Agostinho Como Mentor - 1 Capítulo

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1. 9 Captulo 1 r M E N T O R E A N D O N O S C U L O I A urlio Agostinho (354-430) viveu bem, e seu legado vive at hoje. Seu pensamento cuidadosamente preservado nos livros, sermes e cartas impactou telogos como Joo Calvino (1509-1564), o his toriador rabe Ibn Khaldoun (1332-1406), e praticamente todos os filsofos, amadores e profissionais, dos ltimos 1500 anos. Sua contribuio continua a estimular os estudiosos que se dedicam atualmente a esses campos de estudo. Ele foi um escritor prolfico, autor de mais de 100 livros, muitos dos quais foram compostos depois de um longo dia de trabalho como bispo da igreja de Hipona (Hippo Regius, atualmente Annaba, na Arglia).1 V-se que seu gnio ainda mais significativo quando nos lembramos de que ele foi criado no seio de uma famlia de recursos modestos, em Tagaste (Souk Ahras, Arglia), uma cidade insignificante da frica romana, distante dos centros de ensino do Imprio Romano.2 Embora seu pensamento e sua eloquncia sejam merecidamente elogiados, acho sua pessoa, seu carter e seu ministrio ainda mais extraordinrios. Ele ti nha uma f sincera, que permaneceu consistente e apaixonada desde sua con verso ocorrida na Itlia, em 386, at sua morte em Hipona, uns 44 anos mais 1 Possdio, Vida de Agostinho 27; todas as tradues inglesas so da obra editada por John E. Rotelle, Life of Saint Augustine (Villanova, PA: Augustinian, 1988). 2 Sermo 356, 13. 2. A G O S T I N H O C O M O M E N T O R 10 tarde.3 Contudo, diferente dos monges eremitas que fugiam do mundo em busca da solido do deserto, este pastor africano estava sempre na companhia de amigos. Ele fez sua profisso de f, algo considerado hoje como altamente pessoal, na presena de um amigo ntimo.4 No mosteiro de Hipona, onde ele e outros clrigos e leigos viviam, ele deliberadamente deixava a porta aberta para visitantes, e sua mesa era posta com lugares extras.5 Em resumo, sua vida era caracterizada pela amizade. Meu interesse particular est no impacto que Agostinho teve sobre outros lderes espirituais do seu tempo. Robert Clinton define o lder espiritual como uma pessoa com capacidade dada por Deus e com responsabilidade dada por Deus de influenciar um grupo especfico de pessoas pertencentes a Deus, com vistas a seus propsitos para o grupo.6 No tempo de Agostinho, os lderes espi rituais incluam bispos, padres (presbteros) e diconos, como tambm subdi conos, aclitos e leitores.7 Como lderes, eles eram homens separados para servir o povo de Deus e arcar com as responsabilidades da igreja. A presente pesquisa considerar como Agostinho influenciou esses lderes na instruo e capacitao deles para o ministrio. Minha alegao que Agostinho mentoreou efetivamente lderes espirituais e os separou para ministrios necessrios na igreja, e que muitos aspectos do seu trabalho como mentor serviro como elementos instrutivos para o mentor moderno. Embora no nos tenha deixado um manual especfico sobre como ser lder espiritual, seu exemplo e seus escritos do significativa evidncia que propicia o entendimento dos seus princpios sobre como mentorear. 3 Confisses 1.1; Soliloquies 1.1.5; tambm George Lawless, Agostinho de Hipona e a norma monstica (Nova Iorque: Oxford University Press, 1989), 34,35. Obra em portugus: Agostinho. Confisses. So Paulo: Paulinas, 1986. 4 Confisses 8.8.19; 11.27; 12.30. 5 Sermo 355.2; Letter 38.2; Possdios, Vida de Agostinho 22.2,6; tambm Frederick van der Meer, Augustine the bishop, traduo de B. Battershaw e G. R. Lamb (Londres: Sheed & Ward, 1961) 239. 6 CLINTON, Robert, The making of a leader, Colorado Springs: NavPress, 1988, p. 245. 7 BACCHI, Ver Lee, The theology of the ordained ministry in the letters of Augustine of hippo, San Francisco: International Scholars, 1998, p. 68. 3. 11 m e n t o r e a n d o n o s c u l o I Escrevo principalmente para pastores e lderes espirituais dos dias modernos que desejem mentorear e equipar outros. Nos crculos cristos evanglicos, que sou mais propenso a frequentar, o trabalho de mentorear e de instruir tem obtido maior importncia nos ltimos anos.8 O grande nmero de livros, seminrios, eventos em estdios, reunies com caf da manh para orao e excurses de pesca testificam um aumento da nfase no trabalho de mentor. A presente gerao de pastores parece estar mais interessada em questes do corao, como integridade, humildade, fidelidade, santidade pessoal, fome espiritual e servio, do que nas habilidades normalmente associadas ao ministrio pregao, evangelizao, ensino, administrao e visitao. Como h um imenso depsito de sabedoria e discernimento preservado na histria do movimento cristo primitivo, acredito que Agostinho tem algo para oferecer aos ministros modernos que buscam autenticidade e anseiam praticar o que pregam. Mediante seu pensamento, sua prtica, seu sucesso, e at seus fracassos, minha esperana que os mentores atuais encontrem esperana, inspirao e sugestes prticas para que saibam como mentorear uma gerao emergente de lderes espirituais. Devo deixar claro os assuntos que abordarei e os assuntos que no tratarei neste livro. Primeiro, pretendo apenas focar a obra de Agostinho na formao de homens que foram lderes espirituais e que ocupavam um ofcio clerical. Isto no significa que ele no teve impacto em mulheres, particularmente freiras e virgens. Apesar das mulheres que servem como lderes espirituais encontrarem pontos de relevante aplicao, os estudos de casos se limitaro relao de Agostinho como mentor de homens. Um segundo limite que este estudo no mostrar como Agostinho disci pulava a congregao geral de Hipona ministrio que exposto claramente por seus sermes, catecismos, cartas, julgamentos legais e aconselhamentos registrados. Alm de sua congregao, Agostinho tambm influenciou outros leigos por meio de sua correspondncia, incluindo cartas a servos de Deus 8 Ver CLINTON, Robert e STANLEY, P., Connections: The mentoring relationships you need to succeed in life, Colorado Springs: NavPress, 1992, p. 18. 4. A G O S T I N H O C O M O M E N T O R 12 homens e mulheres religiosos que tinham abandonado o mundo secular para se tornarem servos e servas de Deus.9 As evidncias circundantes vida de Agostinho revelam um homem pro fundamente especial e apaixonado, comprometido com pessoas e com relaes de amizade. Como servo da igreja, seus pensamentos, que foram ditados para serem inseridos em livros e cartas, e formulados em sermes, serviram para edificar a igreja de Hipona, frica, estendendo-se tambm para fora dos limi tes dessa cidade. luz do que j sabemos a respeito de Agostinho, um estudo focando sua abordagem da obra de mentorear lderes espirituais uma valiosa contribuio para o estudo da funo de mentor, e para o estudo do discipulado e da formao espiritual como ocorriam na igreja primitiva. Comecemos, pois, a considerar a vida de algum que devemos emular e imitar neste mundo.10 O que mentorear? Embora s tenha entrado em voga na Amrica do Norte em anos recentes, o conceito de mentorear antigo. Em algumas culturas africanas, mentorear refere-se ao processo pelo qual um menino se torna homem, ou a um jovem que aprende alguma habilidade, como tocar tambor, ou a um novato que trabalha como aprendiz de um ofcio sob o comando de um mestre, como a carpintaria. Milavec cita exemplos, colhidos da cultura grega, de novatos sendo mentoreados nos trabalhos de tecelagem de cestos, ou de caa com arco e flecha, ou de fabricao de objetos de cermica.11 Hoje, na Amrica, men torear veio a ser sinnimo de aconselhar, informar, instruir, preparar e minis trar aprendizagem, ao passo que alguns contextos incluem ofcios, esportes, 9 Ver DOYLE, Daniel, The bishop as disciplinarian in the cartas of St. Augustine, Nova Iorque: Lang, 2002, p. 368. 10 POSSDIO, Vida de Agostinho 31.11. 11 Ver MILAVEC, Aaron, The didache: text, translation, analysis e comentrios. Collegeville, MN: Liturgica, 2003), p. 47; e WILKINS, Michael, The concept of a discipline in Matthews gospel: As reflected in the use of the term mathts, Leiden: Brill, 1988, p. 34. 5. 13 m e n t o r e a n d o n o s c u l o I educao e belas artes. Embora os contextos e as culturas variem, mentorear significa, na essncia, que um mestre, ou um perito, ou algum que tem signi ficativa experincia, infunde conhecimento e habilidade a um novato em uma atmosfera de disciplina, compromisso e responsabilidade. luz da necessidade inerente da obra de mentor ou do ministrio de discipulado no cristianismo, parece melhor trabalhar com vistas a um modelo de mentor focando textos primitivos, principalmente do Novo Testamento, que amplamente mostram Jesus e Paulo mentoreando homens logo no incio do movimento cristo.12 A parte restante deste captulo se ocupar em oferecer um modelo cristo primitivo da obra de mentor que tambm prover um cenrio de fundo histrico quanto ao exerccio dessa funo na igreja anterior ao ministrio de Agostinho. O trabalho de mentor nos escritos cristos primitivos Apesar de no existir no Novo Testamento e nos textos cristos primi tivos nenhum equivalente exato para o termo mentorear, h, porm, algu mas palavras associadas que juntas expressam esse conceito. Encontramos, por exemplo, verbos como fazer discpulos (mathteu), ensinar (didask), instruir (didax), ser sadio (hugiain), e seguir (akalouthe), e tambm substantivos, como discpulo (mathts), mestre (didaskalos), imitador (mimts) e instruo (didach). Com uma primria nfase noo de dis cpulo (mathts), consideremos as palavras chaves relacionadas com men torear, que nos falam especificamente sobre a f e a conduta prprias de um discpulo. Mathts Muito embora a expresso fazer discpulos (mathteu) aparea pou cas vezes no Novo Testamento, a ocorrncia mais significativa est, ao que 12 Alguma reflexo sobre o mentorear cristo ser extrada da obra Didache (Didaqu). 6. A G O S T I N H O C O M O M E N T O R 14 parece, na narrativa registrada por Mateus sobre a comisso final dada por Jesus aos Doze: Portanto, ide, fazei discpulos de todas as naes.13 Ao contr rio, o substantivo mathts