Acções Encobertas

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<ul><li><p> I nstituto </p><p>D ireito </p><p>P enal </p><p>C incias </p><p>C riminais </p><p>INSTITUTO DE DIREITO PENAL E CINCIAS CRIMINAIS </p><p>FACULDADE DE DIREITO DA UNIVERSIDADE DE LISBOA </p><p>Aces encobertas no Estado de Direito democrtico </p><p>Relatrio </p><p>II Curso Ps-Graduado de Aperfeioamento sobre </p><p>Direito da Investigao Criminal e da Prova </p><p>2010-2011 </p><p>Orientador: </p><p>Dr. Carlos Pinto de Abreu </p><p>Participante: </p><p>Diana Braga Neves do Nascimento </p></li><li><p> I nstituto </p><p>D ireito </p><p>P enal </p><p>C incias </p><p>C riminais </p><p> 2 </p><p>O que pretendo realar que tambm no combate </p><p> ao crime organizado importa assegurar o mais profundo </p><p>respeito pelos princpios e valores do </p><p> Estado de Direito Democrtico e a minha profunda </p><p> convico, quase certeza, de que o processo penal comum </p><p> geralmente bastante para reagir com firmeza contra esse </p><p> fenmeno que corri as sociedades modernas e pe em </p><p>risco o ideal democrtico. essa alis a questo </p><p>fundamental: o respeito dos princpios </p><p>fundamentais do processo penal democrtico ou o seu </p><p>abandono ou restrio, e respectiva medida, no combate ao </p><p>crime organizado. </p><p>Germano Marques da Silva </p><p>Meios Processuais Expeditos no Combate ao Crime Organizado, </p><p>Direito e Justia, vol. XVII, UCL|FD, 2003, pp. 20 </p></li><li><p> I nstituto </p><p>D ireito </p><p>P enal </p><p>C incias </p><p>C riminais </p><p> 3 </p><p>ndice Geral </p><p>ndice Geral.3 </p><p>Abreviaturas....5 </p><p>Introduo....6 </p><p>I. Problema jurdico a tratar e consideraes gerais....6 </p><p>II. Aces encobertas: noo, funes, finalidades e pressupostos de recurso7 </p><p>III. A evoluo histrica do regime legal das aces encobertas em Portugal .....8 </p><p>Parte Geral.....10 </p><p>I. Excepcionalidade e rigor acrescido na gesto e apreciao dos meios de prova </p><p>especialmente intromissivos e potencialmente desleais as legtimas </p><p>preocupaes de eficincia tm limites legais e constitucionais e no so carta de </p><p>alforria para a ilegalidade, para o desvio e para o abuso ..10 </p><p>II. As proibies de prova, a inadmissibilidade dos meios de prova proibidos e o </p><p>efeito--distncia. A funo e a importncia de uma correcta preveno, denncia, </p><p>apreciao e afirmao dos vcios para a maior qualidade e fidedignidade das </p><p>investigaes, em particular, e da Justia, em geral..13 </p><p>III. O combate criminalidade (e ao crime), e especialmente o combate </p><p>criminalidade violenta e organizada, nem sempre exige todas as medidas especiais </p><p>de investigao e de represso criminal; mas por vezes exige medidas </p><p>excepcionais porque necessrias, no sentido de imprescindveis, e eficazes, porque </p><p>orientadas para o resultado: em especial, a proteco dos agentes encobertos </p><p>atravs das regras da lei de proteco de testemunhas 19 </p><p>IV. Algumas questes fulcrais sobre as aces encobertas para fins de preveno e de </p><p>investigao criminal 23 </p><p>a) Crime em investigao e preveno criminal: em especial, a adequao e a </p><p>proporcionalidade.............................................................................................25 </p><p>b) A admissibilidade do meio e a excluso da ilicitude fundada no cumprimento </p><p>de um dever: em especial, a tipicidade fechada, a no punibilidade do crime e </p><p> os perigos a salvaguardar ...27 </p></li><li><p> I nstituto </p><p>D ireito </p><p>P enal </p><p>C incias </p><p>C riminais </p><p> 4 </p><p>c) Prvia autorizao (Magistrado do Ministrio Pblico), necessria validao </p><p>(Juiz de Instruo Criminal) e cuidada e vigilante execuo (rgos de Polcia </p><p>Criminal): em especial, o regime do controlo da operao ou da aco </p><p>encoberta e a reserva do relato da interveno do agente </p><p>encoberto..28 </p><p>d) A Conveno Europeia dos Direitos do Homem, a jurisprudncia do Tribunal </p><p>Europeu dos Direitos do Homem, a jurisprudncia nacional e a abordagem das </p><p>questes substantivas e processuais...31 </p><p>i) O caso Teixeira de Castro e as consequncias para o Direito, legislao e </p><p>jurisprudncia nacionais...32 </p><p>ii) A difcil distino entre agente provocador e agente infiltrado....37 </p><p>iii)Breve referncia doutrinria ao due process of law e lealdade </p><p>processual.38 </p><p>iv) Anlise comparativa dos regimes jurdicos em Portugal, na Europa e no </p><p>Continente Americano,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,,41 </p><p>v) Algumas consideraes sobre o quadro legal aplicvel actualmente em </p><p>Portugal ...44 </p><p>e) A concreta actividade dos funcionrios de investigao criminal e de terceiros </p><p>(agentes civis), real ou supostamente actuando sob o controlo da Polcia </p><p>Judiciria: </p><p>i) Constatao de facto e crtica do modelo - fico ou efectividade do </p><p>controlo da Polcia Judiciria em relao aos agentes civis encobertos.46 </p><p>ii) Ocultao da operao e ocultao da qualidade e da identidade do </p><p>infiltrado: o caso especial da identidade fictcia .49 </p><p>iii)A iseno de responsabilidade no pode ser uma porta aberta para a pura </p><p>arbitrariedade ou para a simples desresponsabilizao a importncia da </p><p>arguio de vcios no processo penal e o papel do Advogado 51 </p><p>Concluses..54 </p><p>ndice Bibliogrfico...59 </p></li><li><p> I nstituto </p><p>D ireito </p><p>P enal </p><p>C incias </p><p>C riminais </p><p> 5 </p><p>Abreviaturas </p><p>CEDH Conveno Europeia dos Direitos do Homem </p><p>CP Cdigo Penal </p><p>CPP Cdigo de Processo Penal </p><p>CRP Constituio da Repblica Portuguesa </p><p>EOA Estatuto da Ordem dos Advogados </p><p>JIC Juiz de Instruo Criminal </p><p>MP Ministrio Pblico </p><p>OPC rgos de Polcia Criminal </p><p>PGR Procuradoria-Geral da Repblica </p><p>PJ Polcia Judiciria </p><p>RJAEPIC - Regime Jurdico das Aces Encobertas Para Fins de Preveno e </p><p>Investigao Criminal </p><p>STJ Supremo Tribunal de Justia </p><p>TEDH Tribunal Europeu dos Direitos Humanos </p><p>TRL Tribunal da Relao de Lisboa </p></li><li><p> I nstituto </p><p>D ireito </p><p>P enal </p><p>C incias </p><p>C riminais </p><p> 6 </p><p>INTRODUO </p><p>I. Problema jurdico a tratar e consideraes gerais </p><p>O presente relatrio visa analisar as finalidades e os requisitos das aces encobertas </p><p>e a fronteira entre as figuras do agente infiltrado e do agente provocador, atendendo </p><p>sua natureza e regime estritamente excepcionais num Estado de Direito democrtico. </p><p>Tendo em conta que este trabalho deve ser eminentemente objectivo, concreto e </p><p>conciso decidimos desenvolv-lo partindo da anlise legal e jurisprudencial passando </p><p>pela doutrina e terminando cada ponto com uma tomada de posio, na tentativa de dar </p><p>um novo contributo para o estudo do tema. </p><p>Pretendemos ainda demonstrar a evoluo positiva de que esta matria tem vindo a </p><p>ser alvo e tambm as actuais fragilidades legais e, consequentemente, interpretativas </p><p>com que as autoridades judiciais, as autoridades judicirias, os rgos de polcia </p><p>criminal e os sujeitos processuais se confrontam quando se faz uso e se tm que ter em </p><p>conta as consequncia operacionais e probatrias de uma aco encoberta. </p><p>Optmos por estruturar este relatrio comeando com uma Introduo, onde </p><p>faremos o enquadramento geral do que uma aco encoberta e de como a figura se </p><p>desenvolveu nos vrios ordenamentos jurdicos, continuando com a Parte Geral, que </p><p>ser dividida em quatro pontos principais, subdividindo alguns daqueles consoante a </p><p>especificidade da matria a tratar, seguindo a Lei n 101/2001, de 25 de Agosto, que </p><p>criou o Regime Jurdico das Aces Encobertas para Fins de Preveno e Investigao </p><p>Criminal, que serviu de base a todo o nosso estudo e, por fim, terminando com as </p><p>Concluses, parte onde explicitaremos o que, no nosso humilde entendimento, </p><p>extramos da Parte Geral. </p></li><li><p> I nstituto </p><p>D ireito </p><p>P enal </p><p>C incias </p><p>C riminais </p><p> 7 </p><p>II. Aces encobertas: Noo, finalidades, requisitos e pressupostos de recurso </p><p>As aces encobertas so um meio de obteno de prova e, por isso, de aquisio </p><p>para o processo de uma prova pr-existente, contempornea ou preparatria de um </p><p>crime, visando a deteco de indcios da sua prtica1. </p><p>A sua definio est presente no artigo 1, n 2 da Lei n 101/2001 que dispe: </p><p>Consideram-se aces encobertas aquelas que sejam desenvolvidas por funcionrios </p><p>de investigao criminal ou por terceiro actuando sob o controlo da Polcia Judiciria </p><p>para preveno ou represso dos crimes indicados nesta lei, com ocultao da sua </p><p>qualidade e identidade. </p><p>Desta definio decorre, como alis o STJ escreveu2, que as aces encobertas </p><p>constituem uma medida de investigao especial, prevista para um catlogo fechado de </p><p>crimes, constantes do artigo 2 da mesma lei, de uso residual, devendo ser pensada </p><p>como ltimo meio para prevenir ou combater a criminalidade grave, com consequncias </p><p>de elevada danosidade social, que corroem os prprios fundamentos das sociedades </p><p>democrticas e abertas e para fazer frente s dificuldades de investigao em tipos de </p><p>criminalidade como so, nomeadamente, o terrorismo, a criminalidade organizada e o </p><p>trfico de droga. </p><p>Como Isabel Oneto3, entendemos que o recurso a uma aco encoberta tem de </p><p>depender da verificao de pressupostos e requisitos especficos. </p><p>Quanto ao primeiro dos pressupostos, necessrio que existam srios indcios de </p><p>que um dos crimes de catlogo foi cometido ou est em vias de ser consumado, para </p><p>alm disso, cumulativo o pressuposto que os indcios revelem igualmente que a sua </p><p>comisso se enquadra no mbito de terrorismo ou criminalidade grave ou altamente </p><p>violenta. </p><p> 1 ABREU, Carlos Pinto de, Parecer do Conselho Distrital de Lisboa da Ordem dos Advogados, Consulta </p><p>n 29/2009, pp. 1. 2 Acrdo do STJ de 20 de Fevereiro de 2003, processo n 02P4510, pp. 1 disponvel em www.dgsi.pt. </p><p>3 ONETO, Isabel, O Agente Infiltrado - Contributo para a Compreenso do Regime Jurdico das Aces </p><p>Encobertas, Coimbra, 2005, pp. 187-188. </p></li><li><p> I nstituto </p><p>D ireito </p><p>P enal </p><p>C incias </p><p>C riminais </p><p> 8 </p><p>No que se refere aos requisitos intrnsecos prpria operao entendemos que </p><p>estes tm de observar, cumulativamente: </p><p>1. O princpio da necessidade, que impe que o uso deste meio s se possa fazer </p><p>quando seja aquele o necessrio, no sentido de nico possvel para os fins </p><p>pretendidos, e no outro; </p><p>2. O princpio da subsidiariedade, nos termos do qual a aco encoberta deve ser </p><p>considerada o derradeiro meio de investigao porque o nico eficaz para combater </p><p>ou prevenir aquele crime; </p><p>3. O princpio da adequao aos fins de preveno e represso criminais em </p><p>concreto, onde tambm est o de obteno de provas, exigindo-se que o meio usado </p><p>seja o mais apto para atingir o fim especfico; e </p><p>4. O princpio da proporcionalidade em sentido estrito, ou seja, que o meio usado </p><p>seja proporcional gravidade do crime em causa. </p><p>Desenvolveremos com mais pormenor estes princpios no ponto IV, a). </p><p>III. A evoluo histrica do regime legal das aces encobertas em Portugal </p><p>A primeira referncia legal sobre esta matria no ordenamento jurdico portugus foi </p><p>feita atravs do tratamento da figura do agente infiltrado, que desenvolveremos mais </p><p>frente, em 1983, atravs do Decreto-Lei n 430/83, de 13 de Dezembro, a Lei da Droga, </p><p>cujo artigo 52 previa a no penalizao da conduta do funcionrio de investigao </p><p>criminal que mediante determinados requisitos aceitasse directamente ou por </p><p>intermdio de um terceiro a entrega de estupefacientes ou substncias psicotrpicas. </p><p>Dez anos mais tarde, o Decreto-Lei n 15/93, de 22 de Janeiro, deixou inalterado </p><p>aquele artigo 52, consagrando, porm, o regime das entregas controladas e </p><p>criminalizando o branqueamento de proventos resultantes do trfico de estupefacientes, </p></li><li><p> I nstituto </p><p>D ireito </p><p>P enal </p><p>C incias </p><p>C riminais </p><p> 9 </p><p>equiparando-o a casos de terrorismo, criminalidade violentar ou altamente </p><p>organizada. </p><p>Em 1994, a Lei 36/94, de 29 de Setembro veio alargar o recurso s aces encobertas </p><p>para os crimes de corrupo e criminalidade econmica e financeira, expandindo a </p><p>margem de actuao que at ali era dada aos agentes infiltrados e permitindo ao </p><p>Ministrio Pblico e Polcia Judiciria comear a realizar aces preventivas em </p><p>crimes desta natureza, cometidos de forma organizada, com recurso a tecnologia </p><p>informtica e a infraces econmico-financeiras de dimenso internacional e </p><p>transnacional. </p><p>A Lei n 45/96, de 3 de Setembro, veio, no seu artigo 59, dar mais um passo na </p><p>delimitao da conduta do agente infiltrado no sentido de prever expressamente a </p><p>possibilidade de aquele poder actuar no meio do trfico de estupefacientes, desde que </p><p>houvesse prvia solicitao de quem se dedicasse a tais actividades e mediante </p><p>autorizao prvia da autoridade judiciria, excepto quando esta fosse impossvel por </p><p>razes de urgncia, com a obrigao de o agente realizar o relato sobre a sua </p><p>interveno ou a de terceiro, no prazo de 48 horas aps a aco ter terminado. </p><p>Foi em 2001 que a Lei n 101/2001, de 25 de Agosto, veio consagrar o actual Regime </p><p>das Aces Encobertas para Fins de Preveno e Represso Criminal e estabeleceu no </p><p>seu artigo 2, o catlogo de crimes, que actualmente est em vigor, onde podem ser </p><p>utilizadas aces encobertas, revogando expressamente os artigos 59 e 59-A da Lei n </p><p>15/93 e o artigo 6 da Lei n 36/94. </p></li><li><p> I nstituto </p><p>D ireito </p><p>P enal </p><p>C incias </p><p>C riminais </p><p> 10 </p><p> PARTE GERAL </p><p>I. Excepcionalidade e rigor acrescido na gesto e apreciao dos meios de prova </p><p>especialmente intromissivos e potencialmente desleais as legtimas preocupaes </p><p>de eficincia tm limites legais e constitucionais e no so carta de alforria para a </p><p>ilegalidade, para o desvio e para o abuso </p><p>Dispe o artigo 1, n 1 da Lei n 101/2001 - RJAEPIC - que as aces encobertas </p><p>so para fins de preveno e investigao criminal. </p><p>Analisando, em primeiro lugar, o conceito de investigao criminal que resulta do </p><p>artigo 1 da Lei n 21/2000, de 10 de Agosto, tendemos a concordar com Fernando </p><p>Gonalves, Manuel Alves e Manuel Valente4 quando referem que este conceito mais </p><p>lato do que aquele que consta da definio legal porquanto compreende o processo de </p><p>procura de indcios e de vestgios que indiquem e expliquem e nos faam compreender </p><p>quem, como, quando, onde e porqu foi/ cometido determinado crime. </p><p>Assim, adoptamos a definio que os autores propem e segundo a qual a </p><p>investigao criminal visa descobrir, recolher, conservar, examinar e interpretar as </p><p>provas reais, assim como localizar, contactar e apresentar as provas pessoais que </p><p>conduzam ao esclarecimento da verdade material dos factos que consubstanciam a </p><p>prtica de um crime. </p><p>J quanto ao conceito de preveno, entendemo-lo previsto legalmente num sentido </p><p>estrito, como um meio que exige a adopo de determinadas medidas direccionadas </p><p>estritamente para as infraces criminais que se visam evitar e sempre tendo em ateno </p><p>o livre exerccio dos direitos, liberdades e garantias do cidado e a sua reserva da </p><p>intimidade da vida privada. </p><p>De outro modo, estaria a lei a consagrar uma vlvula de escape para uma </p><p>intromisso, no sentido de vigilncia sem controlo na vida privada dos cidados, o que </p><p> 4GONALVES Fernando, ALVES Manuel Joo, VALENTE, Manuel Monteiro Guedes, O Novo </p><p>Regime Jurdico do Agente Infiltrado, Almedina, 2001, pp. 28-29. </p></li><li><p> I nstituto </p><p>D ireito </p><p>P enal </p><p>C incias </p><p>C riminais </p><p> 11 </p><p>incompatvel com os princpios, a que j nos referimos, da necessidade, subsidiariedade, </p><p>adequao e proporcionalidade ao crime alvo de suspeita. </p><p> por este motivo que, embora no nos custe aceitar o recurso s aces encobertas </p><p>em casos em que esteja em causa terrorismo ou criminalidade altamente organizada, </p><p>pela importncia decisiva que este meio pode ter para prevenir ou combater crimes e a </p><p>leso de bens jurdicos com dignidade superior, revemo-nos na posio de Rui Pereira5 </p><p>quando es...</p></li></ul>

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