nada louvvel no ranking internacional do consumo de agrotxicos. Com cerca de 700 milhes de toneladas de veneno aplicados por ano, ficou em primeiro lugar, superando os Estados Unidos, em 2008, pela primeira vez. Os pesticidas e fertilizantes qumicos persistem por muito tempo na natureza, con- taminando os alimentos, o solo e a gua, com consequncias ainda desconhecidas para a sade humana e a vida na Terra. No faltam alertas sobre os riscos desses produtos qumicos para os(as) agricultores(as), trabalhadores(as) rurais e os consumidores. Como consequncia, a demanda por alimentos orgnicos produzidos sem veneno e sem agredir a nature- za vem crescendo. Mas os agroecossistemas foram desequilibrados com o uso indiscriminado dos agrotxicos, que no matam somente os insetos ou microorganismos considerados pragas, mas tambm os inimigos naturais, que mantm o equilbrio das populaes, por meio do controle biolgico. As plantas enfraquecem e ningum sabe dizer, quais sero as consequncias das modificaes genticas que pretendem deixar as plantas mais resistentes aos prprios venenos aplicados para matar tudo ao seu redor, menos a planta cultivada. Assim tambm eliminada a vida nos solos, que ficam doentes e no conseguem mais gerar plantas saudveis e resistentes. Ao final so as pragas que ficam cada vez mais resistentes contra os diversos produtos qumicos. A soluo do problema dessas pragas pode estar em no usar mais veneno. Para isso mais do que necessrio investir no desenvolvimento e na divulgao das alternativas do manejo ecolgico, que inicia com a preveno, atravs do equilbrio nutricional do solo, da diversificao da produo nos agroecossistemas, do controle biolgico atravs do equilbrio natural entre as espcies e da plantao e aplicao de plantas que afastam ou atraem os insetos e microorganismos dos cultivos, antes de tratar infestaes e doenas com remdios naturais. preciso produzir em sistemas integrados e diversificados em pequenas e me- dias propriedades. Isso significa uma mudana de paradigma, proposta pela Agroe- cologia, que se constri no dilogo dos conhecimentos das diferentes cincias com os saberes dos povos campesinos e agricultores tradicionais. Esta cartilha tem o objetivo de disponibilizar informaes sobre algumas das tan- tas alternativas de manejo ecolgico, com receitas j aprovadas por agricultores(as) familiares, mas que precisam ser experimentadas em cada caso - com o registro dos seus efeitos - para avanar no seu desenvolvimento, ajudando a natureza a reencon- trar o seu equilbrio para que ela possa continuar a produo dos nossos alimentos de forma saudvel. APRESENTAO 4. Projeto Agricultura familiar, Agroecologia e Mercado O Projeto Agricultura Familiar, Agroecologia e Mercado (AFAM), co-financiado pela Unio Europia (UE) de 2006 a 2011, tem como objetivo promover a melhoria da quali- dade de vida, soberania alimentar e empoderamento da populao no semi-rido do Nor- deste do Brasil, por meio do fortalecimento da agricultura familiar ecolgica e sustentvel. Trabalha, para tanto, o fortalecimento da organizao social e da qualificao de agricultores familiares, na produo, planejamento, gesto e comercializao de produtos agroecolgicos, promovendo uma maior participao de mulheres e jovens. No Estado do Cear, o projeto est contribuindo para a criao e fortalecimento de redes de agricultores(as) familiares ecolgicos(as) nas regies do Vale do Curu e Ara- tiau, no Serto Central e no Macio de Baturit, em parceria com as organizaes no- governamentais (ONGs) Ncleo de Iniciativas Comunitrias (NIC), Instituto SESEMAR e Agncia do Desenvolvimento Econmico Local (ADEL). O Centro de Cincias Agrrias da Universidade Federal do Cear (CCA-UFC) parceiro no apoio cientfico ao projeto, que conta tambm com a colaborao de outros parceiros locais e estaduais. Alm disso, existem articulaes com redes e entidades em outros Estados do Nordeste, promovendo a troca de experincias e construo de estratgias para avanar na difuso da proposta agroecolgica. e-mail: agroecologia@agroecologia.inf.br homepage: http://www.agroecologia.inf.br Fundao Konrad Adenauer A Fundao Konrad Adenauer uma fundao poltica da Repblica Federal da Alemanha que, naquele pas e no plano internacional, vem trabalhando em prol dos direitos humanos, da democracia representativa, do Estado de Direito, da economia social de mercado, da justia social e do desenvolvimento sustentvel. Os principais campos de atuao da Fundao so a formao poltica, o desenvolvimento de pes- quisas aplicadas, o incentivo participao poltica e social e a colaborao com as organizaes civis e os meios de comunicao. No Brasil, realiza seu programa de cooperao por meio de um escritrio no Rio de Janeiro e de uma Representao em Fortaleza, para o Nordeste e Norte do Pas, sempre em conjunto com parceiros locais. Com suas publicaes, pretende contribuir para a ampliao do debate pblico sobre temas de importncia nacional e interna- cional. Nas publicaes da Fundao Konrad Adenauer, os trabalhos tm uma metodolo- gia cientfica e tratam de temas da atualidade, principalmente nos campos das cin- cias sociais, polticas, econmicas, jurdicas e ambientais. As opinies externadas nas contribuies desta publicao so de exclusiva responsabilidade de seus autores. e-mail: kas-fortaleza@kas.de homepage: http://www.kas.de/brasil 5. Captulo 1 O surgimento das pragas e doenas Captulo 2 O fortalecimento das defesas naturais nos agroecossistemas Captulo 3 Tcnicas para controlar e repelir insetos Captulo 4 Diagnstico e tratamento de plantas e animais 06 10 18 25 SUMRIO 6. 6 Apreocupao com as chamadas pragas sempre existiu na histria da humanida- de, desde que iniciou a domesticao de plantas e animais. Os insetos que atacam as planta- es foram considerados uma praga na viso dos agricultores. Este conceito humano se desenvolveu desde os tempos bblicos at hoje. Qualquer organismo que em algum momento possa causar dano aos cultivos, animais ou pro- priedade, considerado uma praga, desde os micro- organismos, como fungos, bactrias e nematides, at os mais evoludos mamferos. Este dano a re- duo do rendimento e/ou da qualidade do produto numa medida que no mais aceitvel para o pro- dutor. Cerca 60% da fauna identificada at hoje no mundo so insetos. Estima-se que 67 mil espcies de organismos chamados de nocivos ataquem os cultivos agrcolas em diferentes partes do mundo, dessas somente 5 % so considerados como pragas principais. As formigas e cupins, por exemplo, so consi- derados pragas em muitos lugares do mundo, mas representam 20% da biomassa animal total da Terra e tm um papel decisivo na reciclagem e na cadeia alimentar dos sistemas florestais, portanto so im- portantes para o funcionamento dos ecossistemas. Por outro lado, existem muitas espcies de for- migas predadoras, que controlam o aumento de outros insetos, e esta funo utilizada por mui- tas culturas campesinas, que levam formigueiros s suas plantaes. Portanto, no manejo ecolgico, o conceito de praga no existe, somente organismos que ocu- pam diferentes posies nos ecossistemas. As suas populaes se regulam conforme a abundncia de alimentos e a existncia de seus inimigos. O aumen- to de uma das populaes uma resposta da natu- reza a algum desequilbrio no sistema. Uma monocultura, por exemplo, no natural, mas introduzida pelo homem, causando um desequi- lbrio no ecossistema. A Natureza, portanto, encon- tra mecanismos, para atacar a invaso de plantas de Quais so os insetos ou parasitas ob- servados na sua propriedade e que so importantes para o equilbrio? Predadores so inimigos naturais de outras espcies e se alimentam de suas presas, como joaninhas, besouros, lar- vas, percevejos, vespas e formigas. Captulo1 O surgimento das pragas e doenas 7. Exemplo de monocultura 7 uma s espcie e tenta voltar sua condio natural, que a diversidade, com o equilbrio biolgico. Alguns insetos predadores ou parasitas controlam o crescimento da populao de outros insetos, ca- ros, nematides, fungos, bactrias e vrus. Esse ins- trumento da natureza se chama controle biolgico. Quando combatemos as pragas sem tentar entender as causas pode acontecer em breve uma mesma situao com efeitos agravantes, em decor- rncia de uma alterao no equilbrio ecolgico. As causas do surgimento de uma praga so numerosas, complexas e relacionadas com diferen- tes fatores. H algumas dcadas foram provocadas principalmente pelas profundas mudanas na agri- cultura. A chamada Revoluo Verde promoveu prticas como o monocultivo em grande escala, o uso intensivo de fertilizantes qumicos e de agrotxi- cos, como tambm a introduo de plantas exticas, hbridas ou transgnicas na substituio de varieda- des nativas. Foi iniciado um ciclo vicioso: a concentrao das terras com as monoculturas extensivas aumentou a probabilidade de ataques por organismos que dani- ficam as plantaes. A aplicao de agrotxicos no mata somente estes organismos, mas tambm seus inimigos naturais. As pragas muitas vezes ficam resistentes contra as substncias qumicas e assim preciso aplicar cada vez uma quantidade e diversida- de maior de agrotxicos. Nas plantas eles podem di- minuir a respirao, a transpirao e a fotossntese, prejudicando a resistncia delas. No solo, os adubos qumicos e os agrotxicos interferem no equilbrio dos microorganismos e prejudicam a disponibilidade de nutrientes para as plantas. Alm disso, esses pro- dutos matam minhocas, besouros e outros peque- nos organismos benficos para a agricultura, como Em xodo 10:13 10:15, segundo li- vro do Antigo Testamento, so des- critas as dez pragas que caram so- bre os egpcios, trazendo a eleio de Moiss por Deus para encabear a sada dos israelitas do Egito. O oi- tavo suplcio egpcio era a praga dos gafanhotos: Estendeu, pois, Moiss o seu bordo sobre a terra do Egito, e o Senhor trouxe sobre a terra um vento oriental todo aquele dia e toda aquela noite; quando amanheceu, o vento oriental tinha trazido os gafa- nhotos. E subiram os gafanhotos por toda a terra do Egito e pousaram so- bre todo o seu territrio; eram mui- to numerosos; antes destes, nunca houve tais gafanhotos, nem depois deles viro outros assim. Porque co- briram a superfcie de toda a terra, de modo que a terra se escureceu; de- voraram toda a erva da terra e todo fruto das rvores que deixara a chuva de pedras; e no restou nada verde nas rvores, nem na erva do campo, em toda a terra do Egito.(Sociedade Bblica do Brasil, 1993) Esta histria bblica reflete como antigamente se relacionavam questes ticas ao fe- nmeno das pragas na agricultura, de maneira que se acreditava que as pragas eram um castigo pela falta de moral entre os homens. 8. Feira Agroecolgica de Consumidores Responsveis no Bairro Benfica, Fortaleza 8 as abelhas. J em 1962, Rachel Carson observava no seu famoso livro Primavera Silenciosa o sumio dos pssaros nos Estados Unidos e alertava sobre os perigos da contaminao da gua e do solo que ameaam o futuro da vida na Terra. As consequncias do uso dos agrotxicos so inmeras: alm de contaminarem o solo e a gua a sade dos (das) agricultores (as), trabalhadores (as) rurais e consumidores colocada em risco. Es- tes riscos variam de acordo com o tempo e a dose da exposio a diferentes produtos. Assim, os efeitos podem ser agudos ou crnicos, causando intoxica- es, dores de cabea, alergias, nuseas e vmitos. Alertados pelos crescentes casos de doenas provocados pelo uso de venenos na produo de ali- mentos, entre estas o cncer, cada vez mais consu- midores esto procurando por alimentos saudveis, produzidos sem a utilizao de agrotxicos e fertili- zantes qumicos. A demanda por alimentos orgni- cos alta e vem crescendo rapidamente. Uma pes- quisa feita pela Market Analysis mostrou que cerca de 17% dos consumidores urbanos brasileiros j optaram pelos produtos orgnicos, embora o mer- cado ainda seja abastecido por apenas 2% do total de produtores agrcolas do pas. So mais de 3,5 milhes de brasileiros consumindo produtos orgni- cos entre uma e cinco vezes por semana, segundo a pesquisa, realizada nas nove principais capitais do pas, na faixa etria entre 18 a 69 anos. Os fertilizantes qumicos geralmente contm metais pesados, como o cd- mio. Estes metais so ingeridos junto aos alimentos, no so eliminados e se armazenam no corpo. O cdmio pro- voca principalmente distrbios gas- trointestinais. O mercrio, utilizado em fungicidas, se concentra em diversas partes do corpo como pele, cabelo, glndulas sudorparas e salivares, tire- ide, sistema digestivo, pulmes, pn- creas, fgado, rins, aparelho reprodu- tivo e crebro, provocando inmeros problemas de sade. 9. Fonte: Clara I. Nicholls, Miguel Altieri 9 O Brasil o maior consumidor de agro- txicos do mundo, s em 2009 utilizou mais de 1 bilho de litros de produtos no pas, inclusive venenos j proibidos em vrios pases da Unio Europia, nos Estados Unidos e outros pases. Fonte: www.brazildefato.com.br A produo orgnica de alimentos atravs do manejo ecolgico no s uma alternativa, mas uma necessidade para desenvolver modelos de agri- culturas sustentveis e corrigir os efeitos negativos do modelo de agricultura convencional. Por muito tempo as culturas tradicionais praticaram o retor- no da matria orgnica ao solo, o uso de adubao verde, a rotao e o consrcio de culturas. Portanto importante desenvolver alternativas, no para o combate, mas o manejo ecolgico dos agroecossis- temas, atravs da integrao dos sistemas produti- vos nas propriedades, mantendo a biodiversidade da natureza. A Agroecologia procura, nesse sentido, estabe- lecer um equilbrio natural que vai alm do manejo ecolgico integrando objetivos ambientais, sociais e econmicos, propondo estratgias para o desenvol- vimento rural sustentvel. O papel da Agroecologia na satisfao dos objetivos sociais, ambientais e econmicos do desenvolvimento rural sustentvel em reas rurais 10. 10 Prevenir melhor que remediar...</p>