agenda brasileira para uma arquitetura sul-americana de defesa sob uma perspectiva militar

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  • 5/28/2018 Agenda Brasileira Para Uma Arquitetura Sul-Americana de Defesa Sob Uma Perspectiva Militar

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    II Simpsio de Ps-Graduao em Relaes Internacionais doPrograma "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP)

    16, 17 e 18 de Novembro de 2009ISSN 1984-9265

    Anais do II Simpsio de Ps-Graduao em Relaes Internacionais do Programa San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP e PUC/SP)

    Disponvel em: http://www.unesp.br/santiagodantassp 1

    AGENDA BRASILEIRA PARA UMA ARQUITETURA SUL-AMERICANA DE

    DEFESA SOB UMA PERSPECTIVA MILITAR

    MEDEIROS FILHO, OscarDoutorando em Cincia Poltica

    USP

    Apesar da ideia geopoltica de projeo continental do Brasil existir desde

    as primeiras dcadas do sculo XX (Mrio Travassos, 1935), s recentemente, nas

    ltimas duas dcadas observa-se um esforo brasileiro para levar adiante uma

    estratgia de sul- americanizao de sua agenda externa. A criao deorganizaes regionais como o Tratado de Cooperao Amaznico, o Mercosul e

    mais recentemente a Unasul tem sido vista como parte desse processo. A partir

    dessa experincia cooperativa, especialmente com a mudana paradigmtica na

    relao com a Argentina, temas de interesse militar (defesa e segurana) passou a

    compor a agenda de negociaes em mbito regional. Apesar de, ao longo dos

    primeiros movimentos nesse sentido, os acordos ligados a questes de natureza

    econmica terem recebido maior destaque, inegvel o desenvolvimentoparalelo de um processo cooperativo regional com base numa diplomacia militar,

    tema da primeira seo deste texto.

    O presente ensaio visa analisar as percepes de militares brasileiros sobre

    o processo de construo de uma arquitetura regional de defesa e segurana.

    Interessa-nos compreender como esse processo de sul-americanizao tem sido

    percebido por esses militares que, at recentemente, haviam sido doutrinados com

    base na ameaa oriunda de foras antagnicas do sul (Golbery do Couto eSilva, 1981), onde vizinhos, especialmente a Argentina, constavam em nossas

    hipteses de guerra.

    Sero analisados textos produzidos por militares brasileiros no perodo

    compreendido entre o fim da Guerra Fria e a consolidao do Conselho de Defesa

    Sul-americano (CDS), em dezembro de 2008. Dentre esse textos, merecem

    destaque: artigos publicados em revistas especializadas, como Defesa Nacional e

    Premissas; teses de oficiais concluintes da Escola de Comando e Estado-Maior do

    Exrcito (ECEME); alm de palestras e textos publicados por centros de estudos

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    II Simpsio de Ps-Graduao em Relaes Internacionais doPrograma "San Tiago Dantas" (UNESP, UNICAMP e PUC/SP)

    16, 17 e 18 de Novembro de 2009ISSN 1984-9265

    Anais do II Simpsio de Ps-Graduao em Relaes Internacionais do Programa San Tiago Dantas (UNESP, UNICAMP e PUC/SP)

    Disponvel em: http://www.unesp.br/santiagodantassp 2

    estratgicos da ECEME e do Estado-Maior do Exrcito.

    Como pano de fundo aos textos analisados, apresentaremos, na segunda

    parte deste trabalho, uma tipologia de agendas para a integrao regional

    compostas por trs modelos: a mercosulina, a brasileira e a bolivariana. Por fim, na

    quarta e ltima parte, sero discutidas as demandas que justificariam a

    institucionalizao de polticas compartilhadas de defesa e segurana na regio, tais

    como o combate ao narcotrfico e a defesa dos recursos naturais comuns, por

    exemplo. Dados preliminares nos mostram que diferentes finalidades so propostas

    para uma instituio dessa natureza, variando desde um efetivo militar regional para

    defesa coletiva at um simples espao para interlocuo de ideias entre ministrios

    de defesa.

    I. Cooperao regional: o papel da diplomacia militar

    Antes de discutirmos a dimenso poltico-militar do processo de integrao

    regional na Amrica do Sul, faz-se necessrio breves comentrios sobre o papel

    atuante dos militares como agentes de poltica externa.

    Na Amrica do Sul, os militares tm desempenhado um papel poltico central, comelevado grau de autonomia institucional. Para Flix Martin (MARTIN, 2001: 75), os

    militares sul-americanos so suficientemente poderosos para decidir

    unilateralmente se devem ou no perseguir objetivos polticos nacionais por meio do

    uso da fora externa em nvel intra- regional1.

    Por mais paradoxal que possa parecer, a identidade militar constitui fator de

    aproximao entre vizinhos2. Os padres compartilhados de carter tornam o

    1Para Felix Martin (MARTIN, 2001: 77), A anlise da histria poltica da Amrica do Sul nos ltimossessenta anos revela que a instituio militar foi capaz de tomar decises e desenvolver aespolticas independentes, em particular a de declarar a guerra. Dois so os fatores que propiciaram aosetor militar tal grau de autonomia (...). Em primeiro lugar, a instabilidade poltica e as convulsessociais fizeram com que a histria poltica destes pases seja muito fragmentria. (...) Em segundolugar, as instituies governamentais em regime democrticos tm sido tradicionalmente frgeis ecarentes de consenso geral acerca das regras apropriadas para processar os conflitos internos.Portanto, a debilidade institucional na Amrica do Sul derivou em uma organizao poltica nopreparada para satisfazer as demandas polticas do momento. Com estes elementos, a instituiocastrense se mostra como o nico setor que possui suficiente fora de organizao institucionalcapaz de enfrentar a instabilidade social, econmica e poltica da poca.2 O paradoxo proposto aqui deve-se ao trao realista que caracteriza a mentalidade militar e quepressupe Estados nacionais em competio (HUNTIGTON, 1996: 81-83). Desse trao deriva umaviso conspirativa, segundo a qual todo vizinho, independente do padro de amizade, pode

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    dilogo entre os segmentos militares mais direto e objetivo, permitindo-os, por

    vezes, atuar como agentes da diplomacia (AMARAL, 2004: 31). A amizade e

    camaradagem que tem envolvido nos encontros entre militares da regio contribui

    muito para esse dilogo3.

    A diplomacia militar na regio ganha mais relevncia quando se considera

    o fato de que a anlise da histria poltica da Amrica do Sul nos ltimos sessenta

    anos revela que a instituio militar foi capaz de tomar decises e desenvolver

    aes polticas independentes (MARTIN, 2001: 77). No contexto da Guerra Fria,

    por exemplo, as foras armadas comearam a perceberem-se umas s outras

    como membros de uma liga informal supra- nacional, envolvida principalmente na

    competio poltica pelo controle do governo em seus respectivos Estados (Idem:

    89). Na ocasio, o canal multilateral por excelncia onde essa diplomacia era

    praticada se dava por meio da Conferncia dos Exrcitos Americanos (CEA)4.

    O grau de repercusso dessa diplomacia militar parece ser to alto a ponto

    de se cogitar que a ausncia de guerras na Amrica do Sul se deve, em boa

    medida, paz armada acordos tcitos entre as Foras Armadas da regio

    (MARTIN, 2001).

    Atualmente, apesar da criao dos ministrios de defesa, do controle civil

    sobre os militares e do esforo de adaptao destes s regras democrticas, o fato

    que as es truturas militares dos pases da regio dispem de uma considervel

    transformar-se, a qualquer momento, de amigo em inimigo. Tal viso, em forte medida, ainda servede bssola aos militares da regio na orientao das decises estratgicas de seus pases.3Considerando o histrico da relao entre os militares dos exrcitos brasileiro e argentino, torna-seinteressante a declarao a seguir, realizada no incio da dcada de 1990 por um oficial da reservadodo Exrcito Brasileiro: Quanto rea militar, em que pese o ativo condicionamento profissional,influente e persistente, o fato que j perdura uma tradio de timo relacionamento, seja a nvelinstitucional e organizacional, seja mesmo em carter pessoal e familiar. No um paradoxo. maisuma decorrncia. Sou testemunha e integrante desse quadro, que aparenta ser surpreendente. Digode mim que venho mantendo timo contato com os militares argentinos, durante quase 50 anos(CORREIA NETO, 1994: 112).4 A Conferncia dos Exrcitos Americanos foi criada em 1960, um ano aps a Revoluo Cubana,por iniciativa dos EUA, com a finalidade declarada de constituir-se num frum de debates para a trocade experincias entre os exrcitos do continente. A CEA um organismo militar de carterinternacional, integrado e dirigido por exrcitos do continente americano, com autorizao dosgovernos dos seus respectivos pases. Seu objetivo no impor solues aos exrcitos americanos,mas apresentar propostas de pontos considerados de interesse comum. A CEA dispe de uma basedoutrinria e sua sede itinerante, selecionada mediante manifestao voluntria dos pases que aintegram (AMARAL, 2004: 14-15).

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